Categoria: China

  • Mulheres se tornam peças-chave na transição demográfica e econômica da China

    Mulheres se tornam peças-chave na transição demográfica e econômica da China

    Ouvir as demandas delas é necessário também para a própria legitimidade do Estado-Partido chinês

    16.out.2021 às 10h00

    Tatiana Prazeres

    PEQUIM

    As expectativas do governo chinês mudaram tão rapidamente que as propagandas nas ruas ainda mantêm o padrão antigo da “família margarina”. No metrô de Pequim, por exemplo, é possível ver um anúncio do Templo do Céu, um dos cartões postais da capital, em que pais jovens aparecem com duas crianças —um menino e uma menina—, todos felizes num passeio em um dia de céu azul.

    Após a política do filho único imperar durante 36 anos, o governo passou a estimular a formação de famílias maiores. A grande mudança ocorreu em 2015, quando ter um segundo filho foi permitido. Em maio de 2021, foi a vez de o terceiro ser autorizado. Assim, os cartazes do metrô já estão desatualizados.

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    Chinesas em um vagão de metrô exclusivo para mulheres em Guangzhou, capital da província de Guangdong, a mais populosa do país  – Giulia Marchi – 5.fev.18/The New York Times

    Políticas de planejamento familiar são tão debatidas na China que, horas depois do anúncio da última mudança, a hashtag #apolíticadoterceirofilhochegou teve 1,76 bilhão de visualizações na rede Weibo.

    Essa guinada acontece porque uma crise demográfica bate à porta da China, algo que ficou evidente no censo divulgado neste ano. As mulheres chinesas têm, em média, 1,3 filho, taxa bem abaixo do necessário para a reposição da população, de 2,1 filhos. Por isso, a população deve começar a encolher em breve.

    A redução populacional preocupa sobretudo devido às repercussões econômicas. A diminuição da força de trabalho limita o potencial de crescimento do país e, sem o bônus demográfico de tempos atrás, há menos gente produzindo e mais gastos com saúde, previdência e assistência social aos idosos.

    O temor é o de que, como em outros países, a China fique presa na armadilha da renda média, em que, após atingir certo nível de riqueza, vem a estagnação, impedindo-a de alcançar um padrão de renda alta.

    Para enfrentar esse desafio, o comando central chinês, formado em sua maioria por homens, precisa ouvir e olhar para as chinesas, peças-chave na transição demográfica e econômica do país.

    Na China de hoje, os casamentos estão em baixa, os divórcios em alta, e o interesse em ter dois filhos —quem dirá três— não é grande. Logo que as autoridades anunciaram que os casais poderiam ter três filhos, a agência estatal de notícias Xinhua pensou ser uma boa ideia conduzir uma enquete online: “Você está pronto para a política de três filhos?”. Resultado: “Não considero, de jeito nenhum, ter três filhos” foi a resposta mais selecionada, muito à frente das demais. A enquete rapidamente saiu do ar.

    As mulheres são as que mais hesitam, pois sabem que, apesar de mudanças significativas nas últimas quatro décadas, a sociedade segue depositando responsabilidades elevadas sobre elas.

    O governo tenta reverter a situação. Para conter a alta do número de divórcios, por exemplo, o primeiro Código Civil chinês, em vigor desde janeiro, estabeleceu um período para “esfriar a cabeça”, uma espécie de intervalo entre o pedido e a efetivação da separação para quem sabe, evitar decisões impulsivas.

    Quando o governo fala em famílias maiores, refere-se ao modelo tradicional. Caso elas decidam ser mães sozinhas, encontram dificuldades para que os filhos obtenham o “hukou”, o registro de residência que garante acesso aos serviços públicos básicos como saúde e educação.

    Em setembro, o governo também anunciou um estímulo à educação sexual de jovens, com o objetivo claro de evitar abortos que não sejam motivados por questões de saúde. A interrupção da gravidez é legal e relativamente comum na China, passando ao largo do debate moral-religioso comum em muitos países.

    Devido às altas expectativas relacionadas à educação, criar filhos custa especialmente caro para a classe média chinesa. Por isso, o governo se movimentou para impor limites rígidos à indústria de aulas extracurriculares, na tentativa de ajudar a aliviar a pressão financeira sobre os pais.

    Algumas cidades foram além e criaram incentivos financeiros para proles maiores. Em Panzhihua, na província de Sichuan, os casais poderão pleitear uma ajuda mensal equivalente a US$ 77 (cerca de R$ 423) para o segundo e o terceiro filhos, até que as crianças completem três anos de idade. Gansu, uma das províncias mais pobres da China, também divulgou recentemente medidas com a mesma finalidade.

    Ainda que sofram pressão de familiares para “dar continuidade” ao sangue e ao sobrenome do pai, ou que corram o risco de serem estigmatizadas como as “que sobraram”, muitas mulheres têm resistido a seguir os passos de suas mães. Cada vez mais elas têm se voltado contra o modelo de casamento tradicional.

    Sobre os homens recaem cobranças para que sejam deixadas de lado características consideradas “femininas”. Agora, autoridades determinaram que homens “afeminados” tenham menos espaço na TV.

    O movimento feminista, apesar das dificuldades, tem crescido na esteira do aumento de denúncias de casos de abuso e assédio sexual, na linha do #metoo. Mas mesmo com conquistas recentes, como leis e campanhas contra violência doméstica, a luta das mulheres na China é diferente da de outras partes.

    Feministas testam os limites do sistema e a tolerância das autoridades. Normalmente, encontram soluções criativas, buscam manter a discrição, usam emojis em vez de texto para contornar controles de conteúdo ou se manifestam evitando confrontação —uma comediante feminista, por exemplo, faz sucesso nas redes. Porque as mulheres, claro, ainda têm de contribuir para preservar a dita harmonia social.

    Os gêmeos Sun Qiyu e Sun Qichun seguram a bandeira chinesa na Praça da Paz Celestial, em Pequim
    Os gêmeos Sun Qiyu e Sun Qichun seguram a bandeira chinesa na Praça da Paz Celestial, em Pequim Kim Kyung-Hoon – 2.nov.2015

    O desafio demográfico requer que as mulheres, além de procriar, sigam trabalhando. Com a população economicamente ativa encolhendo, elas são indispensáveis na força laboral. Precisam, assim, continuar consumindo, além de cuidar da geração anterior, cada vez mais longeva. A conta não fecha. São necessárias mudanças significativas nas políticas de suporte e no mercado de trabalho.

    Como em outros países, a China precisa de mais creches. Mas os chineses precisam também vencer uma barreira cultural: a persistência da tradição de deixar crianças aos cuidados dos avós paternos, o que aumenta ainda mais a dependência das mulheres em relação ao marido. A percepção popular é a de que seria melhor confiar a eles —não a algum estranho– o cuidado dos pequenos.

    Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho pode ser cruel com as mulheres, especialmente em idade fértil ou com filhos pequenos. Ainda ocorre de uma mulher enfrentar, em entrevistas de emprego, perguntas sobre se pretende engravidar —talvez um resquício da época em que a unidade de trabalho tinha a responsabilidade de garantir o respeito às regras de planejamento familiar.

    A centralidade da mulher na nova fase econômica chinesa contrasta com a concentração persistente de homens na cúpula do governo e do Partido Comunista. Dos 25 membros do Politburo, uma das estruturas de poder mais importantes do país, há apenas uma mulher. No Comitê Permanente do Politburo, órgão ainda mais relevante, nunca houve uma mulher entre os seus sete membros.

    Conceber políticas públicas com um olhar para a situação das mulheres também se relaciona com a legitimidade do partido diante das novas gerações —especialmente as mulheres da nova classe média urbana. Seus desejos e ambições podem ser muito diferentes dos de suas mães que, até poucas décadas atrás, viviam majoritariamente num ambiente rural e centrado no modelo de família tradicional.

    A capacidade de as autoridades reconhecerem e responderem a essas mudanças têm impacto direto na satisfação —ao menos delas— em relação ao governo.

    Se em 2021 o Partido Comunista Chinês comemorou seu centenário, agora já está de olho nos objetivos associados à próxima comemoração. Em 2049, no 100º aniversário da República Popular da China, os líderes do país pretendem realizar o dito “sonho chinês”.

    Querem que a China seja “forte, democrática, civilizada, harmoniosa e um país socialista moderno’’. Pois a China não será tudo isso se as mulheres ficarem para trás. Ouvir as mulheres é necessário não apenas para o crescimento econômico, mas também para a própria legitimidade do Estado-Partido.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/10/mulheres-se-tornam-peca-chave-na-transicao-demografica-e-economica-da-china.shtml

    Prof Luciano Mannarino

    Para conter crise demográfica, China autorizará 3 filhos por família

    População da China tem menor crescimento em décadas e atinge 1,41 bilhão

    DEMOGRAFIA E TEORIA DA TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA.

  • Para conter crise demográfica, China autorizará 3 filhos por família

    Para conter crise demográfica, China autorizará 3 filhos por família

    Decisão é resposta a envelhecimento rápido da população mostrado por censo

    31.mai.2021 às 7h27

    PEQUIM | AFP e REUTERS

    A China anunciou nesta segunda (31) que vai autorizar a cada casal ter até três filhos, acabando com o limite de dois ainda em vigor. A decisão foi tomada poucas semanas após a divulgação dos resultados do último censo, que apontou expressiva queda da taxa de natalidade no país mais populoso do mundo.

    “Em resposta ao envelhecimento da população (…) os casais serão autorizados a ter três filhos”, informou a agência estatal Xinhua, ao relatar as conclusões de uma reunião do gabinete político do Partido Comunista comandada pelo líder Xi Jinping.

    Médico examina recém-nascido em maternidade da China
    Médico examina recém-nascido em maternidade da China – 25.abr.21/ AFP

    Xi disse que a mudança será acompanhada por “medidas de apoio conduzidas para melhorar a estrutura populacional do país, alcançando a estratégia de lidar ativamente com uma população em envelhecimento”. Entre as medidas, citou a redução dos custos de educação, o aumento do financiamento habitacional, a garantia dos interesses legais de mulheres que trabalham e a repressão aos dotes “estratosféricos”. Afirmou ainda que o país vai educar os jovens “para o casamento e o amor”.

    ​Até o ano passado, quem tinha um terceiro filho precisava pagar uma multa de 130 mil yuans (R$ 106,5 mil), de acordo com uma advertência governamental na cidade de Weihai.

    No dia 11 de maio, os resultados do censo realizado em 2020 revelaram um envelhecimento mais rápido que o esperado da população chinesa e o menor crescimento populacional em décadas. A China continental tinha 1,411 bilhão de habitantes em 2020, 72 milhões a mais do que em 2010. O crescimento anual médio entre 2011 e 2020, entretanto, foi de 0,53%, o menor ao menos desde a década de 1950. Na década anterior (2001-2010), essa taxa havia sido de 0,57%. ​

    Os dados mostraram uma taxa de fecundidade de 1,3 filho por mulher em 2020, em sintonia com sociedades em processo de envelhecimento, como Japão e Itália. No ano passado, marcado pela pandemia de Covid, o número de nascimentos no país caiu a 12 milhões, contra 14,65 milhões em 2019.

    A taxa de natalidade em 2019 (10,48 por 1.000) já estava no menor nível desde a fundação da China comunista, em 1949. Assim, em 2016, depois de mais de três décadas da “política do filho único”, a China flexibilizou as regras e permitiu o segundo filho.

    Mas a nova política não foi suficiente para estimular a taxa de natalidade, em queda livre devido a vários motivos, incluindo a redução no número de casamentos, o aumento do custo da moradia e da educação e, também, a decisão das mulheres de adiar os planos de gravidez para privilegiar a carreira profissional.

    Estudo publicado neste ano por cientistas da Universidade de Hangzhou mostrou que a política de dois filhos encorajou casais ricos e foi “menos sensível à carga financeira de criar uma criança”, levando a um aumento nos custos com educação e cuidados infantis e desencorajando pais de primeira viagem.

    A Xinhua fez uma enquete na rede social Weibo, questionando se a população estava pronta para a política dos três filhos. Cerca de 29 mil dos 31 mil que responderam afirmaram que “nunca pensariam nisso”. O restante escolheu as opções “estou pronto e querendo muito isso”, “está nos meus planos” ou “estou na dúvida e há muito a considerar”. A pesquisa foi posteriormente removida. “Estou pronto para ter três filhos se você me der 5 milhões de yuans [o equivalente a R$ 4 milhões]”, postou um usuário.

    ​No outro extremo da pirâmide, o censo mostrou que a China tinha mais de 264 milhões de pessoas com mais de 60 anos em 2020. O grupo de pessoas com mais de 60 anos constitui agora 18,7% do total da população, um aumento de 5,44 pontos percentuais na comparação com o levantamento de 2010.

    Do outro lado, a população em idade ativa (15 a 59 anos) representa 63,35% do total, uma queda de 6,79 pontos na comparação com a década anterior. Demógrafos advertiram que o país pode registrar o mesmo fenômeno de Japão e Coreia do Sul, com excesso de idosos em comparação à população jovem e ativa no mercado de trabalho, uma preocupação que levou o Parlamento chinês, em março, a aprovar um plano para aumentar progressivamente a idade de aposentadoria durante os próximos cinco anos.

    ​POLÍTICA DO FILHO ÚNICO IMPEDIU NASCIMENTO DE 400 MILHÕES

    No começo dos anos 1950, a China tinha cerca de 540 milhões de habitantes e, em menos de 30 anos, dobrou a população, atingindo 1 bilhão no começo da década de 1980.

    Em seguida, com uma política rígida de controle de natalidade, que permitia apenas um filho por casal em muitos casos, o crescimento populacional foi contido. Estima-se que a medida tenha impedido o nascimento de cerca de 400 milhões de pessoas desde sua aplicação, a partir de 1979.

    Casais que descumpriam as restrições estavam sujeitos a penas como pagamento de multas e perda de emprego, e havia denúncias de medidas mais duras, como esterilizações e abortos forçados.

    Em 2015, o regime suspendeu a política do filho único e passou a estimular que cada família tenha dois filhos. A decisão, porém, não aumentou a taxa de natalidade, o que levou a pedidos do fim do limite de duas crianças por família. A meta estabelecida em 2016 era superar 1,42 bilhão de habitantes em 2020.

    Pelos dados do último censo, a China conseguiu atenuar o desequilíbrio entre sexos induzido pela preferência tradicional por meninos e que, às vezes, leva à eliminação de fetos do sexo feminino. Assim, o país registrou o nascimento de 111,3 meninos para cada 100 meninas, uma proporção em queda de 6,8 pontos percentuais na comparação com 2010.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/05/china-anuncia-que-vai-autorizar-até-tres-filhos-por-familia.shtml

    Questões

    1 Por que a China implementou um rígido controle da natalidade no final da década de 1970?

    2 Explique a importância do Censo Populacional para um país.

    3 De que forma o controle da natalidade na China causou um desequilíbrio de gênero em sua população?

    4 Por que o envelhecimento da população é motivo de preocupação nos países?

    5 Os custos na criação de filhos são motivos para queda da natalidade no Brasil? Justifique.

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  • Brasil deveria entrar na ‘nova rota da seda’ da China? Talvez já esteja

    Brasil deveria entrar na ‘nova rota da seda’ da China? Talvez já esteja

    15.maio.2021 às 14h57

    Vista aérea de barragem financiada pela China no Equador. Federico Rios Escobar/The New York Times

    Igor Patrick

    Os números alardeados pela propaganda oficial impressionam: 70 países participantes, US$ 690 bilhões em investimentos e um longo cinturão conectando o leste asiático à Europa, África e, mais recentemente, à América Latina.

    Sob vários ângulos, a “nova rota da seda da China” —oficialmente “Iniciativa do Cinturão e Rota”— tinha tudo para se tornar o projeto do século, o ponto de virada que tornaria Pequim um grande centro do comércio internacional.

    O cancelamento de acordos assinados pela Austrália com a iniciativa e as dúvidas quanto à capacidade de economias de menor porte honrarem débitos contraídos com os bancos chineses, porém, acenderam o alerta amarelo: faz sentido para o Brasil se juntar ao pacote bilionário de infraestrutura?

    Anunciado em um discurso do líder chinês Xi Jinping no Cazaquistão, o projeto surgiu com menos coesão do que faz parecer o governo. Falando a estudantes da Universidade Nazarbayev, Xi pregou o “estreitamento dos laços econômicos, o aprofundamento da cooperação e a expansão do espaço de desenvolvimento na região da Eurásia. Devemos adotar uma abordagem inovadora e construir em conjunto um cinturão econômico ao longo da Rota da Seda”, disse ele, em referência ao lendário trajeto que ligava a Ásia à Europa por volta de 200 a.C.

    Membro sênior do John L. Thornton China Center do Brookings Institution, David Dollar era emissário do Tesouro americano na embaixada dos EUA em Pequim à época do discurso. Em entrevista à Folha, ele conta que a criação da marca “nova rota da seda” foi menos um projeto novo e mais uma forma de dar coesão a uma série de iniciativas que a China já vinha desenvolvendo desde que começou a internacionalização de empresas nacionais e o fortalecimento de laços diplomáticos estratégicos.

    “Eles já estavam desenvolvendo vários projetos no exterior desde 2008, e Xi Jinping criou uma marca para algo que já existia. Surpreendentemente, a reação da imprensa ocidental a esse discurso e o destaque que os jornais deram ao termo [nova rota da seda] foram os prováveis fatores a consolidar a iniciativa para os chineses. Já naquela época era, sem dúvidas, um importante pacote de incentivos econômicos voltados ao desenvolvimento, mas o slogan político ajudou a dar credibilidade”, opina o economista.

    Chineses visitam exposição sobre Iniciativa do Cinturão e Rota durante conferência organizada pelo Ministério dos Recursos Humanos. OIT/Divulgação

    A impressão de que a Iniciativa do Cinturão e Rota surgiu mais como uma campanha publicitária do que um projeto bem delineado talvez ajude a explicar as evidências coletadas por Dollar nos anos seguintes ao anúncio de Xi.

    Acompanhando o desenvolvimento do projeto, o economista conta que, a despeito dos anúncios grandiosos, os países que resolveram aderir ao projeto não receberam maiores investimentos chineses — em comparação com as economias que decidiram não se juntar à rota.

    “Se você pegar os discursos oficiais de Xi e os documentos chineses, é sempre possível encontrar referências ao Cinturão e Rota como o coração de uma grande estratégia conectando a Ásia Central à Europa e à África, seja por terra ou pelo mar. Porém, a maior parte dos investimentos chineses em infraestrutura não está concentrada neste corredor. O Brasil e vários países africanos, por exemplo, receberam muito mais dinheiro, mesmo que nem todos estejam oficialmente ligados ao projeto chinês.”

    Diplomacia flexível

    Pesquisadores dos investimentos estrangeiros no Brasil, os professores Fábio Morosini da UFRGS e Michelle Ratton Sanchez, da FGV-SP, acompanham há anos o linguajar jurídico dos contratos assinados por empresas chinesas. Conduzindo um levantamento sobre a participação da China no setor de energia elétrica brasileiro, eles avaliam que a indiferença quanto a aderir ou não a Iniciativa do Cinturão e Rota se dá pelo dinamismo dos acordos selados pelos chineses.

    “Existe uma discussão grande sobre o que é o modelo de cooperação dos Estados Unidos, ou como funcionam os marcos regulatórios da União Europeia. Percebemos que parece não haver um modelo chinês. Há flexibilidade para adaptar negócios, o que possibilita entrar em mercados diferentes, avaliando as ferramentas regulatórias e sensibilizando as estratégias de acordo com o ambiente jurídico local”, afirma Sanchez.

    Além disso, segundo Morosini, comparações preliminares entre os acordos da Iniciativa assinados com países asiáticos ou europeus e os memorandos em vigor no Brasil parecem não trazer grandes diferenças.

    O professor afirma que o Brasil já consolidou a posição de principal destino de investimentos chineses na América Latina e maior parceiro comercial de Pequim na região, dinâmica que uma negativa à Iniciativa do Cinturão e Rota dificilmente mudaria.

    “Estudamos acordos bilaterais assinados entre 2005 e 2018, o que nos permitiu concluir que o tipo de linguagem e as áreas estratégicas previstas nas relações sino-brasileiras são quase iguais [aos da Iniciativa do Cinturão e Rota]”, diz Morosini. “A provocação que fazemos é: será que ainda faz sentido debater se vale se juntar ou não à Iniciativa quando a China já conseguiu entrar no Brasil, digamos assim, utilizando de instrumentos jurídicos tão parecidos?”

    Iniciativa avança pela América Latina

    Se para o Brasil o debate não parece mais fazer sentido, outros países latino-americanos enxergam o projeto chinês como um farol de possíveis investimentos na região.

    Nos memorandos de entendimento, promessas para a construção de grandiosos projetos de infraestrutura ajudam a seduzir economias menos robustas, com menores ofertas de investimento estrangeiro direto disponíveis. A realidade, contudo, mostra que a diplomacia chinesa tem encontrado dificuldade em viabilizar esses projetos e ainda não conseguiu “encher os olhos” dos países mais representativos na região.

    Países na América Latina signatários da ‘nova rota da seda’ chinesa

    Pesquisador associado ao Instituto Internacional de Estudos Asiáticos da Universidade de Leiden, Rafael Abrão conta que, originalmente, a América Latina não seria incluída no projeto chinês, mas se tornou integrante por uma demanda dos países locais, ávidos por dinheiro chinês.

    Sem grande planejamento de antemão, os chineses anunciaram a chegada do projeto à região trazendo poucos investimentos novos e renomeando iniciativas antigas —e algumas até já concluídas— como parte do Cinturão e Rota.

    “Os chineses vêm ampliando a relevância na região há muito tempo e a América Latina é essencial ao desenvolvimento deles, à medida em que se consolida como a principal fonte de commodities. Tem um pouco de propaganda [na Iniciativa], mas parece haver também um desejo genuíno de impulsionar uma infraestrutura que facilite o escoamento e a exportação dessas mercadorias para a China”, afirma Abrão.

    O pesquisador destaca que todos os países latinos possuem déficits de infraestrutura e podem se beneficiar de possíveis parcerias com os chineses, embora seja necessário avaliar os riscos. Recentemente, a construção mal planejada de hidrelétricas no Equador usando dinheiro chinês deixou Quito em débito com o país, que agora quer ser ressarcido com petróleo, como previa o contrato inicial.

    O fracasso do investimento prejudicou a imagem da China entre equatorianos e fez ressurgir o temor da “armadilha da dívida”, usada por países europeus e pelos EUA para acusar Pequim de coagir economias frágeis a assumirem grandes empréstimos, exigindo concessões quando não conseguem receber de volta o dinheiro.

    “Esse risco não é recente e não se restringe à China. A própria Argentina está em uma situação bem delicada com o dinheiro que pegou do FMI. Mesmo assim, é importante que os países sejam responsáveis ao assumir compromissos de longo prazo com bancos chineses”, aconselha Abrão.

    Dollar segue o mesmo entendimento. “Não gosto desse conceito de ‘armadilha da dívida’ porque não acredito nem por um segundo que chineses emprestam dinheiro já na expectativa de levar um calote. Se estes exemplos nos dizem algo, é que bancos chineses têm feito um trabalho ruim na análise de risco e que os países precisam escolher levantar projetos sustentáveis”.

    Prof Luciano Mannarino

  • População da China tem menor crescimento em décadas e atinge 1,41 bilhão

    População da China tem menor crescimento em décadas e atinge 1,41 bilhão

    Censo revela aumento do número de idosos e queda na proporção de homens

    10.mai.2021 às 23h40 – Atualizado: 11.mai.2021 às 12h14

    Rafael Balago

    SÃO PAULO | REUTERS e AFP

    Após seguidos adiamentos, a China revelou, enfim, os dados de seu último censo. De acordo com o levantamento, divulgado na manhã desta terça (11) —noite de segunda (10) no Brasil—, a parte continental do país asiático tinha 1,411 bilhão de habitantes em 2020, 72 milhões a mais do que em 2010.

    Trata-se da menor taxa de crescimento populacional no país asiático ao menos desde a década de 1960.

    Os dados mostram uma taxa de fecundidade de 1,3 filho por mulher em 2020, em sintonia com sociedades em processo de envelhecimento, como Japão e Itália.

    O censo é feito a cada dez anos pelo Departamento Nacional de Estatísticas e, nesta edição, envolveu o trabalho de mais de 7 milhões de funcionários entre novembro e dezembro de 2020. Parte dos dados foi coletada online: moradores puderam escanear QR codes e preencher os formulários usando celulares.

    Chineses caminham em distrito financeiro de Pudong, em Xangai – Aly Song – 10.mai.2021/Reuters

    No último levantamento, de 2010, o país tinha 1,339 bilhão de habitantes. Assim, o crescimento anual médio entre 2011 e 2020 foi de 0,53%. Na década anterior (2001-2010), essa taxa havia sido de 0,57%.

    Com esse ritmo, o país pode perder o título de maior população do mundo mais rapidamente que o previsto. A Índia deve registrar em 2020, de acordo com estimativa da ONU, 1,38 bilhão de habitantes —e a população indiana cresce, em média, 1% ao ano, segundo estudo divulgado no ano passado por Nova Déli.

    A China havia previsto que a curva de crescimento populacional atingiria o pico em 2027, quando seria superada pela Índia. A população chinesa começaria, então, a diminuir, até chegar a 1,32 bilhão em 2050. O porta-voz do Escritório Nacional de Estatísticas, Ning Jizhe, confirmou que o país se aproxima do pico, mas não antecipou uma data. A população deve ser superior a 1,4 bilhão “durante um certo tempo”, disse.

    A queda da taxa de natalidade tem várias razões: diminuição do número de casamentos, custo de habitação e educação e gravidez mais tardia das mulheres que priorizam a carreira, por exemplo.

    No ano passado, marcado pela pandemia de Covid-19, o número de nascimentos caiu a 12 milhões, contra 14,65 milhões em 2019, ano em que a taxa de natalidade (10,48 por 1.000) já estava no menor nível desde a fundação da China comunista, em 1949. A pandemia de coronavírus “aumentou a incerteza da vida cotidiana e a preocupação com o nascimento de um filho”, explicou Ning.

    No começo dos anos 1950, o país tinha cerca de 540 milhões de habitantes e, em menos de 30 anos, dobrou a população, atingindo 1 bilhão no começo da década de 1980.

    Em seguida, com uma política rígida de controle de natalidade, que permitia apenas um filho por casal em muitos casos, o crescimento populacional foi contido. Estima-se que a medida tenha impedido o nascimento de cerca de 400 milhões de pessoas desde sua aplicação, a partir de 1979.

    Casais que descumpriam as restrições estavam sujeitos a penas como pagamento de multas e perda de emprego, e havia denúncias de medidas mais duras, como esterilizações e abortos forçados.

    Em 2015, o regime suspendeu a política do filho único e passou a estimular que cada família tenha dois filhos. A decisão, porém, não aumentou a taxa de natalidade, o que leva a pedidos do fim do limite de duas crianças por família. A meta estabelecida em 2016 era superar 1,42 bilhão de habitantes em 2020.

    Pelos dados do último censo, a China conseguiu atenuar o desequilíbrio entre sexos induzido pela preferência tradicional por meninos e que, às vezes, leva à eliminação de fetos do sexo feminino. Assim, o país registrou o nascimento de 111,3 meninos para cada 100 meninas, uma proporção em queda de 6,8 pontos percentuais na comparação com 2010.

    Em fevereiro deste ano, o Ministério da Segurança Pública chinês já havia divulgado números que apontavam queda no número de recém-nascidos. Segundo os dados, houve 11,79 milhões de nascimentos em 2019 —em 2020, esse número caiu para 10,035 milhões.

    Foto aérea de um bairro cultural de Beicang, localizado no distrito de Jiangbei, em Chongqing, que foi reformado a partir de um antigo armazém têxtil; cidade possui topografia montanhosa
    Foto aérea de um bairro cultural de Beicang, localizado no distrito de Jiangbei, em Chongqing, que foi reformado a partir de um antigo armazém têxtil; cidade possui topografia montanhosa Liu Chan – 23.abr.2021/Xinhua

    O regime chinês havia contestado, no fim de abril, uma reportagem do jornal britânico Financial Times que apontava encolhimento no número de habitantes na China pela primeira vez em décadas.

    POPULAÇÃO MAIS VELHA E MAIS URBANA

    O total de maiores de 60 anos na China subiu 5,4 pontos percentuais na última década, enquanto o de crianças e adolescentes de até 14 anos aumentou 1,3 ponto percentual. Agora, a população se divide em 18,7% de idosos, 17,95% com até 14 anos de idade e 63,35% com idades entre 15 e 59 anos.

    Por isso, os demógrafos advertem que o país pode registrar o mesmo fenômeno de Japão e Coreia do Sul, com excesso de idosos em comparação à população jovem e ativa no mercado de trabalho, uma preocupação que levou o Parlamento chinês, em março, a aprovar um plano para aumentar progressivamente a idade de aposentadoria durante os próximos cinco anos.

    Em relação à distribuição dos habitantes pelo país, as cidades ganharam 236 milhões de habitantes, e o total da população que vive em áreas urbanas aumentou 14 pontos percentuais, atingindo 63,89%. Ao mesmo tempo, a população “flutuante” de migrantes internos —pessoas de zonas rurais que trabalham em cidades com pouca proteção social— chegou a 376 milhões, aumento de quase 70% em uma década.

    Na educação, o país elevou a taxa de adultos que foram à universidade: o índice passou de 8,9 para 15,4 a cada 100 habitantes. Na mesma toada, o analfabetismo caiu de 4% para 2% do total.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/05/populacao-da-china-cresce-mais-devagar-e-atinge-141-bilhao-de-pessoas-em-2020.shtml

    Questões

    1 Aponte algumas razões para a queda da taxa de natalidade na China.

    2 Explique a diferença de gênero na população jovem da China.

    3 Por que China tem buscado aumentar progressivamente a idade da aposentadoria de sua população ativa?

    4 Por que a China vai perder o posto de maior população absoluta do mundo na próxima década?

    DEMOGRAFIA E TEORIA DA TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA.

    O perfil demográfico do Brasil até 2100 e os desafios da covid-19

    População

    Risco de mais desastres naturais

    Prof Luciano Mannarino

  • Há 50 anos, campeonato de pingue-pongue abriu novo capítulo na relação EUA-China

    Há 50 anos, campeonato de pingue-pongue abriu novo capítulo na relação EUA-China

    Rodaram o mundo as fotos do encontro inusitado entre representantes de países cujas relações diplomáticas estavam rompidas

    15.abr.2021 às 23h15

    Há 50 anos, no auge da Guerra Fria, o Japão sediava o campeonato mundial de pingue-pongue. O que deveria ser um evento sem nenhuma relevância política serviu de palco para uma das manobras diplomáticas mais fascinantes e consequentes da nossa era. Abriu-se um novo capítulo na história do relacionamento entre EUA e China.

    Num dado momento durante a competição, o jogador americano Glenn Cowan entrou, por engano, no ônibus que conduzia a equipe chinesa de pingue-pongue. O ônibus partiu. No caminho, com a ajuda de um intérprete, o campeão mundial Zhuang Zedong puxou conversa com o americano. Presenteou-o com imagens de montanhas chinesas pintadas em seda.

    O atleta de tênis de mesa Zhuang Zedong, à dir., cumprimenta o jogador americano Glenn Cowan durante visita aos EUA
    O atleta de tênis de mesa Zhuang Zedong, à dir., cumprimenta o jogador americano Glenn Cowan durante visita aos EUA – Xu Bihua – abr.72/Xinhua via AFP

    Devidamente alertada, a imprensa estava pronta para registrar o momento em que o ônibus chegasse ao seu destino. Circularam no mundo as fotos do encontro inusitado — e amistoso — entre representantes de países cujas relações diplomáticas estavam rompidas havia duas décadas.

    A dois dias do fim da competição, o time chinês surpreendeu a equipe americana com um convite para visitar a China. Foi basicamente assim, quase de supetão —mas com diplomacia ousada nos bastidores—, que ocorreu a primeira visita oficial de uma delegação americana à China em mais de 20 anos.

    Em 14 de abril de 1971, no Grande Salão do Povo em Pequim, o time americano foi recebido pelo primeiro-ministro Zhou Enlai. Diante de jovens americanos estáticos, o premiê anunciou: “Vocês inauguraram um novo capítulo na história dos povos da China e dos EUA”.

    A chamada diplomacia do pingue-pongue serviu de catalisador para aproximar China e EUA que, naquele momento, tinham na União Soviética um inimigo comum. Richard Nixon queria terminar a guerra no Vietnã. Mao Tsé-Tung queria tirar a China do isolamento em que se encontrava. O interesse era recíproco —apesar de as desconfianças serem enormes e nutridas mutuamente.

    O pingue-pongue ajudou a preparar o público para a ideia de uma reaproximação. Humanizou uma relação vista até então apenas pelo ângulo geopolítico. Mais que uma distração, ajudou os dois lados a deixarem as diferenças de lado.

    Propriedade intelectual: esse capítulo do documento trata basicamente de questões relativas a fórmulas, processos e padrões que são utilizados por negócios para obter vantagem sobre a concorrência e que podem ser considerados confidenciais. Também engloba propriedade intelectual relacionada a produtos farmacêuticos, indicação geográfica de um bem ou serviço, marcas registradas e coação contra produtos pirateados e falsificados
    Propriedade intelectual: esse capítulo do documento trata basicamente de questões relativas a fórmulas, processos e padrões que são utilizados por negócios para obter vantagem sobre a concorrência e que podem ser considerados confidenciais. Também engloba propriedade intelectual relacionada a produtos farmacêuticos, indicação geográfica de um bem ou serviço, marcas registradas e coação contra produtos pirateados e falsificados Kevin Lamarque – 15.jan.2020/Reuters

    O episódio abriu o caminho para que, no ano seguinte, Nixon visitasse a China. Em 1972, o presidente americano foi a Pequim, Xangai e Hangzhou — as mesmas cidades que o time de pingue-pongue havia visitado no ano anterior.

    De lá para cá, o mundo assistiu à ascensão e queda do relacionamento bilateral.

    Nesta semana, o aniversário da diplomacia do pingue-pongue motivou eventos em Xangai, discursos de diplomatas chineses e notícias na imprensa local evocando o espírito daquele momento. Nos EUA, isso não encontra mais eco.

    A política de engajamento dos americanos em relação à China, inaugurada pela diplomacia do pingue-pongue, encerra seu ciclo justamente 50 anos depois. Não terminou com Donald Trump. O fim está sendo decretado por Joe Biden, ao dar continuidade à linha do seu antecessor. Não é claro o que substituirá o engajamento, mas é certo que, como concebido, não tem mais futuro.

    Joe Biden faz juramento como 46º presidente dos EUA
    Joe Biden faz juramento como 46º presidente dos EUA Kevin Lamarque/Reuters

    Acertadamente, Biden busca corrigir vários aspectos da política externa de Trump. Em matéria de China, no entanto, hesita. O legado tóxico de Trump deixou marcas profundas nos EUA. Ainda é cedo para tirar conclusões, mas muitos sinais são de trumpismo sem Trump.

    Não deixa de ser irônico que, justamente quando se relembra o pingue-pongue, vozes nos EUA defendam o boicote da Olimpíada de Inverno de Pequim de 2022. Provavelmente não boicotarão, mas a mera discussão do assunto é emblemática da mudança de postura.

    Em 1971, durante o campeonato no Japão, Glenn Cowan, presenteado pelo colega chinês, buscou algo para lhe oferecer em retribuição. A lembrança improvisada pelo jogador de cabelos longos, visual hippie e fã dos Beatles foi uma camiseta com os dizeres “Let it Be”. Definitivamente outros tempos. O jogo agora é outro.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tatiana-prazeres/2021/04/ha-50-anos-campeonato-de-pingue-pongue-abriu-novo-capitulo-na-relacao-eua-china.shtml

    Questões

    Explique o contexto geopolítico que aproximaram chineses e americanos no início dos anos de 1970.

    Por que o “legado tóxico de Trump deixou marcas profundas” nas relações entre China e EUA?

    Por que as relações diplomáticas entre EUA e a China foram interrompidas após da 2 Guerra Mundial?

    Prof Luciano Mannarino