Categoria: Vegetação

  • ‘Rio voador’, o fenômeno que ajuda a explicar as tempestades de verão no Brasil

    ‘Rio voador’, o fenômeno que ajuda a explicar as tempestades de verão no Brasil

    Encontro entre corredor de umidade, que flui de norte para sul do país, e frentes frias causa chuvas fortes nesta época do ano

    1º.fev.2022 às 8h46

    Rafael BarifouseBBC NEWS BRASIL

    As tempestades que vêm causando uma sequência de tragédias no Brasil desde o final do ano passado têm em comum um mesmo fenômeno.

    Assim como a água corre em terra, também há fluxos massivos de água nos céus.

    Na América do Sul, um desses enormes corredores de umidade atmosférica vai da região amazônica até o centro-sul do país.

    Imagem aérea mostra casas parcialmente destruídas por deslizamento de terra
    Tempestades provocaram deslizamentos e mortes em São Paulo – Reuters

    Esse “rio voador” carrega parte da água que evapora no norte para outras partes do território nacional.

    “É uma região muito úmida e tropical, onde tem um aquecimento constante. A Floresta Amazônica por si só já despeja uma quantidade enorme de água na atmosfera pela evaporação”, explica Estael Sias, da Metsul Meteorologia.

    “O relevo da América do Sul, a cordilheira dos Andes, não deixa essa umidade escapar do continente, obrigando esse rio voador a descer.”

    Se esse corredor de umidade se encontra com uma frente fria vinda do sul, as nuvens carregadas tendem a ficar concentradas por alguns dias em uma determinada região.

    Ilustração do mapa do Brasil mostra imagem de satélite indicando com setaas a Zona de Convergência do Atlântico Sul
    ‘Rio voador’ leva umidade da Amazônia até o sul do país – MetSul Meteorologia

    Um fenômeno potencializa o outro, formando um terceiro —a chamada zona de convergência do Atlântico Sul, que é recorrente durante o verão nesta região do planeta e provoca fortes chuvas.

    Foi o que aconteceu primeiro no sul da Bahia, no final do ano passado e, depois, em Minas Gerais, no início do mês.

    Agora, foi a vez das chuvas torrenciais atingirem São Paulo, provocando mais inundações, deslizamentos e mortes.

    Sias explica que o rio voador da América do Sul corre a uma altitude entre 5 a 10 km do solo e fica ativo durante o ano todo.

    Seu curso e alcance são influenciados pela dinâmica dos ventos na região e pela passagem de outros fenômenos pelo continente.

    “No inverno, um sistema de alta pressão atmosférica não deixa a maioria das frentes frias subirem até o Sudeste ou o Centro-Oeste, por isso é um período muito seco nessa parte do país, e o rio atmosférico consegue ir até mais ao sul”, afirma a especialista.

    “No verão, esse bloqueio vai para o oceano, se afastando do continente, e as frentes frias conseguem subir. Quando sobe uma frente fria, ela se conecta à umidade amazônica, e elas vão andando juntas até parar em cima do Sudeste ou do Nordeste do Brasil e se transformar em chuvas e temporais.”

    Ilustração do mapa do Brasil mostra imagem de sátelite
    Encontro de ‘rio voador’ com frente fria cria zona de convergência na região do Atlântico Sul – Climatempo

    Sias afirma que, na semana passada, o rio voador estava mais disperso, mas que, nesta semana, uma massa de ar frio e seco chegou ao sul do país e criou uma barreira que não deixou o corredor de umidade avançar.

    As nuvens ficaram então paradas sobre a região metropolitana de São Paulo e foram potencializadas pela frente fria, provocando fortes chuvas.

    O resultado foi que choveu em poucos dias a média histórica para o mês inteiro, e isso foi fatal em uma região que já vinha sofrendo com tempestades.

    FENÔMENO É CARACTERÍSTICO DO VERÃO

    No entanto, apesar de muita gente pensar que chuvas assim são excepcionais, Francisco de Assis, do Instituto Nacional de Meteorologia, explica que as zonas de convergência são algo característico da América do Sul no verão.

    “Dependendo do ano, ocorrem mais para o sul ou mais para o norte”, afirma Assis.

    Nesta época do ano, o corredor de umidade que vem da Amazônia ganha força. “Há uma alta liberação de calor e umidade da Amazônia devido às temperaturas elevadas,”, afirma Assis.

    Também há uma maior evaporação de água dos oceanos Pacífico e Atlântico, intensificando esses fenômenos meteorológicos, explica o especialista.

    Josélia Pegorim, meteorologista da Climatempo, reforça que as zonas de convergência acontecem todos os anos, com maior ou menor intensidade.

    “Se pegarmos outros eventos de desastres naturais e de chuvas catastróficas, no Sudeste em particular, quase todos, ou a maior parte, estiveram associados à formação de zonas de convergência”, diz Pegorim.

    Imagem mostra um carro no meio de uma rua alagada
    Em poucos dias, choveu a média de janeiro inteiro na região metropolitana de SP – Reuters

    A especialista avalia que as tragédias ocorrem não pela intensidade das chuvas ou porque elas sejam imprevisíveis —na verdade, foi o contrário, dizem os meteorologistas ouvidos pela reportagem, e alertas foram emitidos com antecedência.

    O problema é a falta de preparo e de reação das autoridades aos avisos.

    “A culpa é da chuva até certo ponto. Não se pode dizer que é por causa das mudanças climáticas ou que nunca choveu assim, porque já teve chuvas até piores. Não teve surpresa”, diz Pegorim.

    Ao mesmo tempo, afirma a meteorologista, a canalização do ar úmido da região Norte em direção ao Centro-Oeste e ao Sudeste e a formação das zonas de convergência no encontro com frentes frias, formando tempestades, tem uma função importante.

    “Esse sistema é fundamental para que consigamos recompor as reservas de água para os reservatórios de geração de energia e de abastecimento da população.”

    https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2022/02/rio-voador-o-fenomeno-que-ajuda-a-explicar-as-tempestades-de-verao-no-brasil.shtml

    Prof Luciano Mannarino

    Questões

    1 De que forma o aumento da devastação da floresta amazônica pode modificar a quantidade de chuvas no verão das regiões Centro Oeste e Sudeste?

    2 Explique as características do Clima Equatorial a partir de seu Climograma.

    3 Por que eventos de chuvas intensas atingem mais as populações de baixa renda nas grandes metrópoles da região sudeste? Quais intervenções que o poder público poderia fazer para diminuir os danos dessas chuvas sobre essas populações?

    4 Como o “La Nina” altera o comportamento das massas de ar que atuam no Brasil?

    Rios voadores (atividade)

    CLIMAS DO MUNDO – CLIMA EQUATORIAL

    ‘Fine Waters’ (avaliação)

  • Em MS, ‘brasiguaios’ dominam o maior assentamento de sem-terra do país.

    Em MS, ‘brasiguaios’ dominam o maior assentamento de sem-terra do país.

    Rodrigo Bertolotto

    Do TAB, em Ponta Porã (MS)

    18/01/2022 04h01

    Sempre com belas jovens a tiracolo, Olacyr de Moraes descia do jatinho em Ponta Porã (MS) para vistoriar sua fazenda de 500 km², maior que o território de 17 países reconhecidos pela ONU. A pista particular de aterrissagem do chamado “rei da soja”, maior produtor individual do grão no mundo no final do século 20, é usada agora para secar o milho produzido no maior assentamento sem-terra do país.

    Após a derrocada empresarial de Moraes, a terra foi desapropriada e distribuída a mais de 3.000 famílias, a partir de 2003. O atual distrito de Nova Itamarati quer virar município e possui 17 mil habitantes atraídos por esse simbólico exemplo de reforma agrária no Brasil. O revelador é que 80% deles é de “brasiguaios”, população que migrou para o país vizinho e voltou nos últimos anos.

    O paranaense Djones Ambrust, conhecido como Tigrinho, viveu no Paraguai até os 18 anos. Justo acontecia a Copa do Mundo de 1998 quando ele atravessou a fronteira para se juntar a um acampamento de sem-terra em Naviraí (MS). “Minha família plantava na terra dos outros, e o dinheiro só dava pra pagar as contas. E ainda tinha que conviver com a perseguição e preconceito dos paraguaios. Por isso, vim embora”, conta

    Meses depois, ele se mudou para uma barraca feita de paus e lonas, como tantas outras, em uma fazenda ocupada em Itaquiraí (MS), à beira da BR-163. “Era numa ribanceira, as carretas passavam aceleradas, e o vento rasgava a lona. A gente acordava com o sereno da noite caindo na gente.” Atualmente, tem casa e lote no assentamento Itamarati.

    Em 2000, seus familiares que ficaram na colônia de brasileiros em Canindeyú (Paraguai) avisaram que um grande proprietário estava precisando de gente para a colheita, e Tigrinho atravessou a fronteira de volta — para sua tristeza. “Não gosto nem de lembrar. Era como se tivessem arrasado toda minha infância: eles derrubaram a casa, o pomar e a escola para fazer plantação. O lugar onde eu cresci foi todo empurrado e virou entulho no meio do mato.” Assim como a paisagem, a própria história dessa gente está sendo apagada.

    brasiguaios - José Medeiros/UOL - José Medeiros/UOL
    O paranaense Djones Ambrust, 41, saiu do Paraguai com 18 anos e hoje planta soja orgânica no maior assentamento sem-terra do Brasil.

    Quando as marchas se encontram

    A divisa entre os dois países ganhou o desenho atual há exatos 150 anos. Após dois anos do fim da Guerra do Paraguai (1864-1870), era assinado o tratado bilateral Loizaga-Cotegipe, que estabeleceu os limites entre as nações. Os vencedores ficaram com territórios que antes eram reivindicados pelos derrotados, e começou o avanço de empresas e populações brasileiras que nem sempre obedeceram aos marcos fronteiriços.

    O primeiro mega empreendimento da região foi a extração da erva-mate nativa dos dois países pela Companhia Matte Larangeira, propriedade de Thomaz Larangeira, empresário que fornecera insumos para as tropas imperiais. Com sucessivas concessões e explorando mão de obra indígena, a empresa vendeu chimarrão para os argentinos até os anos 1940.

    brasiguaios - José Medeiros/UOL - José Medeiros/UOL
    Grupo de agricultores brasiguaios presente em reunião no assentamento Itamarati, em Ponta Porã (MS).

    Foi quando começou a “Marcha para o Oeste”, promovida pelo Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945). Arregimentou-se levas de sulistas para as áreas de fronteira, com desmatamento e lavoura. A partir da década de 1960, o avanço passou a alfândega: o ditador paraguaio Alfredo Stroessner fomentou por seu lado a “Marcha ao Leste”, incentivando a migração de agricultores vizinhos habituados à mecanização.

    Resultado: na década de 1980, 10% dos habitantes do Paraguai eram brasileiros e descendentes — hoje, a porcentagem é 3% (240 mil). Uma das razões dessa diminuição foram os conflitos agrários. Nessa briga, os mais desprotegidos são os pequenos lavradores e empregados rurais brasileiros. O agronegócio verde-amarelo, que chega a ser dono de mais de 50% das terras em áreas fronteiriças, segundo censos econômicos paraguaios, tem conexões políticas na capital, Assunção, e se protege bem mais dos vários movimentos campesinos.

    Brazilians, go home

    “Direto eu ouvia: ‘volta pro seu país’. Isso é também um resquício da guerra. Estudei na escola de lá, e, quando ensinam História, havia muito ódio aos brasileiros”, relembra Jacob Bamberg, 48. Ele nasceu em Cascavel (PR) e morou dos 11 aos 38 anos no país vizinho. Um grileiro brasileiro enganou seu pai, que comprou um terreno sem título oficial paraguaio — e a família acabou ganhando a vida como funcionários de outros conterrâneos.

    Bamberg foi tratorista, churrasqueiro e garçom e nunca teve terra própria no Paraguai. Ouvia falar das ocupações de latifúndios improdutivos no Brasil, mas não se arriscava a voltar. “Muita gente me convidou, mas se falava muito mal dos sem-terra, e eu não queria morar em acampamento. Acabei vindo por pura necessidade”, conta ele, que é uma das lideranças atuais do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) no assentamento Itamarati.

    brasiguaios - José Medeiros/UOL - José Medeiros/UOL
    O agricultor brasiguaio Jacob Bamberg toma tereré em pausa do trabalho em seu lote no assentamento Itamarati, o maior do Brasil..

    Nessa condição, voltou ao Paraguai para verificar as ameaças que camponeses paraguaios faziam a carvoeiros brasileiros, confundidos com jagunços de grandes proprietários. “Eles não tinham nem uma espingarda velha para caçar passarinho e não sabiam do perigo que corriam. Quando contei para eles, choraram de tanto medo”, relata.

    Segundo Bamberg, o campesinato paraguaio é muito dividido. “Há muitos grupos pequenos que se voltam contra os colonos brasileiros porque é mais fácil, é o vizinho tão pobre quanto eles. Outros radicalizam e querem expulsar todos os estrangeiros. E ainda tem os que vão para as guerrilhas”, analisa. O país conta com os únicos grupos guerrilheiros em atividade da América do Sul, como o EPP (Ejército del Pueblo Paraguayo) e EML (Ejército del Mariscal López), com incursões em propriedades de brasileiros por lá.

    Guerrilheiros na fazenda

    “Eles queimaram o maquinário, os tratores e os galpões. Enquanto a situação for essa, não vou mais investir ali.” Assim o empresário gaúcho Iracy Antoniolli descreve a ação em 2018 do EPP, grupo armado de no máximo 80 integrantes, que entrou e destruiu sua fazenda no Departamento de Concepción, centro-norte do Paraguai.

    Antoniolli, 81, é uma exceção entre os brasiguaios: fez fortuna extraindo peroba nas matas vizinhas e hoje tem gado, madeireiras e plantações nos dois países. A ideia inicial era trocar a vidinha na serra gaúcha pelas oportunidades em Sinop (MT), mas sua mulher, quando percebeu que iria morar no meio da floresta, decidiu que não dariam mais nem um passo na direção norte. “A gente estava em Campo Grande, e pra distraí-la, disse para ir até a fronteira. Quando nos hospedamos no hotel de Ponta Porã, choveu corretor oferecendo terra no Paraguai”, recorda-se. Formado em contabilidade, fez os cálculos e viu que podia ficar milionário com o negócio.

    brasiguaios - José Medeiros/UOL - José Medeiros/UOL
    O empresário brasiguaio Iracy Antoniolli posa em seu escritório em Pedro Juan Caballero com chimarrão e bandeira paraguaia.

    Voltou para Nova Prata (RS), vendeu os três carros que tinha e pediu um empréstimo no banco. Foi ao país vizinho, comprou “um perobal maravilhoso”, botou abaixo e vendeu tudo para empreiteiras paulistanas, afinal, as perobas estavam cada vez mais escassas em território nacional. “Não tinha um balde de asfalto nas estradas do Paraguai, era ruim trazer as toras pro Brasil, mas o Stroessner dava muito incentivo fiscal e financiamento para quem colocava dinheiro no país”, afirma. Hoje, Antoniolli tem 35 funcionários no Paraguai e 50 no Brasil. Mora em Ponta Porã, mas seu escritório é em Pedro Juan Caballero, aproveitando a conurbação binacional. Ele é da direção tanto do CTG (Centro do de Tradições Gaúchas) do lado brasileiro quanto da Asociación Rural do Departamento de Amambay, do lado paraguaio.

    Ponte sem amizade

    O casal Rosane e Ivanildo Silva também tiveram sua terra no Departamento de Caaguazú invadidas. Pior: tomada por pessoas que eles consideravam amigos. “Um deles tinha sido meu colega de escola. Outro ajudava meu marido no trator e tomava tereré com a gente. No dia que íamos construir o casebre no terreno, eles barraram a gente na estrada com facões, machadinhas e galões de gasolina”, conta Rosane, que perdeu um dente e ficou com a boca inchada por tentar argumentar com o grupo, que era uma milícia rural e não tinha ligação com os chamados carperos da Via Campesina, maior agrupação paraguaia de sem-terra.

    Depois de três décadas de Paraguai, três filhos para cuidar e com todas as economias investidas no sítio ocupado, o casal decidiu se juntar ao movimento sem-terra em Mato Grosso do Sul.

    brasiguaios - José Medeiros/UOL - José Medeiros/UOL
    Braz Correia, 46, viveu metade da vida no Paraguai, mas agora cuida de seu rebanho e é motorista escolar no assentamento Itamarati (MS)

    Os brasiguaios são os únicos da diáspora brasileira com perfil rural. Além da vegetação e do solo similar ao Brasil, a concentração de terras no Paraguai é parecida também, e isso determinou as perambulações dessa população da região Sul para o Paraguai e depois em direção ao Centro-Oeste nas últimas décadas.

    O que tomaram de Rosane e Ivanildo no Paraguai eles tentam reconstruir do lado brasileiro, cuidando de seu lote familiar e ajudando nas terras coletivas do assentamento Itamarati. “É como diz o ditado: o bom filho à casa torna”, resume Rosane.

    brasiguaios - José Medeiros/UOL - José Medeiros/UOL
    O paranaense Altair Schlickmann viveu 31 anos no Paraguai, onde nasceu seu filho, mas hoje é assentado da reforma agrária em Ponta Porã (MS)

    https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2022/01/18/brasiguaios-dominam-o-maior-assentamento-de-sem-terra-do-pais.htm

    1) O que são “grilheiros” de terra?

    2) O que foi a “Marcha para o Oeste” brasileira e como ela se relaciona com um importante fluxo de migrantes no Brasil?

    3) O texto fala de “conurbação binacional”. O que significa essa expressão?

    4) Estabeleça semelhanças entre o MST e os “carperos” paraguaios.

    5) O que foi o Acordo Loizaga-Cotegipe e de que forma ele se relaciona com tensões entre brasileiros e paraguaios?

    6) O que são “brasiguaios”?

    Questão Agrária/Agrícola

    Brasil foca em soja e milho para exportação, e arroz e feijão perdem espaço…

    Menos floresta, mais agropecuária

    Prof Luciano Mannarino

  • Com secas e degradação, Caatinga perdeu 40% de água original em 35 anos (EF07GE11)

    Com secas e degradação, Caatinga perdeu 40% de água original em 35 anos (EF07GE11)

    EF07GE11

    Caracterizar dinâmicas dos componentes físico-naturais no território nacional,
    bem como sua distribuição e biodiversidade (Florestas Tropicais, Cerrados, Caatingas, Campos
    Sulinos e Matas de Araucária).

    Carlos Madeiro Colaboração para o UOL, em Maceió

    07/10/2021 04h00

    O avanço da degradação ambiental, somado a um período de estiagens severas, levou o bioma da Caatinga a perder 40% de sua água de origem natural entre 1985 e 2020. O dado consta no estudo “Mapeamento Anual de Cobertura e Uso da Terra na Caatinga”, do projeto MapBiomas. Ao todo, foram 79 mil hectares de superfície de água a menos nesses 35 anos, o que equivale a uma área de 96 mil campos de futebol oficiais.

    Carro-pipa capta água em rio em Santa Bárbara (BA)  - Fernando Vivas - 21.out.2016/Folhapress
    Com secas e degradação, Caatinga perdeu 40% de água original em 35 anos Carro-pipa capta água em rio em Santa Bárbara (BA) Imagem: Fernando Vivas – 21.out.2016/Folhapress

    A água natural de um bioma se constitui, especialmente, pelas bacias de rios e açudes já existentes na região. A redução de água no bioma foi compensada, em partes, pela construção de fontes artificiais, como os reservatórios de hidrelétricas. Somando todas as formas encontrada na superfície, o estudo apontou para 922 mil hectares de extensão média da água mapeada em 2020 (menos 8,27% no período de 35 anos).

    Onde está a água de superfície na Caatinga:

    Hidrelétricas – 304.994 hectares (42,7% do total)

    Reservatórios – 211.556 hectares (29,6%)

    Natural – 196.365 hectares (27,5%)

    Mineração – 1.584 hectares (0,2%)

    Caatinga é um bioma que ocupa 844 mil km² do Nordeste e do norte de Minas Gerais, cobrindo 10,1% do território brasileiro. Nele, moram 27 milhões de brasileiros em 1.210 cidades —entre elas, uma capital: Fortaleza. Segundo Washington Franca Rocha, coordenador da equipe de Caatinga do MapBiomas, a perda natural só não causou maiores estragos porque houve uma série de ações públicas recentes. “A gente verificou que, a partir de 2004, houve um investimento em construção de açudes, reservatórios, em infraestrutura hídrica para se armazenar água. Não tivemos uma crise hídrica mais grave por conta dessas ações”, afirma.

    Menos vegetação, menos água.

    A perda de água tem relação direta com a perda de cobertura vegetal. A área remanescente de vegetação nativa, entre 1985 e 2020, por exemplo, caiu 10%. Dos dez municípios que mais perderam essa vegetação natural no período, oito ficam na Bahia.

    Mapa de áreas degradas cresceu em 35 anos - Reprodução/MapBiomas - Reprodução/MapBiomas
    Mapa de áreas degradadas cresceu em 35 anos Imagem: Reprodução/MapBiomas Nesses 35 anos, foram ao menos 15 milhões de hectares de vegetação primária suprimidas

    “O que sustenta o bioma é a vegetação que retém água, não permitindo que ela, de forma acentuada, vá parar no oceano. Se você tira essa cobertura vegetal de forma acelerada, o que vai acontecer é que áreas mais expostas, sem cobertura, tendem a ficar secas”, explica.

    Isso acende um alerta a essas ameaças ao bioma. Reforça a condição de que o bioma está se tornando ainda mais seco. Tivemos uma redução contínua, não cíclica, como a gente consegue mostrar em um período de 35 anos. Algo está acontecendo na região que está se sobrepondo e causando a perda de água.Washington Franca Rocha, do MapBiomas Segundo Rodrigo Vasconcelos, da UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana) e da equipe do MapBiomas Caatinga, a queda começou a se acentuar a partir de 2009. “Hoje, uma minoria [da água superficial] é natural, o que indica a necessidade de novas —e manutenção das atuais— políticas públicas para dar sustentabilidades a estados e municípios”, afirma. O que fica claro, ao longo da série temporal, é que o bioma vem apresentando uma perda de água. Isso merece destaque quando avaliamos que essa redução ocorre em todas as bacias. Há uma forte tendência de diminuição em termos de área mapeada. Rodrigo Vasconcelos, da UEFS e do MapBiomas.

    Rio São Francisco “seca”

    Em 35 anos, o maior reservatório do Nordeste: o rio São Francisco, perdeu 30.679 hectares de superfície com água —o que corresponde a 4,16% do volume total. O pesquisador Humberto Barbosa, coordenador do Lapis (Laboratório de Processamento de Imagens de Satélite), da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), publicou um artigo –junto com outros pesquisadores, em 23 de setembro– em que aponta a degradação ambiental acelerando e causando danos na bacia.

    “Nos últimos anos, toda aquela área do São Francisco vem enfrentando degradação, com a mudança no uso e ocupação do solo, que inclui a conversão de terras para a agricultura, em detrimento da vegetação nativa. Os períodos secos são relativamente comuns no rio São Francisco, mas há uma crescente preocupação sobre a capacidade de esse rio responder a esses eventos de secas”, conta. 2019:

    Sertania - Leo Caldas/Folhapress - Leo Caldas/Folhapress
    Agricultores de Sertânia (PE) buscam água ao lado de canal seco da transposição do São Francisco Imagem: Leo Caldas/Folhapress

    Barbosa diz que isso ocorre em razão da tendência das secas se tornarem mais frequentes e extremas, devido aos efeitos da mudança climática. O semiárido brasileiro é a região do Brasil mais afetada pela mudança climática. Simulações de modelos climáticos indicam possibilidade de redução de cerca de 40% das chuvas na região ainda neste século. A região já conta com 13% do seu território em processo de desertificação. Humberto Barbosa, Lapis/Ufal Segundo ele, as grandes secas que afetaram o rio São Francisco estiveram historicamente mais concentradas na região do Baixo São Francisco (entre Alagoas e Sergipe). “Mas, de acordo com a nossa pesquisa, há sinais de condições crescentes de seca nas demais áreas da bacia, como é o caso do Alto e Médio São Francisco”, explica, lembrando que, nessas áreas, estão localizadas as usinas hidrelétricas de Três Marias (MG), Sobradinho (BA) e Luiz Gonzaga (PE), além de importantes áreas agrícolas”, revela.

    Vista de satélite da barragem de Sobradinho (BA): perdas afetam o rio São Francisco - Planet Scope/Lapis/Ufal - Planet Scope/Lapis/Ufal
    Vista de satélite da barragem de Sobradinho (BA): perdas afetam o rio São Francisco Imagem: Planet Scope/Lapis/Ufa

    Com a maior escassez de água, Barbosa ainda aponta para uma tendência de acirramento nas disputas pelo seu uso. “A avaliação dos impactos de eventos intensos de seca na bacia do rio São Francisco é fundamental para desenvolver estratégias adequadas de adaptação e mitigação desses conflitos”, pontua.

    https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2021/10/07/com-secas-e-degradacao-caatinga-perdeu-40-de-agua-original-em-35-anos.htm

    Questões.

    Prof Luciano Mannarino

    Vegetação

    Domínio Caatinga

    Crise do Clima “Nordeste”

  • A corrosão da Caatinga

    A corrosão da Caatinga

    Extração de madeira e uso da terra para roças e pastagens reduzem biodiversidade e transformam a paisagem do sertão

    Carlos Fioravanti

    Edição 266
    abr. 2018

    Durante três dias de sol forte, na segunda semana de março de 2018, uma equipe da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) cavou crateras na terra seca de roças abandonadas no Parque Nacional do Catimbau, na região central de Pernambuco, para examinar o interior de ninhos de saúva. Os pesquisadores viram que, em áreas de solo raso como as que escavavam, as formigas guardavam matéria orgânica a até 3 metros (m) de profundidade, dificultando o acesso das plantas a nutrientes e retardando a regeneração da vegetação original. Em outras expedições, já tinham observado que a densidade das colônias de saúva aumentava de duas por hectare (ha) nas áreas de vegetação nativa para 15 por ha (1 ha corresponde a 10 mil metros quadrados) nos trechos usados para cultivo agrícola ou pastagem. As saúvas  sobrepõem-se a outras espécies de formigas à medida que a vegetação nativa é retirada.

    Retirada de lenha no interior de PernambucoRicardo Azoury / olhar imagem

    A proliferação dos ninhos de saúva evidencia o empobrecimento da Caatinga causado pela retirada lenta e contínua de árvores e de animais das matas. Por consistir na extração de pequenas porções de recursos naturais, esse processo escapa das imagens de satélite, mas, em silêncio, transforma a paisagem do sertão nordestino e aumenta o risco de desertificação. Outro sinal visível da metamorfose é a proliferação de plantas invasoras como a algaroba (Prosopis juliflora), árvore nativa dos Andes usada para extração de madeira e alimentação do gado. As invasoras crescem com rapidez em ambientes mais abertos e tornam-se dominantes em roças ou pastos abandonados.

    Situado no município de Buíque, com 622 quilômetros quadrados (km2), o parque do Catimbau abriga cerca de 1.500 pessoas, que já viviam ali no momento de sua criação, em 2002. Os moradores usam as áreas de mata para plantar milho e feijão, criar cabras, retirar madeira para fazer cerca ou cozinhar e caçar para se alimentar. Ali, concluíram os pesquisadores da UFPE, as intervenções dos pequenos produtores rurais causaram a perda de pelo menos um terço da biodiversidade, principalmente de plantas.

    “Não é um quadro isolado”, diz o ecólogo Marcelo Tabarelli, da UFPE, coordenador do grupo de pesquisa. “A trajetória da degradação, com a transformação da floresta em uma vegetação dominada por arbustos e depois por herbáceas, ocorre em toda a CaatingaQuanto maior a pressão humana sobre a vegetação nativa e quanto menos água, mais pobres serão o ambiente e as pessoas que vivem dele.”

    A ação humana sobre a vegetação nativa do interior do Nordeste é antiga. No século XVI, o sertão produzia carne e alimentos para os moradores do litoral, que priorizavam a produção de cana-de-açúcar. Como resultado de cinco séculos de exploração econômica, quase metade (45%) da área original da Caatinga – 826 mil km2, o equivalente a 11% do território nacional – já foi desmatada, como resultado principalmente da ação dos grandes produtores rurais.

    Na introdução ao livro Caatinga – The largest tropical dry forest region in South America, publicado em 2017, Tabarelli, os biólogos Inara Leal, também da UFPE, e José Maria Cardoso, da Universidade de Miami, nos Estados Unidos, observaram que os moradores de comunidades rurais da Caatinga dependem da vegetação nativa para sobreviver, o que causa uma lenta e contínua alteração do ambiente. Segundo eles, somando a ação dos moradores do sertão com os grandes projetos de infraestrutura e a agricultura comercial, pelo menos 63% da Caatinga já deve ter sofrido os efeitos da ação humana.

    Mantidas em cercados, as cabras alimentam-se de plantas da Caatinga, dificultando a regeneração da vegetaçãoINARA LEAL/UFPE

    Das 89 famílias que vivem no parque do Catimbau, 85% dependem da extração da madeira para cozinhar, de acordo com um levantamento de 2012 da bióloga da UFPE Laís Rodrigues. O consumo médio de lenha foi de 606 quilogramas (kg) por ano por pessoa, o que equivale a 10 ha por ano, somente para abastecer os fogões a lenha. “Dentro do parque”, observa o biólogo Felipe Melo, professor da UFPE, “como o governo impõe restrições ao uso da terra, as famílias são mais pobres e mais dependentes dos recursos naturais que as de fora, mas também não conseguem sair de lá porque não têm para onde ir”.

    Fora das áreas de proteção ambiental, há também a extração de lenha para abastecer as empresas de produção de gesso, olarias, padarias e pizzarias. O consumo doméstico e comercial implica uma perda estimada em 30 milhões de metros cúbicos por ano de mata nativa, segundo o Ministério do Meio Ambiente.

    A situação é similar na Mata Atlântica no Nordeste. Um estudo de 2015 na Global Ecology and Conservation, com base em 270 famílias de sete comunidades de Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba, registrou um consumo médio de 686 kg de lenha por ano por pessoa, o que implicaria a retirada de 2 mil ha de mata por ano nos 270 municípios da região com esse tipo de vegetação. “Quanto menor a renda das famílias, maior a dependência e a retirada de lenha”, diz Melo. Florestas de clima semiárido ou desértico da África e da Índia que abrigam comunidades humanas registram o mesmo fenômeno.

    Menos espécies nativas
    No Catimbau, espécies típicas como aroeira (Myracrodruon urundeuva) e angico-branco (Anadenanthera colubrina) são as mais extraídas para construção de cercas ou casas, de acordo com um estudo de fevereiro deste ano na Environmental Research Letters. Em Parnamirim, município pernambucano a 350 km a oeste do Catimbau, cujos 20 mil moradores vivem da extração de madeira e de plantas, os pesquisadores verificaram que as espécies de árvores típicas tendem a ser substituídas por outras, que crescem com rapidez e suportam as alterações provocadas pelas roças e pastos itinerantes, como marmeleiro-do-mato (Croton sonderianus) e jurema-preta (Mimosa tenuiflora). As cabras, por sua vez, comem os galhos de árvores com folhas mais macias, deixando de lado arbustos menores e plantas herbáceas com folhas mais duras, que se tornam as predominantes em áreas de pastagens.

    Além da proliferação de saúvas, a ação humana altera as interações de outros grupos de formigas e insetos com as plantas. “Vimos que se perdem dois tipos de serviço que as formigas prestam às plantas: a proteção contra insetos herbívoros e a dispersão de sementes”, diz Inara. No primeiro caso, segundo ela, por sofrerem mais estresse em áreas mais abertas, as plantas acumulam menos néctar em seus nectários extraflorais, que atraem formigas. Por sua vez, as formigas se alimentam de insetos herbívoros, que, sem elas, atacariam as plantas. Com menos néctar e menos formigas, as plantas tornam-se mais vulneráveis aos insetos herbívoros. No segundo caso, as ações humanas causam uma redução das populações e da atividade de espécies de formigas consideradas boas dispersoras de sementes, como a tocandira (Dinoponera quadriceps). “Em consequência”, diz Inara, “as sementes são dispersas em menor quantidade e por menores distâncias.”

    Vista geral do Parque Nacional do Catimbau (PE), com áreas de roças e pastos abandonados com solo exposto, em primeiro planoKATIA RITO/UNAM

    Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a bióloga Gislene Ganade pode ter encontrado uma solução para um antigo problema da recomposição da Caatinga: as árvores plantadas em campo dificilmente sobrevivem ao clima seco, apesar de adaptadas a ambientes inóspitos. Em seus experimentos, árvores de 16 espécies foram inicialmente cultivadas em tubos plásticos até as raízes atingirem 1 m de comprimento. Depois, foram plantadas em uma cova regada com 4 litros de água, na Floresta Nacional de Assu, no Rio Grande do Norte, em junho de 2016.

    “Com água para abastecer as raízes, as árvores mantiveram-se verdes por dois meses, mesmo na seca, e depois de oito meses, quando choveu, produziram folhas novas e frutos”, Gislene observou. Segundo ela, um ano após o plantio, 75% das árvores tinham sobrevivido. Com base nesse método, as equipes da UFRN e da UFPE pretendem recompor a vegetação do Catimbau. O plano é criar uma área experimental de 5 ha com árvores que possam servir para a produção de mel ou de alimento para os moradores do parque e para os animais de criação.

    A integração entre a criação de cabras, a agricultura e o plantio de espécies de árvores usadas como lenha é outra estratégia cogitada para evitar a degradação ambiental e favorecer a renda dos proprietários rurais. “Como não haveria recursos próprios para implementar os sistemas integrados do tipo lavoura-pecuária, a participação dos órgãos governamentais é essencial, por meio de linhas de crédito e do apoio a pesquisas”, diz o engenheiro-agrônomo Luiz Antonio Martinelli, professor da Universidade de São Paulo.

    Políticas públicas já em vigor têm ajudado a preservar a Caatinga, observa Tabarelli, que desde 2012 percorre com frequência o Catimbau. “Os programas de transferência de renda, principalmente a aposentadoria rural, desaceleraram a exploração da Caatinga e deixaram as famílias menos dependentes dos recursos naturais”, observa. “Em vez de caçar, os sertanejos podem comprar frango e, em vez de tirar lenha da mata, podem comprar gás para cozinhar.

    Questões

    1. Caracterize a Caatinga (clima, vegetação, solo e relevo)

    2. De acordo com o texto, por que a Caatinga sofre um processo de “desertificação”?

    3 Qual era a função do Sertão para o ciclo da cana durante o Brasil colônia?

    4 Por que programas de transferência de renda desaceleram a exploração da Caatinga?

    5 Analise a seguinte afirmação “o problema do sertão não é a seca, e sim a cerca”

    6 O que é o Projeto de transposição da Bacia do São Francisco?

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    Prof Luciano Mannarino.

  • Planícies associadas às florestas de mangue retiram carbono da atmosfera

    Ambiente estuarino descampado armazena nutrientes e ajuda no combate ao efeito estufa

    Léo Ramos Chaves

    Gilberto Stam

    Quem observa a floresta de mangue em um passeio de barco talvez saiba que o ecossistema é um berçário da vida aquática. Menos conhecida é a paisagem que às vezes se segue, dezenas de metros adiante, onde a floresta vicejante dá lugar a um campo aberto de chão rachado, como o do sertão, em períodos mais secos. Entre poucas plantas rasteiras, ainda mais esparsos são arbustos resistentes à alta salinidade da água do solo ‒ até cinco vezes maior que a do mar, excessivo até para as árvores do manguezal. Mesmo adaptadas ao sal, ali elas não vingam ou desenvolvem porte anão. Chamada de planície hipersalina pelos ecólogos e salgado ou apicum (brejo de água salgada, em tupi-guarani) pelos moradores locais, essa face pouco conhecida do manguezal absorve no solo quantidade significativa de gás carbônico da atmosfera e o estoca sob a forma de biomassa, segundo estudo publicado na revista Biogeosciences em abril.

    Quando não está alagado, o solo do apicum, impregnado de sal, frequentemente aparece rachado como em zonas áridas

    “O solo não é morto, mas revestido por um tapete vivo denominado microfitobentos, composto de algas, fungos, bactérias, pequenos insetos e crustáceos”, diz o ecólogo Humberto Marotta, da Universidade Federal Fluminense (UFF), coordenador do Laboratório de Ecossistemas e Mudanças Globais (LEMG-UFF) e da Unidade Multiusuário de Gases de Efeito Estufa e Combustíveis Voláteis (GAS-UFF), em Niterói, Rio de Janeiro, um dos autores do artigo. São as cianobactérias, também chamadas de algas azuis, as responsáveis pela maior parte da absorção de carbono. Trata-se de microrganismos fotossintetizantes que, como as plantas, produzem seu próprio alimento a partir do gás carbônico que absorvem e da energia do sol.

    “Parte do microfitobentos que morre permanece no solo, preservado pelo sal”, explica o oceanógrafo Christian Sanders, da Universidade de Southern Cross, na Austrália, e coordenador do trabalho que contou com pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos. Conforme as marés trazem mais sedimentos, o solo cresce em camadas, por volta de 1 ou 2 milímetros ao ano, enterrando microrganismos repletos de carbono que podem ficar lá por séculos

    Estudando as camadas do solo, os pesquisadores verificaram que nos últimos 100 anos o apicum da Reserva Biológica Estadual de Guaratiba, às margens da baía de Sepetiba, na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, absorveu cerca de 21 gramas de carbono por ano, ou 1 quilograma de carbono a cada 50 anos, por metro quadrado. Usando aparelhos que medem a quantidade de carbono que entra e sai do solo, eles verificaram que o elemento químico era mais absorvido do que eliminado nos sedimentos, confirmando que o solo salgado absorve o principal gás do efeito estufa como uma esponja.


    “As planícies hipersalinas não absorveram tanto carbono quanto as florestas do mangue, recordistas nessa modalidade, mas podem ser até mais extensas em determinadas áreas, o que torna relevante a absorção total”, diz Sanders. Os pesquisadores defendem que essas planícies sejam consideradas um componente do sistema de carbono azul, ou seja, um dos ecossistemas costeiros capazes de sequestrar carbono e atenuar as mudanças climáticas.

    “O manguezal como um todo, incluindo o apicum, guarda carbono nos troncos, nas folhas, nas raízes e no solo. O total pode chegar a quatro vezes mais do que nas florestas terrestres, como a amazônica, por unidade de área”, calcula o oceanógrafo Mário Soares, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenador do Núcleo de Estudos em Manguezais (Nema), outro coautor do artigo da Biogeosciences. Nas florestas terrestres, quando os seres vivos morrem e são decompostos, a maior parte do carbono na base de suas moléculas orgânicas volta ao ar na forma de gás carbônico.

    Os apicuns ocorrem em locais onde há um desnível do terreno nas regiões tropicais e subtropicais de todo o globo. Ao contrário do solo lodoso da floresta, submerso todos os dias, a maré só chega até a planície hipersalina duas vezes por mês – quando a lua cheia ou minguante e o sol, alinhados à Terra, somam suas forças gravitacionais para produzir a chamada maré viva, mais alta que as demais. A água empoça no terreno plano e evapora, acumulando sal. “Variações frequentes entre condições submersas ou expostas do apicum devido aos regimes de chuva e à maré podem representar mudanças pronunciadas na apreensão de carbono pela atividade fotossintetizante do microfitobentos ao longo do ano”, comenta a ecóloga Roberta Peixoto, pesquisadora em estágio de pós-doutorado no grupo de Marotta.

    No Brasil, os apicuns ocorrem principalmente desde o Rio de Janeiro até o Oiapoque, no Amapá, extremo norte do país, sendo mais comuns e amplos no Nordeste, onde a estação seca bem demarcada faz a água da maré evaporar mais rapidamente e o terreno plano é extenso. Em São Paulo não há apicuns, porque a serra do Mar deixa pouco espaço para essas formações e o clima mais chuvoso não favorece sua existência.

    Avicennia schaueriana, a mais tolerante à salinidade entre as espécies de mangue, mantém estatura anã na planície hipersalina, e a rasteira Sarcocornia ambigua é comum nesse ambienteLéo Ramos Chaves

    Múltiplas funções
    Além de ser uma máquina de enterrar carbono, a planície hipersalina também absorve nutrientes importantes para as plantas, como nitrogênio e fósforo. Quando a maré lava as planícies salgadas, borbulha do solo uma espuma de cianobactérias mortas, rica em nutrientes, que escorre para a floresta e enriquece o solo lodoso do manguezal.

    Por ficar normalmente entre a floresta de mangue e o sistema terrestre, o apicum serve de passagem para animais, como a onça. “Por ali passam também aves migratórias, que se alimentam de microcrustáceos, moluscos e peixes jovens que vivem nas poças d’agua. Há, ainda, caranguejos e mamíferos, como guaxinins, gatos e cachorros-do-mato”, relata Soares. O pesquisador encontrou pegadas de onça no apicum de Guaratiba e prepara, com outros pesquisadores, um artigo sobre a ocorrência do animal no local.

    Quando começou a estudar os manguezais de Guaratiba, no início da década de 1990, Soares e sua equipe se intrigaram com a paisagem aparentemente inóspita, em uma época na qual a criação de camarão, ou carcinicultura, começava a florescer nas planícies hipersalinas do Nordeste, perfeitas por serem planas e próximas da água salgada. “Precisamos entender esse ambiente antes que seja destruído”, ponderaram na época.

    Cianobactérias que vivem no solo são importantes no armazenamento de carbonoLuiz Bento / Unicamp

    Conflitos salgados
    Ao contrário da floresta de mangue, o apicum não foi considerado uma área de proteção ambiental pelo Código Florestal de 2012, o que facilitou a sua exploração. Embora a carcinicultura seja uma indústria lucrativa, um estudo do zoólogo Andrew Balmford, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, publicado na revista Science em 2002, estimou que o manguezal preservado gera 70% mais recursos do que o camarão, que polui o ambiente e prejudica as florestas. “Os recursos do manguezal são distribuídos em diversas atividades, como extrativismo, pesca e turismo, enquanto na carcinicultura o dono do negócio ganha e o ambiente sofre”, diz Soares.

    “Para as populações locais, o ecossistema manguezal é uma fonte de renda e de segurança alimentar contra a fome e a miséria em tempos de crise, uma verdadeira previdência social da natureza”, observa a antropóloga Cecília Mello, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “É também uma fonte de moradia, pois até as casas são construídas com tijolos de barro do mangue e erguidas nas suas proximidades.”

    Mello fez uma etnografia dos conflitos entre populações locais da cidade de Caravelas, na Bahia, e empreendedores interessados em desenvolver a carcinicultura na região, publicada em 2016 na Revista de Antropologia. Os pescadores locais resistiram e lideraram a formação da Reserva Extrativista do Cassurubá, implementada em junho de 2009, com o apoio de universidades públicas e organizações não governamentais (ONGs). “Os aquicultores procuram seduzir os moradores locais oferecendo emprego, mas eles só são necessários na construção das piscinas; a criação de camarão é pouco intensiva em mão de obra”, conta a antropóloga.

    Criação de camarão em Canguaretama, no Rio Grande do NorteClemente Coelho Junior / UPE

    A pesquisadora relata que em Curral Velho, comunidade pesqueira em Acaraú, no Ceará, a comunidade local adaptou todo o calendário escolar de acordo com as atividades de pesca. “Os filhos podiam aprender a pescar com os pais e quando a família estava toda no mangue não tinham aula. Em outros períodos as aulas eram mais intensivas”, conta Mello. Além da pesca, a captura de crustáceos, como caranguejos, e moluscos reforça a renda das marisqueiras, via de regra mulheres que aportam com seu trabalho a renda principal da unidade familiar.

    Embora o artigo da Biogeosciences se apoie no mercado de carbono para mostrar a importância do apicum, os pesquisadores ressaltam que o estoque do elemento é apenas uma entre muitas funções daquele ambiente. “A função social é tão ou mais importante. Precisamos mudar o paradigma mercantil, que é a causa da degradação ambiental, e reduzir as emissões”, argumenta Soares. Mello concorda: “A importância do ecossistema é incomensurável e não entra nos dados do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], nem nas estimativas do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas]. O manguezal não é apenas um ativo que presta serviços ambientais: ele é a casa, a feira, o emprego e a previdência de pescadores e marisqueiras de toda a costa brasileira”.

    Fonte: revistapesquisa.fapesp.br

    Prof Luciano Mannarino