Categoria: Rússia

  • Rússia, EUA, China, Coreia do Norte: qual país tem mais armas nucleares?

    Rússia, EUA, China, Coreia do Norte: qual país tem mais armas nucleares?

    Marcelle Duarte – UOL

    09/02/2022

    Hoje, nove países do mundo possuem, comprovada ou alegadamente, armas atômicas. É o chamado “clube nuclear”. Neste contexto, o temor de uma possível terceira guerra mundial ganha novos contornos, com os recentes embates e rusgas entre Estados Unidos, Rússia, China e Coreia do Norte – justamente as nações com maior poderio.

    Em 1968, esforços internacionais de paz levaram à assinatura do TNP (Tratado de Não-Proliferação Nuclear), que entrou em vigor em 5 de março de 1970. Atualmente, conta com a adesão de 189 países, cinco dos quais são reconhecidos como “Estados com armas nucleares” (EAN ou NWS, do inglês nuclear-weapon states).

    São eles, em ordem de fabricação das bombas: Estados Unidos, Rússia (ex-União Soviética), Reino Unido, França e China. Possuem a grande maioria das armas nucleares conhecidas do mundo e, nos termos do tratado, podem mantê-las e também desenvolver pesquisas na área – mas são proibidos de repassar tecnologia bélica a outras nações. Esses também são os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e vencedores da Segunda Guerra Mundial.

    Três países que nunca fizeram parte do TNP realizaram testes nucleares ostensivos depois que o tratado entrou em vigor: Índia, Paquistão e Coreia do Norte. A nona nação do clube é Israel, amplamente creditado como detentor de armamento atômico, mas que se recusa a confirmar ou negar a informação e ainda não conduziu testes – detonações deste tipo não conseguem ser escondidas, pois são detectáveis por instrumentos.

    Vale destacar que a Coreia do Norte assinou o TNP, mas se retirou em 2003, realizando os primeiros testes nucleares três anos depois. Quatro outros países já possuíram bombas atômicas no passado: África do Sul, que desmontou seu arsenal antes de aderir ao tratado, Belarus, Cazaquistão e Ucrânia —as armas das três antigas repúblicas soviéticas foram repatriadas para a Rússia.

    Um levantamento do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), de 2019, estima haver 13.890 ogivas nucleares pelo mundo – sendo 3.750 ativas, ou seja, implantadas estrategicamente. Em 1986, no fim da Guerra Fria, este número chegou a 70.300.

    “Não sabemos os números exatos dos arsenais, pois muitos países não revelam informações a respeito ou são ambíguos sobre o tema”, explica Vitelio Brustolin, pesquisador da Universidade Harvard e professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (INEST-UFF).

    Rússia e Estados Unidos possuem cerca de 92% dessas armas, mas têm reduzido mutuamente seus armamentos atômicos desde a dissolução da União Soviética. Por outro lado, relatórios recentes do Pentágono revelam a ampliação gradual do arsenal nuclear da China, Índia, Paquistão e Coreia do Norte. Além disso, há um forte candidato a décimo país com bomba atômica: o Irã, que nos últimos anos ameaça sair do TNP.

    Quantidade de ogivas ativas é capaz de destruir o planeta; saiba quais países têm mais bombas nucleares - Getty Images/iStockphoto
    Quantidade de ogivas ativas é capaz de destruir o planeta; saiba quais países têm mais bombas nucleares

    “Depois de um certo ponto, o aumento da quantidade implica em redundância, pois o arsenal conhecido atualmente já seria capaz de destruir o planeta”, ressalta Brustolin. “Podemos dizer que estamos em uma retomada da Guerra Fria, porém com circunstâncias e contexto diferentes daqueles que se estenderam do final da Segunda Guerra até 1991. O mundo não é mais ‘bipolar’; estamos em meio a alinhamentos multipolares.”

    Guerra nuclear?

    “Uma guerra nuclear é altamente improvável”, acredita o professor. “Isso não significa, no entanto, que um conflito armado convencional entre estados específicos não venha a acontecer. Se de fato houver o uso da força, é provável que seja por meio não atômico.” Uma guerra nuclear seria potencialmente catastrófica não apenas para os países envolvidos, mas para o mundo em geral. Diversos riscos afastam essa possibilidade, entre eles:

    • destruição mútua
    • perdas irreparáveis de cidades inteiras e milhões de habitantes potencial
    • inverno nuclear
    • prejuízos para o mundo todo, perdendo muito mais do que se ganharia com a guerra

    Para uma guerra atômica, a estratégia deve ser bem diferente daquela para conflitos convencionais. “No primeiro ataque, seria preciso destruir ao máximo a capacidade do oponente de contra-atacar. Caso contrário, os dois lados serão alvejados e poderão se destruir mutuamente”, diz Brustolin.

    Muitas das armas não estão em terra, mas em submarinos nucleares cuja localização é incerta. “Por isso, eles são armas tão estratégicas: ao mapear o território do oponente e de aliados em busca de locais de lançamento de armas nucleares, é muito difícil determinar em que local do planeta estão os submarinos.”

    Há temores em relação a grupos terroristas, como a Al Qaeda ou o Estado Islâmico, que poderiam fabricar uma bomba atômica rudimentar, caso tenham acesso a urânio ou plutônio enriquecido.

    Conheça os detalhes dos projetos nucleares das principais nações que já possuem estes armamentos: Estados Unidos Militares dos Estados Unidos fotografam momento da explosão da bomba atômica em Hiroshima, no Japão, em 6 de agosto de 1945.

    Estados Unidos

    bomba - EFE - EFE
    Militares dos Estados Unidos fotografam momento da explosão da bomba atômica em Hiroshima, no Japão, em 6 de agosto de 1945

    Ogivas: 5.500

    Ogivas ativas: 1.375

    Primeiro teste nuclear: 1945

    As primeiras armas nucleares do mundo foram desenvolvidas pelos EUA, durante a Segunda Guerra Mundial, por meio do Projeto Manhattan – uma força-tarefa em resposta ao nazismo, em cooperação com o Reino Unido e o Canadá, que mobilizou cientistas, engenheiros e militares, entre 1942 e 1947. O físico Robert Oppenheimer, diretor do projeto, é considerado o “pai da bomba atômica”.

    A primeira delas foi detonada em 16 de julho de 1945 e menos de um mês depois os Estados Unidos dispararam duas bombas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, no Japão, em 6 e 9 de agosto, respectivamente. Nas explosões devastadoras, morreram entre 129 mil e 226 mil pessoas, a maioria civis. Até hoje, esta foi a única vez que armas nucleares foram usadas em uma batalha.

    O Projeto Manhattan, na verdade, teve início em 1939, quando Franklin Roosevelt, então presidente norte-americano, recebeu uma carta assinada pelos cientistas Leo Szilard e Albert Einstein, alertando sobre um possível projeto da Alemanha nazista para construção de armas atômicas. O objetivo, então, era se antecipar à bomba alemã, acabar com a guerra e evitar próximos conflitos desta magnitude.

    Mais tarde, durante a Guerra Fria com a então União Soviética, os Estados Unidos também se tornaram o primeiro país a desenvolver armas termonucleas da geração anterior, funcionando por fusão (em vez de fissão) nuclear, como acontece com a energia do Sol. O primeiro teste de um protótipo aconteceu em 1952 (Ivy Mike), no Atol Enewetak, nas remotas Ilhas Marshall.

    Em 1954, os EUA fizeram sua maior detonação nuclear até hoje (Castele Bravo), no Atol Bikini – com 15 megatons, foi cerca de mil vezes mais potente que a bomba de Hiroshima. É a quinta maior explosão atômica da história, excedida apenas por quatro testes soviéticos.

    Rússia (sucessora da União Soviética)

    bomba - Mikhail Svetlov/Getty Images - Mikhail Svetlov/Getty Images
    Míssil nuclear russo na Praça Vermelha, em Moscou, Rússia, durante o desfile militar marcando o 75º aniversário da derrota nazista na Segunda Guerra Mundial.

    Ogivas: 6.257

    Ogivas ativas: 1.456

    Primeiro teste nuclear: 1949

    A segunda nação a desenvolver armas nucleares foi a antiga União Soviética (URSS); o primeiro teste aconteceu em 1949, chamado RDS-1. Este projeto foi realizado, parcialmente, com informações obtidas via espionagem nos Estados Unidos, durante e após a Segunda Guerra. O objetivo era atingir um balanço de forças durante a Guerra Fria. A URSS detonou o explosivo mais poderoso de nossa história, a Tsar Bomba – sua potência teórica é de 100 megatons, mas foi reduzida intencionalmente para 50 durante o teste. Outras bombas soviéticas, com cerca de 20 megatons, ocupam o segundo, terceiro e quarto postos da lista.

    China

    china - Reprodução - Reprodução

    Ogivas: 350

    Ogivas ativas: desconhecido

    Primeiro teste nuclear: 1964

    A China detonou seu primeiro dispositivo de arma nuclear (batizado 596) em 1964, na área de testes Lop Nur. Foi uma resposta aos Estados Unidos e à União Soviética, que protagonizavam a Guerra Fria. Em 1967, testou sua primeira bomba de hidrogênio – foi o salto de tecnologia fissão-fusão mais curto da história. O país é o único do TNP a garantir uma política de “não primeiro uso”; ou seja, só usará suas armas nucleares em resposta a um ataque.

    Coreia do Norte

    bomba - Airbus Defense & Space and 38 North via Reuters - Airbus Defense & Space and 38 North via Reuters
    7.out.2016 – Imagem de satélite da região em torno do local do teste nuclear de Punggye-Ri, na Coreia do Norte.

    A Coreia do Norte é o único país, até hoje, que assinou e posteriormente se retirou do TNP – o anúncio de saída ocorreu em janeiro de 2003, depois que os Estados Unidos a acusou de manter, secretamente, um programa de enriquecimento de urânio. Dois anos depois, ela assumiu possuir armas atômicas funcionais – mas isso gerou dúvidas na comunidade internacional, pois não havia evidências concretas.

    Em 2006, realizou a primeira detonação nuclear, pouco potente, mas que confirmou seu poderio. Em 2016, iniciou os testes com bombas de hidrogênio – também bem menores que de seus rivais, com potência estimada de 250 quilotons.

    Mantém um programa nuclear ativo e cada vez mais sofisticado, violando normas internacionais.

    O Conselho de Segurança das Nações Unidas condena as atividades nucleares do país e impõe sanções cada vez mais severas às forças armadas e à economia norte-coreana. Em 2018, a Coreia do Norte anunciou a suspensão dos testes – um sinal para negociar um acordo de paz com os EUA, que ameaça retaliações, que por diversas vezes beiraram um confronto direto.

    Em 2022, Kim Jong Un já declarou uma possível retomada dos testes nucleares e de mísseis de longo alcance. “A política hostil e a ameaça militar dos Estados Unidos atingiram uma linha de perigo que não pode ser ignorada”, disse o Vale lembrar que o país conta com o apoio da China e, em menor medida, da Rússia.

    Bomba atômica brasileira?

    De acordo com o tratado, os cinco EANs têm o direito de manter suas bombas, mas os demais países que assinaram o TNP se comprometem a nem tentar construir armas nucleares – algo considerado injusto por algumas nações, pois concentra o poder de domínio e destruição mundial nas mãos das potências. Eles podem desenvolver tecnologia nuclear apenas para usinas de eletricidade, medicamentos, aparelhos médicos e outras atividades com fins pacíficos.

    “O Brasil tem, sim, tecnologia e capacidade para produção de armas nucleares, mas renunciou à sua produção e isso trouxe importantes impactos de soft power e smart power”, ressalta Brustolin. “Atualmente, temos um parque de centrífugas para enriquecer urânio e estamos produzindo um submarino com reator nuclear para movimentar os motores, garantindo autonomia de navegação por todo o extenso litoral.

    https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2022/02/09/qual-pais-tem-mais-armas-nuclearea.htm

    Há 30 anos, desintegrava-se a União Soviética, personagem central do século 20

    Desarmamento nuclear é nobre, mas algo limitado pela política (atividade)

    Prof Luciano Mannarino

  • Entenda a crise entre a Rússia de Putin, a Ucrânia e as forças da Otan

    Entenda a crise entre a Rússia de Putin, a Ucrânia e as forças da Otan

    Com ameaça de uso de força, presidente russo busca impor visão estratégica no Leste Europeu

    A grave crise no Leste Europeu que opõe a Rússia de Vladimir Putin à Ucrânia e ao Ocidente, representado pela sua aliança militar, a Otan, pode trazer a guerra de volta ao solo europeu.

    Ao mesmo tempo, as negociações em torno do impasse testam duas décadas de política de Putin e talvez seu futuro político — no poder desde 1999, ele mudou a Constituição e pode tentar ficar no cargo até 2036.

    Força de reserva ucraniana treina a defesa de Kiev, capital do país, no fim de 2021
    Força de reserva ucraniana treina a defesa de Kiev, capital do país, no fim de 2021 – Serguei Supinski – 25.dez.2021/AFP

    O presidente da Rússia, que assumiu sobre as ruínas dos dez anos de crise após o fim da União Soviética, trabalhou um plano geopolítico claro. Críticos o acusam de buscar restaurar o império comunista, mas suas preocupações são as mesmas de governantes do maior país do mundo desde tempos imperiais: aumentar a distância entre seu território e os adversários, perdida quando a união caiu, em 1991.

    Há outros pontos, como a proteção de russos étnicos que ficaram para trás, e a manutenção da popularidade, que tem na ideia de uma Rússia forte um de seus pilares. O adversário, claro, é a Otan, liderada pelos vencedores da Guerra Fria, os EUA.

    Três décadas depois, o Ocidente se vê encurralado pelos russos na Ucrânia, uma crise que Putin tenta resolver com um xeque-mate — ou um ippon, para ficar no judô que aprecia. A Folha resume o caminho que trouxe os dois países com os maiores arsenais nucleares do mundo frente a frente, novamente.

    O que está acontecendo na Ucrânia agora?

    No começo de novembro, Putin deslocou mais de 100 mil soldados e equipamentos para áreas próximas, relativamente, da Ucrânia. O vizinho, os EUA e a Otan o acusaram de planejar uma invasão militar, que ele nega.

    Tanques ucranianos fazem manobras perto de Donetsk
    Tanques ucranianos fazem manobras perto de Donetsk Forças Armadas da Ucrânia – 14.abr.2021/Via Reuters

    Mas o que existe lá que interessa a Putin? 

    Em 2014, o governo pró-Rússia de Kiev foi derrubado (golpe ou revolução, depende de quem conta). Putin percebeu que a Otan e a União Europeia poderiam absorver o vizinho e agiu, promovendo a anexação da Crimeia, um território étnico russo que havia sido cedido à Ucrânia nos tempos soviéticos, em 1954. E fomentou uma guerra civil de separatistas pró-Kremlin na região do Donbass, no leste da Ucrânia, que está no centro da confusão agora.

    A ONU disse o quê? 

    Ela não reconhece a Crimeia russa.

    Alguém reconhece? 

    Apenas oito aliados do Kremlin. Mas, na prática, a anexação é vista como um fato consumado na comunidade diplomática.

    E as áreas autônomas? 

    Aqui a coisa complica. Primeiro, porque não são tão homogêneas etnicamente; segundo, porque Putin não jogou todo seu peso militar para apoiar de forma decisiva os rebeldes.

    Mas isso não o interessava?

    Anexar o Donbass seria muito mais complexo e caro, além de ter evidente custo militar e humano. A prioridade de Putin é outra: evitar que a Ucrânia, ou qualquer outro país ex-soviético, entre na Otan e, de forma talvez mais secundária, na União Europeia.

    Por quê?

    Historicamente, os russos têm o seu flanco mais vulnerável no Leste Europeu. Por isso, tanto o Império Russo quanto a União Soviética ou dominavam ou tinham aliados na região. O ocaso soviético fez com que parte desses países fosse absorvida na esfera ocidental, e em 2004 a expansão da Otan chegou a três repúblicas que eram da união: Estônia, Letônia e Lituânia. Isso foi a gota d’água para Putin.

    Mas isso não seria uma questão dos países? 

    Sim, é o que diz o direito internacional e a lógica ocidental, quando lhe interessa. Politicamente, contudo, os EUA se comportaram como vencedores pouco magnânimos da Guerra Fria, perdendo a oportunidade de atrair a Rússia para uma parceria mais estável com seus aliados europeus.

    E então Putin agiu. 

    Ele primeiro travou uma guerra em 2008 na Geórgia, um país pequeno numa região explosiva, o Cáucaso, uma das rotas históricas de invasões e guerras —no caso, contra a Turquia. Nos dias de hoje, o problema lá é a infiltração de radicais islâmicos, como as duas guerras que Moscou lutou na Tchetchênia, que faz parte de seu território, demonstraram. No caso georgiano, o então presidente do país tinha uma atitude agressiva e foi visto como imprudente ao provocar os russos, dando a desculpa para que eles atacassem em nome da minoria étnica que povoa duas áreas do país. Resultado, hoje a Geórgia não controla 20% de seu território, o que na prática impede que ela se una à Otan.

    Que é exatamente o que Putin queria. 

    Sim, e é o motivo pelo qual ele é visto como um vilão no Ocidente, pelo uso de força bruta quando acha necessário. O passo seguinte foram as ações na Ucrânia, em 2014.

    E as sanções ocidentais tiveram efeito? 

    Há uma pressão sobre a Rússia, mas especialistas se dividem sobre o real impacto, porque a resultante das sanções foi um incremento no mercado interno, o maior descolamento do sistema financeiro internacional e uma certa diversificação da economia, que ainda é dependente da exportação de hidrocarbonetos (petróleo e gás).

    E a Europa segue comprando gás russo. 

    O gasoduto Nord Stream 2, completado no ano passado, permitirá à Rússia, quando a Alemanha liberar sua operação, retirar boa parte do trânsito do gás natural que vende aos europeus por meio de velhas linhas que passam pela Ucrânia. Assim, Kiev pode perder boa parte dos US$ 2 bilhões anuais que aufere em taxas. O Nord Stream 2 e seu irmão em operação, o ramal 1, ligam a Rússia à Alemanha pelo mar Báltico. Hoje, 40% do gás que a Europa consome vem do país de Putin, e os EUA lutam para inviabilizar o gasoduto porque consideram que os europeus fazem jogo duplo.

    Por que a Ucrânia não entrou na Otan e na UE?

    Pelo mesmo motivo da Geórgia: as regras dos clubes não permitem países com conflitos territoriais ativos. Isso torna conveniente o discurso ocidental, já que ninguém quer pagar para ver em um confronto direto com a Rússia. Assim, Kiev recebe apoio e algum armamento da Otan, mas não se esperam tropas em solo para sua defesa.

    E o que acontece agora?

    Putin quer ver implementados os Acordos de Minsk 2, de 2015, que congelaram a guerra civil no Donbass. Só que eles preveem um grau de autonomia às áreas russas que Kiev não aceita. Ao deslocar tropas, insinua que pode usar a força como em 2014, o que alguns acham ser blefe.

    Por quê?

    Porque o Exército ucraniano não pode derrotar o russo, mas causar um bom estrago. E uma invasão implicaria anexação de áreas, o que custa bilhões que Putin não dispõe. Fora o risco de a Otan mudar de ideia e defender Kiev, o que arriscaria uma escalada perigosa, talvez nuclear. Não por acaso, as cinco potências atômicas se comprometeram recentemente a nunca iniciar uma guerra com essas armas.

    Tanque russo atira durante treinamento no campo de Mulino
    Tanque russo atira durante treinamento no campo de Mulino Vadim Savitski – 11.set.2021/Ministério da Defesa da Rússia/via Reuters

    O que está sendo negociado?

    Russos e ocidentais não avançaram nas negociações iniciadas em meados de janeiro para debater os termos apresentados por Putin para pacificar a região. Ele “trucou”, pedindo compromisso do fim da expansão da Otan e retirada de forças da aliança de membros que entraram após 1997, ou seja, todo o bloco que era comunista. Isso não será aceito, mas pode haver concessões pontuais e o reinício de negociações sobre a Ucrânia, o que já será vendido em Moscou como uma vitória do líder.

    E qual a resposta? 

    Até aqui, é não, mas o fato de que diversas frentes de negociações foram abertas traz a esperança de que algum avanço venha a acontecer.

    Se não der certo, pode haver guerra?

    Sim, o risco é real, embora não seja necessariamente o cenário mais provável. Putin tem na mesa opções mais drásticas e perigosas, como tentar invadir totalmente a Ucrânia e depois deixar o país sob condições de que nunca entre na Otan, ou ações mais pontuais.

    E a Otan, faria o quê? 

    Joe Biden cometeu um erro e admitiu que uma ação limitada não deveria trazer as sanções econômicas devastadoras que promete aplicar ao Kremlin em caso de invasão. Tentou corrigir, mas o estrago foi feito. Além disso, países como a Alemanha, o mais forte economicamente da Europa, são reticentes em um embate direto com Putin, explicitando o racha na aliança.

    Em frente a monumento a mortos na Segunda Guerra, noiva e sargento da Marinha Russa dançam ao som de uma banda militar, tradição local
    Em frente a monumento a mortos na Segunda Guerra, noiva e sargento da Marinha Russa dançam ao som de uma banda militar, tradição local

    E a crise recente no Cazaquistão, como se encaixa nisso?

    Há duas teorias sobre o fato de protestos legítimos contra o aumento de combustível terem quase virado uma revolução, com gente armada nas ruas. Primeiro, que foi fomentada pelo Ocidente para enfraquecer Putin. Segundo, que foi obra do Kremlin para, resolvida rapidamente, o colocar em posição de força. Seja o que for, Putin saiu fortalecido.

    Há outras implicações? 

    A crise aproximou ainda mais a Rússia da China, que deu apoio a Putin e disse que ambos os países precisam se defender juntos do Ocidente. É uma tendência que já estava colocada, mas que pode ter efeitos no futuro próximo.

    Há alguma chance de uma Terceira Guerra Mundial com a China e a Rússia de um lado, e o Ocidente, do outro? 

    Isso é especulação pura, até porque tal conflito não interessaria a ninguém e teria uma grande chance de acabar com a civilização. Ainda assim, não passou despercebido que a China reiniciou seu embate com os EUA no Indo-Pacfício, reagindo a exercícios de dois porta-aviões americanos na sua vizinhança com mais uma grande incursão aérea contra Taiwan.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/01/entenda-a-crise-entre-a-russia-de-putin-a-ucrania-e-as-forcas-da-otan.shtml

    Questões

    Quais ações de Putin podem ser consideradas uma forma de restabelecer o antigo território da Ex URSS?

    Explique o contexto histórico da criação da OTAN

    De que forma a tensão na Ucrânia se relaciona com o fim da Guerra Fria?

    Geopolítica

    Prof Luciano Mannarino

  • Há 30 anos, desintegrava-se a União Soviética, personagem central do século 20

    Há 30 anos, desintegrava-se a União Soviética, personagem central do século 20

    Superpotência com vasto território não resistiu às políticas de abertura de Gorbatchov

    Jaime Spitzcovsky

    10.dez.2021 às 16h05

    “Acabou a União Soviética”, bradou a manchete da Folha a 26 de agosto de 1991. Em decisão editorial ousada, o jornal enfileirou naquela edição fatos responsáveis por descaracterizar, de forma irrecuperável, o império comunista criado por Vladimir Lênin.

    Símbolo da antiga União Soviética que ficava em uma avenida no centro de Moscou e hoje ocupa um parque histórico na capital russa – Alexander Nenemov/AFP

    No entanto, a formalização do ocaso bolchevique veio em dezembro daquele ano, há exatas três décadas, com a ofensiva política de Boris Ieltsin e a renúncia de Mikhail Gorbatchov.

    Em 1991, trabalhava eu em Moscou como correspondente da Folha. Ao desembarcar, no ano anterior, sabia da aproximação de momentos históricos, mas, certamente, não imaginava a desintegração da superpotência militar, protagonista da Guerra Fria e personagem central do século 20.

    No entanto, a formalização do ocaso bolchevique veio em dezembro daquele ano, há exatas três décadas, com a ofensiva política de Boris Ieltsin e a renúncia de Mikhail Gorbatchov.

    Em 1991, trabalhava eu em Moscou como correspondente da Folha. Ao desembarcar, no ano anterior, sabia da aproximação de momentos históricos, mas, certamente, não imaginava a desintegração da superpotência militar, protagonista da Guerra Fria e personagem central do século 20.


    O poderio bélico, exibido em trepidantes desfiles militares na praça Vermelha, e a impressionante vastidão territorial, unindo da fronteira polonesa ao extremo oriente asiático, pareciam cobrir com um manto de longevidade a sucessora do autoritarismo czarista.

    Avaliação equivocada. A máquina soviética, capaz de enviar o primeiro homem ao espaço (Iúri Gagárin, em 1961), fracassou na missão de prover algumas das necessidades básicas à população. Chegou a receber, na era Gorbatchov, ajuda humanitária internacional, com alimentos descarregados em pistas de pouso prontas a receber bólidos da poderosa Força Aérea vermelha.

    Ao assumir o poder, em 1985, Gorbatchov reconheceu o estado putrefato do sistema e, para salvá-lo e preservar o poder do Partido Comunista, lançou reformas políticas (glasnost, transparência em russo) e econômicas (perestroika, reestruturação). Em breve, perderia o controle do processo mudancista.

    A glasnost proporcionou liberdades inauditas, como de expressão e de prática religiosa. Na diplomacia, a busca pelo fim da dispendiosa corrida armamentista com os EUA culminou na eliminação da Guerra Fria. Gorbatchov ganhou, em 1990, o Prêmio Nobel da Paz.

    A “gorbimania” ocidental contrastava com a veloz deterioração da popularidade do dirigente no plano doméstico. A perestroika representou retumbante fracasso, com reformas tímidas e sem norte, desaguando na maior crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial.

    A paisagem moscovita emergia recortada por filas intermináveis, com soviéticos gastando horas à espera de pão ou de leite. Lojas estatais ofereciam prateleiras vazias.

    Gestava-se então o binômio crise econômica e separatismo, responsável por abreviar a aventura soviética. Líderes regionais, espalhados pela imensidão continental do país, de Brest a Vladivostok, responsabilizavam o Kremlin pela escassez de produtos e estimulavam sentimentos separatistas, prometendo avanços quando se livrassem do poder central, em Moscou.

    Líder da Rússia, a maior das 15 unidades a formar a multiétnica URSS, Boris Ieltsin abandonou o passado comunista, catalisou a insatisfação popular, incentivou o separatismo e se lançou como inimigo número um do sistema soviético e de Mikhail Gorbatchov.

    A 8 de dezembro, acompanhado dos líderes da Ucrânia e da Belarus, Ieltsin anunciou não mais reconhecer o poder soviético e decretou o fim da URSS. O mapa-múndi passou a desenhar 15 países onde havia apenas um.

    Gorbatchov tentou resistir. Porém, enfraquecido politicamente, renunciou a 25 de dezembro. A bandeira tricolor russa tremulou no Kremlin, no lugar da foice e martelo sobre um fundo vermelho.

    Deixei Moscou em 1994, para experimentar a estranha sensação de haver chegado a um país, a União Soviética, e, na saída, despedir-me de outro, a Rússia.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jaimespitzcovsky/2021/12/ha-30-anos-desintegrava-se-a-uniao-sovietica-personagem-central-do-seculo-20.shtml

  • Turquia desafia EUA e anuncia maior cooperação militar com a Rússia

    Turquia desafia EUA e anuncia maior cooperação militar com a Rússia

    Membro da Otan, país de Erdogan quer mais armas; movimento também é recado à Grécia

    30.set.2021 às 12h51

    Igor Gielow

    SÃO PAULO

    Em desafio direto aos EUA, com recado à rival Grécia e num reflexo da realidade geopolítica pós-retirada americana do Afeganistão, a Turquia anunciou o aprofundamento da cooperação militar com a Rússia.

    Na prática, o movimento significará a compra de uma segunda leva de sistemas antiaéreos S-400 e, posteriormente, a “construção de motores de aviões de combate, navios e projetos conjuntos, como submarinos”, de acordo com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

    Caça russo de quinta geração Su-57 em exibição no show aéreo Maks, perto de Moscou
    Caça russo de quinta geração Su-57 em exibição no show aéreo Maks, perto de Moscou – Dimitar Dilkoff – 20.jul.21/AFP

    Ele falava a jornalistas de seu país no avião presidencial ao voltar de uma reunião com o russo Vladimir Putin no balneário de Sochi, nesta quinta (30).

    Segundo ele, foi discutido “como impulsionar a cooperação militar a um nível superior”. Enquanto ideias de planos conjuntos são provavelmente apenas hipotéticas e geralmente retóricas, a questão dos S-400 é bem real, e o conjunto da obra representa um problema para o Ocidente.

    Na newsletter de Mundo, semanalmente, as análises sobre os principais fatos do globo, explicados de forma leve e interessante.

    A Turquia é um dos membros mais estratégicos da Otan, a aliança militar liderada pelos EUA, por ser o único que integra também o Oriente Médio.

    Da base turca de Incirlik, onde há talvez 50 bombas nucleares táticas americanas estocadas, partiram diversos ataques ocidentais nos conflitos na região nas últimas décadas.

    Em 2018, a Turquia anunciou que iria comprar o poderoso S-400, considerado um dos mais eficazes sistemas de defesa aérea do mundo. Os EUA protestaram, mas Erdogan foi em frente e, em 2019, começou a receber sua encomenda de US$ 2,5 bilhões (R$ 13,65 bilhões, na cotação atual).

    Ato contínuo, os americanos desligaram Ancara do programa de desenvolvimento do caça de quinta geração furtivo ao radar F-35, já com 4 de 30 aviões prontos para entrega aos turcos, que iriam produzir partes da aeronave dentro da cadeia produtiva internacional do modelo.

    Veículo militar russo (cinza) lidera comboio com turcos na província síria de Hasakeh
    Veículo militar russo (cinza) lidera comboio com turcos na província síria de Hasakeh Delil Souleiman – 14.jul.2021/AFPMAIS 

    Erdogan já havia gasto US$ 1,4 bilhão (R$ 7,64 bilhões) no projeto e negocia reparações. A alegação americana era a de que operar o S-400 no mesmo ambiente que o F-35 poderia revelar ao sistema russo eventuais fragilidades do caça americano.

    O problema colocado é a suspeita americana de que poderia haver algum tipo de acesso a essas informações pelos russos, que ajudam os turcos a operacionalizar os sistemas.

    A Otan também chiou, dado que a aliança preza pela interoperacionalidade dos sistemas de armas que emprega, para ter unidade em caso de conflito justamente com a Rússia.

    O corolário da situação, de que o clube teria acesso ao funcionamento de uma arma temida do adversário, foi convenientemente esquecido no debate. Mais grave, os EUA aplicaram sanções econômicas à Turquia no fim de 2020, como punição pela aquisição.

    A questão maior, claro, é política. Desde 2014, quando Putin anexou a Crimeia para evitar que a derrubada do governo pró-Kremlin em Kiev jogasse a Ucrânia no colo da Otan, como o país deseja até hoje, a relação entre a aliança e Moscou é a pior desde a Guerra Fria.

    Em junho, houve um grave incidente no processo, no qual um navio britânico passou por águas que a Rússia considera suas perto da península anexada no mar Negro e foi recebido com tiros reais de advertência e bombas jogadas por caças. Isso na esteira de uma quase volta do conflito na Ucrânia.

    De seu lado, Erdogan tem ampliado a posição de independência ante a um Ocidente do qual desconfia, em especial depois que os EUA se recusaram a extraditar o acusado de inspirar o golpe de Estado frustrado que sofreu em 2016.

    Caças Sukhoi Su-27 disparam flares em exibição aérea
    Caças Sukhoi Su-27 disparam flares em exibição aérea Serguei Karpukhin /ReutersMAIS 

    Nesse balé entra Putin, com quem a Turquia tem uma complexa relação de disputa e cooperação. Os países, que quase foram às vias de fato por apoiar lados diferentes na guerra civil Síria, hoje mantêm uma tensa ação conjunta por lá.

    Já na Líbia, as diferenças continuam, com acusações mútuas. No Cáucaso, em 2020, Erdogan jogou alto ao apoiar com armas e logística a ofensiva azeri que derrotou a Armênia, aliada russa, e reconquistar parte das perdas territoriais que Baku havia sofrido nos anos 1990.

    Os russos intervieram de forma relutante, dado que o então governo armênio não era muito simpático a Putin, e saíram como garantidores da paz, ainda instável. Mas uma nova realidade regional se mostrou.

    A indústria militar turca tem feito notáveis avanços, com, por exemplo, uma ampla família de drones. O Bayraktar-TB2 fornecido aos azeris é visto como um dos fatores do sucesso na guerra do ano passado.

    Mas, até por ser uma potência média, Ancara enfrenta problemas com desenvolvimentos mais ambiciosos. Planeja seu próprio caça de quinta geração, para substituir os 260 F-16 que seriam paulatinamente trocados pelos F-35.

    Agora, ao falar em cooperação em motores de caça, na realidade namora a ideia de comprar equipamentos russos que já lhe foram ofertados antes. Seriam modernos e bem-sucedidos caças Su-35 e talvez até modelos de quinta geração Su-57, com acidentada carreira, ou o planejado Sukhoi Checkmate.

    Já a questão dos submarinos pode introduzir modelos diesel-elétricos da classe Kilo nos estaleiros de Gölcük, que há anos produzem modelos alemães sob licença. Ancara opera 12 submarinos. Mas esse é um plano menos tangível a essa altura. Há também a rival histórica turca Grécia, que, assim como a Turquia, faz parte da Otan e com quem tem diferenças na bacia do Mediterrâneo.

    Casa bombardeada durante a guerra em Stepanakert, capital de Nagorno-Karabakh
    Casa bombardeada durante a guerra em Stepanakert, capital de Nagorno-Karabakh Cassiana Der Haroutiounian/FolhapressMAIS 

    Nas últimas semanas, o governo em Atenas anunciou um pacote de compras militares da França: três fragatas e ampliação de um pedido de caças avançados Rafale para 24 unidades, tudo ao custo de € 6,8 bilhões (R$ 42,97 bilhões).

    A posição turca reflete também novos tempos. A retirada americana do Afeganistão, deixando o frágil governo fantoche do país à mercê da retomada do poder pelo Talibã, foi lida em todos os cantos como um recado sobre o comprometimento de Washington com seus aliados.

    Na semana passada, Erdogan, que tem uma política externa audaciosa e que não limita cartas militares, deixou isso claro. “No futuro, ninguém vai poder interferir no tipo de sistemas de defesa que nós vamos adquirir”, afirmou à rede americana NBC.

    Já o Departamento de Estado respondeu em nota, afirmando que “nós exortamos a Turquia a não manter o sistema S-400 e a não comprar nenhum outro equipamento militar russo”.

    Não parece que deu muito certo, colocando do mesmo lado russos e turcos, que têm interesses estratégicos divergentes, mas pragmatismo de sobra.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/09/turquia-desafia-eua-e-anuncia-maior-cooperacao-militar-com-a-russia.shtml

    Questão

    1) Explique o último parágrafo do texto.

    2) O que é OTAN e como ela surgiu?

    3) Por que a ascensão do Talibã no Afeganistão preocupa Ancara?

    4) Aponte um elemento que vem adiando a entrada da Turquia na UE.

    5) De que forma a presença de bombas atômicas americanas no território Turco se liga ao contexto da Guerra Fria?

    6) Qual a relação que a Guerra Civil na Síria tem com a “Primavera Árabe”?

    Prof Luciano Mannarino

    A GEOPOLÍTICA DO PÓS GUERRA (vídeo e atividades)

  • O discurso no tanque e o fim da URSS

    O discurso no tanque e o fim da URSS

    Há 30 anos, Boris Ieltsin resistiu a golpe contra perestroika e acelerou desintegração soviética

    6.ago.2021 às 23h15

    Temor e incerteza dominavam o auditório principal do Parlamento russo. Lá, instalou-se o epicentro da resistência ao golpe de Estado arquitetado para eliminar a perestroika e levar a URSS de volta à ortodoxia soviética. Depois de ouvir discursos em defesa das reformas, abandonei o prédio, em busca de mais notícias sobre aquele 19 de agosto de 1991, há exatos 30 anos.

    Na rua, diante da cena golpista clássica, avistei tanques de guerra. Fui, de imediato, surpreendido por uma multidão cruzando a porta do Parlamento, em marcha resoluta. Identifiquei na aglomeração, entre guarda-costas e apoiadores, o líder russo e ultrarreformista Boris Ieltsin.

    Segui a turba. Ieltsin subiu num blindado enviado pelos golpistas. O tanquista, atordoado, aceitou o aperto de mão do líder russo. A máquina de guerra virou palanque, e o timoneiro da resistência discursou: “A reação não passará!”.

    O então presidente da Rússia, Boris Ieltsin, participa de uma coletiva de imprensa em Bonn, na Alemanha
    O então presidente da Rússia, Boris Ieltsin, participa de uma coletiva de imprensa em Bonn, na Alemanha – Viktor Korotayev – 9.jun.98/Reuters

    Proféticas as palavras ielstinistas. Em apenas três dias, o golpe orquestrado por comunistas ortodoxos desmoronou, junto com o plano de afastar, do Kremlin, Mikhail Gorbatchov, pai da perestroika.

    Concebida para salvar a URSS da onda separatista a rasgar o império criado por Vladimir Lênin a partir de 1917, a intentona produziu o efeito contrário. Seu fracasso acelerou tendências nacionalistas e contribuiu de forma decisiva para a desintegração soviética.

    A imagem de Ieltsin sobre o tanque, numa ousadia a desnortear golpistas esperando a resignação de um homo sovieticus, galvanizou a resistência. Transformou-se em ícone do momento histórico e da irrefreável ascensão do ieltsinismo.

    Ieltsin governava a Rússia, a maior das 15 repúblicas (na prática, províncias) da URSS e rivalizava com o presidente Gorbatchov, a quem criticava pela lentidão das reformas. Ambicionava chegar ao Kremlin e desafiava o governo central, apoiando a drenagem de poder para autoridades regionais.

    A vitória em agosto de 1991 fez a balança política pender decisivamente para Ieltsin. Quatro meses depois, ao lado de mais dois líderes regionais, da Ucrânia e de Belarus, o mandachuva russo anunciou ignorar o poder central, ocupado por Gorbatchov, e proclamou o fim da URSS. O mapa-múndi passou a desenhar 15 países independentes onde antes havia um império vermelho.

    Exaltado no Ocidente pelo papel no descarte da Guerra Fria, Gorbatchov enfrentava no plano doméstico formidável processo de corrosão política. A perestroika havia trazido liberdades inéditas, mas também a maior crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial.

    A Perestroika e Glasnost

    A Perestroika (do russo, 'reconstrução') foi, junto a Glasnost ('transparência'), a principal plataforma política de Mikhail Gorbatchov. As medidas visavam a democratização da União Soviética e a abertura para a economia de mercado
    A Perestroika (do russo, ‘reconstrução’) foi, junto a Glasnost (‘transparência’), a principal plataforma política de Mikhail Gorbatchov. As medidas visavam a democratização da União Soviética e a abertura para a economia de mercado A

    A falência do modelo soviético alimentou tendências separatistas pelo gigantesco país, a se estender da fronteira com a Polônia até os mares do Alasca. E culpava-se Gorbatchov pela debacle econômica.

    O patriarca das reformas navegava entre pressões dos separatistas e de um establishment conservador empenhado em manter o império intacto. Comunistas refratários às reformas viram na aventura golpista uma saída derradeira, mas erraram o cálculo ao ignorarem a capacidade de Ieltsin de mobilizar forças contra a conspiração de estilo brejnevista.

    Quando cheguei ao escritório, após testemunhar a cena histórica de Ieltsin sobre o tanque, liguei a TV. Peguei a leitura dos comunicados oficiais dos conspiradores e, em seguida, um programa monótono a mostrar uma “União Soviética feliz”.

    Os autores do complô achavam viver ainda nos anos 1960, quando um golpe conservador liderado por Leonid Brejnev derrubou Nikita Khruschov. Os tempos, no entanto, eram outros. E até mesmo a URSS deixou de existir.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jaimespitzcovsky/2021/08/o-discurso-no-tanque-e-o-fim-da-urss.shtml

    Questões

    1 O colapso da exURSS foi devido a uma conjunção de fatores? Justifique.

    2 Qual o papel de Gorbatchov no arrefecimento da “Guerra Fria”?

    3 O que pretendia Ieltsin no improvisado discurso do Tanque?

    4 Alguns estudiosos afirmam que a China realizou a Perestroika, mas ficou devendo a Glasnost. Você concorda? Justifique.

    Prof Luciano Mannarino

    Homenagem a roqueiro soviético e fala de Gorbatchov sobre Belarus remetem aos anos 1990

    Ucrânia pede ajuda à Otan contra a Rússia, que dá recado militar

    Biden aceita acordo de armas nucleares com a Rússia, mas sinaliza pressão