Categoria: Oriente Médio

  • Israel vai dobrar número de habitantes nas colinas de Golã, anuncia governo

    Israel vai dobrar número de habitantes nas colinas de Golã, anuncia governo

    ORIENTE MÉDIO

    Medida deve apertar controle de Tel Aviv sobre território na fronteira com a Síria anexado após a Guerra dos Seis Dias

    26.dez.2021 às 17h06

    JERUSALÉM | REUTERS

    O governo de Israel aprovou neste domingo (26) um plano para dobrar em cinco anos o número de habitantes judeus nas colinas de Golã, território na fronteira com a Síria que Tel Aviv capturou e anexou após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, manobra que não conta com reconhecimento da comunidade internacional.

    O premiê Naftali Bennett, ao comentar a medida, citou o apoio ao reconhecimento da soberania israelense sobre a região dado pelo ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump e celebrou o fato do atual chefe da Casa Branca, Joe Biden, não ter revertido a decisão.

    Tanques de Israel nas colinas de Golã, território anexado por Tel Aviv após a Guerra dos Seis Dias – Jalaa Marey – 7.dez.21/AFP

    Cerca de 25 mil colonos israelenses vivem nas colinas de Golã ao lado de outros 23 mil drusos, uma minoria árabe que permaneceu nas terras após elas serem tomadas por Israel. O plano aprovado neste domingo prevê a construção de 7.300 novas casas em Katzrin, principal assentamento judeu, em um período máximo de cinco anos.

    Em fevereiro, pouco após Biden tomar posse da Presidência, o secretário de Estado, Antony Blinken, disse à rede americana CNN que o controle sobre a região continua sendo de vital importância para a segurança de Israel devido à presença de grupos e milícias apoiados pelo Irã na Síria, governada pelo ditador Bashar al-Assad. “Caso a situação mude, podemos olhar para as questões jurídicas, mas não estamos nem perto disso”, acrescentou.

    De acordo com o jornal The Jerusalem Post, o plano irá custar 1 bilhão de NIS (R$ 1,8 bilhão) para os cofres públicos. Dois novos bairros serão construídos em Katzrin, bem como duas novas cidades, que serão chamadas de Asif e Matar, além de sistemas de transporte e de saúde.PUBLICIDADE

    O assentamento israelense nas colinas de Golã tem escala muito menor do que na Cisjordânia ocupada ou em Jerusalém Oriental, áreas também capturadas na Guerra de Seis Dias e reivindicadas pelos palestinos.

    Israel insiste na ocupação do território ao afirmar que a cordilheira é essencial para a segurança do país, especialmente devido à guerra civil na Síria e ao aumento da pressão militar do Irã contra Tel Aviv.

    “Após cerca de dez anos da terrível guerra na Síria, toda pessoa bem informada entende que é preferível ter a presença israelense do que a outra alternativa”, disse o premiê Bennett após o anúncio.

    Colinas de Golã

    Fumaça escura sobe de vilarejo sírio afetado pela guerra civil próximo às colinas de Golã
    Fumaça escura sobe de vilarejo sírio afetado pela guerra civil próximo às colinas de Golã Daniel Avelar/Folhapress

    Iniciada em março de 2011, a guerra civil na Síria já deixou mais de 400 mil mortos e 6,6 milhões de refugiados. O conflito fragmentou o país, abriu espaço para o fortalecimento de facções extremistas e aprofundou a instabilidade no Oriente Médio.

    Quando as colinas de Golã foram ocupadas, em 1967, mais de 130 mil sírios fugiram da região. Desde então, nunca puderam retornar, e cerca de 340 vilarejos e fazendas que existiam no local foram destruídos.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/12/israel-vai-dobrar-numero-de-habitantes-nas-colinas-de-gola-anuncia-governo.shtmle

    Oriente Médio

    Rio Jordão, Colinas de Golã, Israel e a Síria. (Atividade)

  • Turquia desafia EUA e anuncia maior cooperação militar com a Rússia

    Turquia desafia EUA e anuncia maior cooperação militar com a Rússia

    Membro da Otan, país de Erdogan quer mais armas; movimento também é recado à Grécia

    30.set.2021 às 12h51

    Igor Gielow

    SÃO PAULO

    Em desafio direto aos EUA, com recado à rival Grécia e num reflexo da realidade geopolítica pós-retirada americana do Afeganistão, a Turquia anunciou o aprofundamento da cooperação militar com a Rússia.

    Na prática, o movimento significará a compra de uma segunda leva de sistemas antiaéreos S-400 e, posteriormente, a “construção de motores de aviões de combate, navios e projetos conjuntos, como submarinos”, de acordo com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

    Caça russo de quinta geração Su-57 em exibição no show aéreo Maks, perto de Moscou
    Caça russo de quinta geração Su-57 em exibição no show aéreo Maks, perto de Moscou – Dimitar Dilkoff – 20.jul.21/AFP

    Ele falava a jornalistas de seu país no avião presidencial ao voltar de uma reunião com o russo Vladimir Putin no balneário de Sochi, nesta quinta (30).

    Segundo ele, foi discutido “como impulsionar a cooperação militar a um nível superior”. Enquanto ideias de planos conjuntos são provavelmente apenas hipotéticas e geralmente retóricas, a questão dos S-400 é bem real, e o conjunto da obra representa um problema para o Ocidente.

    Na newsletter de Mundo, semanalmente, as análises sobre os principais fatos do globo, explicados de forma leve e interessante.

    A Turquia é um dos membros mais estratégicos da Otan, a aliança militar liderada pelos EUA, por ser o único que integra também o Oriente Médio.

    Da base turca de Incirlik, onde há talvez 50 bombas nucleares táticas americanas estocadas, partiram diversos ataques ocidentais nos conflitos na região nas últimas décadas.

    Em 2018, a Turquia anunciou que iria comprar o poderoso S-400, considerado um dos mais eficazes sistemas de defesa aérea do mundo. Os EUA protestaram, mas Erdogan foi em frente e, em 2019, começou a receber sua encomenda de US$ 2,5 bilhões (R$ 13,65 bilhões, na cotação atual).

    Ato contínuo, os americanos desligaram Ancara do programa de desenvolvimento do caça de quinta geração furtivo ao radar F-35, já com 4 de 30 aviões prontos para entrega aos turcos, que iriam produzir partes da aeronave dentro da cadeia produtiva internacional do modelo.

    Veículo militar russo (cinza) lidera comboio com turcos na província síria de Hasakeh
    Veículo militar russo (cinza) lidera comboio com turcos na província síria de Hasakeh Delil Souleiman – 14.jul.2021/AFPMAIS 

    Erdogan já havia gasto US$ 1,4 bilhão (R$ 7,64 bilhões) no projeto e negocia reparações. A alegação americana era a de que operar o S-400 no mesmo ambiente que o F-35 poderia revelar ao sistema russo eventuais fragilidades do caça americano.

    O problema colocado é a suspeita americana de que poderia haver algum tipo de acesso a essas informações pelos russos, que ajudam os turcos a operacionalizar os sistemas.

    A Otan também chiou, dado que a aliança preza pela interoperacionalidade dos sistemas de armas que emprega, para ter unidade em caso de conflito justamente com a Rússia.

    O corolário da situação, de que o clube teria acesso ao funcionamento de uma arma temida do adversário, foi convenientemente esquecido no debate. Mais grave, os EUA aplicaram sanções econômicas à Turquia no fim de 2020, como punição pela aquisição.

    A questão maior, claro, é política. Desde 2014, quando Putin anexou a Crimeia para evitar que a derrubada do governo pró-Kremlin em Kiev jogasse a Ucrânia no colo da Otan, como o país deseja até hoje, a relação entre a aliança e Moscou é a pior desde a Guerra Fria.

    Em junho, houve um grave incidente no processo, no qual um navio britânico passou por águas que a Rússia considera suas perto da península anexada no mar Negro e foi recebido com tiros reais de advertência e bombas jogadas por caças. Isso na esteira de uma quase volta do conflito na Ucrânia.

    De seu lado, Erdogan tem ampliado a posição de independência ante a um Ocidente do qual desconfia, em especial depois que os EUA se recusaram a extraditar o acusado de inspirar o golpe de Estado frustrado que sofreu em 2016.

    Caças Sukhoi Su-27 disparam flares em exibição aérea
    Caças Sukhoi Su-27 disparam flares em exibição aérea Serguei Karpukhin /ReutersMAIS 

    Nesse balé entra Putin, com quem a Turquia tem uma complexa relação de disputa e cooperação. Os países, que quase foram às vias de fato por apoiar lados diferentes na guerra civil Síria, hoje mantêm uma tensa ação conjunta por lá.

    Já na Líbia, as diferenças continuam, com acusações mútuas. No Cáucaso, em 2020, Erdogan jogou alto ao apoiar com armas e logística a ofensiva azeri que derrotou a Armênia, aliada russa, e reconquistar parte das perdas territoriais que Baku havia sofrido nos anos 1990.

    Os russos intervieram de forma relutante, dado que o então governo armênio não era muito simpático a Putin, e saíram como garantidores da paz, ainda instável. Mas uma nova realidade regional se mostrou.

    A indústria militar turca tem feito notáveis avanços, com, por exemplo, uma ampla família de drones. O Bayraktar-TB2 fornecido aos azeris é visto como um dos fatores do sucesso na guerra do ano passado.

    Mas, até por ser uma potência média, Ancara enfrenta problemas com desenvolvimentos mais ambiciosos. Planeja seu próprio caça de quinta geração, para substituir os 260 F-16 que seriam paulatinamente trocados pelos F-35.

    Agora, ao falar em cooperação em motores de caça, na realidade namora a ideia de comprar equipamentos russos que já lhe foram ofertados antes. Seriam modernos e bem-sucedidos caças Su-35 e talvez até modelos de quinta geração Su-57, com acidentada carreira, ou o planejado Sukhoi Checkmate.

    Já a questão dos submarinos pode introduzir modelos diesel-elétricos da classe Kilo nos estaleiros de Gölcük, que há anos produzem modelos alemães sob licença. Ancara opera 12 submarinos. Mas esse é um plano menos tangível a essa altura. Há também a rival histórica turca Grécia, que, assim como a Turquia, faz parte da Otan e com quem tem diferenças na bacia do Mediterrâneo.

    Casa bombardeada durante a guerra em Stepanakert, capital de Nagorno-Karabakh
    Casa bombardeada durante a guerra em Stepanakert, capital de Nagorno-Karabakh Cassiana Der Haroutiounian/FolhapressMAIS 

    Nas últimas semanas, o governo em Atenas anunciou um pacote de compras militares da França: três fragatas e ampliação de um pedido de caças avançados Rafale para 24 unidades, tudo ao custo de € 6,8 bilhões (R$ 42,97 bilhões).

    A posição turca reflete também novos tempos. A retirada americana do Afeganistão, deixando o frágil governo fantoche do país à mercê da retomada do poder pelo Talibã, foi lida em todos os cantos como um recado sobre o comprometimento de Washington com seus aliados.

    Na semana passada, Erdogan, que tem uma política externa audaciosa e que não limita cartas militares, deixou isso claro. “No futuro, ninguém vai poder interferir no tipo de sistemas de defesa que nós vamos adquirir”, afirmou à rede americana NBC.

    Já o Departamento de Estado respondeu em nota, afirmando que “nós exortamos a Turquia a não manter o sistema S-400 e a não comprar nenhum outro equipamento militar russo”.

    Não parece que deu muito certo, colocando do mesmo lado russos e turcos, que têm interesses estratégicos divergentes, mas pragmatismo de sobra.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/09/turquia-desafia-eua-e-anuncia-maior-cooperacao-militar-com-a-russia.shtml

    Questão

    1) Explique o último parágrafo do texto.

    2) O que é OTAN e como ela surgiu?

    3) Por que a ascensão do Talibã no Afeganistão preocupa Ancara?

    4) Aponte um elemento que vem adiando a entrada da Turquia na UE.

    5) De que forma a presença de bombas atômicas americanas no território Turco se liga ao contexto da Guerra Fria?

    6) Qual a relação que a Guerra Civil na Síria tem com a “Primavera Árabe”?

    Prof Luciano Mannarino

    A GEOPOLÍTICA DO PÓS GUERRA (vídeo e atividades)

  • Barreira construída para trazer segurança aparta vidas e memórias

    Barreira construída para trazer segurança aparta vidas e memórias

    Concreto que serpenteia por terras palestinas freou homens-bomba, mas afastou prospecto de paz

    DIOGO BERCITO E LALO DE ALMEIDA

    ENVIADOS ESPECIAIS A ISRAEL E CISJORDÂNIA

    4.set.2017 – 02h00

    Umm Judah, 64, se esqueceu de muitas coisas. Entre elas, a palavra que moldou os anos mais recentes de sua vida: “muro”.

    Professora aposentada, a palestina vive nas cercanias de Belém diante de uma barreira de concreto de oito metros de altura.

    É esse o horizonte à sua porta, que a separa da terra que cultivou por décadas e das lembranças dos filhos iluminados pelos faróis e satisfeitos com os figos recém-colhidos.

    “É como uma venda”, diz à Folha. “Como se nos arrancassem os olhos.”

    Durante a entrevista, ela aponta a construção mais de uma vez por não se lembrar de como chamá-la, mesmo em seu árabe nativo.

    A professora aposentada palestina Umm Judah, 64, que vive diante de um muro de oito metros de altura; barreira a separa da terra que cultivou por décadas
    A professora aposentada palestina Umm Judah, 64, que vive diante de um muro de oito metros de altura; barreira a separa da terra que cultivou por décadas (Lalo de Almeida/Folhapress)

    O muro diante de sua casa é um trecho da barreira de 764 quilômetros que Israel ergue desde 2002 para se separar dos territórios palestinos da Cisjordânia, onde estão cidades como Belém e Ramallah. A maior parte é cerca, e o concreto é usado nas áreas urbanas. Faltam os últimos 194 quilômetros da construção.

    A barreira tem impacto brutal nas vidas de pessoas como Umm Judah. Mas israelenses de diferentes orientações políticas concordam, por outro lado, que existia a necessidade urgente de erguê-la.

    As memórias da Segunda Intifada ainda estão frescas. Cerca de 3.000 palestinos e 1.000 israelenses morreram entre 2000 e 2005 durante o levante palestino contra a ocupação israelense. Os palestinos enviavam homens-bomba; os israelenses revidavam com tanques.

    Muro erguido por Israel desde 2002 para se separar dos territórios palestinos da Cisjordânia; dos 764 quilômetros planejados para a barreira, 570 estão prontos (Lalo de Almeida/Folhapress)

    O israelense Ury Vainsecher, 71, se recorda bem. Ele já vivia em Kfar Saba, cidade a um quilômetro do muro, no caminho para a palestina Qalqilya.

    “Quando meus filhos eram menores, eu os levava a todos os lugares de carro. Tinha medo de que tomassem o ônibus”, diz. “Entre eu ser vítima de uma explosão e uma palestina viver rodeada por muro, prefiro vê-la cercada.”

    Vainsecher perdeu um amigo em um atentado. O filho de um vizinho morreu em outro ataque, e um conhecido que estava em uma pizzaria de Jerusalém alvo dos terroristas, também

    O trecho da barreira diante da casa de Umm Judah é um dos mais recentes.

    Um ano atrás, a palestina caminhava dois ou três minutos até seu pomar para passar o dia sob as oliveiras enrolando folhas de uva. Hoje ela precisa dirigir por 40 minutos para alcançar o outro lado.

    “Mas o muro ajudou os israelenses. Estão relaxados.”

    Judeus diante de muro próximos ao Túmulo de Raquel em Belém, na Cisjordânia, local considerado sagrado pela religião judaica (Lalo de Almeida/Folhapress)

    A fricção causada pela barreira na vida de palestinos como Umm Judah envenena a possibilidade de haver paz entre os dois povos em breve.

    O projeto foi questionado desde a concepção por figuras como Yossi Beilin, arquiteto dos Acordos de Oslo (as negociações de 1993 que levaram à divisão da Cisjordânia em diferentes áreas de controle).

    Se não tivessem sido interrompidos pelo assassinato do premiê israelense Yitzhak Rabin por um ultranacionalista em 1995, tais acordos poderiam ter encerrado o conflito.

    “Era claro que os palestinos seriam humilhados pela construção do muro”, diz Beilin, em Tel Aviv.

    “Mas não foi feito por malícia, e houve esforços para que eles não sofressem, ainda que esses esforços não tenham sido suficientes”, afirma, citando uma série de apelos às cortes israelenses –seis deles com sucesso– para mudar a rota da barreira.

    Muros, diz Beilin, “não são fotogênicos”.

    Grafites e pichações no muro da Cisjordânia; entre as figuras retratadas há o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e forças policiais
    Grafites e pichações no muro da Cisjordânia; entre as figuras retratadas há o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e forças policiais (Lalo de Almeida/Folhapress)

    “São muito difíceis de explicar. A barreira virou um símbolo de como colocamos os palestinos em uma prisão. É a vida deles, e eles se perguntam por que têm que pagar esse preço.” Não apenas por terem sido separados da terra que cultivavam, mas também porque a sua liberdade de ir e vir foi drasticamente reduzida.

    Folha acompanhou a passagem de trabalhadores palestinos rumo a Israel em dois postos de controle militar, em Belém e em Ramallah.

    Às 5h, a fila já transbordava dos corredores metálicos que lembram um curral, os ratos passando pelo chão imundo. Ansiosos, alguns trabalhadores escalavam as grades e formavam uma fila paralela no alto, como equilibristas distópicos.

    O ritual é cotidiano para milhares. “Tornamos a vida de muitos palestinos terrível”, afirma Beilin. “Mas reduzimos o número de mortes, e é difícil dizer que isso tenha sido errado.”

    Trabalhadores palestinos em fila para atravessar posto de controle israelense em Belém, na Cisjordânia; alguns escalam as grades, formando uma fila paralela no ar (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Não é errado, do ponto de vista legal, que um país construa muros em seus limites.

    Mas a divisão entre Israel e os territórios palestinos não é uma fronteira convencional porque, afinal, não existe um Estado palestino. A divisa costuma ser a chamada Linha Verde, que marca as fronteiras anteriores a 1967, ano da Guerra dos Seis Dias, quando Israel tomou a Cisjordânia.

    Vem daí mais uma complicação desta história, vivida diariamente por Umm Judah: de cada 6,5 quilômetros da barreira, 5,5 foram construídos dentro da Cisjordânia e, portanto, fora da fronteira. Em alguns trechos, o muro está 18 quilômetros distante de onde teoricamente deveria serpentear.

    A explicação de um tenente-coronel do Exército israelense que não pôde se identificar é a de que o trajeto foi adaptado às necessidades de segurança. Em algumas ocasiões o muro precisava passar em cima de uma colina, e não embaixo, por exemplo.

    “Nossa experiência nos tribunais é sempre a mesma”, afirma a advogada palestina Dalia Qumsiyeh, que representa Umm Judah.

    “O governo israelense usa a palavra mágica, ‘segurança’, e aprova assim os seus planos”, diz. “Mas, antes de falar em segurança, pensem na senhora que não consegue entrar em sua terra.”

    Ou no palestino Hani Amer, 60, que vive na região noroeste da Cisjordânia, sobre a linha em que o governo israelense queria ter construído o muro.

    Ele se recusou a deixar sua casa, a barreira a contornou, e ele foi cercado em seu terreno de 1.000 m² pelo concreto, o arame farpado e pelas cercas de segurança.

    O palestino Hani Amer, 60, abre portão para entrar em sua propriedade no povoado de Masha, na Cisjordânia; ele se recusou a deixar sua casa e a barreira a contornou (Lalo de Almeida/Folhapress)

    A poucos passos dali, está o assentamento israelense de Elkana, razão para as preocupações.

    “Disseram que ou eu saía daqui ou ficaria isolado. Quis ficar, a despeito de todas as dificuldades, porque é a minha casa”, diz, sentado em um balanço no jardim. À sua frente, está o muro.

    Por algum tempo, Amer precisou pedir que os soldados israelenses abrissem o portão da sua propriedade toda vez que queria sair.

    “Receber visitas era um inferno. Uma punição coletiva.” Com a pressão de organizações humanitárias, o agricultor teve uma pequena vitória: recebeu a chave para uma portinhola no muro, pela qual hoje passa.

    Ao receber a Folha em sua casa, Amer se agacha atrás de um carro, para que a polícia israelense não o veja –ele teme ser punido por receber a imprensa e falar de sua vida. Poderiam, por exemplo, lhe tirar a chave da portinhola.

    “Tive tantos problemas que já nem consigo me lembrar de todos”, diz, antes de relatar alguns.

    Quando seu filho de três anos engatinhou por baixo da cerca, por exemplo, a mãe não teve permissão para cruzar a barreira e buscá-lo. A criança foi encontrada do outro lado e trazida de volta.

    “Eu fui até os soldados e lhes disse: Vocês não são humanos. Vocês viram meu filho e não fizeram nada.”

    Ao ser lembrado que Israel ergueu o muro para garantir a segurança do país, Amer diz que “o que garante a segurança é a justiça”. “Quando você distingue entre dois irmãos, não tem segurança. Imagine entre dois povos.”

    A barreira rompeu em diversas regiões do país o contato, ainda que limitado, que havia entre palestinos e israelenses.

    Barricadas em um rua compartilhada por árabes e judeus em Hebron, na Cisjordânia; abaixo e à esquerda, abrigo anti-terrorismo no povoado israelense de Tzur Yigal, em Israel
    Barricadas em um rua compartilhada por árabes e judeus em Hebron, na Cisjordânia; abaixo e à esquerda, abrigo anti-terrorismo no povoado israelense de Tzur Yigal, em Israel (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Amer vive próximo de Qalqilya, onde israelenses costumavam fazer compras antes da Segunda Intifada.

    O local é próximo também de Tzur Yigal, onde vive o israelense-uruguaio Eran Landau, 64. “Minha casa foi erguida por uma família palestina”, diz. “Tenho amigos do outro lado, apesar de ter lutado contra eles”, afirma.

    “O muro nos inquieta, mas ou você cuida da sua família, ou não. Quero viver bem, e quero que minha filha viva bem. Se ela puder ir para a discoteca sem riscos, não me importo com o que dizem.”

    Landau é membro de uma força-tarefa voluntária para a segurança de Tzur Yigal, e guarda armas, um capacete e uma máscara de gás dentro de uma sala à prova de explosões. “Tenho um fuzil M16 para viajar. Poderiam me atacar a qualquer momento com um coquetel molotov.”

    Policiais israelenses patrulham bairro árabe na Cidade Antiga de Jerusalem, em Jerusalém Oriental (Lalo de Almeida/Folhapress)

    O recém-eleito prefeito de Belém, Anton Salman, discorda da avaliação. “Não acho que seja questão de segurança. É confisco de terra”, diz diante do muro que divide sua cidade. Ele perdeu parte de suas propriedades, isoladas do outro lado da barreira.

    Os desvios em relação à Linha Verde engoliram 9,4% da Cisjordânia, um processo monitorado pelo israelense Dror Etkes, diretor da ONG Kerem Navot. “Fiscalizamos como Israel toma terras na Cisjordânia para dar aos colonos israelenses”, diz –os colonos são os israelenses que vivem dentro da Cisjordânia.

    “A barreira foi construída para permitir que os assentamentos crescessem. Há uma correlação entre a presença de colonos e da barreira.”

    Para o ex-soldado israelense Avner Gvaryahu, 32, é preciso entender a barreira como parte de um sistema mais amplo, que envolve o projeto dos assentamentos. “O governo quer minimizar o número de palestinos aqui.”

    Crianças palestinas jogam pedra e insultam soldados israelenses que estão do outro lado de muro em Ramallah, na Cisjordânia (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Gvaryahu é o líder da organização Breaking the Silence, que compila testemunhos de soldados israelenses sobre a violência da ocupação da Cisjordânia. Ele foi paraquedista, período durante o qual recebia ordens diretas de colonos.

    “O objetivo do sistema é proteger os israelenses, mas ninguém protege os palestinos”, diz Gvaryahu. “Nunca haverá uma sensação real de segurança até que os palestinos tenham respeito e dignidade.”

    Ao redor dos muros e cercas, há zonas-tampão às quais o acesso de palestinos é restrito por razões de segurança.

    “Em algumas áreas entre barreiras é possível ver como surgiu uma nova vida selvagem”, diz Etkes, e aponta para um grupo de veados, que cruzam diante do carro da reportagem e se esgueiram por debaixo do arame farpado rumo à terra de que agora são na prática os donos.

    Palestina acompanhada da filha pede esmola na fila de posto de controle em Qalandia, na Cisjordânia (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Umm Judah teme que esse seja o futuro de seu pomar, do outro lado do muro, caso o governo israelense decida que ela já não pode mais cruzar o controle militar. “Sinto como se tivesse perdido alguém da minha família. Roubaram a minha felicidade”, ela afirma, e chora.

    Depois, sobe em uma rua do vilarejo, alta o suficiente para enxergar por cima do muro. Vê seu pomar inacessível –damascos, pêssegos, peras, alecrim– e lamenta: “Vou morrer aqui”.

    http://arte.folha.uol.com.br/mundo/2017/um-mundo-de-muros/israel/conflito-ancestral/

    Prof Luciano Mannarino

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  • Israel concentra tropas na fronteira com Gaza em meio a foguetes do Hamas e conflitos internos

    Forças israelenses e grupo islâmico ignoram apelos internacionais e mantêm piores confrontos em anos

    13.mai.2021 às 9h32

    Atualizado: 13.mai.2021 às 12h01

    GAZA e JERUSALÉM | AFP e REUTERS

    Tropas israelenses se concentraram na fronteira de Gaza nesta quinta-feira (13), e militantes do grupo islâmico Hamas mantiveram disparos de foguetes contra Israel, em conflitos que causam preocupação internacional e acirram hostilidades entre judeus e a minoria árabe em várias cidades do país.

    No total, ao menos 90 pessoas morreram desde segunda-feira (10) —83 em Gaza, incluindo 17 crianças, segundo o Ministério da Saúde local, e 7 em Israel, de acordo com autoridades médicas israelenses— e mais de 500 ficaram feridas.

    “Estamos em uma situação de emergência, e agora é necessário reforçar massivamente as forças no terreno”, afirmou o ministro da Defesa israelense, Benny Gantz, ao anunciar a convocação de oficiais militares da reserva para reforçar a segurança e o deslocamento de tropas que normalmente estão locadas na fronteira com a Cisjordânia para a região de Gaza.

    O porta-voz do braço armado do Hamas, Abu Ubaida, respondeu ao agrupamento das tropas em tom de desafio, pedindo aos palestinos que se levantassem.”Juntem-se como quiserem, do mar, da terra e do céu. Nós nos preparamos para tipos de mortes que fariam vocês amaldiçoarem a si mesmos”, disse.

    Soldados israelenses assumem posição em região próxima à fronteira com a Faixa de Gaza – Menahem Kahana – 13.mai.21/AFP

    De acordo com as Forças Armadas de Israel, as operações militares do país estão focadas em atingir membros do alto escalão do Hamas. Nesta quarta, a ofensiva matou ao menos 16 líderes de inteligência e membros da ala militar da facção. As baixas, no entanto, foram consideradas pelo Hamas como martírios e servirão de “combustível para nosso projeto de libertar nossa terra”.

    Diversas lideranças mundiais pediram o fim da escalada de violência, temendo uma guerra aberta entre os dois lados. Os pedidos desacompanhados de ações práticas, porém, não surtiram efeito sobre o maior pico de hostilidades desde 2014.

    Em novos ataques aéreos contra Gaza, Israel atingiu um prédio residencial de seis andares que, segundo os militares israelenses, pertence ao Hamas. O grupo islâmico, que comanda a Faixa de Gaza desde 2007, é considerado uma facção terrorista por EUA, União Europeia e, claro, Israel.

    “Estamos enfrentando Israel e a Covid-19. Estamos entre dois inimigos”, disse Asad Karam, 20, um trabalhador da construção civil à agência de notícias Reuters, referindo-se à sobrecarga dos hospitais em Gaza devido às centenas de feridos que agora dividem espaço com os contaminados pelo coronavírus.

    Autoridades de saúde de Gaza disseram ainda que estão analisando amostras para investigar a morte de várias pessoas durante a noite desta quarta-feira (12) devido a uma suposta inalação de gás venenoso, mas que não chegaram a uma conclusão.

    O Hamas já lançou cerca de 1.600 foguetes contra cidades israelenses, de acordo com os militares de Israel, que dizem ter bombardeado Gaza em mais de 600 ocasiões desde segunda-feira. A maior parte dos foguetes do Hamas tem sido interceptada pelos sistemas de defesas antimísseis, que forçam a detonação dos projéteis inimigos a quilômetros de altitude, muitas vezes ainda em território palestino. Um foguete, entretanto, atingiu um prédio perto de Tel Aviv, segunda maior cidade e capital econômica de Israel, e feriu cinco pessoas.

    Principalmente na região sul do país, os moradores tiveram que voltar a conviver com as sirenes que alertam sobre os perigos dos disparos inimigos e iniciam uma corrida para os abrigos antiaéreos públicos e os espaços de paredes reforçadas mantidos por grande parte da população para situações como essa.

    Cidades israelenses como Haifa, Jafa e Lod —que ordenou, nesta quinta, toque de recolher das 20h às 3h— também têm sido palco de manifestações da população árabe em apoio à causa palestina. Sinagogas foram atacadas e conflitos eclodiram nas ruas de algumas comunidades, levando prefeitos locais e até o presidente de Israel a alertar sobre o perigo de uma guerra civil.

    “Há uma ruptura entre árabes e judeus, e há um preço a pagar”, disse o renomado pesquisador e professor israelense Elie Rekhess, da Universidade Northwestern, no estado americano de Illinois, em entrevista à Folha. “Talvez seja um alerta para que os políticos de ambos os lados lidem com esse problema. Mas não teremos uma guerra civil.”

    Grupos judeus e árabes atacaram pessoas e danificaram lojas, hotéis e carros durante a noite desta quarta. Na cidade de Bat Yam, ao sul de Tel Aviv, extremistas judeus realizaram uma marcha em que, de acordo com imagens da TV israelense, uma multidão atacou um motorista palestino —não há informações sobre o estado de saúde dele.

    “A violência dentro de Israel atingiu um nível inédito em décadas”, disse o porta-voz da polícia israelense, Micky Rosenfeld, à agência de notícias AFP. Segundo ele, mais de 400 pessoas foram presas e quase mil agentes da guarda de fronteira foram mobilizados para conter a violência em cidades que antes eram vistas como símbolos da convivência entre árabes e judeus.

    “O que está acontecendo nos últimos dias nas cidades de Israel é insuportável. Nada justifica este linchamento de árabes pelos judeus e nada justifica o linchamento de judeus pelos árabes “, disse o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, acrescentando que o país vive um “combate em duas frentes”.

    Sem conseguir, até agora, frear a escalada de violência, o Conselho de Segurança da ONU fará, nesta sexta-feira (14), a terceira reunião da semana para discutir o cenário atual. Durante as duas primeiras videoconferências, representantes dos EUA se opuseram a declaração conjunta que pedia o fim dos confrontos, por considerá-la “contraproducente” e “inoportuna” neste momento.

    A proposta de resolução pedia, entre outros pontos, que Israel respeitasse a lei internacional, interrompesse a construção de assentamentos em territórios ocupados e se comprometesse a não realizar despejos de palestinos que vivem em Jerusalém Oriental —tema que está no centro da atual onda de violência.

    O embaixador de Israel na ONU, Gilad Erdan, enviou nesta quinta uma carta à entidade em que culpa o Hamas pelo conflito, mas diz que “Israel tem o direito e o dever de defender seu povo e sua soberania e continuará a fazê-lo vigorosamente”.

    “O Hamas está se apresentando como o ‘defensor de Jerusalém e dos locais sagrados’. Isso é, obviamente, uma mentira. É claro que o Hamas premeditou esta escalada de violência e terrorismo e está feliz em pagar o preço das baixas de ambos os lados para se fortalecer politicamente”, afirma Erdan, no documento.

    Míssil lançado por Israel atinge prédio na cidade de Gaza
    Míssil lançado por Israel atinge prédio na cidade de Gaza Mohammed Abed – 11.mai.21 /AFP

    Nesta quinta, Hua Chunying, porta-voz da diplomacia da China, país que neste mês chefia o Conselho de Segurança da ONU, lamentou que “alguns países” —sem citar quais— estejam obstruindo o texto. Ela reiterou a preocupação da China com a crise na região e a posição de Pequim na defesa da solução de dois Estados, um israelense e um palestino, para encerrar o conflito.

    O presidente russo, Vladimir Putin, e o secretário-geral da ONU, António Guterres, também reforçaram seus pedidos por paz. “Dada a escalada do conflito israelense-palestino, [ambos os líderes] determinaram que a principal tarefa é o fim da violência entre as duas partes e a garantia da segurança da população civil”, anunciou o Kremlin após uma videoconferência entre as duas lideranças.

    Em uma das poucas medidas concretas anunciadas pela comunidade internacional, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, enviou seu principal diplomata para a região, Hady Amr, para negociar com os dois lados uma solução que ponha fim à violência. A declaração aconteceu depois de as principais companhias aéreas americanas cancelarem todos os voos para Tel Aviv devido aos confrontos, movimento que foi seguido nesta quinta por empresas de aviação europeias.

    Militantes do Hamas disseram ter lançado foguetes sobre o aeroporto internacional de Ramon, um dos principais de Israel, mas as autoridades portuárias do país disseram que o local, que recebe cerca de dois milhões de pessoas por ano, não foi atingido e segue operando normalmente.

    Blinken também falou por telefone com o presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), Mahmoud Abbas —que atualmente controla a Cisjordânia, mas não tem ingerência sobre o Hamas e a Faixa de Gaza. Na ligação, ele condenou os ataques aéreos e enfatizou a necessidade de diminuir a tensão.

    Durante o início da noite, o presidente Joe Biden conversou por telefone com Netanyahu. O americano apoiou o direito de Israel de se defender dos foguetes do Hamas, mas pediu calma para que a situação fosse resolvida rapidamente, de acordo com comunicado da Casa Branca. O governo israelense respondeu em nota que vai manter seus ataques contra alvos do Hamas.

    A nova fase de hostilidades, que inclui os bombardeios mais significativos desde a guerra de 2014 no enclave, foi desencadeada por confrontos entre palestinos e forças de segurança israelenses na mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém.

    A cidade, sagrada para judeus, palestinos, cristãos e muçulmanos, vive um estado de tensão desde o início do ramadã, mês mais importante para a tradição religiosa islâmica. Em circunstâncias normais, as ruas de Gaza estariam cheias de palestinos, nesta quinta-feira, celebrando o feriado do Eid al-Fitr, que marca o fim do ramadã. Mas o medo tomou o lugar da festa.

    “Este Eid é diferente. Vem com bombardeios, medo e horror”, disse Fahd Ramadan, 44, morador de um campo de refugiados em Gaza, à Reuters. As celebrações também foram ofuscadas em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia, além de em outras cidades de Israel, já que parte dos muçulmanos que vivem no país também preferiram não sair de casa para se proteger dos foguetes.

    O Hamas, grupo radical islâmico que comanda desde 2007 a região da Faixa de Gaza, rivaliza com o Fatah, que controla a Cisjordânia e a ANP —tradicionalmente reconhecida internacionalmente como representante oficial dos palestinos. Entre a década de 1960 e o início dos anos 1990, o Fatah era considerado o principal grupo palestino e entrou diversas vezes em confrontos contra Israel. Nos últimos 30 anos, porém, a correlação de forças mudou, e o Hamas passou a liderar as ofensivas contra o país vizinho, com a ANP diminuindo a participação em ações violentas.

    No centro dos atuais conflitos estão a liberdade de culto em pontos da região de Jerusalém conhecida como Cidade Antiga —que os palestinos dizem estar sendo tolhida— e uma decisão judicial que prevê o despejo de famílias palestinas do bairro de Sheikh Jarrah que, por veredito de um tribunal regional, devem devolver os terrenos a judeus.


    COMO FORAM OS ÚLTIMOS CONFRONTOS ENTRE ISRAEL E GRUPOS PALESTINOS

    23 e 24.fev.20 Soldados israelenses acusaram um grupo de palestinos de tentar instalar um explosivo na cerca que separa Israel da Faixa de Gaza, o que gerou um conflito entre os dois lados. Em resposta, o grupo radical Jihad Islâmica disparou em um intervalo de 48 horas cerca de cem foguetes contra a região sul de Israel —que respondeu com bombardeios que deixaram quatro palestinos feridos.

    3 a 6.mai.19 Depois de dois soldados israelenses que estavam próximos da divisa ficarem feridos por tiros disparados de Gaza, Israel fez um ataque contra alvos do Hamas na região. Em resposta, foram disparados 690 foguetes de Gaza contra Israel, sendo que 240 foram interceptados pelo sistema de defesa antiaérea. O confronto terminou com 25 mortos do lado palestino —incluindo duas mulheres grávidas e duas crianças— e 4 do lado israelense.

    25 a 27.mar.19 Um foguete disparado da Faixa de Gaza destruiu uma casa na vila de Mishmeret, que fica ao norte de Tel Aviv, deixando sete israelenses feridos. O premiê Binyamin Netanyahu ordenou, então, o bombardeio de áreas do Hamas, que disparou foguetes contra a cidade de Ashkelon, no sul de Israel. A violência acabou depois de quase uma semana de confronto.

    11 a 13.nov.18 Um homem de 40 anos morreu depois que um foguete atingiu sua casa em Ashkelon. Em resposta, equipes das Forças Especiais de Israel realizaram ações na Faixa de Gaza —sete palestinos e um agente israelense foram mortos. Na sequência, grupos de Gaza dispararam foguetes contra Israel que deixaram 53 feridos. As Forças Armadas israelenses, então, bombardearam Gaza, causando três mortos.

    8 e 9.ago.18 O governo israelense chegou a cogitar uma ação terrestre em Gaza depois que o lançamento de quase 180 foguetes da região deixou mais de uma dezena de feridos. No fim, porém, Israel optou por um bombardeio contra 150 alvos, que deixou três palestinos mortos, incluindo um bebê.

    jul. e ago.14 Integrantes do Hamas sequestraram e mataram três adolescentes israelenses em junho, em ação que deu início ao maior conflito dos últimos sete anos. Em resposta, Israel lançou uma ação contra alvos do grupo na Cisjordânia. Na sequência, tropas do Exército israelense entraram na Faixa de Gaza, em uma escalada do conflito, que se estendeu por sete semanas. Durante esse período, o Hamas e outros grupos lançaram 4.562 foguetes contra Israel, que revidou com ataques contra 5.262 alvos palestinos. Quando enfim os dois lados chegaram a um cessar-fogo, no fim de agosto, mais de 70 israelenses e 2.100 palestinos tinham morrido.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/05/israel-concentra-tropas-na-fronteira-com-gaza-em-meio-a-foguetes-do-hamas-e-conflitos-internos.shtml

    REGIONALIZAÇÃO: ORIENTE MÉDIO (vídeo e atividades)

    ONU pede que Israel mude plano ‘ilegal e perigoso’ de anexar terras da Cisjordânia (atividade)R

    io Jordão, Colinas de Golã, Israel e a Síria. (Atividade)

    UM MUNDO DE MUROS (CISJORDÂNIA E ISRAEL)

  • Realismo geopolítico fala mais alto na relação entre EUA e Arábia Saudita

    Realismo geopolítico fala mais alto na relação entre EUA e Arábia Saudita

    Apesar de prometer foco em direitos humanos, Biden não pune príncipe saudita por assassinato de jornalista

    1º.mar.2021 às 23h15

    Patrícia Campos Mello

    SÃO PAULO

    Durante a campanha eleitoral, o então candidato Joe Biden prometeu linha dura com o governo da Arábia Saudita, que era queridinho do então presidente Donald Trump. Em um governo Biden, disse o democrata, os sauditas envolvidos no assassinato e esquartejamento do jornalista saudita Jamal Khashoggi dentro do consulado saudita em Istambul, em 2018, iriam “pagar por isso”, e os EUA fariam deles “os párias que realmente são”.

    Na sexta-feira (26), a CIA divulgou um relatório que responsabiliza pessoalmente o príncipe Mohammed bin Salman, conhecido pela sigla MbS, por ter ordenado o assassinato de Khashoggi. E o que aconteceu? O Departamento do Tesouro impôs sanções contra o antigo vice-chefe da inteligência saudita, Ahmed al-Asiri, e contra a Força de Intervenção Rápida da monarquia saudita, que se reportava diretamente ao príncipe e “cuidava” de dissidentes. Além disso, vetaram vistos para 76 pessoas que sequestravam jornalistas e dissidentes no exterior e os levavam para serem presos em solo saudita. Já MbS saiu incólume e, se quiser, pode até passar as férias na Disney.

    O príncipe saudita, Mohammed bin Salman, participa de evento em Riad
    O príncipe saudita, Mohammed bin Salman, participa de evento em Riad – Bandar al-Jaloud – 27.fev.21/AFP

    Frente à promessa de Biden de fazer uma reviravolta na política externa americana, tornando os direitos humanos uma prioridade, as imposições da realpolitik falaram mais alto.

    “Achamos que existem maneiras mais eficientes de garantir que isso [assassinato de Khashoggi] não aconteça novamente, enquanto mantemos espaço para trabalhar em conjunto com os sauditas em áreas em que há entendimento mútuo, e há interesses nacionais para os EUA. Isso é diplomacia”, disse a secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, no domingo (28), após intensa pressão de legisladores democratas e ativistas para uma ação mais enérgica contra MbS.

    O governo Biden criou expectativas ao dizer que haveria mais anúncios sobre o caso na segunda-feira (1º). No entanto, um porta-voz do Departamento de Estado limitou-se a afirmar que o governo americano está “focado no comportamento futuro” da Arábia Saudita e simplesmente instou Riad a melhorar sua atuação em direitos humanos e acabar com a “força de elite” que matou Khashoggi.

    O presidente Joe Biden faz uma aposta arriscada: quer limpar sua barra com o público doméstico, que exige atitudes contra MbS, sem implodir o relacionamento com o príncipe saudita, que é quem realmente manda na monarquia do Golfo.

    Em diplomatiquês, a Casa Branca afirma que o objetivo seria recalibrar a relação com a Arábia Saudita, mas sem causar uma ruptura.

    Parte da recalibragem seria a decisão do governo Biden de vetar vendas de armas para ações de ataque dos sauditas na guerra do Iêmen. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes mataram milhares de civis usando armamentos vendidos pelos americanos, na tentativa de derrubar os rebeldes houthis, financiados pelo Irã, o arqui-inimigo de Riad. Biden também cancelou vendas que haviam sido autorizadas por Trump. Mas deixou claro que continuaria a vender armamentos para que a Arábia Saudita possa se defender do Irã e dos aliados do país xiita.

    Em sua primeira ligação para o governo saudita, Biden falou com o rei Salman, e o governo afirmou que o monarca é que seria interlocutor do presidente americano, e não MbS. Trump oferecia a MbS uma linha direta com a Casa Branca, via seu genro, Jared Kushner. Além disso, o democrata designou um diplomata como enviado especial para a guerra do Iêmen, para tentar por fim ao conflito que se arrasta desde 2015 e já matou 230 mil pessoas.

    Entidades de direitos humanos, jornalistas, legisladores democratas e até John Brennan, ex-diretor da CIA no governo Obama, criticaram duramente a decisão de Biden de não impor sanções contra MbS.

    “Dizer que o príncipe regente MbS foi o responsável pelo horrendo assassinato de Jamal Khashoggi não é suficiente para responsabilizá-lo. O governo Biden precisa fazer muito mais. Para começar, vetar encontros com autoridades americanas e visitas aos EUA”, escreveu Brennan no Twitter.

    Capa do relatório de inteligência da CIA sobre assassinato do jornalista Jamal Khashoggi
    Capa do relatório de inteligência da CIA sobre assassinato do jornalista Jamal Khashoggi

    Em artigo nesta segunda-feira, Fred Ryan, publisher do Washington Post, que era empregador de Khashoggi, disse que Biden havia dado um “passe livre para um assassinato”.

    Os EUA já sancionaram chefes de Estado ou governo antes: Nicolás Maduro, ditador da Venezuela; Kim Jong-un, ditador da Coreia do Norte, e Bashar al-Assad, da Síria. Mas nenhum desses países tem o poder de estabilizar —ou mergulhar no caos— o mercado de petróleo mundial. Por mais que o aumento de produção nos EUA tenha reduzido, e muito, a dependência do reino, a Arábia Saudita ainda tem o poder de reduzir significativamente sua produção, algo que a maioria dos outros produtores não tem.

    Além disso, impor sanções contra MbS é, na realidade, cortar relações com o reino saudita por um longo período. O rei Salman tem 85 anos e a saúde frágil. O príncipe de 35 anos é quem governa de facto e deve se manter no poder por muitos anos.

    O democrata quer preservar alguma boa vontade dos sauditas. Biden precisa do apoio da Arábia Saudita em operações antiterrorismo e para gerenciar o equilíbrio no Oriente Médio. E ele já vai gerar insatisfação no reino do Golfo ao tentar ressuscitar o acordo nuclear com o Irã, sabotado por Trump. O governo saudita é forte opositor do acordo, desde que foi instituído, no governo Obama. Além disso, o rei Salman vem intensificando os laços com a Rússia e a China, os inimigos estratégicos dos EUA.

    Trump justificava a insistência em vender armas para os sauditas, mesmo após oposição do Congresso, como uma questão econômica. De fato, o intercâmbio comercial entre os dois países é significativo —foi de US$ 38 bilhões em 2019 (R$ 214 bi, nesta segunda), e os sauditas são grandes compradores de armamentos.

    Mas esse é apenas um pedaço da história. A aliança estratégica entre os EUA e a Arábia Saudita vem de longe, foi firmada 76 anos atrás, entre o presidente Franklin Delano Roosevelt e o avô de MbS, rei Abdulaziz. Os EUA garantiriam acesso ao petróleo saudita, e, em troca, protegeriam a Arábia Saudita de ameaças estrangeiras, como o Irã.

    Desde sempre, eram países muito diferentes: uma democracia que, pelo menos no papel, é comprometida com direitos humanos e liberdade de expressão, e uma monarquia absolutista que reprime dissidentes e opositores. Ao longo da história, muitas vezes, os EUA tiveram de fechar os olhos para violações de direitos humanos, quando a geopolítica era mais importante. Aparentemente, é isso que vai acontecer, de novo.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/03/realismo-geopolitico-fala-mais-alto-na-relacao-entre-eua-e-arabia-saudita.shtml

    Trabalho em Grupo (sala de aula)

    Após a leitura do texto jornalístico, explique o significado de seu título.

    Prof Luciano Mannario