Categoria: América Latina

  • Crise do Clima “Peru”

    Peru

    Camponês processa empresa alemã e pede indenização por encolhimento de geleiras

    O camponês e guia de montanha Saúl Luciano Lliuya caminha junto ao que restou de uma das geleiras da cordilheira Branca, norte do Peru – Lalo de Almeida/Folhapress

    Marcelo Leite/Lalo de Almeida

    29.mai.2018 – 02h00

    HUARAZ

    Juan Victor Morales Moreno, 52, tem um dos empregos mais solitários do mundo. Salvo incursões até o centro de Huaraz (Peru) nas folgas quinzenais, ele vigia o ano todo a lagoa Palcacocha (4.562 m de altitude), na cordilheira Branca, 100 m abaixo de sua cabana de pedra.

    O salário é de 2.500 soles (cerca de R$ 2.800). A missão: a cada duas horas, noite ou dia, relatar qualquer perturbação no lago glacial, por rádio ou telefone de satélite, ao Centro de Operações e Emergência Regional do departamento (estado) de Ancash. O trabalho como guardião da montanha castigada pelo aquecimento global já dura três anos.

    Toda sua atenção se volta para as geleiras Palcaraju e Pucaranra, que pendem ameaçadoras a 600 m acima do espelho d’água. De sua estabilidade depende a segurança de 25 mil huaracinos que vivem no chamado cone de risco aluvional (cerca de um sexto da população).

    Juan Victor Moreno vigia a lagoa Palcacocha, na cordilheira Branca, Peru; ele relata por rádio ou telefone de satélite qualquer perturbação no local – Lalo de Almeida/Folhapress

    Palcacocha ganhou notoriedade internacional quando um desses moradores –Saúl Luciano Lliuya– colocou-a no centro de um processo judicial na Alemanha contra a empresa de energia RWE. A ação demanda que a companhia pague uma parcela de 17 mil euros (R$ 68 mil) das obras de segurança na lagoa, com custo total estimado em R$ 20 milhões.

    A quantia corresponde ao quinhão de responsabilidade atribuído à RWE (0,47%) por todas as emissões de gases do efeito estufa lançadas no mundo desde 1854, segundo estudo publicado em 2014 por Richard Heede, do Climate Accountability Institute dos EUA.

    Por improvável que pareça, as cortes alemãs deram seguimento ao processo.

    A ameaça posta por Palcacocha é concreta. Em 1941, a lagoa tinha volume 30% menor que o atual e causou cerca de 2.000 mortes em Huaraz. Naquela manhã de 13 de dezembro, uma avalanche de pedras e lama cortou a cidade ao meio.

    Acredita-se que um bloco dos glaciares se desprendeu e criou uma onda com dezenas de metros de altura. Rompeu-se o dique natural de rochas e terra solta da moraina (depósito de fragmentos transportados pela geleira em movimento).

    Restaram então somente 500 mil m³ de água no reservatório, o equivalente a 200 piscinas olímpicas. Com o contínuo derretimento de Palcaraju e Pucaranra, tal volume multiplicou-se por 34.

    Tubulação que drena a água da Palcacocha, na cordilheira Branca; com aumento do volume do reservatório, uma eventual avalanche pode criar tsunami e aluvião que devastariam a cidade de Huaraz – Lalo de Almeida/Folhapress

    “No ano passado, no mês de maio, houve uma avalanche moderada da montanha Palcaraju. Caiu diretamente na lagoa e produziu uma onda de três metros”, conta o vigilante Victor Morales. “Levou os sifões para a parte esquerda e os amontoou como se fossem espaguete.”

    Morales se refere aos dez tubos negros com 25 cm de diâmetro que sugam água do meio da lagoa e a descarregam na cabeceira do riacho Cojup. O conjunto oferece um reforço para a tubulação de escoamento sob o dique de 7 m construído depois do terremoto de 1970, que, sozinho, não dá conta de manter a água na cota de segurança em época de chuva e derretimento acelerado, de setembro a maio.

    Trata-se de um sistema provisório e insuficiente, afirma o engenheiro Luis Alberto Beltrán Flores. Ele é o consultor do governo regional de Ancash para o projeto de obras de segurança em Palcacocha e outras 22 lagoas glaciais.

    A meta é rebaixar o nível de Palcacocha ainda mais. Para afastar o perigo pior, haveria ainda que construir um dique com o triplo de altura (20 m), reforçado com concreto.

    Por ora, só os termos de referência para a licitação foram feitos. Falta aprovar um orçamento do governo federal para contratar uma empresa que detalhe o projeto executivo de engenharia.

    Anoitecer na cidade de Huaraz, que fica aos pés da cordilheira Branca, no norte do Peru – Lalo de Almeida/Folhapress

    Ao lado de Beltrán na montanha, Mirtha Cervantes, secretária de Meio Ambiente e Recursos Naturais do governo de Ancash, ressalva que já se iniciou a implantação de um sistema de alerta precoce à população.

    O dispositivo envolverá o uso de sensores, sinais sonoros e exercícios de evacuação da zona de risco, no curto prazo de 40 minutos entre um “evento” em Palcacocha e a devastação de Huaraz. Por ora, tudo ainda está nas mãos –ou nos olhos e ouvidos­– do guardião Victor Morales.

    Depois de passar seu informe por rádio, o vigilante de Palcacocha serve canecas de leite com arroz doce cozido aos visitantes esfalfados pelo impacto da altitude. São 10h da manhã e, ao longe, começa o ronco diário de pequenas avalanches em Palcaraju e Pucaranra deflagradas pela temperatura em elevação.

    Nenhuma alcança a lagoa.

    O agricultor Saúl Luciano (envolto em manta listrada) observa a filha brincar ao lado de sua mãe (à dir.) enquanto sua mulher, Lidia (à esq.), colhe menta em Llupa, zona rural de Huaraz – Lalo de Almeida/Folhapress

    O guia de montanha e agricultor Saúl Luciano Lliuya, 37, fala baixo e de modo pausado. Durante entrevistas, revira os olhos nas órbitas, ao que parece buscando as palavras corretas em espanhol (até os seis anos, só falava quéchua em casa).

    Sua contenção destoa da imagem de camponês intrépido, que conduz turistas em segurança pelas paredes de gelo da cordilheira Branca e se aventura a processar uma potência empresarial em terras alemãs.

    O amor pelas montanhas venceu a timidez, é a sua explicação. Ele as sente correr nas veias como a água do degelo corre pelas “quebradas” (calhas dos riachos glaciais).

    O pai era carregador de escaladas. Menino, Luciano ficava fascinado com os equipamentos e as fotografias. “Cresci nesse ambiente. Aos 8 anos já caminhava por lá, [na altitude de] 4.500 metros, 4.800 metros”, recorda.

    Os três anos de curso para liderar grupos de turistas são um recurso comum das novas gerações para aumentar a renda nos meses secos, de junho a agosto. No restante do ano, Luciano planta e colhe batatas, quinoa, trigo e cevada na propriedade da família em Llupa, povoado a 15 minutos de carro do centro de Huaraz.

    Na garagem da casa de adobe com dois pisos, o guia tem uma perua Toyota –“station wagon”, como se diz na região– que usa para ir à cidade de noite, para as aulas de inglês, e em serviços de táxi informal. Às vezes dorme na segunda casa, que está terminando de construir em Nueva Florida, bairro incluído no cone de risco de Palcacocha.

    “Quando comecei a sair como guia, em 2002, vi que tudo era muito lindo. Nos anos seguintes na montanha, encontrava [os glaciares] cada vez menores”, conta.

    Acima, menino em frente a cruz feita por camponeses para proteger a terra, em Llupa, Huaraz; abaixo, ele observa camponesa que transporta lenha para cozinhar – Lalo de Almeida/Folhapress

    Ele já havia ouvido falar de aquecimento global na escola. Pesquisando sobre o descongelamento, as lagoas e os aluviões, descobriu que havia uma relação com a mudança climática: “Tudo isso é causado pela poluição, pelas indústrias, toda uma cadeia de relações”.

    “Isso te afeta. Estás perdendo algo. Além disso, sabíamos que Palcacocha era uma lagoa que estava em risco, crescendo. Perguntava-me o que deveria fazer. O que vai acontecer quando já não houver montanhas, água suficiente?”

    O contínuo derretimento de geleiras não cria só o risco emergencial de colapso das lagoas glaciais. Elas ameaçam também o futuro do Peru, que ficará sem água para gerar eletricidade e abastecer a população –um terço da qual vive na capital, Lima, quase inteiramente dependente do degelo para dar de beber a seus habitantes.

    Em 2014, quando se realizou em Lima a 20ª conferência internacional sobre mudança do clima, Luciano conheceu José Valdivia Roca, da ONG Wayintsik (“nossa casa”, em quéchua). Valdivia lhe apresentou Noah Walker-Crawford, um jovem antropólogo de família norte-americana nascido na Alemanha, que trabalhava na ONG Germanwatch.

    Das muitas conversas sobre como reagir à destruição da cordilheira Branca surgiu a ideia de responsabilizar os causadores da mudança do clima. A RWE terminou escolhida por ser a maior emissora de gases do efeito estufa na Europa e porque a Germanwatch poderia conseguir assessoria jurídica na Alemanha, sede da empresa de energia.

    Fumaça sai de cabana de pastores na área do Parque Nacional de Huascarán, no caminho para o nevado Pastoruri – Lalo de Almeida/Folhapress

    Luciano diz que, no Peru, é muito perigoso enfrentar uma companhia na Justiça, por exemplo uma mineradora grande: “Processar uma empresa lá [na Alemanha] dava o que pensar. Pensei por um tempo, uns dois meses. Decidi que sim, pois não via outra opção”. A ação começou em 2015.

    Por causa dela, o guia-agricultor precisou ir três vezes à Alemanha, o que lhe garantiu alguns olhares atravessados no povoado e na cidade. Há quem acredite que Luciano recebe dinheiro para promover a ação, embora os 17 mil euros da causa, caso saia vitoriosa, se destinem aos governos local e regional.

    Contrariando as expectativas do grupo, o processo caminhou. Apesar de recusado em primeira instância num tribunal de Essen, um recurso apreciado em novembro de 2017 numa corte de segunda instância em Hamm levou à decisão de que a causa era plausível perante a lei alemã (embora o tribunal não se tenha pronunciado sobre seu mérito).

    A RWE rejeitou na ocasião uma oferta de acordo de Luciano referendada pela corte. Com isso, o caso entrou numa fase de produção de provas e oitiva de especialistas, que pode durar vários meses. Até aqui, os custos da ação que cabem a Luciano foram cobertos por doações para um fundo especialmente criado para isso.

    Para Luciano, já será uma conquista significativa se um causador da mudança climática reconhecer sua responsabilidade. Não se trata só do dinheiro, ele justifica, mas de conseguir que os causadores contribuam com o que lhes cabe para as medidas de segurança ou de adaptação perante a mudança do clima.

    Os 160 mil km² de glaciares nos Andes peruanos entraram quase por acaso na vida do engenheiro civil César Portocarrero. Foram, entretanto, capazes de convertê-lo num dos glaciologistas mais requisitados de seu país.

    Ele trabalhava nas obras de segurança das lagoas da região, após o terremoto de 1970, quando foi designado para buscar, no aeroporto de Lima, o geólogo Lonnie Thompson, da Universidade do Estado de Ohio (EUA). Deveria também acompanhar o especialista em três meses de escavação de testemunhos (cilindros verticais) de gelo com que Thompson ajudou a reconstruir o passado do clima da Terra.

    Quando viu o interesse do jovem pelo campo de pesquisa, Thompson instigou-o a estudar glaciologia e geomorfologia no Alasca, depois em Ohio e, por fim, na Universidade Columbia, em Nova York.

    Portocarrero se tornaria depois líder da Unidade de Glaciologia instalada em Huaraz pela Autoridade Nacional de Águas do Peru (ANA). Ali se dedicou a monitorar o retrocesso das geleiras, em especial as que pendem de forma ameaçadora sobre as lagoas, com inclinação superior a 22º.

    Caminho que leva ao nevado Pastoruri, no Parque Nacional de Huascarán; local conta com uma trilha educativa sobre efeitos do aquecimento global, como o derretimento de geleiras – Lalo de Almeida/Folhapress

    Nos anos 1970, relata, as geleiras retrocediam de 7 m a 8 m por ano, em média. Na década de 1980 isso subiu para 20 m. Na de 2000, para 25 m. A diminuição em espessura se calcula em 4 m anuais. O derretimento acelerado cria um paradoxo: água demais no presente e escassez de recursos hídricos no futuro.

    Com mais gelo derretendo, os lagos crescem em volume e número. No inventário de 2003 da ANA, contaram-se 830 na cordilheira Branca; uma década depois, já eram 860. Mas só 23 delas, Palcacocha à frente, apresentam risco de despejar aluviões trágicos sobre a população de Ancash.

    Segundo Portocarrero, entre 10 mil e 14 mil pessoas poderiam morrer num desastre como o de 1941. Mesmo quando estiver em funcionamento o sistema de alerta precoce planejado pelo governo regional, as mortes poderiam chegar a 7 mil.

    “A cordilheira Branca é a maior que temos. Ela abastece de água um dos projetos [de irrigação] mais importantes do Peru, Chavimochic, no departamento de La Libertad”, alerta. Terras que há 40 anos eram áridas e agora se enchem de verde com cultivos de agroexportação.

    A agricultura consome 89% da água [no Peru], informa Portocarrero, e desses 89% se desperdiçam 65%. “Temos de começar a trabalhar no uso eficiente da água, como parte desse processo de adaptação ao problema que a mudança climática nos traz.”

    Curso de água que se forma próximo à lagoa Llaca, na cordilheira Branca; o derretimento acelerado de geleiras cria água líquida demais no presente – Lalo de Almeida/Folhapress

    “As geleiras são filhas do clima, crescem quando há frio e precipitação suficientes e diminuem nas épocas quentes”, afirma. De acordo com o que se conhece, nos últimos 800 mil anos houve 11 períodos de resfriamento.

    “O clima na Terra sempre foi cíclico, resfriamentos e aquecimentos, resfriamentos e aquecimentos. Agora estamos vivendo uma época de aquecimento, entre resfriamentos, cujo pico se deu há 18 mil anos.”

    Este “último verão” que estamos vivendo agora tem, na visão do glaciologista, uma particularidade: “O homem, em seu afã de indústria e desenvolvimento, está acelerando o aquecimento como nunca se viu antes”. E, com isso, esvaziando a caixa d’água do Peru.

    Lidia, mulher do agricultor Saúl Luciano Luciano Lliuya, corta batata em sua casa na comunidade de Llupa, na zona rural de Huaraz – Lalo de Almeida/Folhapress

    Saúl Luciano Lliuya convida os repórteres para almoçar. Estamos no andar superior da casa, que tem dois cômodos: o amplo quarto de pé-direito baixo, com livros dos montanhistas Jon Krakauer e Reinhold Messner convivendo com cordas, botas e mosquetões, e uma antecâmara em que outros equipamentos de escalada se misturam com centenas de espigas multicoloridas de milho.

    No piso abaixo, de terra batida, a mulher Lidia prepara no fogão de lenha um guisado de quinoa com ají e batatas para acompanhar o arroz. À exceção deste, todos os ingredientes provêm dos campos em volta, cultivados pelos homens da aldeia com ajuda de bois para arar a terra.

    A bebida é uma infusão fraca e adocicada, “água de menta”, planta que cabe às mulheres plantar e vender no mercado. No fundo da cozinha, ouvem-se sem parar os guinchos dos “cuyes” (porquinhos-da-índia) comuns nos lares quéchuas, iguaria reservada para grandes festas de aniversário e casamento.

    Luciano atravessou o mundo para lutar contra o aquecimento global e se espantou com a qualidade da vida europeia. Como boa parte dos peruanos, porém, ainda depende das geleiras para ter o que pôr na mesa.

    “A montanha me dá angústia. Vivemos debaixo dela, bebemos a água que desce da montanha. Como guias de turismo, trabalhamos na montanha. Comemos e sustentamos nossos filhos graças à montanha”, diz.

    “A montanha é tudo para mim.”

     

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/peru/campones-peruano-processa-empresa-eletrica-alema-e-pede-indenizacao-por-encolhimento-de-geleiras/

     

     

    Prof Luciano Mannarino

  • UM MUNDO DE MUROS (PERU)

    SEGREGAÇÃO

    Muro da Vergonha separa indígenas de ‘gringos’ em Lima

    Dez quilômetros de barreira de concreto que cortam os morros da capital peruana resumem o abismo social e étnico no país

    FABIANO MAISONNAVE E AVENER PRADO

    21.ago.2017 – 02h00

    Caso pudesse caminhar até a mansão onde trabalha de ajudante geral, Esteban Arimana levaria cinco minutos desde a porta da sua casa. Em vez disso, passa cerca de duas horas por dia dentro de ônibus lotados pelas vias congestionadas de Lima.

    A distância entre as casas vizinhas é imposta pelo Muro da Vergonha, como ficaram conhecidos os dez quilômetros de barreiras que serpenteiam os morros da capital peruana. Erguido a partir de meados dos anos 1980, a sua função é separar as áreas urbanizadas dos “povoados jovens”, o eufemismo local para designar favelas.

    “Se abrissem uma porta, seria bom”, diz Arimana, que vive com a mulher e três filhos, o mais velho de 14 anos, ao lado do muro de concreto de três metros coberto por arame farpado. “Mas, porque estamos na pobreza, é muito difícil sermos ouvidos.”

    Muro coberto por arame farpado separa as áreas urbanizadas dos “povoados jovens”, o eufemismo local para designar favelas, em Lima, no Peru (Avener Prado/Folhapress)
     

    A família é uma típica moradora de Pamplona Alta, conjunto de favelas com 96 mil pessoas erguida em um morro com o mesmo nome. Como a ampla maioria dos que vivem ali, os Arimana são migrantes de origem indígena do altiplano peruano.

    O casebre de paredes de compensado foi erguido por eles mesmos sobre o terreno acidentado. Não tem água encanada. O banheiro, do lado de fora, é apenas um buraco. Uma moradia ali sai, no máximo, por US$ 15 mil (R$ 47 mil).

    Internamente, Pamplona Alta está subdividida pela altura. Quanto mais perto do cume e dos muros, mais precária a situação das moradias, muitas delas erguidas sobre um aterro feito de pneus.

    As dezenas de quilômetros de ruas não pavimentadas foram esculpidas na pedra pelos próprios moradores. O método: novamente usando pneus, eles incendeiam a base das grandes rochas, que racham com a temperatura alta e em seguida são esmigalhadas a marteladas.

    O ajudante geral Esteban Arimana, morador de Pamplona Alta, que leva duas horas para chegar na mansão onde trabalha em Las Casuarinas (Avener Prado/Folhapress)
     

    Nas zonas mais baixas, onde já houve regularização das posses e há água encanada, alguns moradores criaram versões locais de condomínios privados. Para evitar roubos às casas, muitos fecharam as ruas por conta própria, usando cancelas atadas a correntes com cadeados.

    Em uma dessas áreas mais antigas, um vigia cuidava, em uma guarita sobre o muro, para que ninguém cruzasse para o lado rico. A metros dele, uma mensagem feita por moradores do lado pobre: “Não se aceitam maconheiros, ladrões, membros de gangue, traficantes etc. Sob sanção da justiça comunitária.”

    Arimana mora há dez anos em uma das áreas não regularizadas. Poucos metros acima, o muro de três metros marca o limite com o condomínio Las Casuarinas, onde o acesso, controlado por seguranças e câmeras no pé do morro, só é permitido a residentes e seus convidados.

    Com vista privilegiada de Lima, há mansões à venda ali por até US$ 4,5 milhões (cerca de R$ 14 milhões).

    É num desses casarões que ele trabalha, fazendo a segurança e pequenos consertos. “Profissão mesmo, não tenho. Pode ser em obra, em qualquer trabalho que apareça.” Ao contrário do metro quadrado das casas, a água é mais cara no lado de Arimana, que precisa recorrer a caminhões-pipa privados.

    Enquanto em Pamplona Alta, estocada em tonéis de plástico, sai por cerca de US$ 9 (R$ 29) por metro cúbico, no asfalto o preço da água que sai da torneira varia de US$ 0,3 a US$ 1,5, dependendo da faixa de consumo. Ou seja, os mais pobres pagam em média dez vezes o valor pago pelos ricos.

    “Daquele lado, todos têm piscina, enquanto nós sofremos com a falta de água”, compara Arimana para afirmar que a desigualdade no Peru está piorando.

    Rotina na Pamplona Alta, conjunto de favelas com 96 mil pessoas; no vídeo, grupo de igreja pentecostal se apresenta na comunidade
    Rotina na Pamplona Alta, conjunto de favelas com 96 mil pessoas; no vídeo, grupo de igreja pentecostal se apresenta na comunidade (Avener Prado/Folhapress)
     

    Chamados de “gringos” pelos vizinhos pobres em alusão à pele mais clara decorrente da origem europeia, os moradores de Las Casuarinas costumam argumentar que o muro foi erguido por razões de segurança e para conter as invasões de terra.

    Os residentes incluem o renomado chef e empresário Gastón Acurio, que tem uma das casas mais próximas ao muro. Filho de um senador e educado em Paris, ele é apontado como principal responsável pela popularização da culinária peruana no mundo.

    Por e-mail, Acurio diz que discorda do muro, mas não quis explicar o motivo. Ele afirma que planeja abrir, em 2019, sua segunda escola de culinária em Pamplona Alta voltada para alunos pobres –a primeira, aberta em outra zona empobrecida da cidade, ensina cerca de 300 jovens.

    “Tentamos, como empresários e família, atuar diretamente para que o Peru consiga terminar rápido e para sempre com todas as divisões econômicas, sociais, culturais e físicas que nos têm desonrado por séculos”, escreveu.

    Arquiteto e cartunista, Carlín atribui o muro e as grades onipresentes em Lima ao desemprego e à desigualdade racial prevalentes no país.

    “O pior racismo é aquele que as pessoas dizem que não existe”, diz Carlín, cujos desenhos criticando Lima foram reunidas no livro “Errar es Urbano”. “Somos um dos países mais racistas.”

    Residências de classe média alta no distrito de Santiago de Surco, em Lima, próximo a muro que divide região pobre de rica (Avener Prado/Folhapress)
     

    Como ocorre em outros países latino-americanos, o crescimento da população de Lima se deu principalmente pela expansão dos “povados jovens”, antigamente chamados de “barriadas”.

    Em 1961, 17% viviam em favelas limenhas. No censo mais recente, de 2007, esse número chegou a 4,1 milhões, o equivalente a 40% da população limenha, segundo dados coletados pelo sociólogo Julio Calderón no livro “La Ciudad Ilegal”.

     

     

    Além de procurar melhores oportunidades econômicas, milhares deles vieram a Lima nos anos 1980 e 1990 fugindo do conflito interno desencadeado pela guerrilha maoísta Sendero Luminoso, concentrada principalmente nos Andes.

    A construção do Muro da Vergonha seguiu o mesmo ritmo de ampliação das favelas. O primeiro trecho foi erguido em 1985 pelo Colégio Imaculada Conceição, administrado pelos jesuítas (a mesma ordem do papa Francisco).

    Na época, a escola disse que a intenção da obra – executada sem que houvesse licença prévia– era impedir que as invasões se aproximassem da instituição. Atualmente, além dos muros da escola, de Las Casuarinas e de outros condomínios privados, há também um trecho erguido e vigiado pelo poder público.

    Muro que separa região pobre de rica em Lima, no Peru; barreiras que serpenteiam os morros de Lima somam 10 km de extensão

    Muro que separa região pobre de rica em Lima, no Peru; barreiras que serpenteiam os morros de Lima somam 10 km de extensão (Avener Prado/Folhapress)

     

     

    La Molina, uma das 43 municipalidades de Lima, construiu uma barreira de pedras e arame farpado no limite com Pamplona Alta, que pertence ao município de San Juan de Miraflores. O muro é um pouco mais baixo do que o dos condomínios privados e conta com um ponto de passagem, onde há um posto de controle da guarda municipal de La Molina.

    O acesso é usado diariamente por moradores de Pamplona Alta que trabalham em La Molina, que tem bairros de classe média e alta. A descida é feita por pequenos caminhos pelo morro íngreme –ao contrário do lado pobre, não há escadas.

    “Da fronteira de La Molina para dentro é um desastre”, afirma Dionisio Chirinos, que voltava de um dia de trabalho, acompanhado pelo filho de adolescente, cujo joelho sangrava. “Como você viu, o meu filho acabou de machucar a perna.”

    Dionisio Chirinos caminha por morro íngreme usado por moradores de Pamplona Alta que trabalham em La Molina (Avener Prado/Folhapress)
     

    Pouco antes, a reportagem encontrou o único morador da zona mais rica que se aventurava por Pamplona Alta. Residente em La Molina, o estudante Julio Díaz havia escalado a montanha para se exercitar. Apesar de não ter receio de visitar a zona, disse ser favorável ao muro.

    “O muro é necessário para limitar as invasões. Há muito tráfico de terrenos. Pessoas mal intencionadas se apoderam de tudo, loteiam e vendem aos mais necessitados. Mas, como vemos aqui, há livre trânsito de pessoas.”

    Procurada, a assessoria de imprensa de La Molina se limitou a informar que a construção da barreira serve para proteger o meio ambiente de mais invasões, mas não atendeu ao pedido de entrevista com um porta-voz da municipalidade.

    Na parte mais alta do morro, a cerca de dez minutos de Pamplona Alta, está uma das invasões mais recentes, convenientemente batizada de Valle Escondido.

    Crianças jogam vôlei no Valle Escondido, a cerca de dez minutos de Pamplona Alta (Avener Prado/Folhapress)
     

    Ali, sem luz nem água e sob constantes ventos gelados, as famílias se dividiram em dois grupos pelo controle da região, gerando um ambiente de desconfiança.

    Um dos moradores, que falou sob a condição do anonimato por causa do clima tenso, explicou a ausência do muro: “Aqui é tão íngreme que não conseguimos caminhar até lá embaixo.”

     

    http://arte.folha.uol.com.br/mundo/2017/um-mundo-de-muros/peru/segregacao/

     

    Questões.

    1. O que são considerados “povoados jovens” em Lima?

    2. Segundo o texto, quem são os “gringos” na sociedade do Peru?

    3. A pobreza no Peru apresenta um componente étnico? Justifique.

     

     

    Prof. Luciano Mannarino

     

     

    UM MUNDO DE MUROS (EUA E MÉXICO)

     

  • UM MUNDO DE MUROS (EUA E MÉXICO)

    O SUL DA FRONTEIRA

    Expectativa e ressentimento atormentam quem fica para trás

    Sombra da barreira que começou a ser erguida nos anos 90 encobre debate migratório e preocupa quem a cruza; enrijecimento político já se faz sentir

    FABIANO MAISONNAVE E LALO DE ALMEIDA

     

    26.jun.2017 – 02h00

     

    O muro que Donald Trump prometeu construir na campanha ainda não saiu do papel. Mas os mexicanos já são obrigados a conviver há décadas com as barreiras deixadas por Barack Obama, George W. Bush e Bill Clinton.

    A separação física com o vizinho pobre do sul tem sido uma política de Estado desde que Clinton ergueu os primeiros trechos, em 1993, reaproveitando sucata trazida da Guerra do Golfo. Já são 1.046 km de barreiras separando os dois países, incluindo as grades de 4,6 metros contratadas pelo correligionário Obama.

    Mexicanos brincam em praia de Tijuana, que faz fronteira com San Diego, dos EUA; ao fundo, cerca divide as duas cidades (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Via de regra, o muro costuma crescer de altura à medida que se aproxima das regiões mais povoadas. Separa cidades, como as duas Nogales, a mexicana e a norte-americana. Diminui ou desaparece nas áreas mais inóspitas, onde caminhadas de dias ao longo da barreira natural do deserto produzem mortes diárias.

     

    O muro não é apenas físico. Os mexicanos também se ressentem do endurecimento da vigilância e das leis imigratórias, sobretudo após a ataques do 11 de Setembro, em 2001. As promessas feitas por Trump de mais repressão a imigrantes irregulares são mais questão de intensidade do que mudança de rumo.

    “Trump nos assusta e traz incertezas, mas é preciso recordar que Obama também foi um presidente muito cruel e rude com os imigrantes. Fez as ‘redadas’ [grandes operações de captura de imigrantes ilegais], as deportações em massa, as separações de famílias, os centros de detenção. Foi ele quem fez esse muro aqui e quem mais deportou na história dos EUA. Nunca disse nada, mas fez muito”, afirma o padre Javier Calvillo, 47, diretor da Casa do Migrante de Ciudad Juárez, sua cidade natal.

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    Cerca divide praia nas cidades de Tijuana, no México, e San Diego, nos EUA; próximo à barreira, lado mexicano é mais agitado do que vizinho (Lalo de Almeida/Folhapress)

    “O meu maior medo é o muro que Trump pode construir nas mentes e nos corações dos americanos e até dos mexicanos que estão lá. É o muro mais perigoso: vem o racismo, vem o apontar de dedos. Em El Paso, as pessoas têm medo de ir à escola, ao trabalho. É um ambiente de pânico e terror”, completou.

    Mesmo no governo Trump, o muro de Obama continua avançando na região de Ciudad Juárez, substituindo uma antiga cerca baixa de tela, facilmente transponível.

    As obras estão agora em Puerto de Anapra, bairro de ruas de areia e casas sem acabamento a cerca de 30 minutos do centro de Juárez, cidade de cerca de 1,5 milhão de habitantes que já foi a mais violenta do mundo devido a disputas territoriais entre cartéis de narcotráfico.

     
     
     
    Detalhes das barreiras que separam o México dos Estados Unidos; muro costuma crescer de altura à medida que se aproxima das regiões mais povoadas (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Anapra é habitado principalmente por funcionários das “maquiladoras”, grandes fábricas, na maioria norte-americanas, que se instalam em território mexicano em busca de mão de obra barata. Apenas em Juárez, essas empresas mantêm cerca de 300 mil operários.

    O ritmo de construção é rápido. A cada 30 minutos, uma nova chapa da grade de 1,5 metro de extensão é erguida por um guindaste, encaixada na base de concreto e soldada com outra chapa por operários, a maioria mexicanos.

    “Não gosto de trabalhar aqui, mas tenho de alimentar a família”, diz um deles, que se identificou como Marcos e trabalha para uma fornecedora de cimento. Ele explica que os pais moram em Juárez, mas que a visita é cada vez mais difícil devido à segurança rígida –costuma levar cerca de duas horas para cruzar a ponte fronteiriça.

     

    As sobras da obra viraram uma fonte de renda extra para os moradores. Carregando um longo pedaço de cano de aço em um dos ombros, a operária Fabiola Vellez, 31, disse que a peça vale 50 pesos (US$ 2,80, ou R$ 9,30).

    Trata-se de um pequeno reforço do salário de mil pesos (US$ 56, ou R$ 190) que recebe por semana em uma fábrica de cabos automobilísticos. A poucos metros, no Texas, o salário mínimo semanal está em US$ 290, o quíntuplo.

    Apesar da fonte extra de renda, Vellez não está feliz: “Em dezembro, ‘la migra’ (Patrulha da Fronteira dos EUA) lançou brinquedos por cima da cerca. Com o muro, não será mais possível”, lamentou.

    O muro também atrai crianças, que pedem dólares e doces através da cerca. Mais ousado, um adolescente demonstrou à reportagem que conseguia escalar até o topo do novo muro em poucos segundos, para irritação de um operário, que prometeu chamar a mãe e recebeu em resposta uma saraivada de xingamentos em espanhol.

    Muro é construído na fronteira de Puerto de Anapra, bairro a cerca de 30 minutos do centro de Juárez, no México; durante as obras, garoto tenta escalar muro e irrita operários (Lalo de Almeida/Folhapress)

    O muro venceu José Hector Nevarez, 33. Detido e deportado pela primeira vez em 2010, no governo Obama, tentou voltar aos EUA duas vezes e foi capturado pela Patrulha da Fronteira nas duas.

    Resignado, decidiu reunir a família no México, que Hector havia deixado quando tinha 15 anos. Vieram a mulher, Gabriela, 32, e os filhos, Emiliano, 12, e Azul, 7.

    O muro impôs uma divisão na família. Num drama que se repete com frequência cada vez maior, os pais são mexicanos, mas os filhos possuem cidadania norte-americana por terem nascido lá.

    Para eles e centenas de outras famílias de deportados, a solução foi morar no povoado de Puerto Palomas, (157 km a oeste de Juárez). Todo dia, enquanto os pais trabalham no lado mexicano, os filhos atravessam a fronteira para ir às escolas norte-americanas do Novo México.

    “Os EUA são o seu país. Em seu momento, vão ter um emprego lá, ter uma vida social lá”, diz Hector, que nos EUA trabalhou na construção civil e como motorista. “Queremos que façam a sua vida lá. E, obviamente, se tivermos a oportunidade de lá visitarmos, tudo bem, mas vivendo não.”

     
     
     

    A rotina familiar começa às 6h, quando a temperatura costuma oscilar em um dígito. Primeiro, ele leva Emiliano até o posto fronteiriço. Ao lado do filho, caminha por alguns metros em território americano até a entrada do posto de controle imigratório. “Se quiserem, podem me prender aqui onde estamos.”

    Ao lado de outros pais deportados, Hector observa Emiliano entrar em um dos cinco ônibus amarelos enfileirados do outro lado da aduana. Uma hora mais tarde, ele repete a rotina com Azul.

    Na volta da escola, é a vez de Gabriela esperar os filhos na saída do posto de controle mexicano, onde as mochilas precisam passar por uma máquina de raio-X.

     
     
    Crianças brincam em escola da mexicana Puerto Paloma; ao fundo, cerca divide o México dos EUA (Lalo de Almeida/Folhapress)

    O muro traz perigos. O cuidado do casal em levar os filhos pessoalmente até a entrada do posto fronteiriço tem um motivo: evitar que as crianças sejam usadas por narcotraficantes para driblar a vigilância americana.

    “Lamentavelmente, vivemos em um país onde existe todo tipo de criminalidade. Há casos de meninos usados como mulas e detidos pela imigração. Estamos sempre atentos para que não levem nada mais do que o material escolar em suas mochilas.”

    O muro também gera dinheiro. Hector trabalha no tradicional restaurante Pink, a poucos passos da fronteira e popular entre norte-americanos que cruzam para Palomas em busca de dentistas e oculistas mexicanos que cobram uma fração do que custaria nos EUA.

     

    Em casa, Gabriela complementa a renda dando banho em cachorros. Os clientes são americanos, que entregam e pegam os bichos de estimação nos poucos metros de zona neutra entre os dois postos fronteiriços.

    O muro cria rotinas estranhas. Nos cinco anos em Palomas, o casal nunca foi à escola dos filhos -por Skype, viram a formatura do ensino fundamental de Emiliano e conversam com os professores. “Mas nos sentimos muitos sortudos, [estudar nos EUA] é um privilégio que nem todos podem ter”, diz Hector.

     

    Sobre Trump, ele tem dúvidas: “Ele está dizendo o que as pessoas querem ouvir. Está dizendo que ele vai fazer um muro enorme, bonito e grandioso, mas não vai acontecer. É só um falastrão.”

    A 680 km a oeste de Juárez, Caborca é a última parada para vários centro-americanos antes de se arriscar no deserto onde o muro ainda não alcançou. Ali, quase todos os dias, dezenas desembarcam da “Bestia”, apelido dado a qualquer um dos trens que atravessam o México e são usados pelos imigrantes para se aproximar da fronteira, em viagem clandestina e perigosa.

    Vizinho à estação de trem, uma Casa de Migrante abrigava 57 imigrantes em meados de abril, a grande maioria hondurenhos. No grupo, predominantemente masculino, muitos já haviam sido deportados dos EUA, mas preferem se arriscar de novo no país de Trump a viver nos pobres e violentos países centro-americanos, sobretudo Honduras, El Salvador e Guatemala.

    Imigrante descansa em abrigo a 680 km a oeste da mexicana Juárez, na última parada antes de se arriscar no deserto (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Ao contrário de Juárez, as instalações são precárias. A maioria dormia do lado de fora da casa acanhada, em cima de tapetes e sob o teto de lona, apesar da madrugada fria do deserto. O acúmulo de lixo deixava seu odor no ar.

    Os relatos revelam uma viagem perigosa. Um diz que foi obrigado a beber a própria urina durante a caminhada que durou cinco dias, sem sucesso. Outro teve de voltar após infecção provocada por picadas de carrapatos.

    Driblar o muro é caro e perigoso. Há dois preços cobrados pelos coiotes. São cerca de US$ 8 mil (R$ 26 mil) para a travessia, mas o valor pode cair pela metade se o imigrante levar uma mochila com drogas até os EUA.

    Imigrantes descansam e lavam roupa em abrigo em Caborca, no México, na rota para atravessar a fronteira com os EUA
     

    Imigrantes descansam e lavam roupa em abrigo em Caborca, no México, na rota para atravessar a fronteira com os EUA (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Um dos poucos que se aventuravam pela primeira vez, o salvadorenho Emir (nome fictício), 30, levou 45 dias até chegar a Caborca. Diz ter viajado em 15 trens. “Foi difícil, há situações de que não vou esquecer nunca. Conheci uma menina que perdeu a perna subindo no trem.”

    À espera do momento certo para se arriscar no deserto, Emir não teme a linha dura de Trump: “Não existe um presidente dos Estados Unidos que não tenha deportado pessoas”.

     

    O muro tem frestas. A lógica é parecida à de uma visita na prisão: todos os dias, alguma família se reúne entre as grades “padrão Obama” que separam Nogales, México, de Nogales, Estados Unidos. Trocam comida, presentes, notícias, conversam, cantam e tentam se tocar.

    No terreno inclinado de chão batido, a faxineira Aída Laurean, 47, no lado mexicano, passou das 11h30 às 18h30 ao lado da filha Sofia, no lado americano.

    As duas se separaram quando Aria não quis perder o funeral da mãe, no México, mesmo sabendo que não conseguiria voltar aos EUA.

    Chegou a tempo para o enterro, mas ficou sete anos sem ver a filha.

    Família se reúne entre as grades que separa Nogales, do México, de Nogales, dos Estados Unidos; lógica é parecida à de uma visita na prisão (Lalo de Almeida/Folhapress)

    O muro assusta. Sofia, atendente de telemarketing, só se arriscou a se aproximar dele depois que começou a transitar o documento para a residência, ao qual tem direito por ter se casado há pouco com um mexicano-americano. Enquanto o processo não ficar pronto, porém, ela não pode deixar os EUA.

    Sobre Trump, Aída apenas brinca: “O comentário é que ele quer fazer um muro novo. Que seja bem baixinho para que eu possa pular.

    http://arte.folha.uol.com.br/mundo/2017/um-mundo-de-muros/mexico/ao-sul-da-fronteira/

    Questões

    Como o texto caracteriza a continuidade das políticas de construção de barreiras na fronteira EUA-México entre os governos de Clinton, Bush, Obama e Trump? Quais são as semelhanças e diferenças?

    Explique o impacto do muro, tanto físico quanto simbólico, sobre as vidas dos mexicanos e imigrantes. Como isso afeta suas rotinas e suas relações familiares?

    Qual é o argumento do padre Javier Calvillo sobre a postura de Obama em relação aos imigrantes? Como isso contradiz a percepção comum sobre o governo Obama?

    Como o muro influencia as questões econômicas e de trabalho na fronteira, especialmente para os operários mexicanos como Marcos e Fabiola?

    De que maneira o muro é usado como ferramenta de repressão e controle, mas também se torna um meio de subsistência para alguns dos habitantes da fronteira?

    Segundo o texto, quais são os desafios enfrentados por famílias como a de Hector, que têm pais mexicanos e filhos com cidadania norte-americana? Como o muro impacta suas vidas diárias e expectativas para o futuro?

    A construção de barreiras físicas pode ser vista como uma metáfora para outras formas de separação. Como o padre Calvillo aborda o conceito de ‘muros nas mentes e corações’? Qual seria o impacto de tal muro?

    O texto apresenta relatos de imigrantes que se arriscam em travessias perigosas. Quais são os maiores desafios enfrentados por eles e como o muro contribui para a intensificação desses perigos?

    Como o texto explora o papel do narcotráfico na fronteira? De que maneira as crianças são envolvidas nesse cenário, e como as famílias tentam proteger seus filhos desse perigo?

    Em sua opinião, qual é o principal objetivo do texto ao narrar as experiências das pessoas afetadas pelo muro? Que mensagem o autor tenta transmitir sobre o impacto dessa política nas vidas humanas?

     
     
     

    Prof. Luciano Mannarino