Aprender a ver!

Do alto do meu prédio, vejo o entardecer quase todos os dias.

O céu se espalha diante de mim como um pano silencioso que encerra o dia com dignidade.

Às vezes, por segundos, acredito que ele foi pintado.

Não muito distante, está o morro.

E dali, eu sei — a vista é ainda mais bonita.

Mais aberta.

Mais alta.

Mais intensa.

Mesmo assim, me pergunto: será que alguém vê?

Porque ali, o pôr do sol não é só o fim do dia.

É o início do medo.

É a hora em que os territórios mudam de dono.

É quando o silêncio não é contemplação, mas tensão.

A beleza está lá.

O céu está lá.


Mas o olhar… o olhar talvez não possa estar.

A violência, quando é constante, desconstrói a sensibilidade.

Ensina o corpo a reagir, não a sentir.

Ensina o ouvido a escutar tiros, não passarinhos.

Ensina o olho a vigiar, não a contemplar.

Essa talvez seja uma das maiores crueldades do espaço urbano desigual: não é apenas o direito à segurança que é negado — é o direito à beleza.

À pausa.

Ao espanto diante do mundo.

Ao silêncio que não assusta.

Mesmo que a guerra acabasse.

Mesmo que o território fosse pacificado.

Seria preciso reaprender a ver.

Porque o olhar sensível também é uma construção.

Ele exige tempo, acolhimento, escuta, chão firme.

E, muitas vezes, aqueles que mais precisariam ver a beleza do mundo foram ensinados a sobreviver sem ela.

A Geografia, então, não é só ciência de mapas.

É ciência de feridas.

De silêncios.

De horizontes que existem — mas nem todos conseguem alcançar.

Talvez seja esse o nosso papel como professores: ensinar a ver.

Não só o relevo, o clima, o espaço… mas o que falta para que todos possam ver o pôr do sol sem medo.

Porque a paisagem só se revela quando o olhar está inteiro.
E, num mundo partido, o pôr do sol também é um direito que precisa ser reconstruído.

Luciano Mannarino é professor de Geografia.

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