Categoria: Geopolítica

  • Turquia desafia EUA e anuncia maior cooperação militar com a Rússia

    Turquia desafia EUA e anuncia maior cooperação militar com a Rússia

    Membro da Otan, país de Erdogan quer mais armas; movimento também é recado à Grécia

    30.set.2021 às 12h51

    Igor Gielow

    SÃO PAULO

    Em desafio direto aos EUA, com recado à rival Grécia e num reflexo da realidade geopolítica pós-retirada americana do Afeganistão, a Turquia anunciou o aprofundamento da cooperação militar com a Rússia.

    Na prática, o movimento significará a compra de uma segunda leva de sistemas antiaéreos S-400 e, posteriormente, a “construção de motores de aviões de combate, navios e projetos conjuntos, como submarinos”, de acordo com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

    Caça russo de quinta geração Su-57 em exibição no show aéreo Maks, perto de Moscou
    Caça russo de quinta geração Su-57 em exibição no show aéreo Maks, perto de Moscou – Dimitar Dilkoff – 20.jul.21/AFP

    Ele falava a jornalistas de seu país no avião presidencial ao voltar de uma reunião com o russo Vladimir Putin no balneário de Sochi, nesta quinta (30).

    Segundo ele, foi discutido “como impulsionar a cooperação militar a um nível superior”. Enquanto ideias de planos conjuntos são provavelmente apenas hipotéticas e geralmente retóricas, a questão dos S-400 é bem real, e o conjunto da obra representa um problema para o Ocidente.

    Na newsletter de Mundo, semanalmente, as análises sobre os principais fatos do globo, explicados de forma leve e interessante.

    A Turquia é um dos membros mais estratégicos da Otan, a aliança militar liderada pelos EUA, por ser o único que integra também o Oriente Médio.

    Da base turca de Incirlik, onde há talvez 50 bombas nucleares táticas americanas estocadas, partiram diversos ataques ocidentais nos conflitos na região nas últimas décadas.

    Em 2018, a Turquia anunciou que iria comprar o poderoso S-400, considerado um dos mais eficazes sistemas de defesa aérea do mundo. Os EUA protestaram, mas Erdogan foi em frente e, em 2019, começou a receber sua encomenda de US$ 2,5 bilhões (R$ 13,65 bilhões, na cotação atual).

    Ato contínuo, os americanos desligaram Ancara do programa de desenvolvimento do caça de quinta geração furtivo ao radar F-35, já com 4 de 30 aviões prontos para entrega aos turcos, que iriam produzir partes da aeronave dentro da cadeia produtiva internacional do modelo.

    Veículo militar russo (cinza) lidera comboio com turcos na província síria de Hasakeh
    Veículo militar russo (cinza) lidera comboio com turcos na província síria de Hasakeh Delil Souleiman – 14.jul.2021/AFPMAIS 

    Erdogan já havia gasto US$ 1,4 bilhão (R$ 7,64 bilhões) no projeto e negocia reparações. A alegação americana era a de que operar o S-400 no mesmo ambiente que o F-35 poderia revelar ao sistema russo eventuais fragilidades do caça americano.

    O problema colocado é a suspeita americana de que poderia haver algum tipo de acesso a essas informações pelos russos, que ajudam os turcos a operacionalizar os sistemas.

    A Otan também chiou, dado que a aliança preza pela interoperacionalidade dos sistemas de armas que emprega, para ter unidade em caso de conflito justamente com a Rússia.

    O corolário da situação, de que o clube teria acesso ao funcionamento de uma arma temida do adversário, foi convenientemente esquecido no debate. Mais grave, os EUA aplicaram sanções econômicas à Turquia no fim de 2020, como punição pela aquisição.

    A questão maior, claro, é política. Desde 2014, quando Putin anexou a Crimeia para evitar que a derrubada do governo pró-Kremlin em Kiev jogasse a Ucrânia no colo da Otan, como o país deseja até hoje, a relação entre a aliança e Moscou é a pior desde a Guerra Fria.

    Em junho, houve um grave incidente no processo, no qual um navio britânico passou por águas que a Rússia considera suas perto da península anexada no mar Negro e foi recebido com tiros reais de advertência e bombas jogadas por caças. Isso na esteira de uma quase volta do conflito na Ucrânia.

    De seu lado, Erdogan tem ampliado a posição de independência ante a um Ocidente do qual desconfia, em especial depois que os EUA se recusaram a extraditar o acusado de inspirar o golpe de Estado frustrado que sofreu em 2016.

    Caças Sukhoi Su-27 disparam flares em exibição aérea
    Caças Sukhoi Su-27 disparam flares em exibição aérea Serguei Karpukhin /ReutersMAIS 

    Nesse balé entra Putin, com quem a Turquia tem uma complexa relação de disputa e cooperação. Os países, que quase foram às vias de fato por apoiar lados diferentes na guerra civil Síria, hoje mantêm uma tensa ação conjunta por lá.

    Já na Líbia, as diferenças continuam, com acusações mútuas. No Cáucaso, em 2020, Erdogan jogou alto ao apoiar com armas e logística a ofensiva azeri que derrotou a Armênia, aliada russa, e reconquistar parte das perdas territoriais que Baku havia sofrido nos anos 1990.

    Os russos intervieram de forma relutante, dado que o então governo armênio não era muito simpático a Putin, e saíram como garantidores da paz, ainda instável. Mas uma nova realidade regional se mostrou.

    A indústria militar turca tem feito notáveis avanços, com, por exemplo, uma ampla família de drones. O Bayraktar-TB2 fornecido aos azeris é visto como um dos fatores do sucesso na guerra do ano passado.

    Mas, até por ser uma potência média, Ancara enfrenta problemas com desenvolvimentos mais ambiciosos. Planeja seu próprio caça de quinta geração, para substituir os 260 F-16 que seriam paulatinamente trocados pelos F-35.

    Agora, ao falar em cooperação em motores de caça, na realidade namora a ideia de comprar equipamentos russos que já lhe foram ofertados antes. Seriam modernos e bem-sucedidos caças Su-35 e talvez até modelos de quinta geração Su-57, com acidentada carreira, ou o planejado Sukhoi Checkmate.

    Já a questão dos submarinos pode introduzir modelos diesel-elétricos da classe Kilo nos estaleiros de Gölcük, que há anos produzem modelos alemães sob licença. Ancara opera 12 submarinos. Mas esse é um plano menos tangível a essa altura. Há também a rival histórica turca Grécia, que, assim como a Turquia, faz parte da Otan e com quem tem diferenças na bacia do Mediterrâneo.

    Casa bombardeada durante a guerra em Stepanakert, capital de Nagorno-Karabakh
    Casa bombardeada durante a guerra em Stepanakert, capital de Nagorno-Karabakh Cassiana Der Haroutiounian/FolhapressMAIS 

    Nas últimas semanas, o governo em Atenas anunciou um pacote de compras militares da França: três fragatas e ampliação de um pedido de caças avançados Rafale para 24 unidades, tudo ao custo de € 6,8 bilhões (R$ 42,97 bilhões).

    A posição turca reflete também novos tempos. A retirada americana do Afeganistão, deixando o frágil governo fantoche do país à mercê da retomada do poder pelo Talibã, foi lida em todos os cantos como um recado sobre o comprometimento de Washington com seus aliados.

    Na semana passada, Erdogan, que tem uma política externa audaciosa e que não limita cartas militares, deixou isso claro. “No futuro, ninguém vai poder interferir no tipo de sistemas de defesa que nós vamos adquirir”, afirmou à rede americana NBC.

    Já o Departamento de Estado respondeu em nota, afirmando que “nós exortamos a Turquia a não manter o sistema S-400 e a não comprar nenhum outro equipamento militar russo”.

    Não parece que deu muito certo, colocando do mesmo lado russos e turcos, que têm interesses estratégicos divergentes, mas pragmatismo de sobra.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/09/turquia-desafia-eua-e-anuncia-maior-cooperacao-militar-com-a-russia.shtml

    Questão

    1) Explique o último parágrafo do texto.

    2) O que é OTAN e como ela surgiu?

    3) Por que a ascensão do Talibã no Afeganistão preocupa Ancara?

    4) Aponte um elemento que vem adiando a entrada da Turquia na UE.

    5) De que forma a presença de bombas atômicas americanas no território Turco se liga ao contexto da Guerra Fria?

    6) Qual a relação que a Guerra Civil na Síria tem com a “Primavera Árabe”?

    Prof Luciano Mannarino

    A GEOPOLÍTICA DO PÓS GUERRA (vídeo e atividades)

  • Barreira construída para trazer segurança aparta vidas e memórias

    Barreira construída para trazer segurança aparta vidas e memórias

    Concreto que serpenteia por terras palestinas freou homens-bomba, mas afastou prospecto de paz

    DIOGO BERCITO E LALO DE ALMEIDA

    ENVIADOS ESPECIAIS A ISRAEL E CISJORDÂNIA

    4.set.2017 – 02h00

    Umm Judah, 64, se esqueceu de muitas coisas. Entre elas, a palavra que moldou os anos mais recentes de sua vida: “muro”.

    Professora aposentada, a palestina vive nas cercanias de Belém diante de uma barreira de concreto de oito metros de altura.

    É esse o horizonte à sua porta, que a separa da terra que cultivou por décadas e das lembranças dos filhos iluminados pelos faróis e satisfeitos com os figos recém-colhidos.

    “É como uma venda”, diz à Folha. “Como se nos arrancassem os olhos.”

    Durante a entrevista, ela aponta a construção mais de uma vez por não se lembrar de como chamá-la, mesmo em seu árabe nativo.

    A professora aposentada palestina Umm Judah, 64, que vive diante de um muro de oito metros de altura; barreira a separa da terra que cultivou por décadas
    A professora aposentada palestina Umm Judah, 64, que vive diante de um muro de oito metros de altura; barreira a separa da terra que cultivou por décadas (Lalo de Almeida/Folhapress)

    O muro diante de sua casa é um trecho da barreira de 764 quilômetros que Israel ergue desde 2002 para se separar dos territórios palestinos da Cisjordânia, onde estão cidades como Belém e Ramallah. A maior parte é cerca, e o concreto é usado nas áreas urbanas. Faltam os últimos 194 quilômetros da construção.

    A barreira tem impacto brutal nas vidas de pessoas como Umm Judah. Mas israelenses de diferentes orientações políticas concordam, por outro lado, que existia a necessidade urgente de erguê-la.

    As memórias da Segunda Intifada ainda estão frescas. Cerca de 3.000 palestinos e 1.000 israelenses morreram entre 2000 e 2005 durante o levante palestino contra a ocupação israelense. Os palestinos enviavam homens-bomba; os israelenses revidavam com tanques.

    Muro erguido por Israel desde 2002 para se separar dos territórios palestinos da Cisjordânia; dos 764 quilômetros planejados para a barreira, 570 estão prontos (Lalo de Almeida/Folhapress)

    O israelense Ury Vainsecher, 71, se recorda bem. Ele já vivia em Kfar Saba, cidade a um quilômetro do muro, no caminho para a palestina Qalqilya.

    “Quando meus filhos eram menores, eu os levava a todos os lugares de carro. Tinha medo de que tomassem o ônibus”, diz. “Entre eu ser vítima de uma explosão e uma palestina viver rodeada por muro, prefiro vê-la cercada.”

    Vainsecher perdeu um amigo em um atentado. O filho de um vizinho morreu em outro ataque, e um conhecido que estava em uma pizzaria de Jerusalém alvo dos terroristas, também

    O trecho da barreira diante da casa de Umm Judah é um dos mais recentes.

    Um ano atrás, a palestina caminhava dois ou três minutos até seu pomar para passar o dia sob as oliveiras enrolando folhas de uva. Hoje ela precisa dirigir por 40 minutos para alcançar o outro lado.

    “Mas o muro ajudou os israelenses. Estão relaxados.”

    Judeus diante de muro próximos ao Túmulo de Raquel em Belém, na Cisjordânia, local considerado sagrado pela religião judaica (Lalo de Almeida/Folhapress)

    A fricção causada pela barreira na vida de palestinos como Umm Judah envenena a possibilidade de haver paz entre os dois povos em breve.

    O projeto foi questionado desde a concepção por figuras como Yossi Beilin, arquiteto dos Acordos de Oslo (as negociações de 1993 que levaram à divisão da Cisjordânia em diferentes áreas de controle).

    Se não tivessem sido interrompidos pelo assassinato do premiê israelense Yitzhak Rabin por um ultranacionalista em 1995, tais acordos poderiam ter encerrado o conflito.

    “Era claro que os palestinos seriam humilhados pela construção do muro”, diz Beilin, em Tel Aviv.

    “Mas não foi feito por malícia, e houve esforços para que eles não sofressem, ainda que esses esforços não tenham sido suficientes”, afirma, citando uma série de apelos às cortes israelenses –seis deles com sucesso– para mudar a rota da barreira.

    Muros, diz Beilin, “não são fotogênicos”.

    Grafites e pichações no muro da Cisjordânia; entre as figuras retratadas há o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e forças policiais
    Grafites e pichações no muro da Cisjordânia; entre as figuras retratadas há o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e forças policiais (Lalo de Almeida/Folhapress)

    “São muito difíceis de explicar. A barreira virou um símbolo de como colocamos os palestinos em uma prisão. É a vida deles, e eles se perguntam por que têm que pagar esse preço.” Não apenas por terem sido separados da terra que cultivavam, mas também porque a sua liberdade de ir e vir foi drasticamente reduzida.

    A Folha acompanhou a passagem de trabalhadores palestinos rumo a Israel em dois postos de controle militar, em Belém e em Ramallah.

    Às 5h, a fila já transbordava dos corredores metálicos que lembram um curral, os ratos passando pelo chão imundo. Ansiosos, alguns trabalhadores escalavam as grades e formavam uma fila paralela no alto, como equilibristas distópicos.

    O ritual é cotidiano para milhares. “Tornamos a vida de muitos palestinos terrível”, afirma Beilin. “Mas reduzimos o número de mortes, e é difícil dizer que isso tenha sido errado.”

    Trabalhadores palestinos em fila para atravessar posto de controle israelense em Belém, na Cisjordânia; alguns escalam as grades, formando uma fila paralela no ar (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Não é errado, do ponto de vista legal, que um país construa muros em seus limites.

    Mas a divisão entre Israel e os territórios palestinos não é uma fronteira convencional porque, afinal, não existe um Estado palestino. A divisa costuma ser a chamada Linha Verde, que marca as fronteiras anteriores a 1967, ano da Guerra dos Seis Dias, quando Israel tomou a Cisjordânia.

    Vem daí mais uma complicação desta história, vivida diariamente por Umm Judah: de cada 6,5 quilômetros da barreira, 5,5 foram construídos dentro da Cisjordânia e, portanto, fora da fronteira. Em alguns trechos, o muro está 18 quilômetros distante de onde teoricamente deveria serpentear.

    A explicação de um tenente-coronel do Exército israelense que não pôde se identificar é a de que o trajeto foi adaptado às necessidades de segurança. Em algumas ocasiões o muro precisava passar em cima de uma colina, e não embaixo, por exemplo.

    “Nossa experiência nos tribunais é sempre a mesma”, afirma a advogada palestina Dalia Qumsiyeh, que representa Umm Judah.

    “O governo israelense usa a palavra mágica, ‘segurança’, e aprova assim os seus planos”, diz. “Mas, antes de falar em segurança, pensem na senhora que não consegue entrar em sua terra.”

    Ou no palestino Hani Amer, 60, que vive na região noroeste da Cisjordânia, sobre a linha em que o governo israelense queria ter construído o muro.

    Ele se recusou a deixar sua casa, a barreira a contornou, e ele foi cercado em seu terreno de 1.000 m² pelo concreto, o arame farpado e pelas cercas de segurança.

    O palestino Hani Amer, 60, abre portão para entrar em sua propriedade no povoado de Masha, na Cisjordânia; ele se recusou a deixar sua casa e a barreira a contornou (Lalo de Almeida/Folhapress)

    A poucos passos dali, está o assentamento israelense de Elkana, razão para as preocupações.

    “Disseram que ou eu saía daqui ou ficaria isolado. Quis ficar, a despeito de todas as dificuldades, porque é a minha casa”, diz, sentado em um balanço no jardim. À sua frente, está o muro.

    Por algum tempo, Amer precisou pedir que os soldados israelenses abrissem o portão da sua propriedade toda vez que queria sair.

    “Receber visitas era um inferno. Uma punição coletiva.” Com a pressão de organizações humanitárias, o agricultor teve uma pequena vitória: recebeu a chave para uma portinhola no muro, pela qual hoje passa.

    Ao receber a Folha em sua casa, Amer se agacha atrás de um carro, para que a polícia israelense não o veja –ele teme ser punido por receber a imprensa e falar de sua vida. Poderiam, por exemplo, lhe tirar a chave da portinhola.

    “Tive tantos problemas que já nem consigo me lembrar de todos”, diz, antes de relatar alguns.

    Quando seu filho de três anos engatinhou por baixo da cerca, por exemplo, a mãe não teve permissão para cruzar a barreira e buscá-lo. A criança foi encontrada do outro lado e trazida de volta.

    “Eu fui até os soldados e lhes disse: Vocês não são humanos. Vocês viram meu filho e não fizeram nada.”

    Ao ser lembrado que Israel ergueu o muro para garantir a segurança do país, Amer diz que “o que garante a segurança é a justiça”. “Quando você distingue entre dois irmãos, não tem segurança. Imagine entre dois povos.”

    A barreira rompeu em diversas regiões do país o contato, ainda que limitado, que havia entre palestinos e israelenses.

    Barricadas em um rua compartilhada por árabes e judeus em Hebron, na Cisjordânia; abaixo e à esquerda, abrigo anti-terrorismo no povoado israelense de Tzur Yigal, em Israel
    Barricadas em um rua compartilhada por árabes e judeus em Hebron, na Cisjordânia; abaixo e à esquerda, abrigo anti-terrorismo no povoado israelense de Tzur Yigal, em Israel (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Amer vive próximo de Qalqilya, onde israelenses costumavam fazer compras antes da Segunda Intifada.

    O local é próximo também de Tzur Yigal, onde vive o israelense-uruguaio Eran Landau, 64. “Minha casa foi erguida por uma família palestina”, diz. “Tenho amigos do outro lado, apesar de ter lutado contra eles”, afirma.

    “O muro nos inquieta, mas ou você cuida da sua família, ou não. Quero viver bem, e quero que minha filha viva bem. Se ela puder ir para a discoteca sem riscos, não me importo com o que dizem.”

    Landau é membro de uma força-tarefa voluntária para a segurança de Tzur Yigal, e guarda armas, um capacete e uma máscara de gás dentro de uma sala à prova de explosões. “Tenho um fuzil M16 para viajar. Poderiam me atacar a qualquer momento com um coquetel molotov.”

    Policiais israelenses patrulham bairro árabe na Cidade Antiga de Jerusalem, em Jerusalém Oriental (Lalo de Almeida/Folhapress)

    O recém-eleito prefeito de Belém, Anton Salman, discorda da avaliação. “Não acho que seja questão de segurança. É confisco de terra”, diz diante do muro que divide sua cidade. Ele perdeu parte de suas propriedades, isoladas do outro lado da barreira.

    Os desvios em relação à Linha Verde engoliram 9,4% da Cisjordânia, um processo monitorado pelo israelense Dror Etkes, diretor da ONG Kerem Navot. “Fiscalizamos como Israel toma terras na Cisjordânia para dar aos colonos israelenses”, diz –os colonos são os israelenses que vivem dentro da Cisjordânia.

    “A barreira foi construída para permitir que os assentamentos crescessem. Há uma correlação entre a presença de colonos e da barreira.”

    Para o ex-soldado israelense Avner Gvaryahu, 32, é preciso entender a barreira como parte de um sistema mais amplo, que envolve o projeto dos assentamentos. “O governo quer minimizar o número de palestinos aqui.”

    Crianças palestinas jogam pedra e insultam soldados israelenses que estão do outro lado de muro em Ramallah, na Cisjordânia (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Gvaryahu é o líder da organização Breaking the Silence, que compila testemunhos de soldados israelenses sobre a violência da ocupação da Cisjordânia. Ele foi paraquedista, período durante o qual recebia ordens diretas de colonos.

    “O objetivo do sistema é proteger os israelenses, mas ninguém protege os palestinos”, diz Gvaryahu. “Nunca haverá uma sensação real de segurança até que os palestinos tenham respeito e dignidade.”

    Ao redor dos muros e cercas, há zonas-tampão às quais o acesso de palestinos é restrito por razões de segurança.

    “Em algumas áreas entre barreiras é possível ver como surgiu uma nova vida selvagem”, diz Etkes, e aponta para um grupo de veados, que cruzam diante do carro da reportagem e se esgueiram por debaixo do arame farpado rumo à terra de que agora são na prática os donos.

    Palestina acompanhada da filha pede esmola na fila de posto de controle em Qalandia, na Cisjordânia (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Umm Judah teme que esse seja o futuro de seu pomar, do outro lado do muro, caso o governo israelense decida que ela já não pode mais cruzar o controle militar. “Sinto como se tivesse perdido alguém da minha família. Roubaram a minha felicidade”, ela afirma, e chora.

    Depois, sobe em uma rua do vilarejo, alta o suficiente para enxergar por cima do muro. Vê seu pomar inacessível –damascos, pêssegos, peras, alecrim– e lamenta: “Vou morrer aqui”.

    http://arte.folha.uol.com.br/mundo/2017/um-mundo-de-muros/israel/conflito-ancestral/

    Prof Luciano Mannarino

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  • Haitianos em desespero veem EUA dobrarem esforços para deportar imigrantes

    Haitianos em desespero veem EUA dobrarem esforços para deportar imigrantes

    Governo Biden expulsa centenas por dia; de volta a um país em múltiplas crises, deportados têm poucas perspectivas

    22.set.2021 às 9h57Atualizado: 22.set.2021 às 19h43

    BAURU (SP)

    Enquanto os Estados Unidos se preparam para quase dobrar o volume de deportações em meio a um novo revés para o governo de Joe Biden, imigrantes haitianos entram em desespero ao serem forçados a voltar ao país mais pobre das Américas, envolto em múltiplas crises.

    No domingo (19) e na segunda-feira (20), centenas de migrantes foram expulsos do território americano em três voos para Porto Príncipe. Nesta terça (21), estavam programados mais quatro voos e, para os próximos dias, há a expectativa de até sete voos diários com destino à capital haitiana e a Cap-Haitien, a segunda maior cidade do país.

    Parte dos haitianos expulsos protagonizou cenas de pânico após desembarcar no aeroporto de Porto Príncipe. Um grupo de homens correu de volta em direção ao avião, e pelo menos um deles tentou voltar a bordo — obviamente, sem sucesso.

    Recém-chegados ao seu país de origem, esses grupos recebem uma pequena quantia em dinheiro, kits básicos de higiene e uma rápida avaliação médica. São, então, deixados à própria sorte.

    Imigrantes sob ponte na fronteira entre EUA e México em Del Rio, no Texas
    Imigrantes sob ponte na fronteira entre EUA e México em Del Rio, no Texas – John Moore – 21.set.21/Getty Images/AFP

    “Atravessamos nove países. No caminho, vimos muitos mortos. Dormimos na selva. E agora, terminou”, disse Belton (nome fictício) à agência de notícias AFP, acompanhado da esposa e de um filho de dois anos, em Porto Príncipe. A família suspira, sem ter a menor ideia do que fará para sobreviver.

    O governo do Haiti não tem “nem o costume nem a logística necessária” para lidar com o volume de migrantes, afirma o economista Etzer Emile. “Mas o pior é que não é prioritário para as autoridades. A prioridade é a divisão do bolo governamental para a próxima reorganização do gabinete de ministros”, diz, em referência ao premiê Ariel Henry, que assumiu o comando do país após o assassinato do presidente Jovenel Moïse — crime no qual o próprio Henry é suspeito de envolvimento.

    Ao jornal americano The Washington Post o chefe do escritório de migração do Haiti, Jean Negot Bonheur Delva, admitiu que o governo “não tinha os meios” para fornecer moradia ou outro tipo de assistência aos recém-chegados.

    “A precariedade e a insegurança vão aumentar exponencialmente. É uma crise a mais”, disse Delva, acrescentando que pediu, no nível individual, uma moratória nos voos de deportação americanos, mas que não sabia se o governo de Henry havia feito algum pedido oficial nesse sentido.

    Nos EUA, o governo Biden enfrenta uma pressão crescente. Quase 10 mil migrantes, principalmente haitianos, permanecem em condições cada vez piores no campo improvisado sob uma ponte que atravessa o rio da cidade de Del Rio, no estado do Texas, até Ciudad Acuña, no México. Autoridades americanas retiraram pelo menos 4.000 pessoas do local nos últimos dias para processamento em centros de detenção.

    Mesmo membros do Partido Democrata fizeram críticas à gestão da crise. Chuck Schumer, líder da maioria democrata no Senado, disse que a expulsão de imigrantes para o Haiti “desafia o bom senso” e expressou indignação com as táticas usadas pelos agentes de fronteira para controlar as multidões — no início da semana, oficiais montados a cavalo foram flagrados usando rédeas para ameaçar migrantes haitianos próximo à fronteira.

    A cavalo, agente de fronteira persegue migrantes que retornavam aos EUA após comprar comida no México
    A cavalo, agente de fronteira persegue migrantes que retornavam aos EUA após comprar comida no México Daniel Becerril/ReutersMAIS 

    A vice-presidente Kamala Harris descreveu a situação como complexa e disse que os EUA precisam “fazer muito mais” para atender às necessidades básicas da população do Haiti. “As pessoas querem ficar em casa, não querem sair, mas vão embora quando não podem satisfazer suas necessidades básicas.”

    Políticos republicanos, de olho nas eleições de meio de mandato em 2022, quando esperam retomar o controle do Congresso, foram ágeis em atribuir a responsabilidade pela crise no campo improvisado no Texas à pressão dos democratas para afrouxar algumas restrições à migração impostas durante o governo de Donald Trump.

    Em meio a esse cenário, uma das hipóteses aventadas pelos americanos é pedir auxílio para países como Brasil e Chile para receber parte dos migrantes haitianos. O tema foi tratado em reunião entre o secretário de Estado, Antony Blinken, e o chanceler brasileiro, Carlos França, após a Assembleia-Geral da ONU.

    No último fim de semana, o acampamento chegou a atingir o pico de 14 mil pessoas, segundo o Acnur, a agência da ONU para refugiados. Nesta terça, grupos no lado americano do rio ocuparam uma área de floresta, e algumas famílias construíram barracas improvisadas com galhos e folhas. Os relatos são de que a comida é escassa e que não há banheiros suficientes para todos.

    Do lado mexicano, o acampamento também tem crescido, e os migrantes têm recebido assistência de grupos como Cruz Vermelha e Médicos Sem Fronteiras, além de moradores de Ciudad Acuña.

    Imigrante haitiano dá banho em seu filho em acampamento improvisado em Del Rio, no Texas
    Imigrante haitiano dá banho em seu filho em acampamento improvisado em Del Rio, no Texas John Moore/Getty Images – 21.set.21/AFPMAIS

    Em entrevista à Reuters, Surreane Petit disse que ficar no México foi uma grande melhoria em comparação com o lado americano do campo. “Aqui o povo mexicano está ajudando muito. Lá estávamos com fome. Debaixo da ponte não havia ajuda, nenhuma ajuda.”

    Acompanhada do filho de três anos de idade, ela contou ter vivido os últimos cinco anos no Chile, mas que decidiu ir embora depois que os efeitos da pandemia no país a deixaram desempregada.

    Apesar do risco de ser deportado para o Haiti a qualquer momento, Carly Pierre, outro migrante, disse que ficou no acampamento, depois de vários anos morando no Brasil, porque ainda tem esperanças de entrar nos EUA junto com a esposa e dois filhos, de 3 e 5 anos.

    “Há os deportados e há as pessoas que vão conseguir entrar”, disse Pierre, com a roupa ainda molhada por ter atravessado o rio para comprar um refrigerante no lado mexicano.

    A expectativa não é completamente infundada. Segundo dois funcionários do governo Biden que falaram em anonimato à agência Associated Press, parte dos ocupantes do acampamento improvisado tem sido liberada em território americano sob a condição de comparecer a um escritório de imigração em 60 dias.

    A quantidade de pessoas liberadas nesses termos, assim como os critérios para esse tipo de prática, ainda não estão claros, mas, de acordo com os entrevistados, adultos solteiros são alvos preferenciais dos voos de deportação.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/09/haitianos-em-desespero-veem-eua-dobrarem-esforcos-para-deportar-imigrantes.shtml

    Questão

    1 Aponte fatores que tornam o Haiti um país de emigrantes.

    2 A questão dos imigrantes haitianos tem reflexos na disputa eleitoral nos EUA? Justifique.

    3 O que foi a MINUSTAH? Ela cumpriu plenamente seus objetivos?

    Formulário de Inscrição!!!!

    Prof Luciano Mannarino.

  • O discurso no tanque e o fim da URSS

    O discurso no tanque e o fim da URSS

    Há 30 anos, Boris Ieltsin resistiu a golpe contra perestroika e acelerou desintegração soviética

    6.ago.2021 às 23h15

    Temor e incerteza dominavam o auditório principal do Parlamento russo. Lá, instalou-se o epicentro da resistência ao golpe de Estado arquitetado para eliminar a perestroika e levar a URSS de volta à ortodoxia soviética. Depois de ouvir discursos em defesa das reformas, abandonei o prédio, em busca de mais notícias sobre aquele 19 de agosto de 1991, há exatos 30 anos.

    Na rua, diante da cena golpista clássica, avistei tanques de guerra. Fui, de imediato, surpreendido por uma multidão cruzando a porta do Parlamento, em marcha resoluta. Identifiquei na aglomeração, entre guarda-costas e apoiadores, o líder russo e ultrarreformista Boris Ieltsin.

    Segui a turba. Ieltsin subiu num blindado enviado pelos golpistas. O tanquista, atordoado, aceitou o aperto de mão do líder russo. A máquina de guerra virou palanque, e o timoneiro da resistência discursou: “A reação não passará!”.

    O então presidente da Rússia, Boris Ieltsin, participa de uma coletiva de imprensa em Bonn, na Alemanha
    O então presidente da Rússia, Boris Ieltsin, participa de uma coletiva de imprensa em Bonn, na Alemanha – Viktor Korotayev – 9.jun.98/Reuters

    Proféticas as palavras ielstinistas. Em apenas três dias, o golpe orquestrado por comunistas ortodoxos desmoronou, junto com o plano de afastar, do Kremlin, Mikhail Gorbatchov, pai da perestroika.

    Concebida para salvar a URSS da onda separatista a rasgar o império criado por Vladimir Lênin a partir de 1917, a intentona produziu o efeito contrário. Seu fracasso acelerou tendências nacionalistas e contribuiu de forma decisiva para a desintegração soviética.

    A imagem de Ieltsin sobre o tanque, numa ousadia a desnortear golpistas esperando a resignação de um homo sovieticus, galvanizou a resistência. Transformou-se em ícone do momento histórico e da irrefreável ascensão do ieltsinismo.

    Ieltsin governava a Rússia, a maior das 15 repúblicas (na prática, províncias) da URSS e rivalizava com o presidente Gorbatchov, a quem criticava pela lentidão das reformas. Ambicionava chegar ao Kremlin e desafiava o governo central, apoiando a drenagem de poder para autoridades regionais.

    A vitória em agosto de 1991 fez a balança política pender decisivamente para Ieltsin. Quatro meses depois, ao lado de mais dois líderes regionais, da Ucrânia e de Belarus, o mandachuva russo anunciou ignorar o poder central, ocupado por Gorbatchov, e proclamou o fim da URSS. O mapa-múndi passou a desenhar 15 países independentes onde antes havia um império vermelho.

    Exaltado no Ocidente pelo papel no descarte da Guerra Fria, Gorbatchov enfrentava no plano doméstico formidável processo de corrosão política. A perestroika havia trazido liberdades inéditas, mas também a maior crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial.

    A Perestroika e Glasnost

    A Perestroika (do russo, 'reconstrução') foi, junto a Glasnost ('transparência'), a principal plataforma política de Mikhail Gorbatchov. As medidas visavam a democratização da União Soviética e a abertura para a economia de mercado
    A Perestroika (do russo, ‘reconstrução’) foi, junto a Glasnost (‘transparência’), a principal plataforma política de Mikhail Gorbatchov. As medidas visavam a democratização da União Soviética e a abertura para a economia de mercado A

    A falência do modelo soviético alimentou tendências separatistas pelo gigantesco país, a se estender da fronteira com a Polônia até os mares do Alasca. E culpava-se Gorbatchov pela debacle econômica.

    O patriarca das reformas navegava entre pressões dos separatistas e de um establishment conservador empenhado em manter o império intacto. Comunistas refratários às reformas viram na aventura golpista uma saída derradeira, mas erraram o cálculo ao ignorarem a capacidade de Ieltsin de mobilizar forças contra a conspiração de estilo brejnevista.

    Quando cheguei ao escritório, após testemunhar a cena histórica de Ieltsin sobre o tanque, liguei a TV. Peguei a leitura dos comunicados oficiais dos conspiradores e, em seguida, um programa monótono a mostrar uma “União Soviética feliz”.

    Os autores do complô achavam viver ainda nos anos 1960, quando um golpe conservador liderado por Leonid Brejnev derrubou Nikita Khruschov. Os tempos, no entanto, eram outros. E até mesmo a URSS deixou de existir.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jaimespitzcovsky/2021/08/o-discurso-no-tanque-e-o-fim-da-urss.shtml

    Questões

    1 O colapso da exURSS foi devido a uma conjunção de fatores? Justifique.

    2 Qual o papel de Gorbatchov no arrefecimento da “Guerra Fria”?

    3 O que pretendia Ieltsin no improvisado discurso do Tanque?

    4 Alguns estudiosos afirmam que a China realizou a Perestroika, mas ficou devendo a Glasnost. Você concorda? Justifique.

    Prof Luciano Mannarino

    Homenagem a roqueiro soviético e fala de Gorbatchov sobre Belarus remetem aos anos 1990

    Ucrânia pede ajuda à Otan contra a Rússia, que dá recado militar

    Biden aceita acordo de armas nucleares com a Rússia, mas sinaliza pressão

  • Onde fica o Afeganistão e por que geograficamente ele é estratégico para as principais potências mundiais?

    Onde fica o Afeganistão e por que geograficamente ele é estratégico para as principais potências mundiais?

    País na Ásia Central e está no foco de China e Rússia, além de outros países vizinhos. Fronteiras foram definidas por influência britânica no século 19 durante ação para barrar avanço da Rússia czarista.

    Por Felipe Gutierrez e Fábio Manzano, G1

    18/08/2021 05h01  Atualizado há 21 horas


    O Afeganistão fica na Ásia Central, encravado em uma porção de terras montanhosas geograficamente estratégica e com potencial econômico que atrai vizinhos e potências com as quais nem mesmo tem fronteiras.

    No passado, a disputa entre países do Ocidente e a Rússia forjou o desenho do mapa afegão e também marcou a trajetória de guerras envolvendo o país. Agora, o futuro do Afeganistão mobiliza as atenções sobretudo da China, da Rússia e dos EUA, mas vizinhos menos influentes globalmente, como o Irã, a Índia e o Paquistão, também disputam a influência sobre o país e seu território.

    Abaixo, em cinco tópicos, entenda a localização do Afeganistão e quais os interesses das potências mundiais:

     — Foto: G1/Arte

    1 – Localização do país e origem

    O Afeganistão é um país montanhoso, sem acesso ao mar e com um território de 652 mil km², pouco maior que o estado de Minas Gerais. Historicamente, na Antiguidade, o território que hoje forma o país já foi ocupado por diferentes povos e impérios, como a Babilônia e o macedônio de Alexandre, o Grande.

    Na história mais recente, no século 19, o Império Britânico ocupou a região e foi responsável por levar ao trono o rei Shah Shujah (1838-1842). Depois de as tropas britânicas terem sido expulsas, retornaram entre 1878 e 1880, sendo que a independência da influência britânica só ocorreu definitivamente em 1919.

    “O Afeganistão nasceu como um Estado tampão para impedir o avanço da Rússia czarista no século 19, que estava se expandindo em direção ao sul do continente asiático. Os ingleses viram isso como uma ameaça e criaram o Reino do Afeganistão como um Estado”, diz o professor Samuel Feldberg, doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP).

    2 – Independência, invasão soviética e atual interesse russo

    Atualmente, o Afeganistão faz fronteira com seis países, a metade deles aliados diretos da Rússia e ex-repúblicas soviéticas: Tajiquistão, Uzbequistão e Turcomenistão. A estabilidade dessa área, portanto, é do interesse russo.

    Desde a independência declarada, os arranjos de poder no Afeganistão sempre foram considerados instáveis. Por conta da proximidade com a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em diferentes momentos o país teve assistência militar e econômica do bloco, até que em 1979 foi invadido pelo exército soviético, em um período que já havia apoio dos Estados Unidos a grupos locais contrários aos russos. A presença soviética seguiu no país até um acordo de paz em 1988.

    Como lembra a colunista do G1 Sandra Cohen, “os EUA se envolveram no país há quatro décadas, durante a Guerra Fria, apoiando combatentes armados – os mujahedin – contra os soviéticos. O impacto do conflito desgastou a economia soviética até que o então presidente Mikhail Gorbachev anunciou a retirada total das tropas”.

    Apesar da derrota, os soviéticos continuaram a sustentar o governo afegão, liderado por Mohammad Najibullah, para conter o avanço dos rebeldes. Mas o império soviético desmoronou, a fonte secou e, em 1992, Najibullah foi destituído do poder.

    No cenário atual, a Rússia se interessa em fazer contraponto ao poder dos EUA em áreas que ela avaliar estar dentro de seu círculo de influência, sobretudo o sul da Ásia, Oriente Médio e Leste Europeu. Além disso, também tem interesse no fortalecimento do Talibã contra o Estado Islâmico (EI), já que o país sofre com terrorismo jihadista no Cáucaso. Por isso, manter o EI longe do norte do Afeganistão é importante para a Rússia.

    3 – China: interesse em minerais, contraponto aos EUA e aos jihadistas uigures

    Ainda na segunda-feira (16), a China afirmou que deseja manter “relações amistosas” com o grupo extremista Talibã, que tinha tomado o poder no Afeganistão apenas um dia antes.

    A China e o Afeganistão são países vizinhos e têm 76 quilômetros de fronteiras comum.

    Pequim incluiu, ainda em 2016, o Afeganistão em seu grande projeto de infraestrutura, as “Novas Rotas da Seda”. Mas, por falta de segurança, os investimentos chineses foram modestos no país: 4,4 milhões de dólares em 2020, segundo o ministério do Comércio.

    A China tem também interesse nos minérios do país, entre eles o cobre na região de Mes Aynak. Mas outro dos possíveis focos são as reservas de “terras raras”, que são insumos importantes nas cadeias de fabricação de produtos de altas tecnologias.

    Além do forte interesse econômico, a fronteira com o Afeganistão na província de Xinjiang é palco de atividades de grupos extremistas uigures. O receio é que jihadistas uigures presentes também no Afeganistão se fortaleçam na região, justamente porque a China vem sendo acusada de genocídio contra o povo uigur.

    E assim como a Rússia, a China também busca fazer oposição aos EUA e a retirada das tropas do Afeganistão é uma nova oportunidade para se contrapor à influência americana.

    4 – EUA: das ações contra os soviéticos à luta contra o terror

    Os EUA iniciaram sua relação com o Afeganistão há 40 anos, durante a Guerra Fria, com o apoio aos mujahedin, grupo de guerrilheiros que atuavam contra as investidas soviéticas no país. O cenário de conflito e os investimentos em armas e treinamento militar formaram um terreno fértil para a criação e ascensão do grupo extremista Talibã, que tomou o poder do país nos anos 1990.

    A interferência americana voltou a aumentar durante a chamada Guerra ao Terror, em resposta aos atentados do 11 de setembro, quando o governo talibã do Afeganistão se recusou a entregar o chefe da al-Qaeda, responsável pelos ataques, Osama Bin Laden.

    Duas décadas depois, com o retorno do grupo ao poder, os americanos temem que o país se torne um “santuário para grupos extremistas”, no entanto, outra grande preocupação é a perda de influência no território que poderá favorecer seus maiores adversários: China, Rússia e Irã.

    5 – Índia, Irã e Paquistão: o interesse de vizinhos

    Saída dos EUA do Afeganistão abre espaço para países ganharem poder no cenário geopolítico.

    Além das potências globais, vizinhos com forte expressão regional também buscam marcar posição na relação com o Afeganistão:

    • ÍNDIA: o país vê no Afeganistão um de seus principais aliados regionais, e sua localização – com uma longa fronteira com o Paquistão, com quem a Índia não tem boas relações – é vital para a segurança nacional.

    • IRÃ: Com laços estreitos com o grupo extremista, o governo iraniano foi acusado de fornecer apoio financeiro e militar ao Talibã. Além disso, especialistas alertam para a expansão da presença clandestina das Forças Quds – unidade especial da Guarda Revolucionária – no país para promover os interesses iranianos.

    “Cerca de 20% da população do país é xiita, e o principal país xiita da região, o Irã, “está preocupado com a possibilidade de associação, no Afeganistão, de grupos salafistas que atacam os xiitas”, explica Arlene Clemesha, professora de História Árabe da Universidade de São Paulo (USP).

    • PAQUISTÃO: Entre a Índia – com quem não tem boas relações – e o Afeganistão, o Paquistão vê no apoio afegão uma expansão de sua influência regional e apoio em conflitos. O país foi um dos únicos, ao lado da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, a reconhecer o Talibã quando assumiu o poder na década de 1990.

    Há uma identidade étnica de uma parte dos afegãos com o Paquistão. “A fronteira entre os dois é praticamente inexiste”, comenta Samuel Feldberg, doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP). O Paquistão usa essa proximidade étnica nos conflitos que tem com a Índia, segundo o professor.

    Quando o Afeganistão foi invadido em 2001, muitos dos membros de grupos terroristas que estavam no país acabaram encontrando refúgio no Paquistão —o próprio Osama Bin Laden foi capturado em uma cidade próxima a Islamabad, no Paquistão.

    Há mais de dez etnias no país, que falam línguas diferentes e que têm uma organização parecida com a de tribos. “Como o Estado do Afeganistão atual nasceu de um projeto colonialista, as rivalidades internas foram exacerbadas. Os grupos étnicos do Afeganistão não consideram as fronteiras entre o país e os vizinhos legítimas”, diz a professora Clemesha.

    https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/08/18/onde-fica-o-afeganistao-e-por-que-geograficamente-ele-e-estrategico-para-as-principais-potencias-mundiais.ghtml

    Questões

    1 – A intervenção dos EUA no Afeganistão se deu em dois momentos. Caracterize-os.

    2 – Analise o atual interesse da Rússia na estabilidade política do Afeganistão.

    3 – O Reino do Afeganistão foi uma “criação” dos ingleses? Justifique.

    4. A aproximação da China com o Afeganistão guarda interesses geopolíticos e econômicos?Justifique.

    Prof Luciano Mannarino