Quando eu era mais jovem, o futuro parecia um lugar aberto, esperando meus planos. Eu imaginava a aposentadoria como uma segunda juventude: aventuras, desafios, sonhos adiados. Pensava em escalar montanhas, viver paixões antigas, tocar música como se ainda houvesse algo a provar.
Eu não entendia que o futuro não chega sozinho. Ele traz todos os anos vividos.
O tempo não apenas passa — ele se acumula. No corpo, que aprende limites. Na mente, que escolhe melhor onde gastar energia. No coração, que separa o que é ruído do que é sentido.
E então algo muda.
Não é que os sonhos desaparecem. Alguns apenas deixam de ser necessários. O que antes parecia prova de vida perde urgência. Não porque a vida ficou menor, mas porque talvez a gente tenha ficado mais inteiro.
Chega um momento em que a vontade de viver tudo dá lugar à vontade de entender o que já foi vivido. A expansão vira profundidade.
Talvez aquele futuro cheio de façanhas nunca tenha sido um destino. Talvez fosse apenas uma luz para garantir que continuássemos caminhando. E sem perceber, a gente chega — não onde imaginou, mas onde faz sentido.
Um lugar menos urgente.
Menos ruidoso.
Mas mais verdadeiro.
Porque chega uma fase em que a conquista não é fazer mais.
É existir dentro da própria história, com consciência e presença.
E talvez isso não seja abrir mão de quem fomos.
Talvez seja aceitar quem nos tornamos.
Luciano Mannarino é Prof de Geografia e achava que iria escalar o everest depois de aposentado.