Categoria: Europa

  • Irlanda do Norte segue dentro e fora do Mercado Comum Europeu.

    Acordo assinado nesta sexta (24) deixa país em situação única, atendendo a todos os lados da ‘guerra das linguiças’

    25.mar.2023 às 4h00

    Ivan Finotti
    MADRI


    A Irlanda do Norte é o novo gato de Schrödinger. Da mesma forma que aquele felino, imaginado pelo físico austríaco Erwin Schrödinger para ilustrar as incertezas da mecânica quântica em 1935, estava vivo e morto ao mesmo tempo, a partir desta sexta (24) a Irlanda do Norte está no Mercado Comum Europeu e também não está.

    James Cleverly, secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, e Maros Sefcovic, vice-presidente da Comissão Europeia, após assinarem ao acordo Quadro de Windsor, nesta sexta – Niklas Halle’n/Comissão Europeia/AFP


    O novo acordo Quadro de Windsor, proposto há um mês pelo primeiro-ministro britânico Rishi Sunak, foi formalmente assinado em uma reunião em Londres. As regras foram seladas por James Cleverly, secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, e pelo vice-presidente da Comissão Europeia, Maros Sefcovic.

    Os dois presidem o Comitê Conjunto do Brexit, organismo que supervisiona a correta aplicação da saída do Reino Unido da União Europeia (UE).

    A situação única da Irlanda do Norte tem sua origem no Brexit, que aconteceu há três anos. Na ocasião, a nação também saiu da comunidade europeia, mas, diferentemente dos demais países do Reino Unido, a Irlanda do Norte optou por permanecer no Mercado Comum Europeu.

    As diferentes legislações comerciais, tributárias e aduaneiras do Reino Unido e da União Europeia causaram, então, uma série de complicações, que podem ser mais bem entendidas usando o exemplo da “guerra das linguiças”.


    Após o Brexit, os britânicos da Irlanda do Norte não podiam mais comprar as linguiças feitas na Inglaterra. Isso porque mercadorias na categoria “produto resfriado à base de carne” só podem ser importadas pelo bloco europeu se estiverem congeladas. Como essas linguiças não eram congeladas, elas sumiram dos supermercados da Irlanda do Norte.

    A partir de agora, no entanto, os portos irlandeses terão duas faixas diferentes para o que entra ali. A faixa verde se destina a produtos para serem consumidos apenas pelo mercado irlandês, portanto, não precisa seguir a legislação europeia.

    Já a faixa vermelha é para produtos que entrarão na Irlanda do Norte e depois seguirão para a UE. As linguiças inglesas, portanto, poderão ser importadas pela faixa verde, para consumo local, mas não pela vermelha, para posterior reexportação.

    Em meio à “guerra das linguiças”, o açougueiro Kieran McAtamney exibe alguns exemplares feitos de porco em sua loja em Ballymena, na Irlanda do Norte – Paul Faith – 10.dez.2020/AFP


    “Com as medidas acordadas, respondemos, de forma definitiva, aos desafios colocados durante a implementação do Protocolo Irlandês nos últimos dois anos, bem como aos problemas cotidianos que os cidadãos e empresas da Irlanda têm enfrentado, ao mesmo tempo em que apoiamos e protegemos o acordo da Sexta-Feira Santa em todos os seus pontos”, disseram Cleverly e Sefcovic em comunicado conjunto.

    O acordo da Sexta-Feira Santa é um pacto assinado em 1998, em Belfast, que encerrou décadas de uma guerra civil entre o IRA (Exército Republicano Irlandês) e o Reino Unido, que foi responsável por 3.700 mortes.

    O documento estabeleceu a Irlanda do Norte como nação oficial do Reino Unido, mas também criou o princípio de que o norte e o sul irlandeses poderão unificar a ilha, caso ambos os governos concordem nessa decisão.

    Para resolver a questão das linguiças e afins, antes do acordo assinado nesta sexta, cogitou-se fazer uma fronteira aduaneira entre as duas Irlandas, o que poderia promover abalos políticos no tratado da Sexta-Feira Santa e levar oxigênio à questão separatista. O Quadro de Windsor resolve a questão sem necessidade uma cerca entre as Irlandas —a República da Irlanda, mais ao sul, não faz parte do Reino Unido e segue normalmente na União Europeia.


    Sunak tem motivos para comemorar, uma vez que debelou nesta semana uma rebelião contra o novo acordo por seu partido Conservador. Boris Johnson e Liz Truss, os dois predecessores de Sunak no cargo de primeiro-ministro, foram dois dos 22 parlamentares conservadores que se recusaram a apoiar o documento, junto com seis do partido Unionista Democrático.

    Mas o primeiro-ministro conseguiu manter a unidade e a maioria do grupo conservador, tendo o respaldo de 515 parlamentares na votação que aconteceu nesta quarta (22).

    “A Comissão Europeia e o governo do Reino Unido reafirmaram o seu desejo de explorar plenamente o potencial do novo acordo de comércio e cooperação e de maximizar o potencial da relação UE-Reino Unido de formas que beneficiem ambas as partes”, concluiu o comunicado conjunto.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/03/irlanda-do-norte-segue-dentro-e-fora-do-mercado-comum-europeu.shtml

    Prof Luciano Mannarino

  • James Webb: por que a Agência Espacial Europeia lança seus foguetes da América do Sul

    James Webb: por que a Agência Espacial Europeia lança seus foguetes da América do Sul

    26.dez.2021 às 17h49

    BBC NEWS MUNDO

    Trata-se de um pequeno território na América do Sul continental, com apenas 83.846 quilômetros quadrados, área equivalente à de Santa Catarina.

    Mas dentro de suas fronteiras, está um dos centros espaciais mais importantes da Europa: Kourou, administrado conjuntamente pela ESA (Agência Espacial Europeia), o CNES (Centro Nacional Francês de Estudos Espaciais) e a empresa Arianespace.

    Centro Espacial de Kourou está na Guiana Francesa – Getty Images

    A Guiana Francesa, com cerca de 259.109 habitantes e uma densidade populacional muito baixa, tem papel chave na corrida espacial, não só da Europa, mas também do mundo.

    Foi dali que o James Webb, o maior telescópio espacial da história, decolou no sábado (25) a bordo do foguete Ariane 5

    Considerado o sucessor do Telescópio Espacial Hubble da Nasa (agência espacial dos Estados Unidos), o James Webb foi projetado para olhar mais fundo no universo e, como consequência, detectar eventos que ocorreram há muito tempo, mais de 13,5 bilhões de anos atrás.

    Cientistas também esperam usar suas capacidades mais avançadas para estudar a atmosfera de planetas distantes, na esperança de detectar sinais de vida.

    Com um custo de US$ 10 bilhões (R$ 57 bilhões), o James Webb, que demorou 30 anos para ser construído, é liderado pela Nasa em conjunto com a ESA.

    Webb tem como destino uma estação de observação a cerca de 1,5 milhão de quilômetros da Terra. Nessa viagem, que deve durar um mês, o telescópio vai acionar seu espelho primário de 6,5 metros de diâmetro e um escudo para proteger suas observações do cosmos da luz e do calor do Sol.

    O objetivo é obter imagens dos primeiros objetos que se formaram após o Big Bang. E tudo será administrado a partir da sala de controle localizada em Kourou. “Posso dizer que (o centro espacial europeu) tem uma das melhores localizações do mundo em termos de adequação para lançamento ao espaço”, diz Julio Aprea, um dos gerentes da missão, à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.

    A HISTÓRIA DE KOUROU

    Em 1964, a França teve que escolher um local para lançar seus satélites. O país europeu não tinha mais a Argélia, que se tornara independente em 1962.

    Quatorze locais foram analisados ​​até que os especialistas escolheram Kourou, uma cidade na Guiana Francesa localizada a cerca de 55 km da capital, Caiena, e a 500 km da linha do Equador.

    Foram muitos os aspectos avaliados, desde históricos, políticos e até técnicos. Essa região, habitada por colonos europeus desde o século 17 e que já foi um centro penal, tornou-se oficialmente um departamento ultramarino da França em 1946.

    O aspecto geopolítico é de considerável importância. Apesar de estar no nordeste da América do Sul, a Guiana Francesa é parte da França — sua língua oficial, portanto, é o francês e sua moeda, o euro. Isso simplifica as coisas.

    Finalmente, em 1975, o governo francês tomou a decisão de compartilhar seu Centre Spatial Guyanais com a recém-criada ESA.

    Mas é sua posição estratégica no mapa que é ideal para cientistas e engenheiros espaciais. Quase a totalidade do país é coberto por florestas tropicais. Isso representa uma vantagem de segurança em caso de acidentes. Tampouco é afetado por ciclones ou furacões, visto que esses são formados mais em direção ao Caribe.

    Kourou fez seu primeiro lançamento em 1968 – Getty Images

    Já a Guiana Francesa tem o litoral norte e leste banhado pelas águas do Oceano Atlântico. Ela está a um ângulo de lançamento de 102 graus, o que lhe permite realizar todas as missões espaciais possíveis.

    Aprea explica que, para lançamentos ou órbita de transferência geoestacionária, na qual está localizada a maioria dos satélites de comunicação, os foguetes têm que decolar para o leste.

    Mas em seu caminho para o espaço, o foguete “se desprende” de camadas que caem em locais não povoados. No caso da Guiana Francesa, esse lugar é sobre o oceano.

    Mas também é fácil viabilizar lançamento a órbitas polares dali, em direção ao noroeste. Essas órbitas são sincronizadas com o Sol, o que significa que o satélite posicionado nessa órbita passará sobre o mesmo ponto na Terra na mesma hora todos os dias.

    “Se o Sol está sempre na mesma posição, as sombras serão sempre as mesmas, então você pode analisar melhor as diferentes mudanças. Se em vez disso você passar pelo mesmo ponto, mas tiver posições diferentes do Sol, as sombras mudam e é muito mais difícil analisar o que você está vendo”, explica Aprea.

    Alguns dos lançamentos mais importantes de Kourou foram o primeiro deles (1968), o lançamento do foguete Europa 2 (1971), o Ariane 1 (1979, o primeiro foguete de sucesso da ESA), o Soyuz (2011) e o Vega (2012).

    EFEITO ESTILINGUE

    Outra vantagem do centro espacial europeu é o que os cientistas chamam de “efeito estilingue”. E isso ocorre justamente pela proximidade do centro espacial com a linha do Equador. O “efeito estilingue” é a energia criada pela velocidade de rotação da Terra em torno do eixo dos polos. Vale lembrar que quanto mais perto um objeto está do Equador, mais rápido ele se move.

    Isso ocorre porque um objeto que está no meio do mundo tem que girar mais rápido do que um localizado nos polos do planeta. O tempo de rotação da Terra é de aproximadamente 24 horas. Mas dependendo da latitude, a velocidade empregada para que um objeto complete a rotação nesse tempo pode mudar.

    Telescópio James Webb foi lançado de Kourou a bordo do foguete Ariane 5 – Getty Images

    A linha do Equador mede 40.075 quilômetros. Mas, à medida que avançamos em direção aos polos, a linha circunferencial fica menor, então menos velocidade é usada para completar a curva em 24 horas.

    Essa energia dá um impulso inicial para os foguetes no momento da decolagem. “Imagine dois carros que têm que acelerar até 100 km/h. Um começa a partir de 0 km/h e o outro, a partir de 30 km/h. Obviamente, o segundo chegará mais rápido. Essa é a vantagem da linha do Equador”, explica Aprea.

    Esse impulso inicial é muito útil para lançamentos espaciais, pois economiza combustível e peso. Se o lançamento for feito em outras latitudes, o efeito muda e mais combustível é consumido. Também acrescentaria um peso considerável, até centenas de quilos, o que faz “uma grande diferença”, acrescenta Aprea.

    A Guiana Francesa é território francês, compartilhando mesma língua e moedas oficiais do país europeu. – Getty Images

    “Subir e descer é muito fácil. O que dá mais trabalho é entrar em órbita porque você tem que ir muito rápido para chegar a uma velocidade tal que você fique em órbita”.

    A ESA já está desenvolvendo o foguete Ariane 6 com o qual pretende aumentar o número de lançamentos. A agência espacial francesa está preparando as instalações em Kourou para a estreia desse foguete no segundo trimestre de 2022.

    https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/12/james-webb-por-que-a-agencia-espacial-europeia-lanca-seus-foguetes-da-america-do-sul.shtml

    Questões

    É possível estabelecer semelhanças entre Kourou e o Centro de Lançamento de Alcântara? Justifique.

    Cartografia

    tópicos

  • Turquia desafia EUA e anuncia maior cooperação militar com a Rússia

    Turquia desafia EUA e anuncia maior cooperação militar com a Rússia

    Membro da Otan, país de Erdogan quer mais armas; movimento também é recado à Grécia

    30.set.2021 às 12h51

    Igor Gielow

    SÃO PAULO

    Em desafio direto aos EUA, com recado à rival Grécia e num reflexo da realidade geopolítica pós-retirada americana do Afeganistão, a Turquia anunciou o aprofundamento da cooperação militar com a Rússia.

    Na prática, o movimento significará a compra de uma segunda leva de sistemas antiaéreos S-400 e, posteriormente, a “construção de motores de aviões de combate, navios e projetos conjuntos, como submarinos”, de acordo com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

    Caça russo de quinta geração Su-57 em exibição no show aéreo Maks, perto de Moscou
    Caça russo de quinta geração Su-57 em exibição no show aéreo Maks, perto de Moscou – Dimitar Dilkoff – 20.jul.21/AFP

    Ele falava a jornalistas de seu país no avião presidencial ao voltar de uma reunião com o russo Vladimir Putin no balneário de Sochi, nesta quinta (30).

    Segundo ele, foi discutido “como impulsionar a cooperação militar a um nível superior”. Enquanto ideias de planos conjuntos são provavelmente apenas hipotéticas e geralmente retóricas, a questão dos S-400 é bem real, e o conjunto da obra representa um problema para o Ocidente.

    Na newsletter de Mundo, semanalmente, as análises sobre os principais fatos do globo, explicados de forma leve e interessante.

    A Turquia é um dos membros mais estratégicos da Otan, a aliança militar liderada pelos EUA, por ser o único que integra também o Oriente Médio.

    Da base turca de Incirlik, onde há talvez 50 bombas nucleares táticas americanas estocadas, partiram diversos ataques ocidentais nos conflitos na região nas últimas décadas.

    Em 2018, a Turquia anunciou que iria comprar o poderoso S-400, considerado um dos mais eficazes sistemas de defesa aérea do mundo. Os EUA protestaram, mas Erdogan foi em frente e, em 2019, começou a receber sua encomenda de US$ 2,5 bilhões (R$ 13,65 bilhões, na cotação atual).

    Ato contínuo, os americanos desligaram Ancara do programa de desenvolvimento do caça de quinta geração furtivo ao radar F-35, já com 4 de 30 aviões prontos para entrega aos turcos, que iriam produzir partes da aeronave dentro da cadeia produtiva internacional do modelo.

    Veículo militar russo (cinza) lidera comboio com turcos na província síria de Hasakeh
    Veículo militar russo (cinza) lidera comboio com turcos na província síria de Hasakeh Delil Souleiman – 14.jul.2021/AFPMAIS 

    Erdogan já havia gasto US$ 1,4 bilhão (R$ 7,64 bilhões) no projeto e negocia reparações. A alegação americana era a de que operar o S-400 no mesmo ambiente que o F-35 poderia revelar ao sistema russo eventuais fragilidades do caça americano.

    O problema colocado é a suspeita americana de que poderia haver algum tipo de acesso a essas informações pelos russos, que ajudam os turcos a operacionalizar os sistemas.

    A Otan também chiou, dado que a aliança preza pela interoperacionalidade dos sistemas de armas que emprega, para ter unidade em caso de conflito justamente com a Rússia.

    O corolário da situação, de que o clube teria acesso ao funcionamento de uma arma temida do adversário, foi convenientemente esquecido no debate. Mais grave, os EUA aplicaram sanções econômicas à Turquia no fim de 2020, como punição pela aquisição.

    A questão maior, claro, é política. Desde 2014, quando Putin anexou a Crimeia para evitar que a derrubada do governo pró-Kremlin em Kiev jogasse a Ucrânia no colo da Otan, como o país deseja até hoje, a relação entre a aliança e Moscou é a pior desde a Guerra Fria.

    Em junho, houve um grave incidente no processo, no qual um navio britânico passou por águas que a Rússia considera suas perto da península anexada no mar Negro e foi recebido com tiros reais de advertência e bombas jogadas por caças. Isso na esteira de uma quase volta do conflito na Ucrânia.

    De seu lado, Erdogan tem ampliado a posição de independência ante a um Ocidente do qual desconfia, em especial depois que os EUA se recusaram a extraditar o acusado de inspirar o golpe de Estado frustrado que sofreu em 2016.

    Caças Sukhoi Su-27 disparam flares em exibição aérea
    Caças Sukhoi Su-27 disparam flares em exibição aérea Serguei Karpukhin /ReutersMAIS 

    Nesse balé entra Putin, com quem a Turquia tem uma complexa relação de disputa e cooperação. Os países, que quase foram às vias de fato por apoiar lados diferentes na guerra civil Síria, hoje mantêm uma tensa ação conjunta por lá.

    Já na Líbia, as diferenças continuam, com acusações mútuas. No Cáucaso, em 2020, Erdogan jogou alto ao apoiar com armas e logística a ofensiva azeri que derrotou a Armênia, aliada russa, e reconquistar parte das perdas territoriais que Baku havia sofrido nos anos 1990.

    Os russos intervieram de forma relutante, dado que o então governo armênio não era muito simpático a Putin, e saíram como garantidores da paz, ainda instável. Mas uma nova realidade regional se mostrou.

    A indústria militar turca tem feito notáveis avanços, com, por exemplo, uma ampla família de drones. O Bayraktar-TB2 fornecido aos azeris é visto como um dos fatores do sucesso na guerra do ano passado.

    Mas, até por ser uma potência média, Ancara enfrenta problemas com desenvolvimentos mais ambiciosos. Planeja seu próprio caça de quinta geração, para substituir os 260 F-16 que seriam paulatinamente trocados pelos F-35.

    Agora, ao falar em cooperação em motores de caça, na realidade namora a ideia de comprar equipamentos russos que já lhe foram ofertados antes. Seriam modernos e bem-sucedidos caças Su-35 e talvez até modelos de quinta geração Su-57, com acidentada carreira, ou o planejado Sukhoi Checkmate.

    Já a questão dos submarinos pode introduzir modelos diesel-elétricos da classe Kilo nos estaleiros de Gölcük, que há anos produzem modelos alemães sob licença. Ancara opera 12 submarinos. Mas esse é um plano menos tangível a essa altura. Há também a rival histórica turca Grécia, que, assim como a Turquia, faz parte da Otan e com quem tem diferenças na bacia do Mediterrâneo.

    Casa bombardeada durante a guerra em Stepanakert, capital de Nagorno-Karabakh
    Casa bombardeada durante a guerra em Stepanakert, capital de Nagorno-Karabakh Cassiana Der Haroutiounian/FolhapressMAIS 

    Nas últimas semanas, o governo em Atenas anunciou um pacote de compras militares da França: três fragatas e ampliação de um pedido de caças avançados Rafale para 24 unidades, tudo ao custo de € 6,8 bilhões (R$ 42,97 bilhões).

    A posição turca reflete também novos tempos. A retirada americana do Afeganistão, deixando o frágil governo fantoche do país à mercê da retomada do poder pelo Talibã, foi lida em todos os cantos como um recado sobre o comprometimento de Washington com seus aliados.

    Na semana passada, Erdogan, que tem uma política externa audaciosa e que não limita cartas militares, deixou isso claro. “No futuro, ninguém vai poder interferir no tipo de sistemas de defesa que nós vamos adquirir”, afirmou à rede americana NBC.

    Já o Departamento de Estado respondeu em nota, afirmando que “nós exortamos a Turquia a não manter o sistema S-400 e a não comprar nenhum outro equipamento militar russo”.

    Não parece que deu muito certo, colocando do mesmo lado russos e turcos, que têm interesses estratégicos divergentes, mas pragmatismo de sobra.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/09/turquia-desafia-eua-e-anuncia-maior-cooperacao-militar-com-a-russia.shtml

    Questão

    1) Explique o último parágrafo do texto.

    2) O que é OTAN e como ela surgiu?

    3) Por que a ascensão do Talibã no Afeganistão preocupa Ancara?

    4) Aponte um elemento que vem adiando a entrada da Turquia na UE.

    5) De que forma a presença de bombas atômicas americanas no território Turco se liga ao contexto da Guerra Fria?

    6) Qual a relação que a Guerra Civil na Síria tem com a “Primavera Árabe”?

    Prof Luciano Mannarino

    A GEOPOLÍTICA DO PÓS GUERRA (vídeo e atividades)

  • Após um ano de ausência, portugueses voltam às ruas para celebrar Revolução dos Cravos e fim da ditadura

    Chaimite (veículo blindado) é uma das atrações do desfile de Lisboa | Foto: S. Couvreu

    Giuliana Miranda

    Impedidos de comemorar nas ruas a Revolução dos Cravos em 2020,  quando estava em vigor o primeiro lockdown contra a Covid-19, os portugueses puderam, neste ano, voltar às celebrações presenciais.

    Embora ainda com restrições, distanciamento e máscaras obrigatórias, o 25 de abril, que marca os 47 anos do fim da ditadura do Estado Novo, foi festejado em todo o país.

    Festa nacional e feriado, a data também foi celebrada com uma sessão especial no Parlamento e um discurso do Presidente da República.

    A manifestação mais emblemática, na av. da Liberdade, em Lisboa, voltou a acontecer. Ainda que os organizadores não tenham incentivado a participação presencial, muitas pessoas fizeram questão de acompanhar o tradicional cortejo.

    O dia ensolarado e quente –contrariando a previsão do tempo, que antevira uma tempestade– parece ter motivado os portugueses a também desconfinarem a participação cívica.

    Desfile do 25 de abril voltou às ruas de Lisboa em 2021 | Foto: S. Couvreur
    Desfile do 25 de abril voltou às ruas de Lisboa em 2021 | Foto: S. Couvreur

    O público na manifestação lisboeta, como de costume, foi um mix de faixas etárias, incluindo muitos idosos, estudantes, jovens trabalhadores e famílias com crianças.

    Um detalhe: neste ano, estava mais difícil conseguir comprar o cravo que é símbolo da festa. Talvez por não terem botado fé no quórum do desfile, os tradicionais vendedores de flores não davam conta da demanda.

    Muitas famílias com crianças estiveram presentes em Lisboa | Foto: S. Couvreur
    Muitas famílias com crianças estiveram presentes em Lisboa | Foto: S. Couvreur

    O desfile é marcado pela participação de delegações de várias cidades e associações, que costumam ostentar faixas que condenam o fascismo e exaltam a democracia. Além, é claro, de reivindicações como melhores salários e melhores cuidados de saúde.

    Muitos brasileiros participaram da manifestação e houve críticas ao governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Em vários momentos do desfile, manifestantes entoaram o coro “Bolsonaro genocida”, em referência à gestão da pandemia no Brasil.

    Brasileiros também participam do 25 de abril | Foto: S. Couvreur
    Brasileiros também participam do 25 de abril | Foto: S. Couvreur

    A REVOLUÇÃO

    Em 25 de abril de 1974, um movimento de sublevação nos quartéis portugueses ganhou as ruas e levou à queda de uma das mais longas ditaduras do século 20.

    Inaugurado por António Oliveira Salazar em 1933, o chamado Estado Novo durou 41 anos, período marcado por repressão, pobreza e uma sangrenta guerra colonial.

    Em 1968, Salazar sofreu um acidente e ficou incapacitado para continuar no comando do país. Foi substituído por Marcello Caetano, que já ocupara vários ministérios no regime de exceção. Salazar morreria em 1970, mas o regime que criara seguia em funcionamento.

    Com a adesão das tropas e da população ao movimento revolucionário, Marcello Caetano anunciou sua rendição no início da noite do próprio dia 25 de abril.

    O antigo autocrata partiu para o exílio no Brasil, vivendo no Rio de Janeiro e trabalhando como professor universitário. Ele morreu em 1980, sem jamais retornar a Portugal.

    Questões

    Relacione Revolução dos Cravos e a independência da Angola e de Moçambique na África.

    Crise do Clima “Portugal”

    DESIGUALDADE GLOBAL (ÁFRICA DO SUL)

    Prof Luciano Mannarino

  • Portugal precisa confrontar seu passado colonial, diz Conselho da Europa

    Portugal precisa confrontar seu passado colonial, diz Conselho da Europa

    Queixas de discriminação racial aumentaram 50% no país, que vai inaugurar memorial às vítimas da escravidão

    REUTERS

    24.mar.2021 às 16h58

    O Conselho da Europa, principal grupo de direitos humanos da União Europeia, afirmou nesta quarta-feira (24) que Portugal deve fazer mais para enfrentar seu passado colonial e seu papel no comércio de escravos e, assim, combater o racismo e a discriminação.

    O relatório surge num momento de acirramento do debate sobre o legado colonial no país —no começo do mês, a remoção dos brasões das ex-colônias de Portugal da chamada praça do Império, pretendida pela Câmara Municipal de Lisboa, gerou uma acalorada discussão e dividiu portugueses.

    Agora, o país também se prepara para inaugurar seu primeiro memorial às vítimas da escravidão, em Lisboa. O monumento —uma fileira de palmeiras pintadas de preto— foi desenhado pelo artista angolano Kiluanji Kia Henda, financiado pela Câmara e ficará no centro da capital.

    Monumento aos Descobrimentos, na região do Belém, é um dos principais cartões-postais de Lisboa
    Monumento aos Descobrimentos, na região de Belém, é um dos principais cartões-postais de Lisboa – Lalo de Almeida – 7.nov.2017/Folhapress

    O texto, assinado pela comissária para os Direitos Humanos, Dunja Mijatović, manifesta preocupação diante do aumento do número de crimes motivados por ódio racial, visando particularmente ciganos, afrodescendentes e estrangeiros no país.

    Do século 15 ao 19, as embarcações portuguesas transportaram cerca de 6 milhões de africanos escravizados através do Atlântico, cifra maior que a de qualquer outra nação. A era colonial, que viu países como Angola, Moçambique, Brasil, Cabo Verde e Timor Leste sujeitos ao domínio português, é frequentemente citada como motivo de orgulho. Atualmente, no entanto, a forma como a escravidão costuma ser abordada nas escolas tem sido questionada.

    “São necessários mais esforços para Portugal reconhecer as violações de direitos humanos no passado para combater os preconceitos racistas contra afrodescendentes, herdados de um passado colonial e do comércio de escravos”, disse o Conselho da Europa em seu relatório.

    Dia da Revolução dos Cravos na pandemia

    Homem dá um cravo a moradora de Benfica
    Homem dá um cravo a moradora de Benfica Patricia de Melo Moreira/AFP

    Em 2020, as queixas de discriminação racial aumentaram 50% no país, atingindo a marca de 655 denúncias. Segundo a secretária de Estado para a Igualdade, Rosa Monteiro, entretanto, esse número provavelmente está abaixo da taxa real de incidentes, uma vez que muitos casos não são registrados.

    “Nossa narrativa histórica é como uma ferida muito séria que não foi tratada adequadamente. E, para curá-la, temos que conversar sobre o que aconteceu”, disse Monteiro à agência de notícias Reuters, acrescentando que o governo está preparando um plano nacional de combate ao racismo.

    Episódios crescentes de racismo incluem uma passeata com referências ao movimento racista Ku Klux Klan, com máscara e tochas, em frente à sede da ONG SOS Racismo, em Lisboa, organizada pelo Resistência Nacional, grupo de extrema direita nacionalista. Esse mesmo grupo enviou emails com ameaças de morte a dirigentes de ONGs e a três deputadas de partidos de esquerda.

    Portugal planeja realizar, ainda neste ano, seu primeiro censo sobre origem étnica. Segundo dados do serviço de fronteira, havia, em 2019, cerca de 103 mil africanos oficialmente residentes no país. Os brasileiros lideram o ranking de maior comunidade de imigrantes, com 151 mil pessoas.

    Edgard Marcondes, 32, com a esposa Geisa, 32, e o filho Bento, 2, na Praia da Marinha, no Algarve, em Portugal. "Se eu fosse o Super-Homem, o racismo no Brasil seria minha kriptonita", diz
    Edgard Marcondes, 32, com a esposa Geisa, 32, e o filho Bento, 2, na Praia da Marinha, no Algarve, em Portugal. “Se eu fosse o Super-Homem, o racismo no Brasil seria minha kriptonita”, diz Arquivo pessoal

    O Conselho da Europa também expressou preocupação com o crescimento da direita populista no país, destacando o partido Chega, liderado pelo deputado André Ventura

    Amparando propostas como a castração química de pedófilos e a pena de morte, além da defesa de que não existe racismo em Portugal, o Chega conquistou não apenas o voto antissistema, mas também o de eleitores descontentes com o restante da direita no país.

    Ventura também fez comentários públicos contra Mamadou Ba, um dos principais ativistas do movimento antirracismo no país, que no mês passado foi alvo de uma petição pela sua deportação após chamar um oficial colonical, morto recentemente vítima de Covid-19, de sanguinário. Marcelino da Mata era o mais condecorado militar do exército português.

    “Não estamos tentando reescrever a história, estamos dizendo que a história que contamos hoje não é suficiente”, disse Ba em um protesto no domingo (22). “Queremos uma história que represente todos os portugueses.”​

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/03/portugal-precisa-confrontar-seu-passado-colonial-diz-conselho-da-europa.shtml

    Questões

    Aponte no texto reflexos das grandes navegações portuguesas na atualidade.

    Prof. Luciano Mannarino