Do alto do meu prédio, vejo o entardecer quase todos os dias.
O céu se espalha diante de mim como um pano silencioso que encerra o dia com dignidade.
Às vezes, por segundos, acredito que ele foi pintado.
Não muito distante, está o morro.
E dali, eu sei — a vista é ainda mais bonita.
Mais aberta.
Mais alta.
Mais intensa.
Mesmo assim, me pergunto: será que alguém vê?
Porque ali, o pôr do sol não é só o fim do dia.
É o início do medo.
É a hora em que os territórios mudam de dono.
É quando o silêncio não é contemplação, mas tensão.
A beleza está lá.
O céu está lá.
Mas o olhar… o olhar talvez não possa estar.
A violência, quando é constante, desconstrói a sensibilidade.
Ensina o corpo a reagir, não a sentir.
Ensina o ouvido a escutar tiros, não passarinhos.
Ensina o olho a vigiar, não a contemplar.
Essa talvez seja uma das maiores crueldades do espaço urbano desigual: não é apenas o direito à segurança que é negado — é o direito à beleza.
À pausa.
Ao espanto diante do mundo.
Ao silêncio que não assusta.
Mesmo que a guerra acabasse.
Mesmo que o território fosse pacificado.
Seria preciso reaprender a ver.
Porque o olhar sensível também é uma construção.
Ele exige tempo, acolhimento, escuta, chão firme.
E, muitas vezes, aqueles que mais precisariam ver a beleza do mundo foram ensinados a sobreviver sem ela.
A Geografia, então, não é só ciência de mapas.
É ciência de feridas.
De silêncios.
De horizontes que existem — mas nem todos conseguem alcançar.
Talvez seja esse o nosso papel como professores: ensinar a ver.
Não só o relevo, o clima, o espaço… mas o que falta para que todos possam ver o pôr do sol sem medo.
Porque a paisagem só se revela quando o olhar está inteiro.
E, num mundo partido, o pôr do sol também é um direito que precisa ser reconstruído.
Luciano Mannarino é professor de Geografia.