Não é preciso desligar o celular. Basta deixá-lo de lado por alguns minutos — enquanto esperamos o elevador, enquanto o café esfria, enquanto olhamos pela janela sem saber por quê. É nesses breves intervalos que algo desconfortável nos atravessa.
Uma inquietação que começa nas mãos, percorre os olhos e chega à mente como um ruído surdo: a ausência da tela nos inquieta. E não porque nos falta algo realmente importante — mas porque, sem ela, o mundo desacelera. E isso nos incomoda mais do que deveria.
O tempo fora do celular é áspero. O banheiro, o ponto de ônibus, a cama desfeita — tudo aparece sem glamour, sem trilha sonora, sem enquadramento. O real exige convivência, mas não recompensa com curtidas. O real espera. E esperar se tornou intolerável.
Percebemos então que não se trata de distração. Trata-se de vício em sua forma mais plena. Não de substância, mas de estímulo. Um vício de fluxo, de velocidade, de resposta imediata. Um vício que não bagunça os olhos, mas atropela o silêncio. E o silêncio, agora, parece agressivo.

Assim, voltamos. Sempre voltamos.
Porque é mais fácil habitar o universo moldado à nossa medida — onde tudo responde, tudo se atualiza, tudo nos envolve — do que enfrentar o mundo que não se curva ao toque.
A fissura está aí, invisível, cotidiana, disfarçada de hábito. Mas o nome verdadeiro é esse: vício.
E como todo vício, ele nos promete alívio. Mas entrega dependência.
Prof Luciano Mannarino e A.I.