Categoria: Europa

  • DESIGUALDADE GLOBAL (EUROPA)

    Europa

    A revolta da classe média

    Afetados pela globalização perdem status e se rendem ao populismo

    Fernando CanzianLalo de Almeida (fotos)
    REINO UNIDO, FRANÇA E ESPANHA

    21:11

     

    Antes do início dos anos 1990, a paisagem do noroeste da Inglaterra era dominada pelas chaminés de mais de mil fábricas, a maioria de tecelagens do auge da revolução industrial, no século 19.

     

    Foi uma época em que as primeiras máquinas a vapor multiplicaram a geração de bens e de fortunas. Primeiro na Inglaterra. Depois, no resto da Europa, nos EUA e em outras partes do mundo.

    Em seu apogeu, Oldham, na Grande Manchester, foi um dos locais mais dinâmicos da Terra, conectado ao resto do mundo por ferrovias que chegavam ao porto de Liverpool.

    Hoje, a cidade de 100 mil habitantes parece um museu. Sobraram poucas chaminés e, com ares de decadência, centenas de pequenas casas de tijolos escuros que abrigavam os operários do passado.

    No alto, prédio em ruínas da tecelagem Hartford, inaugurada em 1907, em Oldham, no Noroeste da Inglaterra; abaixo, edifício abandonado de companhia de seguros e centro de Oldham

    Na Union Street, uma das ruas principais, o ponto mais movimentado parece ser um centro para desempregados. É ali que Brian Melling, 65, busca trabalho há quatro anos.

    Ex-motorista de caminhão, seu padrão de vida decaiu junto com as indústrias de Oldham, afetadas por uma globalização que encontrou salários mais baixos na Ásia e expulsou gente jovem e educada para as grandes cidades.

    Antes, Melling podia, como diz, “ter motocicleta, fumar, beber e fazer o que quisesse. E economizava dinheiro”.

    Hoje, vive em um apartamento quase que totalmente subsidiado por uma fundação privada e passa os dias com 73 libras por semana (R$ 340) do seguro desemprego. Para economizar, come enlatados de baixa qualidade, lanches frios, frutas e bebe muito chá.

    Melling e as pessoas de sua região foram as maiores responsáveis pela aprovação do brexit em 2016. Numa vitória apertada, 51,9% dos que votaram no referendo optaram por sair da União Europeia e reconquistar a opção de fechar o Reino Unido à imigração e a produtos estrangeiros.

    Em Oldham, não só mais pessoas votaram no referendo como o apoio ao brexit atingiu 61%, taxa que se repetiu em toda a Grande Manchester. Na Grande Londres, mais dinâmica e cosmopolita, deu-se o contrário: 60% votaram pela permanência.

    Recentemente, a ex-primeira-ministra britânica Theresa May renunciou ao não concluir o brexit, e pode ser substituída pelo ex-prefeito de Londres Boris Johnson, defensor da saída mesmo sem um acordo com a União Europeia.

    O motorista de caminhão desempregado Brian Melling vive com 73 libras por semana do seguro desemprego e mora em um apartamento subsidiado em Oldham, na Inglaterra

    “Votei pelo brexit porque estávamos melhor antes do mercado comum. Empobrecemos muito e todos têm nos tratado muito mal”, diz Melling.

     

    Em sua opinião, o radicalismo na Europa vem se alimentando de um sentimento parecido com o seu.”Veja os ‘coletes amarelos’ na França. As pessoas querem um basta.”

    Para David Soskice, coordenador do International Inequalities Institute, em Londres, enquanto moradores de grandes centros têm se saído melhor por serem mais educados e globalizados, os do interior perdem renda e status.Isso explicaria tanto o brexit quanto Donald Trump nos EUA, onde estados empobrecidos do meio-oeste garantiram a vitória do republicano.

    Mas o principal motor do radicalismo e do populismo, sobretudo no Ocidente, seria o empobrecimento da classe média -resultado da mistura de globalização, avanços tecnológicos, melhor educação concentrada no topo e financeirização do capital em detrimento da produção física que gera empregos.

    Cada vez mais distante dos ricos acima e pressionada por serviços públicos piores e gastos maiores, sobretudo com moradia, sem que os salários acompanhem, é a classe média quem se volta a partidos eurocéticos, anti-imigração e de extrema direita atrás de soluções.

    “São pessoas preocupadas em não cair no poço da pobreza, ou que isso possa acontecer aos seus filhos. Elas votam pensado nisso”, diz Soskice.

    Foi esse tipo de decadência pessoal que levou Mark Hodgkinson, 58, a marchar recentemente durante 14 dias e por 450 km em defesa do brexit, do interior da Inglaterra até o Parlamento em Londres.

    Morador de Rochdale, ao norte de Manchester, o vendedor de produtos online viu seus dois filhos e de amigos fugirem para cidades maiores como Londres atrás de oportunidades que não existem mais onde viviam.

    “Há 20 anos havia muito trabalho aqui. Hoje, os jovens não têm chances”, diz.

    Marcha pró brexit percorreu 450 km entre o interior da Inglaterra e o centro de Londres

    Mark Hodgkinson (3º da dir. à esq.) marchou durante 14 dias para pressionar o Parlamento inglês

    Ativista pró brexit carrega bandeira do Reino Unido durante marcha no interior da Inglaterra

     

    O economista Branko Milanovic, autor de “Global Inequality” (Harvard University Press), diz que o que existe hoje é um “voto de protesto” contra a falta de programas coerentes para estancar o encolhimento da classe média.

     

    Segundo ele, o fenômeno tornou-se estrutural e poderá, no futuro próximo, afetar o consumo, principal motor do crescimento econômico.

    “Para ficar num exemplo extremo, haveria demanda por um automóvel Maserati de um lado, e uma imensa demanda por arroz e pão, de outro. Isso não significa que não haverá crescimento, mas ele será de um tipo diferente. “Para Martin Wolf, comentarista-chefe no jornal britânico Financial Times, respostas como o brexit, Trump e outros radicalismos “não farão nada para resolver o problema”.

    “Na verdade, isso só vai piorar as coisas, encorajando pessoas a culpar algum outro grupo, muitas vezes mais vulnerável”, diz, em referência à imigração. Entre todas as regiões do mundo, contudo, é na Europa Ocidental onde a desigualdade de renda ainda cresce mais devagar, embora ela também tenha tomado uma curva ascendente desde os anos 1980 -sobretudo pela crescente acumulação no topo.

    No Reino Unido, o 1% mais rico dobrou a participação na renda nacional no período e hoje se apropria de cerca de 12% do total, segundo o Relatório da Desigualdade Global, da equipe do economista Thomas Piketty, da Escola de Economia de Paris.

    Abaixo do topo, porém, 500 mil britânicos decaíram nos últimos cinco anos e hoje vivem com renda mensal inferior a 60% da média nacional. Eles são hoje 4 milhões de trabalhadores (1 em cada 8) com renda mensal inferior a 1.100 libras (R$ 5.170), o que os classifica como pobres, segundo a Joseph Rowntree Foundation a partir de um dos critérios da União Europeia.

    Esse empobrecimento coincidiu com cortes de mais de 30 bilhões de libras (R$ 140 bilhões) em benefícios sociais no Reino Unido desde 2010.

    Isso contribuiu para dobrar, por exemplo, a procura pelos Food Banks (bancos de alimentos) entre os britânicos a partir de 2013.m”Em 2018, ajudamos quase 8.000 pessoas. Há sete anos, quando começamos, eram cem”, diz Lisa Leunig, 52, chefe do Food Bank de Oldham.

    Em todo o Reino Unido só no ano passado foram distribuídas 1,4 milhão dessas cestas montadas com doações -quase o dobro na comparação com cinco anos atrás.

    Quando a Folha visitou o Food Bank de Oldham, Katherine Storor, 33, estava lá com seu filho. Ex-funcionária de uma tecelagem que fechou e trabalhando agora em uma loja ganhando 250 libras por semana (R$ 1.170), ela recorre ao sistema em emergências.

    Katherine mora com a mãe porque não consegue alugar uma casa por menos de 600 libras (R$ 2.800) por mês.

    Mulher pede esmola em ponte de Canary Wharf, área que reúne bancos e empresas em Londres (no alto); em vários pontos da capital inglesa e em Paris, na França, grupos de sem-teto vivem em barracas

    Do outro lado do canal da Mancha, a França vive uma história parecida.

    Nos últimos dez anos, cerca de 630 mil pessoas passaram a viver na pobreza, muitas vindas da classe média. São considerados agora pobres 5 milhões de pessoas, ou 8% da população, segundo o Observatório das Desigualdades.

    O organismo considera pobre os que vivem com menos da metade do salário médio francês, ou cerca de 855 euros (R$ 3.600) -o equivalente ao aluguel de um apartamento de 20 m² em Paris.

    Usando a mesma régua do Reino Unido (menos de 60% da renda média), os pobres na França saltariam a 8,8 milhões, ou 14% da população. Na última década, o total de pessoas atendidas por programas de alimentação praticamente dobrou no país, para 4,8 milhões.

    Embora a França ainda apresente níveis de pobreza equivalentes à metade da média europeia, seu aumento vem rompendo uma histórica tendência de queda.

    Segundo o Relatório da Desigualdade Global, após os “gloriosos 30 anos” (1950-1983) que elevaram a renda média de 99% da população em 200% (e a do 1% mais rico em 109%), houve uma reversão.

    A partir dali, enquanto o crescimento acumulado dos rendimentos da metade mais pobre foi de 31%, no decil mais rico ele aumentou 49% -e chegou a 98% no 1% do topo.

    Com salários e ganhos de capital crescentes, os 10% mais ricos recebem hoje, em média, 109 mil euros por ano (R$ 460 mil). Na metade mais pobre, o valor médio é de 15 mil euros (R$ 63 mil).

    Os protestos dos “coletes amarelos” na França são considerados em parte produto da desigualdade e teriam se originado, por um lado, pelos cortes de impostos para os mais ricos adotados pelo presidente Emmanuel Macron.

    Por outro, pelo aumento da taxação sobre combustíveis no fim de 2018, quando as manifestações eclodiram.

    Manifestante empunha bandeira da França em Montmartre, em Paris

    Depois de percorrer o centro de Paris, “coletes amarelos” se reúnem em Montmartre, na capital francesa

    “Coletes amarelos” e sindicalistas ouvem discurso na Place de la République, em Paris

    Caixa eletrônico depredado no centro de Paris, na França, durante manifestação dos “coletes amarelos”

    Temendo depredações, funcionários cobrem com tapumes bancos e lojas na avenida Champs Élysées, em Paris

    Manifestante usa máscara para criticar o presidente francês Emmanuel Macron durante protesto em Paris

     

    “Quando as pessoas viram suas contas aumentando e outros sendo beneficiados, houve um grande descontentamento”, diz Lucas Chancel, coordenador do Relatório da Desigualdade Global.

     

    A menor taxação sobre os ricos na França, acredita, só aumentará a desigualdade.

    Moradora em Saint-Denis, ao norte de Paris e um dos locais mais empobrecidos da França, a designer Valery Voyér, 45, afirma que se juntou aos “coletes amarelos” como forma de protesto contra as desigualdades e a precarização do trabalho em seu país.

    “Muitos estão lá porque a situação é trágica, insustentável. Outros, por solidariedade aos demais”, afirma.

    Valery Voyér (à dir.) diz que se juntou aos “coletes amarelos” para protestar contra a desigualdade na França

    Valery diz ser obrigada a trabalhar ao menos 50 horas semanais (a jornada oficial na França é de 35 horas) para “manter um certo nível”.

    Como resposta às manifestações que já duram mais de seis meses, Macron anunciou a redução no imposto sobre o rendimento para 15 milhões de famílias, uma ajuda de até 1.000 euros (R$ 4.200) para pessoas de baixa renda e a suspensão do fechamento de hospitais e escolas até 2022.

    O impacto das medidas no Tesouro francês será de 17 bilhões de euros (R$ 71 bilhões).

    De olho nos manifestantes mais identificados com políticos nacionalistas, Macron também defendeu políticas mais duras contra a imigração, em um aceno aos cada vez mais numerosos simpatizantes da direita francesa.

    Casal pede esmola em frente a loja de artigos de luxo na avenida Champs Élysées, em Paris

     

     

    Neste cenário de radicalismo, a Espanha surpreendeu em abril quando os socialistas venceram as eleições parlamentares, embora sem conquistar sozinhos a maioria.

    No mesmo pleito, no entanto, foi confirmada a entrada no Parlamento do Vox, primeira legenda de ultradireita -e de viés populista- a chegar ao Congresso espanhol desde 1979.

    “Há esse reflorescimento da direita. Fruto do desemprego e de pessoas vivendo de ganhos irregulares que lembram a pré-história”, diz Joan Babiloni, 62, diretor de fotografia e morador do bairro El Raval, em Barcelona.

    Desde a crise global de 2008-2009, a desigualdade na Espanha subiu, e os 10% mais ricos ficam hoje com mais de 30% da renda bruta, ante os 26% divididos na metade mais pobre.

    “A classe média espanhola sempre foi de trabalhadores ou pequenos empresários com um futuro. Isso acabou. Agora, só há medo entre nós, os precarizados”, diz Babiloni.

     

    http://temas.folha.uol.com.br/desigualdade-global/europa/a-revolta-da-classe-media.shtml

     

    Prof Luciano Mannarino

     

    DESIGUALDADE GLOBAL (ÁSIA)

  • UM MUNDO DE MUROS (SÉRVIA E HUNGRIA)

    Na porta da Europa, tentar entrar é ciclo de perpétua incerteza

    Política anti-imigrantes de premiê húngaro deixa no limbo, no mato e na neve milhares de retirantes e refugiados vindos da África, Ásia e Oriente Médio

    PATRICIA CAMPOS MELLO E LALO DE ALMEIDA

    07.ago.2017 – 02h00

    Duas cercas paralelas, de quatro metros de altura, estendem-se ao longo dos 175 quilômetros de fronteira entre a Sérvia e a Hungria para impedir a entrada de refugiados e migrantes.

    A primeira é uma cerca simples de arame farpado, construída em setembro de 2015. A segunda, uma barreira de alta tecnologia, ficou pronta em março deste ano. É equipada com sensores elétricos que dão choques leves em quem tenta passar e avisam aos guardas a localização exata do intruso.

    Tem câmeras com visão noturna e sensores térmicos que detectam a aproximação de pessoas. E alto-falantes que advertem em três línguas, inglês, árabe e farsi : “Alerta, você está na fronteira da Hungria, que é propriedade do governo húngaro; se você danificar a cerca, cruzar ilegalmente ou tentar atravessar, estará cometendo um crime”.

    Cercas paralelas que estendem-se ao longo dos 175 quilômetros de fronteira entre a Sérvia e a Hungria para impedir a entrada de refugiados e migrantes (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Apesar da parafernália, milhares de sírios, afegãos, paquistaneses e iraquianos não desistem do que batizaram de “the game”, o jogo –a tentativa de cruzar ilegalmente a fronteira em busca de uma vida melhor na União Europeia.

    Durante semanas, os migrantes ficam escondidos em grupos de dez a 30 pessoas no mato, em locais chamados de “the jungle”, a selva, esperando a hora de cruzar. Quando o traficante de pessoas liga de madrugada, os grupos correm para a fronteira.

    A tática é se dividir: 30 pessoas entram de um lado, 20 de outro. A polícia não consegue pegar todos de uma vez e alguns conseguem entrar.

    A primeira cerca foi construída pelo nacionalista Viktor Orban, o primeiro-ministro da Hungria, no pico da crise dos refugiados. Na época, uma multidão de mais de mil pessoas por dia tentava entrar na Hungria. O número caiu muito, mas ainda há 50 pessoas tentando atravessar diariamente de forma ilegal.

    O paquistanês Rana Muzzafar Sabir, 28, já tentou cruzar 11 vezes da Sérvia para a Hungria. Na última, há um mês, policiais húngaros o pegaram já dentro do território da Hungria e o espancaram. Chutaram seu olho e quebraram seu nariz, ele conta. Depois, o deportaram para a Sérvia. Ele não foi para o hospital porque tem medo de a polícia aparecer.

    Os Médicos sem Fronteiras (MSF) atenderam 106 pessoas vítimas de violência da polícia de fronteira húngara de janeiro de 2016 a fevereiro de 2017. Na maioria dos casos, os migrantes tinham marcas de espancamentos, mordidas de cachorro e tiveram ossos quebrados. No inverno, refugiados relatam que os policiais despejavam água fria em suas roupas e os deixavam por horas na neve, a temperaturas abaixo de -10 °C.

    Sabir saiu de sua casa, em Lahore, há oito meses. Passou por Irã, Turquia, Bulgária e Sérvia. “Estou cansado, mas continuo determinado”, diz Sabir, da “selva” onde se esconde, nos arredores de Subotica, na Sérvia. Ele e mais dez paquistaneses acampam no local, onde há muito lixo espalhado, cobertores no chão e uma barraca.

    Refugiado paquistanês fala ao celular em vagão abandonado na cidade de Subotica, na Sérvia, próximo da fronteira com a Hungria
    Acima, Rana Sabir (o segundo da esq. para a dir.) e outros refugiados paquistaneses preparam refeição com alimentos doados por uma ONG em acampamento escondido chamado de
    Acima, Rana Sabir (o segundo da esq. para a dir.) e outros refugiados paquistaneses preparam refeição com alimentos doados por uma ONG em acampamento escondido chamado de “jungle” (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Numa grade de jipe que virou grelha, os refugiados assam pão chiapati e cozinham frango ao curry com mantimentos trazidos por uma ONG. Carregam os celulares em postos de gasolina e vivem à base de energéticos.

    Muitos deles aprenderam o pouco de inglês que sabem no caminho, assistindo a vídeos no YouTube e ouvindo música no celular.

    Para despistar, a cada noite eles dormem em um lugar diferente, muitas vezes dentro de vagões abandonados de trem. Voltam para “a selva” para cozinhar e esperar o chamado do coiote, que cobra 2.500 euros (R$ 9.200) pela travessia da Sérvia até a Áustria, através da Hungria.

    Normalmente, só pagam se conseguirem chegar, mas alguns traficantes pedem uma “entrada” não reembolsável.

    ”Às vezes fico muito deprimido, não me acostumo com essa vida”, diz Sabir, que tem um MBA em finanças e trabalhava como contador na Pepsi em Lahore. Ele deixou o Paquistão porque começou a ser perseguido pelo grupo terrorista Lashkar-e-Taiba. “E quando cheguei aqui chamavam a gente de terrorista.”

    O afegão Hameedullah Suleiman, 18, já tentou cruzar seis vezes. Aluno exemplar, cursava faculdade de engenharia aeronáutica no Paquistão com bolsa de estudos, mas os pais exigiram que retornasse para seu vilarejo no sul do Afeganistão.

    “Se voltasse, teria que parar de estudar para trabalhar com meus irmãos na terra, sem falar no Taleban, que matou muita gente que conheço”, diz ele, que vive na “selva” há um mês. ”Às vezes penso: o que está acontecendo com a minha vida?”

    Suleiman quer ir para Londres, onde mora um tio seu.

     

    Existem cerca de 6.000 refugiados encalhados na Sérvia, esperando para entrar na União Europeia.

    Muitos vivem nos campos de refugiados e estão em listas de espera para entrar na Hungria, onde terão o pedido de refúgio analisado. Mas a espera pode levar dois anos, e muitos jamais conseguirão refúgio. Então, tentam cruzar ilegalmente.

    No campo de Obrenovac, no subúrbio de Belgrado, vivem 950 homens solteiros, sendo 250 menores de idade.

    Segundo Mirjana Ivanovic-Milenkovski, porta-voz do Acnur, a agência de refugiados da ONU, na Sérvia, 1 em cada 4 refugiados hoje na Sérvia é menor de idade, muitas vezes desacompanhado.

    Em Obrenovac, passam o tempo jogando críquete ou navegando na internet em seus celulares. Usam o campo de dormitório. Depois de uns dias lá voltam para a “selva”, para tentar cruzar para Croácia ou Hungria.

    Imigrantes em campos de refugiados na Sérvia esperam para entrar na Hungria, onde seus pedidos de refúgio são analisados (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Em 2015, passaram mais de 400 mil migrantes pela Hungria, a porta para a UE, em seu caminho para países como Alemanha e Suécia, mais amigáveis a refugiados.

    Após a construção da cerca, o aumento do patrulhamento nas águas turcas e o acordo entre UE e Turquia para remanejar ao país euroasiático os que chegassem à Grécia, assinado em março de 2016, o número despencou.

    No entanto, muitos refugiados ficaram encalhados em campos na Grécia (mais de 60 mil) e na Sérvia (mais de 6.000).

    Boa parte dos sírios e iraquianos que vieram naquela época conseguiram ser acolhidos como refugiados pela UE.

    Sobraram cidadãos de países que têm mais dificuldade em receber esse status, como Paquistão, Bangladesh e Afeganistão, e os poucos que continuam a chegar.

    “A maioria não tem nenhuma perspectiva de entrar legalmente; a lista de espera tem milhares de pessoas, mas a Hungria só está admitindo oito por dia para a área de trânsito, enquanto têm seus processos analisados. Mesmo assim, após examinarem o processo, a maioria não conseguirá refúgio”, diz Stephane Moissaing, chefe da missão do MSF na Sérvia.

    “Nós todos sabemos que isso não é uma crise de refugiados. Dos que estão vindo, 95% são migrantes econômicos, não são perseguidos, mas querem uma vida melhor”, diz Zoltan Kovacs, porta-voz do primeiro-ministro húngaro Viktor Orban.

    À esquerda, policial húngaro que está sendo preparado para trabalhar na área que divide Sérvia e Hungria; à direita, o afegão Hameedullah Suleiman, 18, que já tentou cruzar a fronteira seis vezes

    À esquerda, policial húngaro que está sendo preparado para trabalhar na área que divide Sérvia e Hungria; à direita, o afegão Hameedullah Suleiman, 18, que já tentou cruzar a fronteira seis vezes (Lalo de Almeida/Folhapress)

    “Todos querem o estilo de vida europeu, e as fronteiras abertas passam a mensagem de que é isso possível; a Europa não pode assumir a responsabilidade por todos.”

    Para Robert Molnar, prefeito da cidade fronteiriça de Kubhekhaza, que se opõe a Orban, argumentar que a Hungria não deve receber migrantes econômicos é egoísta.

    “Cerca de 10% da população húngara é imigrante econômica, saiu do país em busca de oportunidades –então esses húngaros têm o direito de buscar uma vida melhor e os migrantes que vêm para cá fazer o mesmo não têm?”, diz.

    Desde 2012, Orban, que chama os migrantes de “cavalo de Tróia do terrorismo”, vem implementando uma política anti-imigração. O governo lançou uma campanha com outdoors em que se lia: “Se você vier para a Hungria, não tome os empregos dos húngaros” e “Se você vier para a Hungria, você precisa respeitar nossa cultura”.

    Policiais húngaros que estão sendo treinados para trabalhar na fronteira entre Sérvia e Hungria fazem exercícios

    Policiais húngaros que estão sendo treinados para trabalhar na fronteira entre Sérvia e Hungria fazem exercícios (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Orban baixou leis autorizando o confinamento em centros de detenção dos refugiados que estão com processo em análise. Os centros são contêineres cercados por arame farpado onde refugiados vivem por meses, e foram criticados pelo Acnur e pela UE.

    Além disso, Orban criou uma divisão policial chamada Caçadores de Fronteiras e quer recrutar 3.000 pessoas.

    A cerca teve grande apoio da população. Imre Csonka, agricultor em Horgos, na fronteira com a Sérvia, lembra-se do dia em que milhares de refugiados e migrantes pisaram em sua plantação de crisântemos, em 2015.

    “Eles destruíram todo meu trabalho”, diz. “A cerca era necessária, a polícia sozinha não estava dando conta de deter toda essa gente”, afirma Csonka enquanto passa o trator em suas terras, a poucos metros da cerca.

     Segundo o governo húngaro, o gasto com a cerca, policiamento, áreas de trânsito e campanhas soma 1 bilhão de euros.

    “A Hungria não deveria receber um só migrante”, diz o caminhoneiro Attila Szegedi, 45, que fazia parte de uma milícia privada de defesa das fronteiras. “O Islã é incompatível com a nossa cultura”, diz.

    Para ele, a cerca foi uma boa medida, mas o governo não é duro o suficiente nas punições contra aqueles que entram ilegalmente no país.

    “Queremos que as pessoas vejam o que tem ocorrido na Alemanha, na França e na Suécia por causa dos migrantes, há uma onda de crimes, violência contra mulheres”, diz.

    “Não negamos que existam problemas de segurança, mas o governo exagera e assusta as pessoas”, diz o sociólogo Mark Kékesi, fundador da ONG Migration Aid (ajuda à migração), em Szeged.

    “A legitimidade do governo de Orban depende disso, o pensamento do eleitor é: ‘eles podem ser corruptos, mas defendem nosso país dessas pessoas que querem roubar nossos empregos e estuprar nossas filhas’.”

    Para o ativista Tibor Varga, 61, da Eastern Europe Outreach, a crise da migração é complexa e não será resolvida apenas com cercas.

    “Pense na seguinte situação: você acolhe em sua casa uma família sem teto de dez pessoas. Como você foi boa e os ajudou, eles chamam outras duas famílias com dez pessoas cada e pedem que você também as acolha”, diz ele, que trabalha há sete anos com refugiados na Sérvia.

    “O que você vai fazer? Você tem capacidade para ajudar todo esse pessoal? Não existem respostas simples.”

    Imigrante lê em campo de refugiados na Sérvia enquanto espera por chance para entrar na Hungria (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Alguns dias depois do encontro com a Folha na “selva”, o paquistanês Sabir tentou cruzar a fronteira pela 12ª vez e foi bem sucedido.

    Ele andou durante quatro dias para atravessar a Hungria, sem comer nada, só bebendo água. Foi se orientando pelo GPS no celular, mas, quando acabou a bateria, trocou o Google Maps pelo instinto. Está agora em um campo de refugiados na Áustria. De lá, vai para a França, onde quer morar.

    O afegão Hameed também cruzou alguns dias após o encontro com a reportagem, mas foi pego por policiais húngaros. Deportado, voltou para um campo de refugiados em Belgrado e pretende tentar cruzar em breve. Desta vez, pela Croácia.

    http://arte.folha.uol.com.br/mundo/2017/um-mundo-de-muros/servia/persistencia/

     

     

    UM MUNDO DE MUROS (EUA E MÉXICO)

    UM MUNDO DE MUROS (QUÊNIA E SOMÁLIA)

    UM MUNDO DE MUROS (CISJORDÂNIA E ISRAEL)

     

  • Berlim congela aluguéis por 5 anos para tentar frear gentrificação

    Cidade busca impedir que pessoas mais pobres tenham de deixar bairros com alta procura

    Melissa Eddy
    BERLIM | THE NEW YORK TIMES

    Os preços dos aluguéis de mais de 1,5 milhão de apartamentos em Berlim serão congelados ou reduzidos por cinco anos, graças a uma nova legislação que visa frear uma alta recente dos aluguéis que vem expulsando moradores mais velhos ou de renda mais baixa.

    Aprovada por legisladores na quinta-feira (30/1) e prevista para entrar em vigor em março, a medida é uma tentativa do governo de esquerda berlinense de barrar o processo de  gentrificação de uma cidade que ficou famosa por seu cenário criativo, mas está sentindo a pressão de investidores imobiliários e de projetos de infraestrutura.

    Bonecos e cartazes de protesto contra a alta do preço dos aluguéis em Berlim – Hannibal Hanschke – 23.fev.2019/Reuters

    “Criamos um instrumento que vai sustar o movimento ascendente absurdo dos preços pelos próximos cinco anos”, anunciou Katrin Lompscher, senadora responsável pelo desenvolvimento e vida urbana de Berlim, em coletiva de imprensa na sexta-feira. “Cabe aos políticos criar as condições básicas para permitir que pessoas de renda mais baixa e de classe média continuem a poder viver em Berlim.”

    Viver em imóvel alugado é mais comum na Alemanha do que em casa própria; mais de metade dos habitantes do país aluga o imóvel em que vive. Apenas 18% dos 3 milhões de habitantes de Berlim têm casa ou apartamento próprio.

    A nova lei não permite que a maioria dos aluguéis na cidade custe mais do que em 2019 e limita o valor que pode ser cobrado, com base na condição do imóvel e suas instalações.

    Críticos da medida dizem que ela vai dificultar o crescimento muito necessário do mercado imobiliário e afastar empresas dispostas a construir unidades habitacionais de custo acessível numa cidade que, conhecida nos anos 1990 por seu cenário “pobre, mas sexy” de festas e clubes, desde então tornou-se uma capital europeia que passa por transformações velozes.

    Empresários do setor imobiliário e membros do partido conservador da chanceler Angela Merkel ameaçaram contestar a lei. Segundo eles, a medida viola a constituição alemã, que estipula que os aluguéis são determinados pelo governo federal.

    “O teto imposto aos aluguéis equivale a uma desapropriação. É uma catástrofe para o mercado imobiliário berlinense”, disse Jürgen Michael Schick, presidente da Associação Imobiliária da Alemanha. Desde que a medida que impõe um teto aos aluguéis foi proposta pela prefeitura de Berlim, no ano passado, a entidade vem avisando sobre seus potenciais efeitos negativos.

    “Limitar e reduzir a receita obtida de aluguéis vai gerar incerteza para investidores e desencorajar os investimentos no setor”, disse Schick.

    Para Lompscher, o objetivo não é sustar o crescimento do parque habitacional, mas reduzir a pressão financeira sobre os inquilinos enquanto empreendedores imobiliários e autoridades municipais facilitam a construção de mais unidades habitacionais. Berlim, capital da Alemanha, tem planos para construir mais de 60 mil apartamentos adicionais nos próximos anos, disse a senadora, muitos dos quais serão imóveis de preço mais acessível.

    Após a queda do Muro de Berlim, em 1989, a cidade reunificada se viu com um excedente de apartamentos, muitos dos quais de propriedade do estado. Em um esforço para gerar recursos urgentemente necessários para custear a reunificação de Berlim oriental e ocidental, muitos imóveis foram privatizados.

    Investidores imobiliários estrangeiros não demoraram a entender o potencial de crescimento que havia em Berlim – onde os aluguéis ainda custam significativamente menos que em Londres, Paris ou Roma— e começaram a comprar e reformar apartamentos. Também começaram a cobrar aluguéis mais altos.
    Ao mesmo tempo a população de Berlim continuou a crescer. Entre 2012 e 2017 a cidade ganhou 250 mil habitantes a mais, segundo cifras oficiais.

    Esse conjunto de fatores levou a uma alta nos preços dos aluguéis, especialmente nos bairros mais procurados. Em 2017, Berlim foi a única grande cidade do mundo em que os preços dos imóveis subiram mais de 20% em relação ao ano anterior, e os aluguéis acompanharam essa alta.

    “Três milhões de inquilinos em Berlim vão se beneficiar da medida”, disse Iris Spranger, porta-voz para assuntos habitacionais em Berlim do SPD, um dos partidos governistas que aprovou a lei.

    “Após uma fase prolongada de aumentos galopantes, os aluguéis agora serão congelados”, ela disse. “É mais do que necessário.”

     

    Tradução de Clara Allain.

     

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/02/berlim-congela-alugueis-por-5-anos-para-tentar-frear-gentrificacao.shtml

     

    Questões
    1) Como ocorre o processo de gentrificação?
    2) É possível apontar em sua cidade esse processo ocorrendo? Exemplifique.
    3) A reportagem cita um evento que foi determinante para que a cidade de Berlim
    tornasse uma “capital européia”. Explique.
    4) Segundo a reportagem, a gentrificação em porções da Cidade de Berlim descortina
    uma questão política. Justifique.
    5) A gentrificação desconstrói o espírito  de um lugar.  Analise a afirmativa.
    Prof. Luciano Mannarino