África está se partindo: estudo mostra pulsos da Terra abrindo novo oceano.
Colaboração para o UOL
14/10/2025 05h30
Atualizada em
14/10/2025 13h10
Continente africano está se dividindo conforme ocorre o enfraquecimento da crosta terrestre na região da Etiópia
Uma pesquisa revelou o que pode ser o nascimento de um novo oceano no coração da África. Segundo um estudo publicado na revista Nature Geoscience, pulsos rítmicos de rocha derretida estão subindo das profundezas da Terra, sob o leste do continente, e lentamente rasgando a crosta africana ao meio.

O que aconteceu?
A Região de Afar, na Etiópia, está situada sobre uma pluma de manto quente que se comporta como um coração pulsando. A pesquisa, liderada por cientistas das universidades de Southampton e Swansea, no Reino Unido, confirma que, a cada “batida”, envia ondas de calor e material fundido para cima, enfraquecendo a crosta terrestre.
“Descobrimos que o manto sob Afar não é uniforme nem estacionário. Ele pulsa, e esses pulsos carregam assinaturas químicas distintas. Essas pulsações ascendentes de manto parcialmente derretido são canalizadas pelas placas em rifte acima delas. Isso é importante para entendermos como o interior da Terra interage com sua superfície”
(Emma Watts, pesquisadora da Universidade de Swansea e autora principal do estudo)
Um continente se partindo ao meio. A região de Afar é uma das mais instáveis do planeta. Ali, três grandes falhas tectônicas se encontram: o Rifte do Mar Vermelho, o Rifte do Golfo de Áden e o Grande Rifte Etíope. Essa junção tripla é o cenário perfeito para o rompimento continental que, segundo os cientistas, já começou.
Um rifte é uma grande fenda ou depressão alongada que se forma na crosta terrestre quando ela começa a se esticar e se romper devido a forças internas do planeta. Esse processo ocorre em regiões onde as placas tectônicas estão se afastando, permitindo que o material quente do manto suba e provoque a abertura da crosta.
Conforme as placas tectônicas se afastam, a crosta se estica e se torna mais fina até se romper. Esse processo marca o início de uma nova bacia oceânica, algo que pode levar milhões de anos para se concretizar.
A equipe internacional envolveu especialistas de dez instituições, incluindo universidades do Reino Unido, Itália, Alemanha e Etiópia. Juntos, eles analisaram amostras e dados geofísicos que ajudaram a revelar o comportamento do manto sob a região.
O coração do planeta bate sob a Etiópia
Os pesquisadores coletaram mais de 130 amostras de rochas vulcânicas em toda a área de Afar. Ao analisar a composição química, descobriram padrões que se repetem, como se fossem códigos de barras geológicos. Esses padrões indicam que o manto pulsa de forma constante e organizada.
“As faixas químicas sugerem que a pluma pulsa, como um batimento cardíaco. Esses pulsos se comportam de forma diferente dependendo da espessura da placa e de como ela se move. Em riftes que se expandem mais rapidamente, como o do Mar Vermelho, as pulsações se propagam de maneira mais eficiente e regular, como o sangue fluindo por uma artéria estreita”
(Tom Gernon, professor da Universidade de Southampton, em nota da Universidade de Swansea)
Esse movimento contínuo faz com que o manto aqueça e desgaste lentamente a crosta terrestre. O resultado é uma sequência de vulcões ativos e terremotos frequentes, sinais de que o continente está literalmente se partindo em dois.

O futuro: um novo oceano nasce na África?
Segundo os cientistas, o processo ainda está em estágio inicial, mas o resultado final é inevitável. Com o tempo, a água do mar deve invadir a fenda crescente, formando um novo oceano e separando o Chifre da África do restante do continente, de forma semelhante ao que ocorreu quando o Atlântico se abriu há milhões de anos.
A evolução das elevações profundas do manto está intimamente ligada ao movimento das placas acima. Isso tem implicações profundas para como interpretamos o vulcanismo de superfície, a atividade sísmica e o processo de fragmentação continental
Derek Keir, pesquisador da Universidade de Southamp e coautor do estudo.
Essas correntes profundas podem fluir sob as bases das placas tectônicas e concentrar a atividade vulcânica onde a crosta é mais fina. O grupo agora pretende estudar a velocidade e a dinâmica desse fluxo subterrâneo.
“Trabalhar com pesquisadores de diferentes áreas é essencial para desvendar os processos que acontecem sob a superfície da Terra e relacioná-los ao vulcanismo recente. Sem o uso de várias técnicas, é difícil enxergar o quadro completo, como montar um quebra-cabeça sem ter todas as peças”
(Emma Watts, da Universidade de Swansea)
Questões
1 O principal fenômeno geológico abordado na reportagem é:
a) A fusão de continentes africanos
b) A formação de um novo oceano a partir da separação continental
c) O aumento da temperatura atmosférica na África
d) O surgimento de um novo deserto na Etiópia
e) O avanço das placas tectônicas em direção ao norte
2 A região de Afar, na Etiópia, é descrita como o ponto central do estudo porque:
a) Está localizada sobre uma pluma de manto quente em constante pulsação
b) Apresenta a maior concentração de geleiras da África
c) É uma zona de impacto de meteoritos recentes
d) É uma área de intensa exploração de petróleo
e) Está situada no ponto mais elevado do continente
3 De acordo com o texto, o que significa o termo rifte?
a) Uma dobra formada pelo choque de placas tectônicas
b) Uma depressão alongada causada pelo afastamento de placas
c) Um tipo de vulcão adormecido
d) Um movimento circular de magma no interior da Terra
e) Uma falha causada por erosão eólica
4 O estudo sugere que o movimento do manto terrestre sob a Etiópia se assemelha a um batimento cardíaco. Essa comparação serve para:
a) Simplificar a compreensão do processo para o público
b) Demonstrar a irregularidade e imprevisibilidade do fenômeno
c) Mostrar que o manto terrestre tem vida própria
d) Apontar que o movimento é causado por atividade humana
e) Criticar o avanço da ciência sobre a natureza
5 Segundo os cientistas, o que pode ocorrer com o continente africano em milhões de anos?
a) Ele se expandirá em direção à Ásia
b) Se fragmentará, criando um novo oceano
c) Será coberto por desertos e vulcões
d) Unir-se-á novamente à América do Sul
e) Tornar-se-á um único bloco rochoso estável
6 Qual das alternativas abaixo apresenta uma consequência atual desse processo de separação continental?
a) Aumento de vulcões ativos e terremotos na região
b) Desaparecimento dos lagos africanos
c) Redução da atividade vulcânica no Chifre da África
d) Criação de novas ilhas no Oceano Atlântico
e) Migração em massa de animais terrestres
7 Os cientistas afirmam que o processo que ocorre em Afar é semelhante ao que:
a) Criou o Oceano Atlântico há milhões de anos
b) Deu origem à Cordilheira dos Andes
c) Causou a desertificação do Saara
d) Formou o Mar Morto
e) Gerou a Fossa das Marianas
8 Por que o estudo do comportamento do manto terrestre é importante para a ciência geológica?
a) Porque ajuda a prever fenômenos de superfície como vulcões e terremotos
b) Porque permite explorar minerais raros com mais eficiência
c) Porque revela como o clima influencia as rochas
d) Porque explica o desaparecimento dos oceanos antigos
9 Explique como esse processo está relacionado ao tectonismo divergente, destacando o papel das placas africana e somali na formação de um rifte.
Mostre, em sua resposta, como esse fenômeno confirma os princípios da Teoria da Deriva Continental de Alfred Wegener.
10 O texto jornalístico aborda o processo de abertura continental na região de Afar, na Etiópia, causado pelo afastamento das placas tectônicas africana e somali.
Sabendo que fenômenos semelhantes também ocorrem nas dorsais oceânicas, explique as semelhanças e diferenças entre o tectonismo divergente que acontece no continente africano e aquele que ocorre no fundo dos oceanos.