Memórias da Rua Ibiá
Perdão, Seu Antônio
Quando somos jovens, a vida acontece muito no impulso. Rimos alto, exageramos, testamos limites — muitas vezes sem perceber o impacto disso nos outros. Eu e meus amigos fizemos isso. Tornamos a vida do síndico do prédio difícil, transformando o Seu Antônio numa espécie de personagem das nossas brincadeiras. Na época parecia só irreverência juvenil, cumplicidade entre amigos.
O tempo amplia o olhar. Hoje consigo vê-lo de outro jeito: não como alvo de piada, mas como um profissional zeloso, responsável por uma filha autista, seguindo sua rotina com dignidade.
Vicente, um dos nossos amigos, partiu cedo!!!
Hoje entendo que certos reencontros são internos. Não reencontramos exatamente as pessoas, mas a compreensão que construímos sobre elas. Permanecem como memória, aprendizado, revisão moral. É uma reconciliação — não com o passado, que não muda —, mas com o modo como passamos a entendê-lo.
Amadurecer é perceber que algumas coisas envelhecem mal, que a empatia chega depois e que o tempo refina a consciência. Não é culpa nem autopunição. É crescimento.
E, Vicente… fica também meu pedido de perdão. Em plano nenhum poderei cumprir a promessa de rir de tudo que fizemos.
Ainda assim, a amizade e o respeito seguem vivos aqui dentro.
Prof Luciano Mannarino