Angola vive o fim de sua perestroika

Brasil deve estar preparado para se posicionar do lado do progresso democrático no país africano

10.out.2021 às 17h02

Nos anos Bolsonaro, o debate sobre Angola no Brasil se resume às querelas missionárias animadas pelos bispos evangélicos da base governista. Mas o país, fundamental para a diplomacia brasileira em tempos normais, tem conhecido importantes transformações.

A chegada de João Lourenço ao poder em 2017 foi vivida como uma inesperada ruptura com os anos de autoritarismo e obscenidade financeira do interminável regime de José Eduardo dos Santos. Para a surpresa de todos, Lourenço, membro do MPLA, mesmo partido que o de seu predecessor, encampou uma agenda de abertura política e tomou medidas espetaculares, como a prisão de membros da família Dos Santos e a reorganização da estatal petrolífera Sonangol.

O presidente de Angola, João Lourenço, na Assembleia-Geral da ONU em Nova York – Timothy A. Clary/Pool via Reuters

Mas o conto da perestroika angolana era um mito criado pelo MPLA, mestre na arte de adaptar a narrativa nacional às expectativas da comunidade internacional para se eternizar no comando do país. A despeito dos avanços concretos em termos de governança, as medidas anticorrupção parecem ter sido calibradas para enfraquecer os oligarcas ligados ao ex-presidente Santos e consolidar o novo projeto de poder.

A implementação do plano de reformas acertado com o FMI é celebrada como um modelo de competência tecnocrática. Mas a economia real está em frangalhos. O fim do ciclo de ouro da indústria petrolífera dissipou a ilusão de um petroestado desenvolvimentista que pairava sobre o país.

A infraestrutura está decadente, os serviços públicos desmoronaram, a fome cresce nas regiões rurais e a população urbana vive no marasmo de um modelo econômico em via de extinção.

Ninguém esperava que o novo governo transformasse de ponta-cabeça, em anos de pandemia, um país refém de dogmas soviéticos e oligarquias góticas. Mas o período deixou claro que a reconversão econômica é incompatível com a ausência de alternância política. Lançada oficialmente na semana passada, a Frente Patriótica Unida representa o maior avanço da construção democrática angolana desde 2002.

O vento de mudança deixou a ala mais reacionária do MPLA desesperada. Os quadros mais autoritários da era Dos Santos regressaram ao jogo político, e o partido voltou a manifestar seus piores reflexos.

Estudante de Angola desinfecta os tênis antes de entrar em uma escola da capital, Luanda, que foi reaberta em fevereiro, após 11 meses fechada
studante de Angola desinfecta os tênis antes de entrar em uma escola da capital, Luanda, que foi reaberta em fevereiro, após 11 meses fecha Osvaldo Silva – 10.fev.21/AFPMAIS 

Logo depois da criação da Frente Patriótica Unida, o Tribunal Constitucional, capturado por membros do MPLA, abriu uma ofensiva legal para deslegitimar o principal líder da oposição, Adalberto Costa Júnior. Por enquanto, Lourenço parece resistir, mas a pressão do MPLA pelo fechamento do regime deve aumentar nos próximos meses.

Nesse cenário, as eleições presidenciais agendadas para outubro de 2022 podem ser um teste importante para o Brasil na África.

A inesperada alternância de poder na Zâmbia criou esperança na África austral, atormentada pelo impasse autoritário no Zimbábue, o colapso social na África do Sul e o desastre militar em Moçambique. O Brasil foi o primeiro país a reconhecer a independência de Angola, em 1975. Ele deve estar preparado para, quando chegar a hora, se posicionar novamente do lado do progresso democrático.

www1.folha.uol.com.br/colunas/mathias-alencastro/2021/10/angola-vive-o-fim-de-sua-perestroika.shtml

Questão.

1 O que seria o “petroestado”? Aponte um outro exemplo.

2 Aponte semelhanças entre o Brasil e Angola em relação a exploração de petróleo.

3 Explique a expressão russa do título do texto.

4 Por que a independência de Angola só se deu após 1975?

Professor Luciano Mannarino

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