Categoria: Vegetação

  • Crise no Clima “Cerrado”.

    Cerrado

    Agronegócio banca palestras de cético sobre mudança climática para ruralistas no Matopiba

    Trabalhadores rurais capinam terreno em Correntina, na Bahia, em meio a fumaça de queimada feita para “limpar” o campo – Avener Prado/Folhapress

     

    Patrícia Campos Mello/Avener Prado

    22.mai.2018 – 02h00

    OESTE DA BAHIA

    Uma plateia de mais de 400 produtores de soja, no coração do agronegócio brasileiro, aplaudiu longamente a apresentação do meteorologista Luiz Carlos Molion.

    “O aquecimento global é um mito: a temperatura mundial não está aumentando, nós vivemos ciclos de aquecimento e resfriamento que sempre existiram”, dizia Molion, conhecido cético sobre a noção de mudanças climáticas, em outubro do ano passado. Sua palestra havia sido patrocinada pela Agrosul, concessionária da multinacional de máquinas agrícolas John Deere, pela fabricante de adubos Fertilaqua e pela Fundação Bahia, entidade de pesquisa bancada por produtores baianos.

    “O CO2 não causa efeito estufa e a ação do homem é insignificante para causar efeitos sobre o clima”, afirmava Molion em um auditório decorado com tratores na cidade de Luís Eduardo Magalhães, onde se concentra a produção de soja no oeste da Bahia.

    Estrada rural corta cerrado em Correntina, no oeste baiano – Avener Prado/Folhapress

    Luís Eduardo Magalhães faz parte da região conhecida como Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), a mais nova fronteira agrícola do Brasil. Abriga a maior parte das terras ainda não exploradas no país. Aqui, as ideias de Molion são repetidas como mantra pelos produtores rurais.

    O pesquisador aposentado dá cerca de 50 palestras por ano em diversos estados brasileiros, contratado por empresas como a Syngenta e a Casa do Adubo, além de associações de produtores, prefeituras e governos estaduais. Na quarta-feira (16), ele foi o principal palestrante da convenção internacional da soja Soy Sur, patrocinada pela Bolsa de Chicago (CME Group), em Ciudad del Este, no Paraguai.

    Em suas apresentações, ele fala sobre a tendência do clima para a safra seguinte, os próximos dez anos, e denuncia “a inverdade científica chamada aquecimento global”. “Mostro para os agricultores que eles não são culpados, que o CO2 e o metano não têm nada a ver com variabilidade climática e que o desmatamento não tem nenhuma influência sobre o regime de chuvas”, disse Molion à Folha.

    Físico e pesquisador aposentado do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), Molion goza de pouca credibilidade no mundo acadêmico. “Alguém dizer que a molécula de gás carbônico não exerce efeito estufa atmosférico, isto é, que não absorve e reemite radiação térmica, é uma asneira anticientífica equivalente a dizer que a Terra é plana”, afirma o meteorologista Carlos Nobre, presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas e ex-pesquisador do Inpe.

    “É irônico ver empresas que dependem tanto de ciência para desenvolvimento de seus produtos patrocinarem de forma irresponsável e antiética a pseudociência, pensando somente no lucro que a expansão da fronteira agrícola vai lhes trazer.”

    A presidente do Sindicato de Produtores Rurais de Luís Eduardo Magalhães, Carminha Maria Missio, representa mais de 1.400 produtores rurais e cerca de 2 milhões de hectares de área plantada, equivalente ao estado de Sergipe. Ela afirma não existir prova de que a Terra está se aquecendo nem de que o homem tem alguma coisa a ver com isso.

    “Ninguém sabe o que é fato e o que é opinião. O que acabou com os dinossauros? Foi o desmatamento?”, indaga. Ela diz que sua região teve quatro anos de seca, de 2012 a 2016, e agora está voltando à “normalidade”.

    Pesquisas, no entanto, indicam o contrário.

    Segundo levantamento de Ludmila Rattis, das ONGs de pesquisa Woods Hole Research Center (WHRC, dos EUA) e Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), a temperatura média da região de Luís Eduardo Magalhães e Barreiras aumentou de 0,7ºC a 0,8ºC entre 1901 e 2015.

    A pesquisadora usou dados da Climate Research Unit da Universidade de East Anglia (Reino Unido). Constatou que houve aumento de até 2ºC em setores do cerrado, como o sul de Goiás. Ela ressalva que o estudo apenas aponta que houve, sim, aumento na temperatura –mas não analisa se isso já pode ser atribuído à ação do homem.

    O regime de chuvas também sofreu alterações. Dissertação de mestrado da bióloga Juliana Oliveira Campos, da Universidade de Brasília (UnB), aponta que houve queda de 8,4% na precipitação no cerrado entre 1977 e 2010. No sul desse bioma, em Goiás, a redução de chuvas chegou a 10,6%, enquanto ao norte, no Matopiba, foi de 4,7%.

    “Acreditamos que a redução das chuvas foi menor no Matopiba porque lá o desmatamento foi menor e teve início mais tardio”, diz Juliana. A retirada das árvores do cerrado e sua substituição por pastagens e lavouras teria levado a uma redução da evapotranspiração (perda de água do solo por evaporação e, nas plantas, por transpiração), que diminui a formação de chuvas.

    Marcos Heil Costa, professor de climatologia da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e coordenador de um estudo de avaliação do potencial hídrico do oeste da Bahia, considera que a seca dos últimos anos não faz parte de um ciclo natural.

     

    “A seca é bem mais longa do que o normal, está entrando no sexto ano. E em 2017, apesar de ter voltado a chover em algumas áreas, as chuvas começaram muito tarde. O IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, órgão criado pelas Nações Unidas e pela Organização Meteorológica Mundial] prevê que haverá expansão da área de semiárido para o cerrado”, diz.

    A agropecuária é o principal emissor no Brasil dos gases que agravam o efeito estufa e resultam na elevação da temperatura média da atmosfera terrestre.

    Segundo o Sistema Nacional de Registro de Emissões, 33% delas vêm do setor de energia, a maioria da queima de combustíveis fósseis. Em segundo lugar estão as emissões diretas da agropecuária, com 31%, por meio do uso de fertilizantes (que leva à emissão de óxido nitroso), do metano expelido pelo gado e da queima de combustível por máquinas agrícolas e de transporte.

    Em terceiro lugar, no cômputo oficial, aparece o desmatamento, com 24%. Como a derrubada de florestas se faz para aumentar a área de pasto e agricultura, a agropecuária responde em realidade por 55% das emissões brasileiras.

    Hoje, o Matopiba concentra a maior área agricultável ainda disponível do país, em grande parte porque sua conversão foi tardia. O Sudeste começou a ser convertido para agropecuária séculos atrás, e a Amazônia, em grande escala, nos anos 1970.

    Acima, vista aérea de campo de soja em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia; abaixo, pivô usado para irrigar o campo – Avener Prado/Folhapress

    Já o cerrado começou a ser explorado apenas 30 anos atrás, com a chegada de imigrantes do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Vinham atrás das terras que eram muito baratas, por causa do desafio de fazer o solo ácido começar a produzir.

    Os produtores, no entanto, estão expandindo a atividade agropecuária para locais onde não há viabilidade econômica, por exigir uso excessivo de produtos químicos para corrigir solo e de irrigação, adverte André Guimarães, diretor-executivo do Ipam.

    “Não somos contra a produção agropecuária, mas é preciso ordenar a ocupação do Matopiba. Em vez de ficar expandindo a agropecuária para áreas onde não há viabilidade econômica, precisamos preservar essas áreas”, diz Guimarães.

    Muitos produtores, mesmo sem acreditar que a mudança climática veio para ficar, já se adaptam a uma realidade mais seca e quente. Pedro Cappellesso, 30, e sua família têm uma fazenda de mil hectares onde produzem 70 mil sacas de soja –suficientes para encher mais de cem carretas de três eixos.

    Como grande parte dos produtores da região, ele faz rotação de culturas e plantio direto, duas técnicas agronômicas para preservar o solo. No sistema de plantio direto, a terra não fica nua, sujeita a erosão e enxurradas, mas coberta com a “palhada”, restos de cultura como sorgo, milho, capim braquiária e milheto. Antes de semear, o solo não é revolvido por arado.

    A prática reduz a perda no solo por erosão e os gastos com combustível, sementes e adubo –e também as emissões. Cappellesso agora usa o sorgo para rotação de culturas. “Não plantamos mais o milho, porque consome muito mais água e nós entendemos que o rio está dando problema”, diz.

    O proprietário de fazenda Pedro Cappellesso em plantação de sorgo em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia; ele se prepara para uma realidade mais seca e quente – Avener Prado/Folhapress

    As seguidas secas que afetaram a região mais a concessão desorganizada de outorgas para retirada de água para irrigação vêm diminuindo a vazão de alguns rios. A água faz diferença na produtividade: a soja sem irrigação, ou de sequeiro, rende 60 sacas por hectare. Com ela, o rendimento sobe para 80 a 85 sacas.

    “O norte do cerrado vive uma situação crítica –se a seca persistir, a atividade agrícola na região se tornará antieconômica”, diz Mercedes Bustamante, do Departamento de Ecologia da UnB.

    O aumento da temperatura, aliado à redução da vazão dos rios e ao avanço das grandes propriedades, tem acirrado os conflitos fundiários e também por água.

    A região de Correntina (BA) foi palco de uma invasão em novembro de 2017. Cerca de mil pequenos agricultores ocuparam a Fazenda Igarashi e destruíram as instalações. Eles culpam a fazenda pela baixa na vazão do rio Arrojado, que está inviabilizando a agricultura dos ribeirinhos.

    Os pequenos produtores usam sistemas de irrigação tradicionais, como o rego e a roda d’água, que não funcionam quando a vazão do rio cai muito. A Igarashi voltou a funcionar recentemente e líderes locais afirmam que vão invadi-la de novo se os rios voltarem a baixar.

    “No ano passado, a água que vinha pelo rego [sulco construído pelos produtores para irrigação] sumiu, a gente tinha que ficar acordado a noite inteira e se revezar para empoçar um pouco de água e conseguir molhar a terra [irrigar]. Foi uma tristeza, morreu o milho, o feijão, tudo”, diz Adolfo Batista de Oliveira, 55, que planta um hectare de milho, batata e feijão para sustentar a família de seis.

    “A crise hídrica é óbvia, a redução da vazão dos rios é percebida por toda a população”, diz Luciana Khoury, promotora de Justiça Ambiental na região. Segundo ela, o problema é que não existe um plano de bacia estabelecendo o que pode ser retirado dos rios e do aquífero Urucuia, que abastece a região, sem ameaça à segurança hídrica.

    Ela pediu em dezembro de 2015 que fosse suspensa a concessão de outorgas para captação dos rios até que o plano de bacias ficasse pronto, mas sua recomendação não foi acatada pelo governo estadual.

    Homem atravessa ponte sobre riacho seco em Correntina (BA) – Avener Prado/Folhapress

    Segundo Marcos Costa, da UFV, os dados apontam uma diminuição média da vazão dos rios na região. Mas, para ele, o fenômeno se deve mais à seca prolongada do que ao aumento de retirada de água para irrigação.

    Ele diz que, hoje em dia, as outorgas para retirada de água são concedidas com base em informações que estão defasadas. “Não se analisa, por exemplo, qual é o impacto da multiplicação dos poços sobre as águas subterrâneas, como as do aquífero Urucuia.”

    Mercedes Bustamante ressalva que o agronegócio não constitui um bloco homogêneo. “Há uma parcela de grandes produtores agrícolas muito conscientes, que praticam uma agricultura sustentável inovadora, usando alta tecnologia”, diz.

    “Eles estão usando métodos de conservação do solo, reduzindo uso de fertilizantes, porque, além de ser ecologicamente positivo, reduz o risco econômico.”

    Para o climatologista Carlos Nobre, a agricultura cometerá “suicídio se não se adaptar às mudanças climáticas que já ocorrem e que continuarão a ocorrer por muito tempo no futuro, como, por exemplo, o aumento dos extremos climático como secas e ondas de calor que tantos prejuízos trazem.”

    Procuradas pela reportagem, as empresas que bancam as palestras do professor cético dizem não compactuar com suas ideias e afirmaram estar comprometidas com ações de mitigação para mudanças climáticas. A Fertilaqua informou que contrata Molion porque ele tem boa credibilidade para previsão do tempo e é demandado por clientes, não por causa de sua campanha contra a ideia de aquecimento global.

    Segundo a Syngenta, a contratação se deu devido ao amplo conhecimento de Molion sobre o cultivo do café e seu sistema de previsibilidade climática. “Essa visão [ceticismo climático] não se alinha com a da Syngenta”, disse a empresa em nota.

    A John Deere afirma que as declarações feitas por qualquer palestrante em eventos afiliados à John Deere são opiniões pessoais e não representam o posicionamento da empresa. A multinacional disse também reconhecer a mudança climática e estar comprometida com agricultura sustentável.

    Homens trabalham na colheita de bananas em Barreiras, na Bahia – Avener Prado/Folhapress

    Já a Casa do Adubo, rede de lojas de insumos agropecuários, afirmou que contrata o palestrante porque ele acerta nas previsões do tempo, mas também por suas críticas à tese do aquecimento global.

    Molion afirma que as empresas o contratam como chamariz, porque sabem que suas palestras são populares.

    “Ele acerta na previsão de secas, mostra que não existe aquecimento global e que não é tudo culpa do agricultor”, diz Alexandre Moreira Maciel, 41, que produz banana e mamão na região de Barreiras (BA).

    “Gostamos muito das avaliações científicas dele, e em 2010 ele previu a seca pesada que tivemos em 2012”, diz Nílson Vicente, diretor-executivo da Fundação Bahia. “Se existisse mesmo esse aquecimento global, o café já ia ter sentido, porque é muito sensível à temperatura.”

    Há outros cientistas na região que compartilham da opinião de Molion, como Ricardo Reis Alves, professor de geografia da Universidade Federal do Oeste da Bahia, constantemente consultado pela Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba).

    “O filme do [ex-vice-presidente dos EUA] Al Gore deveria chamar ‘Uma mentira conveniente’, não “Uma verdade inconveniente”, diz o agrônomo Valmor dos Santos, 59, vice-presidente do Programa de Agronomia Sustentável em LEM. “São interesses estrangeiros tentando prejudicar nossa agricultura, a mais produtiva do mundo.”

     

     

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/cerrado/agronegocio-banca-palestras-de-cetico-sobre-mudanca-climatica-para-ruralistas-no-matopiba/

     

     

    Prof Luciano Mannarino

  • Área queimada quase dobra no Brasil em 2019, e equivale a SP e RJ juntos. (avaliação)

     

    Queimadas atingiram a região do Pantanal durante o segundo semestre do ano passado - Divulgação/PrevFogo/MS

    O Brasil terminou o ano de 2019 com 318 mil km² de área florestal consumidas pelo fogo, segundo dados do Programa de Queimadas, do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). O número é quase o dobro do registrado no ano anterior: 86% maior do que o de 2018 (170 mil km²). O ano passado foi o primeiro em que o INPE verificou aumento de área queimada em todos os seis biomas medidos na comparação com o período anterior —os dados começaram a ser disponibilizados em 2002

    A área queimada em 2019 é equivalente a 44,5 milhões de campos de futebol, e é quase 10% maior que a soma dos territórios dos estados de Rio de Janeiro e São Paulo. O total atingido pelo fogo em 2019 é o terceiro maior da década, atrás apenas de 2012 (391 mil km²) e 2015 (354 mil km²).

    Área queimada por bioma em 2019:

    Pantanal – 20.835 km² (alta de 573% em comparação a 2018)

    Pampa – 1.398 km² (alta de 127% em comparação a 2018)

    Caatinga – 55.536 km² (alta de 118% em comparação a 2018)

    Cerrado – 148.648 km² (alta de 74% em comparação a 2018)

    Amazônia – 72.501 km² (alta de 68% em comparação a 2018)

    Mata Atlântica – 19.471 km² (alta de 46% em comparação a 2018) 1:11

    Pantanal tem pior cenário em 15 anos

    O maior aumento em área queimada dos biomas ocorreu no Pantanal, onde 20,8 mil km² foram atingidos pelo fogo, 573% a mais que em 2018. Ao todo, no ano passado, 13,9% do território do bioma foi atingido por incêndios, maior índice em 15 anos. Em setembro passado, os estados de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul decretaram emergência por conta da quantidade de focos.

    O aumento exponencial de área atingida por queimadas no Pantanal tem alguns fatores como motivadores, explica André Luiz Siqueira, diretor-presidente da ONG (Organização Não Governamental) Ecoa:

    “Temos de levar em conta que tivemos um ano muito seco por aqui, tanto que tivemos que um ano muito seco por aqui, tanto que tivemos queimadas antes do tempo e que foram até o início de dezembro –o que é atípico e dois meses a mais que a média.”

    “Outro fator é que o Pantanal está na fronteira com a Bolívia, que queimou muito em 2019.” No ano passado, a Bolívia registrou 44.271 focos de queimadas, o maior número desde 2010, conforme dados do Inpe. “Desde 2018, o Brasil perdeu a capacidade de negociação com a Bolívia, deixando de acordar intercâmbios e cooperações. Isso tudo foi fundamental”, explica.

    Segundo Siqueira, também houve uma falta de resposta dos órgãos públicos no combate ao fogo. “Por exemplo: o estado do Mato Grosso do Sul não tinha aparelhagem para combater o fogo. Inclusive precisou receber doações para as operações. A última grande queimada aqui ocorreu há 15 anos, e nós tivemos praticamente o mesmo percentual queimado daquele ano”, diz.

    Outros biomas queimam

    Os outros cinco biomas medidos pelo INPE também tiveram alta em 2019. A maior área queimada em termos absolutos é o Cerrado, onde 148 mil km² foram atingidos pelo fogo.

    74% a mais que em 2018. Por conta de sua característica mais seca e de fogo com autopropulsão, o bioma é, historicamente, o que apresenta o maior número de focos e área queimada no país. Já na Amazônia, a alta foi de 68% em relação a 2018, com um total de 72,5 mil km² devastados pelo fogo. O percentual chama atenção porque é mais que o dobro da alta de focos de queimadas registrados em 2019, que foram apenas 30% maiores que em 2018. Isso mostra que os focos em 2019 foram maiores em área queimada.

    “Nova política ambiental”

    O UOL procurou especialistas, que apontaram fatores para o crescimento. Para o biólogo Rômulo Batista, da campanha de Amazônia do Greenpeace, a extensão da área queimada chama a atenção porque 2019 não foi um ano de fenômenos climáticos El Niño ou La Ninã.

    “Eles causam secas mais fortes no norte ou no sul do País. O que tivemos de novidade foi a nova política ambiental, ou, na verdade, a ausência de uma política ambiental desde que o governo assumiu, diz. Batista afirma ainda que o aumento em todos os biomas é fruto de uma “falta de política ambiental de combate às queimadas e ao desmatamento, além da redução do orçamento para o MMA [Ministério do Meio Ambiente] e o principais órgãos que coíbem o desmatamento e as queimadas”.

    Cássio Bernardino, analista de Conservação do WWF-Brasil, diz que a grande maioria das queimadas teve origem proposital do homem. “Esses incêndios têm origem especialmente antrópica ação do ser humano”. Mesmo nos biomas onde é natural a ocorrência de fogo, esses números não eram esperados. E as análises espaciais mostram o fogo predominantemente às margens de rodovias e próximo a centros urbanos, o que indica que elas são de origem humana, principalmente para ações desmatamento e reforma de pastagem”, explica.

    Ainda segundo Bernardino, todos os biomas tiveram área queimada acima das médias históricas, e a culpa disso estaria ligada ao discurso e à falta de ações do governo federal.

    “Houve uma retórica governamental, uma mensagem de que o meio ambiente é um recurso que pode ser explorado de qualquer forma, e que a proteção pode ser uma ameaça o desenvolvimento. De outro lado, tivemos menos ênfase nos mecanismos de sistema de comando o controle. Tivemos mesmo fiscalização e menos equipes em campo”, aponta.

    Procurado ontem para comentar o aumento de áreas queimadas  nos seis biomas em 2019,

    https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2020/01/14/queimada-cresce-brasil-2019.htm

     

    1. Caracterize cada um dos Biomas presentes no texto.

    2. O meio ambiente é um recurso que pode ser explorado de qualquer forma? Justifique

    3.  Qual o papel do INPE no combate da degradação ambiental no Brasil?

    4. Quais as principais causas do aumento das queimadas no Brasil?

    5. O texto  afirma que o Brasil “perdeu a capacidade de negociação com a Bolívia, deixando de acordar intercâmbios e cooperações” em relação a proteção ao meio ambiente nos últimos anos. A que se deve isso?

     

     

     

    Prof. Luciano Mannarino

  • Tilápia avança na Amazônia e gera preocupação sobre impacto ambiental (avaliação)

    Tilápia avança na Amazônia e gera preocupação sobre impacto ambiental (avaliação)

    No Peru, espécie de origem africana dizimou fauna de lagoa; MT e TO autorizam criação em lagos de hidrelétricas

    28.mai.2019 às 18h19

    Fabiano MaisonnaveSAUCE (PERU)

    No ceviche, nas águas da turística Lagoa Azul, no mercado ou em tanques escavados, a tilápia faz parte da vida de Sauce, povoado amazônico ao pé dos Andes peruanos, já há três décadas. Mas a introdução da espécie africana diminuiu a diversidade da fauna aquática e tem servido de argumento aos que se opõem à criação de peixes exóticos na Amazônia, um debate que divide estados no Brasil.

    “Quando era criança, havia tanto acará na lagoa que eles pulavam dentro da canoa, mas parece que a tilápia comeu tudo”, diz a dona de restaurante Dalia Rengijo, 64. Apesar isso, ela defende a criação do peixe exótico, o único oferecido no seu cardápio: “É um alimento para o povo e para o comércio também.”

    Introduzido sem licença na região, a tilápia é vendida a cerca de R$ 16/quilo, um preço acessível. No mercado, as outras espécies à venda são trazidas de longe depois terem praticamente sumido do lago. O peixe exótico é também o único oferecido no luxuoso resort local, onde o pirarucu aparece apenas em um quadro do restaurante.

    Moradoras de Sauce (Peru) conversam diante de tilápia à venda. – Fabiano Maisonnave/Folhapress

    Assim como no Peru, onde a criação de tilápia está proibida na maior parte da Amazônia, o tema é motivo de controvérsia no lado brasileiro da floresta. No Amazonas e no Pará, iniciativas para liberar foram barradas, mas, no ano passado, Tocantins e Mato Grosso, tornaram-se os primeiros estados da Amazônia a autorizar a criação da espécie em tanques-rede dentro de lagos de usinas hidrelétricas.

    Em Rondônia, o maior produtor de peixe nativo do país, a produção de peixes exóticos está proibida, mas uma pesquisa em andamento da Universidade Federal de Rondônia (Unir) tem encontrado tilápia em ambientes naturais. 

    No Amazonas, mesmo proibida, a tilápia também foi introduzida ilegalmente na região de Manaus e em outros ambientes naturais, adverte  Guillermo Estupiñán, especialista em recursos pesqueiros da ONG WCS Brasil. “Mas não temos informações da sua situação atual e dos seus impactos na escala que se encontram. Precisamos gerar conhecimento sobre o tema, urgentemente.”

    Introduzir tilápia na Amazônia é má ideia, adverte o governador da região (estado) de San Martín, Pedro Bogarín. “É impossível controlar. A tilápia é tão maldita que não sei se voa ou vai por debaixo da terra, mas é encontrada fora dos tanques. Encontramos tilápias grandes nos rios e, para chegar a esse tamanho, comeram ovas de outros peixes. É um erro gravíssimo que estão cometendo”, disse à Folha. 

    Entre os impactos da lagoa, uma das principais atrações turísticas da região, Bogarín cita o desaparecimento de uma concha rosada, antes usada para artesanato, e uma grande mortandade de tilápias no ano passado, provocada por um vírus até então inédito na região.

    “Vou escrever ao governador [do Amazonas] para que não caia na tentação. São tantos peixes amazônicos para criar”, diz Bogarín, que também é piscicultor, especializado em pirarucu. Para este ano, diz, ele pretende soltar alevinos de peixes amazônicos em cursos d’água onde a presença de tilápia é maior para tentar mitigar o impacto.

    A preocupação é compartilhada pelo biólogo Hernán Ortega, da Universidad de San Marcos e um dos principais especialistas peruanos sobre o assunto. Ele afirma que medidas como o uso de tanques de rede e a reversão sexual (para impedir a reprodução) são insuficientes e adverte contra planos do governo peruano para incentivar a tilápia em outras áreas da Amazônia do país.

    “Seria a mais séria ameaça para a diversidade de peixes, porque a tilápia do Nilo estaria livre para dominar as lagoas e rios de corrente fraca”, afirma Ortega, responsável por uma coleção de peixes de água doce peruanos com 650 mil exemplares de 1.100 espécies.

    A entrevista com Bogarín foi realizada durante a Conferência do Bom Crescimento, organizada pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), que reuniu cerca de 300 representantes de governo nacionais e regiomais, de organismos multilaterais e de ONGs para discutir práticas agrícolas conciliadas à preservação ambiental.

    Um dos presentes, o presidente da Naturatins (Instituto Natureza do Tocantins), Marcelo Soares, participou do processo de licenciamento da tilápia em tanques-rede, que, conta, levou nove anos até ser aprovado pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente (Coema).

    Soares afirma as exigências são rígidas e incluem reversão sexual, um formato específico de tanque-rede e um estudo prévio sobre o local onde será montado o empreendimento. “A licença ambiental só será emitida quando estiver comprovado de que não há risco”, diz o presidente do órgão responsável por esse trabalho.

    Segundo ele, o processo ocorreu por causa da pressão de empresas estrangeiras em produzir tilápia, principalmente no lago formado após a construçao de usina hidrelétrica Luiz Eduardo Magalhães. A ideia é de que boa parte produção seja para exportação. Até agora, nenhum empreedimento está em funcionamento.

    Peixe de retorno rápido e de fácil reprodução, a tilápia é, de longe, o principal produto da piscicultura brasileira. No ano passado, chegou a 400,2 mil toneladas, um crescimento  de 11,9% em relação a 2017. O volume representa 55,4% dos peixes de cultivo produzidos no Brasil _o principal estado produtor é o Paraná. 

    Por outro lado, a produção de peixes nativos caiu 4,8% no ano passado, com 287,9 mil toneladas. Todos os cinco maiores produtores estão na Amazônia Legal (RR, MT, MA, PA e RR). Os dados são do Anuário 2019 da Associação Brasileira da Pisicultura (Peixe BR).

    EMBRAPA

    Apesar de conduzir várias pesquisas sobre piscicultura na Amazônia, a Embrapa ainda não tem uma posição sobre a tilápia, na região, explica a Eric Routledge, chefe adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da unidade de Palmas, especializada em Pesca e Aquicultura.

    O pesquisador lembra que o tambaqui, de origem amazônica, ó peixe nativo mais produzido no Brasil, mas ressalva que “os produtores de peixes nativos ainda não dispõem de tecnologias que possam tornar a atividade competitiva frente a outras espécies de peixes. A Embrapa tem, em sua carteira de projetos, ações que pretendem em médio prazo superar esses desafios.”

    Na avaliação de Estupiñan, mesmo que o ambiente aquático sofra com ameaças maiores, a tilápia não pode ser ignorada: “Os principais impactos para a pesca são a degradação de paisagens aquáticas, projetos de infraestrutura e da indústria extrativa, mas a introdução de espécies exóticas, não apenas de peixes, agrega poder a uma degradação lenta e talvez invisível da Amazônia”.

    O repórter Fabiano Maisonnave viajou à Amazônia peruana a convite do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

    Baseado na reportagem, responda!

    1. A tilápia e considerada uma “espécie exótica” na Bacia Amazônica. Justifique.
    2. Segundo o texto, qual a relação entre a nossa matriz energética e a piscicultura?
    3. É possível perceber a contradição entre interesses econômicos e proteção ambiental? Justifique.
  • Rios voadores (atividade)

    Rios voadores (atividade)

    Antonio Donato Nobre – Rios Voadores (Pesquisa FAPESP)

    Os “rios voadores” têm um papel fundamental na dinâmica climática do Brasil. Eles são correntes de vapor d’água que se originam na floresta amazônica através do processo de evapotranspiração, onde as árvores liberam grandes quantidades de vapor na atmosfera. Este vapor é transportado pelos ventos para outras regiões do país, contribuindo significativamente para a formação de chuvas.

    No Brasil, essas correntes de vapor afetam diretamente o clima das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Quando o vapor se encontra com massas de ar mais frias e se condensa, resulta em precipitação, trazendo chuvas essenciais para manter os níveis de água nos rios, reservatórios e para a agricultura. Esse processo é especialmente importante durante o período seco, ajudando a regular o ciclo da água e garantindo a umidade necessária para as plantações e o abastecimento urbano.

    Sem eles, essas regiões seriam muito mais secas, enfrentando maiores riscos de estiagens e impactos severos na agricultura e no fornecimento de água. A floresta amazônica, ao liberar esse vapor, atua como um regulador climático natural, influenciando a temperatura e a umidade do ar. Dessa forma, os “rios voadores” destacam a importância da Amazônia para o equilíbrio climático do Brasil, mostrando como a conservação da floresta é vital para a sustentabilidade e a manutenção das condições de vida em diversas partes do país.

    Questões

    O que são os “rios voadores” e como eles se formam?

    Qual é o papel da floresta amazônica na formação dos “rios voadores”?Como os “rios voadores” influenciam o clima em diferentes regiões do Brasil?

    Por que a conservação da floresta amazônica é essencial para a manutenção dos “rios voadores”?

    Como a ausência dos “rios voadores” poderia impactar a agricultura e o abastecimento de água no Brasil?

    Explique como os ventos alísios contribuem para o movimento dos “rios voadores”.

    De que maneira os “rios voadores” ajudam a regular as temperaturas e a umidade do ar nas regiões que eles atingem?

    Qual é o impacto da expansão agrícola e do desmatamento na dinâmica dos “rios voadores”?

    Como o conhecimento sobre os “rios voadores” pode contribuir para a conscientização ambiental e a preservação da Amazônia?

    Prof. Luciano Mannarino