EM13 CHS 206 Analisar a ocupação humana e a produção do espaço em diferentes tempos, aplicando os princípios de localização, distribuição, ordem, extensão, conexão, arranjos, casualidade, entre outros que contribuem para o raciocínio geográfico.
3.mar.2021 às 18h22
Carlos Andrés Brando: Historiador. Doutor em História Econômica, London School of Economics & Political Science. Pesquisador pós-doutorando na U. de los Andes e reitor da Faculdade de Economia da U. Jorge Tadeo Lozano.
Uma ideia popular em economia sustenta que os países pobres tendem a crescer mais rapidamente do que os países ricos. Portanto, as economias do mundo acabam convergindo em seus níveis de renda. A vantagem mais importante que os retardatários têm é copiar os melhores padrões e práticas institucionais, tecnológicas e produtivas dos que estão à frente.
Além disso, segundo a teoria, os pobres recebem grandes quantidades de capital dos ricos, o que significa que, apesar de investirem cada vez mais capital na formação de sua força de trabalho ou em suas indústrias, os retornos que obtêm com esses investimentos são cada vez menores.
COMO É A TEORIA À LUZ DA HISTÓRIA?
Após a Revolução Industrial Inglesa e o crescimento econômico moderno que ela gerou em meados do século 18, uma dúzia de países ocidentais atingiu níveis de renda semelhantes aos ingleses nos cem anos seguintes. Primeiro vieram a Holanda e a Bélgica. Depois França, Suíça, Dinamarca, Alemanha, Nova Zelândia, Austrália, Canadá e Argentina. No início do século passado, o grupo dos ricos foi completado pela Noruega e Suécia.
Os Estados Unidos merecem uma menção especial, pois ultrapassaram a Inglaterra para se tornarem o país mais rico do mundo, o líder tecnológico e o poder político hegemônico global à beira da Primeira Guerra Mundial.
Desde então, tem havido pouca convergência. Durante os chamados “anos dourados” do período pós-guerra, o crescimento econômico acelerado experimentado pela Áustria, Finlândia, Itália e Espanha os trouxe para o clube de elite. A Irlanda e Portugal somaram-se ao grupo recentemente.
E A AMÉRICA LATINA?
A região não tem sido completamente imune ao fenômeno. Entretanto, as experiências históricas de convergência têm sido amargas.
A Argentina era uma das 12 economias mais prósperas do mundo durante o primeiro terço do século 20 e desde então começou um longo declínio gradual (relativo) de seu PIB per capita até os anos 2000. Foi superada pela Venezuela nos anos 1950, cuja economia cresceu rapidamente por mais duas décadas, apenas para sofrer uma grande retração e mais 30 anos de estagnação.
Um frango chega a custar 14.600.000 Bs na Venezuela, pouco mais de R$ 8 Carlos Garcia Rawlins/Reuters
Assim, a Venezuela apresenta uma evolução de sua renda próxima à forma de um sino de distribuição normal. Evidentemente, em nenhum dos casos a convergência foi cimentada.
Um século de convergência (ou divergência) na América Latina, anos 1920 – anos 2010 (Evolução do PIB real p/c, US$ de – Razões de países selecionados em relação aos Estados Unidos) – Reprodução
Fonte: Elaboração própria a partir do Maddison Project Database (2020). G10+ (média do grupo de países ricos mencionados acima, dos quais Argentina e Venezuela fizeram parte temporariamente em diferentes décadas).
Embora os casos do Chile e da Colômbia sejam semelhantes, já que ambos terminam suas trajetórias em níveis de renda muito próximos aos de seus pontos de partida um século atrás, o Chile fica marcadamente atrás do G10+ por 50 anos (1930 a 1970), e só começa a se recuperar na década de 1980. A Colômbia, entretanto, permaneceu praticamente estática desde a década de 1940, com uma reviravolta na última década.
O Brasil é diferente. Mostra uma tendência ascendente apenas desacelerada pela crise da dívida dos anos 1980 e a subsequente “década perdida”. Em 100 anos, a renda dos brasileiros passou de representar pouco mais de 10% da renda dos Estados Unidos para 28%. A este ritmo, a convergência com o líder levará cerca de 300 anos.
O SUCESSO DOS PAÍSES ASIÁTICOS
O fracasso da América Latina em convergir é claro e contundente. Mas nem todos sofreram este destino. As experiências do Japão, Hong Kong, Singapura, Taiwan e Coreia do Sul (os “tigres” asiáticos) representam casos de convergência bem-sucedidos.
Começando com o Japão nos anos 1960, e sucessivamente com diferenças de cerca de uma década entre os anos 1970 e 2000, os quatro casos restantes na ordem acima atingiram os níveis de renda do G10+. Enquanto o fizeram com taxas de crescimento diferentes, Hong Kong e Japão com taxas muito altas e a Coreia a um ritmo mais lento, todos eles alcançaram a terra prometida.
Um século de convergência na Ásia Oriental, anos 1920 – anos 2010 (Crescimento real do PIB p/c, US$ de 2011 – Razões de países selecionados em relação aos Estados Unidos) – Reprodução
Fonte: Elaboração própria a partir do Maddison Project Database (2020). G10+ (média do grupo de países ricos mencionados acima, dos quais Argentina e Venezuela fizeram parte temporariamente em diferentes décadas).
ONDE ESTÁ A DIFERENÇA?
O fator decisivo para entender a razão das diferentes experiências nas duas regiões reside na natureza da integração com a economia internacional.
Por um lado, a América Latina foi integrada através de exportações primárias. Ao longo do século, as matrizes de exportação das cinco economias foram dominadas por commodities: café, trigo, carne, borracha, lã, soja, cobre, nitrato, carvão e petróleo.
Por outro lado, os “tigres” transformaram gradualmente suas matrizes, afastando-se da exportação de bens primários para se concentrarem no desenvolvimento das exportações de bens industriais (e serviços comerciais e financeiros em Singapura e Hong Kong).
Os anos de rápido crescimento e convergência foram anos de dinamismo e consolidação em setores como o automotivo, máquinas de alta precisão, fibras sintéticas, plásticos, semicondutores, software de computador e produtos eletrônicos. Todos esses competindo nos mercados internacionais. Em outras palavras, estas economias deram um grande impulso à sua industrialização, redirecionando-a para a exportação.
A industrialização das exportações estimulou a demanda por atividades domésticas ligadas à produção no exterior, gerou um trabalho formal cada vez mais qualificado, e permitiu que a acumulação de economias fosse recanalizada como investimento em infraestrutura e outros setores ávidos de recursos.
Mas, acima de tudo, este compromisso de exportação exigiu a formação de um sistema tecnológico nacional capaz de inovação contínua, tanto nos produtos quanto nos processos de produção. Assim, empresas e trabalhadores asiáticos se tornaram mais produtivos e agregaram cada vez mais valor aos bens e serviços oferecidos. Como resultado, eles recebiam maiores rendimentos.
Para ser justo, os latino-americanos conseguiram exportar produtos industriais. Mas eles o fizeram em proporções menores, na maioria das vezes regionalmente e episodicamente. Em vez de criar tecnologia em casa, ela foi importada e o círculo virtuoso foi rompido.
As commodities traçaram outro caminho, com problemas estruturais antigos: vulnerabilidade externa, desvalorização da moeda, volatilidade do crescimento e escassez de estímulos e ligações com outras atividades.
O mundo mudou e as notícias não são boas. As condições para saltar adiante são mais difíceis agora do que eram para os “tigres” há quatro ou cinco décadas. Os acordos comerciais bilaterais, as regras do jogo regulatório do comércio internacional e a ubiquidade dos direitos de propriedade intelectual reduziram significativamente o espaço para desenvolver o tipo de políticas industriais que os agora ricos implementaram quando procuraram sair da pobreza.
A América Latina parece condenada a contribuir para as teorias da divergência.
Na parede, o emblema da folha de coca sobre o machado e o facão –eco do símbolo comunista da foice e do martelo– é o cartão de visitas da federação dos sindicatos de cocaleiros de Chimoré, no Chaparei. No piso de cimento, milhares de folhas secam antes do ensaque. Até ali, o processo está dentro da lei, mas o destino final dificilmente será o consumo tradicional. A probabilidade maior é que vire pó.
O cenário sugere descontrole, mas os números revelam o contrário. Há mais de uma década, quando um cocaleiro do Chapare chegou à presidência, a Bolívia adota uma estratégia nunca admitida oficialmente, mas que resultou na mais bem-sucedida experiência mundial de controle da produção de cocaína: a legalização do plantio destinado ao narcotráfico.
A política foi comandada até há pouco por Evo Morales, que renunciou em outubro de 2019. Primeiro como líder dos produtores, ele enfrentou erradicações forçadas financiadas pelos EUA e tentativas frustradas de cultivos alternativos. Já presidente (2006-2019), expulsou a DEA (agência antidrogas norte-americana), delegou o controle dos cultivos aos sindicatos e elevou de 3.200 hectares para 7.700 hectares a área de coca permitida no Chapare, no centro do país.
Assim desmantelou-se a tutela norte-americana, baseada na erradicação agressiva dos plantios da Erythroxylum coca, cultivada nos Andes desde pelo menos 2.000 a.C. Foram mais de duas décadas de programas pouco eficientes de substituição de cultivos e de punições ao narcotráfico, estratégia que predomina nos outros dois países produtores do mundo, Colômbia e Peru.
Do tripé, a Bolívia de Evo manteve a legislação com penas duras, sem legalização de consumo nem da maconha. Mas o discurso oficial passou a ser “coca sim, cocaína não”, com ênfase no uso tradicional presente em vários países sul-americanos, inclusive no Brasil –no noroeste amazônico, a folha é chamada de epadu.
É fato que, além do crescimento populacional, a mastigação tradicional tem ganhado adeptos graças a novidades para melhorar o gosto amargo. A mais popular é a estévia, adoçante natural. Café e chocolate são outras opções.
Mas o consumo tradicional está longe de absorver a produção. Números do próprio governo Evo indicam que mais de 90% da coca do Chapare não passa pelos dois mercados legais da folha, em Cochabamba e na capital, La Paz.
Cocaleiros carregam sacos de folha de coca do lado de fora do mercado de Villa Fatima, na capital La Paz – Lalo de Almeida/Folhapress
Esse desvio é de fácil constatação nas ruas, inclusive no Chapare, onde a coca vendida para a mastigação tradicional costuma ser trazida dos Yungas, região perto de La Paz onde a sagrada planta andina é cultivada há séculos.
A folha de coca é um estimulante de potência média com alto poder nutritivo, fonte de calorias, proteínas, cálcio, ferro, vitamina A e outros nutrientes. Desde antes da invasão europeia faz parte da dieta de povos andinos e amazônicos.
Já a cocaína, extraída da folha, foi isolada pela primeira vez em 1860, na Alemanha. Por décadas, foi usada legalmente na medicina e de forma recreativa, até passar a ser proibida em vários países, na primeira metade do século 20.
A Bolívia é o principal fornecedor de cocaína do Brasil. Estudo de 2012 feito pela Polícia Federal revelou que 54,3% da cocaína que ingressa no país tem origem no Chapare ou nos Yungas. Em segundo lugar, aparece o Peru (38%).
O Brasil é o segundo maior consumidor mundial de cloridrato de cocaína (pó), depois dos Estados Unidos, e provavelmente o maior consumidor de derivados de cocaína (como o crack), segundo relatório do Departamento de Estado dos EUA.
Importante ponto de embarque para a Europa, o Brasil é o único país fronteiriço às três nações produtoras. A reportagem procurou a PF em Brasília sobre a entrada da cocaína boliviana, mas não obteve resposta.
Diferentemente dos Yungas, o plantio intensivo da coca é recente no Chapare. O cultivo explodiu a partir do anos 1980 por causa da demanda e da mão-de-obra disponível após a demissão e a migração em massa de mineiros do Altiplano, a maioria do povo quéchua. Atualmente, as federações representam cerca de 50 mil famílias.
Cocaleira na trilha que dá acesso à sua plantação perto de Chimoré, na região do Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress
A legalização da coca no Chapare começou sob o governo Carlos Mesa, em 2004, após acordo com Morales. Desde então, uma família pode plantar no máximo um “cato”, correspondente a 1.600 m², ou duas quadras de futsal.
O excedente está sujeito à “racionalização”. O controle de quem tem direito a um cato e de quem excedeu o limite é dos sindicatos e das federações. Cabe ao governo combater o cultivo em áreas não autorizadas, como parques nacionais e regiões fora do Chapare e dos Yungas.
Não faltaram críticas ao que se fazia no Chapare, principalmente dos EUA. Opositores, como o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga, previam que a coca financiaria um novo narcoestado, como ocorrera no início da década de 1980.
Mas não foi o que ocorreu. Em 2008, quando Evo expulsou a DEA, a Bolívia tinha 25.400 hectares de coca. Onze anos depois, o país registrava superfície praticamente idêntica, 25.500 hectares.
No mesmo período, a Colômbia, que adota uma linha dura e recebe ajuda média de US$ 400 milhões (mais de R$ 2,1 bilhões) por ano dos EUA, viu a área plantada saltar 90%, alcançando 154 mil hectares. É, de longe, o maior produtor de cocaína, seguida de Peru e Bolívia. Os números são da UNODC (Escritório da ONU contra Drogas e Crime).
Plantações de coca nas montanhas da região dos Yungas – Lalo de Almeida/Folhapress
Outra comparação favorável é o nível de violência. Na Bolívia, a taxa de homicídios é de 6 por 100 mil habitantes, uma das mais baixas da América Latina. Na Colômbia, a taxa chega a 25 por 100 mil habitantes, uma das mais altas da região. Já o Peru ocupa posição intermediária.
“Não há cartéis [na Bolívia], como o de Cali ou de Sinaloa. Existem nexos com algumas organizações internacionais para transportar a droga, mas é uma delinquência boliviana, não tão agressiva como em outros países. E há um controle da polícia, das forças especiais”, diz o ex-diretor geral da Força Especial de Luta contra o Narcotráfico, general Luis Caballero, em La Paz, onde hoje é advogado.
Em relatório do Departamento de Estado americano, a Bolívia e a Venezuela aparecem como os únicos países que “comprovadamente falharam” em cumprir obrigações internacionais de combate ao narcotráfico. Ao justificar a classificação, que gera sanções à Bolívia, o documento menciona o aumento da área legal de 12 mil hectares para 22 mil hectares, em 2017.
A ampliação não tem respaldo técnico. Em 2013, levantamento financiado pela União Europeia concluiu que 14.700 hectares são suficientes para o consumo tradicional.
“Claro que se trata de uma legalização ‘de facto’”, afirma o economista Roberto Laserna, que estuda a coca há mais de duas décadas. “Sabendo o destino dessa coca, foi permitido que ela seja produzida e comercializada. A ideia do governo era reprimir o narcotraficante e liberar o cocaleiro, mas obviamente há uma conexão direta entre ambos.
Carregador leva sacos de folha de coca no mercado Villa Fatima, em La Paz – Lalo de Almeida/Folhapress
Defensor da regularização da coca e da cocaína, o pesquisador do Ceres (Centro de Estudos da Realidade Econômica e Social), de Cochabamba, ressalva que o controle deveria ser incumbência do Estado. No Chapare, afirma, o resultado foi uma “republiqueta” controlada pelos sindicatos, em que camponeses têm pouco poder de decisão enquanto o narcotráfico cresce.
“A solução ao problema da coca e da cocaína passa por alguma forma de legalização e regularização. E isso começa pelo controle da coca mediante permissões a produtores individuais. Isso é impossível de fazer agora pelo poder dos sindicatos, pela ausência do Estado e pela penetração que tem o narcotráfico nessa zona.”
Com a experiência de quase 30 anos combatendo o tráfico em Cochabamba, o coronel da Polícia Nacional Rolando Raya afirma que, a partir do governo Evo Morales, a produção “se autodisciplinou”, enquanto o cato fez com que o dinheiro fosse compartilhado de forma homogênea.
Polícia prepara queima de drogas apreendidas em montanhas no entorno de Cochabamba – Lalo de Almeida/Folhapress
“Eles pensaram: ‘O que vai acontecer se produzirmos mais? Haverá intervenção. Então faremos uma política bem-sucedida. É legal ter o meu cato’. Ninguém cresceu mais do que tinha de crescer. É um narcotráfico disciplinado”, afirmou, em entrevista na sede do seu comando.
Ex-integrante da FELCN, Raya afirma que, por outro lado, há maior penetração e pulverização do tráfico, que passou de grandes chefes para clãs familiares. “As fábricas [de cocaína] estão em toda a Bolívia”, diz o coronel, que vê uma crescente perda de controle territorial. “Se entramos, há morte. Nem o governo Morales conseguia entrar.”
Posto policial depredado e abandonado em Villa Tunari, na região do Chapare, reduto eleitoral do ex-presidente Evo Morales – Lalo de Almeida/Folhapress
Órfão aos 12 anos, Edgar Quispe migrou de Potosí ao Chapare nos anos 1980 para trabalhar nos cultivos de coca. Ele disse que, até o governo Gonzalo Sánchez de Lozada (2002-2003), o governo agia com violência para erradicar a coca. Já os cultivos alternativos, afirma, não funcionavam.
“Não havia mercado. A única forma de sobreviver no trópico de Cochabamba era a coca”, conta Quispe durante encontro de mulheres cocaleiras em Chimoré, em um ginásio de esportes cercado de barro e apinhado de vendedores ambulantes de comida. Apesar do nome do evento, só homens discursaram no dia em que a reportagem lá esteve, antes da pandemia do coronavírus.
Cocaleiros participam de congresso em um ginásio em Chimoré, na região do Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress
No passado, Quispe teve seu plantio erradicado à força. Sem alternativa, em 1992 migrou para a Argentina, onde ficou até 2001. Como resultado da repressão, explica Quispe, os cocaleiros começaram a formar o partido Movimento ao Socialismo, que passou a controlar as prefeituras do Chapare e, na eleição de 2005, levaria Evo ao poder. Com o ex-cocaleiro no poder, a dinâmica mudou. “Se há coca excedente, isso tem de ser anunciado, e a pessoa tem de permitir a entrada em seu sítio.”
Hoje com 49 anos, ele cultiva coca legalmente. Com o dinheiro poupado na Argentina, comprou 25 hectares. A sua principal atividade é a criação de gado –tem 20 cabeças.
Assim como outros cocaleiros, Quispe passou a viver em Chimoré, a 10 km de seu cato, cidade de comércio informal, casas simples e ruas de pavimentação mal conservada.
A renda da coca é razoável. Na federação, o saco da folha (23 kg) é comercializado por 1.200 bolivianos (R$ 730). Cada cato produz, em média, três sacos a cada três meses.
Acima, sacos de folhas e abaixo, as folhas de coca no mercado de Chimoré, na região do Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress
A área dos plantios, antes acessível apenas após longas caminhadas, hoje está conectada por estradas de terra. Na região visitada pela Folha, o cocal ficava a cerca de 5 minutos a pé de uma via. Os cocaleiros trabalham ali durante o dia e à noite voltam à cidade.
Para complementar a renda, os camponeses também trabalham para outros camponeses. Todo o plantio da coca é manual –o machado e o facão são usados para abrir a roça na floresta. Uma diária sai por 120 bolivianos (R$ 73).
Ecoando o discurso de Evo, ninguém admite que a coca do Chapare vai principalmente para o narcotráfico. “Comercializamos nos nossos centros de armazenagem, despachamos à comercialização em nível departamental, em Cochabamba, e depois para o país. A coca é distribuída para o pijcheo [mastigação]”, afirma Leonardo Loza, um dos principais dirigentes do Chapare e filiado ao MAS.
Leonardo Loza, lider cocaleiro, caminha por sua plantação de coca na zona rural de Chimoré – Lalo de Almeida/Folhapress
A reportagem também visitou a região dos Yungas. Embora fique apenas a algumas dezenas de quilômetros de La Paz, a viagem é demorada devido às estradas precárias esculpidas nas serras que fazem a transição dos Andes para a Amazônia.
Assim como no Chapare, não há sinais de riqueza ou de desigualdade. As casas, construídas sobre encostas íngremes, são simples, e os carros, velhos -a maioria circula sem placas, contrabandeados do Chile.
Porém, ao contrário do Chapare, os principais líderes cocaleiros dos Yungas deixaram de apoiar Evo. Sempre latentes, as divergências se escancaram após a lei de 2017, que ampliou a área dos cultivos. A medida, afirmam os líderes, favoreceu o Chapare e legalizou produção que vai ao narcotráfico.
Acima, cocaleira descansa no mercado Villa Fatima, em La Paz; abaixo, Pedro Antonio, filho de Elton Morán, descansa na sombra enquanto o pai trabalha na plantação – Lalo de Almeida/Folhapress
Em meio ao rompimento com Evo, vários dirigentes acabaram presos, incluindo seu principal líder, Franklin Gutiérrez. Na recente crise política, ele apoiou os protestos que provocaram a queda do ex-presidente e depois se aproximou do governo interino. O país é governado pela direitista Jeanine Áñez. Por causa da pandemia, a nova eleição presidencial foi adiada de maio para setembro, depois para outubro.
Entre os cocaleiros yunguenhos, no entanto, o ex-presidente guarda popularidade. É o caso de Elton Morán, 30. Morador do povoado de Huancané, ele aprendeu o ofício do pai e do avô.
“A coca é a atividade que mais nos dá sustento”, diz o agricultor no meio do seu cocal. Ele começou a ajudar o pai com 12 anos e hoje divide a tarefa com a mulher, com quem tem dois filhos.
“Evo Morales entrou quando eu estava no colégio. Meus pais se sentiam muito orgulhosos de que um camponês chegasse ao governo”, diz Morán, que aponta a substituição das paredes das casas do barro para o tijolo como uma das mudanças favoráveis do seu governo. “Muitos consideram que a sua entrada foi muito boa, e outros o rechaçam. Pessoalmente, vejo que foi bom. Daqui a cinco anos, já vamos saber quão bom foi Evo e também os que tanto o julgavam.”
Mural com o rosto do ex-presidente Evo Morales em estrada no Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress
Coca, cocaína e Bolívia
1859 O alemão Albert Niemann isola o alcaloide das folhas de coca, planta usada há séculos por indígenas. A descoberta é batizada de cocaína
1862-1914 A cocaína passa a ser empregada em vários produtos, de anestésicos à primeira versão da Coca-Cola. O principal produtor é o Peru
Décadas de 1910 e 1920 EUA e outros países passam a proibir a substância após descobertas de seu efeito nocivo. No Brasil, o veto é estabelecido via lei em 1921 -a primeira legislação do país sobre drogas.
1961 Sob pressão norte-americana, a ONU aprova a Convenção Única Sobre Entorpecentes, que inclui a erradicação da planta de coca. Em 1973, sob ditadura militar, a Bolívia se compromete a acabar com o uso tradicional em 25 anos
1971 O presidente americano Richard Nixon declara guerra às drogas. Ao longo da década, consumo de cocaína explode, e colombianos assumem o comando do tráfico
1973 Nixon cria a DEA, agência antidrogas, com forte atuação na América do Sul
1980 General García Meza assume o poder na Bolívia em golpe, em ação financiada pelo narcotráfico. Enquanto promove perseguição à esquerda, transforma o país em ditadura narcomilitar. Traficantes do país se aliam ao colombiano Pablo Escobar
1988 Sob o presidente Victor Paz Estenssoro, a Bolívia é o único país a se opor à criminalização do uso tradicional da folha de coca em nova convenção da ONU. País estabelece limite de 12 mil hectares para plantio tradicional, mas endurece punição de pequenos infratores
Década de 1990 Consumo de cocaína se espalha para outros países -incluindo o Brasil. Em 1993, Escobar é morto em Medellín. Na Bolívia, campanhas de erradicação forçada no Chapare enfrentam resistência dos cocaleiros, entre os quais Evo Morales
2000 O presidente americano Bill Clinton aprova US$ 1,3 bilhão em ajuda à Colômbia
2004 Após negociar com Morales, o presidente Carlos Mesa limita a produção a 1.600 m² por família no Chapare
2006 Morales assume a presidência, mas mantém liderança das seis federações cocaleiras do Chapare
2006-12 No México, presidente Felipe Calderón emprega dezenas de milhares de militares contra os cartéis que usam o país para levar cocaína aos EUA. Número de homicídios explode
2013 Bolívia obtém vitória simbólica na ONU ao conseguir licença especial para o uso tradicional da coca
2017 Morales amplia de 12 mil ha para 22 mil ha a área para plantio de coca, favorecendo principalmente Chapare. Líderes dos Yungas, área de cultivo ancestral, criticam mudança
2019 ONU registra a maior produção de cocaína da história, de 1.976 toneladas em 2017. Explosão é puxada pela Colômbia
2019 Morales renuncia à presidência em meio a crise política por sua insistência em se candidatar a um quarto mandato.
Presidente uruguaio assumiu nesta quinta a presidência rotativa do bloco
Ricardo Della Coletta
BRASÍLIA
No dia em que assumiu a presidência rotativa do Mercosul, o presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou, afirmou que o bloco não pode, diante da queda de braço global entre Estados Unidos e China, optar por ficar mais próximo de uma das potências mundiais em detrimento da outra.
“Quero ser muito claro no que diz respeito aos EUA e à China. Não podemos cair na falsa dicotomia de estar mais próximos de um do que de outro”, declarou ele nesta quinta-feira (2), durante a cúpula do Mercosul. “Os países que triunfaram no seu desenvolvimento estiveram próximos dos dois.”
A reunião dos chefes de Estado de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai ocorreu de forma virtual pela primeira vez na história devido à crise do novo coronavírus. Também participaram os presidentes de Chile, Sebastián Piñera, Colômbia, Iván Duque, e Bolívia, Jeanine Añez, além do chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell.
O presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou, durante reunião virtual do Mercosul – Walter Paciello/AFP
Ao destacar a necessidade de um posicionamento equidistante do Mercosul entre China e EUA —que protagonizam as maiores disputas nas áreas de comércio e tecnologia—, a fala de Lacalle Pou foi interpretada por membros do governo Jair Bolsonaro como uma queixa em relação à política de alinhamento automático do Brasil com os Estados Unidos.
Além de defender posições dos americanos, o chanceler Ernesto Araújo é criticado pela ala pragmática do governo por declarações que irritaram os chineses, hoje os maiores parceiros comerciais do país.
Auxiliares do uruguaio, no entanto, negam essa versão e dizem que Lacalle Pou apenas explicitou uma posição consolidada de seu partido na área de política externa.
Negociadores brasileiros ouvidos pela Folha avaliam, sob condição de anonimato, que o presidente do Uruguai buscou enviar uma sinalização para o setor exportador de seu país.
Segundo esses interlocutores, os uruguaios pleiteiam há tempos a assinatura de acordos comerciais com a China e com os Estados Unidos, potenciais destinos das exportações de carne do país sul-americano.
As regras do Mercosul apenas permitem que acordos de livre comércio sejam fechados com a anuência dos quatro integrantes, o que na prática trava as ambições uruguaias.
Tanto o Brasil quanto a Argentina rechaçam permitir um entendimento do Uruguai com os chineses, com medo de que produtos do gigante asiático acabem entrando sem impostos em seus países por meio do país vizinho, numa espécie de triangulação.
Os Estados Unidos, por outro lado, rejeitam uma negociação comercial com o Mercosul e trabalham por entendimentos bilaterais, sendo que a prioridade é o Brasil.
Em sua fala, Lacalle Pou também argumentou que o Mercosul deve aprofundar a relação com os chineses.
“A China manifestou formalmente a vocação de aprofundar as relações com o Mercosul. Creio que existe uma espécie de omissão do nosso bloco em responder adequadamente a essa formalidade”, afirmou.
“Nós, no nosso país, temos a convicção de que esse fortalecimento será para o bem da região. Pensemos na Ásia de 2050 e na China. Pensemos na quantidade e na qualidade de alimento que vão precisar e voltemos rapidamente à nossa região, a grande produtora de alimentos.”
O Mercosul atualmente está dividido entre as posições pró-abertura de Brasil, Uruguai e Paraguai e o protecionismo da Argentina, governada pelo peronista Alberto Fernández.
Nesse sentido, o Brasil defende uma flexibilização de normas do bloco para que acordos comerciais possam ser discutidos sem o consenso dos quatro membros, uma forma de acelerar esses entendimentos. A posição brasileira é partilhada por paraguaios e uruguaios.
Nesta quinta, um dos trechos da declaração de Lacalle Pou foi interpretado por diplomatas brasileiros como uma sinalização de que o Uruguai pretende trabalhar por maior flexibilidade nas regras do Mercosul.
“Os consensos às vezes podem significar lentidão. E por isso o consenso no Mercosul deve ser pragmático, que tenha a capacidade de analisar, de prever e de reagir nos tempos do mundo. Porque se isso [consenso] significar discussões quase acadêmicas, o mundo vai passar por cima de nós”, afirmou.
1. Qual a preocupação que o Brasil e a Argentina tem relação ao estreitamento das relações econômicas entre o Mercosul e os chineses?
2. Na sua concepção, os acordos comerciais entre blocos de países devem se pautar pelo pragmatismo ou pela orientação ideológica dos principais parceiros?
É possível identificar essa dicotomia nos integrantes do Mercosul? Justifique.
3. Estabeleça diferenças e semelhanças entre o Mercosul e a União Européia.
4. Por que os EUA rejeitam um acordo como o Mercosul?
5. O que é ser protecionista em relação ao comércio externo? Quais são os pontos negativos e os pontos positivos dessa política econômica?
O primeiro dos cinco petroleiros enviados do Irã para a Venezuela chegou ao país sul-americano no início da noite deste sábado (23), apesar de uma autoridade americana ter avisado que Washington considerava alguma resposta à chegada das embarcações.
Neste domingo (24), o ditador Nicolás Maduro agradeceu Teerã pelo envio dos navios, que trazem combutíveis para socorrer a falta de gasolina no país.
“Venezuela e Irã querem paz, e temos o direito de fazer negócio entre nós livremente”, disse em transmissão na TV estatal.
O petroleiro iraniano Grace 1, que foi apreendido por britânicos no ano passado em Gibraltar – Jorge Guerrero – 15.ago.19/AFP
O líder do país disse ainda que as duas nações são “povos revolucionários que nunca vão se ajoelhar diante do império norte-americano”.
Fortuna foi o primeiro navio a adentrar as águas venezuelanas às 19h40 deste sábado, no horário local (20h40 no horário de Brasília), após passar por Trinidad e Tobago, segundo o software que monitora o tráfego marítimo, Refinitiv Eikon.
“Os navios da fraternal República Islâmica do Irã estão agora em nossa zona exclusiva econômica”, tuitou Tareck El Aissami, vice-presidente da Economia da Venezuela, recentemente nomeado ministro do Petróleo.
A segunda embarcação, Floresta, chegou às águas do país também neste sábado, enquanto as demais ainda cruzam o oceano Atlântico.
A televisão estatal mostrou imagens de um navio da marinha e de uma aeronave que se preparavam para ir ao encontro do petroleiro Fortuna.
O ministro da Defesa havia prometido escolta militar assim que a flotilha alcançasse a zona exclusiva econômica venezuelana devido ao que autoridades locais classificaram como ameaças dos EUA.
O Irã afirma que os EUA destacaram quatro navios de guerra e um avião de espionagem eletrônica para acompanhar e, possivelmente, interceptar seus petroleiros.
Ainda sem comentários oficiais de uma possível resposta americana, a porta-voz do Departamento de Estado dos EUA disse neste domingo que o envio de socorro é “uma lembrança triste da má gestão desesperançosa de Maduro”.
“Os venezuelanos precisam de eleições presidenciais livres e justas que levem a democracia e recuperação econômica, não tratados caros de Maduro com outro Estado pária.”
Desde abril, Washington tem mantido exercícios navais regulares no Caribe, visando deixar o regime de Maduro sob pressão. O porta-voz do Pentágono afirmou que não tinha conhecimento de operação relacionada às embarcações, enquanto uma autoridade dos EUA disse que o país considerava tomar medidas em resposta a isso.
Mais cedo no sábado, o presidente iraniano, Hasan Rouhani, alertou sobre medidas de retaliação contra os Estados Unidos se Washington causasse problemas para os petroleiros em direção à Venezuela, segundo uma agência de notícias do Irã.
“Se nossos petroleiros do Caribe ou de qualquer lugar do mundo encontrarem problemas causados pelos americanos, eles também vão ter problemas”, disse Rouhani em uma conversa telefônica com o emir do Qatar. “O Irã nunca começará um conflito”, disse Rouhani. “Esperamos que os americanos não cometam um erro.”
O chanceler do país, Javad Zarif, também alertou sobre uma possível retaliação em carta enviada à ONU (Organização das Nações Unidas), na qual afirmava que o Irã iria responder à altura de qualquer “ato de pirataria”.
Zarif lembrou ainda que ambos os países estão sob sanção pelos EUA, mas nada os impede de fazer negócios entre si.
O envio das embarcações é um socorro para a escassez de gasolina na Venezuela. Estima-se que os petroleiros levem cerca de 1,53 milhão de barris de gasolina e alquilato, segundo os dois governos e cálculos do site TankerTrackers.com. Os combustíveis são suficientes para um mês de consumo.
Além de elevar a tensão externa, a ajuda iraniana gerou novas críticas da oposição da Venezuela. O país já foi um grande exportador de petróleo e hoje enfrenta uma grave crise econômica.
“[O governo] está tentando transformar uma vergonha em uma vitória épica”, afirmou Oscar Rondero, legislador da Comissão de Energia da Assembleia Nacional, controlada pela oposição.
Questões
1. O que é a Zona Exclusiva Econômica?
2. Por que o Irã e a Venezuela estão sob sansões dos EUA?
3. Explique a criação da OPEP.
4. Quais as implicações econômicas um país pode ter quando passa a ser considerado um “Estado Pária”?
5. Considerando o principal produto produzido pela Venezuela a notícia apresenta um paradoxo? Justifique.
Meio milhão de pessoas devem deixar a ilha devastada pelo furacão Maria
Dois meses após o furacão Maria, que devastou Porto Rico em setembro, Alfonso Colón ainda retirava escombros de sua casa semidestruída em Punta Santiago – Lalo de Almeida/Folhapress
Marcelo Leita/Lalo de Almeida
15.mai.2018 – 02h00
SAN JUAN
As pás decepadas das turbinas eólicas da empresa Gestamp em Naguabo, leste de Porto Rico, não deixam dúvida sobre a energia dos ventos. Não tanto a da fonte alternativa que promete amenizar o aquecimento global, mas a força destruidora com que uma atmosfera desequilibrada pela mudança climática lançou a fúria do furacão Maria sobre a ilha, em 20 de setembro de 2017.
A cerca de 15 km do parque eólico destroçado em Naguabo, outra fonte de energia limpa sofreu o impacto do acúmulo de gases do efeito estufa na atmosfera. Em Humacao, uma fazenda de painéis fotovoltaicos da empresa Reden Solar teve destruída a monotonia de suas fileiras de placas.
A ilha caribenha foi assolada por ventos de até 250 km/h do ciclone de força 4 ao tocar Porto Rico (sobre o mar, Maria chegou à intensidade 5 e foi um dos furacões mais potentes de 2017). Maria deixou um rastro de US$ 90 bilhões em prejuízos e um Estado norte-americano –se bem que de segunda classe, apenas “associado”– em completo desamparo.
Acima, pás quebradas de turbinas eólicas em parque de Naguabo, Porto Rico, após passagem do furacão Maria; abaixo, usina de energia solar em Humacao, também destruída pela tempestade – Lalo de Almeida/Folhapress
Foi uma temporada inesquecível de furacões. Harvey inundou 100 mil imóveis em Houston, no Texas. Irma foi o mais forte já registrado, com 37 horas na categoria 5. Maria completou a tríade causadora de US$ 265 bilhões de perdas em território norte-americano. Ainda se debate, todavia, se tanta destruição já seria produto da mudança climática global.
Furacões crescem com o calor da água do mar, e sua temperatura está subindo com o aquecimento global. São fenômenos raros, porém, e as estatísticas sobre intensidade e frequências dessas tormentas não dão segurança plena de que a ligeira tendência de alta registrada no século 20 resulte de perturbações na atmosfera.
A temperatura da superfície marinha já subiu 1,5ºC no Atlântico Norte, e algumas projeções indicam que se elevará pelo menos mais 1ºC na região, que engloba o mar do Caribe. Modelos de computador que simulam o clima do futuro projetam que furacões de categoria 4 e 5 poderão tornar-se mais comuns, que a intensidade média dos ciclones caribenhos subiria 4% neste século e que a quantidade de chuva despejada aumentaria de 10% a 15%.
O aeroporto inundou. O próprio governo entrou em colapso, acompanhando a infraestrutura. Pelo menos 90 mil postes caíram. A maioria da população “boricua”, como se chamam os habitantes de Porto Rico, ficou sem energia elétrica, telefonia celular, combustível e internet por semanas.
Quase oito meses depois, em 18 de abril, a seis semanas de iniciar-se nova temporada de furacões, a ilha voltou a sofrer apagão generalizado. E isso poucas horas depois de o governo anunciar que tudo voltara ao normal e que só 3% da população ainda estava sem luz.
O olho do furacão Maria entrou na ilha pelo sudeste, em Yabucoa. Cortou-a de ponta a ponta, saindo por Isabela, no noroeste, num percurso aproximado de 190 km. As rajadas mais intensas varreram a porção leste do território, incluindo a capital San Juan.
Mulher recolhe suas cabras ao lado de casa destruída pelo furacão Maria na comunidade Caonillas, em Utuado, região central de Porto Rico – Lalo de Almeida/Folhapress
“Rugia como um leão, inexplicável”, conta Janet González, líder comunitária em Punta Santiago, perto de onde irrompeu o olho do furacão. O mar adentrou 300 m de terreno, fazendo emergir águas negras de fossas e esgotos. “O telhado se foi, caiu parte do forro. Já experimentei outros furacões, como Hugo em 1989, mas nem chegam aos pés [de Maria].”
Janet aguardava o início da distribuição de água e alimentos por um grupo de voluntários do bairro Camarones, na vizinha Guaynabo. Todos vestiam camisetas cor de laranja com os dizeres “No te quites. Levántate. Unidos somos fuertes” (Não vá embora. Levante-se. Unidos somos fortes), alusão aos compatriotas que abandonaram o país depois do furacão, a maioria para a parte continental dos EUA.
Pessoas atravessam o rio Espírito Santo, em Porto Rico, após a passagem do furacão Maria – Mario Tama – 8.out.17/Getty Images
Sob o sol forte da uma da tarde, a carreata para na casa de madeira semidestruída de Alfonso Lugo Colón. A sala desapareceu. “Caía água salgada do telhado”, diz. “Não se respeita a palavra de Deus. Aconteceu porque tinha de acontecer.”
A casa que dividiu por 48 anos com a mulher, morta há dois, está coberta por uma de milhares de lonas plástica azuis distribuídas em Porto Rico pela Agência Federal de Administração de Emergências dos EUA (Fema, na abreviação em inglês). A sua fora esticada por bombeiros de um país cujo nome Lugo não recorda mais.
Sem luz havia dois meses, portanto sem geladeira, o aposentado sobrevive com as doações. Guarda na cozinha dezenas de fardos de água mineral e latas de alimentos em conserva. “Ajuda do governo, nada. Só das pessoas que trazem comida e remédios.” Lugo já tinha preenchido o formulário da Fema descrevendo suas perdas e aguardava uma decisão da agência sobre uma indenização.
“Há que ter paciência e tolerância”, conforma-se. “Pelo menos tenho a vida.”
Maria não poupou nem mesmo os moradores do centro histórico de San Juan, conhecido como Casco Viejo. A capital fica a cerca de 100 km de Punta Santiago, ao norte da trajetória do olho de Maria, na área em que os ventos foram mais devastadores.
Acima e no meio, moradores de San Juan sofrem com falta de iluminação desde a passagem do Maria; abaixo, homem caminha em Casco Viejo, região da capital iluminada com a ajuda de geradores – Lalo de Almeida/Folhapress
O escritor Héctor Feliciano mora na Calle Sol, a poucos metros do palácio que abrigou o conquistador espanhol Juan Ponce de León (1474-1521). Sua casa do século 18 resistiu bem, à parte alguns trechos de reboco caído, mas tremeu por horas seguidas –só a mangueira do pátio sofreu dano grave, perdendo folhas e frutos.
“Foi como o rugido de um dragão somado ao estrondo de um Concorde”, narra o escritor, referindo-se ao avião supersônico popular na França durante as duas décadas em que lá viveu. Escolheu voltar a Porto Rico para criar as duas filhas.
Ele diz que furacões são como um rito de passagem para crianças do Caribe, até mesmo um dia de festa. A família se mantém unida em torno de um caldeirão enorme de sopa. Maria foi exceção.
As meninas choraram a noite inteira, de medo. O vento arrasou a rede mambembe de cabos elétricos que passava de casa em casa, num bairro quase desprovido de postes. Os dias e semanas seguintes foram de isolamento quase completo –sem telefone, sem internet, sem poder tirar dinheiro do banco, levantando às 4h da manhã para tentar conseguir gasolina.
Os únicos contatos eram com vizinhos, que se organizavam para limpar as ruas de escombros. Aficionados de corridas de cavalos, os raros donos de radinhos de pilha, tornaram-se subitamente populares.
“Porto Rico possuía uma penetração digital de 70% e a arrogância em aço inoxidável dos países digitalizados”, escreveu Feliciano numa crônica. “Em poucas horas, Maria arrasou a arrogância e a falsa abundância que a sustentava.”
De pouco valeu aos boricuas habitar um Estado associado dos EUA. Sem meios de honrar uma dívida pública de US$ 73 bilhões (cerca de R$ 230 bilhões) já antes do desastre, os 3,4 milhões de habitantes da ilha viram o presidente Donald Trump dizer, três semanas depois, que teriam de arcar com o peso maior da recuperação.
Entulho em frente de casas atingidas pelo furacão Maria em Porto Rico; abaixo, caminhões despejam escombros em aterro sanitário de Toa Baja, também na ilha caribenha – Lalo de Almeida/Folhapress
O republicano também os congratulou pelo número baixo de mortos (a cifra oficial era 16, naquela altura), em comparação com as vítimas do furacão Katrina em Nova Orleans (1.833), em 2005. Após a visita de Trump, o número de mortos reconhecido pelo governo de Porto Rico continuou subindo, até alcançar 64 em novembro, mas mesmo essa cifra foi posta em dúvida.
Sob pressão, o governador Ricardo Rosselló designou uma comissão para revisar o número. Embora a contagem oficial supostamente inclua as chamadas vítimas indiretas, aos poucos tornou-se claro que não estavam sendo consideradas as mortes de pessoas por falta de ambulâncias ou de energia para realizar diálise, por exemplo.
Estimativas independentes indicam que haveria pelo menos mil vítimas não contabilizadas. Investigação do jornal “The New York Times” com registros de óbitos de setembro e outubro em 2016 e 2017 apontou excedente de 1.052 mortes após o furacão. Estudo do demógrafo Alexis Santos, da Universidade do Estado da Pensilvânia (EUA), e do colaborador Jeffrey Howard chegou a quantidade semelhante: 1.085.
“Nenhuma estrutura está preparada para um evento dessa magnitude. Jamais imaginei que seria possível”, disse à Folha a advogada Tania Vásquez, secretária de Recursos Naturais e Ambientais de Porto Rico. “Os rios saíram de seus leitos por até três milhas [quase 5 km]… Nem nas previsões para 500 anos.”
“Há que mudar toda nossa maneira de ver as coisas”, afirma a advogada, o que inclui proteger os recifes de coral que amenizam o impacto das ressacas ciclônicas. “Mas, se seguirmos aquecendo o planeta, não sei, não.”
Interior de casa em Toa Baja que ficou alagada com a passagem do furacão Maria em Porto Rico – Lalo de Almeida/Folhapress
José Molinelli, geomorfólogo da Universidade de Porto Rico, diz que a vulnerabilidade da ilha não diz respeito só a furacões, mas também a terremotos e tsunamis. Se os oceanos subirem um metro, algo que pode ocorrer até o final do século em consequência da mudança climática global, a infraestrutura hoteleira da ilha estaria ameaçada, pois foi construída a não mais que 100 m da linha de maré.
“A visão inteligente, resiliente, é respeitar os locais da natureza, sair das áreas inundáveis”, defende. “Há que pensar em como redesenhar o país.”
A geóloga Maritza Barreto, da mesma universidade, investiga a erosão marinha, ameaça mais constante a rondar a Ilha Encantada (frase constante em placas de automóveis). Levantamento seu amostrou 60% dos 580 km de costa e constatou que pelo menos um quinto das praias já sofreu erosão grave, sob ação de ressacas causadas por frentes frias que entram de novembro a março e se tornam cada vez mais frequentes.
No bairro de classe média Ocean Park, orla marítima de San Juan, o mar retoma 1,2 m de terreno por ano. Em Loiza, uma faixa de manguezais, lagunas e dunas habitadas na maioria por descendentes de escravos africanos, o avanço do oceano alcança 1,8 m/ano.
Na comunidade de Piñones moram cerca de 2.000 pessoas. Apenas 15 casas se perderam –segundo Maricruz Rivera Clemente, líder comunitária, porque as dunas e o mangue oferecem proteção contra as ressacas. Ela reclama que a ajuda do governo mal chega ao local, o que atribui ao racismo não declarado em Porto Rico.
O artesão David Morales, veterano da Guerra do Iraque, teve sua oficina na parte de trás da casa destruídas pelo furacão Maria em Loiza, Porto Rico – Lalo de Almeida/Folhapress
Perto dali o artesão negro David Tejada Morales, veterano de três temporadas de combate no Iraque, é o retrato do desamparo: perdeu parte da perna, não na guerra, mas depois de pisar num prego, e aos 69 anos mora sozinho na metade da casa que não foi derrubada por Maria. Caiu a oficina na parte de trás, onde fazia artesanato com metal. Agora passa os dias na cadeira de rodas, à espera.
Uma funcionária da Fema tinha visitado a casa dois dias antes para tirar fotos do estrago. Morales animou-se quando viu da varandinha mais indivíduos brancos tirando fotos na rua, pensando que a Fema retornava com boas notícias sobre indenização –mas era só a reportagem da Folha.
Árvores começavam a recuperar umas poucas folhas em novembro, dois meses após a passagem do furacão Maria em Utuado, Porto Rico – Lalo de Almeida/Folhapress
Estima-se que cerca de 20% das árvores de Porto Rico jamais se recuperarão. Nas que sobreviveram, folhas brotam diretamente dos troncos e cotos de galhos, o que as deixa parecidas com grandes cotonetes verdes. Há relatos de borboletas diurnas circulando à noite em busca de flores inexistentes e morcegos desorientados pela falta de frutos.
As estradas que levam a Utuado –cidade das mais afetadas– ainda compunham em novembro um cenário de bombardeio, com crateras e montes de terra por todos os lados. Poucos carros circulam por elas, não raro veículos de empreiteiras e companhias elétricas envolvidas em reparos, ou camionetes de excursões que combinam caridade com selfies.
Diante da casa de Yessica Matos Torres, um SUV novo, vidros tingidos de preto, estaciona para o desembarque de um jovem loiro com o letreiro #yonomequito (eu não vou embora) na camiseta justa. Os olhos da jovem mãe se enchem de lágrimas ao receber um fardo de água mineral Cristalia e o cartão Visa no valor de US$ 300.
Da morada de Carlos Soto López sobrou só o portãozinho pendurado num pedaço de mureta, onde se lê que a família está na próxima casa, estrada acima. A sua deslizou pelo barranco às 2h20 da madrugada, solapada por uma bica d’água que virou riacho. Ainda pode ser visto 20 m abaixo um carro amarrotado na garagem destruída.
Sem condução para chegar ao trabalho a 20 km de distância, numa ilha em que quase não vê transporte público, Soto perdeu o emprego de motorista de caminhão de lixo. Ele sustenta agora os dois filhos pequenos fazendo bicos como mecânico na casa em que ocupou, do amigo Manolo, que se mudou para os EUA.
Casa de Carlos Lopez na comunidade de Caonillas que foi arrastada pela enxurrada durante passagem do furacão Maria pela região – Lalo de Almeida/Folhapress
Porto Rico já vinha perdendo população para o continente, em especial para o a Flórida, à taxa de meio milhão de pessoas por década, empurradas pela estagnação do emprego. Nos dois meses após o furacão, o abandono se acentuou, com quase 200 mil borícuas embarcados em voos para os EUA.
Edwin Meléndez e Jennifer Hinojosa, demógrafos do Centro de Estudos Porto-Riquenhos da Universidade da Cidade de Nova York (Cuny, na sigla em inglês), estimaram que até 470 mil nativos, ou 14% da população da ilha, poderão emigrar em definitivo para o continente nos dois anos após o furacão.
As vítimas de Maria fogem de um futuro turvado pela necessidade de reconstruir um país fisicamente devastado e financeiramente falido. Só a tarefa de recolher os escombros das ruas e estradas –um volume projetado em 6 milhões de metros cúbicos, ou o equivalente a 2.400 piscinas olímpicas– deve consumir seis meses.
“Não sabemos mais em que país estamos”, lamenta Jorge Báez, ambientalista da ONG Para La Naturaleza.