Categoria: Vegetação

  • Seca no cerrado é a pior em pelo menos 7 séculos.

    Seca no cerrado é a pior em pelo menos 7 séculos.

    Aquecimento na região central do país tem sido cerca de 1°C acima da média global

    29.jun.2024 às 8h07

    Maria Fernanda Ziegler

    AGÊNCIA FAPESP

    Estudo conduzido por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e publicado na revista Nature Communications indica que a seca no cerrado brasileiro é sem precedentes, pelo menos nos últimos 700 anos.

    Segundo os autores, o aquecimento global na região central do país tem sido mais intenso, sendo o aumento das temperaturas cerca de 1°C acima da média global, que é de 1,5°C.

    A condição tem gerado um distúrbio hidrológico: a temperatura próxima ao solo está tão quente que uma parte significativa da água da chuva evapora antes de se infiltrar no terreno. A anomalia traz diversas consequências, como mudanças no padrão de chuva, que está mais concentrada em poucos eventos, e menor recarga nos aquíferos, o que pode afetar o nível dos rios tributários do rio São Francisco.

    Solo de argila quebrado, com vegetação baixa ao fundo
    Solo seco em Correntina (BA), no cerrado – Lalo de Almeida – 15.mar.2024/Folhapress

    Para chegar a essa conclusão, o trabalho apoiado pela Fapesp e pela National Science Foundation, dos Estados Unidos, revisou os dados de temperatura, vazão, precipitação regional e balanço hidrológico da Estação Meteorológica de Januária —uma das mais antigas de Minas Gerais, com registros iniciados em 1915— e os correlacionou com as variações da composição química de estalagmites de uma caverna no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, situada no mesmo município.

    “Com o uso de dados geológicos foi possível expandir a percepção da seca causada pelo aquecimento global para um período bem anterior ao dos registros meteorológicos. Dessa forma, conseguimos fazer a reconstituição do clima até sete séculos atrás”, afirma Francisco William da Cruz Junior, professor do Instituto de Geociências (IGc-USP) e um dos autores do estudo, que foi liderado por Nicolás Strikis, do mesmo instituto.

    “Isso permitiu não somente provar que o cerrado está mais seco, mas que a origem dessa seca tem relação com o distúrbio do ciclo hidrológico causado pelo aumento da temperatura induzida pela atividade humana na emissão de gases do efeito estufa.”

    “A mensagem é que não há paralelo com a seca que estamos vivenciando atualmente. É importante frisar que identificamos uma tendência de aumento da temperatura que começa nos anos 1970, mas o fato é que ainda não atingimos o pico de aquecimento. Portanto, a expectativa é que esse fenômeno piore ainda mais”, informa Cruz à Agência Fapesp.

    A Caverna da Onça, onde foram coletados os dados químicos das estalagmites, é diferente das demais estudadas pelo grupo, porque é aberta e localizada no fundo de um cânion com 200 metros de profundidade e está sob influência da variação de temperatura externa. Fica localizada no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu e serve de hábitat para uma onça, daí o nome.

    Parque Nacional Cavernas do Peruaçu

    Formação geológica conhecida como carste, no Parque Nacional do Peruaçu (MG), que abriga patrimônio arqueológico
    Formação geológica conhecida como carste, no Parque Nacional do Peruaçu (MG), que abriga patrimônio arqueológico Araquém Alcântara/Divulgação/Instituto EkosMAIS 

    “Trata-se de um trabalho inédito, pois geralmente estudamos cavernas em um ambiente fechado, com a circulação de ar muito restrita e a temperatura estável ao longo do ano. A conexão da Caverna da Onça com o clima externo nos permitiu avaliar que a seca também altera a química das formações rochosas de cavernas [espeleotemas]”, explica.

    “O aumento da evaporação causada pelo maior aquecimento diminui a recarga de água que alimenta os gotejamentos na caverna. Foram essas mudanças químicas na rocha, associadas à evaporação da água, que nos mostraram que estamos vivenciando uma seca sem precedentes.”

    INOVAÇÃO

    O trabalho integra um projeto de pesquisa que visa reconstituir a variabilidade do clima e das mudanças climáticas durante o último milênio por meio de registros de formações rochosas que ocorrem dentro de cavernas e anéis de crescimento de árvores.

    “A nova metodologia e a validação dos dados do nosso trabalho abrem caminho para que mais estudos em outras cavernas, de outras regiões e biomas, sejam realizados. Com esse tipo de abordagem será possível ter uma reconstituição do clima do país de uma forma mais precisa”, afirma.

    Geralmente, os estudos geológicos utilizados para fundamentar a teoria do aquecimento global são feitos a partir de amostras de testemunhos de gelo [retiradas de geleiras nos polos]. “A inovação do nosso estudo está em utilizar os dados químicos de espeleotemas para identificar variações dos ciclos hidrológicos e associá-los às mudanças geradas pelo aumento da temperatura nos trópicos”, explica Cruz.

    O grupo também tem conduzido estudos de paleoclima com base em árvores fósseis encontradas no mesmo parque nacional, trabalho realizado em parceria com um grupo de biólogos que integra o projeto temático.

    “São fósseis de umburanas encontrados dentro das cavernas e que ficaram protegidos da luz por mais de 500 anos. Somando os resultados do nosso estudo com o que está sendo realizado nas árvores fósseis, obtivemos dados independentes sobre esse mesmo fenômeno”, conclui.

    Questionário.

    Qual é a principal descoberta do estudo conduzido por pesquisadores da USP e publicado na revista Nature Communications?


    Como o aquecimento global tem afetado a região central do Brasil, segundo o estudo?


    Quais são as consequências do distúrbio hidrológico causado pelo aquecimento global no cerrado?


    Qual é o impacto da seca no padrão de chuva e nos aquíferos da região?


    Que dados foram utilizados para reconstituir o clima de até sete séculos atrás?


    Quem são os principais autores do estudo e qual é sua afiliação acadêmica?


    Por que a Caverna da Onça, onde os dados foram coletados, é considerada diferente das demais estudadas pelo grupo?


    O que o estudo sugere sobre a tendência futura de aquecimento e seca no cerrado?


    Tente responder a essas perguntas com base no texto, e podemos revisar suas respostas juntos!

    Qual é o período de tempo que o estudo indica ser a seca no cerrado brasileiro sem precedentes?

    a) Nos últimos 100 anos
    b) Nos últimos 200 anos
    c) Nos últimos 500 anos
    d) Nos últimos 700 anos


    De quanto foi o aumento das temperaturas na região central do Brasil em comparação à média global?

    a) 0,5°C
    b) 1°C
    c) 1,5°C
    d) 2°C


    Qual é a principal consequência do distúrbio hidrológico causado pelo aumento da temperatura no cerrado?

    a) Aumento na quantidade de chuvas
    b) Evaporação da água da chuva antes de se infiltrar no solo
    c) Diminuição da temperatura próxima ao solo
    d) Aumento no nível dos rios


    Quais dados foram correlacionados com as variações da composição química de estalagmites para reconstituir o clima?

    a) Dados de precipitação e balanço hídrico de rios da região
    b) Dados de temperatura, vazão, precipitação regional e balanço hidrológico
    c) Dados de temperatura média global e índice pluviométrico
    d) Dados de temperatura e umidade relativa do ar


    Qual é a principal mensagem do estudo quanto à tendência de aquecimento na região?

    a) A tendência de aumento de temperatura começou no século XIX.
    b) Já atingimos o pico de aquecimento.
    c) A tendência de aumento de temperatura começou nos anos 1970, e ainda não atingimos o pico de aquecimento.
    d) A seca atual não tem relação com o aquecimento global.


    Essas perguntas são voltadas para avaliar a compreensão do texto de forma objetiva. Se precisar de mais alguma coisa, estou aqui!

    Qual é o período de tempo que o estudo indica ser a seca no cerrado brasileiro sem precedentes?

    a) Nos últimos 100 anos
    b) Nos últimos 200 anos
    c) Nos últimos 500 anos
    d) Nos últimos 700 anos

    De quanto foi o aumento das temperaturas na região central do Brasil em comparação à média global?

    a) 0,5°C
    b) 1°C
    c) 1,5°C
    d) 2°C

    Qual é a principal consequência do distúrbio hidrológico causado pelo aumento da temperatura no cerrado?

    a) Aumento na quantidade de chuvas
    b) Evaporação da água da chuva antes de se infiltrar no solo
    c) Diminuição da temperatura próxima ao solo
    d) Aumento no nível dos rios

    Quais dados foram correlacionados com as variações da composição química de estalagmites para reconstituir o clima?

    a) Dados de precipitação e balanço hídrico de rios da região
    b) Dados de temperatura, vazão, precipitação regional e balanço hidrológico
    c) Dados de temperatura média global e índice pluviométrico
    d) Dados de temperatura e umidade relativa do ar

    Qual é a principal mensagem do estudo quanto à tendência de aquecimento na região?

    a) A tendência de aumento de temperatura começou no século XIX
    b) Já atingimos o pico de aquecimento
    c) A tendência de aumento de temperatura começou nos anos 1970, e ainda não atingimos o pico de aquecimento
    d) A seca atual não tem relação com o aquecimento global

    https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2024/06/seca-no-cerrado-e-a-pior-em-pelo-menos-7-seculos-aponta-estudo.shtml

    Prof Luciano Mannarino

  • Mata atlântica tem crescimento histórico de desmatamento

    Mata atlântica tem crescimento histórico de desmatamento

    24.mai.2022 às 22h00

    Phillippe Watanabe

    SÃO PAULO
    A mata atlântica, o bioma brasileiro mais devastado, está vivendo um momento que parecia que não iria se repetir em sua história: um grande crescimento do desmatamento.

    A destruição na mata atlântica saltou 66% em 2020-2021, em comparação ao período anterior (2020-2019). É o maior aumento percentual registrado desde o início do monitoramento, em 1985 (até 2010 os dados eram divulgados e englobavam um período de cinco anos).

    No período de 2020-2021, foram derrubados 21.642 hectares do bioma, que mantém somente pouco mais de 12% de sua cobertura original. É o maior valor desde 2015/2016, quando era de 29.075 hectares.

    Os dados são de relatório da ONG SOS Mata Atlântica e do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) lançado na noite desta terça-feira (24).

    Metade da foto tem uma floresta em pé, a outra uma floresta escurecida, queimada
    Vista aérea de área desmatada no município de Rio Vermelho, em Minas Gerais – 20.mai.2022 – Douglas Magno/SOS Mata Atlântica.


    “Estamos andando para trás”, afirma Luis Fernando Guedes Pinto, diretor de conhecimento da SOS Mata Atlântica e coordenador do Atlas Mata Atlântica, o projeto que anualmente levanta as áreas desmatadas no bioma.

    Na última semana, em um sobrevoo por áreas de Minas Gerais que tinham registros de desmate no ano passado, a equipe da SOS Mata Atlântica flagrou novas derrubadas em curso —que, pela questão da data, não entram nos dados citados na reportagem.

    “Imagens horríveis. Aquelas imagens da Amazônia. A gente tem que lembrar que estamos falando da mata atlântica, de uma região mais rica, com maior governança. Deveríamos estar falando exclusivamente de restauração e estamos falando de coisas desse nível [desmatamento]. É uma reversão total de agenda”, diz Guedes Pinto.

    Os resultados são vistos como surpreendentes e preocupantes. Ao todo, 15 estados apresentam alta de desmatamento —somente 2 tiveram redução.

    Apesar do crescimento generalizado, três estados concentram mais de 80% da destruição registrada. Minas Gerais, líder de desmate, levou ao chão 9.209 hectares de floresta. Em segundo lugar, a Bahia derrubou 4.968 hectares. O Paraná fecha a lista com 3.299 hectares derrubados. Todos eles tiveram aumentos de destruição superiores a 50% em relação ao período anterior. Em Minas, o salto chegou a 96%.

    Até mesmo estados que se aproximavam de desmatamento zero (quando os dados não passam de 100 hectares no ano) apresentaram crescimento na destruição, caso de São Paulo, Sergipe e Rio de Janeiro. O estado fluminense, por exemplo, antes estava abaixo dos 100 hectares, mas agora teve um aumento de 95% na supressão de matas.

    A única explicação para um aumento generalizado como esse, segundo Guedes Pinto, seria uma visão antiambiental que se espalhou pelo país.

    “São praticamente quatro anos de uma cultura de antifloresta, de negacionismo da ciência e de desmonte da política ambiental. E uma expectativa de impunidade, de ataque à legislação ambiental no Congresso e de atos administrativos do governo federal”, afirma o especialista. “Até atacaram a Lei da Mata Atlântica. Não podemos esquecer do despacho do [Ricardo] Salles.”

    Guedes Pinto se refere a um despacho assinado pelo então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em 2020, que acabava por anistiar proprietários rurais que destruíram mata atlântica. Esse documento reconhecia como áreas consolidadas (sem necessidade de recuperação) as APPs (Áreas de Preservação Permanentes, como margens de rios) desmatadas e ocupadas até julho de 2008.

    O despacho, posteriormente revogado por Salles, seguia um parecer da AGU (Advocacia-Geral da União), feito após pressões da CNA (Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil) e do agronegócio do sul do país.

    “A mata atlântica tem uma lei especial, tem uma governança mais robusta e existe uma segurança jurídica nessas áreas. Não era esperado que a gente chegasse nessa condição. Os resultados mostram que esse contexto institucional nacional acaba contaminando as pessoas e elas tomam a decisão de desrespeitar a lei, de ir para a ilegalidade e abrir novas áreas, infelizmente”, afirma o coordenador do Atlas.

    DESMATAMENTO E AGRONEGÓCIO
    Minas Gerais e Bahia, ambos com áreas grandes contínuas de desmatem, formam uma espécie de bloco de fronteira de derrubada da mata atlântica. Nesses locais, a destruição é ligada ao agronegócio, segundo Guedes Pinto.

    O Paraná é outro com desmate ligado ao agro. Ali, porém, a floresta é comida, aos poucos, com pequenas derrubadas, pelas bordas.

    A dinâmica de desmate continua diferente em outros locais, como São Paulo e Rio de Janeiro, onde as supressões são, costumeiramente, ligadas a pressões urbanas e imobiliárias.

    O coordenador do Atlas alerta que a ideia do relatório não é apontar legalidade ou não de supressões de vegetação. Mas as informações que se têm sobre autorizações para desmatamento no país indicam que o que predomina são desmates ilegais.

    Segundo dados do MapBiomas, mais de 90% dos desmatamentos do bioma têm indícios de ilegalidade.



    Vale ressaltar ainda que o monitoramento é focado em fragmentos maduros de mata, ricos em biodiversidade e biomassa. Portanto, desmatamentos nessas áreas acabam tendo um impacto ainda maior.

    “A gente voltar a ter desmatamentos contínuos nesse patamar de 20 mil hectares é uma tragédia ambiental”, diz Guedes Pinto, que relembra que, segundo a lei da Mata Atlântica, supressões no bioma só podem ser autorizados se forem de interesse público ou com propósito social.

    O bioma chegar a um ano eleitoral com essas taxas de desmate também é algo preocupante, considerando que, em anos de eleição, a derrubada ilegal costuma crescer na mata atlântica.

    Nesses anos, diz o especialista da ONG, o diálogo e a cobrança sobre entes públicos muitas vezes se tornam mais complicados, considerando as mudanças que ocorrem internamente, com pessoas deixando a posição para a disputa de cargos eletivos.

    A destruição da mata também pesa sobre outro ponto que tem crescido nos últimos anos no Brasil: as emissões de gases-estufa. O atlas aponta que o desmatamento registrado na mata atlântica no período 2020-2021 jogou na atmosfera 10,3 milhões de toneladas de CO2 equivalente (medida que soma os gases de efeito estufa).

    O país é parte do Acordo de Paris, que busca reduzir drasticamente as emissões de gases para conter o aumento da temperatura global. O desmatamento e o agronegócio são os principais responsáveis pelas emissões brasileiras.

    O QUE DIZEM AS SECRETARIAS DE MEIO AMBIENTE
    A Folha entrou em contato com as secretarias de meio ambiente dos estados com maiores níveis de desmatamento e com a secretaria de São Paulo.

    Somente a Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente ​paulista respondeu até a conclusão da reportagem.

    Em nota, ela afirma que “a metodologia utilizada pela SOS Mata Atlântica não considera áreas licenciadas e com a devida compensação, de acordo com a legislação ambiental vigente, inclusive para obras de interesse público”.

    Segundo o órgão, no relatório anterior da ONG, metade dos hectares de derrubada apontados para o estado tinha licenciamento pela agência ambiental e medidas compensatórias.

    “Vale lembrar que São Paulo continua com um dos menores índices de desmatamento do país e uma área de mata atlântica de 5,4 milhões de hectares”, diz a nota, que ressalta que ainda analisará os dados presentes no relatório.

    A Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais afirmou que combate diariamente o desmatamento ilegal. Segundo o órgão, o desmate sem autorização teve redução de 9% em áreas de mata atlântica no estado no período 2020/2021.

    A secretaria mineira aponta que há diferenças entre a metodologia que segue e a do Atlas da Mata Atlântica. Além disso, diz que o SOS Mata Atlântica não considera áreas restauradas.

    “Na avaliação do IEF [Instituto Estadual de Florestas], tais pontos interferem no quantitativo de supressão total da vegetação no período. Minas Gerais é o estado que possui a maior área remanescente de Mata Atlântica do país, com cerca de 12,8 milhões de hectares. Além da fiscalização crescente contra o desmatamento, o Governo de Minas adota ações de prevenção, conservação e restauração do Bioma”, diz a nota enviada à reportagem pela secretaria de Minas Gerais.

    https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2022/05/mata-atlantica-tem-crescimento-historico-de-desmatamento.shtml

    Prof Luciano Mannarino

  • Matopiba: Nova fronteira agro do país lidera em desmate e expulsa moradores.

    Carlos Madeiro

    Colunista do UOL

    13/08/2022 04h00Atualizada em 13/08/2022 19h01

    Apontada como nova fronteira agrícola do país, a região do Matopiba —sigla que envolve o Cerrado dos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia— se tornou o principal motor do desmatamento do país nos últimos anos, devido à expansão do agronegócio. A disputa por terras tem ainda pressionado comunidades tradicionais, expulsando alguns povos da região.

    Com 73 milhões de hectares, o Matopiba responde por aproximadamente 10% da produção de grãos e fibras no país, com destaque para soja, milho e algodão. Em 2021, foi responsável por 23 de cada 100 km² desmatados no país —um recorde para a área.

    Transcerrado, rota de escoamento da produção do Matopiba

    Segundo o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), atualmente essa é a região que mais cresce, em área plantada, em todo o Brasil. A previsão do governo é que chegue a 8,9 milhões de hectares até o final de 2030. Essa expansão do agro está ocorrendo à custa de grande parte da vegetação nativa da região, levando a área a ser hoje o principal vetor de alta do desmatamento no país.

    Segundo o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil, do MapBiomas Brasil, quase um quarto (23,6%) do desmatamento no Brasil em 2021 ocorreu no Matopiba: 391 mil hectares desmatados. O número é 14% maior em relação a 2020. Ao analisar somente o Cerrado, vê-se que a área dos quatro estados representa 73% do desmatamento do bioma. “Nessa região, existe uma conversão de áreas para pecuária e agricultura que acontece muito mais rápido do que em outras regiões do país”, diz Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, citando uma predominância da soja na lavoura.

    Segundo ele, 5,1 milhões de hectares já estão mapeados com pontos de desmatamento no Matopiba. Nem 10% do território tem áreas de conservação ou preservação. “Lá não tem muitas unidades de conservação, é muito carente”, diz.

    Cerrado tem sido a área mais desmatada do país nos últimos dois anos Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil

    Histórico e avanço.

    A região do Matopiba começou a ser explorada pelo agronegócio na década de 1980. Mas foi a partir de 2005 que grandes fazendas de monocultura investiram na região. Segundo Juarez Mota, professor da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), o Matopiba tem sofrido um “impacto severo” do agronegócio.

    “A gente se volta muito à Amazônia e esquece que temos outros biomas tão importantes, como o Cerrado”, diz. Ele critica a posição antagônica dos EUA e da Europa sobre o desmatamento nacional. “Eles falam tanto da proteção da Amazônia, mas são os maiores desmatadores por meio de fundo de investimento, principalmente dentro desse eixo”, afirma.

    Ele diz que fundos de investimentos internacionais estão comprando fazendas e colocando ações na Bolsa para investir na área. “A questão ambiental tem sofrido com a forma bastante agressiva do agronegócio. E a supressão da vegetação nativa, segundo estudos, tem relação com o clima e a realização de eventos extremos.

    Antes eles eram raros, e agora estão se tornando cada vez mais normais”, afirma. Um exemplo disso foram as chuvas na Bahia entre o final de 2021 e o início deste ano, consideradas as mais intensas na região sul e sudeste do estado.

    “Quando se faz a supressão da vegetação, o equilíbrio hidrológico é muito afetado. O solo e as águas são muito impactados, e as consequências estão aí, com as tragédias das chuvas.

    ” Vista aérea do município de Balsas, no Maranhão Imagem:

    Povos relatam drama.

    A coluna conversou com líderes nas áreas que têm sofrido pressão e perda de territórios. Muitos, porém, não quiseram expor seus nomes, com medo de represálias. Segundo Renato Krahô, líder do povo Krahô-akaywrá no Tocantins, como a sua comunidade não vive em uma terra demarcada, o povo que vive na aldeia Takaywrá sofre com o avanço do agronegócio. “Isso afeta a nossa vida social e ambiental. Somos coagidos, ameaçados”, relata.

    O problema chamou a atenção ao ser um dos julgados, em julho, no Tribunal Permanente dos Povos, que analisou casos do Cerrado brasileiro. Ao todo, foram 15 julgados (veja aqui quais). Eles lutam pela demarcação de seu território e, assim como os Krahô Kanela vivem em 7.000 hectares, disputando uma outra parte que ainda permanece em posse dos fazendeiros. Renato diz que o modo de vida no local depende da água, seja para tirar o sustento, navegar ou para consumo humano e animal.

    “Hoje somos privados de navegar por causa das barragens que estão sendo construídas para uso particular das fazendas”, afirma. Outro ponto citado é a poluição das águas. “Os peixes estão contaminados, além de muitas espécies já estarem em extinção, devido ao uso excessivo de agrotóxicos. Nem a água que a gente bebeu por séculos é mais confiável”, reclama.

    Matopiba tem sua área dividida assim:

    Tocantins – 37,95%

    Maranhão – 32,77%

    Bahia – 18,06%

    Piauí – 11,21%

    Ao todo, são 337 municípios e 73,1 milhões de hectares (51% da área dos quatro estados)

    Até 2021 existiam na área:

    324 mil estabelecimentos agrícolas

    46 unidades de conservação 35 terras indígenas

    36 quilombolas

    1.053 assentamentos de reforma agrária

    Fonte: Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária)

    Para Martin Mayr, coordenador da ONG Agência 10envolvimento e diácono da Diocese de Barreiras, o que as comunidades defendem é a regularização fundiária, por meio de processos como reconhecimento de territórios de indígenas e quilombolas.

    “Estamos falando de áreas que pertencem ao Estado, mas que foram griladas. São as comunidades tradicionais que arcaram com o ônus disso porque eles tinham a sua posse lá antes da chegada desses negócios.”

    Martin Mayr, coordenador de ONG

    O conflito de propriedade e posse tem ido parar muitas vezes na Justiça. Para ele, o Judiciário tem “costume de privilegiar os grileiros”. “Temos muitas vezes casos em que esses povos perderam suas terras: 50%, 60%, 70% de seus territórios. Alguns perderam tudo no oeste baiano. Isso não ocorria antes. Até os anos 1970, havia terra para todos”, lamenta.

    Para Amanda Silva, assessora da Agência 10envolvimento e integrante do Cáritas Regional Nordeste 3, com o avanço do agronegócio e o poder de seu dinheiro, as comunidades tradicionais —como indígenas, ribeirinhas e quilombolas— acabaram se envolvendo em conflitos por terra e por água.

    “Essas comunidades habitam esse Cerrado há muitas gerações, mas a expansão dessa agricultura de larga escala —que necessita de grandes áreas desmatadas— foi usurpando seus territórios e pressionando-as a utilizarem apenas os vales”, diz.

    Ela cita que ainda existe o uso da violência para expulsar moradores. “Em qualquer imagem de satélite, você perceberá que os chapadões, que eram áreas de solta para o gado, hoje praticamente estão ocupados pelo agro”, afirma.

    “As comunidades têm tentado resistir, mas existe um grande custo. Percebe-se um índice considerável de pessoas deprimidas, o êxodo de jovens das comunidades, a presença de agrotóxicos e a inviabilização de seus modos de vida tradicionais.”

    Amanda Silva, assessora.

    https://notícias.uol.com.br/colunas/carlos-madeiro/2022/08/13/avanco-agro-no-matopiba-expulsa-povos-e-responde-por-23-do-desmate-no-pais.htm

    Prof Luciano Mannarino

    Domínio do Cerrado

  • Na Amazônia, 20% das bacias sofrem alto impacto de atividades humanas

    Na Amazônia, 20% das bacias sofrem alto impacto de atividades humanas

    EM13CHS304

    Analisar os impactos socioambientais decorrentes de práticas de instituições governamentais, de empresas e de indivíduos, discutindo as origens dessas práticas, selecionando, incorporando e promovendo aquelas que favoreçam a consciência e a ética socioambiental e o consumo responsável.

    EM13CHS306

    Contextualizar, comparar e avaliar os impactos de diferentes modelos socioeconômicos no uso dos recursos naturais e na promoção da sustentabilidade econômica e socioambiental do planeta (como a adoção dos sistemas da agrobiodiversidade e agroflorestal por diferentes comunidades, entre outros).

    Projeto usou dados de estudos relacionados a hidrelétricas, rodovias, agropecuária e garimpo

    Phillippe Watanabe

    SÃO PAULO

    Pelo menos 20% das microbacias da Amazônia sofrem alto impacto de atividades ou infraestruturas que ocorrem ao seu redor, como hidrelétricas —principal agente de pressão—, mineração e garimpo ilegal, estradas e agropecuária.

    Essa é a conclusão de um novo índice, o IIAA (Índice de Impacto nas Águas da Amazônia), criado pela Ambiental Media, com apoio do Instituto Serrapilheira e participação de pesquisadores.

    O índice faz parte do projeto Aquazônia, lançado nesta quinta-feira (5).

    O IIAA vai de 0, que significa impacto muito baixo, até mais de 5, para classificação de impacto extremo.

    Águas amazônicas divididas por pedras, formando o que parecem ser pequenos rios
    Pedrais na região da Volta Grande do rio Xingu, área de influência da hidrelétrica de Belo Monte – 29.ago.2018 – Lalo de Almeida/Folhapress

    Foram analisados dados de hidroeletricidade, exploração mineral, hidrovias, agropecuária, degradação florestal, cruzamentos de rios com estradas, área urbana e mudanças climáticas em 11.216 microbacias da Amazônia Legal.

    Dessas, 2.299 apresentam um impacto tido como alto pelo IIAA.

    O top cinco de áreas mais impactadas —e, dessa forma, com números mais altos no índice— tem presença de bacias com hidrelétricas. São elas: a do Madeira, que tem a hidrelétrica Canaã, em Rondônia; a do Tapajós, com a hidrelétrica Braço Norte, em Mato Grosso; a do Xingu, região da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará; a do Tapajós, com a hidrelétrica Paranorte, em Mato Grosso; e a do Madeira, novamente, com a hidrelétrica Jamari, em Rondônia, mais uma vez.

    Filtrando pelas microbacias com impactos alto, muito alto ou extremo, cerca de 50% —o que representa 1.146— estão em áreas de afetação de hidrelétricas. Curiosamente, 478 (21%) dessas microbacias com elevados graus de impactos sofrem, ao mesmo tempo, com a presença de mineração (ou garimpo ilegal).

    Segundo o levantamento, a bacia do rio Putumayo-Içá é o corpo d’água tributário do rio Amazonas que mais sofre com mineração, com impacto em 63% do percurso.

    O índice também aponta a situação em unidades de conservação e em terras indígenas. Nas primeiras, cerca de 23% (ou 77) possuem índice de impacto alto —dez estão em Rondônia. No caso da áreas indígenas protegidas, 14% (53) têm índices de impacto altos, muito altos ou extremos.

    Na Amazônia, um bioma em que a agropecuária é conhecida como vetor de desmatamento e queimadas, logicamente a atividade também teria impactos considerável em algumas regiões.

    Segundo os dados do projeto, as bacias (todas tributárias do rio Amazonas) Curuá-una, Guamá e Pacajá estão em áreas totalmente impactadas pelo agronegócio.

    As bacias dos rios Tocantins e Xingu não estão muito atrás: 98% da área de ambas sofre impacto dessa atividade econômica.

    Vale destacar que, apesar de contar com a participação de pesquisadores, o índice não tem a intenção de ser científico. Thiago Medaglia, fundador da Ambiental Media e coordenador do projeto, afirma que se trata de uma iniciativa baseada em ciência, mas ainda assim um trabalho de cunho jornalístico.

    Medaglia diz que a ideia do projeto surgiu ao se dar conta de que, ao falar de Amazônia, o foco é quase sempre e exclusivamente a floresta.

    “Quando a gente fala em desmatamento temos cenas chocantes da floresta sendo desmatada ou conseguimos mensurar via satélite”, afirma o idealizador do Aquazônia. “Mas quando falamos de água é mais difícil que isso seja, de alguma forma, medido e percebido.”

    Daí surgiu a ideia de um índice que pudesse passar uma percepção do que está acontecendo com as águas amazônicas.

    Olhar para as águas desse bioma e de outros é algo relevante, especialmente em um contexto de mudanças climáticas. Dados do MapBiomas Água, apontam um país que seca. O Brasil perdeu, de 1991 até 2020, cerca de 15,7% da superfície de água que possuía, o equivalente a 3,1 milhões de hectares. O Pantanal teve redução de 74% da superfície de água, e a Amazônia, de cerca de 13%.

    Mas, voltando ao IIAA, para se fazer um índice, são imputados determinados pesos para diferentes elementos que o compõem. As hidrelétricas tiveram o maior peso, explicando, assim, o motivo de áreas mais impactadas serem, em geral, próximas a essas estruturas.

    Segundo Cecília Gontijo Leal, consultora científica do Aquazônia e pesquisadora da USP, isso não é à toa. “Uma hidrelétrica é uma alteração completamente drástica em um curso d’agua”, afirma. “Não tínhamos dúvida. O consenso é que hidrelétricas e barramentos são o que pode acontecer de mais drástico em um rio.”

    Apesar de o impacto dessa forma de geração de energia não ser algo necessariamente surpreendente, algumas surpresas surgiram. Gontijo Leal aponta que, pelo índice, é possível ver que, quando há hidrelétricas, outros fatores de impacto se somam, aumentando o peso dessa estrutura na equação.

    “Um impacto pode potencializar os efeitos de outro e, nos sistemas biológicos, está tudo muito interligado”, afirma a pesquisadora.

    Gontijo Leal e Medaglia questionam os licenciamentos individualizados das hidrelétricas, sem uma avaliação integrada com outras dessas estruturas e considerando efeitos cumulativos. “Licenciar uma por uma é muito fácil”, diz a cientista.

    Segundo o coordenador do Aquazônia, é preciso tomar cuidado com a máxima de que hidrelétricas são sempre soluções positivas. “Não é que não pode construir usina, mas é construir com estratégia, o que precisa englobar não só a produção de energia, como também serviços ecossistêmicos e os processos naturais dos rios. Tem vários estudos que demonstram que os estudos de impacto deveriam ser melhores e podem ser melhores. Existem métricas para isso.”

    Apesar de o mapa aquático dos impactos na Amazônia já estar bem colorido, os dados do projeto ainda não estão completos. Mas isso por falta de informações confiáveis e de qualidade para pontos como pesca e contaminação por agrotóxicos.

    Um dos objetivos da iniciativa, inclusive, é ajudar a trazer ao debate público a necessidade de mais dados sobre a saúde dos rios da Amazônia e as lacunas científicas e legislativas relacionadas ao assunto, diz Medaglia.

    “São dados importantes que precisaríamos incluir, mas eles não existem. O índice deve estar subestimando o que acontece”, diz Gontijo Leal.

    A pesquisadora da USP faz ainda outra ressalva. O IIAA aponta somente a distribuição das ameaças. Ou seja, não foi feita uma análise qualitativa das águas das bacias da Amazônia ou os possíveis impactos sobre a biodiversidade local, por exemplo.

    Folha enviou questionamentos para os ministérios do Meio Ambiente, de Minas e Energia, de Infraestrutura, para a Ana (Agência Nacional de Águas) e para a ANM (Agência Nacional de Mineração).

    Somente a Ana respondeu até a publicação desta reportagem. A agência afirma que ainda não tomou conhecimento do índice e que, no “processo de emissão da outorgas de direito de uso de recursos hídricos para águas da União (interestaduais e transfronteiriças), a Ana considera condicionantes ambientais do Ibama ou do respectivo órgão ambiental competente”.

    https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2022/05/na-amazonia-20-das-bacias-sofrem-alto-impacto-de-atividades-humanas.shtml

    Questões

    1. Explique o contexto político e econômico da criação da ANA (Agencia Nacional de Águas).

    2. Aponte impactos ambientais ligados as seguintes atividades na Amazônia:

    • Construção de rodovias
    • Construção de Hidrelétricas
    • Garimpo
    • Mineração
    • Agropecuária

    3. O que são microbacias hidrográficas?

    4. Como se formam os “rios voadores”? E qual o seu papel nos climas do Sudeste e Centro Oeste do Brasil?

    ‘Rio voador’, o fenômeno que ajuda a explicar as tempestades de verão no Brasil

    Domínio Amazônico

    Amazônia: soberania e direito amazônico

    Prof Luciano Mannarino

  • O difícil caminho para o nosso Everest amazônico (EM13CHS306/302 – EFGE05)

    EM13CHS302
       Analisar e avaliar criticamente os impactos econômicos e socioambientais de cadeias produtivas ligadas à exploração de recursos naturais e às atividades agropecuárias em diferentes ambientes e escalas de análise, considerando o modo de vida das populações locais – entre elas as indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais -, suas práticas agroextrativistas e o compromisso com a sustentabilidade.
    EM13CHS306
    Contextualizar, comparar e avaliar os impactos de diferentes modelos socioeconômicos no uso dos recursos naturais e na promoção da sustentabilidade econômica e socioambiental do planeta (como a adoção dos sistemas da agrobiodiversidade e agroflorestal por diferentes comunidades, entre outros).

    EF06G05
    Relacionar padrões climáticos, tipos de solo, relevo e formações vegetais

    Volta das excursões ao ponto mais alto do país pede preparo físico e psicológico

    8.abr.2022 à 0h05

    Ainda nos bancos escolares aprendemos que o Brasil não tem montanhas altas por tratar-se de território mais antigo cujos maiores picos sofreram mais milhões de anos de erosão que os de outras freguesias, lembram? Há até hoje intensa discussão entre acadêmicos que questionam se podemos ou não chamar de montanhas o que, na verdade, seriam apenas montes, morros, qualquer coisa longe da imponência de cordilheiras como a dos Andes ou a do reverenciado Himalaia, essas, sim, incontestavelmente dignas de serem chamadas de montanhas.

    Mas enquanto especialistas não resolvem se temos ou não montanhas para chamar de nossas, um grupo de montanhistas conta ansioso os dias para seguir até o cume mais alto do Brasil —o pico da Neblina, a exatos 2.993,78 metros de altitude segundo medição mais recente confirmada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) com a ajuda de satélite. Ou Yaripo, ” montanha do vento”, como o chamam reverentemente os índios da etnia yanomami, moradores e donos do pedaço cobiçado por garimpeiros.

    Vista de drone do Pico da Neblina com grupo-piloto no cume – Marcos Amend -6.jun.17/Folhapress

    E é para o Pico da Neblina, ou Yaripo, que acaba de ser reaberta a possibilidade de acesso a turistas muito especiais: aqueles que têm condicionamentos físico e psicológico suficientes para encarar não apenas os perrengues habituais de uma subida, mas a jornada até sua base pelas trilhas barrentas da floresta amazônica em um Toyota velho, mais sete horas de “voadeira”, a canoa com motor de popa tradicional na região, até o coração do Parque Nacional do Pico da Neblina, dentro da Terra Indígena Yanomami. De lá, depois da bênção dos yanomamis, começa a subida. Ao todo, são de sete a dez dias de jornada, dependendo do fôlego dos participantes e das condições meteorológicas..

    Magno Souza, da Roraima Adventures, no centro, com os yanomamis que abençoam a expedição ao Pico da Neblina (Yaripo).

    A aventura não é mesmo para qualquer par de pernas e uma mochila cheia de boa vontade. O empresário Magno Souza, dono da Roraima Adventures, de Boa Vista (RR), especialista em experiências amazônicas como a subida ao monte Roraima, conta que começou a articular a operação do acesso ao pico da Neblina em 2007. Só em 2009 conseguiu subir pela primeira vez, depois de muita conversa com os yanomami, a Funai e o Ibama.

    “Só que, de repente, já em 2010, aquilo tinha virado a casa da mãe Joana, muita gente começou a querer explorar o acesso sem experiência e sem respeitar a cultura e os costumes dos yanomamis, e o Ministério Público proibiu de vez o acesso”, conta ele. O isolamento iria até 2015, quando a Funai publicou instrução normativa regulamentando o turismo em áreas indígenas. Retomadas as conversas, acabaram sendo autorizadas três operadoras que se responsabilizariam pela organização da jornada, indicadas pelo pioneiro Souza. “Não queríamos monopólio, mas precisávamos de gente que conhecesse o meio, as dificuldades específicas da região”, explica ele. Além da Roraima Adventures, estão credenciadas como operadoras a Amazon Emotions e a Ambiental Turismo.

    De conversa em conversa, a primeira expedição-piloto, realizada em parceria da Roraima Adventures e da Amazon Emotions, levou dez visitantes-cobaias para o topo, em 2017, incluindo um repórter da Folha. Estava tudo preparado para dar início aos pacotes em março de 2020 —mas aí veio a pandemia e, com ela, a suspensão de toda a programação.

    Expedição ao Pico da Neblina (Yaripo).  Magno Souza, fundador da Roraima Adventures COM  índios yanomami
( Foto: Divulgação ) *** FOTOS NO MAXIMO 4 COLUNAS ***
    Expedição ao Pico da Neblina (Yaripo). Magno Souza, fundador da Roraima Adventures COM índios yanomami ( Foto: Divulgação )

    Só há poucos dias, mais exatamente em 17 de março passado, a primeira turma de dez turistas saiu de São Gabriel da Cachoeira (AM) em direção ao Parque Nacional. Desses, dois ficaram pelo caminho.

    NA FLORESTA, O MAIS PREVISÍVEL É O IMPREVISTO

    “O impacto da floresta, da alimentação e da cultura tão diferente dos yanomamis, que acompanham os grupos em todo o percurso, forçaram dois dos membros do grupo a desistir já no segundo dia da expedição”, relata Souza. “Eles reconheceram não terem condição psicológica para enfrentar uma trilha de tanta dificuldade, e saíram a tempo”, acrescenta.

    No site das operadoras e agências parceiras é alertado sem meias tintas que se trata de uma trilha de alta dificuldade. Pessoas que estejam com mais de 10 kg acima do chamado “peso ideal” devem passar por uma entrevista antes de fechar o pacote. E quem tem problemas de joelhos, coluna ou qualquer tipo de enfermidade crônica ou psicológica só deve se dirigir ao guichê da agência depois de consultar um médico. A coisa ali é séria.

    “Não é exagero, é cuidado e responsabilidade”, ressalta Souza, lembrando que se trata de uma jornada na qual, por mais que a equipe de apoio se esforce para cuidar de acampamento, alimentação, transporte, primeiros socorros e, até comunicação por satélite para emergências, “o mais previsível é sempre o imprevisto”. E o imprevisto, em um lugar tão distante de tudo, pode ser uma grande encrenca, quando não acabar em morte.

    Mas, então, por que alguém iria querer se meter em tamanho desafio? Bom, em primeiro lugar vem sempre a célebre resposta que o alpinista britânico George Mallory deu ao repórter do The New York Times que lhe perguntou, em 1924, por que queria tanto subir ao topo do Everest (jornada, por sinal, na qual morreria): “Porque está lá”. Pois nada como saber que algo “está lá”, desafiando nossas habilidades, para forçar o primeiro passo à frente.

    Só que tem mais que perrengues, segundo Souza, que acompanhou esse primeiro grupo da retomada: “Nada pode relatar a intensidade do que se sente ao chegar ao pico depois de tantas dificuldades, muita chuva, frio, calor, umidade, a floresta, o rio, tantas experiências diferentes seguidas sem trégua”, suspira esse mato-grossense de Campo Grande com o sorriso de quem, aos 60 anos recém-cumpridos, não vê a hora de voltar a subir.

    https://www1.folha.uol.com.br/blogs/e-logo-ali/2022/04/o-dificil-caminho-para-o-nosso-everest-amazonico.shtml

    Prof Luciano Mannarino

    Na Amazônia, 20% das bacias sofrem alto impacto de atividades humanas

    Formações Vegetais do Brasil