São Paulo O Brasil mudou drasticamente nas últimas quatro décadas. Entre outros aspectos, o país deixou de ser uma ditadura militar e voltou à democracia. A população brasileira foi de 135 milhões para 212 milhões de habitantes. E o território nacional perdeu mais de 1 milhão de quilômetros quadrados de vegetação nativa.
É o que mostram os registros de mudanças de uso do solo de 1985 a 2024 do Mapbiomas. Nesta sexta-feira (5), em que é celebrado o Dia da Amazônia, um levantamento feito pela Folha usando a base de dados da plataforma mostra em gráficos e mapas o que essa transformação representou para os biomas brasileiros.
No total, foi destruído 1,17 milhão de km² de florestas, savanas e campos —área equivalente à soma dos territórios de França e Espanha ou dos estados de Goiás, Maranhão e Mato Grosso do Sul.
Somente o Rio de Janeiro ganhou áreas naturais nesse período, enquanto todos os outros 25 estados e o Distrito Federal tiveram redução destes espaços.
No Brasil, o desmatamento é a maior fonte de emissões de gases de efeito estufa, causadores da mudança climática.
Em termos absolutos, a maior vítima foi a amazônia, respondendo por quase metade do total de vegetação nativa perdida. A extensão da floresta caiu de 90% para 78% da área do bioma no período, enquanto a agropecuária foi de 3% para 15% do total.
As grandes lavouras e pastos passaram a ocupar o espaço que até então era coberto pela explosão de vida natural dos biomas brasileiros. No cerrado, por exemplo, que é a savana mais biodiversa do mundo, a agricultura e a pecuária, que tomavam 27% do bioma no início da série histórica, hoje respondem por 47% do território.
Com a perda de vegetação, o país também perdeu água. Nas últimas quatro décadas, foi reduzida em 12% a extensão de florestas úmidas, rios, campos alagados e mangues do país. No pantanal, os ciclos de inundação diminuíram, culminando na seca extrema de 2024.
Com a perda de vegetação, o país também perdeu água. Nas últimas quatro décadas, foi reduzida em 12% a extensão de florestas úmidas, rios, campos alagados e mangues do país. No pantanal, os ciclos de inundação diminuíram, culminando na seca extrema de 2024.
O texto fala que o Brasil mudou política e ambientalmente nas últimas quatro décadas. De que forma você percebe essas mudanças refletidas no seu dia a dia ou no lugar onde vive?
Apenas o Rio de Janeiro ganhou áreas naturais no período analisado. Que hipóteses você levantaria para explicar esse caso específico, considerando aspectos históricos, sociais ou econômicos do estado?
A perda de cobertura na Amazônia foi de 12 pontos percentuais. Em sua opinião, qual é a consequência mais grave dessa transformação: climática, social ou econômica? Justifique.
O Cerrado perdeu quase metade de sua vegetação para a agropecuária. Se você fosse um(a) gestor(a) público(a) desse bioma, que decisão polêmica tomaria para equilibrar produção de alimentos e preservação?
O texto compara a área desmatada com a soma da França e Espanha. Você acha que esse tipo de comparação ajuda ou atrapalha a compreensão do problema pelos leitores? Por quê?
Houve redução de 12% das áreas de água no país. Como essa informação se conecta com a sua experiência pessoal de acesso à água (ex.: enchentes, secas, racionamentos)?
O Pantanal sofre com a diminuição dos ciclos de inundação. Na sua visão, esse problema é apenas ambiental ou também cultural? Explique com base em exemplos da relação entre população local e o bioma.
O texto aponta que o desmatamento é a principal fonte de gases de efeito estufa no Brasil. Você concorda que a responsabilidade é só do campo ambiental ou há outros setores da sociedade envolvidos? Argumente.
Imagine que você é repórter da Folha. Que outro dado ou comparação incluiria no texto para torná-lo ainda mais impactante para o leitor comum?
O levantamento foi divulgado no Dia da Amazônia. Você acha que datas comemorativas realmente têm efeito prático sobre a consciência ambiental das pessoas ou são apenas simbólicas? Explique sua posição.
Aquecimento na região central do país tem sido cerca de 1°C acima da média global
29.jun.2024 às 8h07
Maria Fernanda Ziegler
AGÊNCIA FAPESP
Estudo conduzido por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e publicado na revista Nature Communicationsindica que a seca no cerrado brasileiro é sem precedentes, pelo menos nos últimos 700 anos.
A condição tem gerado um distúrbio hidrológico: a temperatura próxima ao solo está tão quente que uma parte significativa da água da chuva evapora antes de se infiltrar no terreno. A anomalia traz diversas consequências, como mudanças no padrão de chuva, que está mais concentrada em poucos eventos, e menor recarga nos aquíferos, o que pode afetar o nível dos rios tributários do rio São Francisco.
Solo seco em Correntina (BA), no cerrado – Lalo de Almeida – 15.mar.2024/Folhapress
Para chegar a essa conclusão, o trabalho apoiado pela Fapesp e pela National Science Foundation, dos Estados Unidos, revisou os dados de temperatura, vazão, precipitação regional e balanço hidrológico da Estação Meteorológica de Januária —uma das mais antigas de Minas Gerais, com registros iniciados em 1915— e os correlacionou com as variações da composição química de estalagmites de uma caverna no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, situada no mesmo município.
“Com o uso de dados geológicos foi possível expandir a percepção da seca causada pelo aquecimento global para um período bem anterior ao dos registros meteorológicos. Dessa forma, conseguimos fazer a reconstituição do clima até sete séculos atrás”, afirma Francisco William da Cruz Junior, professor do Instituto de Geociências (IGc-USP) e um dos autores do estudo, que foi liderado por Nicolás Strikis, do mesmo instituto.
“Isso permitiu não somente provar que o cerrado está mais seco, mas que a origem dessa seca tem relação com o distúrbio do ciclo hidrológico causado pelo aumento da temperatura induzida pela atividade humana na emissão de gases do efeito estufa.”
“A mensagem é que não há paralelo com a seca que estamos vivenciando atualmente. É importante frisar que identificamos uma tendência de aumento da temperatura que começa nos anos 1970, mas o fato é que ainda não atingimos o pico de aquecimento. Portanto, a expectativa é que esse fenômeno piore ainda mais”, informa Cruz à Agência Fapesp.
A Caverna da Onça, onde foram coletados os dados químicos das estalagmites, é diferente das demais estudadas pelo grupo, porque é aberta e localizada no fundo de um cânion com 200 metros de profundidade e está sob influência da variação de temperatura externa. Fica localizada no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu e serve de hábitat para uma onça, daí o nome.
Formação geológica conhecida como carste, no Parque Nacional do Peruaçu (MG), que abriga patrimônio arqueológico Araquém Alcântara/Divulgação/Instituto EkosMAIS
“Trata-se de um trabalho inédito, pois geralmente estudamos cavernas em um ambiente fechado, com a circulação de ar muito restrita e a temperatura estável ao longo do ano. A conexão da Caverna da Onça com o clima externo nos permitiu avaliar que a seca também altera a química das formações rochosas de cavernas [espeleotemas]”, explica.
“O aumento da evaporação causada pelo maior aquecimento diminui a recarga de água que alimenta os gotejamentos na caverna. Foram essas mudanças químicas na rocha, associadas à evaporação da água, que nos mostraram que estamos vivenciando uma seca sem precedentes.”
INOVAÇÃO
O trabalho integra um projeto de pesquisa que visa reconstituir a variabilidade do clima e das mudanças climáticas durante o último milênio por meio de registros de formações rochosas que ocorrem dentro de cavernas e anéis de crescimento de árvores.
“A nova metodologia e a validação dos dados do nosso trabalho abrem caminho para que mais estudos em outras cavernas, de outras regiões e biomas, sejam realizados. Com esse tipo de abordagem será possível ter uma reconstituição do clima do país de uma forma mais precisa”, afirma.
Geralmente, os estudos geológicos utilizados para fundamentar a teoria do aquecimento global são feitos a partir de amostras de testemunhos de gelo [retiradas de geleiras nos polos]. “A inovação do nosso estudo está em utilizar os dados químicos de espeleotemas para identificar variações dos ciclos hidrológicos e associá-los às mudanças geradas pelo aumento da temperatura nos trópicos”, explica Cruz.
O grupo também tem conduzido estudos de paleoclima com base em árvores fósseis encontradas no mesmo parque nacional, trabalho realizado em parceria com um grupo de biólogos que integra o projeto temático.
“São fósseis de umburanas encontrados dentro das cavernas e que ficaram protegidos da luz por mais de 500 anos. Somando os resultados do nosso estudo com o que está sendo realizado nas árvores fósseis, obtivemos dados independentes sobre esse mesmo fenômeno”, conclui.
Questionário.
Qual é a principal descoberta do estudo conduzido por pesquisadores da USP e publicado na revista Nature Communications?
Como o aquecimento global tem afetado a região central do Brasil, segundo o estudo?
Quais são as consequências do distúrbio hidrológico causado pelo aquecimento global no cerrado?
Qual é o impacto da seca no padrão de chuva e nos aquíferos da região?
Que dados foram utilizados para reconstituir o clima de até sete séculos atrás?
Quem são os principais autores do estudo e qual é sua afiliação acadêmica?
Por que a Caverna da Onça, onde os dados foram coletados, é considerada diferente das demais estudadas pelo grupo?
O que o estudo sugere sobre a tendência futura de aquecimento e seca no cerrado?
Tente responder a essas perguntas com base no texto, e podemos revisar suas respostas juntos!
Qual é o período de tempo que o estudo indica ser a seca no cerrado brasileiro sem precedentes?
a) Nos últimos 100 anos b) Nos últimos 200 anos c) Nos últimos 500 anos d) Nos últimos 700 anos
De quanto foi o aumento das temperaturas na região central do Brasil em comparação à média global?
a) 0,5°C b) 1°C c) 1,5°C d) 2°C
Qual é a principal consequência do distúrbio hidrológico causado pelo aumento da temperatura no cerrado?
a) Aumento na quantidade de chuvas b) Evaporação da água da chuva antes de se infiltrar no solo c) Diminuição da temperatura próxima ao solo d) Aumento no nível dos rios
Quais dados foram correlacionados com as variações da composição química de estalagmites para reconstituir o clima?
a) Dados de precipitação e balanço hídrico de rios da região b) Dados de temperatura, vazão, precipitação regional e balanço hidrológico c) Dados de temperatura média global e índice pluviométrico d) Dados de temperatura e umidade relativa do ar
Qual é a principal mensagem do estudo quanto à tendência de aquecimento na região?
a) A tendência de aumento de temperatura começou no século XIX. b) Já atingimos o pico de aquecimento. c) A tendência de aumento de temperatura começou nos anos 1970, e ainda não atingimos o pico de aquecimento. d) A seca atual não tem relação com o aquecimento global.
Essas perguntas são voltadas para avaliar a compreensão do texto de forma objetiva. Se precisar de mais alguma coisa, estou aqui!
Qual é o período de tempo que o estudo indica ser a seca no cerrado brasileiro sem precedentes?
a) Nos últimos 100 anos b) Nos últimos 200 anos c) Nos últimos 500 anos d) Nos últimos 700 anos
De quanto foi o aumento das temperaturas na região central do Brasil em comparação à média global?
a) 0,5°C b) 1°C c) 1,5°C d) 2°C
Qual é a principal consequência do distúrbio hidrológico causado pelo aumento da temperatura no cerrado?
a) Aumento na quantidade de chuvas b) Evaporação da água da chuva antes de se infiltrar no solo c) Diminuição da temperatura próxima ao solo d) Aumento no nível dos rios
Quais dados foram correlacionados com as variações da composição química de estalagmites para reconstituir o clima?
a) Dados de precipitação e balanço hídrico de rios da região b) Dados de temperatura, vazão, precipitação regional e balanço hidrológico c) Dados de temperatura média global e índice pluviométrico d) Dados de temperatura e umidade relativa do ar
Qual é a principal mensagem do estudo quanto à tendência de aquecimento na região?
a) A tendência de aumento de temperatura começou no século XIX b) Já atingimos o pico de aquecimento c) A tendência de aumento de temperatura começou nos anos 1970, e ainda não atingimos o pico de aquecimento d) A seca atual não tem relação com o aquecimento global
Entre 1985 e 2018, a área ocupada por vegetação nativa na América do Sul encolheu 16% e a das terras dedicadas à pecuária, agricultura e plantio comercial de árvores cresceu, respectivamente, 23%, 160% e 288%. Durante esses 34 anos, 268 milhões de hectares, um território quase igual ao da Argentina, foram modificados pelo homem. A soma da extensão de terras alteradas nesse período e das que tinham sido modificadas anteriormente pela ação humana atingiu, em 2018, 713 milhões de hectares, cerca de 40% da América do Sul.
Os dados fazem parte de um estudo coordenado pela geógrafa boliviana Viviana Zalles, da Universidade de Maryland, Estados Unidos, com a colaboração de pesquisadores brasileiros, que foi publicado no final de março no periódico Science Advances. “É como se, nos últimos 34 anos, tivéssemos mudado o uso da terra de uma área média equivalente a 21 campos de futebol por minuto”, compara Zalles.
A mudança de uso da terra significa, geralmente, que uma área de floresta foi desmatada com o intuito de abrir espaço físico para o estabelecimento de uma atividade econômica, como agricultura, pecuária ou uma obra de infraestrutura. Mas, além da expansão da agroindústria sobre antigas áreas de vegetação, o estudo identificou que 55 milhões de hectares de paisagem natural foram alterados aparentemente sem nenhuma finalidade visível.
“Essa área modificada é maior do que a Espanha e representa uma perda significativa para o funcionamento do ecossistema sem produzir nenhuma vantagem financeira”, comenta a geógrafa. “É uma situação em que todos perdem, tanto do ponto de vista ambiental como econômico.” No período do estudo, houve um aumento de 60% no tamanho da área modificada pelo homem. No Brasil, cujo território equivale a quase metade da América do Sul, o crescimento da extensão de terras com uso alterado foi o mais elevado do continente, de 64%, e a Amazônia foi o bioma mais impactado. Na Argentina, segundo maior país da região, a dimensão da área de terras com uso modificado subiu apenas 23% no período.
América do Sul perde vegetação natural e ganha pastagens e lavouras nas últimas três décadas e meia.
Trecho desmatado da floresta amazônica perto de Porto Velho, em Rondônia – Bruno Kelly / Reuters / Fotoarena,
Para avaliar as mudanças causadas pelo homem no uso e na ocupação da terra, sobretudo em relação à cobertura natural, o grupo de Zalles utilizou como ponto de partida uma grande base de dados aberta ao público: imagens dos satélites Landsat, programa conjunto da Nasa, a agência espacial norte-americana, e do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Lançada em 1972, a iniciativa tem como objetivo observar a superfície terrestre a partir de satélites com câmeras. O estudo usou dados a partir de 1985, primeiro ano completo em que a América do Sul foi monitorada por um satélite da família Landsat com 30 metros de resolução espacial.
Os pesquisadores selecionaram imagens aleatórias de mil trechos do continente e registraram para que fim as áreas dessa amostra eram destinadas em cada um dos 34 anos cobertos pelo estudo. A partir dos registros e tendências desses trechos, a dinâmica de mudança de uso da terra foi calculada para toda a América do Sul.
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O Brasil teve contribuição importante para o trabalho. Dados produzidos pelo Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso da Terra no Brasil (MapBiomas), iniciativa da organização não governamental (ONG) Observatório do Clima, e pelo Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig), da Universidade Federal de Goiás (UFG), foram utilizados para validar as observações que embasam o estudo. Um dos coautores do artigo, o geólogo Laerte Guimarães Ferreira, da UFG, explica que os dados obtidos por Zalles a partir de mil amostras de imagens do Landsat foram confrontados com mais de 85 mil pontos amostrais fornecidos pelo Lapig. Ao comparar os dois conjuntos de dados, vimos que as estimativas de uso da terra para o Brasil apresentavam dinâmicas de transformação muito semelhantes e corroboram a precisão dos resultados publicados”, diz Ferreira.
O geógrafo Marcos Rosa, coordenador técnico do MapBiomas, que não faz parte da equipe que assinou o artigo científico, também elogia o método empregado no estudo. “Os pesquisadores calcularam a estatística de mudança de uso da terra a partir dessas mil amostras”, explica Rosa. “É um método simplificado que obteve um ótimo resultado para estimar as mudanças e a perda da vegetação em toda a América do Sul.”
Commodities agrícolas A produção de commodities agrícolas tem papel crucial nas mudanças de uso de solo observadas na América do Sul. Rapid expansion of human impact on natural land in South America since 1985De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em 1985, primeiro ano do estudo, a América do Sul produzia um quarto da soja mundial. Em 2018, último ano observado pela equipe de Zalles, o continente produzia mais da metade da leguminosa no mundo.
A região também é a que tem o maior rebanho de bovinos, o que demanda mais pastagens. Alguns pesquisadores afirmam ser possível expandir a agropecuária no Brasil sem promover desmatamento. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no entanto, indicam que isso não tem ocorrido. Entre 2000 e 2018, a área agrícola no país aumentou 45% e a de pastagens com manejo, 27%. No mesmo período, segundo o IBGE, a extensão das florestas diminuiu quase 8% e a de vegetação campestre, 10%.
Para Zalles, o ritmo de diminuição do território ocupado por esses biomas é preocupante, sobretudo porque países como o Brasil não têm dado seguimento a políticas de preservação ambiental eficazes que, até pouco tempo atrás, eram adotadas. “O declínio das taxas de desflorestamento no Brasil entre 2004 e 2012 foi um exemplo para outros países”, diz a pesquisadora. “Contudo, para realmente preservar florestas e outros biomas naturais, esse progresso precisa ser contínuo e perdurar.”