Compreender o processo histórico de apropriação e expansão territorial dos Estados Unidos.
Analisar os principais eventos e políticas que contribuíram para a formação territorial do país.
Discutir os impactos desse processo nas populações indígenas e no desenvolvimento econômico e social dos Estados Unidos.
1. Introdução
1.1. Visão Geral da Colonização Europeia
Colonização Europeia: Início com a chegada de Cristóvão Colombo em 1492, seguido pelos exploradores espanhóis, franceses e ingleses. As Américas foram divididas entre várias potências europeias.
Objetivo: Buscar novas terras, recursos e oportunidades econômicas.
2. Primeiras Colônias e Colonização Inglesa
2.1. Estabelecimento das Treze Colônias
Primeiras Colônias: Jamestown (1607) na Virgínia foi a primeira colônia permanente inglesa.
Treze Colônias: Formação ao longo da costa atlântica, incluindo Massachusetts, Nova York, Pensilvânia, Geórgia, entre outras.
Economia: Agricultura, comércio, e a introdução de escravos africanos.
2.2. Relações com os Povos Indígenas
Conflitos: Inúmeros conflitos com os povos indígenas devido à apropriação de terras.
Tratados e Acordos: Muitos tratados foram feitos e posteriormente quebrados pelos colonizadores.
3. Expansão para o Oeste
3.1. Doutrina do Destino Manifesto
Conceito: A crença de que os americanos estavam destinados a expandir seu território do Atlântico ao Pacífico.
Justificativa: Usada para justificar a expansão territorial e a remoção dos povos indígenas.
3.2. Compra da Louisiana (1803)
Compra da Louisiana: Os EUA compraram um vasto território da França, dobrando o tamanho do país.
Expedição de Lewis e Clark: Exploraram e mapearam o novo território, incentivando mais colonização.
4. Conflitos e Tratados
4.1. Guerra Mexicano-Americana (1846-1848)
Causa: Disputas territoriais após a anexação do Texas pelos EUA.
Resultado: Vitória dos EUA e anexação de vastos territórios do México.
4.2. Tratado de Guadalupe Hidalgo
Consequências: Os EUA adquiriram Califórnia, Nevada, Utah, Arizona, Novo México e partes do Colorado e Wyoming.
5. Política de Remoção Indígena
5.1. Lei de Remoção dos Índios (1830)
Política de Remoção: Forçou as tribos indígenas a se mudarem para terras a oeste do Mississippi.
Trilhas das Lágrimas: Deslocamento forçado dos Cherokee, resultando em milhares de mortes.
6. Expansão e Conquista Territorial
6.1. Compra do Alasca (1867)
Compra do Alasca: Os EUA compraram o Alasca da Rússia, expandindo ainda mais seu território.
6.2. Guerra Hispano-Americana e a Expansão no Pacífico
Guerra Hispano-Americana (1898): Resultou na aquisição de Porto Rico, Guam e Filipinas pelos EUA.
Expansão no Pacífico: Controle de territórios como Havaí e outras ilhas do Pacífico.
7. Impactos e Consequências
7.1. Impactos sobre as Populações Indígenas
Deslocamento: Remoção forçada e confinamento em reservas.
Destruição Cultural: Perda de terras, cultura e autonomia.
7.2. Desenvolvimento Econômico e Social
Desenvolvimento: Crescimento econômico, infraestrutura e estabelecimento de cidades.
Diversidade: Formação de uma sociedade diversa com influências de várias culturas e imigrantes.
8. Atividade de Encerramento
Discussão em Grupo: Dividir a turma em grupos e pedir que discutam os impactos da expansão territorial dos EUA.
Apresentações: Cada grupo apresenta suas conclusões sobre os aspectos positivos e negativos da expansão.
Recursos:
Slides com mapas históricos e imagens.
Vídeos curtos sobre eventos importantes (compra da Louisiana, Guerra Mexicano-americana).
Artigos e documentos históricos para leitura complementar.
Conclusão:
A apropriação e expansão territorial dos Estados Unidos desde a colonização europeia foram processos complexos que envolveram conflitos, tratados e políticas de remoção indígena. Esses eventos moldaram a geografia, a economia e a sociedade americana, deixando um legado de diversidade, mas também de desafios e injustiças históricas.
Líder do país comunista visita Pequim, mas mudanças econômicas podem ameaçar modelo político
Nguyen Phu Trong, principal dirigente vietnamita, atravessou salões do Grande Palácio do Povo, em Pequim, a 31 de outubro, como primeiro líder estrangeiro recebido por Xi Jinping após o encerramento do 20º Congresso do Partido Comunista Chinês, concluído nove dias antes. A deferência iluminou prioridades e movimentos geopolíticos nos palcos global e do Sudeste Asiático.
O Vietnã contemporâneo, ainda governado pelo Partido Comunista fundado por Ho Chi Minh (1890-1969) e com as profundas cicatrizes de um dos conflitos bélicos mais icônicos da Guerra Fria, seguiu o exemplo da China e embarcou em reformas responsáveis por engendrar uma das economias mais dinâmicas do cenário asiático.
Iniciada em 1986 sob o nome de “doi moi” (renovação, em vietnamita), a metamorfose resultou na criação de uma “economia socialista de mercado”, rótulo oficial de um sistema alicerçado numa ousada abertura econômica acompanhada da manutenção do poder nas mãos do partido. Os vietcongues do século 21 passaram a seguir a trilha desenhada por Deng Xiaoping (1904-1997), mentor das mudanças chinesas.
O vietnamita Nguyen Phu Trong e o chinês Xi Jinping em cerimônia em Pequim – Yao Dawei – 31.out.22/Xinhua
Em Bancoc, poucos dias depois de seu colega secretário-geral do PC ser recepcionado por Xi, o presidente do Vietnã, Nguyen Phuc, reuniu-se com Kamala Harris, durante um fórum diplomático. Hanói sinalizava assim a manutenção da política pendular entre Pequim e Washington.
A atual flexibilidade diplomática contrasta com a rigidez da Guerra Fria, quando o Vietnã, após o triunfo comunista em 1975, encaixou-se definitivamente na órbita soviética e proporcionou a Moscou presença em estratégicos mares do Sudeste Asiático, conexão entre os oceanos Pacífico e Índico.
Porém, a debacle soviética, com a desintegração de 1991, levou o PC vietnamita a rever a cartilha. Prevaleceu, no plano doméstico, a opção por replicar a alquimia chinesa, enquanto na dimensão geopolítica verificou-se a aproximação com os EUA.
Com relações diplomáticas recuperadas em 1995, no governo Bill Clinton, Hanói avançou na estratégia de engajamento com o ex-inimigo. Almejava investimentos para impulsionar a decolagem econômica. E buscava um aliado para ajudar na desafiadora tarefa de conter o aumento do peso político, econômico e militar do gigantesco vizinho setentrional chamado China.
Rivalidades sino-vietnamitas culminaram em batalhas, por exemplo, já no século 10 d.C. Num passado recente, em 1979, uma invasão ordenada por Deng viu, ao final dos combates, os dois lados cantando vitória.
O pragmatismo do Vietnã esmaece traumas históricos e abre espaço para laços econômicos com a China, importante parceiro comercial. E, recentemente, o viés político desponta nas relações bilaterais, com festejada reunião entre os camaradas Nguyen Trong e Xi Jinping.
No âmbito político, o diálogo se aprofunda impulsionado por desafio comum: a manutenção do monopólio do poder nas mãos do Partido Comunista em sociedades como a chinesa e a vietnamita, cada vez mais modeladas por ascensão de classes médias e urbanização.
E Xi certamente detalhou ao visitante vietnamita o plano de voo: incrementar as doses de autoritarismo, para evitar a perda de controle, apesar de concessões às vezes inevitáveis, a exemplo das mudanças de Pequim nas ações de enfrentamento da pandemia.
No poder desde 2011, Nguyen sinaliza seguir os passos de Xi. A pergunta é até quando o modelo político de Hanói e de Pequim resistirá às profundas transformações sociais trazidas pelo trepidante crescimento econômico.
Hoje, nove países do mundo possuem, comprovada ou alegadamente, armas atômicas. É o chamado “clube nuclear”. Neste contexto, o temor de uma possível terceira guerra mundial ganha novos contornos, com os recentes embates e rusgas entre Estados Unidos, Rússia, China e Coreia do Norte – justamente as nações com maior poderio.
Em 1968, esforços internacionais de paz levaram à assinatura do TNP (Tratado de Não-Proliferação Nuclear), que entrou em vigor em 5 de março de 1970. Atualmente, conta com a adesão de 189 países, cinco dos quais são reconhecidos como “Estados com armas nucleares” (EAN ou NWS, do inglês nuclear-weapon states).
São eles, em ordem de fabricação das bombas: Estados Unidos, Rússia (ex-União Soviética), Reino Unido, França e China. Possuem a grande maioria das armas nucleares conhecidas do mundo e, nos termos do tratado, podem mantê-las e também desenvolver pesquisas na área – mas são proibidos de repassar tecnologia bélica a outras nações. Esses também são os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e vencedores da Segunda Guerra Mundial.
Três países que nunca fizeram parte do TNP realizaram testes nucleares ostensivos depois que o tratado entrou em vigor: Índia, Paquistão e Coreia do Norte. A nona nação do clube é Israel, amplamente creditado como detentor de armamento atômico, mas que se recusa a confirmar ou negar a informação e ainda não conduziu testes – detonações deste tipo não conseguem ser escondidas, pois são detectáveis por instrumentos.
Vale destacar que a Coreia do Norte assinou o TNP, mas se retirou em 2003, realizando os primeiros testes nucleares três anos depois. Quatro outros países já possuíram bombas atômicas no passado: África do Sul, que desmontou seu arsenal antes de aderir ao tratado, Belarus, Cazaquistão e Ucrânia —as armas das três antigas repúblicas soviéticas foram repatriadas para a Rússia.
Um levantamento do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), de 2019, estima haver 13.890 ogivas nucleares pelo mundo – sendo 3.750 ativas, ou seja, implantadas estrategicamente. Em 1986, no fim da Guerra Fria, este número chegou a 70.300.
“Não sabemos os números exatos dos arsenais, pois muitos países não revelam informações a respeito ou são ambíguos sobre o tema”, explica Vitelio Brustolin, pesquisador da Universidade Harvard e professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (INEST-UFF).
Rússia e Estados Unidos possuem cerca de 92% dessas armas, mas têm reduzido mutuamente seus armamentos atômicos desde a dissolução da União Soviética. Por outro lado, relatórios recentes do Pentágono revelam a ampliação gradual do arsenal nuclear da China, Índia, Paquistão e Coreia do Norte. Além disso, há um forte candidato a décimo país com bomba atômica: o Irã, que nos últimos anos ameaça sair do TNP.
Quantidade de ogivas ativas é capaz de destruir o planeta; saiba quais países têm mais bombas nucleares
“Depois de um certo ponto, o aumento da quantidade implica em redundância, pois o arsenal conhecido atualmente já seria capaz de destruir o planeta”, ressalta Brustolin. “Podemos dizer que estamos em uma retomada da Guerra Fria, porém com circunstâncias e contexto diferentes daqueles que se estenderam do final da Segunda Guerra até 1991. O mundo não é mais ‘bipolar’; estamos em meio a alinhamentos multipolares.”
Guerra nuclear?
“Uma guerra nuclear é altamente improvável”, acredita o professor. “Isso não significa, no entanto, que um conflito armado convencional entre estados específicos não venha a acontecer. Se de fato houver o uso da força, é provável que seja por meio não atômico.” Uma guerra nuclear seria potencialmente catastrófica não apenas para os países envolvidos, mas para o mundo em geral. Diversos riscos afastam essa possibilidade, entre eles:
destruição mútua
perdas irreparáveis de cidades inteiras e milhões de habitantes potencial
inverno nuclear
prejuízos para o mundo todo, perdendo muito mais do que se ganharia com a guerra
Para uma guerra atômica, a estratégia deve ser bem diferente daquela para conflitos convencionais. “No primeiro ataque, seria preciso destruir ao máximo a capacidade do oponente de contra-atacar. Caso contrário, os dois lados serão alvejados e poderão se destruir mutuamente”, diz Brustolin.
Muitas das armas não estão em terra, mas em submarinos nucleares cuja localização é incerta. “Por isso, eles são armas tão estratégicas: ao mapear o território do oponente e de aliados em busca de locais de lançamento de armas nucleares, é muito difícil determinar em que local do planeta estão os submarinos.”
Há temores em relação a grupos terroristas, como a Al Qaeda ou o Estado Islâmico, que poderiam fabricar uma bomba atômica rudimentar, caso tenham acesso a urânio ou plutônio enriquecido.
Conheça os detalhes dos projetos nucleares das principais nações que já possuem estes armamentos: Estados Unidos Militares dos Estados Unidos fotografam momento da explosão da bomba atômica em Hiroshima, no Japão, em 6 de agosto de 1945.
Estados Unidos
Militares dos Estados Unidos fotografam momento da explosão da bomba atômica em Hiroshima, no Japão, em 6 de agosto de 1945
Ogivas: 5.500
Ogivas ativas: 1.375
Primeiro teste nuclear: 1945
As primeiras armas nucleares do mundo foram desenvolvidas pelos EUA, durante a Segunda Guerra Mundial, por meio do Projeto Manhattan – uma força-tarefa em resposta ao nazismo, em cooperação com o Reino Unido e o Canadá, que mobilizou cientistas, engenheiros e militares, entre 1942 e 1947. O físico Robert Oppenheimer, diretor do projeto, é considerado o “pai da bomba atômica”.
A primeira delas foi detonada em 16 de julho de 1945 e menos de um mês depois os Estados Unidos dispararam duas bombas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, no Japão, em 6 e 9 de agosto, respectivamente. Nas explosões devastadoras, morreram entre 129 mil e 226 mil pessoas, a maioria civis. Até hoje, esta foi a única vez que armas nucleares foram usadas em uma batalha.
O Projeto Manhattan, na verdade, teve início em 1939, quando Franklin Roosevelt, então presidente norte-americano, recebeu uma carta assinada pelos cientistas Leo Szilard e Albert Einstein, alertando sobre um possível projeto da Alemanha nazista para construção de armas atômicas. O objetivo, então, era se antecipar à bomba alemã, acabar com a guerra e evitar próximos conflitos desta magnitude.
Mais tarde, durante a Guerra Fria com a então União Soviética, os Estados Unidos também se tornaram o primeiro país a desenvolver armas termonucleas da geração anterior, funcionando por fusão (em vez de fissão) nuclear, como acontece com a energia do Sol. O primeiro teste de um protótipo aconteceu em 1952 (Ivy Mike), no Atol Enewetak, nas remotas Ilhas Marshall.
Em 1954, os EUA fizeram sua maior detonação nuclear até hoje (Castele Bravo), no Atol Bikini – com 15 megatons, foi cerca de mil vezes mais potente que a bomba de Hiroshima. É a quinta maior explosão atômica da história, excedida apenas por quatro testes soviéticos.
Rússia (sucessora da União Soviética)
Míssil nuclear russo na Praça Vermelha, em Moscou, Rússia, durante o desfile militar marcando o 75º aniversário da derrota nazista na Segunda Guerra Mundial.
Ogivas: 6.257
Ogivas ativas: 1.456
Primeiro teste nuclear: 1949
A segunda nação a desenvolver armas nucleares foi a antiga União Soviética (URSS); o primeiro teste aconteceu em 1949, chamado RDS-1. Este projeto foi realizado, parcialmente, com informações obtidas via espionagem nos Estados Unidos, durante e após a Segunda Guerra. O objetivo era atingir um balanço de forças durante a Guerra Fria. A URSS detonou o explosivo mais poderoso de nossa história, a Tsar Bomba – sua potência teórica é de 100 megatons, mas foi reduzida intencionalmente para 50 durante o teste. Outras bombas soviéticas, com cerca de 20 megatons, ocupam o segundo, terceiro e quarto postos da lista.
China
Ogivas: 350
Ogivas ativas: desconhecido
Primeiro teste nuclear: 1964
A China detonou seu primeiro dispositivo de arma nuclear (batizado 596) em 1964, na área de testes Lop Nur. Foi uma resposta aos Estados Unidos e à União Soviética, que protagonizavam a Guerra Fria. Em 1967, testou sua primeira bomba de hidrogênio – foi o salto de tecnologia fissão-fusão mais curto da história. O país é o único do TNP a garantir uma política de “não primeiro uso”; ou seja, só usará suas armas nucleares em resposta a um ataque.
Coreia do Norte
7.out.2016 – Imagem de satélite da região em torno do local do teste nuclear de Punggye-Ri, na Coreia do Norte.
A Coreia do Norte é o único país, até hoje, que assinou e posteriormente se retirou do TNP – o anúncio de saída ocorreu em janeiro de 2003, depois que os Estados Unidos a acusou de manter, secretamente, um programa de enriquecimento de urânio. Dois anos depois, ela assumiu possuir armas atômicas funcionais – mas isso gerou dúvidas na comunidade internacional, pois não havia evidências concretas.
Em 2006, realizou a primeira detonação nuclear, pouco potente, mas que confirmou seu poderio. Em 2016, iniciou os testes com bombas de hidrogênio – também bem menores que de seus rivais, com potência estimada de 250 quilotons.
Mantém um programa nuclear ativo e cada vez mais sofisticado, violando normas internacionais.
O Conselho de Segurança das Nações Unidas condena as atividades nucleares do país e impõe sanções cada vez mais severas às forças armadas e à economia norte-coreana. Em 2018, a Coreia do Norte anunciou a suspensão dos testes – um sinal para negociar um acordo de paz com os EUA, que ameaça retaliações, que por diversas vezes beiraram um confronto direto.
Em 2022, Kim Jong Un já declarou uma possível retomada dos testes nucleares e de mísseis de longo alcance. “A política hostil e a ameaça militar dos Estados Unidos atingiram uma linha de perigo que não pode ser ignorada”, disse o Vale lembrar que o país conta com o apoio da China e, em menor medida, da Rússia.
Bomba atômica brasileira?
De acordo com o tratado, os cinco EANs têm o direito de manter suas bombas, mas os demais países que assinaram o TNP se comprometem a nem tentar construir armas nucleares – algo considerado injusto por algumas nações, pois concentra o poder de domínio e destruição mundial nas mãos das potências. Eles podem desenvolver tecnologia nuclear apenas para usinas de eletricidade, medicamentos, aparelhos médicos e outras atividades com fins pacíficos.
“O Brasil tem, sim, tecnologia e capacidade para produção de armas nucleares, mas renunciou à sua produção e isso trouxe importantes impactos de soft power e smart power”, ressalta Brustolin. “Atualmente, temos um parque de centrífugas para enriquecer urânio e estamos produzindo um submarino com reator nuclear para movimentar os motores, garantindo autonomia de navegação por todo o extenso litoral.
Em desafio direto aos EUA, com recado à rival Grécia e num reflexo da realidade geopolítica pós-retirada americana do Afeganistão, a Turquia anunciou o aprofundamento da cooperação militar com a Rússia.
Na prática, o movimento significará a compra de uma segunda leva de sistemas antiaéreos S-400 e, posteriormente, a “construção de motores de aviões de combate, navios e projetos conjuntos, como submarinos”, de acordo com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.
Caça russo de quinta geração Su-57 em exibição no show aéreo Maks, perto de Moscou – Dimitar Dilkoff – 20.jul.21/AFP
Ele falava a jornalistas de seu país no avião presidencial ao voltar de uma reunião com o russo Vladimir Putin no balneário de Sochi, nesta quinta (30).
Segundo ele, foi discutido “como impulsionar a cooperação militar a um nível superior”. Enquanto ideias de planos conjuntos são provavelmente apenas hipotéticas e geralmente retóricas, a questão dos S-400 é bem real, e o conjunto da obra representa um problema para o Ocidente.
Na newsletter de Mundo, semanalmente, as análises sobre os principais fatos do globo, explicados de forma leve e interessante.
A Turquia é um dos membros mais estratégicos da Otan, a aliança militar liderada pelos EUA, por ser o único que integra também o Oriente Médio.
Da base turca de Incirlik, onde há talvez 50 bombas nucleares táticas americanas estocadas, partiram diversos ataques ocidentais nos conflitos na região nas últimas décadas.
Em 2018, a Turquia anunciou que iria comprar o poderoso S-400, considerado um dos mais eficazes sistemas de defesa aérea do mundo. Os EUA protestaram, mas Erdogan foi em frente e, em 2019, começou a receber sua encomenda de US$ 2,5 bilhões (R$ 13,65 bilhões, na cotação atual).
Ato contínuo, os americanos desligaram Ancara do programa de desenvolvimento do caça de quinta geração furtivo ao radar F-35, já com 4 de 30 aviões prontos para entrega aos turcos, que iriam produzir partes da aeronave dentro da cadeia produtiva internacional do modelo.
Veículo militar russo (cinza) lidera comboio com turcos na província síria de Hasakeh Delil Souleiman – 14.jul.2021/AFPMAIS
Erdogan já havia gasto US$ 1,4 bilhão (R$ 7,64 bilhões) no projeto e negocia reparações. A alegação americana era a de que operar o S-400 no mesmo ambiente que o F-35 poderia revelar ao sistema russo eventuais fragilidades do caça americano.
O problema colocado é a suspeita americana de que poderia haver algum tipo de acesso a essas informações pelos russos, que ajudam os turcos a operacionalizar os sistemas.
A Otan também chiou, dado que a aliança preza pela interoperacionalidade dos sistemas de armas que emprega, para ter unidade em caso de conflito justamente com a Rússia.
O corolário da situação, de que o clube teria acesso ao funcionamento de uma arma temida do adversário, foi convenientemente esquecido no debate. Mais grave, os EUA aplicaram sanções econômicas à Turquia no fim de 2020, como punição pela aquisição.
A questão maior, claro, é política. Desde 2014, quando Putin anexou a Crimeia para evitar que a derrubada do governo pró-Kremlin em Kiev jogasse a Ucrânia no colo da Otan, como o país deseja até hoje, a relação entre a aliança e Moscou é a pior desde a Guerra Fria.
Em junho, houve um grave incidente no processo, no qual um navio britânico passou por águas que a Rússia considera suas perto da península anexada no mar Negro e foi recebido com tiros reais de advertência e bombas jogadas por caças. Isso na esteira de uma quase volta do conflito na Ucrânia.
De seu lado, Erdogan tem ampliado a posição de independência ante a um Ocidente do qual desconfia, em especial depois que os EUA se recusaram a extraditar o acusado de inspirar o golpe de Estado frustrado que sofreu em 2016.
Nesse balé entra Putin, com quem a Turquia tem uma complexa relação de disputa e cooperação. Os países, que quase foram às vias de fato por apoiar lados diferentes na guerra civil Síria, hoje mantêm uma tensa ação conjunta por lá.
Já na Líbia, as diferenças continuam, com acusações mútuas. No Cáucaso, em 2020, Erdogan jogou alto ao apoiar com armas e logística a ofensiva azeri que derrotou a Armênia, aliada russa, e reconquistar parte das perdas territoriais que Baku havia sofrido nos anos 1990.
Os russos intervieram de forma relutante, dado que o então governo armênio não era muito simpático a Putin, e saíram como garantidores da paz, ainda instável. Mas uma nova realidade regional se mostrou.
A indústria militar turca tem feito notáveis avanços, com, por exemplo, uma ampla família de drones. O Bayraktar-TB2 fornecido aos azeris é visto como um dos fatores do sucesso na guerra do ano passado.
Mas, até por ser uma potência média, Ancara enfrenta problemas com desenvolvimentos mais ambiciosos. Planeja seu próprio caça de quinta geração, para substituir os 260 F-16 que seriam paulatinamente trocados pelos F-35.
Agora, ao falar em cooperação em motores de caça, na realidade namora a ideia de comprar equipamentos russos que já lhe foram ofertados antes. Seriam modernos e bem-sucedidos caças Su-35 e talvez até modelos de quinta geração Su-57, com acidentada carreira, ou o planejado Sukhoi Checkmate.
Já a questão dos submarinos pode introduzir modelos diesel-elétricos da classe Kilo nos estaleiros de Gölcük, que há anos produzem modelos alemães sob licença. Ancara opera 12 submarinos. Mas esse é um plano menos tangível a essa altura. Há também a rival histórica turca Grécia, que, assim como a Turquia, faz parte da Otan e com quem tem diferenças na bacia do Mediterrâneo.
Casa bombardeada durante a guerra em Stepanakert, capital de Nagorno-Karabakh Cassiana Der Haroutiounian/FolhapressMAIS
Nas últimas semanas, o governo em Atenas anunciou um pacote de compras militares da França: três fragatas e ampliação de um pedido de caças avançados Rafale para 24 unidades, tudo ao custo de € 6,8 bilhões (R$ 42,97 bilhões).
A posição turca reflete também novos tempos. A retirada americana do Afeganistão, deixando o frágil governo fantoche do país à mercê da retomada do poder pelo Talibã, foi lida em todos os cantos como um recado sobre o comprometimento de Washington com seus aliados.
Na semana passada, Erdogan, que tem uma política externa audaciosa e que não limita cartas militares, deixou isso claro. “No futuro, ninguém vai poder interferir no tipo de sistemas de defesa que nós vamos adquirir”, afirmou à rede americana NBC.
Já o Departamento de Estado respondeu em nota, afirmando que “nós exortamos a Turquia a não manter o sistema S-400 e a não comprar nenhum outro equipamento militar russo”.
Não parece que deu muito certo, colocando do mesmo lado russos e turcos, que têm interesses estratégicos divergentes, mas pragmatismo de sobra.
Razão última pela qual reuniões de cúpula entre presidentes americanos e russos são objeto de atenção mundial, as armas nucleares podem ser a tábua de salvação do encontro de Joe Biden com Vladimir Putin nesta quarta (16).
Os líderes farão em Genebra, na Suíça, a primeira reunião com Biden como presidente. Um cardápio indigesto de temas já foi adiantado por ambos em entrevistas, com o reforço de que ninguém vai mudar de posição e que avanços são altamente improváveis.
Biden deixa o avião presidencial após aterrissar no aeroporto de Genebra, cidade onde irá se encontrar com Putin – Denis Balibouse/Pool/Reuters
Entram nessa lista a guerra civil na Ucrânia, o apoio russo à ditadura na Belarus e a opressão do Kremlin aos opositores domésticos como Alexei Navalni.
Biden já disse que vai riscar “linhas vermelhas”, algo que seu ex-chefe Barack Obama tentou com Putin na Síria, só para ser humilhado. E o russo disse que as diferenças são claras.
Sobram assuntos menores, como a retomada de atividades diplomáticas de lado a lado e talvez algum debate sobre o futuro da guerra civil no país árabe. E as armas nucleares.
O primeiro gesto de política externa de Biden foi estender por cinco anos, como queria Putin, o último tratado vigente de limitação de armas nucleares. O antecessor do americano, Donald Trump, havia retirado os EUA de dois outros acordos e queria deixar o Novo Start caducar.
Biden reverteu o último ponto e agora há espaço para negociar novos limites, regimes de inspeção e talvez até incluir armas mais sofisticadas, como os mísseis hipersônicos desenvolvidos pela Rússia.
“Nós instamos os líderes a aproveitar a oportunidade e fazer progressos significativos para reduzir arsenais e rumar à adesão ao Tratado de Proibição de Armas Nucleares”, afirmou Beatrice Fihn, diretora-executiva da Campanha Internacional pela Abolição de Armas Nucleares (Ican, na sigla inglesa).
Ela e uma sobrevivente do ataque atômico a Hiroshima em 1945 receberam, em 2017, o Prêmio Nobel da Paz concedido à Ican. Mas sua visão é otimista, sendo confrontada pela realpolitik: não se espera que os donos de 90% das armas nucleares do planeta renunciem a seus arsenais. “O risco do uso de armas é maior hoje do que na Guerra Fria”, disse Fihn. “O único modo de eliminar o risco é eliminar as bombas.”
O presidente dos EUA, Joe Biden, e sua esposa, a primeira-dama Jill Biden (esq.), posam com a rainha Elizabeth durante encontro no Castelo de Windsor, logo antes de irem tomar chá juntos Steve Parsons /AFPL
Em relatório divulgado nesta semana, o Instituto Internacional da Paz de Estocolmo afirmou que tanto russos como americanos ampliaram em cerca de 50 ogivas seus arsenais em 2020. “No ano passado, EUA e Rússia gastaram juntos US$ 45,5 bilhões desenvolvendo e mantendo seus arsenais”, afirmou a ativista.
Para ela, seria importante coibir as novas formas de emprego da bomba. “A expansão qualitativa é tão perigosa quanto o aumento dos números de ogivas, e nós vimos como essas tecnologias emergentes podem aumentar o risco de uso das armas”, disse Fihn.
Seja como for, ambos os líderes pretendem capitalizar o embate suíço.
Biden poderá aparecer como alguém firme, o que pega bem em casa e é notado pelos rivais em Pequim. Putin, por sua vez, fará o mesmo ante sua audiência doméstica —fora que a hostilidade de um americano que já o chamou de assassino pode ser usada para justificar a repressão à oposição apoiada pelos EUA.
Tema/status
Do que se trata
Posição de Biden
Posição de Putin
Ucrânia Sem acordo
País perdeu a Crimeia e leste é ocupado por rebeldes pró-Kremlin
Busca pacificar a região e trazer a Ucrânia para a UE e para a Otan
Quer manter áreas rebeldes autônomas e não aceita Kiev ocidental
Belarus Sem acordo
Repressão política pós-eleição isolou o país, que tem apoio de Moscou
Prepara novas sanções contra a ditadura e quer mudança de regime
Quer manter o status quo e talvez promover a unificação dos países
Alexei Navalni Sem acordo
Opositor foi preso após ser envenenado e sua organização, fechada
Quer Navalni solto e pede melhoria nos direitos humanos na Rússia
Considera que são assuntos internos e vê interferência ocidental
Otan Sem acordo
Aliança militar tem missão anti-Rússia renovada sob Biden
Americano quer manter pressão e agradar os aliados
Reforça sua posição militar na fronteira com a Europa
Ciberataques Sem acordo
EUA acusam Rússia por série de ataques em 2016 e 2020
Vai fazer a acusação e ameaçar medidas retaliatórias
Nega a acusação, que chama de paranoia ocidental
Sanções Sem acordo
Desde 2014 EUA e Europa aplicam sanções econômicas
Desde que assumiu, manteve e ampliou as medidas
Critica sanções como atos de agressão internacional
Vacinação Sem avanço
Países competem na geopolítica do imunizante
Quer distribuir de graça 500 mi de doses em um ano
Quer ver a Sputnik V aprovada na Europa
Energia Avanço difícil
Putin está completando um novo gasoduto com a Alemanha
Aplica sanções à obra, que amplia dependência europeia
Vê obra como fato consumado e conta com pragmatismo
Síria Pode haver avanço
Guerra civil tem seu fim travado devido a impasses
Sem cartas, pode bancar paz nos termos do Kremlin
Pode rifar ditador Assad em troca de seguir no país
Armas nucleares Deve haver avanço
Países precisam renegociar acordo de limitação
Aceitou termos de Putin e deve seguir em frente
Está satisfeito, mas não quer incluir novos mísseis
Embaixadas Deve haver avanço
Embaixadores foram retirados e há restrições de movimento
Deve aceitar uma retomada da normalidade
Deve aceitar uma retomada da normalidade
Biden chegou nesta terça (15) a Genebra, onde se encontrou com autoridades suíças. Disse que “sempre estou pronto”, ao ser questionado sobre a beligerância previsível na reunião.
Na véspera, ele havia dito que não buscava um conflito com a Rússia, mas que o país precisa ser responsabilizado por ações agressivas. Ele falava em Bruxelas, onde se encontrou com a cúpula da Otan, a aliança militar ocidental demonizada por Putin.
O comunicado final do encontro, que incluiu pela primeira vez a China como uma preocupação estratégica do clube, manteve Moscou como a principal ameaça à segurança dos Estados-membros.
Tanques ucranianos fazem manobras perto de Donetsk Forças Armadas da Ucrânia – 14.abr.2021/Via Reuters
Putin deverá chegar pela manhã, e o encontro começará às 13h (8h em Brasília) no histórico palacete Villa La Grange, no parque homônimo, quase em frente ao famoso jato d’água do lago Genebra e não muito distante da Villa Diodati, palco da famosa competição etílico-literária patrocinada pelo lorde Byron em 1818, da qual nasceu o “Frankenstein” de Mary Shelley.
A segurança envolve quase 4.000 policiais e militares, e o formato da cúpula reflete o clima entre os dois presidentes, o pior desde a Guerra Fria entre Moscou e Washington.
Não haverá almoço, e as conversas vão durar de quatro a cinco horas, presenciadas na maior parte do tempo pelo secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, e pelo chanceler russo, Serguei Lavrov, assessorados pela tropa usual de intérpretes.
Ambos os líderes serão recebidos pelo presidente suíço, Guy Parmelin, que irá deixá-los na biblioteca do palacete.
Será a trigésima reunião entre ocupantes da Casa Branca e do Kremlin desde que os países tomaram rumos rivais ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, após terem lutado juntos contra o Eixo.
O encontro mais recente foi em outro país com fama de neutro, a Finlândia, em 2018. Nele, Trump impressionou negativamente os EUA ao aceitar a negativa de Putin de que teria havido influência de hackers russos na eleição americana de 2016 —em favor do republicano.