Categoria: Geologia

  • Teoria da Tectônica de Placas: Ensino Médio

    Teoria da Tectônica de Placas: Ensino Médio

    Aula sobre a Teoria da Tectônica de Placas

    Objetivos da Aula

    Compreender os princípios básicos da Teoria da Tectônica de Placas.

    Identificar as principais placas tectônicas do globo terrestre.

    Explicar os diferentes tipos de limites de placas tectônicas e suas consequências geológicas.

    Reconhecer a simetria entre as costas dos continentes como evidência da teoria.

    Estrutura da Terra

    A Terra é composta por várias camadas:

    Crosta: A camada mais externa, composta por crosta continental e a crosta oceânica

    Manto: Dividido em manto superior (incluindo a astenosfera) e manto inferior.

    Núcleo: Composto por núcleo externo líquido e núcleo interno sólido.

    Introdução

    A Teoria da Deriva Continental

    Alfred Wegener e a Deriva Continental (1912): Wegener propôs que os continentes eram uma vez unidos em um supercontinente chamado Pangeia e que se separaram ao longo do tempo. Ele baseou sua teoria em evidências fósseis e geológicas, bem como na simetria entre as costas dos continentes.

    A Teoria da Tectônica de Placas é uma explicação abrangente para muitos dos processos geológicos que ocorrem na Terra. Esta teoria sugere que a superfície da Terra é dividida em várias placas rígidas que se movem sobre uma camada mais maleável do manto, conhecida como a astenosfera.

    Desenvolvimento da Teoria da Tectônica de Placas (1960s): Na década de 1960, a descoberta das dorsais meso-oceânicas e a compreensão da expansão do fundo oceânico ajudaram a formar a base da teoria moderna da tectônica de placas.

    Placas Tectônicas

    As placas tectônicas são fragmentos da litosfera (crosta + parte superior do manto) que flutuam e se movem sobre a astenosfera

    Principais Placas Tectônicas

    Placa Norte-Americana

    Placa Sul-Americana

    Placa Euro-Asiática

    Placa Africana

    Placa Indo-Australiana

    Placa Pacífica

    Placa Antártica

    Evidências da Tectônica de Placas

    Simetria entre as Costas dos Continentes: A correspondência entre as costas da África e da América do Sul sugere que esses continentes já estiveram unidos. Esta simetria é uma das principais evidências da deriva continental.

    Distribuição de Terremotos e Vulcões: A maioria ocorre ao longo dos limites das placas.

    Formação de Montanhas: Como os Himalaias, formados pela colisão entre as placas Indo-Australiana e Euro-Asiática.

    Distribuição de Fósseis e Rochas: Semelhanças entre continentes hoje separados.

    Paleomagnetismo: Padrões de magnetismo preservados em rochas do fundo oceânico que mostram a reversão dos polos magnéticos e a expansão do fundo oceânico.

    Tipos de Limites de Placas

    Limites Divergentes: Onde as placas se afastam uma da outra.

    Exemplos: Dorsal Meso-Atlântica.

    Consequências: Formação de novas crostas, vulcanismo, terremotos.

    Limites Convergentes: Onde as placas se movem uma em direção à outra.

    Exemplos: A Placa de Nazca subduzindo sob a Placa Sul-Americana.

    Consequências: Formação de montanhas, criaçao de zona de subduccção (fossa marinha), terremotos, vulcanismo.

    Limites Transformantes: Onde as placas deslizam horizontalmente uma pela outra.

    Exemplos: Falha de San Andreas na Califórnia.

    Consequências: Terremotos.

    Conclusão

    A Teoria da Tectônica de Placas revolucionou nossa compreensão sobre a geologia da Terra. Ela explica não apenas a formação de várias características geográficas, mas também os mecanismos por trás de eventos como terremotos e erupções vulcânicas.

    Prof Luciano Mannarino

  • Café cultivado ao redor de cratera vulcânica entre SP e MG leva prêmios e recordes

    Café cultivado ao redor de cratera vulcânica entre SP e MG leva prêmios e recordes

    BOTELHOS (MG) e SÃO SEBASTIÃO DA GRAMA (SP)

    Uma região entre o sul de Minas Gerais e o nordeste de São Paulo tem chamado atenção por cultivar cafés que produzem bebidas com notas sensoriais complexas e muito valorizadas.

    Localizadas no entorno de uma cratera de vulcão extinto há milhões de anos, as fazendas dessa área têm conquistado prêmios e concursos de qualidade, o que chamou atenção para aquilo que a diferencia das demais regiões produtoras de café do Brasil: o solo vulcânico.

    Ainda faltam estudos mais aprofundados para explicar com precisão as razões de a região produzir cafés de tamanha qualidade, mas hipóteses apontam para o fato de que o diferencial está mesmo na combinação da altitude com o solo vulcânico.

    Entenda o que tem feito os cafés dessa região ganharem tanto reconhecimento
    Lucena/FolhapressMAIS

    Como se sabe, o café da espécie arábica demanda grandes altitudes para produzir bons frutos. Nessa região, os cafezais ficam situados nas elevações criadas naturalmente no entorno da caldeira vulcânica.

    Isso resulta em bebidas com sabor doce e a acidez cítrica, segundo o pesquisador Leandro Carlos Paiva, do Instituto Federal do Sul de Minas Gerais.

    “Terras mais altas são mais frias à noite, e de dia ainda mantêm uma temperatura quente o suficiente para manter um desenvolvimento adequado do café. E nas noites frias, o café respira mais e produz mais ácido cítrico. Então existe um balanço entre a acidez e a doçura, e o café é muito equilibrado, muito encorpado, muito doce, porém com equilíbrio perfeito de acidez”, diz.

    Outra razão reside nas propriedades do solo em si. “Ele não é considerado um vulcão extinto; é uma caldeira vulcânica que se formou, mas não explodiu. Então nosso solo não é aquele solo de basalto. É um solo de formação vulcânica, mas tem uma formação rochosa muito diversificada, porque é uma elevação que veio de baixo para cima, do magma. Então tem uma complexidade de solos muito maior”, afirma Paiva.

    É claro que o sabor final do café depende de inúmeros fatores, como a variedade, a altitude, o processamento pós-colheita, a torra etc. Mas, de modo geral, um café da região vulcânica remete a sabores de frutas amarelas, caramelo e chocolate, com corpo sedoso e acidez cítrica e intensa.

    No ano passado, um café da região bateu recorde de preço. Cultivado pela Orfeu em São Sebastião da Grama (a cerca de 250 km de São Paulo), os grãos da variedade gesha cultivados a 1.570 metros de altitude foram vendidos pelo equivalente a R$ 84,5 mil por saca de 60 kg –ou cerca de R$ 1.410,00 por quilo. Foi o maior valor já pago em leilão por um café de processamento natural brasileiro.

    O sucesso obtido pelos cafeicultores tem atraído outras culturas e empresas para a região. A própria Orfeu começou a cultivar oliveiras e, com isso, produz azeites que já conquistaram prêmios internacionais. Investidores chineses começaram a testar o plantio de avocado, e o resultado tem agradado.

    Para agregar valor ao café, os fazendeiros decidiram se associar, a fim de delimitar a área que de fato está situada no terroir vulcânico. Ao todo, a chamada região vulcânica abrange 12 municípios, sendo oito em Minas –Andradas, Bandeira do Sul, Botelhos, Cabo Verde, Caldas, Campestre, Ibitiúra de Minas e Poços de Caldas– e quatro em São Paulo –Águas da Prata, Caconde, Divinolândia e São Sebastião da Grama.

    Agora associados, os produtores pretendem pleitear junto ao INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) o reconhecimento da denominação de origem –selo que designa um produto cujas qualidades se devam ao meio geográfico, como o que ocorre na Europa com o espumante da região de Champagne, na França, ou os queijos parmigiano reggiano, na Itália.

    O jornalista viajou a convite da Orfeu.

    https://www1.folha.uol.com.br/blogs/cafe-na-prensa/2024/03/cafe-cultivado-ao-redor-de-cratera-vulcanica-entre-sp-e-mg-leva-premios-e-recordes.shtml

    Questões (pesquisa em sala)

    1 Por que o territ´´ório brasileiro apresenta um grande número de “vulções extintos”? (2 pontos)

    2 Explique a fertilidade dos solos próximos as regiões vulcânicas. (2 pontos)

    3. Como se forma o solo de texa roxa? (2 ponto)

    4 Aponte as qualidades do meio geográfico da região do texto que levam os produtores pleitiarem o selo de ‘denominação de origem”? (2 pontos)

    5. Aponte diferenças entre uma Caldeira Vulcânca e uma Cratera Vulcânica? (2 pontos)

    Prof Luciano Mannarino

  • Terremoto de 6,5 graus atinge Acre; não houve danos

    Magnitude do sismo ainda pode ser revisada; confirmação fará do tremor o maior já registrado no país

    21.jan.2024 às 14h49

    Leonardo Augusto

    BELO HORIZONTE

    Um terremoto de 6,5 graus na escala Richter foi registrado no início da noite deste sábado (20) em Tarauacá (AC), a 409 km da capital Rio Branco. A intensidade do tremor, se confirmada, coloca o sismo como o maior já ocorrido no país.

    O terremoto foi notado às 18h31 pela RSBR (Rede Sismográfica Brasileira) e, apesar da intensidade, não há registro de danos. Até este sábado, o tremor mais forte ocorrido no Brasil havia sido de 6,2 graus em 1955, quando um tremor atingiu a região da Serra do Tombador, no Mato Grosso.

    Terremoto
    Tremor registrou 6,5 graus na escala Richter – Reprodução/Rede Sismográfica Brasileira no Facebook

    A RSBR informou que a magnitude exata, o epicentro e a profundidade do terremoto poderão ser revisados nas próximas horas à medida que os sismólogos revisarem os dados e refinarem seus cálculos. O Serviço Geológico dos Estados Unidos detectou o mesmo tremor, mas com intensidade maior, de 6,6.

    Segundo o professor George Sand, do departamento do Centro de Sismologia da USP (Universidade de São Paulo), esse tipo de diferença entre as medidas de um e outro serviço são comuns devido ao número de equipamentos que acompanham os tremores.

    A ausência danos no Acre, conforme explica o professor, é porque o terremoto foi muito profundo. Segundo informações da RSBR, o sismo ocorreu a 628 km de profundidade.

    A região é conhecida pela ocorrência de sismos profundos por ser uma área de encontro entre duas placas tectônicas, a Sul-Americana e a Nazca.

    “Geralmente ninguém nota esse tipo de terremoto. Nós é que os identificamos e informamos à população”, diz o professor, referindo-se aos centros de acompanhamento de tremores.

    Segundo a RSBR, a força dos terremotos naquela região pode ser atenuada pela profundidade em que ocorrem.

    https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/01/terremoto-de-65-graus-atinge-acre-nao-houve-danos.shtml

    Questões

    Explique por que, apesar da magnitude elevada do terremoto em Tarauacá, não houve registro de danos na região.

    Compare a ocorrência do terremoto em Tarauacá com o sismo de 1955 na Serra do Tombador. O que faz com que o tremor de 2024 seja potencialmente mais significativo?

    Analise a relação entre a profundidade dos terremotos e a percepção de seus efeitos na superfície, utilizando o caso de Tarauacá como exemplo.

    Quais são as implicações geológicas do encontro entre as placas tectônicas Sul-Americana e Nazca para a região do Acre?

    Por que há uma diferença nas medições da magnitude do terremoto entre a RSBR e o Serviço Geológico dos Estados Unidos? O que isso revela sobre as tecnologias e metodologias utilizadas?

    Discuta a importância da Rede Sismográfica Brasileira na identificação e no monitoramento de sismos no Brasil.

    Explique como a profundidade de 628 km pode ter atenuado os efeitos destrutivos do terremoto de Tarauacá.

    Como o conhecimento sismológico pode ajudar na prevenção de desastres, mesmo em regiões com baixa percepção de terremotos, como o Brasil?

    O que torna o Brasil um país de baixa sismicidade, e por que eventos como o de Tarauacá são considerados raros?

    Analise a importância de revisões e refinamentos de dados após a ocorrência de um sismo para entender melhor a sua magnitude, epicentro e impactos.

    Prof Luciano Mannarino

    Por que é tão difícil prever um grande terremoto como o que atingiu a Turquia?

    TIPOS DE ROCHAS E CICLO DAS ROCHAS (vídeo e atividades)

    NATURE: Sismômetros domésticos fornecem dados cruciais sobre o terremoto do Haiti

  • Andes fizeram da Amazônia um refúgio e berçário de novas espécies

    Carlos Fioravanti

    REVISTA PESQUISA FAPESP

    Em 2017, o geólogo Roberto Ventura Santos, da Universidade de Brasília (UnB), e sua equipe passaram quatro dias em uma piscina de plástico, montada em um hotel em Puerto Maldonado, cidade com 40 mil moradores a leste do Peru.

    Com a ajuda dos funcionários do hotel, eles esvaziavam na piscina os sacos de terra coletada de até 80 metros de profundidade às margens do rio Huallaga, um dos formadores do Amazonas. Em seguida, enchiam grandes peneiras com os sedimentos que flutuavam e separavam os que pudessem conter um mineral marrom e muito resistente, o zircão. Nas semanas seguintes, nos equipamentos dos laboratórios da UnB, registraram a proporção entre os elementos químicos (principalmente urânio e chumbo) e definiram a idade e a origem das 46 amostras do também chamado silicato de zircônio.

    Desse modo, eles ampliaram para 65 milhões de anos o conhecimento sobre a história geológica e ambiental da Amazônia –até então os estudos minuciosos como esse chegavam a até 20 milhões de anos atrás– e contribuíram para detalhar os mecanismos de geração da riqueza biológica da Amazônia, estimada em 40 mil espécies de plantas, 2.500 de peixes e 425 de mamíferos.

    Em um artigo publicado em abril na Journal of South American Earth Sciences, o grupo de Santos reforçou a importância da cordilheira dos Andes na formação das estruturas geológicas da Amazônia, que por sua vez determinaram sua riqueza biológica, e acrescentou uma variável nova: a água do mar, com os organismos que carrega, pode ter vindo também do sul e não apenas do norte, como já se sabia, e deve ter ocorrido milhões de anos depois.

    Os botos-cor-de-rosa indicam que a água do mar já ocupou o interior da Amazônia
    Os botos-cor-de-rosa indicam que a água do mar já ocupou o interior da Amazônia Hoorn, C. et al. Annual Review of Earth and Planetary Sciences (2023)MAIS 

    A datação do zircão indicou que, há cerca de 60 milhões de anos, quando a cordilheira dos Andes apenas começava a subir, água e organismos do Atlântico Sul, por meio do rio da Prata, podem ter chegado a terras hoje cobertas por floresta na região de Madre de Dios, no Peru, próxima à divisa com Rondônia.

    Segundo Santos, polens encontrados em meio aos sedimentos desenterrados no Peru reforçam a origem comum da Amazônia e do Pantanal, que também teria se formado como resultado da elevação dos Andes. Uma das espécies identificadas por meio do pólen é da família das araucárias, plantas hoje típicas do clima frio do Sul do país.

    Formados por 104 montanhas com 4.000 metros de altitude média e 8.000 quilômetros de extensão, do norte da Colômbia ao sul da Argentina, os Andes ainda regem o funcionamento e a biodiversidade da maior parte da bacia amazônica de dois modos distintos.

    As nascentes na cordilheira e sua contínua erosão fornecem água e sedimentos (terra e areia) que alimentam os rios a oeste da Amazônia. O menor volume de água que chega das montanhas pode ter contribuído para a intensa seca deste ano na região, geralmente atribuída apenas à redução de chuvas decorrente do El Niño.

    De acordo com um estudo de pesquisadores do Peru e do Brasil publicado em abril de 2022 na Remote Sensing, em resposta ao aquecimento global, a área das geleiras do norte dos Andes sofreu uma redução de 2.429 km² para 1.409 km² (42%) de 1990 a 2020, assim fornecendo menos água para os rios.

    “Ainda hoje cerca de 80% dos sedimentos levados pelos rios da Amazônia até o mar vêm dos Andes”, diz o geólogo Maurício Parra, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGc-USP), também autor de estudos nessa área. “Ao longo de 60 milhões de anos, os sedimentos que vieram dos Andes formaram camadas com espessuras decrescentes, de 2 km de profundidade a oeste da Amazônia e 800 m na ilha de Marajó, a leste.”

    Além disso, os Andes influenciam o clima na região ao barrar a umidade que vem do Atlântico e volta sobre a floresta, aumentando a quantidade de chuva. “O clima em Lima, no Peru, é muito seco, porque a massa de ar úmido não chega até lá”, comenta Santos.

    UM IMENSO PANTANAL

    “O soerguimento dos Andes não foi contínuo, mas por pulsos”, observa a geóloga Michele Andriolli Custódio, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

    Segundo a pesquisadora, as montanhas reorganizavam a paisagem à medida que cresciam. Ao levantarem um dos lados dos terrenos inundados pela água que vinha do mar do Caribe, forçaram os rios que ainda desaguavam aos pés dos Andes a correrem para leste, na direção do Atlântico. A inversão do sentido dos rios, por sua vez, uniu áreas e populações que antes viviam isoladas ou, inversamente, separou as que viviam juntas, criando-se assim condições para a formação de novas espécies de plantas e animais.

    “Como a rede de drenagem atual só foi estabelecida entre 10 milhões e 9 milhões de anos, a maior parte do tempo os rios corriam para oeste, o sentido inverso do que conhecemos hoje”, comenta o biólogo Carlos D’Apolito, da Universidade Federal do Acre (Ufac), coautor de um estudo sobre as antigas redes de drenagens na região publicado em julho na Sedimentary Geology.

    “Os Andes geraram um grande espaço rebaixado a oeste da Amazônia, que virou um pantanal de dimensões continentais, provavelmente com lagos gigantes”, diz ele. “Ali viviam jacarés, tartarugas e peixes, todos enormes. Entre as plantas, os buritizais eram certamente os mais comuns, porque crescem em áreas alagadas, o que não faltava entre cerca de 20 milhões e 7 milhões de anos.” Fósseis de conchas marinhas ainda hoje encontrados às margens do rio Solimões e de seus afluentes testemunham a ocupação do mar, que recuou e hoje está a mais de mil km dali.

    “Grande parte das espécies de plantas e animais que vivem na Amazônia hoje surgiu nos últimos 5 milhões de anos, apesar de estarem inseridas em famílias muito antigas, que já estavam na Amazônia há cerca de 60 milhões de anos”

    Lúcia Lohmann (botânica)

    Os botos-cor-de-rosa (Inia geoffrensis), os peixes-boi (Tricherchus inunguis) e as arraias (Potamotrygon spp.), que ainda vivem nos rios da região, reforçam a ideia de que o interior da floresta já foi coberto por água salgada. Antigas populações dessas espécies podem ter sido aprisionadas com o fechamento das conexões com o mar. Ao longo de gerações, adaptaram-se ao novo ambiente e se diferenciaram dos parentes marinhos.

    “Grande parte das espécies de plantas e animais que vivem na Amazônia hoje surgiu nos últimos 5 milhões de anos, apesar de estarem inseridas em famílias muito antigas, que já estavam na Amazônia há cerca de 60 milhões de anos”, comenta a botânica Lúcia Lohmann, da USP e da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos. Segundo a pesquisadora, as respostas das plantas às mudanças ambientais indicam que a Amazônia é tanto um refúgio quanto um berçário de biodiversidade.

    Em 2016, Lohmann coordenou a coleta de 10 espécies de plantas que cresciam às margens dos rios Negro e Branco, ao norte de Manaus. As análises genéticas mostraram que os rios podem ter efeitos diferentes sobre a formação de novas espécies, a chamada especiação: o Negro, por ser mais antigo e largo, favoreceu a diferenciação genética de espécies que cresciam em suas margens, enquanto o Branco, mais jovem e estreito, não apresentou um impacto relevante na diferenciação das espécies de plantas examinadas, embora possa ter favorecido a diversificação de populações de aves e primatas.

    Não há regras simples. Os rios como barreiras e a variação de altitude ou de temperatura podem favorecer a formação de novas espécies para alguns grupos de plantas e animais, mas não para outros. “Os mesmos fatores podem desencadear processos evolutivos diferentes, impactando a história biogeográfica e de diversificação de organismos amazônicos de formas variadas”, diz ela.

    Uma análise de polens e de genes de plantas mostrou as relações profundas entre geologia e biodiversidade, refletida nas formas da floresta, que se apresentava ora mais fechada, ora mais aberta, ao longo dos últimos 23 milhões de anos. “Os períodos de maior soerguimento dos Andes corresponderam aos de maior diversificação para vários grupos de plantas”, comenta Lohmann, uma das coordenadoras de uma síntese sobre a história de formação da vegetação amazônica ao longo desse período, publicada em maio na Annual Review of Earth and Planetary Sciences.

    De acordo com esse trabalho, uma floresta contínua que ocupava quase toda a América do Sul foi dividida há cerca de 30 milhões de anos por uma área de clima seco, formando a oeste o que seria a Amazônia e a leste a mata atlântica. Em seguida ocorreram mudanças na estrutura e composição da floresta. Por exemplo: entre 23 milhões e 16 milhões de anos atrás a Amazônia abrigava uma ampla diversidade de formas de vegetação, desde manguezais até florestas de terra firme, em um ambiente estuarino, no qual a água do mar e a dos rios se misturavam.

    Os polens encontrados nos sedimentos às margens dos rios indicam que pelo menos 48 famílias de plantas já viviam na Amazônia nesse momento. O número de famílias cresceu para 79 entre 16 milhões e 12 milhões de anos atrás; depois caiu para 25 entre 12 milhões e 6 milhões, resultando em uma floresta aberta, que voltou a expandir-se entre 5 milhões e 2 milhões de anos atrás, levando a 117 famílias.

    “Ao longo de milhares de anos, a vegetação da Amazônia se adaptou a mudanças geoclimáticas muito maiores do que imaginávamos. Talvez seja por isso que tantas espécies de lá que chegaram ao cerrado, à mata atlântica e às florestas da América Central conseguiram sobreviver em ambientes tão diversos”, diz ela. “A história da vegetação amazônica nos ensina como espécies se adaptaram a mudanças climáticas numa escala de milhões de anos, uma informação crucial nos dias de hoje.”

    Mas nem tudo está bem. Em um artigo de janeiro de 2023 na Science, Lohmann e outros pesquisadores do Brasil, dos Estados Unidos e de outros países examinaram o impacto de 11 tipos de mudanças de origem humana, como a expansão urbana e agrícola, e 21 naturais, como a elevação dos Andes e o afastamento da América do Sul e da África.

    De acordo com essa análise, as mudanças de origem humana estão ocorrendo mais rapidamente do que a capacidade de as plantas se adaptarem aos novos ambientes. Se não for detida, essa desproporção pode levar, entre outros efeitos, à redução da quantidade de chuva que abastece as áreas agrícolas do Centro-Oeste e Sudeste do Brasil.

    https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2024/01/andes-fizeram-da-amazonia-um-refugio-e-bercario-de-novas-especies.shtml

    Questões

    1) Retire do texto o elemento que contribui para fundamentar o famoso estudo de Charles Darwin.

    2 Como se deu o “soerguimento dos Andes”?

    3 De que forma o estudo faz uma alerta ao agronegócio brasileiro?

    4) Explique a aridez do clima da capital do Peru.

    Prof Luciano Mannarino

  • Cientistas sugerem lago no Canadá como marca do começo do Antropoceno, a época dos humanos

    Atualizado: 11.jul.2023 às 14h29

    Lucas Lacerda

    SÃO PAULO

    Cientistas sugerem que o lago Crawford, no Canadá, seja considerado o ponto que marca o começo do Antropoceno, a época dos humanos. O local, defende grupo de pesquisadores, reúne características que fazem dele um ponto de referência para o entendimento da nova era geológica proposta, caracterizada por mudanças no planeta causadas pela atividade humana.

    O ano-chave seria 1952, quando análises no solo do lago registraram traços de testes nucleares, além de alta atividade industrial. Essa quantidade aumentou ao longo da década, até os anos 1960, quando os testes atmosféricos foram banidos.

    O anúncio do local sugerido como o “golden spike”, na expressão usada por geólogos, foi feito nesta terça-feira (11) por pesquisadores do AWG (sigla em inglês para Grupo de Trabalho do Antropoceno). A conferência, conjunta com a Sociedade Max Planck e a Haus der Kulturen der Welt (Casa das Culturas do Mundo), aconteceu nesta tarde em Berlim.

    Lago de água azul
    Lago Crawford, na província de Ontario, no Canadá; local foi sugerido por cientistas como marco do Antropoceno, a época geológica dos humanos – Conservation Halton/Divulgação

    Para se tornar o marco do Antropoceno, porém, o lago na província de Ontário ainda precisa passar por três votações de outras instituições científicas, com pelo menos 60% de aprovação.

    Definir o Antropoceno é medir a profundidade e a extensão da atividade humana no planeta. O tema tem ganhado repercussão junto com os debates sobre mudanças climáticas e transição energética.

    Os cientistas ressaltam que o papel desse marco é produzir a evidência que mostra uma mudança do Holoceno, nossa atual época geológica, iniciada há cerca de 11,7 mil anos, para a época dos humanos.

    Além do significado científico dessa virada de época geológica, a definição tem uma dimensão simbólica sobre os rumos da humanidade, por colocar no centro do debate os danos causados na Terra.

    A sugestão do lago Crawford, localizado dentro de uma área de conservação homônima, é resultado de mais de uma década de trabalho de diversos grupos de cientistas, o AWG entre eles, que pesquisou e debateu 12 locais de diferentes partes do mundo, como recifes de coral na Austrália, gelo da Antártida e uma caverna na Itália. A ideia era buscar qual seria o ponto de referência perfeito para comparar as partículas guardadas.

    Equipes trabalham no Lago Crawford, sugerido pelo grupo de trabalho do Antropoceno (AWG) como "golden spike", ponto de referência para comparar registros de poluentes dispersados pelo planeta
    Equipes trabalham no Lago Crawford, sugerido pelo grupo de trabalho do Antropoceno (AWG) como “golden spike”, ponto de referência para compa Brenna Bartley/Conservation Halton/DivulgaçãoMAIS 

    Localizado na cidade de Milton, na província de Ontário, o lago Crawford é do tipo meromítico. Isso significa que suas camadas de água não se misturam. Foi da região mais profunda, a cerca de 24 metros da superfície, que os cientistas coletaram amostras de solo.

    Os sedimentos contidos nas camadas do fundo do lago funcionam como um arquivo de atividades de antigas comunidades indígenas, colonizadores, de indústrias e de testes nucleares.

    Os testes realizados nas amostras do solo do lago levaram à escolha do ano de 1952 como marco para o começo do Antropoceno —termo cunhado pelo biólogo Eugene Stoermer e pelo químico vencedor do Nobel Paul Crutzen em 2000.

    Além da alta atividade industrial e de consumo em escala global percebido no período, os experimentos com bombas nucleares espalharam plutônio, elemento que não ocorre facilmente na natureza.

    Outros elementos também se dispersaram pela atmosfera e foram depositados no fundo do Atlântico Sul, em Caravelas, na Bahia. Foi ali que pesquisadores retiraram uma amostra de 80 cm de comprimento, que revelou concentrações de Césio-137.

    A coleta e as análises estão registradas no documentário “A Era dos Humanos”, que estreia nos cinemas em setembro e na plataforma Globoplay em outubro. A produção, apresentada pelo ator Marcos Palmeira, relaciona os achados com episódios de degradação ambiental, como queimadas, desmatamento e garimpo.

    A pesquisa registrada no filme é conduzida por Rubens Figueira, especialista do Instituto Oceanográfico da USP. “As mesmas medições feitas no Canadá foram feitas aqui em Caravelas com o Rubens, e isso mostra o quanto esse assunto está próximo de nós”, afirma Iara Cardoso, diretora e roteirista do documentário.

    Homem segura pedaço de cano de PVC sujo de lama
    Cena do documentário ‘A Era dos Humanos’, de Iara Cardoso, sobre o Antropoceno; na foto,Figueira, especialista em oceanografia química, segura material de pesquisa na Bahia – Divulgação

    https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2023/07/cientistas-sugerem-lago-no-canada-como-marca-do-comeco-do-antropoceno-a-epoca-dos-humanos.shtml

    Questões


    1 Quais são as principais evidências geológicas, biológicas e químicas que sustentam a existência do Antropoceno como uma nova era geológica?


    2 De que forma as atividades humanas têm impactado os principais sistemas terrestres, como o clima, os ecossistemas e a biodiversidade, durante o Antropoceno?


    3 Quais são os principais desafios e consequências do Antropoceno em relação à sustentabilidade global e às necessidades futuras das gerações humanas e não humanas?


    4 Além das implicações ambientais, quais são as implicações sociais, econômicas e éticas do Antropoceno, e como esses aspectos podem influenciar a forma como lidamos com as mudanças ambientais?


    Luciano Mannarino