Carta à República Democrática do Congo não menciona especificamente rei acusado pela morte de 10 milhões de africanos
BRUXELAS
A família real da Bélgica expressou pela primeira vez arrependimento pela violência cometida contra a população da atual República Democrática do Congo durante a exploração colonial do país africano, que nesta terça (30) comemora 60 anos de independência.
Em carta enviada ao presidente congolês Félix Antoine Tshisekedi Tshilombo, o rei Phillipe mencionou “atos de violência e crueldade, que ainda pesam em nossa memória coletiva”.
Estátua do rei Leopoldo 2º, responsável pela morte de 10 milhões de pessoas na República Democrática do Congo, é pichada com tinta vermelha na cidade de Ghent, na Bélgica – Philippe Francois – 18.jun.20/AFPa
“O período colonial causou sofrimento e humilhação. Gostaria de expressar meus mais profundos arrependimentos por essas feridas do passado, cuja dor agora é revivida pela discriminação ainda presente demais em nossas sociedades”, acrescenta.
Ele não cita o nome de seu tio-bisavô Leopoldo 2º, tido como responsável pela morte de cerca de 10 milhões de habitantes, mas menciona o Estado Livre do Congo, território que foi propriedade privada do monarca de 1885 a 1908, e o período de 1909 a 1960, em que a região se manteve colônia da Bélgica.
Segundo historiadores, cerca de 10 milhões de africanos morreram durante o reinado de Leopoldo 2º.
Nas últimas semanas, cresceram protestos que existem há anos contra a permanência de estátuas de Leopoldo 2º nas cidades.
Várias delas foram danificadas ou derrubadas durante manifestações após a morte do americano George Floyd nos EUA — em Bruxelas, uma das estátuas mais visadas fica justamente ao lado do palácio em que mora a família real.
Estátua equestre do rei Leopoldo 2º, que fica a lado do palácio da família real, em Bruxelas – Ana Estela de Sousa Pinto/Folhapressgenda
A Secretaria de Patrimônio da região criou uma comissão para estudar a retirada definitiva de homenagens ao rei colonialista.
A última vez que um rei belga havia mencionado Leopoldo 2º foi em 1960, em visita para marcar a independência da República Democrática do Congo. Na ocasião, o rei Baudouin elogiou o espírito empreendedor de Leopoldo 2º, que era chamado de “rei construtor”.
Após as manifestações antirracistas, o departamento de comunicações da família real havia afirmado à mídia belga que o chefe de Estado estava “envolvido em uma reflexão sobre esses assuntos”.
Embora o rei Phillipe fale em arrependimento, analistas belgas ressaltaram que não se trata de um pedido formal de desculpas, algo que caberia ao governo, hoje liderado pela primeira-ministra Sophie Wilmès.
Durante a inauguração de uma placa comemorativa dos 60 anos da independência congolesa, a chefe de governo foi questionada se a Bélgica se arrependia de suas ações durante a época colonial. “Com certeza”, respondeu.
“Em 2020, devemos ser capazes de olhar para esse passado compartilhado [com a República Democrática do Congo] com lucidez e discernimento. [Um período] também marcado por desigualdade e violência contra os congoleses”, disse.
Movimentos antirrascistas se voltam contra estátuas de figuras coloniais e escravocratas
1. Nas últimas semanas, cresceram protestos que existem há anos contra a permanência de estátuas de Leopoldo 2º nas cidades da Bélgica. Qual a relação entre esse movimento e a morte do americano George Floyd nos EUA?
2. Por que houve o surgimento de vários países independentes na África após a 2 Guerra Mundial?
3. Você concorda com a derrubada de estatuas de figuras históricas que contribuíram com a escravidão? Justifique.
4. Por que países europeus se apropriaram de territórios africanos ao longo da segunda metade do século XIX?
Estiagem e herança do apartheid criam pânico com torneiras secas no Dia Zero
Ventania levanta areia do leito seco da represa Theewaterskloof, responsável por grande parte do abastecimento de água da Cidade do Cabo, na África do Sul – Lalo de Almeida/Folhapress
Marcelo Leite/Lalo de Almeida
5.jun.2018 – 02h00
PROVÍNCIA DO CABO OCIDENTAL
No primeiro domingo de maio (6), uma centena de moradores da Cidade do Cabo aguardava em duas filas ordeiras a vez de encher galões de água na cervejaria SAB. Naquela manhã ensolarada, pessoas de todas as cores pareciam pouco convencidas de que o fantasma do Dia Zero tivesse sido exorcizado em definitivo com a chegada da estação de chuvas.
A empresa instalara várias torneiras na fonte tradicional, localizada no bairro abastado de Newlands. Mesmo com água em casa, era como se todos quisessem manter-se em forma para as medidas drásticas que o governo municipal decretaria no Dia Z: corte do fornecimento para domicílios, obrigando os “capetonians” a buscar sua ração diária de 25 litros (contra 50 l hoje) em um dos 200 pontos de coleta espalhados pela área metropolitana.
Essa situação limite, que frequentara os pesadelos da população nos seis meses anteriores, já havia sido afastada pela prefeitura. Após adiar sucessivamente a data das torneiras secas, para maio e depois julho e agosto, o vice-prefeito Ian Neilson declarou no início de abril que o armagedão hídrico não viria antes de 2019.
Naquela altura, os moradores já tinham perdido a confiança na quantidade e na qualidade da água distribuída pelo município. E também no governo, com a prefeita Patricia de Lille lutando nos tribunais contra seu afastamento sob uma tempestade de acusações de corrupção.
Sem contar que o consumo individual continua, ainda hoje, limitado a 50 litros diários por pessoa e que as contas d’água não param de subir.
Patricia Kazaka, gerente de uma empresa de comunicação, enfrenta seus 15 minutos de fila no pátio da cervejaria segurando seus dois filhos pequenos pelas mãos enquanto outro, mais velho, ajuda com os cinco vasilhames de 5 l cada. Ela faz a peregrinação à fonte todos os domingos depois da igreja, desde fevereiro, para garantir água de qualidade para a família.
“Houve alguns incidentes em que pessoas beberam água da torneira de casa e ficaram doentes”, diz a gerente. A prefeitura soltou um comunicado dizendo que a água era segura, mas anunciou também que estava conduzindo alguns testes, conta.
“Isso nos assustou um pouco. Talvez a gente devesse começar a comprar água, mas aí cada garrafa custa um pouco mais de dinheiro, e percebemos que poderíamos conseguir nossa água de graça [na fonte].”
População enfrenta fila para abastecer seus galões vazios na fonte pública de Springsway, na Cidade do Cabo, África do Sul; local atrai muitos muçulmanos – Lalo de Almeida/Folhapress
Sua família mora numa casa com jardim, mas não pode mais regá-lo. A conta mensal, que ficava entre 800 e 1.200 rands (cerca de R$ 240 a R$ 360), dobrou.
“Acho que a campanha do Dia Zero foi necessária, porque, se não fosse por ela, muitos de nós provavelmente não começaríamos a nos dar conta de como é importante economizar água, ensinar às nossas crianças quando dar a descarga.”
Vários metros atrás dela, a antropóloga e professora de ioga Kate Ferguson afirma que pretende continuar a vir até a fonte mesmo que as autoridades anunciem que as represas se encheram de novo. Ela buscava apenas 15 l, mas diz que vem com frequência e tem sempre recipientes no carro para manter altos os estoques de água confiável.
“Queremos tirar a pressão do abastecimento da cidade. Quanto mais pessoas vierem para pegar água de beber e de cozinhar, melhor.” Ferguson considera positiva a campanha do Dia Zero: “De certa maneira, foi muito esperta. Trouxe consciência para as pessoas de como a água é um recurso escasso, especialmente aqui no Cabo Ocidental”.
Por outro lado, ela acha que água é um direito humano básico, e se queixa de não haver muita pressão sobre setores como a indústria da carne, que a consome muito. “A moralidade de como nossos líderes lidam com as coisas fica em questão. Eles instilam medo [nas pessoas] sobre um direito básico do cidadão.”
Morador da Cidade do Cabo caminha em direção à fonte pública no bairro de classe média alta de Newlands para abastecer com água seus galões vazios – Lalo de Almeida/Folhapress
A região da Cidade do Cabo não chega a ser árida, mas tem distribuição muito variada de chuvas num raio de 100 km. Certas partes da área metropolitana recebem menos de 400 mm por ano, comparável às piores situações do semiárido do Nordeste brasileiro, e no verão dependem das reservas mantidas em seis grandes represas.
Os reservatórios recebem água das montanhas a leste, onde a precipitação pode chegar a 2.000 mm/ano. Mas as chuvas orográficas (quando o relevo força a condensação da umidade) ocorrem só no inverno, mais abundantes em julho e agosto.
De outubro a maio grassa a estiagem típica do clima mediterrâneo. Trata-se de uma exceção na África do Sul, o que favoreceu a implantação de vinhedos no Cabo Ocidental, como nas imediações de Stellenbosch e Franschhoek, e também de árvores frutíferas, em particular maçãs e peras –culturas agora sob ameaça.
Houve secas severas no passado, separadas por intervalos de mais ou menos quatro décadas, mas nenhuma que se compare à dos últimos três anos. Pelos cálculos do hidroclimatologista Piotr Wolski, da Universidade da Cidade do Cabo, um tal evento só se repetiria de 300 em 300 anos, ou mais.
O especialista não está seguro de que a estiagem sem precedentes seja fruto de impacto direto da mudança do clima pelo aquecimento global. Ele vê “um desvio forte” das condições climáticas normais, que parece reforçar uma tendência de declínio na precipitação observada nos últimos 40 anos.
Filete de água contrasta com paisagem seca da represa Theewaterskloof, a principal da província do Cabo Ocidental – Lalo de Almeida/Folhapress
Quando se consideram os dados de 100 anos, porém, nenhuma tendência clara pode ser identificada. “Os resultados não são robustos, nesta altura. Talvez num par de meses nós tenhamos melhores resultados”, prevê Wolski.
Seu palpite é que a mudança climática contribuiu para a seca extrema, mas que força primária à qual se somou ainda seria a variabilidade natural do clima no Cabo Ocidental. “É uma mensagem [vaga] muito difícil de oferecer, porque o mundo todo está olhando para a Cidade do Cabo, cientistas do clima e negacionistas [da mudança] do clima”, lamenta.
No início de 2017, quando a seca já era evidente, pesquisadores se reuniram para fazer uma recomendação ao governo municipal, mas não conseguiram chegar a uma previsão segura para a estação chuvosa. Limitaram-se a aconselhar uma conduta conservadora, de aversão ao risco.
Na incerteza, a prefeitura não fez muita coisa. No final do ano passado o estado periclitante dos reservatórios mostrou que os cientistas estavam certos em recomendar o máximo de prudência. Foi quando se começou a falar em Dia Zero.
Ponte sobre o leito da represa Theewaterskloof, uma das seis responsáveis pelo abastecimento da Cidade do Cabo; município não está totalmente livre de um Dia Zero – Lalo de Almeida/Folhapress
No verão 2016/17, o nível das represas despencava à taxa de 1,5% por semana. A prefeitura estabeleceu o limiar de 13,5% de reservação como gatilho para declarar o Dia Zero, e seus primeiros cálculos indicavam que ele cairia em abril.
Uma cidade que consumia 1,2 bilhão de litros por dia (l/d) viu sua alocação reduzida para 480 milhões de l/d pelo governo nacional. Com a campanha alarmista, um aumento de tarifas e a ameaça das torneiras secas, conseguiu cortar o uso para 505 milhões de l/d, ainda acima da meta de chegar a 450 milhões.
Fixou-se a cota de 50 litros diários por pessoa (menos de um terço do que consumia um paulista em 2016, 166 l/d, após a crise hídrica na região metropolitana de São Paulo). Cartazes recomendavam dar menos descargas nos vasos sanitários, reservando-as para dejetos sólidos, tomar banho com esponja ou até suspendê-lo uma vez por semana, e assim por diante.
Começou também o corre-corre para ampliar a captação de água, com a perfuração de poços artesianos e a construção de quatro usinas de dessalinização, mas estas só ficam prontas agora, em junho. De todo modo, elas agregariam, quando muito, 20 milhões de l/d, contra 150 milhões de l/d dos aquíferos.
Criança brinca com tubo para captar água do mar da usina dessalinizadora de Monwabisi, próxima à Cidade do Cabo, na África do Sul – Lalo de Almeida/Folhapress
Ian Neilson, vice-prefeito encarregado de domar a crise, repele a acusação de que o governo teria falhado em preveni-la. Até aqui, justifica, a Cidade do Cabo vinha se valendo das águas de superfície e isso funcionou bem, mesmo com secas graves no passado –as represas sempre se enchiam de novo.
“Entendíamos de maneira geral que uma mudança [climática] estava ocorrendo e que seria necessária uma adaptação”, afirma. “O que não previmos foi quão rapidamente ela viria.”
Todas as projeções, alega Neilson, indicavam que a ampliação das fontes de captação seria necessária só na década de 2020. Agora, após três anos de estiagem, dois dos quais os piores já registrados, ele se convenceu de que a cidade está diante de uma nova realidade.
“Esta é a mensagem que as cidades mundo afora precisam entender: quando a mudança acontece, ela pode vir de modo muito rápido e severo. Há que se preparar previamente, e não presumir um ritmo lento de adaptação.”
Trabalhadores colhem maçãs na fazenda Breëvlei, no vale Elgin, região próxima à Cidade do Cabo, na África do Sul; agora, a cultura está sob ameaça devido à falta de água – Lalo de Almeida/Folhapress
O vice-prefeito se queixa de que o Departamento Nacional de Água e Saneamento demorou a reduzir a cota de água para irrigação. A crítica tem um fundo político: a prefeitura está nas mãos do partido Aliança Democrática, de oposição ao Congresso Nacional Africano, que ocupa o governo nacional desde 1994, com o fim do apartheid.
A disputa teria atrasado verbas para ampliar a capacidade das represas Voëlvlei e Berg River, acusa Neilson (o departamento não respondeu ao pedido de entrevista). Por outro lado, o governo nacional impôs ao setor agrícola um corte na alocação de água para irrigação de 60%, ainda mais drástico que o determinado para consumo urbano.
“Temo que o impacto na agricultura tenha sido enorme, e nós reconhecemos isso. Ouvi que a indústria vinícola teve algo entre 20% e 40% de redução no volume, e isso significou perdas de empregos, como no caso de apanhadores de frutas”, ressalva.
Danie Loubser, da fazenda Breëvlei no vale de Elgin, tem 50 hectares plantados com macieiras. Na primeira semana de maio ele finalizava a colheita da variedade Pink Lady, uma das melhores para exportação, que sofreu uma quebra de 15% a 20% com a seca.
A propriedade de Loubser fica no vale banhado pelo rio Palmiet, bem aquinhoado com chuvas. O Palmiet alimenta a represa privada Eikenhof, que contribuiu para adiar em quase três semanas o Dia Zero. As comportas foram abertas para deixar passar 10 bilhões de litros além dos 9 a 23 bilhões de litros que ela carreia para o sistema público de abastecimento a cada ano.
“Fechamos um bom acordo”, avalia Stuart Maxwell, presidente da Associação de Usuários de Água de Groenland (GWUA, em inglês), que construiu Einkenhof. Em contrapartida, o corte para os associados baixou de 60% para 10%.
Passarela sobre reservatório Eikenhof, controlado por associação de fazendeiros e usado para irrigar suas plantações; em 2018, parte da água da represa foi enviada para abastecer a Cidade do Cabo – Lalo de Almeida/Folhapress
Em um vale mais adiante, na região de Worcester, não há uma grande represa como Eikenhof. Vinhedos e frutíferas são arrancados para o plantio de trigo e pastagens destinadas a ovelhas.
A estiagem e a crise agrícola deixam suas marcas também na vila vizinha de Villiersdorp. Na “township” (favela habitada por maioria de negros) Station 11, os barracos se multiplicam pela encosta para abrigar desempregados de várias partes.
Esgotos correm por valas abertas. O riacho que desce da montanha está cheio de lixo. A maioria dos moradores tem de buscar água em torneiras comunitárias, que podem estar a várias ladeiras de distância.
No caminho de volta para a Cidade do Cabo, a rua principal de Franschhoek exibe uma fileira de cartazes em inglês, afrikans e xhosa, um deles recomendando o “domingo sem banho”. A equipe da Folha estaciona para tirar fotografias das mensagens ao lado de operários negros que instalam um portão, sob a vigilância de um homem ruivo.
“Aproveite a África do Sul antes que ela acabe”, diz o proprietário à reportagem. Ele não se refere à seca, mas à tomada do poder pela maioria negra com o fim do apartheid, à qual atribui saques e incêndios de fazendas, estupros e assassinatos cruéis.
A maior parte dos produtos agrícolas são embarcados para o exterior, e não consumidos domesticamente, aponta Richard Pfaff, gerente do programa de água da organização ambientalista EMG (Environment Monitoring Group). Os empregos criados são precários, e a irrigação consome água demais diante do escasso benefício social.
“Existe hoje um debate político sobre como a água deveria ser alocada de maneira justa, dado que a maioria da população, que é de pessoas negras, está percebendo que há uma distribuição desigual de água quando se trata de negros e brancos.”
Acima, mulher lava a roupa em torneira comunitária na Station 11, em Villiersdorp; no meio e abaixo, a “township” (favela) vista de cima – Lalo de Almeida/Folhapress
Pfaff enxerga pontos negativos e positivos na campanha do Dia Zero. O aspecto ruim, diz, foi a manipulação de informação, como o adiamento sucessivo da data em que as torneiras secariam, sem maiores explicações.
Por outro lado, na sua opinião, a mensagem drástica teve o poder de elevar a consciência da população sobre a mudança do clima, oferecendo-lhes uma imagem muito concreta do que ela pode acarretar.
“O segundo aspecto [positivo] da campanha foi que, numa cidade dividida como a do Cabo, ela representou uma oportunidade para as pessoas se encontrarem e conversarem, para tentar resolver esse problema para além das divisões de raça, de classe e de gênero.”
Não muito longe das torneiras da cervejaria SAB, no mesmo bairro Newlands, outra fonte atrai um grupo menor à Springsway, uma rua sem saída. Há um bom número de mulheres com os cabelos cobertos e homens com barbas e barretes.
Carregadores se oferecem para arrastar galões de até 50 litros em carrinhos, por uns poucos rands. Alguns guardam lugar na fila para possíveis clientes e burlam a regra de 25 litros por pessoa.
Um muçulmano se irrita e chama a policial que aguarda em um carro de patrulha no início da viela. Pistola no cinto, a agente obriga um rapaz negro a se afastar com os vários galões vazios de uma senhora branca, que volta ao fim da fila.
Já se preparando para ir embora, Judy Molokon, mulher negra que vem à fonte quinzenalmente, reclama de sua conta d’água, que subiu para 1.400 rands mensais (cerca de R$ 400) numa casa de quatro pessoas.
“Tento tanto quanto possível evitar usar água da torneira [em casa]. Não podemos arcar com essas tarifas altas”, protesta. “E nem foi culpa nossa. Estamos rezando para a chuva voltar.”
Árvores mortas no antigo leito da represa Theewaterskloof, um dos seis grandes reservatórios para abastecimento de água da Cidade do Cabo – Lalo de Almeida/Folhapress
Cantareira está com nível de água mais baixo do que em maio pré-crise de 2014
O sistema Cantareira se prepara para entrar no período mais seco do ano em situação pior do que se encontrava antes da crise da água de 2014. A recomendação é para que a população evite desperdício.
No último dia 31, restavam 453 bilhões de litros de água. Em maio de 2013, antes do início da crise, havia 581 bilhões de litros para enfrentar o inverno e parte da primavera até a chegada das chuvas.
Como comparação, no mesmo dia em 2017, o sistema tinha 664 bilhões de litros.
Em maio, a chuva acumulada foi de 13,7 mm, um sexto do que costuma chover neste mês segundo média histórica.
O Cantareira tem recebido 13,7 metros cúbicos de água por segundo, enquanto a Sabesp distribui 24,4 metros cúbicos por segundo para a população. Ao invés de encher, é como se perdesse quase 11 metros cúbicos por segundo, água suficiente para abastecer a zona leste da capital.
Os demais reservatórios também estão com menos água do que estavam em maio de 2013.
A Sabesp afirma que possui um sistema mais robusto, com mais interligações e maior capacidade de tratamento de água do que antes da crise hídrica. Cita a interligação Jaguari-Atibainha, que permite transferir água entre duas bacias distintas, e diz que, no sentido do Cantareira, pode enviar até 162 bilhões de litros de água por ano, volume equivalente a uma represa Guarapiranga cheia.
Ouvir o texto Fernando Canzian Lalo de Almeida (fotos) CIDADE DO CABO 19:19 Em fevereiro de 1966, o regime do apartheid na África do Sul decidiu tornar exclusiva aos brancos uma área central e densamente povoada na Cidade do Cabo ao pé da Table Mountain.
Nos 15 anos seguintes, mais de 60 mil negros e uma minoria “coloured” (mestiça) foram expulsos do chamado District Six, onde havia ampla infraestrutura e transporte, para campos vazios e arenosos a mais de 30 km do centro.
Chamadas de “flats” (planos), essas áreas da Cidade do Cabo abrigam hoje algumas das maiores e mais precárias favelas da África do Sul, país que é considerado o mais desigual do mundo.
Mesmo após o fim do regime do apartheid, que vigorou entre 1948 e 1994, a disparidade histórica entre pobres e ricos na África do Sul continuou subindo, a ponto de os 10% mais ricos capturarem hoje cerca de 65% da renda nacional.
Acima, estátua de Nelson Mandela na sede da Prefeitura da Cidade do Cabo e placa da década de 1960 que determinava local exclusivo a brancos no país; abaixo, casas de alto luxo na região litorânea
Na Cidade do Cabo, Khayelitsha que na língua bantu xhosa significa “Nosso Novo Lar” é a maior dessas aglomerações humanas, chamadas de “townships”.
As mais comuns são compostas de milhares de barracos feitos de chapas de metal e sustentados por armações de madeira fixadas no chão.
Presentes em quase todas as grandes cidades sul-africanas, como em Joanesburgo e sua famosa Soweto, essas “cidades de lata” acabaram reforçando a segregação geográfica entre negros e brancos que já existia desde antes do apartheid.
Em 1913, ainda sob o domínio do Império Britânico, mais de 90% do território sul-africano foi reservado exclusivamente à população branca pela chamada Lei de Terras.
Foi uma forma de consolidar o poderio inglês no país, alvo de longa disputa anterior por terras, ouro e diamantes com holandeses os primeiros europeus a colonizar a África do Sul, a partir de 1652.
Passados 25 anos desde o fim do apartheid, período em que o Estado restituiu cerca de 20% da terra própria para agricultura em favor dos negros, as “townships” não param de crescer.
Devido ao inchaço desordenado, nas bordas mais distantes de Khayelitsha milhares de seus 600 mil habitantes não têm banheiros, água encanada ou eletricidade em casa. Nem calçamento da porta para fora, onde as ruas de areia vivem alagadas durante o inverno e salpicadas de lixo.
Moradora de Khayelitsha, a desempregada Nokuthula Bulana, 32, diz que ali é perigoso até caminhar com os filhos à noite para ir a um dos poucos e imundos banheiros públicos disponíveis, ao lado dos quais há torneiras para captação de água e tanques quebrados para lavar roupas.
Vivem em Khayelitsha com Bulana duas crianças e quatro adultos, todos desempregados. Apesar de ter concluído um ensino técnico em serviços financeiros, ela e os demais não encontram trabalho fixo, o que obriga os sete familiares a viver com menos de 4.300 rands (R$ 1.150) ao mês, fruto de bicos e de uma pensão paga a um tio inválido.
“Enviamos emails e currículos para nada. Nem com carteira de motorista meu marido tem trabalho”, diz Bulana.
Nokuthula Bulana, 32, moradora de Khayelitsha; os quatro adultos de sua família estão desempregados
Com 57 milhões de habitantes, a África do Sul tem uma das maiores taxas de desemprego do mundo, de quase 28% e concentrada sobretudo entre os negros, que representam 80% da população. Entre eles, o índice de desocupação é maior, de 31% e chega a 50% entre os mais jovens.
Já entre os brancos, que são menos de 10% da população, o desemprego oscila ao redor de 7,5%, muito abaixo também do nível entre as demais minorias mestiça e asiática.
“A desigualdade na África do Sul é provocada pelo mercado de trabalho, mas é impossível desvinculá-la das raízes históricas”, diz Patrizio Piraino, economista da Universidade da Cidade do Cabo.
“Até o fim do apartheid, a sociedade era dividida de uma forma muito precisa, pois a cor da pele determinava o menu de oportunidades que a pessoa teria na vida”, diz.
Durante o regime do apartheid, não só a imensa maioria negra foi deslocada compulsoriamente para áreas distantes de centros urbanos onde ficavam os melhores empregos como passou a frequentar as piores escolas.
Zukuthin Kleinbaas, 65, um ex-ativista antiapartheid, lembra como em 1976 chegou a ser preso e açoitado por seis vezes nas nádegas depois de atear fogo em uma escola dentro de uma “township” da Cidade do Cabo em protesto contra a qualidade do ensino.
Passados 25 anos do fim do regime, Kleinbaas diz que, do seu ponto de vista, nada mudou. Hoje ele está desempregado e vive do dinheiro da mulher, que trabalha para um casal de alemães.
Nas últimas três décadas, com a ampliação da mecanização na agricultura e na mineração, atividades de peso no país, e da exigência por trabalhadores cada vez mais qualificados nas indústrias, o desemprego entre a população negra tornou-se estrutural.
Como a maior parte da população tem uma renda muito baixa, a desigualdade em relação aos que trabalham, sobretudo os brancos, é gigantesca.
Enquanto metade dos sul-africanos vive com menos de 130 euros (R$ 570) ao mês, os 10% mais ricos têm rendimentos médios de 7.850 euros mensais (R$ 34,5 mil).
Já o 1% mais rico viu sua participação na renda dobrar (para mais de 20%) desde 1980 e ganha hoje, em média, 25 mil euros (R$ 110 mil) mensais.
Crianças em “township” a mais de 30 km do centro da Cidade do Cabo; em zona nobre, adolescentes andam de skate em área repleta de lojas e restaurantes
Com o fim do apartheid, a África do Sul registrou queda na diferença de renda entre negros e brancos. Mesmo assim, segundo os dados disponíveis, a desigualdade subiu devido ao aumento da disparidade dentro da maioria negra.
O Relatório da Desigualdade Global, produzido pela equipe da Escola de Economia de Paris, sustenta que mudanças introduzidas no mercado de trabalho no pós-apartheid contribuíram para isso.
Sobretudo a maior oferta de empregos mais bem remunerados no setor público para uma elite de negros com maior escolaridade.
Desde o fim do apartheid, a África do Sul vem sendo governada por presidentes negros, de Nelson Mandela (1994-1999) ao recém-eleito Cyril Ramaphosa, todos do partido CNA (Congresso Nacional Africano).
Ao longo desses anos, essa elite negra pode prosperar, educar melhor os filhos e abrir uma série de negócios que surgiram na esteira do fim dos boicotes internacionais que vigoraram contra o regime segregacionista até 1993.
Além disso, apesar de algumas medidas compensatórias, a distribuição da terra na África do Sul seguiu concentrada no pós-apartheid, com cerca de 70 mil fazendeiros brancos ocupando a maior parte das áreas férteis.
Fazendas na África do Sul e agricultores negros trabalhando em período de colheita
No boom mundial das commodities dos anos 2000 essa elite agrícola branca multiplicou ganhos, impedindo uma redução maior da desigualdade entre brancos e negros.
A partir de 2009, a África do Sul sofreu nova onda de concentração de renda no governo do presidente Jacob Zuma, que renunciou em 2018 acusado de quase 700 atos de corrupção que favoreceram familiares e amigos em negócios com empresas estatais.
Distante dessa elite rica, entre os negros pobres sul-africanos o local de nascimento e moradia continua sendo determinante para o nível de renda que terão no futuro.
E não ajuda o fato de que desde o fim do apartheid o número de “townships” na África do Sul ter saltado de 300 para quase 2.700.
Residências de luxo (à dir.) na África do Sul próximas a casas construídas com chapas de metal em “township”
Foi por ter saído de uma delas na Cidade do Cabo, em Mitchell’s Plain, que Erefaan Pearce, 42, acredita ter hoje condições de obter uma renda mensal de cerca de 40 mil rands (R$ 10,7 mil).
Especializado em solucionar problemas de informática para uma clientela branca e rica, Pearce deixou Mitchell’s Plain na adolescência graças ao esforço de sua mãe, que ficou apavorada com o lugar depois que o filho foi esfaqueado três vezes em uma tentativa de assalto.
“É pura sorte eu estar onde estou hoje. Se quisesse, seria muito difícil reproduzir a mesma trajetória”, afirma.
A partir de contatos com pessoas ricas de uma época em que atuou como DJ e com seu trabalho atual, Pearce ganha o suficiente para alugar uma casa em um bairro de classe média da Cidade do Cabo por 11 mil rands (R$ 2.900).
Mas ele acha difícil juntar o bastante para comprar um imóvel perto do centro, onde apartamentos de um dormitório custam ao redor de 1,4 milhão de rands (R$ 380 mil).
Em outras áreas da Cidade do Cabo, como nas praias de Hout Bay e Llandudno, ou em Constantia, onde quase inexistem casas sem piscina, os preços dos imóveis são muito mais altos, chegando aos 15 milhões de rands (R$ 4 milhões).
Casas de luxo próximas ao litoral e barcos em marina na Cidade do Cabo, na África do Sul
Ao contrário do que se vê nas “townships”, essas são áreas repletas de serviços e infraestrutura e fortemente vigiadas por câmeras e equipes de segurança privadas. Na África do Sul, existem mais de 9.000 empresas desse ramo, número muito superior às cerca de 2.700 registradas no Brasil.
Os poucos negros que circulam nessas áreas são na maioria empregados domésticos e podem ser vistos bem cedo ou no fim da tarde chegando em vans ou esperando esse tipo de condução, muito popular na Cidade do Cabo, para levá-los de volta às “townships”.
Uma viagem de ida e volta entre Khayelitsha e o centro da Cidade do Cabo nessas vans custa 40 rands (R$ 10) e pode levar quase duas horas em cada trecho.
Em um país onde a metade da população vive com menos de 70 rands (R$ 19) ao dia, o custo de transcorrer distâncias assim dificulta a procura por trabalho e consome boa parte da renda dos empregados no setor de serviços, no qual o rendimento médio é de aproximadamente 140 rands (R$ 38) diários.
Moradora de Khayelitsha, Nonceba Ndlebe, 39, diz ser inviável sair da “township” diariamente para trabalhar, o que acrescentaria mais despesas de transporte aos 167 rands (R$ 45) semanais que ela já gasta com a condução escolar do filho de 11 anos.
Nonceba Ndlebe, 39, que diz ser inviável sair da “township” diariamente para trabalhar
Isso, mais um novo filho pequeno, a fez deixar para trás empregos temporários que conseguia em hotéis no centro da Cidade do Cabo para se dedicar mais a um pequeno negócio de venda de roupas e a ações sociais em Khayelitsha.
Assim como outras mães pobres na África do Sul, Ndlebe é elegível para receber 420 rands (R$ 112) ao mês por filho de um programa social federal voltado a crianças carentes.
Espécie de Bolsa Família sul-africano, o Sassa (chamado assim devido à South African Social Security Agency) chega a 12 milhões de crianças e é pago a elas até que completem 18 anos.
Casas feitas com folhas de metal em Khayelitsha, na Cidade do Cabo; no inverno, ruas ficam alagadas e sujas durante a maior parte do tempo
Segundo Vimal Ranchhod, economista da Universidade da Cidade do Cabo, o governo sul-africano tem obtido algum sucesso na diminuição da extrema pobreza com programas desse tipo e com a ampliação do acesso universal à educação.
Seguindo um dos critérios oficiais para medição da pobreza renda mensal inferior a US$ 55 (R$ 215), a proporção de miseráveis no país caiu de 51% em 2006 para 36% em 2011. Mas voltou a subir nos últimos anos, para cerca de 40%.
Já o combate à desigualdade enfrenta obstáculos bem maiores, sobretudo devido à falta de oportunidades no mercado de trabalho e da distribuição da terra no país.
Para Ranchhod, os adultos que viveram o fim do apartheid ainda demonstram paciência com a lentidão das mudanças na África do Sul.
“Mas as novas gerações são bem mais assertivas. Sem esperança, elas constituem um risco político e social importante”, diz o economista.
“Ou isso vai se manifestar de forma caótica ou a sociedade terá de se questionar de maneira coletiva sobre o que deve ser feito. Infelizmente, nosso histórico nunca foi o de soluções coletivas, mas de força.”
Nesse sentido, grupos políticos sul-africanos como o Economic Freedom Fighters, com 11% das cadeiras na Assembleia Nacional, pressionam o governo para que seja adotada uma política agressiva, e sem compensações, de desapropriação de fazendas e de terrenos de brancos.
Mesmo sem uma resposta assertiva do governo, a ideia provoca muitas reações na comunidade empresarial.
O temor é que haja uma crise semelhante à do vizinho Zimbábue no fim dos anos 1990, quando o país passou a confiscar terras dos brancos em um processo que desencadeou muita violência e o colapso do sistema bancário.
Na fronteira dos desprovidos, quem foge da fome se depara com o terror
Cerca erguida entre dois dos países mais pobres do mundo para tentar frear o terrorismo barra famílias assombradas por seca, doenças e um Estado falido
PATRICIA CAMPOS MELLO E LALO DE ALMEIDA
10.jul.2017 – 02h00
Noor Addow, 45, suas duas esposas e dez filhos andaram durante 17 dias. Fugindo da seca, da fome, do terrorismo e da epidemia de cólera na Somália, levavam apenas a roupa do corpo. As crianças, algumas descalças, outras com chinelos, tinham os pés cobertos de bolhas e de feridas.
Toda vez que passavam por um vilarejo, paravam na mesquita e mendigavam comida. Quando a água de suas vasilhas acabava, enganavam a sede chupando raízes que achavam no caminho. À noite, dormiam no mato, com medo dos leões e das hienas.
No 14º dia, Fatma, 19, a esposa mais nova de Noor, entrou em trabalho de parto.
Estava muito fraca. No vilarejo onde viviam na Somália, primeiro a represa secou, depois a plantação de milho morreu e, por fim, foram-se as cabras. Havia muitos meses que ninguém comia direito.
Fatma deu à luz embaixo de uma árvore. Eram gêmeos. Osman morreu no meio da noite, nos braços do pai. Khadija morreu de manhã, no colo da mãe. Não tiveram tempo para chorar.
“Precisamos continuar andando, senão vamos perder mais filhos”, disse Noor.
Barwago, uma das esposas de Noor Addow, segura a filha Salado, 2, em Dadaab, no Quênia –o maior campo de refugiados do mundo (Lalo de Almeida/Folhapress)
Caminharam mais três dias e chegaram a Dadaab, no Quênia – o maior campo de refugiados do mundo, onde vivem 250 mil pessoas, na maioria somalis.
Os Addow não sabiam, mas não eram bem-vindos.
Um ano antes, o governo do Quênia anunciara que fecharia Dadaab. Segundo o presidente, Uhuru Kenyatta, o campo tinha se transformado em um viveiro de terroristas do Al Shabaab – uma facção extremista islâmica ligada à Al Qaeda– e de lá haviam saído os extremistas que mataram 147 pessoas no ataque à universidade de Garissa, em 2 de abril de 2015.
O governo passou a fazer repatriação voluntária dos refugiados, apesar da seca, do cólera e da milícia terrorista ainda estar em boa parte do território somali. Mais ou menos na mesma época, o Quênia deixou de dar status de refugiados aos somalis que cruzam a fronteira. “Anteriormente, eles recebiam automaticamente o status de refugiados, todo mundo sabia que não havia paz na Somália e que eles não vinham para cá a turismo”, diz Jean Bosco Rushatsi, chefe de operações do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) nos campos de Dadaab.
“Depois da decisão do governo de fechar os campos, ninguém mais recebeu esse status.”
Sem isso, os somalis não têm mais perspectiva de, um dia, serem reassentados em um país rico como Canadá, Austrália ou Estados Unidos.
E o pior: por não serem considerados refugiados, os somalis que chegaram em Dadaab nos últimos dois anos não recebem o pacote de assentamento, que inclui um terreno e materiais para construírem suas barracas.
Nem ganham o “ration card”, o vale-ração que dá direito a uma porção quinzenal de cereais, farinha, óleo, açúcar, sal e uma quantia para compra de vegetais e frutas.
Sem a ração quinzenal, a família de Noor tem sobrevivido à base de folhas fervidas desde que chegou, há pouco mais de um mês. Todos os dias a filha mais velha recolhe as folhas no mato e ferve com água numa panela até que virem uma papa verde viscosa.
“É salgadinho, o gosto não é ruim”, diz Abay, a filha de 20 anos.
Quando chegou a Dadaab, Noor achou ter tirado a sorte grande. Ele encontrou um terreno com duas tendas cujos ocupantes acabavam de ser repatriados para a Somália.
Acima, a somali Subam Ali (de azul), 36, segura criança próximo à sua tenda em Dadaab, no Quênia; abaixo, vista aérea do maior campo de refugiados do mundo (Lalo de Almeida/Folhapress)
A família de dez se dividiu nas manyattas improvisadas, cujas paredes eram feitas com galhos secos de acácia, amarrados uns nos outros com tiras de saco de lixo, cobertas por lona doada por organizações humanitárias e papelão.
O mobiliário se restringia à esteira no chão. Dentro das tendas, morava um enxame inimaginável de moscas. No canto, ficava uma latrina construída por uma ONG.
Ao redor do terreno, uma cerca feita com galhos secos de acácia, cheios de espinhos, e uma infinidade de roupas velhas e trapos enroscados. As roupas velhas funcionam como espantalhos para proteger as casas das hienas. Sorrateiros, os animais rondam durante a noite e matam os bodes. Às vezes, matam os bebês.
Noor ficou feliz com a moradia herdada, mas logo descobriu que não teria direito ao vale-ração. Por um mês, a família viveu de alimentos doados por vizinhos e folhas fervidas. A maioria dos somalis é muçulmana e segue à risca os ensinamentos de Maomé de ajuda aos pobres.
Vista aérea de cerca que está sendo construída pelo governo queniano na fronteira com a Somália; até agora, pouco mais de 5 km foram finalizados (Lalo de Almeida/Folhapress)
Até que ele recebeu um token -um jeito que o Acnur achou de dar ao menos um pouco de comida às famílias mais necessitadas que não tinham o status de refugiados.
Noor se preparava, animado, para acordar às 4h e esperar na fila quilométrica para os armazéns mantidos pelo Programa Mundial de Alimentação. Sairia de lá com um pouco de feijão e milho.
Apesar de tudo isso, Dadaab ainda é melhor que a Somália para os Addow.
“Aqui ao menos tem água”, dizia Habiba, a filha de 13 anos, empurrando um carrinho de mão com algumas vasilhas. Eles também têm acesso a assistência médica. Salado, a filha de dois anos, está com malária e acabara de voltar do hospital. A menina franzina tem braços finos e barriga protuberante, marcas da desnutrição crônica.
Crianças posam para foto no vilarejo BP1, próximo à cidade queniana de Mandera, que faz fronteira com a Somália e onde está sendo construída cerca (Lalo de Almeida/Folhapress)
No Quênia, os refugiados não têm autorização para trabalhar, nem para sair dos campos. Vivem de bicos.
“Minha mulher passou o dia lavando roupa para fora e ganhou um saco de arroz. Não faço nada senão esperar pelo food token”, diz Noor.
Ele diz que gostaria muito de ir para a “América”, onde há muitos somalis. Informado de que o atual presidente americano, Donald Trump, tem dificultado a entrada de refugiados, franze a testa. “Não sabia disso não.”
Noor tampouco sabia que o governo queniano está fechando os campos de refugiados. “A gente acabou de chegar. Se nos mandarem voltar para a Somália, não sei o que faremos. Somos pastores e agricultores, não podemos voltar para o mato seco.”
Desde 2014, o Quênia fez a repatriação voluntária de 75 mil somalis que estavam em Dadaab. Dois dos cinco campos do complexo já fecharam.
Segundo a ONU, 6,2 milhões de pessoas na Somália precisam de ajuda humanitária atualmente. Isso corresponde a quase a metade da população. Na última grande fome, em 2011, morreram 260 mil pessoas de inanição. Muitas estão em perigo novamente.
“Eles vão fechar os campos e mandar as pessoas de volta para um país onde não existe nem atendimento médico nem escola, e há uma epidemia de cólera”, diz Liesbeth Aelbrecht, chefe da missão dos Médicos sem Fronteiras no Quênia.
A vida dos refugiados vai ficar pior ainda.
O governo queniano está construindo uma cerca de 700 km na fronteira com a Somália para restringir a entrada dos somalis. O objetivo é frear atentados terroristas da milícia islâmica Al Shabaab.
A funcionária pública queniana Saadia Kullow, 29, festeja a construção da cerca. Ela mora em Mandera, cidade de 150 mil habitantes que fica na tríplice fronteira entre Quênia, Etiópia e Somália.
A funcionária pública queniana Saadia Kullow (à dir.), 29, ao lado da filha Asia, 6; elas moram em Mandera, na tríplice fronteira entre Quênia, Etiópia e Somália (Lalo de Almeida/Folhapress)
Mandera vive sob estado de sítio há meses por causa dos ataques do Al Shabaab. Vigora um toque de recolher das 19h às 06h —quem sai na rua nesse horário é preso.
Estrangeiros são proibidos de entrar na cidade por causa da falta de segurança.
Representantes do governo e visitantes só andam acompanhados de carros com seguranças armados com metralhadoras. O último atentado foi no fim de maio. Uma bomba contra o comboio de carros onde estava o governador do condado matou cinco seguranças.
Saadia, que mora em Mandera desde que nasceu, já testemunhou cinco atentados. No último, jogaram bombas a poucos metros da casa dela. Até hoje, toda vez que passa um caminhão na rua ou há algum barulho mais alto, seu filho de dois anos e meio acorda gritando: “Mamãe, mamãe, bomba!”
Crianças se refrescam no vilarejo BP1, que fica próximo a Mandera, cidade queniana que faz fronteira com a Etiópia e Somália (Lalo de Almeida/Folhapress)
“Sempre tem tensão, nunca sabemos quando eles vão atacar. Mas eles vão. Por isso vai ser ótimo esse muro.”
Hoje, a fronteira é porosa, e os traficantes de armas, contrabandistas de açúcar e extremistas se aproveitam.
Centenas de pessoas cruzam da Somália para o Quênia todos os dias para trabalhar, ver parentes, buscar pastos mais verdes para os animais. Se dão azar de encontrar um policial no caminho, os somalis sabem que basta pagar propina de uns 50 xelins quenianos (cerca de R$ 1,65) para passar.
As obras da cerca começaram em 2014, mas, por ora apenas 5,3 km foram construídos.
Mesmo isso já atrapalha.
No povoado de BP1 (de Border Point 1, por ser o primeiro ponto desta que é uma das mais voláteis fronteiras do mundo), os pastores de cabras não podem mais atravessar facilmente para a Somália em busca de pastos verdes, cada vez mais raros.
A maioria das crianças somalis estuda no Quênia, porque não há muitas escolas funcionando na Somália. Antes, bastava cruzar a fronteira. Agora, elas precisam andar 12 quilômetros na ida e 12 na volta para contornar a cerca e chegar à escola.
“Esta fronteira é artificial, nossa comunidade é uma só: mesma língua, mesmo povo, mesma religião”, diz o chefe da aldeia BP1, Mohammad Salat. No norte do Quênia, a população é etnicamente somali e é muçulmana, ao contrário da maioria dos quenianos, que é cristã. Até 1925, essa área era parte da região somali de Jubaland.
Segundo Fredrick Shisia, comissário do condado de Mandera, o propósito da cerca não é dividir somalis e quenianos, é evitar a entrada de terroristas. O Al Shabaab costuma atacar cristãos e funcionários do governo, soldados ou policiais quenianos.
Tropas do Quênia estão na Somália desde 2011 combatendo o Al Shabaab.
Shisia admite que a cerca dificultará a entrada dos refugiados somalis. “Mas a Somália está bem mais estável, estamos incentivando os somalis a voltarem para casa, pois ninguém reconstruirá o país se eles não voltarem.”
Abay, 20, filha de Noor Adow, recolhe folhas e cozinha em frente à sua tenda no campo de refugiados de Dadaab, no Quênia (Lalo de Almeida/Folhapress)
E, de qualquer forma, “esse número enorme de refugiados é um fardo para nossa economia”, diz o comissário. “Se para a Europa é difícil, imagine para a gente?”
Diferentemente da Europa e dos Estados Unidos, onde os governos também ergueram muros para estancar o fluxo de refugiados, o Quênia não é um país rico.
A Somália tem a menor renda per capita do mundo: US$ 400, ou cerca de R$ 1.300, por ano.
No Quênia, a renda é mais de oito vezes a dos somalis. Ainda assim, o país fica em 185º de 230 países. Seus US$ 3.400 anuais por pessoa correspondem a 25% da renda anual per capita brasileira.
Soldado do exército queniano observa área que faz fronteira com a Somália; cerca separa os dois países (Lalo de Almeida/Folhapress)
No condado de Mandera, a taxa de analfabetismo é de 75%. Não existe estrada asfaltada. Mais de metade das crianças está desnutrida. Há apenas um médico para cada 114 mil habitantes.
“Em vez de criticar o fechamento dos campos e a construção da cerca, a comunidade internacional deveria entender que Dadaab se transformou num covil de terroristas”, diz Harun Kamal, vice-comissário do condado de Garissa, onde fica Dadaab. ” Os países ricos deveriam se oferecer para receber 5 ou 10 mil refugiados somalis.
Analise os fatores que levam as famílias somalis a se deslocarem para campos de refugiados como Dadaab no Quênia. Qual é a relação entre os fatores ambientais, sociais e políticos nesse contexto?
Discorra sobre o impacto da construção de cercas e muros nas fronteiras de países em desenvolvimento como o Quênia. Como essas barreiras influenciam a vida dos refugiados e a dinâmica entre segurança e direitos humanos?
Avalie a situação dos refugiados somalis em Dadaab à luz dos direitos humanos. Como a falta de reconhecimento de seu status como refugiados afeta sua qualidade de vida e suas perspectivas futuras?
Considerando a crise de refugiados abordada no texto, discuta o papel da comunidade internacional. O que poderia ser feito para ajudar países como o Quênia a lidar com o influxo de refugiados de forma mais humanitária?
Refletindo sobre a questão dos “muros” mencionada no texto, discuta como a construção de barreiras físicas nas fronteiras reflete as tensões políticas e sociais globais em torno da imigração e do refúgio.
Explique como as questões ambientais, como a seca e a falta de recursos, podem desencadear crises humanitárias. Como isso se reflete na situação da Somália e de seus refugiados?
Descreva os desafios enfrentados pelas famílias somalis que chegam aos campos de refugiados. Como essas experiências podem influenciar a percepção global sobre a crise dos refugiados?
O texto menciona que muitos refugiados somalis esperam um dia ser reassentados em países mais ricos. Discuta as dificuldades e as realidades desse processo de reassentamento em um cenário global de crescentes restrições à imigração.
Analise o papel das organizações humanitárias em situações como a dos refugiados somalis no Quênia. Quais são os principais desafios que essas organizações enfrentam ao prestar assistência a essas populações?
Discuta as implicações sociais e econômicas da presença de campos de refugiados como Dadaab em países como o Quênia. Como essa situação afeta a relação entre os refugiados e a população local?