Categoria: Ásia

  • Por que é tão difícil prever um grande terremoto como o que atingiu a Turquia?

    Milhões de tremores, de diferentes intensidades, ocorrem todos os anos, mas não notamos todos eles

    6.fev.2023 às 19hs

    BBC NEWS MUNDO

    Todo ano são registrados oficialmente mais de 200 mil terremotos em nosso planeta, apesar de, na verdade, milhões deles ocorrerem nesse mesmo período.

    Muitos passam ao largo dos registros oficiais porque são demasiadamente leves para que possamos senti-los ou porque acontecem em zonas remotas que não são monitoradas pelas autoridades.

    Outros, como o de magnitude 7,8 que atingiu e deixou vítimas na Turquia e na Síria nesta segunda-feira (6), deixam milhares de mortos e um rastro de destruição.

    Pessoas próximas a prédios que desabaram na cidade de Kahramanmaras, na Turquia
    Pessoas próximas a prédios que desabaram na cidade de Kahramanmaras, na Turquia – Agência Ihlas News via Reuters

    Construir casas e edifícios à prova de terremotos é, evidentemente, a melhor estratégia para evitar tanto perdas humanas quanto materiais. Mas seria possível retirar moradores com antecedência de áreas que serão afetadas —como acontece durante a passagem de um furacão, por exemplo? A resposta é não. Isso porque é impossível prever quando um terremoto vai acontecer —salvo por alguns minutos.

    LEI FÍSICA

    A razão é que a maioria dos terremotos ocorre pela liberação repentina de uma grande tensão na crosta terrestre. Essa tensão vai se acumulando gradualmente devido aos movimentos das placas tectônicas, normalmente ao longo de uma falha geológica, explica o site da British Geological Survey.

    Por isso, é impossível prever quando os terremotos vão ocorrer, “basicamente pela forma como essa energia é liberada”, afirmou à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, Richard Luckett, sismólogo da instituição. “Sabemos que a tensão está sendo acumulada nas grandes falhas e sabemos onde elas estão, mas não temos como saber quando essa energia será liberada”, diz.

    Luckett recorre ao exemplo que usa para explicar o fenômeno às crianças. “Se você puser um tijolo sobre uma lixa e lentamente retirá-la com algo, o tijolo vai se mover. Você pode repetir esse experimento dez vezes: embora aplique todas as vezes a mesma força, verá que o tijolo vai se movimentar repentinamente depois de diferentes intervalos de tempo”, diz ele. “Em termos físicos, é completamente imprevisível.”

    Saber se uma placa tectônica onde um país está acumula pressão “não ajuda a prever sismos, pois não sabemos quando essa energia será liberada”, diz. O que especialistas podem indicar é onde há a chance de ocorrer um terremoto de grande intensidade, “já que eles têm relação com o tamanho da falha”.

    Menina é resgatada de escombros de prédio destruído na cidade de Jandaris, em área controlada por rebeldes sírios Rami al Sayed/AFPMAIS

    Mesmo assim, isso não contribui para prever qual será a intensidade de um terremoto, já que a pressão pode ser liberada em uma série de pequenos tremores ou em um grande e único abalo.

    No caso do evento que causou danos na Turquia e na Síria foram dois fortes tremores seguidos.

    SINAIS?

    Mas há outros sinais a que devemos ficar atentos? Talvez uma mudança no clima ou o comportamento dos animais podem nos ajudar a prever um terremoto? Acredita-se que os animais possam sentir as primeiras ondas geradas pelo terremoto —e que nós não percebemos.

    “Os terremotos não têm nada a ver com o estado do tempo e certamente não há uma ligação com as mudanças climáticas”, esclarece o especialista. “São sistemas completamente diferentes”, acrescenta.

    Mas, segundo ele, o caso dos animais é interessante. Há uma série de estudos sobre como alguns bichos exibem um comportamento distinto ante a iminência de um terremoto.

    Diz-se, por exemplo, que os cachorros latem mais ou que os animais de forma geral fazem mais barulho.

    Segundo Luckett, “quando um forte terremoto acontece, provoca ondas distintas que viajam através da terra. As primeiras são pequenas, não causam dano, e muitas vezes nem sequer percebemos”, explica. “Mas os animais, sim.” Ainda assim, eles não ajudam a prever um terremoto. “Os animais sentem essas vibrações, mas isso ocorre uma vez que o terremoto já aconteceu”, assegura o especialista.

    “Eles nos avisam do perigo um pouco antes [o tempo depende do intervalo entre as ondas pequenas e as grandes], assim como os alarmes. Neste sentido, os dispositivos são mais sensíveis que os animais.”

    Luckett diz não acreditar que será possível prever terremotos. “O que poderemos fazer é aprimorar nossas formas de detectá-los.”

    OUTRAS TÉCNICAS ANALISADAS

    Especialistas em geofísica têm se concentrado, entre outras áreas, nos chamados “terremotos lentos”.

    São “deslizamentos que ocorrem em uma falha geológica, em geral, e em particular nas zonas de subducção entre duas placas que estão em contato”, explica Víctor Cruz-Atienza, pesquisador do Instituto de Geofísica da Universidade Nacional Autônoma do México.

    Ele e seus colegas publicaram em 2021 um estudo sobre esse tipo de terremoto que ocorre em certas regiões sísmicas, como a do sudeste mexicano, onde duas placas interagem.

    Diferentemente dos tremores que sacodem a superfície, os terremotos lentos liberam energia pouco a pouco durante semanas ou meses, o que os torna imperceptíveis e nada destrutivos.

    Mas especialistas afirmam que estudá-los é muito importante para entender como os terremotos são gerados. Embora um tremor lento nem sempre antecipe um “normal”, é um fator a ser levado em conta.

    Em 2018, outros pesquisadores usaram com sucesso na Islândia um cabo de comunicações de fibra ótica para avaliar a atividade sísmica. O método testado pela equipe liderada por Philippe Jousset, do Centro Alemão de Pesquisas em Geociências (GFZ), com sede em Potsdam, usou 15 km de cabo de fibra ótica originalmente instalado em 1994 entre duas usinas de energia geotérmica na Islândia.

    Um pulso de laser enviado por uma única fibra do cabo foi suficiente para determinar se havia alguma interferência. Quando o solo e, consequentemente, o cabo se esticou ou se comprimiu, os pesquisadores conseguiram gravá-lo. Eles detectaram o tráfego local, a atividade sísmica e até mesmo os pedestres que passavam. Também captaram o sinal de um forte terremoto na Indonésia.

    O instrumento que deve ser anexado a cada cabo para tornar o monitoramento possível ainda é caro, mas os pesquisadores trabalhavam em alternativas acessíveis.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/02/por-que-e-tao-dificil-prever-um-grande-terremoto-como-o-que-atingiu-a-turquia.shtml

    Questões


    Com certeza! Aqui estão cinco questões sobre terremotos na Turquia:

    1. Por que a Turquia é propensa a terremotos e como sua localização geográfica influencia a atividade sísmica na região?
    2. Quais são os principais terremotos históricos que ocorreram na Turquia e quais foram suas consequências significativas?
    3. Quais são as principais falhas geológicas responsáveis pela atividade sísmica na Turquia e como elas contribuem para a ocorrência de terremotos?
    4. Quais são as medidas de mitigação de terremotos adotadas na Turquia para reduzir os riscos e impactos dos tremores de terra?
    5. Existe alguma disparidade na distribuição de recursos e assistência governamental durante os esforços de resposta a terremotos, afetando diferentemente as comunidades étnicas minoritárias?

    Prof Luciano Mannarino

    Geologia/Geomorfologia

    VÍDEO – TEORIA DA DERIVA CONTINENTAL

  • Vietnã mantém pragmatismo com EUA, mas sinaliza encanto com fórmula da China

    Líder do país comunista visita Pequim, mas mudanças econômicas podem ameaçar modelo político

    Nguyen Phu Trong, principal dirigente vietnamita, atravessou salões do Grande Palácio do Povo, em Pequim, a 31 de outubro, como primeiro líder estrangeiro recebido por Xi Jinping após o encerramento do 20º Congresso do Partido Comunista Chinês, concluído nove dias antes. A deferência iluminou prioridades e movimentos geopolíticos nos palcos global e do Sudeste Asiático.

    O Vietnã contemporâneo, ainda governado pelo Partido Comunista fundado por Ho Chi Minh (1890-1969) e com as profundas cicatrizes de um dos conflitos bélicos mais icônicos da Guerra Fria, seguiu o exemplo da China e embarcou em reformas responsáveis por engendrar uma das economias mais dinâmicas do cenário asiático.


    Iniciada em 1986 sob o nome de “doi moi” (renovação, em vietnamita), a metamorfose resultou na criação de uma “economia socialista de mercado”, rótulo oficial de um sistema alicerçado numa ousada abertura econômica acompanhada da manutenção do poder nas mãos do partido. Os vietcongues do século 21 passaram a seguir a trilha desenhada por Deng Xiaoping (1904-1997), mentor das mudanças chinesas.

    O vietnamita Nguyen Phu Trong e o chinês Xi Jinping em cerimônia em Pequim – Yao Dawei – 31.out.22/Xinhua

    Em Bancoc, poucos dias depois de seu colega secretário-geral do PC ser recepcionado por Xi, o presidente do Vietnã, Nguyen Phuc, reuniu-se com Kamala Harris, durante um fórum diplomático. Hanói sinalizava assim a manutenção da política pendular entre Pequim e Washington.

    A atual flexibilidade diplomática contrasta com a rigidez da Guerra Fria, quando o Vietnã, após o triunfo comunista em 1975, encaixou-se definitivamente na órbita soviética e proporcionou a Moscou presença em estratégicos mares do Sudeste Asiático, conexão entre os oceanos Pacífico e Índico.


    Porém, a debacle soviética, com a desintegração de 1991, levou o PC vietnamita a rever a cartilha. Prevaleceu, no plano doméstico, a opção por replicar a alquimia chinesa, enquanto na dimensão geopolítica verificou-se a aproximação com os EUA.

    Com relações diplomáticas recuperadas em 1995, no governo Bill Clinton, Hanói avançou na estratégia de engajamento com o ex-inimigo. Almejava investimentos para impulsionar a decolagem econômica. E buscava um aliado para ajudar na desafiadora tarefa de conter o aumento do peso político, econômico e militar do gigantesco vizinho setentrional chamado China.

    Rivalidades sino-vietnamitas culminaram em batalhas, por exemplo, já no século 10 d.C. Num passado recente, em 1979, uma invasão ordenada por Deng viu, ao final dos combates, os dois lados cantando vitória.


    O pragmatismo do Vietnã esmaece traumas históricos e abre espaço para laços econômicos com a China, importante parceiro comercial. E, recentemente, o viés político desponta nas relações bilaterais, com festejada reunião entre os camaradas Nguyen Trong e Xi Jinping.

    No âmbito político, o diálogo se aprofunda impulsionado por desafio comum: a manutenção do monopólio do poder nas mãos do Partido Comunista em sociedades como a chinesa e a vietnamita, cada vez mais modeladas por ascensão de classes médias e urbanização.

    E Xi certamente detalhou ao visitante vietnamita o plano de voo: incrementar as doses de autoritarismo, para evitar a perda de controle, apesar de concessões às vezes inevitáveis, a exemplo das mudanças de Pequim nas ações de enfrentamento da pandemia.

    No poder desde 2011, Nguyen sinaliza seguir os passos de Xi. A pergunta é até quando o modelo político de Hanói e de Pequim resistirá às profundas transformações sociais trazidas pelo trepidante crescimento econômico.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jaimespitzcovsky/2022/12/vietna-mantem-pragmatismo-com-eua-mas-sinaliza-encanto-com-formula-da-china.shtml

    Questões

    1 Caracterize a “economia socialista de mercado” do Vietnã.

    2 Aponte motivos que levaram a desintegração da exURSS em 1991.

    3 Por que o conflito bélico entre EUA e Vietnã se insere no contexto da Guerra Fria?

    4 Explique o título do texto jornalístico.

    5 Qual seria a sua resposta para questão que é colocada no último parágrafo do texto?

    Prof Luciano Mannarino

  • Entenda a crise entre a Rússia de Putin, a Ucrânia e as forças da Otan

    Entenda a crise entre a Rússia de Putin, a Ucrânia e as forças da Otan

    Com ameaça de uso de força, presidente russo busca impor visão estratégica no Leste Europeu

    A grave crise no Leste Europeu que opõe a Rússia de Vladimir Putin à Ucrânia e ao Ocidente, representado pela sua aliança militar, a Otan, pode trazer a guerra de volta ao solo europeu.

    Ao mesmo tempo, as negociações em torno do impasse testam duas décadas de política de Putin e talvez seu futuro político — no poder desde 1999, ele mudou a Constituição e pode tentar ficar no cargo até 2036.

    Força de reserva ucraniana treina a defesa de Kiev, capital do país, no fim de 2021
    Força de reserva ucraniana treina a defesa de Kiev, capital do país, no fim de 2021 – Serguei Supinski – 25.dez.2021/AFP

    O presidente da Rússia, que assumiu sobre as ruínas dos dez anos de crise após o fim da União Soviética, trabalhou um plano geopolítico claro. Críticos o acusam de buscar restaurar o império comunista, mas suas preocupações são as mesmas de governantes do maior país do mundo desde tempos imperiais: aumentar a distância entre seu território e os adversários, perdida quando a união caiu, em 1991.

    Há outros pontos, como a proteção de russos étnicos que ficaram para trás, e a manutenção da popularidade, que tem na ideia de uma Rússia forte um de seus pilares. O adversário, claro, é a Otan, liderada pelos vencedores da Guerra Fria, os EUA.

    Três décadas depois, o Ocidente se vê encurralado pelos russos na Ucrânia, uma crise que Putin tenta resolver com um xeque-mate — ou um ippon, para ficar no judô que aprecia. A Folha resume o caminho que trouxe os dois países com os maiores arsenais nucleares do mundo frente a frente, novamente.

    O que está acontecendo na Ucrânia agora?

    No começo de novembro, Putin deslocou mais de 100 mil soldados e equipamentos para áreas próximas, relativamente, da Ucrânia. O vizinho, os EUA e a Otan o acusaram de planejar uma invasão militar, que ele nega.

    Tanques ucranianos fazem manobras perto de Donetsk
    Tanques ucranianos fazem manobras perto de Donetsk Forças Armadas da Ucrânia – 14.abr.2021/Via Reuters

    Mas o que existe lá que interessa a Putin? 

    Em 2014, o governo pró-Rússia de Kiev foi derrubado (golpe ou revolução, depende de quem conta). Putin percebeu que a Otan e a União Europeia poderiam absorver o vizinho e agiu, promovendo a anexação da Crimeia, um território étnico russo que havia sido cedido à Ucrânia nos tempos soviéticos, em 1954. E fomentou uma guerra civil de separatistas pró-Kremlin na região do Donbass, no leste da Ucrânia, que está no centro da confusão agora.

    A ONU disse o quê? 

    Ela não reconhece a Crimeia russa.

    Alguém reconhece? 

    Apenas oito aliados do Kremlin. Mas, na prática, a anexação é vista como um fato consumado na comunidade diplomática.

    E as áreas autônomas? 

    Aqui a coisa complica. Primeiro, porque não são tão homogêneas etnicamente; segundo, porque Putin não jogou todo seu peso militar para apoiar de forma decisiva os rebeldes.

    Mas isso não o interessava?

    Anexar o Donbass seria muito mais complexo e caro, além de ter evidente custo militar e humano. A prioridade de Putin é outra: evitar que a Ucrânia, ou qualquer outro país ex-soviético, entre na Otan e, de forma talvez mais secundária, na União Europeia.

    Por quê?

    Historicamente, os russos têm o seu flanco mais vulnerável no Leste Europeu. Por isso, tanto o Império Russo quanto a União Soviética ou dominavam ou tinham aliados na região. O ocaso soviético fez com que parte desses países fosse absorvida na esfera ocidental, e em 2004 a expansão da Otan chegou a três repúblicas que eram da união: Estônia, Letônia e Lituânia. Isso foi a gota d’água para Putin.

    Mas isso não seria uma questão dos países? 

    Sim, é o que diz o direito internacional e a lógica ocidental, quando lhe interessa. Politicamente, contudo, os EUA se comportaram como vencedores pouco magnânimos da Guerra Fria, perdendo a oportunidade de atrair a Rússia para uma parceria mais estável com seus aliados europeus.

    E então Putin agiu. 

    Ele primeiro travou uma guerra em 2008 na Geórgia, um país pequeno numa região explosiva, o Cáucaso, uma das rotas históricas de invasões e guerras —no caso, contra a Turquia. Nos dias de hoje, o problema lá é a infiltração de radicais islâmicos, como as duas guerras que Moscou lutou na Tchetchênia, que faz parte de seu território, demonstraram. No caso georgiano, o então presidente do país tinha uma atitude agressiva e foi visto como imprudente ao provocar os russos, dando a desculpa para que eles atacassem em nome da minoria étnica que povoa duas áreas do país. Resultado, hoje a Geórgia não controla 20% de seu território, o que na prática impede que ela se una à Otan.

    Que é exatamente o que Putin queria. 

    Sim, e é o motivo pelo qual ele é visto como um vilão no Ocidente, pelo uso de força bruta quando acha necessário. O passo seguinte foram as ações na Ucrânia, em 2014.

    E as sanções ocidentais tiveram efeito? 

    Há uma pressão sobre a Rússia, mas especialistas se dividem sobre o real impacto, porque a resultante das sanções foi um incremento no mercado interno, o maior descolamento do sistema financeiro internacional e uma certa diversificação da economia, que ainda é dependente da exportação de hidrocarbonetos (petróleo e gás).

    E a Europa segue comprando gás russo. 

    O gasoduto Nord Stream 2, completado no ano passado, permitirá à Rússia, quando a Alemanha liberar sua operação, retirar boa parte do trânsito do gás natural que vende aos europeus por meio de velhas linhas que passam pela Ucrânia. Assim, Kiev pode perder boa parte dos US$ 2 bilhões anuais que aufere em taxas. O Nord Stream 2 e seu irmão em operação, o ramal 1, ligam a Rússia à Alemanha pelo mar Báltico. Hoje, 40% do gás que a Europa consome vem do país de Putin, e os EUA lutam para inviabilizar o gasoduto porque consideram que os europeus fazem jogo duplo.

    Por que a Ucrânia não entrou na Otan e na UE?

    Pelo mesmo motivo da Geórgia: as regras dos clubes não permitem países com conflitos territoriais ativos. Isso torna conveniente o discurso ocidental, já que ninguém quer pagar para ver em um confronto direto com a Rússia. Assim, Kiev recebe apoio e algum armamento da Otan, mas não se esperam tropas em solo para sua defesa.

    E o que acontece agora?

    Putin quer ver implementados os Acordos de Minsk 2, de 2015, que congelaram a guerra civil no Donbass. Só que eles preveem um grau de autonomia às áreas russas que Kiev não aceita. Ao deslocar tropas, insinua que pode usar a força como em 2014, o que alguns acham ser blefe.

    Por quê?

    Porque o Exército ucraniano não pode derrotar o russo, mas causar um bom estrago. E uma invasão implicaria anexação de áreas, o que custa bilhões que Putin não dispõe. Fora o risco de a Otan mudar de ideia e defender Kiev, o que arriscaria uma escalada perigosa, talvez nuclear. Não por acaso, as cinco potências atômicas se comprometeram recentemente a nunca iniciar uma guerra com essas armas.

    Tanque russo atira durante treinamento no campo de Mulino
    Tanque russo atira durante treinamento no campo de Mulino Vadim Savitski – 11.set.2021/Ministério da Defesa da Rússia/via Reuters

    O que está sendo negociado?

    Russos e ocidentais não avançaram nas negociações iniciadas em meados de janeiro para debater os termos apresentados por Putin para pacificar a região. Ele “trucou”, pedindo compromisso do fim da expansão da Otan e retirada de forças da aliança de membros que entraram após 1997, ou seja, todo o bloco que era comunista. Isso não será aceito, mas pode haver concessões pontuais e o reinício de negociações sobre a Ucrânia, o que já será vendido em Moscou como uma vitória do líder.

    E qual a resposta? 

    Até aqui, é não, mas o fato de que diversas frentes de negociações foram abertas traz a esperança de que algum avanço venha a acontecer.

    Se não der certo, pode haver guerra?

    Sim, o risco é real, embora não seja necessariamente o cenário mais provável. Putin tem na mesa opções mais drásticas e perigosas, como tentar invadir totalmente a Ucrânia e depois deixar o país sob condições de que nunca entre na Otan, ou ações mais pontuais.

    E a Otan, faria o quê? 

    Joe Biden cometeu um erro e admitiu que uma ação limitada não deveria trazer as sanções econômicas devastadoras que promete aplicar ao Kremlin em caso de invasão. Tentou corrigir, mas o estrago foi feito. Além disso, países como a Alemanha, o mais forte economicamente da Europa, são reticentes em um embate direto com Putin, explicitando o racha na aliança.

    Em frente a monumento a mortos na Segunda Guerra, noiva e sargento da Marinha Russa dançam ao som de uma banda militar, tradição local
    Em frente a monumento a mortos na Segunda Guerra, noiva e sargento da Marinha Russa dançam ao som de uma banda militar, tradição local

    E a crise recente no Cazaquistão, como se encaixa nisso?

    Há duas teorias sobre o fato de protestos legítimos contra o aumento de combustível terem quase virado uma revolução, com gente armada nas ruas. Primeiro, que foi fomentada pelo Ocidente para enfraquecer Putin. Segundo, que foi obra do Kremlin para, resolvida rapidamente, o colocar em posição de força. Seja o que for, Putin saiu fortalecido.

    Há outras implicações? 

    A crise aproximou ainda mais a Rússia da China, que deu apoio a Putin e disse que ambos os países precisam se defender juntos do Ocidente. É uma tendência que já estava colocada, mas que pode ter efeitos no futuro próximo.

    Há alguma chance de uma Terceira Guerra Mundial com a China e a Rússia de um lado, e o Ocidente, do outro? 

    Isso é especulação pura, até porque tal conflito não interessaria a ninguém e teria uma grande chance de acabar com a civilização. Ainda assim, não passou despercebido que a China reiniciou seu embate com os EUA no Indo-Pacfício, reagindo a exercícios de dois porta-aviões americanos na sua vizinhança com mais uma grande incursão aérea contra Taiwan.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/01/entenda-a-crise-entre-a-russia-de-putin-a-ucrania-e-as-forcas-da-otan.shtml

    Questões

    Quais ações de Putin podem ser consideradas uma forma de restabelecer o antigo território da Ex URSS?

    Explique o contexto histórico da criação da OTAN

    De que forma a tensão na Ucrânia se relaciona com o fim da Guerra Fria?

    Geopolítica

    Prof Luciano Mannarino

  • Coreias do Norte e do Sul restabelecem comunicação encerrada há dois meses

    Coreias do Norte e do Sul restabelecem comunicação encerrada há dois meses

    Regime de Kim Jong-un havia cortado diálogo em agosto; reaproximação ocorre após escalada de corrida armamentista

    3.out.2021 às 22h26

    SEUL | REUTERS e AFP

    As Coreias do Norte e do Sul restabeleceram seus canais de comunicação na manhã desta segunda (4, noite de domingo no Brasil), dois meses após Pyongyang encerrar a interlocução completamente.

    O anúncio foi feito em um comunicado pelo ministério sul-coreano de Unificação, segundo o qual autoridades dos dois países fizeram sua primeira ligação telefônica desde agosto.

    O ditador norte-coreano, Kim Jong-un – 29.set.21/KCNA/Reuters

    “Com a restauração da linha de comunicação Sul-Norte, o governo [de Seul] considera que se criou uma base para a recuperação das relações intercoreanas”, afirmou a pasta. Mais cedo, ao anunciar que a comunicação seria restabelecida, a agência de notícias estatal norte-coreana KCNA disse que “as autoridades sul-coreanas devem fazer esforços para colocar as relações Norte-Sul no caminho certo”

    O regime do ditador Kim Jong-un interrompeu os canais de diálogo com Seul no início de agosto, em sinal de protesto contra exercícios militares entre as Forças Armadas da Coreia do Sul e dos EUA. O corte ocorreu poucos dias após as Coreias restabelecerem as comunicações depois de um ano de silêncio.

    Bandeira da Coreia do Norte sobre multidão que compareceu à celebração do aniversário do país, em Pyongyang
    Bandeira da Coreia do Norte sobre multidão que compareceu à celebração do aniversário do país, em Pyongyang KCNA – 9.set.21/AFPMAIS 

    O gesto de reaproximação desta segunda-feira se dá em um contexto de acirramento da corrida armamentista na península coreana ao longo dos últimos meses. Em setembro, Pyongyang e Seul realizaram disparos de mísseis balísticos, em uma demonstração de algumas das armas mais sofisticadas que os países têm desenvolvido.

    A diferença entre as ações militares das duas Coreias é que os sistemas de mísseis balísticos do Norte foram alvo de sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, entidade responsável por zelar pela paz em âmbito mundial.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/10/coreias-do-norte-e-do-sul-restabelecem-comunicacao-encerrada-ha-dois-meses.shtml

    Questões

    1 De que forma a trajetória desses países se relacionam como o Mundo Bipolar do pós 2 Guerra Mundial?

    2 Por que a Coreia do Sul se tornou um “Tigre Asiático”?

    3 Explique a criação do Conselho de Segurança da ONU destacando a sua atual formação. Quais são suas principais atribuições?

    4 Por que o que aconteceu com as “Alemanhas” não aconteceu com as “Coreias” após a Era Gorbatchev?

    A GEOPOLÍTICA DO PÓS GUERRA (vídeo e atividades)

    Coreia do Norte (Resumo)

    Inundações e deslizamentos de terra na Coreia do Sul matam ao menos 26 (atividade)

    Prof Luciano Mannarino.

  • Onde fica o Afeganistão e por que geograficamente ele é estratégico para as principais potências mundiais?

    Onde fica o Afeganistão e por que geograficamente ele é estratégico para as principais potências mundiais?

    País na Ásia Central e está no foco de China e Rússia, além de outros países vizinhos. Fronteiras foram definidas por influência britânica no século 19 durante ação para barrar avanço da Rússia czarista.

    Por Felipe Gutierrez e Fábio Manzano, G1

    18/08/2021 05h01  Atualizado há 21 horas


    O Afeganistão fica na Ásia Central, encravado em uma porção de terras montanhosas geograficamente estratégica e com potencial econômico que atrai vizinhos e potências com as quais nem mesmo tem fronteiras.

    No passado, a disputa entre países do Ocidente e a Rússia forjou o desenho do mapa afegão e também marcou a trajetória de guerras envolvendo o país. Agora, o futuro do Afeganistão mobiliza as atenções sobretudo da China, da Rússia e dos EUA, mas vizinhos menos influentes globalmente, como o Irã, a Índia e o Paquistão, também disputam a influência sobre o país e seu território.

    Abaixo, em cinco tópicos, entenda a localização do Afeganistão e quais os interesses das potências mundiais:

     — Foto: G1/Arte

    1 – Localização do país e origem

    O Afeganistão é um país montanhoso, sem acesso ao mar e com um território de 652 mil km², pouco maior que o estado de Minas Gerais. Historicamente, na Antiguidade, o território que hoje forma o país já foi ocupado por diferentes povos e impérios, como a Babilônia e o macedônio de Alexandre, o Grande.

    Na história mais recente, no século 19, o Império Britânico ocupou a região e foi responsável por levar ao trono o rei Shah Shujah (1838-1842). Depois de as tropas britânicas terem sido expulsas, retornaram entre 1878 e 1880, sendo que a independência da influência britânica só ocorreu definitivamente em 1919.

    “O Afeganistão nasceu como um Estado tampão para impedir o avanço da Rússia czarista no século 19, que estava se expandindo em direção ao sul do continente asiático. Os ingleses viram isso como uma ameaça e criaram o Reino do Afeganistão como um Estado”, diz o professor Samuel Feldberg, doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP).

    2 – Independência, invasão soviética e atual interesse russo

    Atualmente, o Afeganistão faz fronteira com seis países, a metade deles aliados diretos da Rússia e ex-repúblicas soviéticas: Tajiquistão, Uzbequistão e Turcomenistão. A estabilidade dessa área, portanto, é do interesse russo.

    Desde a independência declarada, os arranjos de poder no Afeganistão sempre foram considerados instáveis. Por conta da proximidade com a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em diferentes momentos o país teve assistência militar e econômica do bloco, até que em 1979 foi invadido pelo exército soviético, em um período que já havia apoio dos Estados Unidos a grupos locais contrários aos russos. A presença soviética seguiu no país até um acordo de paz em 1988.

    Como lembra a colunista do G1 Sandra Cohen, “os EUA se envolveram no país há quatro décadas, durante a Guerra Fria, apoiando combatentes armados – os mujahedin – contra os soviéticos. O impacto do conflito desgastou a economia soviética até que o então presidente Mikhail Gorbachev anunciou a retirada total das tropas”.

    Apesar da derrota, os soviéticos continuaram a sustentar o governo afegão, liderado por Mohammad Najibullah, para conter o avanço dos rebeldes. Mas o império soviético desmoronou, a fonte secou e, em 1992, Najibullah foi destituído do poder.

    No cenário atual, a Rússia se interessa em fazer contraponto ao poder dos EUA em áreas que ela avaliar estar dentro de seu círculo de influência, sobretudo o sul da Ásia, Oriente Médio e Leste Europeu. Além disso, também tem interesse no fortalecimento do Talibã contra o Estado Islâmico (EI), já que o país sofre com terrorismo jihadista no Cáucaso. Por isso, manter o EI longe do norte do Afeganistão é importante para a Rússia.

    3 – China: interesse em minerais, contraponto aos EUA e aos jihadistas uigures

    Ainda na segunda-feira (16), a China afirmou que deseja manter “relações amistosas” com o grupo extremista Talibã, que tinha tomado o poder no Afeganistão apenas um dia antes.

    A China e o Afeganistão são países vizinhos e têm 76 quilômetros de fronteiras comum.

    Pequim incluiu, ainda em 2016, o Afeganistão em seu grande projeto de infraestrutura, as “Novas Rotas da Seda”. Mas, por falta de segurança, os investimentos chineses foram modestos no país: 4,4 milhões de dólares em 2020, segundo o ministério do Comércio.

    A China tem também interesse nos minérios do país, entre eles o cobre na região de Mes Aynak. Mas outro dos possíveis focos são as reservas de “terras raras”, que são insumos importantes nas cadeias de fabricação de produtos de altas tecnologias.

    Além do forte interesse econômico, a fronteira com o Afeganistão na província de Xinjiang é palco de atividades de grupos extremistas uigures. O receio é que jihadistas uigures presentes também no Afeganistão se fortaleçam na região, justamente porque a China vem sendo acusada de genocídio contra o povo uigur.

    E assim como a Rússia, a China também busca fazer oposição aos EUA e a retirada das tropas do Afeganistão é uma nova oportunidade para se contrapor à influência americana.

    4 – EUA: das ações contra os soviéticos à luta contra o terror

    Os EUA iniciaram sua relação com o Afeganistão há 40 anos, durante a Guerra Fria, com o apoio aos mujahedin, grupo de guerrilheiros que atuavam contra as investidas soviéticas no país. O cenário de conflito e os investimentos em armas e treinamento militar formaram um terreno fértil para a criação e ascensão do grupo extremista Talibã, que tomou o poder do país nos anos 1990.

    A interferência americana voltou a aumentar durante a chamada Guerra ao Terror, em resposta aos atentados do 11 de setembro, quando o governo talibã do Afeganistão se recusou a entregar o chefe da al-Qaeda, responsável pelos ataques, Osama Bin Laden.

    Duas décadas depois, com o retorno do grupo ao poder, os americanos temem que o país se torne um “santuário para grupos extremistas”, no entanto, outra grande preocupação é a perda de influência no território que poderá favorecer seus maiores adversários: China, Rússia e Irã.

    5 – Índia, Irã e Paquistão: o interesse de vizinhos

    Saída dos EUA do Afeganistão abre espaço para países ganharem poder no cenário geopolítico.

    Além das potências globais, vizinhos com forte expressão regional também buscam marcar posição na relação com o Afeganistão:

    • ÍNDIA: o país vê no Afeganistão um de seus principais aliados regionais, e sua localização – com uma longa fronteira com o Paquistão, com quem a Índia não tem boas relações – é vital para a segurança nacional.

    • IRÃ: Com laços estreitos com o grupo extremista, o governo iraniano foi acusado de fornecer apoio financeiro e militar ao Talibã. Além disso, especialistas alertam para a expansão da presença clandestina das Forças Quds – unidade especial da Guarda Revolucionária – no país para promover os interesses iranianos.

    “Cerca de 20% da população do país é xiita, e o principal país xiita da região, o Irã, “está preocupado com a possibilidade de associação, no Afeganistão, de grupos salafistas que atacam os xiitas”, explica Arlene Clemesha, professora de História Árabe da Universidade de São Paulo (USP).

    • PAQUISTÃO: Entre a Índia – com quem não tem boas relações – e o Afeganistão, o Paquistão vê no apoio afegão uma expansão de sua influência regional e apoio em conflitos. O país foi um dos únicos, ao lado da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, a reconhecer o Talibã quando assumiu o poder na década de 1990.

    Há uma identidade étnica de uma parte dos afegãos com o Paquistão. “A fronteira entre os dois é praticamente inexiste”, comenta Samuel Feldberg, doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP). O Paquistão usa essa proximidade étnica nos conflitos que tem com a Índia, segundo o professor.

    Quando o Afeganistão foi invadido em 2001, muitos dos membros de grupos terroristas que estavam no país acabaram encontrando refúgio no Paquistão —o próprio Osama Bin Laden foi capturado em uma cidade próxima a Islamabad, no Paquistão.

    Há mais de dez etnias no país, que falam línguas diferentes e que têm uma organização parecida com a de tribos. “Como o Estado do Afeganistão atual nasceu de um projeto colonialista, as rivalidades internas foram exacerbadas. Os grupos étnicos do Afeganistão não consideram as fronteiras entre o país e os vizinhos legítimas”, diz a professora Clemesha.

    https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/08/18/onde-fica-o-afeganistao-e-por-que-geograficamente-ele-e-estrategico-para-as-principais-potencias-mundiais.ghtml

    Questões

    1 – A intervenção dos EUA no Afeganistão se deu em dois momentos. Caracterize-os.

    2 – Analise o atual interesse da Rússia na estabilidade política do Afeganistão.

    3 – O Reino do Afeganistão foi uma “criação” dos ingleses? Justifique.

    4. A aproximação da China com o Afeganistão guarda interesses geopolíticos e econômicos?Justifique.

    Prof Luciano Mannarino