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  • UM MUNDO DE MUROS (QUÊNIA E SOMÁLIA)

    Na fronteira dos desprovidos, quem foge da fome se depara com o terror

    Cerca erguida entre dois dos países mais pobres do mundo para tentar frear o terrorismo barra famílias assombradas por seca, doenças e um Estado falido

    PATRICIA CAMPOS MELLO E LALO DE ALMEIDA

    10.jul.2017 – 02h00

    Noor Addow, 45, suas duas esposas e dez filhos andaram durante 17 dias. Fugindo da seca, da fome, do terrorismo e da epidemia de cólera na Somália, levavam apenas a roupa do corpo. As crianças, algumas descalças, outras com chinelos, tinham os pés cobertos de bolhas e de feridas.

    Toda vez que passavam por um vilarejo, paravam na mesquita e mendigavam comida. Quando a água de suas vasilhas acabava, enganavam a sede chupando raízes que achavam no caminho. À noite, dormiam no mato, com medo dos leões e das hienas.

    No 14º dia, Fatma, 19, a esposa mais nova de Noor, entrou em trabalho de parto.

    Estava muito fraca. No vilarejo onde viviam na Somália, primeiro a represa secou, depois a plantação de milho morreu e, por fim, foram-se as cabras. Havia muitos meses que ninguém comia direito.

    Fatma deu à luz embaixo de uma árvore. Eram gêmeos. Osman morreu no meio da noite, nos braços do pai. Khadija morreu de manhã, no colo da mãe. Não tiveram tempo para chorar.

    “Precisamos continuar andando, senão vamos perder mais filhos”, disse Noor.

    Barwago, uma das esposas de Noor Addow, segura a filha Salado, 2, em Dadaab, no Quênia –o maior campo de refugiados do mundo (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Caminharam mais três dias e chegaram a Dadaab, no Quênia – o maior campo de refugiados do mundo, onde vivem 250 mil pessoas, na maioria somalis.

    Os Addow não sabiam, mas não eram bem-vindos.

    Um ano antes, o governo do Quênia anunciara que fecharia Dadaab. Segundo o presidente, Uhuru Kenyatta, o campo tinha se transformado em um viveiro de terroristas do Al Shabaab – uma facção extremista islâmica ligada à Al Qaeda– e de lá haviam saído os extremistas que mataram 147 pessoas no ataque à universidade de Garissa, em 2 de abril de 2015.

    O governo passou a fazer repatriação voluntária dos refugiados, apesar da seca, do cólera e da milícia terrorista ainda estar em boa parte do território somali. Mais ou menos na mesma época, o Quênia deixou de dar status de refugiados aos somalis que cruzam a fronteira. “Anteriormente, eles recebiam automaticamente o status de refugiados, todo mundo sabia que não havia paz na Somália e que eles não vinham para cá a turismo”, diz Jean Bosco Rushatsi, chefe de operações do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) nos campos de Dadaab.

    “Depois da decisão do governo de fechar os campos, ninguém mais recebeu esse status.”

    Sem isso, os somalis não têm mais perspectiva de, um dia, serem reassentados em um país rico como Canadá, Austrália ou Estados Unidos.

    E o pior: por não serem considerados refugiados, os somalis que chegaram em Dadaab nos últimos dois anos não recebem o pacote de assentamento, que inclui um terreno e materiais para construírem suas barracas.

    Nem ganham o “ration card”, o vale-ração que dá direito a uma porção quinzenal de cereais, farinha, óleo, açúcar, sal e uma quantia para compra de vegetais e frutas.

    Sem a ração quinzenal, a família de Noor tem sobrevivido à base de folhas fervidas desde que chegou, há pouco mais de um mês. Todos os dias a filha mais velha recolhe as folhas no mato e ferve com água numa panela até que virem uma papa verde viscosa.

    “É salgadinho, o gosto não é ruim”, diz Abay, a filha de 20 anos.

    Quando chegou a Dadaab, Noor achou ter tirado a sorte grande. Ele encontrou um terreno com duas tendas cujos ocupantes acabavam de ser repatriados para a Somália.

    Acima, a somali Subam Ali (de azul), 36, segura criança próximo à sua tenda em Dadaab, no Quênia; abaixo, vista aérea do maior campo de refugiados do mundo

    Acima, a somali Subam Ali (de azul), 36, segura criança próximo à sua tenda em Dadaab, no Quênia; abaixo, vista aérea do maior campo de refugiados do mundo (Lalo de Almeida/Folhapress)

    A família de dez se dividiu nas manyattas improvisadas, cujas paredes eram feitas com galhos secos de acácia, amarrados uns nos outros com tiras de saco de lixo, cobertas por lona doada por organizações humanitárias e papelão.

    O mobiliário se restringia à esteira no chão. Dentro das tendas, morava um enxame inimaginável de moscas. No canto, ficava uma latrina construída por uma ONG.

    Ao redor do terreno, uma cerca feita com galhos secos de acácia, cheios de espinhos, e uma infinidade de roupas velhas e trapos enroscados. As roupas velhas funcionam como espantalhos para proteger as casas das hienas. Sorrateiros, os animais rondam durante a noite e matam os bodes. Às vezes, matam os bebês.

    Noor ficou feliz com a moradia herdada, mas logo descobriu que não teria direito ao vale-ração. Por um mês, a família viveu de alimentos doados por vizinhos e folhas fervidas. A maioria dos somalis é muçulmana e segue à risca os ensinamentos de Maomé de ajuda aos pobres.

    Vista aérea de cerca que está sendo construída pelo governo queniano na fronteira com a Somália; até agora, pouco mais de 5 km foram finalizados (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Até que ele recebeu um token -um jeito que o Acnur achou de dar ao menos um pouco de comida às famílias mais necessitadas que não tinham o status de refugiados.

    Noor se preparava, animado, para acordar às 4h e esperar na fila quilométrica para os armazéns mantidos pelo Programa Mundial de Alimentação. Sairia de lá com um pouco de feijão e milho.

    Apesar de tudo isso, Dadaab ainda é melhor que a Somália para os Addow.

    “Aqui ao menos tem água”, dizia Habiba, a filha de 13 anos, empurrando um carrinho de mão com algumas vasilhas. Eles também têm acesso a assistência médica. Salado, a filha de dois anos, está com malária e acabara de voltar do hospital. A menina franzina tem braços finos e barriga protuberante, marcas da desnutrição crônica.

    Crianças posam para foto no vilarejo BP1, próximo à cidade queniana de Mandera, que faz fronteira com a Somália e onde está sendo construída cerca (Lalo de Almeida/Folhapress)

    No Quênia, os refugiados não têm autorização para trabalhar, nem para sair dos campos. Vivem de bicos.

    “Minha mulher passou o dia lavando roupa para fora e ganhou um saco de arroz. Não faço nada senão esperar pelo food token”, diz Noor.

    Ele diz que gostaria muito de ir para a “América”, onde há muitos somalis. Informado de que o atual presidente americano, Donald Trump, tem dificultado a entrada de refugiados, franze a testa. “Não sabia disso não.”

    Noor tampouco sabia que o governo queniano está fechando os campos de refugiados. “A gente acabou de chegar. Se nos mandarem voltar para a Somália, não sei o que faremos. Somos pastores e agricultores, não podemos voltar para o mato seco.”

    Desde 2014, o Quênia fez a repatriação voluntária de 75 mil somalis que estavam em Dadaab. Dois dos cinco campos do complexo já fecharam.

    Segundo a ONU, 6,2 milhões de pessoas na Somália precisam de ajuda humanitária atualmente. Isso corresponde a quase a metade da população. Na última grande fome, em 2011, morreram 260 mil pessoas de inanição. Muitas estão em perigo novamente.

    “Eles vão fechar os campos e mandar as pessoas de volta para um país onde não existe nem atendimento médico nem escola, e há uma epidemia de cólera”, diz Liesbeth Aelbrecht, chefe da missão dos Médicos sem Fronteiras no Quênia.

    A vida dos refugiados vai ficar pior ainda.

    O governo queniano está construindo uma cerca de 700 km na fronteira com a Somália para restringir a entrada dos somalis. O objetivo é frear atentados terroristas da milícia islâmica Al Shabaab.

    A funcionária pública queniana Saadia Kullow, 29, festeja a construção da cerca. Ela mora em Mandera, cidade de 150 mil habitantes que fica na tríplice fronteira entre Quênia, Etiópia e Somália.

    A funcionária pública queniana Saadia Kullow (à dir.), 29, ao lado da filha Asia, 6; elas moram em Mandera, na tríplice fronteira entre Quênia, Etiópia e Somália (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Mandera vive sob estado de sítio há meses por causa dos ataques do Al Shabaab. Vigora um toque de recolher das 19h às 06h —quem sai na rua nesse horário é preso.

    Estrangeiros são proibidos de entrar na cidade por causa da falta de segurança.

    Representantes do governo e visitantes só andam acompanhados de carros com seguranças armados com metralhadoras. O último atentado foi no fim de maio. Uma bomba contra o comboio de carros onde estava o governador do condado matou cinco seguranças.

    Saadia, que mora em Mandera desde que nasceu, já testemunhou cinco atentados. No último, jogaram bombas a poucos metros da casa dela. Até hoje, toda vez que passa um caminhão na rua ou há algum barulho mais alto, seu filho de dois anos e meio acorda gritando: “Mamãe, mamãe, bomba!”

    Crianças se refrescam no vilarejo BP1, que fica próximo a Mandera, cidade queniana que faz fronteira com a Etiópia e Somália (Lalo de Almeida/Folhapress)

    “Sempre tem tensão, nunca sabemos quando eles vão atacar. Mas eles vão. Por isso vai ser ótimo esse muro.”

    Hoje, a fronteira é porosa, e os traficantes de armas, contrabandistas de açúcar e extremistas se aproveitam.

    Centenas de pessoas cruzam da Somália para o Quênia todos os dias para trabalhar, ver parentes, buscar pastos mais verdes para os animais. Se dão azar de encontrar um policial no caminho, os somalis sabem que basta pagar propina de uns 50 xelins quenianos (cerca de R$ 1,65) para passar.

    As obras da cerca começaram em 2014, mas, por ora apenas 5,3 km foram construídos.

    Mesmo isso já atrapalha.

    No povoado de BP1 (de Border Point 1, por ser o primeiro ponto desta que é uma das mais voláteis fronteiras do mundo), os pastores de cabras não podem mais atravessar facilmente para a Somália em busca de pastos verdes, cada vez mais raros.

    A maioria das crianças somalis estuda no Quênia, porque não há muitas escolas funcionando na Somália. Antes, bastava cruzar a fronteira. Agora, elas precisam andar 12 quilômetros na ida e 12 na volta para contornar a cerca e chegar à escola.

    “Esta fronteira é artificial, nossa comunidade é uma só: mesma língua, mesmo povo, mesma religião”, diz o chefe da aldeia BP1, Mohammad Salat. No norte do Quênia, a população é etnicamente somali e é muçulmana, ao contrário da maioria dos quenianos, que é cristã. Até 1925, essa área era parte da região somali de Jubaland.

    Segundo Fredrick Shisia, comissário do condado de Mandera, o propósito da cerca não é dividir somalis e quenianos, é evitar a entrada de terroristas. O Al Shabaab costuma atacar cristãos e funcionários do governo, soldados ou policiais quenianos.

    Tropas do Quênia estão na Somália desde 2011 combatendo o Al Shabaab.

    Shisia admite que a cerca dificultará a entrada dos refugiados somalis. “Mas a Somália está bem mais estável, estamos incentivando os somalis a voltarem para casa, pois ninguém reconstruirá o país se eles não voltarem.”

    Abay, 20, filha de Noor Adow, recolhe folhas e cozinha em frente à sua tenda no campo de refugiados de Dadaab, no Quênia (Lalo de Almeida/Folhapress)

    E, de qualquer forma, “esse número enorme de refugiados é um fardo para nossa economia”, diz o comissário. “Se para a Europa é difícil, imagine para a gente?”

    Diferentemente da Europa e dos Estados Unidos, onde os governos também ergueram muros para estancar o fluxo de refugiados, o Quênia não é um país rico.

    A Somália tem a menor renda per capita do mundo: US$ 400, ou cerca de R$ 1.300, por ano.

    No Quênia, a renda é mais de oito vezes a dos somalis. Ainda assim, o país fica em 185º de 230 países. Seus US$ 3.400 anuais por pessoa correspondem a 25% da renda anual per capita brasileira.

    Soldado do exército queniano observa área que faz fronteira com a Somália; cerca separa os dois países (Lalo de Almeida/Folhapress)

    No condado de Mandera, a taxa de analfabetismo é de 75%. Não existe estrada asfaltada. Mais de metade das crianças está desnutrida. Há apenas um médico para cada 114 mil habitantes.

    “Em vez de criticar o fechamento dos campos e a construção da cerca, a comunidade internacional deveria entender que Dadaab se transformou num covil de terroristas”, diz Harun Kamal, vice-comissário do condado de Garissa, onde fica Dadaab. ” Os países ricos deveriam se oferecer para receber 5 ou 10 mil refugiados somalis.

    https://arte.folha.uol.com.br/mundo/2017/um-mundo-de-muros/quenia/pobreza/

    Questões

    Analise os fatores que levam as famílias somalis a se deslocarem para campos de refugiados como Dadaab no Quênia. Qual é a relação entre os fatores ambientais, sociais e políticos nesse contexto?

    Discorra sobre o impacto da construção de cercas e muros nas fronteiras de países em desenvolvimento como o Quênia. Como essas barreiras influenciam a vida dos refugiados e a dinâmica entre segurança e direitos humanos?

    Avalie a situação dos refugiados somalis em Dadaab à luz dos direitos humanos. Como a falta de reconhecimento de seu status como refugiados afeta sua qualidade de vida e suas perspectivas futuras?

    Considerando a crise de refugiados abordada no texto, discuta o papel da comunidade internacional. O que poderia ser feito para ajudar países como o Quênia a lidar com o influxo de refugiados de forma mais humanitária?

    Refletindo sobre a questão dos “muros” mencionada no texto, discuta como a construção de barreiras físicas nas fronteiras reflete as tensões políticas e sociais globais em torno da imigração e do refúgio.

    Explique como as questões ambientais, como a seca e a falta de recursos, podem desencadear crises humanitárias. Como isso se reflete na situação da Somália e de seus refugiados?

    Descreva os desafios enfrentados pelas famílias somalis que chegam aos campos de refugiados. Como essas experiências podem influenciar a percepção global sobre a crise dos refugiados?

    O texto menciona que muitos refugiados somalis esperam um dia ser reassentados em países mais ricos. Discuta as dificuldades e as realidades desse processo de reassentamento em um cenário global de crescentes restrições à imigração.

    Analise o papel das organizações humanitárias em situações como a dos refugiados somalis no Quênia. Quais são os principais desafios que essas organizações enfrentam ao prestar assistência a essas populações?

    Discuta as implicações sociais e econômicas da presença de campos de refugiados como Dadaab em países como o Quênia. Como essa situação afeta a relação entre os refugiados e a população local?

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    Prof Luciano Mannarino

  • UM MUNDO DE MUROS (BRASIL)

    À beira da estrada, a pobreza se esconde e o crime prospera

    Milhões passam diante da Vila Esperança, seus desempregados e seu esgoto aberto, mas, graças à gestora da rodovia dos Imigrantes, não a veem.

    24.jul.2017 – 02h00

    Duas vezes por semana, a dentista Mariana Salgado, 39, passa de carro ao lado do muro de concreto que foi construído na altura do quilômetro 58,5 da rodovia dos Imigrantes, em Cubatão (SP). Quando ela está se aproximando, fica nervosa, acha que alguém vai aparecer de repente, com uma arma na mão. “Não faço a menor ideia do que tem atrás desse muro”, diz a dentista, que mora em Santos e atende em São Paulo às terças e quintas-feiras. “Só sei que duas amigas minhas foram assaltadas aí.”

    Assim como Mariana, centenas de milhares de paulistas de classe média descem para o litoral pela Imigrantes, onde o pedágio é de R$ 25,60, e não sabem o que existe atrás daquele muro de 3 metros de altura, 25 centímetros de espessura e 1 quilômetro de extensão, construído pela Ecovias em maio de 2016.

    O muro separa os turistas dos cerca de 25 mil habitantes de Vila Esperança, favela onde 12% da população não tem nenhuma renda, 14% ganham até um salário mínimo, e todos despejam seu esgoto no rio que deságua nas praias frequentadas pelos paulistas de classe média.

    Só nesse trecho de um quilômetro, houve sete assaltos em 2015, um assalto e um latrocínio em 2016 e um assalto e uma tentativa em 2017, diz a polícia rodoviária. Segundo a Ecovias, o objetivo do muro é “melhorar as condições de segurança pública da rodovia”.

    Crianças brincam em Kombi abandonada debaixo de viaduto da rodovia dos Imigrantes na comunidade de Vila Esperança, em Cubatão (Lalo de Almeida/Folhapress)

    O trecho também recebeu reforço na iluminação, e foram instaladas novas câmeras para utilização pela polícia. A favela é controlada pelo tráfico de drogas. O murou pegou os moradores de Vila Esperança de surpresa. De um dia para o outro, começou a construção. Ninguém avisou.

    “Esse muro aí, é para proteger os turistas, né? Mas e a gente? Era por lá que a gente passava para vender na pista”, diz a potiguar Luzia Gonçalves da Silva, 54. Para ela, a barreira só atrapalhou. Luzia vendia água, refrigerante, biscoito de polvilho e salgadinho sabor bacon na pista. Da janela de casa, via a estrada -se estivesse congestionada, ela comemorava.

    Enchia o isopor de mercadorias e ajeitava no carrinho de mão. Chegou a virar noite vendendo na pista, em engarrafamento de Ano Novo. Luzia foi obrigada a desistir do trabalho de ambulante. Por causa do muro, o caminho até a estrada ficou mais longo, e ela não aguenta puxar o carrinho pesado na lama. De qualquer jeito, nem adianta chegar lá, porque o guarda manda voltar.

    Abriu então o Bar da Sofrência embaixo do viaduto no bairro e vende a dose de pinga a R$ 2 e a de conhaque a R$ 2,50. “Mas o movimento está fraco. Quem vai comprar se ninguém tem emprego e os bêbados só pedem fiado?”

    Luzia migrou do Rio Grande do Norte para Cubatão aos 13 anos, no auge do “milagre econômico” da ditadura militar. Naquela época, várias indústrias se instalavam na cidade. Ela foi trabalhar na feira em Vila Parisi, bairro de baixa renda que ficou conhecido como o coração do Vale da Morte depois que 37 crianças nasceram sem cérebro, por causa da alta concentração de poluição.

    Sebastião Ribeiro, chamado de Zumbi, batizou de “muro da vergonha” a barreira de concreto construída pela Ecovias. “Quando não sabem o que fazer, constroem um muro e acham que resolveram o problema”, diz.

    “São mais de 20 mil moradores pagando pelo que uns poucos fizeram.”

    Vila Esperança nasceu em 1972, com o início da construção da rodovia dos Imigrantes. Parte dos operários que trabalhavam nas obras da estrada construiu seus barracos ou palafitas no mangue, que é área de proteção ambiental.

    Zumbi veio do Maranhão em 1980 e se instalou em um barraco com a mãe e seis irmãos. Nos anos 90, com a crise econômica, a população da favela explodiu porque muita gente no polo industrial perdeu o emprego e acabou na invasão.

    O maranhense, que hoje tem 47 anos, cresceu vendendo água mineral e cocada na Imigrantes com a mãe. Formou-se em Direito aos 44 e hoje é o principal líder comunitário de Vila Esperança, além de ser secretário de assistência Social de Cubatão. Fundou uma ONG que troca material de reciclagem por uma moeda chamada “mangue”, que pode ser usada na lojinha da organização e em estabelecimentos locais.

    Segundo Zumbi, a comunidade também tem seu muro do orgulho, que foi construído pela ALL Logística (atualmente Rumo) para separar a ferrovia da favela e, assim, evitar acidentes.

    Quando duplicou a estrada de ferro, a Rumo se comprometeu com algumas medidas compensatórias para conseguir a licença ambiental. Asfaltou a via principal, construiu passarelas, reformou a ONG e equipou uma sala de informática com 18 computadores. Além disso, o muro de 3,5 quilômetros vai sendo aos poucos grafitado por moradores de Vila Esperança, que aprendem com o grafiteiro Tuim, de uma favela próxima.

    “Qualquer obra cria transtorno para a população, por isso fizemos uma aproximação com a comunidade e identificamos projetos existentes para mitigar impactos da duplicação da ferrovia”, diz Silvia Mari Azuma, coordenadora de licenciamento ambiental da Rumo.

    A Ecovias diz que sua responsabilidade se limita à ampliação, conservação, manutenção e operação das rodovias. “Assuntos relacionados à comunidade são de responsabilidade do poder público”, afirma a empresa. De fato, segundo a Artesp, agência regulatória de transporte do Estado, a construção do muro não exigia licença ambiental, portanto não houve medidas de compensação.

    Isso não amansa os críticos. “Em pleno século 21, construíram um muro de apartheid para isolar os pobres”, diz o prefeito de Cubatão, Ademário Oliveira. “Deviam ter investido o dinheiro em moradia, água e saneamento na comunidade.” A Ecovias gastou R$ 14,4 milhões com o muro e as outras medidas de segurança.

    Moradores da Vila Esperança, em Cubatão, fazem grafite em muro que separa a comunidade de linhas do trem (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Para a vasta maioria da população que não tem nenhuma esperança de sair da Vila, o muro não faz diferença. “Não tenho nem o que falar sobre esse muro aí, para mim tanto faz como tanto fez”, diz Carlos Alexandre Vieira de Lima, o Xambito, 23.

    Às 15h de uma segunda-feira, o campinho de futebol sob o viaduto de Vila Esperança está lotado de jovens descalços disputando o clássico Dois Poste contra Santa Cruz. Ninguém tem emprego. Xambito é um deles. “Antes tinha bico de pedreiro, R$ 60 reais o dia mais o rango, e na feira era R$ 50 no sábado, R$ 50 no domingo e trazia uns legumes. Agora não tem nada.”

    A mãe de Xambito é viciada em crack. Ficou três anos presa depois de tentar assassinar o marido alcoólatra colocando chumbinho (veneno de rato) no café dele. A irmã de Xambito também é viciada em crack e se prostitui. O pai dele matou um homem, está preso e não vê Xambito há mais de 15 anos.

    “Minha mãe nunca trabalhou; pedra, cachaça e pó acabaram com a vida dela. Quando eu falo com ela não sai mais nenhuma lágrima, entreguei na mão de Deus”, diz ele. “Se a senhora visse, a pele da minha mãe está meio branca, meio preta, aconteceu alguma coisa, está feia demais a minha mãe, a pedra acaba com a pessoa.”

    Gato ao lado de palafita construída sobre mangue na comunidade de Vila Esperança, em Cubatão (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Xambito precisa pagar pensão para seu filho de três anos, mas não quer voltar para a “vida errada”, como diz. “Eu tinha uns 16 anos quando entrei na vida louca. Quando a gente arrumava um trabalho, saía, aí quando nós estávamos na “precisão” de um dinheiro, entrava de novo na vida errada”, conta.

    “Essa vida errada aí, biqueira [ponto de vendas de drogas], tráfico, só tem dois caminhos: cadeia ou morte; não quero nenhum desses dois, quero ver meu filho crescer, botar ele pra jogar bola, pra estudar”, diz Xambito, que anda pela favela com uma caixinha de som tocando o sertanejo Felipe Araújo. Ele está correndo atrás de um “serviço fichado” (registrado). Já foi várias vezes aos pátios das fábricas em Cubatão, mas diz que aparecem dez vagas para 500 pessoas. “Só com ajuda de Deus para ser chamado, é muita gente desempregada.”

    Na Vila, apenas 24% dos moradores concluíram o ensino médio. Xambito parou no quinto ano e já tentou voltar a estudar várias vezes. “É preciso ter força, né, porque chega dois meses, três meses, fica cansativo; começo a fumar maconha, fico boladão e volto para casa.”

    Fumar, jogar bola e tomar emprestado o wi-fi do barraco vizinho para entrar no WhatsApp e no Facebook –é esse o dia a dia de Xambito e da maioria de seus amigos em Vila Esperança. “Queria mudar minha vida, está difícil pra caramba.” Ele já tentou a religião. “Já fiquei dois, três meses indo à igreja, louvava tremendamente, mas somos falhos, né, parei de ir e entrei de novo nas paradas.”

    Na comunidade de Vila Esperança, operários que trabalhavam nas obras da rodovia dos Imigrantes construíram barracos ou palafitas sobre o mangue (Lalo de Almeida/Folhapress)

    No lado pobre do muro, oportunidade é coisa rara. “A gente acorda e fica pensando, caramba, e agora, como eu vou arrumar dinheiro, eu vou roubar? O que eu vou fazer? Eu penso nisso, em roubar, não posso falar que não penso. Mas sei que, se fizer isso, posso voltar ou não voltar pra casa.”

    Xambito diz que não quer sucumbir à vida errada. Mas a tentação é grande. “Na vida errada, a gente sai com um dinheirinho legal, mano.” No dia 27 de maio de 2016, o estudante Reinaldo Lima de Souza, 17, morreu na altura do quilômetro 59 da Imigrantes. Durante uma tentativa de roubo, Reinaldo foi atingido por uma pedra no rosto que atravessou o para-brisa do carro onde ele estava.

    O muro de concreto de três metros de altura construído pela Ecovias já estava lá, isolando Vila Esperança.

    http://arte.folha.uol.com.br/mundo/2017/um-mundo-de-muros/brasil/excluidos/

     

     

    Questões

     

    1. Quais foram as principais características do muro construído pela Ecovias na Rodovia dos Imigrantes e qual foi o objetivo oficial declarado pela empresa para a sua construção?

    2. De que maneira a construção do muro afetou a economia informal dos moradores de Vila Esperança?

    3. O muro realmente contribuiu para a redução da criminalidade na região? Justifique sua resposta com base nas informações do texto.

    4. Como a construção do muro pode ser interpretada como uma forma de segregação social? Cite exemplos do texto.

    5. Segundo o texto, qual é a posição da Ecovias em relação às responsabilidades sociais e ambientais? Como isso reflete nas ações da empresa?

    6. Quais são os problemas ambientais enfrentados pela comunidade de Vila Esperança, conforme mencionado no texto?

    7. Como a falta de consulta à comunidade local durante a construção do muro impactou os moradores de Vila Esperança?

    8. De que forma os moradores de Vila Esperança utilizam o grafite como forma de resistência e expressão cultural?

    9. Considerando os impactos descritos no texto, quais medidas poderiam ser adotadas para promover um desenvolvimento mais sustentável e inclusivo na região?

    10. Compare a situação de Vila Esperança com outro caso de construção de barreiras urbanas no Brasil ou no mundo. Quais semelhanças e diferenças você identifica?

     

    Prof. Luciano Mannarino

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