Categoria: China

  • China dobra aposta em tecnologia

    China dobra aposta em tecnologia

    País mobiliza grandes investimentos para projetos de tecnologia em estágios iniciais

    1º.abr.2021 às 23h15

    Volumes fabulosos de recursos já foram investidos no desenvolvimento de semicondutores e, apesar disso, a China segue altamente dependente da importação desses insumos.

    Anos de expectativas frustradas incomodam o governo chinês. Não apenas porque isso evidencia a dificuldade de transformar desejos em realidade, mas também porque coloca a China numa posição vulnerável do ponto de vista tecnológico.

    Do total de semicondutores que consome, a China produz apenas 30% e importa o restante, numa proporção que há anos insiste em não se alterar.

    A China depende de chips para produzir outros bens, para exportar e para inovar. Produtores de carros chineses, por exemplo, importam 90% dos semicondutores de que necessitam.

    Um funcionário trabalha em uma fábrica de semicondutores em Nantong, na província de Jiangsu, leste da China
    Um funcionário trabalha em uma fábrica de semicondutores em Nantong, na província de Jiangsu, leste da China – 17.mar.2021/AFP

    Os EUA enxergaram na fragilidade chinesa uma oportunidade. Adotaram medidas para restringir suas exportações de semicondutores para a China. Foram além e criaram dificuldades para que empresas estrangeiras mesmo fora dos EUA vendessem, para a China, equipamentos e software para a produção de chips.

    Ainda que em escala menor, histórias parecidas se repetem em outras tecnologias. É extensa a lista de empresas chinesas proibidas de fazer negócios com firmas americanas. Com isso, limita-se o acesso chinês a certos insumos estratégicos.

    Qual a consequência do outro lado do mundo? O Estado-investidor chinês aumenta seu apetite pelo risco. Pequim passa a atuar como um “venture capitalist” —como argumentou Arthur Kroeber num webinário organizado pelo Cebri e Conselho Empresarial Brasil-China nesta semana.

    Claro, investimentos em política industrial, em tecnologia e mesmo em autossuficiência não são novidade na China. No entanto, agora Pequim mais que dobrou a aposta.

    O que há de novo são a ousadia na maneira de investir, o volume de recursos envolvidos na empreitada e a coerência estratégica da intervenção do Estado, segundo Kroeber.

    Pequim passa a mobilizar grandes investimentos em setores intensivos em tecnologia, especialmente para vários projetos em estágios iniciais —arriscados, mas potencialmente promissores.

    Como é típico do modelo de “venture capitalism”, nem todas as apostas vão se revelar acertadas. Mas, claro, a ideia é de que haja vencedores suficientes para compensar os investimentos que inevitavelmente fracassarão.

    Sede do gigante do varejo Alibaba em Hangzhou, província de Zhejiang
    Sede do gigante do varejo Alibaba em Hangzhou, província de Zhejiang Aly Song/Reuters

    Apesar de tudo, o sucesso não é garantido. As dificuldades normalmente associadas a política industrial estão presentes também na China. Há espaço para desperdício, favorecimentos, distorções e corrupção.

    Quando, no ano passado, Pequim definiu novos incentivos para o desenvolvimento de semicondutores, empresas de todos os tipos se aprontaram para pleitear benesses. O governo precisou agir para evitar abusos. Definiu três “nãos”. Empresas sem experiência, sem tecnologia e sem capital humano na área não deveriam se aventurar aí —não com recursos públicos.

    Se o intervencionismo estatal tem seus riscos, a lógica do relacionamento entre Estado e mercado na China, no entanto, sempre foi diferente. O setor público é visto sobretudo como parte de solução e não como o problema na economia.

    Ronaldo Lemos na Torre Pérola em Nanjing, China
    Ronaldo Lemos na Torre Pérola em Nanjing, China Bruno Prada

    Expressões como China Inc. e capitalismo de Estado, por exemplo, representam o esforço de capturar a essência deste modelo híbrido —e que também se transforma. Mas enquanto o resto do mundo aponta para as contradições, os chineses enxergam as sinergias da relação.

    Nas atuais circunstâncias, a dependência tecnológica da China e o ambiente internacional difícil para o país contribuem para a ousadia do Estado-investidor. Não por acaso o recém-adotado plano quinquenal prioriza autossuficiência tecnológica.

    Se fosse um investidor privado, a China de hoje teria perfil arrojado. O risco é alto, mas o retorno também pode ser. Em jogo, estão os rumos da competição tecnológica, econômica e geopolítica. Com bolsos mais fundos que no passado, Pequim está disposta a pagar para ver.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tatiana-prazeres/2021/04/china-dobra-aposta-em-tecnologia.shtml

    Questões.

    O que seria o “Capitalismo de Estado” implementado na China?

    Aponte contradições entre esse modelo e o modelo neoliberal.

    Num mundo cada vez mais competitivo, qual a importância da autossuficiência tecnológica?

    Quais são as medidas que os EUA vem adotando para dificultar o avanço da China nessa área?

    Prof Luciano Mannarino

  • Rússia, China e Índia lideram projeção geopolítica com a vacina (atividade)

    Rússia, China e Índia lideram projeção geopolítica com a vacina (atividade)


    Países mais ricos, por sua vez, buscam imunizar suas populações para reativar economia

    3.fev.2021 às 23h15

    Igor Gielow

    SÃO PAULO

    Enquanto EUA e Europa tentam imunizar suas populações mais rapidamente do que cresce a taxa de mutações do novo coronavírus, Rússia, China e Índia apostam na projeção geopolítica da vacina.

    As três potências, que integram o moribundo grupo Brics com Brasil e África do Sul, têm feito movimentos de expansão de sua influência a partir da oferta de imunizantes, em especial a países em desenvolvimento.

    Enfermeira boliviana recebe dose da Sputnik V russa em hospital de La Paz
    Enfermeira boliviana recebe dose da Sputnik V russa em hospital de La Paz – Jorge Bernal/AFP

    Os russos tiveram uma semana de boas notícias, com sua contestada Sputnik V sendo chancelada pela comunidade científica a partir da publicação de seus dados preliminares de fase 3 na prestigiosa revista britânica The Lancet.

    Isso abriu as portas para a chanceler alemã, Angela Merkel, dizer que se o imunizante for aprovado para uso na Europa, ela ajudaria Vladimir Putin a fazê-lo na Alemanha —resolvendo um dos gargalos da Sputnik V.

    Além disso, a aprovação para uso emergencial e fabricação no Brasil avançaram consideravelmente. Nesta quarta (3), México e Nicarágua elevaram para 18 os países que já deram aval para a vacina, 6 deles na América Latina.

    Para Putin, o prestígio é peça central, ainda mais no momento em que a pressão ocidental acerca da prisão do opositor Alexei Navalni cresce exponencialmente.

    De quebra, alguns negócios típicos dos russos podem avançar ao mesmo tempo.

    Na Argentina, que vacinou 0,88% de sua população desde a virada do ano com a Sputnik V, o embaixador da Rússia ofertou, segundo relatos, a venda de caças Su-30 ou MiG-29 para a Força Aérea local, que voa em estado miserável.

    Na mão inversa, compradores recente de caças russos como Egito e Argélia usaram os canais azeitados para receber o fármaco de Moscou.

    FRANÇA - Enfermeira injeta uma dose da vacina Pfizer-BioNTech Covid-19 em um membro da equipe médica de Hospital na cidade de Lyon
    FRANÇA – Enfermeira injeta uma dose da vacina Pfizer-BioNTech Covid-19 em um membro da equipe médica de Hospital na cidade de Lyon Jeff Pachoud/AFP

    Na quarta, desembarcaram na África do Sul 1 milhão de doses da vacina indiana Covishield, a versão sob licença do fármaco da AstraZeneca/Universidade de Oxford.

    Embora ela seja entregue pelo consórcio da Organização Mundial da Saúde Covax, que ajuda países mais pobres, é uma bandeira fincada pelo maior produtor de vacinas do mundo no continente mais desprezado pelos fabricantes.

    Com isso, Nova Déli entra na disputa com o maior ator externo na África, Pequim.

    O presidente Xi Jinping já prometeu ajudar 38 países com dificuldades na pandemia, com foco no continente, para o qual destinou US$ 2 bilhões para imunizantes.

    A África do Sul, onde uma nova variante mais transmissível do Sars-CoV-2 assusta cientistas, encomendou 12 milhões de doses ao consórcio.

    Vai precisar de mais: isso supre menos de 10% de sua população, lembrando sempre que são vacinas que necessitam de duas inoculações.

    Segundo a União Africana, os países da região já reservaram 400 milhões de doses na Índia, ante 270 milhões de farmacêuticas ocidentais. O Covax deverá entregar 700 milhões, de diversos produtores.​

    Também nesta quarta a China aplicou um golpe contra os indianos, rivais econômicos com quem quase foram às vias de fato em uma escaramuça fronteiriça em 2020.

    Pequim anunciou a entrega de lotes doados de vacinas chinesas para o Paquistão, seu aliado e maior inimigo da Índia, que já era cliente da estatal Sinopharm.

    As atitudes desses colegas de Brics contrastam com a estratégia de países ricos, de assegurar para si o maior número de doses possível.

    Há lógica geopolítica também: eles precisam conter a pandemia para reativar fluxos econômicos e manter estabilidade social, tão importantes quanto influência externa.

    Segundo o monitor de contratos para entrega de vacinas da agência Bloomberg, que conta 110 acordos oficiais, nada menos do que 40% dos 8,57 bilhões de doses negociadas estão nas mãos de EUA, União Europeia, Reino Unido, Japão e Canadá, que somam 13% da população mundial.

    Os canadenses reservaram uma cobertura vacinal três vezes maior do que a necessária.

    Os dados são só referências. Há vacinas com problemas crescentes de aceitação, inclusive a campeã de contratos (3 bilhões de doses), a da AstraZeneca/Universidade de Oxford.

    Índia começa a vacinação contra a Covid-19

    Indiana tem seu dedo marcado para registrar que já foi vacinada contra a Covid em hospital de Hyderabad
    Indiana tem seu dedo marcado para registrar que já foi vacinada contra a Covid em hospital de Hyderabad Noah Seelam/AFP

    Além isso, não há informações confiáveis acerca de quantas vacinas estarão disponíveis para China e Índia, os dois países mais populosos do mundo, com 1,44 bilhão e 1,38 bilhão, respectivamente.

    A Índia quer vacinar 300 milhões até agosto. Até aqui, só inoculou 0,29% da população.

    Mas o país, que produz 60% das vacinas do mundo, será uma grande fábrica de imunizantes ocidentais vendidos para terceiros, também.

    Já a China, que usa três de suas vacinas no programa emergencial desde julho passado, também está empenhada em parcerias externas.

    Um dos casos mais conhecidos é o da Coronavac, feita em parceria com o Butantan e cuja disponibilidade forçou o até então negacionista Jair Bolsonaro a adotá-la.

    Esses são efeitos secundários dessa disputa geopolítica: sob risco de ficar sem insumos chineses, Bolsonaro mudou sua postura crítica à ditadura chinesa e até deve aceitar a presença da Huawei como fornecedora de redes 5G.

    Mas tanto no caso chinês como no indiano, há considerações de política interna a fazer, como o episódio em que Nova Déli segurou uma carga de 2 milhões de doses para o Brasil da vacina de Oxford no começo de sua campanha.

    Outro ponto é de imagem: a China controlou a pandemia de forma eficaz, antes da vacina, enquanto os EUA caíram no caos e lideram o ranking da tragédia.

    Mas os americanos estão vacinando em alta velocidade relativa: 10% dos moradores já receberam ao menos uma dose, e 2%, duas. A China, até por ser quatro vezes mais populosa, só vacinou 1,7%.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/02/russia-china-e-india-lideram-projecao-geopolitica-com-a-vacina.shtml

    Questões

    Por que o segundo parágrafo menciona a expressão moribundo quando se refere ao BRICS?

    Qual o litígio de fronteira foi motivo do aumento da tensão entre chineses e indianos em 2020?

    A dependência de insumos chineses para produção de vacinas no Brasil tornou nossa política externa mais pragmática.? Justifique.

    Coreias do Norte e do Sul restabelecem comunicação encerrada há dois meses

    Cercado, Japão se afasta do pacifismo e acelera uso de armas ofensivas. (atividade)

    Prof Luciano Mannarino

  • Biden aceita acordo de armas nucleares com a Rússia, mas sinaliza pressão

    Biden aceita acordo de armas nucleares com a Rússia, mas sinaliza pressão

    22.jan.2021 às 9h00

    Igor Gielow SÃO PAULO


    Pressionado por desafios que vão do coronavírus à Guerra Fria 2.0 com a China, Joe Biden optou por uma solução convencional para ganhar sua primeira manchete de política internacional como presidente dos EUA. Na noite de quinta (21), o novo presidente americano anunciou que quer estender por cinco anos o acordo Novo Start, o último instrumento de controle de armas nucleares em vigência no mundo.​

    Bombardeiro estratégico russo Tu-160 pousa na base de Engels, no sul da Rússia – AFP – 20.nov.20

    Ao mesmo tempo, para não parecer que cedeu ao desejo do Kremlin de Vladimir Putin, investigações serão feitas pelo governo americano sobre três temas sensíveis, passíveis da formulação de novas sanções comerciais contra os russos. Entre eles estão o envenenamento e agora prisão do líder opositor russo Alexei Navalni, o recente ataque de hackers a diversos sistemas governamentais americanos e uma acusação mais antiga, a de que a Rússia pagou mercenários afegãos para atacar alvos dos EUA no país asiático. A secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, afirmou que tais medidas visam coibir as “atitudes imprudentes e adversativas” da Rússia, enquanto a extensão do Novo Start seria “uma âncora de estabilidade” na relação entre os países. Nesta sexta, a Rússia disse que a proposta nuclear era bem-vinda, mas não comentou o restante do pacote.

    Anteriormente, o caso Navalni foi classificado como assunto judicial interno russo, e as outras duas acusações, negadas. O jogo de Biden, que recebera sinais de impaciência por parte da Rússia, é claro. A lista de lavanderia de problemas mundiais e domésticos em sua mesa, deixada pela gestão tormentosa de Donald Trump, é muito grande. Aceitar os termos russos no Novo Start é uma forma de ganhar tempo e ainda aparecer bem na foto, dado que é a sobrevivência da raça humana que se encontra em jogo quando se discute o arsenal das duas potência nucleares.

    Ao mesmo tempo que assopra, morde em questões que na prática tendem a não dar em nada, mas mantém uma pressão retórica contra Moscou e lembra Putin que o tempo de leniência de Trump acabou.

    O Novo Start (sigla inglesa para Tratado de Redução de Armas Estratégicas, enquanto o “novo” diz respeito a versões anteriores dele) foi assinado em 2010 e iria expirar no dia 5 de fevereiro.

    Por mais de dois anos, negociadores de Trump tentaram mudar seu conteúdo. Primeiro, insistiram que a China fosse incluída, algo negado por Pequim e Moscou. Depois, numa reviravolta, deixaram isso de lado e exigiram que mais armas fossem incluídas numa moratória nuclear.

    Tudo isso garantiria, para Washington, apenas um adiamento de um ano. Putin disse não, e Biden agora aceita suas condições integralmente, temperando o fato com palavras duras e ameaças legais para não parecer derrotado.

    Seja como for, do ponto de vista da paz mundial, é uma boa notícia. O Novo Start é o único tratado em vigor para tentar coibir a corrida armamentista entre russos e americanos.

    Ele prevê um limite de 1.550 ogivas nucleares operacionais e de 800 meios de lançamento (silos e lançadores de mísseis terrestres, submarinos e bombardeiros, 700 deles de prontidão). Também estabelece monitoramento por satélite e 18 inspeções mútuas anuais.

    Especialistas argumentam que é pouco, dada a evolução das armas. Mas é ao menos algo, argumentam negociadores do campo.

    Trump optou pelo confronto nesse setor, levando ao que Putin chama de perigoso aumento de risco de uma guerra nuclear acidental. O americano deixou dois outros tratados que visavam evitar o embate, um sobre mísseis de alcance intermediário na Europa e outro sobre voos de reconhecimento militar mútuos.

    Além disso, revisou a postura nuclear americana para permitir o uso de armas atômicas ditas táticas, contra alvos militares pontuais, e colocou um desses modelos de bombas em operação no ano passado em seus submarinos.

    Tudo isso fez o Kremlin reagir e dizer que estava pronto para retaliar com toda a força de seu arsenal se um mísero míssil tático, armado com ogiva nuclear ou não, fosse lançado contra si ou aliados —um problema, dado que no papel o Irã, alvo presumido de ataques do gênero, é próximo de Moscou.

    Para críticos, a extensão é mera forma de Putin ganhar mais tempo enquanto enfrenta seus problemas internos e externos —só em 2020, teve de intervir em três crises nas suas periferias (Belarus, Armênia e Quirguistão) e viu o surgimento de uma quarta em potencial (Moldova).

    De fato, o russo testa novos modelos de mísseis de menor alcance, mas os EUA fazem o mesmo desde que deixaram o tratado de instalação na Europa.

    É incerto também quando e se as novas tecnologias de entrega de ogivas nucleares a seus alvos, como os mísseis hipersônicos tão propalados por Putin, entrarão em algum momento num tratado.

    Herança da Guerra Fria, o arsenal nuclear mundial está concentrado nas mãos dos antigos adversários. Cerca de 92% das 13.400 armas atômicas do mundo são americanas ou russas, segundo a Federação dos Cientistas Americanos.

    O maior inventário é de Moscou: 6.370 ogivas, 2.060 das quais desativadas e 4.310 em estoque. Sob os limites do Novo Start, 1.572 estão operacionais em mísseis de solo, de submarinos ou em aviões.

    Homem empurra bicicleta observando os escombros da cidade de Hiroshima em 1946 The National Archives/Reuters

    Já Washington conta 5.800 armas, 2.000 delas aposentadas, 3.800 em estoque e 1.750 ativas —150 delas não cobertas pelo Novo Start por serem de uso tático, e não estratégico, aquelas usadas para ganhar guerras.

    Moscou também tem um número incerto dessas armas, é claro, e a falta de transparência no geral preocupa especialistas. A China, terceira maior potência nuclear, tem 320 ogivas estocadas, o suficiente para lhe garantir um poder de dissuasão.

    Sob uma ótica pessimista, os limites do Novo Start não impedem que o mundo seja obliterado muitas vezes no caso de uma guerra. Mas são limites, e servem para manter as cabeças frias.

    Ironicamente, entrou em vigor nesta sexta um tratado utópico das Nações Unidas, que visa a proibição completa das armas nucleares no mundo, com a assinatura de 86 países, incluindo o Brasil, e a ratificação de 51 nações. Naturalmente, nenhuma das nove potências atômicas o subscreveu.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/01/biden-aceita-acordo-de-armas-nucleares-com-a-russia-mas-sinaliza-pressao.shtml

    Questões

    1. Qual a importância da assinatura do “Novo Start”?
    2. O último parágrafo da reportagem assinala uma grande hipocrisia existente na “geopolítica das armas atômicas”. Justifique.
    3. O que seria a Guerra Fria 2.0?

    Prof Luciano Mannarino

  • Glorificação do trabalho na China combina ambições pessoais e endosso do Estado

    Glorificação do trabalho na China combina ambições pessoais e endosso do Estado

    Cultura inclui elementos do confucionismo, resistência a adversidades e sacrifício pessoal

    8.out.2020 às 23h15

    Você está ocupado? Ni mang ma? Esse era o tema do capítulo 2 do meu primeiro livro de mandarim. Fiquei me perguntando o porquê de aprender isso antes de saber dizer bom dia, boa noite, meu nome é fulano, sou de tal país.

    Mas não, de acordo com o manual, antes convinha perguntar se a outra pessoa estava muito ocupada. Do capítulo 1, tinha aprendido basicamente a dizer olá, nihao. Imediatamente depois: “Você está muito ocupado?”.

    Pois aquilo tinha razão de ser, revelava um traço cultural importante que aos poucos fui percebendo. A valorização do trabalho duro na China e a glorificação de longas jornadas são muito enraizadas no país.

    Funcionários trabalham em linha de montagem de baterias de lítio na cidade de Yichang, na província de Hubei, na China
    Funcionários trabalham em linha de montagem de baterias de lítio na cidade de Yichang, na província de Hubei, na China – 28.mai.19/Reuters

    A cultura do trabalho aqui combina elementos do confucionismo, como dedicação, capacidade de resistir às adversidades e sacrifício pessoal. Segundo um ditado antigo, os céus recompensam os diligentes.

    Essa lógica encontra terreno fértil na dita era da ambição que vive a China, na qual há um mundo de oportunidades, mas a corrida pelo dinheiro encontra competição extremamente acirrada.

    Para completar, a valorização do trabalho e a busca por melhores condições de vida têm as bênçãos do Partido Comunista. Enriquecer é glorioso, teria dito Deng Xiaoping.

    A relação dos indivíduos com a família e com a sociedade contribui para essa ética do trabalho. Os pais se sacrificam pela educação dos filhos e têm expectativas altas de que sejam bem-sucedidos.

    A sociedade espera que a geração seguinte tenha uma vida mais confortável que a anterior. Essa sequência de gerações materialmente melhores é algo constante na China dos últimos 40 anos —e aumenta a pressão para que os jovens trabalhem duro, o que, ademais, é motivo de orgulho para a família.

    No setor de tecnologia, por exemplo, é visto como normal o regime de trabalho 996 —das 9h da manhã às 9h da noite, 6 dias por semana. A piada com fundo de verdade é que a jornada, na verdade, é do tipo 007 —de zero hora de um dia até zero hora do seguinte, todos os dias.

    'Indústria Americana' (2019)
    ‘Indústria Americana’ (2019)

    De longe, pode-se ter a impressão de que a legislação trabalhista mais flexível ou a dificuldade de questionar condições de trabalho explique tudo.

    De perto, e mesmo assumindo o risco da generalização, é impossível desconsiderar a importância da ética do trabalho na China, ignorar como aspectos culturais e sociais moldam a maneira como os chineses veem o trabalho e a corrida pelo sucesso. Lembro o dia em que assinei meu contrato de trabalho em Pequim. Logo após os papéis, fui convidada a tomar chá com uma autoridade da universidade. Depois de amenidades, fui perguntada se eu teria algum problema em trabalhar aos finais de semana. Saí do chá pensativa, o contrato recém-assinado não tinha nada sobre aquilo. ​

    Mais de um ano depois, com um número razoável de domingos tomados por atividades acadêmicas, perguntei a um colega, afinal, por que sempre fazer esses seminários nos fins de semana.

    O sujeito se surpreendeu com a pergunta por ser óbvia a resposta: durante a semana nós trabalhamos, ora. Estamos muito ocupados. Hen mang! Só aí entendi uma das lições básicas do meu curso de chinês.

    Tatiana Prazeres – Senior fellow na Universidade de Negócios Internacionais e Economia, em Pequim, foi secretária de comércio exterior e conselheira sênior do diretor-geral da OMC.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tatiana-prazeres/2020/10/glorificacao-do-trabalho-na-china-combina-ambicoes-pessoais-e-endosso-do-estado.shtml

    Questões

    1. O texto revela um componente cultural na competitividade do trabalhador chinês? Justifique.

    2. É possível identificar, no texto, contradições no comunismo vivido na sociedade chinesa? Justifique.

    Prof. Luciano Mannarino

  • A Europa entre ser jogador ou gramado na disputa dos grandes

    Autonomia da UE significa margem de manobra para o resto do mundo na rivalidade China-EUA

    22.out.2020 às 23h15

    A União Europeia (UE) tem uma opção a fazer. Ou será um jogador ou será o gramado em que outros jogarão. Foi esta a mensagem do chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, em dezembro de 2019, quando falava do renascimento da competição estratégica no cenário internacional. Mencionou a China, mas não apenas ela.

    O ano de 2019 marcou mudança de tom da UE em relação a Pequim. Pela primeira vez, a Comissão Europeia passou a tratar a China também como um rival sistêmico. O rótulo impressiona, mas não resolve.

    É difícil para a UE definir o que quer da China em função de diferentes tensões —e todas elas se tornaram mais agudas com a pandemia.

    Até 24,7 milhões de trabalhadores podem perder o emprego em todo o mundo por causa da pandemia de coronavírus, afirmou a Organização Internacional do Trabalho (OIT).
    Até 24,7 milhões de trabalhadores podem perder o emprego em todo o mundo por causa da pandemia de coronavírus, afirmou a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Rivaldo Gomes/Folhapress

    1) Há uma tensão entre valores e interesses na maneira como a UE vê a China.

    Ao mesmo tempo, são vultosos os interesses europeus na China, que avança rumo ao topo do podium da economia mundial. O comércio bilateral supera US$ 1 bilhão por dia. Uma pesquisa da Câmara de Comércio da UE na China em fevereiro deste ano revelou que 89% das empresas europeias não estão considerando reorientar investimentos da China para outros mercados.

    Muitas empresas vieram em função dos trabalhadores —mas ficaram por causa dos consumidores. Se a mão de obra barata era o incentivo inicial, hoje o mercado chinês, e sua classe média crescente, fazem a diferença. Na China desde 1978, a Volkswagen vende mais carros aqui do que em toda Europa ocidental.

    Além disso, a UE precisa do engajamento chinês em outros temas que lhe são caros, como mudança climática e multilateralismo comercial. Rifar os chineses não ajuda a avançar essas agendas —ao contrário.

    Lado a lado as bandeiras da China e da União Europeia
    Lado a lado as bandeiras da China e da União Europeia – Jason Lee-25.jun.2018/Reuters

    2) Há tensão entre as necessidades de países membros e a visão de Bruxelas.

    Pressionados pela crise, governos nacionais buscam investimentos para promover recuperação econômica e modernização de infraestrutura.

    Enquanto isso, a Comissão preocupa-se com a influência da China sobre economias da região. Atua para reforçar o controle sobre investimentos estrangeiros com base no argumento de segurança nacional.

    No ano passado, quando a Itália se juntou à Nova Rota da Seda, Bruxelas torceu o nariz.

    3) Há obviamente a tensão gerada pelos interesses americanos, que nem sempre coincidem os europeus a respeito da China. 

    A Europa sabe que agenda anti-China dos EUA, aliados históricos, não é exatamente o caminho que deve seguir.

    Propriedade intelectual: esse capítulo do documento trata basicamente de questões relativas a fórmulas, processos e padrões que são utilizados por negócios para obter vantagem sobre a concorrência e que podem ser considerados confidenciais. Também engloba propriedade intelectual relacionada a produtos farmacêuticos, indicação geográfica de um bem ou serviço, marcas registradas e coação contra produtos pirateados e falsificados

    Propriedade intelectual: esse capítulo do documento trata basicamente de questões relativas a fórmulas, processos e padrões que são utilizados por negócios para obter vantagem sobre a concorrência e que podem ser considerados confidenciais. Também engloba propriedade intelectual relacionada a produtos farmacêuticos, indicação geográfica de um bem ou serviço, marcas registradas e coação contra produtos pirateados e falsificados.

    Na esteira da pandemia, a percepção sobre a China em vários países europeus despencou, segundo o Pew Research Center. 71% do alemães e 70% do franceses teriam hoje visão desfavorável da China.

    À medida que a Europa mergulha numa segunda onda de casos de Covid-19 e que a China exibe autoconfiança e recuperação econômica, o ressentimento pode crescer. O contraste de uma Europa que desce e uma China que sobe exacerba tensões.

    Se, como diz Borrell, a UE tem escolhas a fazer, a China também as tem. Suas habilidades político-diplomáticas serão postas à prova. Os chineses podem ter moderado o tom, mas é cedo para dizer que acertaram a mão. A tentação do discurso triunfalista está sempre à espreita.

    Os europeus, por sua vez, precisam assegurar sua autonomia estratégica e fazer bom uso dela. A postura da UE diante da China e das tensões entre Pequim e Washington importa não apenas para o bloco, mas para todo o mundo.

    A atuação da UE ajudará a definir a margem de manobra os demais países terão para navegar a competição geopolítica entre as duas grandes potências.

    Tatiana Prazeres – Senior fellow na Universidade de Negócios Internacionais e Economia, em Pequim, foi secretária de comércio exterior e conselheira sênior do diretor-geral da OMC.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tatiana-prazeres/2020/10/a-europa-entre-ser-jogador-ou-gramado-na-disputa-dos-grandes.shtml

    Prof Luciano Mannarino