Matopiba: Nova fronteira agro do país lidera em desmate e expulsa moradores.

Carlos Madeiro

Colunista do UOL

13/08/2022 04h00Atualizada em 13/08/2022 19h01

Apontada como nova fronteira agrícola do país, a região do Matopiba —sigla que envolve o Cerrado dos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia— se tornou o principal motor do desmatamento do país nos últimos anos, devido à expansão do agronegócio. A disputa por terras tem ainda pressionado comunidades tradicionais, expulsando alguns povos da região.

Com 73 milhões de hectares, o Matopiba responde por aproximadamente 10% da produção de grãos e fibras no país, com destaque para soja, milho e algodão. Em 2021, foi responsável por 23 de cada 100 km² desmatados no país —um recorde para a área.

Transcerrado, rota de escoamento da produção do Matopiba

Segundo o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), atualmente essa é a região que mais cresce, em área plantada, em todo o Brasil. A previsão do governo é que chegue a 8,9 milhões de hectares até o final de 2030. Essa expansão do agro está ocorrendo à custa de grande parte da vegetação nativa da região, levando a área a ser hoje o principal vetor de alta do desmatamento no país.

Segundo o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil, do MapBiomas Brasil, quase um quarto (23,6%) do desmatamento no Brasil em 2021 ocorreu no Matopiba: 391 mil hectares desmatados. O número é 14% maior em relação a 2020. Ao analisar somente o Cerrado, vê-se que a área dos quatro estados representa 73% do desmatamento do bioma. “Nessa região, existe uma conversão de áreas para pecuária e agricultura que acontece muito mais rápido do que em outras regiões do país”, diz Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, citando uma predominância da soja na lavoura.

Segundo ele, 5,1 milhões de hectares já estão mapeados com pontos de desmatamento no Matopiba. Nem 10% do território tem áreas de conservação ou preservação. “Lá não tem muitas unidades de conservação, é muito carente”, diz.

Cerrado tem sido a área mais desmatada do país nos últimos dois anos Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Histórico e avanço.

A região do Matopiba começou a ser explorada pelo agronegócio na década de 1980. Mas foi a partir de 2005 que grandes fazendas de monocultura investiram na região. Segundo Juarez Mota, professor da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), o Matopiba tem sofrido um “impacto severo” do agronegócio.

“A gente se volta muito à Amazônia e esquece que temos outros biomas tão importantes, como o Cerrado”, diz. Ele critica a posição antagônica dos EUA e da Europa sobre o desmatamento nacional. “Eles falam tanto da proteção da Amazônia, mas são os maiores desmatadores por meio de fundo de investimento, principalmente dentro desse eixo”, afirma.

Ele diz que fundos de investimentos internacionais estão comprando fazendas e colocando ações na Bolsa para investir na área. “A questão ambiental tem sofrido com a forma bastante agressiva do agronegócio. E a supressão da vegetação nativa, segundo estudos, tem relação com o clima e a realização de eventos extremos.

Antes eles eram raros, e agora estão se tornando cada vez mais normais”, afirma. Um exemplo disso foram as chuvas na Bahia entre o final de 2021 e o início deste ano, consideradas as mais intensas na região sul e sudeste do estado.

“Quando se faz a supressão da vegetação, o equilíbrio hidrológico é muito afetado. O solo e as águas são muito impactados, e as consequências estão aí, com as tragédias das chuvas.

” Vista aérea do município de Balsas, no Maranhão Imagem:

Povos relatam drama.

A coluna conversou com líderes nas áreas que têm sofrido pressão e perda de territórios. Muitos, porém, não quiseram expor seus nomes, com medo de represálias. Segundo Renato Krahô, líder do povo Krahô-akaywrá no Tocantins, como a sua comunidade não vive em uma terra demarcada, o povo que vive na aldeia Takaywrá sofre com o avanço do agronegócio. “Isso afeta a nossa vida social e ambiental. Somos coagidos, ameaçados”, relata.

O problema chamou a atenção ao ser um dos julgados, em julho, no Tribunal Permanente dos Povos, que analisou casos do Cerrado brasileiro. Ao todo, foram 15 julgados (veja aqui quais). Eles lutam pela demarcação de seu território e, assim como os Krahô Kanela vivem em 7.000 hectares, disputando uma outra parte que ainda permanece em posse dos fazendeiros. Renato diz que o modo de vida no local depende da água, seja para tirar o sustento, navegar ou para consumo humano e animal.

“Hoje somos privados de navegar por causa das barragens que estão sendo construídas para uso particular das fazendas”, afirma. Outro ponto citado é a poluição das águas. “Os peixes estão contaminados, além de muitas espécies já estarem em extinção, devido ao uso excessivo de agrotóxicos. Nem a água que a gente bebeu por séculos é mais confiável”, reclama.

Matopiba tem sua área dividida assim:

Tocantins – 37,95%

Maranhão – 32,77%

Bahia – 18,06%

Piauí – 11,21%

Ao todo, são 337 municípios e 73,1 milhões de hectares (51% da área dos quatro estados)

Até 2021 existiam na área:

324 mil estabelecimentos agrícolas

46 unidades de conservação 35 terras indígenas

36 quilombolas

1.053 assentamentos de reforma agrária

Fonte: Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária)

Para Martin Mayr, coordenador da ONG Agência 10envolvimento e diácono da Diocese de Barreiras, o que as comunidades defendem é a regularização fundiária, por meio de processos como reconhecimento de territórios de indígenas e quilombolas.

“Estamos falando de áreas que pertencem ao Estado, mas que foram griladas. São as comunidades tradicionais que arcaram com o ônus disso porque eles tinham a sua posse lá antes da chegada desses negócios.”

Martin Mayr, coordenador de ONG

O conflito de propriedade e posse tem ido parar muitas vezes na Justiça. Para ele, o Judiciário tem “costume de privilegiar os grileiros”. “Temos muitas vezes casos em que esses povos perderam suas terras: 50%, 60%, 70% de seus territórios. Alguns perderam tudo no oeste baiano. Isso não ocorria antes. Até os anos 1970, havia terra para todos”, lamenta.

Para Amanda Silva, assessora da Agência 10envolvimento e integrante do Cáritas Regional Nordeste 3, com o avanço do agronegócio e o poder de seu dinheiro, as comunidades tradicionais —como indígenas, ribeirinhas e quilombolas— acabaram se envolvendo em conflitos por terra e por água.

“Essas comunidades habitam esse Cerrado há muitas gerações, mas a expansão dessa agricultura de larga escala —que necessita de grandes áreas desmatadas— foi usurpando seus territórios e pressionando-as a utilizarem apenas os vales”, diz.

Ela cita que ainda existe o uso da violência para expulsar moradores. “Em qualquer imagem de satélite, você perceberá que os chapadões, que eram áreas de solta para o gado, hoje praticamente estão ocupados pelo agro”, afirma.

“As comunidades têm tentado resistir, mas existe um grande custo. Percebe-se um índice considerável de pessoas deprimidas, o êxodo de jovens das comunidades, a presença de agrotóxicos e a inviabilização de seus modos de vida tradicionais.”

Amanda Silva, assessora.

https://notícias.uol.com.br/colunas/carlos-madeiro/2022/08/13/avanco-agro-no-matopiba-expulsa-povos-e-responde-por-23-do-desmate-no-pais.htm

Prof Luciano Mannarino

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