SÃO PAULO | REUTERS A Mercedes-Benz anunciou nesta terça-feira (6) uma reestruturação de sua fábrica de caminhões e chassis de ônibus em São Bernardo do Campo (SP), que resultará na demissão de 3.600 trabalhadores, e terceirização de parte da operação.
A Mercedes-Benz Caminhões e Ônibus atribuiu a medida à pressão de custo e à transformação da indústria automobilística, o que tornou necessário um foco maior no “core business”, definido como a fabricação de chassis de ônibus, caminhões e o desenvolvimento de tecnologias e serviços para o futuro.
A produção de componentes como eixos dianteiros e transmissão média e os serviços de logística, manutenção e ferramentaria estão entre as atividades que passarão a ser executadas por empresas contratadas.
Funcionários trabalham em montagem de motor na linha de produção de caminhões 4.0 na fábrica da Mercedes, em São Bernardo do Campo (ABC paulista) – Eduardo Kanpp-08.jan.21/Folhapress
“Estamos garantindo a sustentabilidade dos negócios da Mercedes-Benz Caminhões e Ônibus a longo prazo no Brasil”, disse a montadora em comunicado.
A empresa demitirá aproximadamente 2.200 trabalhadores da unidade, sua primeira no país —inaugurada em 1956— e maior planta da Daimler fora da Alemanha para veículos comerciais Mercedes-Benz. E cerca de 1.400 profissionais não terão seus contratos temporários renovados a partir de dezembro de 2022.
O Sindicato dos Metalúrgicos do Grande ABC disse que seus dirigentes se reuniram com a diretoria da Mercedes-Benz nesta tarde, quando representantes da companhia pediram a abertura de negociação sobre esses temas. A fábrica tem 6.000 trabalhadores na produção e entre 8.000 e 9.000 no total, segundo a entidade.
Uma assembleia da diretoria do sindicato com os trabalhadores foi marcada para quinta-feira (8) às 14h.
“Esclarecimentos e comunicados à imprensa por parte do sindicato e sua direção só serão feitos após conversa e assembleia com os trabalhadores da planta”, disse o sindicato por meio de sua assessoria de imprensa.
A Mercedes-Benz já tinha posto 600 trabalhadores em férias coletivas em São Bernardo do Campo (SP) no início do ano devido à falta de componentes eletrônicos. A Mercedes também tem uma fábrica de caminhões em Juiz de Fora (MG).
DEMISSÕES ACUMULAM, ELETRIFICAÇÃO NO RADAR O estado de São Paulo enfrentou nos últimos anos uma série de fechamentos, ou reestruturações, em fábricas de montadoras.
Em 2019, houve a desmobilização da fábrica da Ford em São Bernardo do Campo, antes do anúncio da saída da montadora do país, em 2021. A própria Mercedes-Benz vendeu no ano passado uma planta em Iracemápolis, onde eram produzidos automóveis de luxo, à chinesa Great Wall Motors.
Mercedes lança sedã elétrico EQS 53 AMG
Em abril deste ano, a Toyota decidiu fechar sua fábrica em São Bernardo do Campo, a primeira fora do Japão. A Caoa Cherry anunciou em maio a interrupção da produção de veículos em sua principal planta no país, em Jacareí, para adaptar a unidade à produção de carros híbridos e elétricos
A Mercedes-Benz disse nesta terça-feira que “o mercado tem se tornado mais dinâmico do que nunca e a competitividade em nessa indústria vai continuar a se intensificar, especialmente considerando a transformação das tecnologias tradicionais para novas formas de propulsão”.
A empresa deve começar a montar seu primeiro ônibus elétrico no Brasil no fim deste ano e estimou demanda de ônibus elétricos no Brasil da ordem de 3.000 veículos até 2024.
SÃO PAULO A mata atlântica, o bioma brasileiro mais devastado, está vivendo um momento que parecia que não iria se repetir em sua história: um grande crescimento do desmatamento.
A destruição na mata atlântica saltou 66% em 2020-2021, em comparação ao período anterior (2020-2019). É o maior aumento percentual registrado desde o início do monitoramento, em 1985 (até 2010 os dados eram divulgados e englobavam um período de cinco anos).
No período de 2020-2021, foram derrubados 21.642 hectares do bioma, que mantém somente pouco mais de 12% de sua cobertura original. É o maior valor desde 2015/2016, quando era de 29.075 hectares.
Os dados são de relatório da ONG SOS Mata Atlântica e do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) lançado na noite desta terça-feira (24).
Metade da foto tem uma floresta em pé, a outra uma floresta escurecida, queimada Vista aérea de área desmatada no município de Rio Vermelho, em Minas Gerais – 20.mai.2022 – Douglas Magno/SOS Mata Atlântica.
“Estamos andando para trás”, afirma Luis Fernando Guedes Pinto, diretor de conhecimento da SOS Mata Atlântica e coordenador do Atlas Mata Atlântica, o projeto que anualmente levanta as áreas desmatadas no bioma.
Na última semana, em um sobrevoo por áreas de Minas Gerais que tinham registros de desmate no ano passado, a equipe da SOS Mata Atlântica flagrou novas derrubadas em curso —que, pela questão da data, não entram nos dados citados na reportagem.
“Imagens horríveis. Aquelas imagens da Amazônia. A gente tem que lembrar que estamos falando da mata atlântica, de uma região mais rica, com maior governança. Deveríamos estar falando exclusivamente de restauração e estamos falando de coisas desse nível [desmatamento]. É uma reversão total de agenda”, diz Guedes Pinto.
Os resultados são vistos como surpreendentes e preocupantes. Ao todo, 15 estados apresentam alta de desmatamento —somente 2 tiveram redução.
Apesar do crescimento generalizado, três estados concentram mais de 80% da destruição registrada. Minas Gerais, líder de desmate, levou ao chão 9.209 hectares de floresta. Em segundo lugar, a Bahia derrubou 4.968 hectares. O Paraná fecha a lista com 3.299 hectares derrubados. Todos eles tiveram aumentos de destruição superiores a 50% em relação ao período anterior. Em Minas, o salto chegou a 96%.
Até mesmo estados que se aproximavam de desmatamento zero (quando os dados não passam de 100 hectares no ano) apresentaram crescimento na destruição, caso de São Paulo, Sergipe e Rio de Janeiro. O estado fluminense, por exemplo, antes estava abaixo dos 100 hectares, mas agora teve um aumento de 95% na supressão de matas.
A única explicação para um aumento generalizado como esse, segundo Guedes Pinto, seria uma visão antiambiental que se espalhou pelo país.
“São praticamente quatro anos de uma cultura de antifloresta, de negacionismo da ciência e de desmonte da política ambiental. E uma expectativa de impunidade, de ataque à legislação ambiental no Congresso e de atos administrativos do governo federal”, afirma o especialista. “Até atacaram a Lei da Mata Atlântica. Não podemos esquecer do despacho do [Ricardo] Salles.”
Guedes Pinto se refere a um despacho assinado pelo então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em 2020, que acabava por anistiar proprietários rurais que destruíram mata atlântica. Esse documento reconhecia como áreas consolidadas (sem necessidade de recuperação) as APPs (Áreas de Preservação Permanentes, como margens de rios) desmatadas e ocupadas até julho de 2008.
O despacho, posteriormente revogado por Salles, seguia um parecer da AGU (Advocacia-Geral da União), feito após pressões da CNA (Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil) e do agronegócio do sul do país.
“A mata atlântica tem uma lei especial, tem uma governança mais robusta e existe uma segurança jurídica nessas áreas. Não era esperado que a gente chegasse nessa condição. Os resultados mostram que esse contexto institucional nacional acaba contaminando as pessoas e elas tomam a decisão de desrespeitar a lei, de ir para a ilegalidade e abrir novas áreas, infelizmente”, afirma o coordenador do Atlas.
DESMATAMENTO E AGRONEGÓCIO Minas Gerais e Bahia, ambos com áreas grandes contínuas de desmatem, formam uma espécie de bloco de fronteira de derrubada da mata atlântica. Nesses locais, a destruição é ligada ao agronegócio, segundo Guedes Pinto.
O Paraná é outro com desmate ligado ao agro. Ali, porém, a floresta é comida, aos poucos, com pequenas derrubadas, pelas bordas.
A dinâmica de desmate continua diferente em outros locais, como São Paulo e Rio de Janeiro, onde as supressões são, costumeiramente, ligadas a pressões urbanas e imobiliárias.
O coordenador do Atlas alerta que a ideia do relatório não é apontar legalidade ou não de supressões de vegetação. Mas as informações que se têm sobre autorizações para desmatamento no país indicam que o que predomina são desmates ilegais.
Segundo dados do MapBiomas, mais de 90% dos desmatamentos do bioma têm indícios de ilegalidade.
Vale ressaltar ainda que o monitoramento é focado em fragmentos maduros de mata, ricos em biodiversidade e biomassa. Portanto, desmatamentos nessas áreas acabam tendo um impacto ainda maior.
“A gente voltar a ter desmatamentos contínuos nesse patamar de 20 mil hectares é uma tragédia ambiental”, diz Guedes Pinto, que relembra que, segundo a lei da Mata Atlântica, supressões no bioma só podem ser autorizados se forem de interesse público ou com propósito social.
O bioma chegar a um ano eleitoral com essas taxas de desmate também é algo preocupante, considerando que, em anos de eleição, a derrubada ilegal costuma crescer na mata atlântica.
Nesses anos, diz o especialista da ONG, o diálogo e a cobrança sobre entes públicos muitas vezes se tornam mais complicados, considerando as mudanças que ocorrem internamente, com pessoas deixando a posição para a disputa de cargos eletivos.
A destruição da mata também pesa sobre outro ponto que tem crescido nos últimos anos no Brasil: as emissões de gases-estufa. O atlas aponta que o desmatamento registrado na mata atlântica no período 2020-2021 jogou na atmosfera 10,3 milhões de toneladas de CO2 equivalente (medida que soma os gases de efeito estufa).
O país é parte do Acordo de Paris, que busca reduzir drasticamente as emissões de gases para conter o aumento da temperatura global. O desmatamento e o agronegócio são os principais responsáveis pelas emissões brasileiras.
O QUE DIZEM AS SECRETARIAS DE MEIO AMBIENTE A Folha entrou em contato com as secretarias de meio ambiente dos estados com maiores níveis de desmatamento e com a secretaria de São Paulo.
Somente a Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente paulista respondeu até a conclusão da reportagem.
Em nota, ela afirma que “a metodologia utilizada pela SOS Mata Atlântica não considera áreas licenciadas e com a devida compensação, de acordo com a legislação ambiental vigente, inclusive para obras de interesse público”.
Segundo o órgão, no relatório anterior da ONG, metade dos hectares de derrubada apontados para o estado tinha licenciamento pela agência ambiental e medidas compensatórias.
“Vale lembrar que São Paulo continua com um dos menores índices de desmatamento do país e uma área de mata atlântica de 5,4 milhões de hectares”, diz a nota, que ressalta que ainda analisará os dados presentes no relatório.
A Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais afirmou que combate diariamente o desmatamento ilegal. Segundo o órgão, o desmate sem autorização teve redução de 9% em áreas de mata atlântica no estado no período 2020/2021.
A secretaria mineira aponta que há diferenças entre a metodologia que segue e a do Atlas da Mata Atlântica. Além disso, diz que o SOS Mata Atlântica não considera áreas restauradas.
“Na avaliação do IEF [Instituto Estadual de Florestas], tais pontos interferem no quantitativo de supressão total da vegetação no período. Minas Gerais é o estado que possui a maior área remanescente de Mata Atlântica do país, com cerca de 12,8 milhões de hectares. Além da fiscalização crescente contra o desmatamento, o Governo de Minas adota ações de prevenção, conservação e restauração do Bioma”, diz a nota enviada à reportagem pela secretaria de Minas Gerais.
Apontada como nova fronteira agrícola do país, a região do Matopiba —sigla que envolve o Cerrado dos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia— se tornou o principal motor do desmatamento do país nos últimos anos, devido à expansão do agronegócio. A disputa por terras tem ainda pressionado comunidades tradicionais, expulsando alguns povos da região.
Com 73 milhões de hectares, o Matopiba responde por aproximadamente 10% da produção de grãos e fibras no país, com destaque para soja, milho e algodão. Em 2021, foi responsável por 23 de cada 100 km² desmatados no país —um recorde para a área.
Transcerrado, rota de escoamento da produção do Matopiba
Segundo o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), atualmente essa é a região que mais cresce, em área plantada, em todo o Brasil. A previsão do governo é que chegue a 8,9 milhões de hectares até o final de 2030. Essa expansão do agro está ocorrendo à custa de grande parte da vegetação nativa da região, levando a área a ser hoje o principal vetor de alta do desmatamento no país.
Segundo o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil, do MapBiomas Brasil, quase um quarto (23,6%) do desmatamento no Brasil em 2021 ocorreu no Matopiba: 391 mil hectares desmatados. O número é 14% maior em relação a 2020. Ao analisar somente o Cerrado, vê-se que a área dos quatro estados representa 73% do desmatamento do bioma. “Nessa região, existe uma conversão de áreas para pecuária e agricultura que acontece muito mais rápido do que em outras regiões do país”, diz Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, citando uma predominância da soja na lavoura.
Segundo ele, 5,1 milhões de hectares já estão mapeados com pontos de desmatamento no Matopiba. Nem 10% do território tem áreas de conservação ou preservação. “Lá não tem muitas unidades de conservação, é muito carente”, diz.
Cerrado tem sido a área mais desmatada do país nos últimos dois anos Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Histórico e avanço.
A região do Matopiba começou a ser explorada pelo agronegócio na década de 1980. Mas foi a partir de 2005 que grandes fazendas de monocultura investiram na região. Segundo Juarez Mota, professor da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), o Matopiba tem sofrido um “impacto severo” do agronegócio.
“A gente se volta muito à Amazônia e esquece que temos outros biomas tão importantes, como o Cerrado”, diz. Ele critica a posição antagônica dos EUA e da Europa sobre o desmatamento nacional. “Eles falam tanto da proteção da Amazônia, mas são os maiores desmatadores por meio de fundo de investimento, principalmente dentro desse eixo”, afirma.
Ele diz que fundos de investimentos internacionais estão comprando fazendas e colocando ações na Bolsa para investir na área. “A questão ambiental tem sofrido com a forma bastante agressiva do agronegócio. E a supressão da vegetação nativa, segundo estudos, tem relação com o clima e a realização de eventos extremos.
Antes eles eram raros, e agora estão se tornando cada vez mais normais”, afirma. Um exemplo disso foram as chuvas na Bahia entre o final de 2021 e o início deste ano, consideradas as mais intensas na região sul e sudeste do estado.
“Quando se faz a supressão da vegetação, o equilíbrio hidrológico é muito afetado. O solo e as águas são muito impactados, e as consequências estão aí, com as tragédias das chuvas.
” Vista aérea do município de Balsas, no Maranhão Imagem:
Povos relatam drama.
A coluna conversou com líderes nas áreas que têm sofrido pressão e perda de territórios. Muitos, porém, não quiseram expor seus nomes, com medo de represálias. Segundo Renato Krahô, líder do povo Krahô-akaywrá no Tocantins, como a sua comunidade não vive em uma terra demarcada, o povo que vive na aldeia Takaywrá sofre com o avanço do agronegócio. “Isso afeta a nossa vida social e ambiental. Somos coagidos, ameaçados”, relata.
O problema chamou a atenção ao ser um dos julgados, em julho, no Tribunal Permanente dos Povos, que analisou casos do Cerrado brasileiro. Ao todo, foram 15 julgados (veja aqui quais). Eles lutam pela demarcação de seu território e, assim como os Krahô Kanela vivem em 7.000 hectares, disputando uma outra parte que ainda permanece em posse dos fazendeiros. Renato diz que o modo de vida no local depende da água, seja para tirar o sustento, navegar ou para consumo humano e animal.
“Hoje somos privados de navegar por causa das barragens que estão sendo construídas para uso particular das fazendas”, afirma. Outro ponto citado é a poluição das águas. “Os peixes estão contaminados, além de muitas espécies já estarem em extinção, devido ao uso excessivo de agrotóxicos. Nem a água que a gente bebeu por séculos é mais confiável”, reclama.
Matopiba tem sua área dividida assim:
Tocantins – 37,95%
Maranhão – 32,77%
Bahia – 18,06%
Piauí – 11,21%
Ao todo, são 337 municípios e 73,1 milhões de hectares (51% da área dos quatro estados)
Até 2021 existiam na área:
324 mil estabelecimentos agrícolas
46 unidades de conservação 35 terras indígenas
36 quilombolas
1.053 assentamentos de reforma agrária
Fonte: Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária)
Para Martin Mayr, coordenador da ONG Agência 10envolvimento e diácono da Diocese de Barreiras, o que as comunidades defendem é a regularização fundiária, por meio de processos como reconhecimento de territórios de indígenas e quilombolas.
“Estamos falando de áreas que pertencem ao Estado, mas que foram griladas. São as comunidades tradicionais que arcaram com o ônus disso porque eles tinham a sua posse lá antes da chegada desses negócios.”
Martin Mayr, coordenador de ONG
O conflito de propriedade e posse tem ido parar muitas vezes na Justiça. Para ele, o Judiciário tem “costume de privilegiar os grileiros”. “Temos muitas vezes casos em que esses povos perderam suas terras: 50%, 60%, 70% de seus territórios. Alguns perderam tudo no oeste baiano. Isso não ocorria antes. Até os anos 1970, havia terra para todos”, lamenta.
Para Amanda Silva, assessora da Agência 10envolvimento e integrante do Cáritas Regional Nordeste 3, com o avanço do agronegócio e o poder de seu dinheiro, as comunidades tradicionais —como indígenas, ribeirinhas e quilombolas— acabaram se envolvendo em conflitos por terra e por água.
“Essas comunidades habitam esse Cerrado há muitas gerações, mas a expansão dessa agricultura de larga escala —que necessita de grandes áreas desmatadas— foi usurpando seus territórios e pressionando-as a utilizarem apenas os vales”, diz.
Ela cita que ainda existe o uso da violência para expulsar moradores. “Em qualquer imagem de satélite, você perceberá que os chapadões, que eram áreas de solta para o gado, hoje praticamente estão ocupados pelo agro”, afirma.
“As comunidades têm tentado resistir, mas existe um grande custo. Percebe-se um índice considerável de pessoas deprimidas, o êxodo de jovens das comunidades, a presença de agrotóxicos e a inviabilização de seus modos de vida tradicionais.”
A instalação em grande escala de parques eólicos na região Nordeste se tornou motivo de preocupação para pesquisadores do tema, que dizem que o avanço do setor ao longo das últimas duas décadas ocorreu sem minimizar corretamente os danos ambientais. A coluna conversou com pesquisadores e leu estudos mais recentes, que revelam impactos como desmatamento e redução na movimentação de dunas e da recarga de lençóis freáticos (água subterrânea, essencial especialmente no semiárido).
Torres na proximidade da comunidade de Xavier, em Camocim (CE)
Tida como uma das energias produzidas mais limpas, a produção eólica, que utiliza o vento, vem ganhando força no país. Segundo a Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica), são 805 parques, 708 deles no Nordeste. Ao todo são 8.211 torres instaladas somente na região. A energia eólica foi defendida por Jair Bolsonaro, em recentes discursos. Ele disse que anunciará, em breve, um projeto de energia eólica no Nordeste que equivalerá à geração de “50 Itaipus”. Recentemente, a coluna mostrou os danos sociais que a instalação de parques estava causando no interior do Nordeste, com casas e cisternas rachadas e estradas com acesso deteriorado.
Danos cumulativos
A coordenadora do Labocart (Laboratório de Geoprocessamento e Cartografia Social) da UFC (Universidade Federal do Ceará) —que reúne pesquisadores sobre a energia eólica em todo o país—, Adryane Gorayeb, alerta que, com a instalação dessas milhares de torres, é preciso trabalhar agora com o conceito de impactos cumulativos
“Hoje se estuda de forma isolada. É como se só aquele empreendimento fosse causar dano, mas não estamos falando de um empreendimento, mas de vários construídos em épocas e distâncias diferentes”, afirma. Em 2019, alguns desses estudos foram publicados no livro “Impactos socioambientais da implantação dos parques de energia eólica no Brasil”, que apontou para muitos problemas. Segundo Gorayeb, os estudos deixaram claro os impactos, que começam antes da obra, quando há desmatamento, em muitos casos, para construção de estradas para que caminhões pesados passem.
“Muitas vezes eram ambientes fechados, que não tinha nenhum acesso”, explica. Se a construção de estrada vier por calçamento ou asfalto, o impacto afeta o ecossistema. “Raios solares sobre o asfalto acumulam muito mais calor maior que um solo exposto com argila e areia”, diz. Outro fator já clarificado pelas pesquisas é que essas obras causaram impermeabilização do solo, que prejudica o reabastecimento dos aquíferos. Especialmente em áreas secas, esses lençóis freáticos são fundamentais para garantir água à população..
“Nesse processo a água vai sendo rebaixada, ficando cada vez mais no fundo. Na prática, as pessoas que vivem ao redor precisam cavar com poços mais profundos. Nordeste hoje responde por mais 80% da produção de energia eólica do Brasil Imagem: Marilia Barros.
Problemas em dunas e água de Camocim
A pesquisadora Raquel Morais, da UFC, fez uma análise sobre a qualidade das águas subterrâneas em Camocim, no extremo oeste do litoral cearense. No local, o parque eólico ocupou uma área de 1.040 hectares (o equivalente a 10,4 km²), e que 5% desse terreno foi impermeabilizado.
No estudo ela perfurou 15 poços, que depois foram fechados e expostos a mudanças de solo similares às causadas pelos empreendimentos. O resultado obtido foi que os poços estavam com menos pressão e vazão de água. “As interferências são muito relevantes e influenciaram também a recarga das lagoas entre as dunas, muitas delas que eram permanentes antes da instalação do parque”, diz. Ela cita que, após a implementação do empreendimento, esses volumes hídricos secaram, comprometendo a pesca.
Torres na proximidade da comunidade de Xavier, em Camocim (CE).
Um outro estudo na mesma área feito pela geógrafa Gloria Duran, especialista em sensoriamento remoto (ciência que estuda imagens captadas à distância). Ela usou imagens antigas e recentes de satélite para comparar os impactos das dunas de Camocim. “Existiam deslocamentos de até 100 metros a cada dois anos dessas dunas, e depois que foi construído houve uma redução e não supera 60 metros em alguns locais.
A construção dos parques se transformou numa espécie de barreira sobre o campo de dunas”, explica. Ela cita que, à época, o impacto conseguiu ser medido antes porque os parques de Aracati e Camocim foram as primeiras construções na região. “Foi feito de forma muito rápida”, completa.
O professor e pesquisador da UERN (Universidade do Estado do Rio Grande do Norte), Rodrigo Guimarães, também estuda o tema há anos e reforça que a instalação das fundações muda a dinâmica natural das dunas por conta dos aterros e estruturas de suporte às torres. “Além disso, a utilização de água subterrânea em grande quantidade diminuindo o aporte [de água] de ecossistemas, como lagoas costeiras e manguezais”, diz. Sobre o movimento das dunas, Guimarães explica que boa parte delas migram naturalmente e voltam para o mar através dos estuários [área alagada de encontro com o mar] de rios. “Com as obras, as dunas são escavadas. Eles injetam muito concreto na base para instalar as torres, e as dunas vão sendo fixadas”. completa.
Rio Grande do Norte é o estado com mais parques no país.
Pássaros também afetados
A bióloga Paula Tavares, que é mestre em geografia pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), também pesquisou o impacto nos pássaros com as torres e cita que há danos encontrados. “Os principais são as colisões, os afugentamentos e o efeito de barreira”, diz. Ela defende que o licenciamento ambiental deve analisar o local, onde o parque vai ser erguido para saber o impacto. Quando já erguido, existem formas também de reduzir impactos, como a pá pintada de preto na turbina —que consegue reduzir em até 70% a morte acidental de pássaros. “Uma outra tecnologia muito interessante é a instalação de radares que detectam a aproximação de bandos de aves e com essa informação as máquinas podem ser paradas, evitando a colisão”, conta.
Nordeste hoje responde por mais 80% da produção de energia eólica do Brasil..
Entidade afirma que atua para evitar danos
Segundo a Abeeólica, os parques construídos no Brasil respeitam as legislações ambientais e são erguidos sempre tentando reduzir os impactos ambientais para se “conviver de forma compatível com a preservação dos principais recursos ambientais do território”.
Sobre a questão do desmatamento, a entidade diz que a instalação de parques resulta em “baixos índices de supressão vegetal para implantação do empreendimento, sem supressão de grandes poligonais e, portanto, com impactos reduzidos”.
Complexo Eólico Ventos de São Clemente está nos municípios pernambucanos de Caetés, Capoeiras, Pedra e Venturosa Imagem: Divulgação
Divulgação De acordo com a entidade, os empreendimentos são distribuídos “de forma a conviver com um entorno preservado quanto às características de infiltração de água, sendo exceções os casos de uso de pavimentação asfáltica nas estradas associadas”.
Diz ainda que, sempre que possível, os projetos buscam utilizar estradas vicinais já existentes no território. “Esses acessos são revitalizados com sistemas de drenagem e contenção de sedimentos, bem como com recuperação e controle de erosões que ficam como um legado para o território”, afirma.
Quando há necessidade de instalar novos acessos, assegura que as estradas são projetadas “sem o uso de pavimentação asfáltica e considerando as melhores práticas da engenharia”, com sistema de drenagem. Sobre os prejuízos as dunas, a Abeeolica explicou que, no início das atividades há mais de 15 anos, “alguns parques foram instalados em dunas, com as respectivas compensações ambientais”. “Hoje isso já é bastante incomum, visto que os parques tendem a se instalar em áreas fora do litoral”, diz.
Sobre o impacto causado pelos aerogeradores a pássaros, a entidade assegura que, antes de um parque eólico ser construído, há uma uma série de etapas técnicas prévias para se adaptar e atender à legislação ambiental.
“Uma destas etapas inclui, exatamente, estudo de rotas migratórias de aves. A licença apenas é concedida quando há comprovação de que os riscos para impacto de aves são baixos e que podem ser compensados por medidas mitigatórias definidas pelos órgãos ambientais”, afirma, citando que, quando o “impacto reduzido chega, há medidas mitigatórias”.
Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas e com especialização em gestão de conteúdo em jornalismo pela Universidade Mackenzie, Carlos Madeiro atua há 20 anos e escreve para o UOL desde 2009, participando de grandes coberturas e fazendo reportagens e análises sobre o Nordeste e o Norte do Brasil.
Camada de gelo mostra sinais de derretimento a oeste do Alasca, em imagem feita em 4 de fevereiro de 2014 por satélites da Nasa. O estreito de Bering, coberto com gelo, se situa entre Alasca e Rússia Imagem: MODIS/Aqua/NASA Brian K. Sullivan 27/03/2015 18h07
Brian K. Sullivan
27/03/2015 18h07
Nos EUA, nos últimos doze meses, houve alertas mais do que suficientes de como o clima pode afetar nossas vidas. A Califórnia está entrando no quarto ano de seca porque não teve neve suficiente. Boston está começando a emergir de uma quantidade recorde de neve. Quase todos os dias, voos são cancelados, crianças perdem aulas e pais enviam cheques às seguradoras para para se protegerem de inundações, furacões e tornados.
No entanto, também existem impactos de longo prazo que a maioria das pessoas talvez não perceba. Por exemplo, se você mora no Canadá, no norte dos EUA ou em determinadas partes da Europa, o solo sob seus pés está subindo. E o motivo, de certo modo, é o clima.
Mas não o clima no sentido da chuva de ontem ou do vento da semana passada. O fenômeno foi causado pelas neves que se acumularam e criaram enormes mantos de gelo que cobriram a terra na última Era do Gelo. OK, foi muita neve, por um longo período de tempo, mas a questão tem mais a ver com o clima do que simplesmente com as condições meteorológicas
Independentemente da causa, a mudança é perceptível. “Podemos monitorá-la em tempo real”, disse Theresa Damiani, pesquisadora de geologia da Investigação Geodésica Nacional (NGS), da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA), em Camp Springs, Maryland.
Compensação da Terra.
O peso dos mantos de gelo, que tinham diversos quilômetros de espessura em alguns lugares, empurrou a superfície da Terra para baixo. Quando o gelo derreteu e recuou, o solo começou a subir novamente. A NOAA descreve o fenômeno como o que acontece quando um colchão velho volta ao formato original depois que uma pessoa se levanta de manhã. Quando os mantos de gelo começaram a recuar, ocorreu uma recuperação rápida em muitas regiões, que desacelerou ao longo dos séculos, disse Damiani.
“O solo vem se recuperando e continua nisso”, disse Damiani. “Leva um período muito longo”.
A superfície da Terra sobe cerca de 1 milímetro por mês no Canadá e aproximadamente a mesma quantidade ao longo de um ano nos EUA, disse ela. Para um lugar como a Baía de Hudson, no Canadá, as mudanças seriam visíveis ao longo da vida de uma pessoa, disse ela.
“Se você construiu um atracadouro, parece que o oceano está baixando”, disse Damiani.
Não é que o nível do oceano esteja caindo? É que a terra está voltando a subir.
Ao calcular o aumento dos oceanos devido ao atual derretimento das geleiras e dos mantos de gelo, os pesquisadores precisam levar em consideração essas taxas de recuperação, de acordo com um relatório da NOAA publicado em dezembro de 2012. Área coberta É claro que a terra só está subindo nas áreas cobertas pelo manto de gelo. No hemisfério ocidental, essa região abrange quase todo o Canadá até a Nova Inglaterra, passando pelos Grandes Lagos e chegando à Região Centro-Oeste, às Grandes Planícies do norte e ao Noroeste do Pacífico.
Além do limite dos lugares em que o gelo empurrou o solo para baixo, existem áreas onde a superfície está, na verdade, assentando-se mais abaixo. O que aconteceu aí é que o terreno na beira dos mantos de gelo se comportou como a geleia que se esparrama para fora de um sanduíche esmagado.
As mudanças podem provocar pequenos terremotos, embora eles sejam muito fracos e passem despercebidos para a maioria das pessoas.
O movimento é acompanhado por meio de satélites de posicionamento global e é utilizado para assegurar que os mapas continuem sendo exatos, disse Damiani. “A tarefa da minha agência, a NGS, é a de monitorar o formato do planeta”, disse Damiani. Os países escandinavos também monitoram a lenta taxa de recuperação da superfície ao longo dos últimos 14.000 anos, um ou dois séculos a mais ou a menos, desde que os mantos de gelo atingiram o auge na última Era do Gelo.
A paciência é, sem dúvida, um dos requisitos para esse trabalho.