Categoria: Ásia

  • Antes da avalanche no Himalaia, Índia ignorou alertas sobre riscos

    Antes da avalanche no Himalaia, Índia ignorou alertas sobre riscos

    Cientistas avisaram que ecossistema estava fragilizado demais para suportar grandes projetos de desenvolvimento

    9.fev.2021 às 23h15

    NOVA DÉLI | THE NEW YORK TIMES

    Muito antes de as inundações chegarem, arrastando centenas de pessoas e destruindo pontes e barragens recém-construídas, os sinais de perigo já estavam claros.

    A cordilheira do Himalaia vem esquentando em velocidade alarmante há anos, derretendo gelo contido por milênios em geleiras, no solo e nas rochas e elevando o risco de enchentes e deslizamentos de terra devastadores.

    Cientistas avisaram que os moradores das proximidades corriam risco e que o ecossistema da região estava fragilizado demais para suportar grandes projetos de desenvolvimento.

    O governo indiano, porém, passou por cima das objeções de especialistas e dos protestos da população local, explodindo rochas e construindo hidrelétricas em áreas voláteis como aquela onde ocorreu a avalanche no domingo (7), no estado de Uttarakhand, no norte do país.

    Enchente no vilarejo de Chamoli, em Uttarakhand, na Índia – Reuters

    Autoridades informaram na segunda (8) que foram recuperados os corpos de 26 vítimas, enquanto as buscas por quase 200 desaparecidos continuam. Uma enxurrada de água e destroços desceu pelos vales montanhosos íngremes do rio Rishiganga, aniquilando tudo em seu caminho. As vítimas eram, em sua maioria, operários nas obras de hidrelétricas.

    Moradores de vilarejos disseram que as autoridades responsáveis pelos projetos de desenvolvimento da região não os prepararam para o que estava por vir, difundindo um falso senso de confiança de que não aconteceria nada.

    “O governo não ofereceu ao vilarejo nenhum programa ou treinamento para administrar um desastre”, disse Bhawan Singh Rana, chefe do vilarejo de Raini, um dos mais que sofreu os maiores impactos. “Nosso vilarejo está em cima de rochas. Nosso medo é que elas possam deslizar a qualquer momento.”

    As forças de segurança direcionaram seus esforços para um túnel onde 30 pessoas estariam presas, e alimentos foram lançados pelo ar para 13 vilarejos cujas estradas de acesso foram bloqueadas e onde há 2.500 pessoas isoladas.

    Vista do local onde membros da Força Nacional conduziram a operação de resgate, depois que a geleira se rompeu
    Vista do local onde membros da Força Nacional conduziram a operação de resgate, depois que a geleira se rompeu – Anushree Fadnavis/Reuters

    A devastação das inundações em Uttarakhand voltou a chamar a atenção para o frágil ecossistema do Himalaia, onde milhões de pessoas estão sentindo o impacto do aquecimento global.

    O Banco Mundial avisou que a mudança climática pode prejudicar gravemente as condições de vida de até 800 milhões de pessoas no sul da Ásia. Mas os efeitos já estão sendo sentidos, frequentemente de modo letal, em grandes extensões na cordilheira do Himalaia, do Butão ao Afeganistão.

    A região tem cerca de 15 mil geleiras, e elas estão recuando entre 30 e 60 metros por década. O gelo derretido expande ou cria milhares de lagos glaciais que podem romper repentinamente a barreira de gelo e os escombros rochosos que as contêm, provocando inundações catastróficas.

    Grande número de lagos glaciais no Nepal, Butão, Índia e Paquistão já foi classificado como um perigo iminente pela entidade intergovernamental Centro Internacional de Desenvolvimento Montanhoso Integrado.

    O Nepal é especialmente vulnerável ao problema; a mudança climática vem forçando vilarejos inteiros no país a migrar para terras mais baixas para poderem sobreviver à crise hídrica crescente. Inundações imprevistas e mortíferas vêm ocorrendo com mais frequência, algumas delas causadas pelo rompimento de barreiras de lagos glaciais.

    Cientistas já lançaram avisos reiterados de que a construção de projetos de desenvolvimento na região é uma aposta de alto risco, com potencial para agravar a situação.

    Ravi Chopra, diretor do Instituto de Ciência Popular, em Uttarakhand, disse que um grupo de especialistas criado pelo governo em 2012 recomendou que não fossem construídas barragens na bacia de Alaknanda-Bhagirathi, que abrange o rio Rishiganga.

    Chopra fez parte de um comitê de cientistas nomeados pela Suprema Corte da Índia em 2014 e que também desaconselhou a construção de barragens na chamada “zona paraglacial”, que ele descreveu como uma área em que o chão do vale fica a mais de 2.100 metros acima do nível do mar.

    “Mas o governo optou por construir as barragens mesmo assim”, ele disse. As duas hidrelétricas atingidas pela inundação do domingo foram construídas nessa zona. Uma delas foi completamente destruída e a outra, gravemente danificada.

    O Everest, no Nepal, é a montanha mais alta do mundo e já foi escalado por mais de 2.000 pessoas
    Everest recebe uma maratona em 29 de maio de 2014
    Everest recebe uma maratona em 29 de maio de 2014 Himex – 29.mai.2014

    O cientista D.P. Dobhal, ex-funcionário do Instituto Wadia de Geologia do Himalaia, pertencente ao governo, disse: “Quando construímos projetos no Himalaia como hidrelétricas, estradas ou ferrovias, os dados de estudos das geleiras nunca são incluídos ou levados em conta nos relatórios detalhados dos projetos”.

    O governo está construindo mais de 800 km de rodovias em Uttarkhand para melhorar o acesso a vários importantes templos hindus, apesar das objeções de ambientalistas ao desmatamento maciço necessário, que pode acelerar a erosão e aumentar a possibilidade de deslizamentos de terra.

    Um comitê nomeado pela Suprema Corte da Índia e chefiado por Chopra concluiu no ano passado que, ao construir a rodovia com largura de 10 metros, o governo contrariou a recomendação de seus próprios especialistas do ministério dos Transportes.

    O governo argumentou que uma rodovia mais larga garante mais dividendos econômicos e é necessária para o potencial envio de equipamentos militares de grande porte para a fronteira disputada com a China.

    Quando a Suprema Corte decidiu que a rodovia não poderia passar de 5,5 metros de largura, centenas de hectares de floresta e dezenas de milhares de árvores já haviam sido derrubadas, segundo reportagem do site de notícias indiano The Scroll.

    “Quando você tem especialistas de seu próprio ministério lhe dizendo que as estradas na região do Himalaia não podem ter uma superfície asfaltada de mais de 5,5 metros de largura, e então você passa por cima das recomendações deles, é um problema sério”, disse Chopra. “A não ser que os tribunais estudem a possibilidade de punir e responsabilizar autoridades pessoalmente, acho que a situação não vai mudar.”

    Trivendra Singh Ranwat, ministro chefe de Uttarakhand, disse que as inundações não devem ser vistas como “razão para construir uma narrativa antidesenvolvimentista”.

    Bandeiras budistas de oração no acampamento-base de Annapurna, no Nepal; o guia de montanha e fotógrafo Edson Vandeira, 29, visitou o país pela primeira vez entre abril e maio desse ano
    Bandeiras budistas de oração no acampamento-base de Annapurna, no Nepal; o guia de montanha e fotógrafo Edson Vandeira, 29, visitou o país pela primeira vez entre abril e maio desse ano Edson Vandeira

    “Reitero o compromisso de nosso governo em desenvolver as montanhas de Uttarakhand de maneira sustentável”, disse Rawat no Twitter. “Faremos tudo e passaremos por cima de todos os obstáculos para garantir que essa meta seja alcançada.”

    O vilarejo de Reini ficava em uma das áreas mais atingidas no domingo, quando a hidrelétrica de Rishiganga, de 13 megawatts, foi totalmente destruída. Depois da enxurrada, cem dos 150 moradores do povoado passaram a noite ao relento.

    “Não dormimos nas nossas casas, temendo que venha mais água, que as rochas sejam deslocadas, que alguma coisa mais perigosa aconteça”, disse Rana, o chefe do vilarejo. “Levamos nossas cobertas para a floresta, fizemos algumas fogueiras e passamos a noite assim.”

    Nos anos 1970 a área foi palco de um protesto ambientalista contra o desmatamento, algo que estampou as manchetes dos noticiários. Manifestantes, muitas delas mulheres, abraçavam árvores para impedir que fossem derrubadas. O movimento ficou conhecido como “chipko”, ou abraço.

    Rana disse que os moradores da vila também fizeram protestos contra a construção da hidrelétrica de Rishiganga, que começou a gerar eletricidade no ano passado. Chegaram a mover ações judiciais, mas isso não surtiu efeito. Eles temiam que a explosão de rochas provocasse deslizamentos de terra com efeitos fatais.

    “Ouvíamos explosões e víamos as rochas se movendo”, disse. “Quando esta hidrelétrica estava sendo construída, metade de nosso vilarejo foi levado num deslizamento. Pedimos para ser transferidos para outro local. O governo disse que faria isso, mas não aconteceu nada.”

    Tradução de Clara Allain

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/02/antes-da-avalanche-no-himalaia-india-ignorou-alertas-sobre-riscos.shtml

    Prof Luciano Mannarino

    O que é uma Cadeia de Montanha?

    TEORIA DA DERIVA CONTINENTAL (VÍDEO)

    Terremotos!

    ACORDO DE PARIS É SINAL DOS TEMPOS

    China e Índia se acusam de violar cessar-fogo em fronteira no Himalaia

  • EUA, Japão, Austrália e Índia desafiam China e prometem Indo-Pacífico livre e aberto

    Encontro de chanceleres do grupo Quad tem retórica agressiva puxada por Mike Pompeo

    Igor Gielow

    SÃO PAULO

    Estados Unidos, Japão, Austrália e Índia fizeram uma demonstração de força contra a China durante encontro de seus ministros de Relações Exteriores em Tóquio.

    Eles formam o chamado Quad, sigla inglesa pra Diálogo de Segurança Quadrilateral, grupo que foi ressuscitado em 2017 para buscar criar o que a China já chamou de “mini-Otan” no Pacífico, aludindo à aliança militar americana na Europa contra os soviéticos e, depois, os russos.

    Da esq. para a dir., os chanceleres Subrahmanyam Jaishankar (Índia), Marise Payne (Austrália), Pompeo (EUA) e Motegi (Japão), no encontro do Quad em Tóquio
    Da esq. para a dir., os chanceleres Subrahmanyam Jaishankar (Índia), Marise Payne (Austrália), Pompeo (EUA) e Motegi (Japão), no encontro do Quad em Tóquio – Kiyoshi Ota/AFP

    Os ministros prometeram tomar medidas concretas para manter a região do Indo-Pacífico “livre e aberta”, um recado direto às pretensões em curso de Pequim, de controlar 85% do mar do Sul da China, sua principal saída comercial com o mundo.

    Não houve, contudo, a temida provocação por parte do mais belicoso dos chanceleres, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, com uma inédita visita surpresa a Taiwan, que a China considera uma ilha rebelde.

    Pompeo foi quem tomou a frente em termos de retórica. “Como parceiros, é mais crítico agora do que nunca que nós colaboremos para proteger nossos povos da exploração, corrupção e coerção do Partido Comunista Chinês. Nós as vemos nos mares do Sul e do Leste da China, no Mekong, nos Himalaias, no estreito de Taiwan”, afirmou.

    O secretário buscou efeito midiático máximo no momento em que seu chefe está atrás nas pesquisas da corrida eleitoral, que acaba em 3 de novembro. O tema China sempre catalisou apoio para Donaldo Trump.

    Mas não é só isso. A fala seguiu o tom usual do secretário, visto como um dos principais “falcões” da Guerra Fria 2.0 proposta por Trump ao chegar ao poder em 2017.

    O próprio Quad, que agora terá reuniões anuais de seus ministros, é resultado dessa nova realidade. Ele existiu brevemente em 2007, mas acabou por falta de apetite dos membros em confrontar a China. Foi reanimado.

    China celebra 70 anos da Revolução Comunista

    O líder chinês Xi Jinping desfila em carro aberto
    O líder chinês Xi Jinping desfila em carro aberto Thomas Peter/Reuters

    Neste 2020, o cenário é particularmente mais complexo, ainda que o risco de guerra ampla seja considerado baixo. A Índia, que sempre viu o grupo como uma forma de pressionar a China em suas negociações comerciais, está efetivamente do lado dos EUA desde que houve os embates citados por Pompeo nos Himalaias.

    Nova Déli e Pequim disputam fronteira naquela região e montaram uma escalada militar, ora congelada com mediação de Moscou, depois que escaramuças deixaram dezenas de mortos em junho.

    Já a Austrália tomou a frente das críticas aos chineses pela condução inicial da pandemia do novo coronavírus, surgida em Wuhan. Hoje isso é uma pedra de toque da administração Trump, e mesmo nesta terça Pompeo voltou a falar no “vírus chinês”.

    “Seja em direitos humanos individuais, economias de mercado, combatendo desinformação ou construindo maior resiliência em nossas cadeias produtivas, nossos valores e interesses comuns significam que dividimos uma visão de um Indo-Pacífico livre, aberto e próspero”, escreveu no Facebook a chanceler australiana, Marise Payne, depois do encontro.

    A Índia foi menos assertiva em sua mensagem, mas o tom mais frio veio por parte dos anfitriões. O governo do premiê Yoshihide Suga acaba de assumir, e ele irá receber o chanceler chinês neste mês.

    Testando ainda o terreno, o chanceler japonês, Toshimitsu Motegi, não citou a China em sua fala inicial, ainda que relatos posteriores indiquem que a questão das ilhas que Pequim reivindica para si hoje sob controle de Tóquio foi discutida.

    Nos últimos anos, o antecessor de Suga, Shinzo Abe, promoveu uma ativa remilitarização do Japão, país de conturbado passado expansionista e forte tendência pacifista.

    Navios da Marinha japonesa, com o destróier Kurama à frente, durante parada ao sul de Tóquio
    Navios da Marinha japonesa, com o destróier Kurama à frente, durante parada ao sul de Tóquio – Toru Hanai – 18.out.2015/Reuters

    Pompeo foi embora do Japão, tendo encurtado o que seria uma visita à Mongólia e à Coreia do Sul, o que ensejava o temor de uma “esticadinha” em Taiwan entre os chineses. Ele retornou devido ao diagnóstico de Covid-19 de Trump.

    Desde agosto, duas autoridades americanas estiveram na ilha, o que implica um reconhecimento diplomático que não existe no papel —EUA e China têm relações desde 1979.

    A reação chinesa seria inevitável, na forma de alguma demonstração de poderio militar no estreito de Taiwan, o que sempre pode sair do controle.

    O encontro desta terça também abriu o caminho para que a Austrália faça parte dos exercícios militares navais anuais que unem Índia e EUA desde 1992 e, a partir de 2015, integraram também o Japão.

    Chamadas de Malabar, as manobras atuam em áreas de interesse estratégico da China. Observando um mapa, a posição dos membros do Quad explicita um cerco geopolítico que Pequim não tem como deixar de notar, apesar das declarações minimizando a eficácia do grupo por parte da chancelaria chinesa.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/10/eua-japao-australia-e-india-desafiam-china-e-prometem-indo-pacifico-livre-e-aberto.shtml

    Questões

    1. Por que o governo chinês chama o Quad de mini-OTAN?

    2. Explique a permanente tensão entre a China e a Ilha de Formosa.

    3. O seria a Guerra Fria 2.0?

    4. A remilitazação do Japão é apoiada pelos EUA? Justifique.

    Prof Luciano Mannarino

  • Homenagem a roqueiro soviético e fala de Gorbatchov sobre Belarus remetem aos anos 1990

    Banda Kino, que simboliza a era da perestroika, vai se reunir 30 anos após morte de seu líder

    2.out.2020 às 22h00

    O vídeo preencheu a tela do computador. Ecoaram guitarras e sons do rock da perestroika. O clipe notificava o adiamento, para 2021, do show com o reencontro de remanescentes da banda Kino, cerca de 30 anos após a morte de seu líder, Viktor Tsoi.

    Motivo da mudança na agenda: a pandemia.

    Criada em 1982, a roqueira Kino (cinema, em russo) simboliza a era das reformas de Mikhail Gorbatchov. A morte precoce de Tsoi, em acidente automobilístico, ceifou produção musical responsável por refletir, com precisão artística, angústias e dificuldades da população soviética.

    Turistas tiram foto em frente à imagem de Viktor Tsoi em um muro de Moscou
    Turistas tiram foto em frente à imagem de Viktor Tsoi em um muro de Moscou – Alexander Nemenov-17.ago.20/AFP


    As últimas semanas me ofereceram alusões aos anos 1980 e 1990, talhados pela queda do Muro de Berlim, pelo fim da Guerra Fria e pela desintegração da URSS. Lembrei-me de Tsoi e ouvi Gorbatchov.

    Após chegar ao Kremlin, em 1985, Gorbatchov deslanchou reformas batizadas de glasnost, para o campo político, e de perestroika, arquitetada para revitalizar a moribunda economia planificada.

    As iniciativas carregavam o objetivo de modernizar e salvar o partido comunista, mas fracassaram. Escancararam a inviabilidade do sistema, aprofundaram a crise econômica e aceleraram o desmonte do regime.

    Gorbatchov, embora malsucedido na estratégia doméstica, gravou seu nome de maneira indelével na história do século 20, ao garantir o fim da Guerra Fria e ao defender a cooperação global. Foi agraciado com o Nobel da Paz, em 1990.

    Do alto de seus 89 anos, o pai da glasnost se pronunciou recentemente sobre a crise na Belarus, ex-república soviética onde manifestações exigem a renúncia do ditador Aleksandr Lukachenko. Gorbatchov sinalizou apoio aos atos pró-democracia e pediu uma solução interna, sem ingerência estrangeira.

    Testemunha do fim da divisão geopolítica do continente europeu nos anos 1980, Gorbatchov advertiu sobre os riscos de a crise bielorrussa corroer ainda mais as relações entre a Rússia, fiadora de Lukashenko, e a União Europeia, interessada na mudança de regime em Minsk.

    A opinião de Gorbatchov e sons do grupo Kino se mesclaram em minha mente. A música “Peremen” (mudanças, em russo), composta e celebrizada pelo vocalista Viktor Tsoi, transformou-se em trilha sonora de atos pró-democracia na Belarus, repetindo tradição iniciada há cerca de três décadas, após o surgimento da principal banda da história do rock soviético.

    A contestação embalou a carreira de Tsoi. Rotulado pela ortodoxia vermelha como “movimento contrarrevolucionário”, o rock na era Gorbatchov canalizava a indignação dos jovens com o pântano burocrático e autoritário do decrépito sistema soviético.

    50 dias de protesto na Belarus

    Manifestante usa máscara da principal candidata de oposição a Lukachenko na eleição presidencial, que ocorreu em agosto
    Manifestante usa máscara da principal candidata de oposição a Lukachenko na eleição presidencial, que ocorreu em agosto Tut.by/AFP/

    Em 1987, o cinema oficial da perestroika lançou “Assa”, retrato da debacle soviética. A cena final é antológica. Nela, Tsoi conversa com a funcionária de um restaurante estatal responsável pelos trâmites para sua apresentação noturna aos comensais.

    A burocrata, em clássico estilo dos tempos brejnevistas, atormenta o imberbe cantor com pedidos de certificados e autorizações. Tsoi perde a paciência, deixa a interlocutora falando sozinha e junta-se à banda, para entoar, num cântico às reformas, “Peremen”. Sobem então os letreiros finais.

    A canção voltou à política em 1991, quando comunistas ortodoxos, num golpe de Estado fracassado, tentaram eliminar a perestroika. Adversários do golpismo usavam alto-falantes no centro de Moscou para espalhar acordes de “Peremen”.

    Tsoi, no entanto, não testemunhou aquele momento. Havia morrido em 15 de agosto de 1990.

    O filho, Alexander, planejava reunir, em 2020, os remanescentes da banda. Mas as mensagens do inconformismo de Tsoi voltarão aos palcos apenas no próximo ano.Jaime Spitzcovsky

    Jornalista, foi correspondente da Folha em Moscou e Pequim.

    Questão

    1. Qual foi o contexto político da criação música “Peremen” da Banda Kino e por que hoje ela se torna a “trilha sonora de atos pró-democracia na Belarus”?

    2. O que seriam “tempos brejnevistas” e como eles se relacionam com a Glasnost e a perestroika?

    3. Por que “Gorbatchov, embora malsucedido na estratégia doméstica, gravou seu nome de maneira indelével na história do século 20”?

    Prof Luciano Mannarino

  • Armênia rejeita mediação de Putin, e conflito piora com Azerbaijão

    Armênia rejeita mediação de Putin, e conflito piora com Azerbaijão

    Russo atua com contenção e evita apoio ao aliado igual ao dado pela Turquia a Baku

    30.set.2020 às 9h32

    SÃO PAULO

    Igor Gielow

    A Armênia descartou uma mediação russa no conflito com o Azerbaijão, que entrou no quarto dia com alguns dos combates mais duros entre os dois países nesta crise.

    “Não é muito apropriado falar de uma reunião entre Armênia, Azerbaijão e Rússia enquanto há hostilidades intensas”, disse nesta quarta (30) a jornalistas russos o premiê Nikol Pashinyan.

    Azeri chora sobre caixão de soldado que teria sido morto em combate com armênios, no distrito de Beylagan
    Azeri chora sobre caixão de soldado que teria sido morto em combate, no distrito de Beylagan – Tofik Babaiev/AFP

    A frase veio um dia depois de ele conversar ao telefone com o presidente russo, Vladimir Putin, pela segunda vez desde domingo, quando os ataques começaram na disputada região de Nagorno-Karabakh.

    Ela explicita o incômodo com a posição de cautela do Kremlin em relação a seus aliados armênios, que contrasta com os tambores de guerras tocados na Turquia de Recep Tayyip Erdogan para estimular seus protegidos azeris.

    “Estamos juntos com o Azerbaijão na mesa de negociação e no campo de batalha. Essas não são palavras vazias”, disse também nesta quarta à agência turca Andalu o chanceler do país, Mevlut Cavusoglu.

    Os motivos de Putin são claros. Primeiro, ele não quer antagonizar-se explicitamente com Erdogan, com quem divide parcerias e rivalidades, para não abrir uma frente de turbulência em sua fronteira sul ao mesmo tempo em que lida com a crise no flanco oeste, na sua turbulenta aliada Belarus.

    Segundo, Putin não gosta de Pashinyan, que chegou ao poder em 2018 após a queda de um amigo pessoal e aliado, Serzh Sargsyan. Moscou, diferentemente do que ocorreu por exemplo na Ucrânia em 2014, manteve boas relações com a Armênia, mas há desconfiança mútua.

    Tensão entre Armênia e Azerbaijão escala com novos conflitos

    Imagem mostra suposta destruição de tanques de guerra do Azerbaijão por forças Armênias
    Imagem mostra suposta destruição de tanques de guerra do Azerbaijão por forças Armênias HANDOUT/Ministério de Defesa da Armênia – 27.set.2020/AFP

    No fim da tarde, em Moscou, o Ministério das Relações Exteriores reafirmou que quer sediar conversas entre os chanceleres armênio e azeri sobre a crise.

    Analistas russos veem o movimento de Putin como uma forma de aumentar a dependência dos armênios caso a crise escale ainda mais.

    Afinal de contas, Moscou tem uma base militar grande, equipada com tanques, baterias antiaéreas e 18 caças MiG-29 em Gyumri, leste armênio. Herança dos tempos em que toda a região fazia parte da União Soviética, o local abriga 3.000 soldados.

    Moscou e Ierevan têm um pacto militar segundo o qual os russos se comprometem a proteger os armênios de agressões externas, mas Pashinyan afirmou que não lançará mão disso agora.

    Além disso, o armênio ligou nesta manhã para o presidente do Irã, Hassan Rouhani, para falar sobre a crise e o papel da Turquia.

    Teerã apoia tacitamente Ierevan, por sua rivalidade com os turcos e por temer separatismo de sua grande minoria azeri, cerca de 25% da população. Mas mantém laços com o Azerbaijão, país também de maioria muçulmana xiita.

    Enquanto isso, o conflito aumentou em intensidade nessa quarta. Em Nagorno-Karabakh, os armênios étnicos que governam o encrave em território azeri lançaram uma contra-ofensiva para buscar recuperar áreas perdidas desde o domingo.

    Segundo os ministérios da Defesa de ambos os países, os engajamentos ocorreram ao longo de toda a Linha de Contato, a fronteira do cessar-fogo de 1994 que suspendeu precariamente dois anos de guerra entre Armênia e Azerbaijão sobre o controle da região.

    Destroços do que seria um jato Su-25 derrubado na terça-feira na Armênia
    Destroços do que seria um jato Su-25 derrubado na terça-feira na Armênia – Armenian Unified Infocenter/via Reuters

    Como é a praxe desde o começo do conflito, as informações são contraditórias e alimentadas por relatos esparsos de redes sociais —mais eficazes e loquazes na Armênia, enquanto os azeris seguem a cartilha autocrática de seu líder, Ilham Aliyev.

    Baku afirmou ter destruído uma bateria antiaérea S-300, de fabricação russa, do Exército da Armênia que teria sido colocada em Martuni, em Nagorno-Karabakh.

    Já Ierevan divulgou fotos do que considera prova da interferência turca no conflito, os destroços de um jato Su-25 que foi abatido na terça segundo os armênios pelo disparo de um F-16 de Ancara em espaço aéreo azeri. A Turquia nega.

    Os relatos de F-16 turcos na região seguiram nesta quarta. Segundo o Ministério da Defesa em Baku, os ataques armênios foram neutralizados, e o número de tanques destruídos somou 130 desde domingo.

    O governo de Aliyev também disse que mais sete civis azeris foram feridos por bombardeios de artilharia armênia fora de Nagorno-Karabakh, o que Ierevan nega.

    Com tudo isso, o número de vítimas do conflito segue nebuloso, na casa de cem mortos e centenas de feridos. Imagens divulgadas na mídia estatal azeri mostravam soldados em caixões, mas não há um número oficial de baixas.

    Baku disse ter “neutralizado” 2.300 soldados separatistas em Karabakh, enquanto o governo local falava em 84 mortes até a terça.

    A região, chamada de República de Astrakh por Ierevan, era uma área autônoma do Azerbaijão soviético, de maioria armênia. Nos anos 20, antes de virar ditador da União Soviética, o georgiano Josef Stálin cuidou da divisão territorial do Cáucaso sob domínio comunista.

    Num paralelo com o cuidado de Putin agora, Stálin manteve Kharabak nominalmente dentro da área comandada por Baku para aplacar os turcos, que formavam então sua república das cinzas do Império Otomano derrotado na Primeira Guerra Mundial.

    Como o presidente russo, o futuro ditador queria estabilizar uma das mais importantes regiões da nascente União Soviética, historicamente suscetível a invasões.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/09/armenia-rejeita-mediacao-de-putin-e-conflito-piora-com-azerbaijao.shtml

    Questões

    1. A tensão guarda relação com a dissolução da antiga Ex URSS? Justifique.

    2. Qual a importância que a região tem para o setor energético?

    3. A Armênia e o Azerbaijão são considerados países “transcontinentais”. O que isso significa?

    Prof. Luciano Mannarino

  • China e Índia se acusam de violar cessar-fogo em fronteira no Himalaia

    China e Índia se acusam de violar cessar-fogo em fronteira no Himalaia

    Incidente na noite de segunda tem versões conflitantes e mostra tensão entre os países

    8.set.2020 às 16h22

    Igor Gielow

    SÃO PAULO

    A China e Índia se acusaram mutuamente de violar um cessar-fogo válido desde 1996 na fronteira disputada entre os dois países na região de Ladakh, no Himalaia.

    O controle da região já foi alvo de uma guerra, vencida pelos chineses, em 1962, e de uma série de escaramuças desde então. As últimas mortes por armas de fogo ocorreram em 1975.

    Em junho deste ano, a situação voltou a escalar, com um grave confronto no qual morreram 20 soldados indianos e um número incerto de chineses. Só que eles se mataram com paus e pedras, respeitando tecnicamente o cessar-fogo que proíbe tiros a 2 km de cada lado da Linha de Controle, a fronteira presumida.

    “Foi uma violação militar muito séria”, afirmou em comunicado na manhã desta terça (8) Zhang Shuili, porta-voz do Comando do Teatro Ocidental das Forças Armadas chinesas.

    Segundo seu relato, tropas indianas atiraram ao cruzar a fronteira na região do lago Pangong na noite de segunda-feira. Ele afirmou que os militares chineses foram “forçados a uma resposta de emergência para estabilizar a situação”, sem detalhar.

    “A ação do lado indiano violou seriamente o acordo bilateral e escalou a tensão na região”, disse Zhang.

    Após passar a manhã em silêncio, o Ministério da Defesa indiano divulgou sua versão dos fatos, acusando a China de abrir fogo sobre posições que haviam sido ocupadas pelas forças de Nova Déli no fim de semana retrasado, de seu lado da fronteira.

    As tropas chinesas deram, segundo o comunicado, tiros para o ar para tentar intimidar os rivais com “manobras agressivas”.

    Após semanas de estabilidade, a situação começou a piorar na área disputada há duas semanas. Ambos os lados apontaram violações potenciais do adversário, mas uma conversa direta entre os ministros da Defesa na sexta passada (4) em Moscou parecia ter controlado a crise.

    O incidente da segunda mostra a fragilidade da situação. Ambos os países, desde junho, têm aumentado a presença militar na área e feito exercícios de combate. Nenhum deles, os mais populosos do mundo e com armas nucleares, tem contudo interesse numa guerra.

    Politicamente, contudo, ambos têm de mostrar forca para seu público interno, e as rusgas dos últimos meses demonstram que isso pode ter um preço em termos de escalada militar.

    A região toda, formada por passos de montanha com mais de 4.000 metros de altura e picos de quase 8.000 metros, é de difícil acesso e ainda mais complexo espaço para manobras militares. Helicópteros e aviões operam com dificuldade.

    Os indianos têm uma preocupação adicional, que é o fato de que a China é a principal parceira militar de seu rival existencial na região, o Paquistão. Tudo o que não precisam é de duas fronteiras instáveis, embora a relação com Islamabad esteja relativamente em ordem.

    Já os chineses olham para a Índia como mais uma peça também na disputa geoestratégica com os Estados Unidos, a Guerra Fria 2.0 de Donald Trump, que abarca quase todos os itens possíveis de disputa comercial e política.

    Para sinalizar apoio aos indianos, os americanos enviaram há duas semanas bombardeiros furtivos ao radar B-2 para sua base ao sul do subcontinente, no oceano Índico.

    Nova Déli, apesar de manter uma importante relação militar com Moscou, com quem faz exercícios navais no Índico esta semana, tem se aproximado bastante de Washington. Índia e China fazem parte do bloco Brics, com Rússia, Brasil e África do Sul.

    Questão

    1. O que seria a Guerra Fria 2.0?

    2. O que são os BRICS e por que o Brasil pode ser um protagonista na diminuição da tensão entre a China e a Índia?

    3. Explique a tensão entre a Índia e o Paquistão.

    Prof. Luciano Mannarino