Categoria: PENSAMENTOS

Reflexões, poesia…tudo!

  • Distâncias

    Distâncias

    Há momentos em que nos deixamos ver. Não por completo — isso talvez seja impossível —, mas o suficiente para que o outro perceba algo além da superfície. É como se, por um instante, entregássemos a alguém um telescópio. De repente, aquilo que antes era difuso ganha contorno: aparecem as marcas, as nuances, as pequenas tempestades internas que, a olho nu, passariam despercebidas.

    Mas há um detalhe silencioso nisso tudo.

    Ver melhor não é estar mais perto.

    Assim como o Sol, que pode ser observado com precisão quase íntima — suas manchas, seus ciclos, suas explosões — e ainda assim permanece a uma distância inalcançável, nós também continuamos onde sempre estivemos. A nitidez não encurta o caminho. A compreensão não elimina o intervalo.

    Talvez exista uma ilusão delicada nas relações: a de que ser compreendido é o mesmo que ser alcançado. Não é. O outro pode enxergar com clareza, pode até nomear aquilo que sentimos, mas nunca ocupará exatamente o mesmo ponto de onde olhamos o mundo. Há sempre um espaço entre dois seres — não um vazio, mas um campo onde as diferenças persistem.

    No fim, não somos aquilo que o outro alcança.

    Somos aquilo que ele consegue ver — E ainda assim, algo se constrói ali.

    Prof Luciano Mannarino

  • 0 caminho até lá.

    0 caminho até lá.

    Quando eu era mais jovem, o futuro parecia um lugar aberto, esperando meus planos. Eu imaginava a aposentadoria como uma segunda juventude: aventuras, desafios, sonhos adiados. Pensava em escalar montanhas, viver paixões antigas, tocar música como se ainda houvesse algo a provar.

    Eu não entendia que o futuro não chega sozinho. Ele traz todos os anos vividos.

    O tempo não apenas passa — ele se acumula. No corpo, que aprende limites. Na mente, que escolhe melhor onde gastar energia. No coração, que separa o que é ruído do que é sentido.

    E então algo muda.

    Não é que os sonhos desaparecem. Alguns apenas deixam de ser necessários. O que antes parecia prova de vida perde urgência. Não porque a vida ficou menor, mas porque talvez a gente tenha ficado mais inteiro.

    Chega um momento em que a vontade de viver tudo dá lugar à vontade de entender o que já foi vivido. A expansão vira profundidade.

    Talvez aquele futuro cheio de façanhas nunca tenha sido um destino. Talvez fosse apenas uma luz para garantir que continuássemos caminhando. E sem perceber, a gente chega — não onde imaginou, mas onde faz sentido.

    Um lugar menos urgente.
    Menos ruidoso.
    Mas mais verdadeiro.

    Porque chega uma fase em que a conquista não é fazer mais.
    É existir dentro da própria história, com consciência e presença.

    E talvez isso não seja abrir mão de quem fomos.
    Talvez seja aceitar quem nos tornamos.

    Luciano Mannarino é Prof de Geografia e achava que iria escalar o everest depois de aposentado.

  • O encontro!

    O encontro!

    “O Encontro Invisível”

    Às vezes, vemos um carro passar.
    Rápido, apressado, como tantos outros que cruzam nosso caminho.
    No mesmo instante, um passarinho pousa no telhado de uma casa.
    Leve, quase imperceptível.

    Duas presenças tão diferentes…
    Mas, por um breve segundo, compartilham o mesmo espaço do mundo.
    E esse encontro, silencioso e improvável, poderia passar despercebido.

    Poderia.

    Mas existe quem veja.
    Quem perceba a dança sutil entre o que se move veloz e o que repousa em silêncio.
    E, ao perceber, transforma aquilo em metáfora.

    É esse olhar que dá sentido ao instante.
    É essa consciência que une o carro e o pássaro —
    como se já estivessem se procurando há muito tempo.

    Essa é a dádiva de quem habita o momento.
    De quem não está hipnotizado por uma tela,
    mas atento ao mundo que pulsa ao redor.

    Porque o mundo revela sua poesia o tempo todo.
    Mas só se mostra por inteiro a quem está… presente.
    A quem tem olhos que ligam os pontos.
    E coração para dar significado ao que parecia apenas mais um segundo qualquer.

    Prof Luciano Mannarino e A.I

  • Um idiota!!!

    Um idiota!!!

    Um Idiota!

    — Quando eu chegar, vejo isso, mas você é um idiota mesmo! Droga…

    Foi o que meu tio disse ao telefone quando contei que seu passarinho havia fugido. E, por um momento, achei que ele tinha razão.

    Minha única tarefa era ridiculamente simples: limpar a gaiola, trocar a água, repor o alpiste. Só isso. Mas, de alguma forma, deixei a portinha aberta por um instante e ele escapou.

    Deixei a gaiola encostada num canto e fui fazer outra coisa, tentando ignorar o problema. Agora, além da bronca ao telefone, eu teria que encarar meu tio pessoalmente, e já imaginava o sermão.

    Mas no fim da tarde, aconteceu algo inacreditável: o passarinho voltou. Ele entrou sozinho na gaiola.

    Sem hesitar, fechei a portinha o mais rápido possível.

    Quando meu tio chegou, viu a cena, me olhou e disse apenas para eu “tomar mais cuidado”. Como se nada tivesse acontecido.

    O passarinho viveu mais quatro anos e morreu de velhice na gaiola.

    Por muito tempo, achei que ele era um idiota. Teve a chance de ser livre e voltou para a prisão.

    Foi só depois que ele morreu que vi um velho que deixava a gaiola aberta, e sua ave saía, voava até uma árvore próxima, ficava ali por horas… e depois voltava sozinha. Sempre.

    — Como isso é possível? — perguntei, tentando entender.

    O velho sorriu e disse:

    — Confiança, meu filho. Se ele volta uma vez, volta sempre.

    O passarinho do meu tio não foi um idiota.

    Eu podia ter dado a ele o direito de ir e vir, mas fechei a portinha assim que tive a chance.

    Meu tio tinha razão.

    Prof Luciano Mannarino


  • Ateliê

    Ateliê

    Quando algo penetra em nossa mente, deixa de ser um simples evento ao se transformar em um traço de nossa própria vivência. Cada memória, cada percepção e sensação, mesmo as mais efêmeras, são como matéria-prima que podemos esculpir em formas infinitas.

    Nesse momento,  a nossa mente deixa de ser um depósito do vivido para se transformar num ateliê de possibilidades. Surge um universo tão vasto quanto o mundo externo e, muitas vezes, até mais real, pois se torna uma representação do que foi, do que é e do que escolhemos fazer com o que agora nos pertence.

    Prof Luciano Mannarino