Categoria: Clima

  • Crise do Clima “Porto Rico”

    Porto Rico

    Meio milhão de pessoas devem deixar a ilha devastada pelo furacão Maria

    Dois meses após o furacão Maria, que devastou Porto Rico em setembro, Alfonso Colón ainda retirava escombros de sua casa semidestruída em Punta Santiago – Lalo de Almeida/Folhapress

    Marcelo Leita/Lalo de Almeida

    15.mai.2018 – 02h00

    SAN JUAN

    As pás decepadas das turbinas eólicas da empresa Gestamp em Naguabo, leste de Porto Rico, não deixam dúvida sobre a energia dos ventos. Não tanto a da fonte alternativa que promete amenizar o aquecimento global, mas a força destruidora com que uma atmosfera desequilibrada pela mudança climática lançou a fúria do furacão Maria sobre a ilha, em 20 de setembro de 2017.

    A cerca de 15 km do parque eólico destroçado em Naguabo, outra fonte de energia limpa sofreu o impacto do acúmulo de gases do efeito estufa na atmosfera. Em Humacao, uma fazenda de painéis fotovoltaicos da empresa Reden Solar teve destruída a monotonia de suas fileiras de placas.

    A ilha caribenha foi assolada por ventos de até 250 km/h do ciclone de força 4 ao tocar Porto Rico (sobre o mar, Maria chegou à intensidade 5 e foi um dos furacões mais potentes de 2017). Maria deixou um rastro de US$ 90 bilhões em prejuízos e um Estado norte-americano –se bem que de segunda classe, apenas “associado”– em completo desamparo.

    Acima, pás quebradas de turbinas eólicas em parque de Naguabo, Porto Rico, após passagem do furacão Maria; abaixo, usina de energia solar em Humacao, também destruída pela tempestade – Lalo de Almeida/Folhapress 

    Foi uma temporada inesquecível de furacões. Harvey inundou 100 mil imóveis em Houston, no Texas. Irma foi o mais forte já registrado, com 37 horas na categoria 5. Maria completou a tríade causadora de US$ 265 bilhões de perdas em território norte-americano. Ainda se debate, todavia, se tanta destruição já seria produto da mudança climática global.

    Furacões crescem com o calor da água do mar, e sua temperatura está subindo com o aquecimento global. São fenômenos raros, porém, e as estatísticas sobre intensidade e frequências dessas tormentas não dão segurança plena de que a ligeira tendência de alta registrada no século 20 resulte de perturbações na atmosfera.

    A temperatura da superfície marinha já subiu 1,5ºC no Atlântico Norte, e algumas projeções indicam que se elevará pelo menos mais 1ºC na região, que engloba o mar do Caribe. Modelos de computador que simulam o clima do futuro projetam que furacões de categoria 4 e 5 poderão tornar-se mais comuns, que a intensidade média dos ciclones caribenhos subiria 4% neste século e que a quantidade de chuva despejada aumentaria de 10% a 15%.

    O aeroporto inundou. O próprio governo entrou em colapso, acompanhando a infraestrutura. Pelo menos 90 mil postes caíram. A maioria da população “boricua”, como se chamam os habitantes de Porto Rico, ficou sem energia elétrica, telefonia celular, combustível e internet por semanas.

    Quase oito meses depois, em 18 de abril, a seis semanas de iniciar-se nova temporada de furacões, a ilha voltou a sofrer apagão generalizado. E isso poucas horas depois de o governo anunciar que tudo voltara ao normal e que só 3% da população ainda estava sem luz.

    O olho do furacão Maria entrou na ilha pelo sudeste, em Yabucoa. Cortou-a de ponta a ponta, saindo por Isabela, no noroeste, num percurso aproximado de 190 km. As rajadas mais intensas varreram a porção leste do território, incluindo a capital San Juan.

    Mulher recolhe suas cabras ao lado de casa destruída pelo furacão Maria na comunidade Caonillas, em Utuado, região central de Porto Rico – Lalo de Almeida/Folhapress

    “Rugia como um leão, inexplicável”, conta Janet González, líder comunitária em Punta Santiago, perto de onde irrompeu o olho do furacão. O mar adentrou 300 m de terreno, fazendo emergir águas negras de fossas e esgotos. “O telhado se foi, caiu parte do forro. Já experimentei outros furacões, como Hugo em 1989, mas nem chegam aos pés [de Maria].”

    Janet aguardava o início da distribuição de água e alimentos por um grupo de voluntários do bairro Camarones, na vizinha Guaynabo. Todos vestiam camisetas cor de laranja com os dizeres “No te quites. Levántate. Unidos somos fuertes” (Não vá embora. Levante-se. Unidos somos fortes), alusão aos compatriotas que abandonaram o país depois do furacão, a maioria para a parte continental dos EUA.

    Pessoas atravessam o rio Espírito Santo, em Porto Rico, após a passagem do furacão Maria – Mario Tama – 8.out.17/Getty Images

    Sob o sol forte da uma da tarde, a carreata para na casa de madeira semidestruída de Alfonso Lugo Colón. A sala desapareceu. “Caía água salgada do telhado”, diz. “Não se respeita a palavra de Deus. Aconteceu porque tinha de acontecer.”

    A casa que dividiu por 48 anos com a mulher, morta há dois, está coberta por uma de milhares de lonas plástica azuis distribuídas em Porto Rico pela Agência Federal de Administração de Emergências dos EUA (Fema, na abreviação em inglês). A sua fora esticada por bombeiros de um país cujo nome Lugo não recorda mais.

    Sem luz havia dois meses, portanto sem geladeira, o aposentado sobrevive com as doações. Guarda na cozinha dezenas de fardos de água mineral e latas de alimentos em conserva. “Ajuda do governo, nada. Só das pessoas que trazem comida e remédios.” Lugo já tinha preenchido o formulário da Fema descrevendo suas perdas e aguardava uma decisão da agência sobre uma indenização.

    “Há que ter paciência e tolerância”, conforma-se. “Pelo menos tenho a vida.”

    Maria não poupou nem mesmo os moradores do centro histórico de San Juan, conhecido como Casco Viejo. A capital fica a cerca de 100 km de Punta Santiago, ao norte da trajetória do olho de Maria, na área em que os ventos foram mais devastadores.

    Acima e no meio, moradores de San Juan sofrem com falta de iluminação desde a passagem do Maria; abaixo, homem caminha em Casco Viejo, região da capital iluminada com a ajuda de geradores – Lalo de Almeida/Folhapress

    O escritor Héctor Feliciano mora na Calle Sol, a poucos metros do palácio que abrigou o conquistador espanhol Juan Ponce de León (1474-1521). Sua casa do século 18 resistiu bem, à parte alguns trechos de reboco caído, mas tremeu por horas seguidas –só a mangueira do pátio sofreu dano grave, perdendo folhas e frutos.

    “Foi como o rugido de um dragão somado ao estrondo de um Concorde”, narra o escritor, referindo-se ao avião supersônico popular na França durante as duas décadas em que lá viveu. Escolheu voltar a Porto Rico para criar as duas filhas.

    Ele diz que furacões são como um rito de passagem para crianças do Caribe, até mesmo um dia de festa. A família se mantém unida em torno de um caldeirão enorme de sopa. Maria foi exceção.

    As meninas choraram a noite inteira, de medo. O vento arrasou a rede mambembe de cabos elétricos que passava de casa em casa, num bairro quase desprovido de postes. Os dias e semanas seguintes foram de isolamento quase completo –sem telefone, sem internet, sem poder tirar dinheiro do banco, levantando às 4h da manhã para tentar conseguir gasolina.

    Os únicos contatos eram com vizinhos, que se organizavam para limpar as ruas de escombros. Aficionados de corridas de cavalos, os raros donos de radinhos de pilha, tornaram-se subitamente populares.

    “Porto Rico possuía uma penetração digital de 70% e a arrogância em aço inoxidável dos países digitalizados”, escreveu Feliciano numa crônica. “Em poucas horas, Maria arrasou a arrogância e a falsa abundância que a sustentava.”

    De pouco valeu aos boricuas habitar um Estado associado dos EUA. Sem meios de honrar uma dívida pública de US$ 73 bilhões (cerca de R$ 230 bilhões) já antes do desastre, os 3,4 milhões de habitantes da ilha viram o presidente Donald Trump dizer, três semanas depois, que teriam de arcar com o peso maior da recuperação.

    Entulho em frente de casas atingidas pelo furacão Maria em Porto Rico; abaixo, caminhões despejam escombros em aterro sanitário de Toa Baja, também na ilha caribenha – Lalo de Almeida/Folhapress

    O republicano também os congratulou pelo número baixo de mortos (a cifra oficial era 16, naquela altura), em comparação com as vítimas do furacão Katrina em Nova Orleans (1.833), em 2005. Após a visita de Trump, o número de mortos reconhecido pelo governo de Porto Rico continuou subindo, até alcançar 64 em novembro, mas mesmo essa cifra foi posta em dúvida.

    Sob pressão, o governador Ricardo Rosselló designou uma comissão para revisar o número. Embora a contagem oficial supostamente inclua as chamadas vítimas indiretas, aos poucos tornou-se claro que não estavam sendo consideradas as mortes de pessoas por falta de ambulâncias ou de energia para realizar diálise, por exemplo.

    Estimativas independentes indicam que haveria pelo menos mil vítimas não contabilizadas. Investigação do jornal “The New York Times” com registros de óbitos de setembro e outubro em 2016 e 2017 apontou excedente de 1.052 mortes após o furacão. Estudo do demógrafo Alexis Santos, da Universidade do Estado da Pensilvânia (EUA), e do colaborador Jeffrey Howard chegou a quantidade semelhante: 1.085.

    “Nenhuma estrutura está preparada para um evento dessa magnitude. Jamais imaginei que seria possível”, disse à Folha a advogada Tania Vásquez, secretária de Recursos Naturais e Ambientais de Porto Rico. “Os rios saíram de seus leitos por até três milhas [quase 5 km]… Nem nas previsões para 500 anos.”

    “Há que mudar toda nossa maneira de ver as coisas”, afirma a advogada, o que inclui proteger os recifes de coral que amenizam o impacto das ressacas ciclônicas. “Mas, se seguirmos aquecendo o planeta, não sei, não.”

    Interior de casa em Toa Baja que ficou alagada com a passagem do furacão Maria em Porto Rico – Lalo de Almeida/Folhapress

    José Molinelli, geomorfólogo da Universidade de Porto Rico, diz que a vulnerabilidade da ilha não diz respeito só a furacões, mas também a terremotos e tsunamis. Se os oceanos subirem um metro, algo que pode ocorrer até o final do século em consequência da mudança climática global, a infraestrutura hoteleira da ilha estaria ameaçada, pois foi construída a não mais que 100 m da linha de maré.

    “A visão inteligente, resiliente, é respeitar os locais da natureza, sair das áreas inundáveis”, defende. “Há que pensar em como redesenhar o país.”

    A geóloga Maritza Barreto, da mesma universidade, investiga a erosão marinha, ameaça mais constante a rondar a Ilha Encantada (frase constante em placas de automóveis). Levantamento seu amostrou 60% dos 580 km de costa e constatou que pelo menos um quinto das praias já sofreu erosão grave, sob ação de ressacas causadas por frentes frias que entram de novembro a março e se tornam cada vez mais frequentes.

    No bairro de classe média Ocean Park, orla marítima de San Juan, o mar retoma 1,2 m de terreno por ano. Em Loiza, uma faixa de manguezais, lagunas e dunas habitadas na maioria por descendentes de escravos africanos, o avanço do oceano alcança 1,8 m/ano.

    Na comunidade de Piñones moram cerca de 2.000 pessoas. Apenas 15 casas se perderam –segundo Maricruz Rivera Clemente, líder comunitária, porque as dunas e o mangue oferecem proteção contra as ressacas. Ela reclama que a ajuda do governo mal chega ao local, o que atribui ao racismo não declarado em Porto Rico.

    O artesão David Morales, veterano da Guerra do Iraque, teve sua oficina na parte de trás da casa destruídas pelo furacão Maria em Loiza, Porto Rico – Lalo de Almeida/Folhapress

    Perto dali o artesão negro David Tejada Morales, veterano de três temporadas de combate no Iraque, é o retrato do desamparo: perdeu parte da perna, não na guerra, mas depois de pisar num prego, e aos 69 anos mora sozinho na metade da casa que não foi derrubada por Maria. Caiu a oficina na parte de trás, onde fazia artesanato com metal. Agora passa os dias na cadeira de rodas, à espera.

    Uma funcionária da Fema tinha visitado a casa dois dias antes para tirar fotos do estrago. Morales animou-se quando viu da varandinha mais indivíduos brancos tirando fotos na rua, pensando que a Fema retornava com boas notícias sobre indenização –mas era só a reportagem da Folha.

    Árvores começavam a recuperar umas poucas folhas em novembro, dois meses após a passagem do furacão Maria em Utuado, Porto Rico – Lalo de Almeida/Folhapress

    Estima-se que cerca de 20% das árvores de Porto Rico jamais se recuperarão. Nas que sobreviveram, folhas brotam diretamente dos troncos e cotos de galhos, o que as deixa parecidas com grandes cotonetes verdes. Há relatos de borboletas diurnas circulando à noite em busca de flores inexistentes e morcegos desorientados pela falta de frutos.

    As estradas que levam a Utuado –cidade das mais afetadas– ainda compunham em novembro um cenário de bombardeio, com crateras e montes de terra por todos os lados. Poucos carros circulam por elas, não raro veículos de empreiteiras e companhias elétricas envolvidas em reparos, ou camionetes de excursões que combinam caridade com selfies.

    Diante da casa de Yessica Matos Torres, um SUV novo, vidros tingidos de preto, estaciona para o desembarque de um jovem loiro com o letreiro #yonomequito (eu não vou embora) na camiseta justa. Os olhos da jovem mãe se enchem de lágrimas ao receber um fardo de água mineral Cristalia e o cartão Visa no valor de US$ 300.

    Da morada de Carlos Soto López sobrou só o portãozinho pendurado num pedaço de mureta, onde se lê que a família está na próxima casa, estrada acima. A sua deslizou pelo barranco às 2h20 da madrugada, solapada por uma bica d’água que virou riacho. Ainda pode ser visto 20 m abaixo um carro amarrotado na garagem destruída.

    Sem condução para chegar ao trabalho a 20 km de distância, numa ilha em que quase não vê transporte público, Soto perdeu o emprego de motorista de caminhão de lixo. Ele sustenta agora os dois filhos pequenos fazendo bicos como mecânico na casa em que ocupou, do amigo Manolo, que se mudou para os EUA.

    Casa de Carlos Lopez na comunidade de Caonillas que foi arrastada pela enxurrada durante passagem do furacão Maria pela região – Lalo de Almeida/Folhapress

    Porto Rico já vinha perdendo população para o continente, em especial para o a Flórida, à taxa de meio milhão de pessoas por década, empurradas pela estagnação do emprego. Nos dois meses após o furacão, o abandono se acentuou, com quase 200 mil borícuas embarcados em voos para os EUA.

    Edwin Meléndez e Jennifer Hinojosa, demógrafos do Centro de Estudos Porto-Riquenhos da Universidade da Cidade de Nova York (Cuny, na sigla em inglês), estimaram que até 470 mil nativos, ou 14% da população da ilha, poderão emigrar em definitivo para o continente nos dois anos após o furacão.

    As vítimas de Maria fogem de um futuro turvado pela necessidade de reconstruir um país fisicamente devastado e financeiramente falido. Só a tarefa de recolher os escombros das ruas e estradas –um volume projetado em 6 milhões de metros cúbicos, ou o equivalente a 2.400 piscinas olímpicas– deve consumir seis meses.

    “Não sabemos mais em que país estamos”, lamenta Jorge Báez, ambientalista da ONG Para La Naturaleza.

     

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/porto-rico/meio-milhao-de-pessoas-devem-deixar-a-ilha-devastada-pelo-furacao-maria/

     

     

    Prof Luciano Mannarino

  • Crise do Clima “Portugal”

    Portugal

    Tempestades de fogo mataram 115 portugueses em 2017

    Casas queimadas em Almaça, região no centro de Portugal que foi atingida por incêndios florestais em junho de 2017 – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    Giuliana Miranda/Lalo de Almeida

    8.mai.2018 – 02h00

    CERDEIRA

    O agricultor António Marques da Costa, 74, anda todos os dias por um caminho de terra batida até uma fonte próxima para recolher a água com que abastece seus animais. Em seu percurso, na aldeia de Cerdeira, no centro de Portugal, contempla aquilo que foi destruído em 16 de outubro de 2017.

    Naquela noite anormalmente quente de outono teve início o pior incêndio florestal do ano, um dos maiores da história em Portugal. “Já vi outros fogos, mas não como esse. Os outros arderam e apagaram-se bem.”

    Foram 49 mortes, que se somaram às 66 vítimas de outro incêndio quatro meses antes. Muitos em Portugal associam os fogos à mudança climática causada pelo aquecimento global, mas, antes de tudo, criticam o despreparo das autoridades para lidar com a emergência.

     

    O agricultor António Marques da Costa, 74, caminha com um garrafão de água em meio a oliveiras em Cerdeira, na região central de Portugal – Lalo de Almeida/Folhapress

    À beira da estradinha, uma oliveira centenária consumida pelas chamas ainda carrega dezenas de azeitonas. Os frutos, que já estavam próximos da colheita, pendem murchos dos galhos. A paisagem se repete até onde os olhos alcançam.

    Marques da Costa presenciou algo que se torna mais e mais comum em Portugal e noutras partes do mundo, como a Califórnia, nos Estados Unidos. São as chamadas tempestades de fogo, incêndios florestais poderosos que realimentam as chamas com as próprias correntes de ar que criam, desde que hajam as condições meteorológicas adequadas e material combustível abundante.

    “O pior foi ver a arder tudo o que nós criamos aqui. Andávamos aí para trás e para frente para salvar uma casa em que eu fui criado e que eu dei aos filhos.” Além de mais de uma centena de oliveiras, o agricultor perdeu plantações, uma área com castanheiras e uma casa usada para guardar material de trabalho. Diz que não tem esperança de recuperar o que foi perdido no incêndio.

    “O que tiver, guarda-se. As casas eu já não recupero. Dinheiro [para reconstruir a casa e as plantações] eu não tenho. Minha aposentadoria é só de 300 euros, não dá para nada.”

     

    Vegetação e casas queimadas em área rural de Oliveira do Hospital, que foi atingida por incêndios florestais em 2017 – Lalo de Almeida/Folhapress

    Embora os incêndios florestais sejam bastante comuns no verão de Portugal, a extensão e a gravidade dos danos em 2017 foram inéditas: 115 mortos e ao menos 5.000 km² atingidos, mais que o triplo da superfície do município de São Paulo. Causou surpresa que os dois principais incêndios tenham acontecido no outono e na primavera.

    A tragédia anterior se dera em 17 de junho, um sábado de sol a quatro dias do início do verão. Deixou 66 mortos, incluindo nove crianças e adolescentes, e mais de 250 feridos na região de Pedrógão Grande e Góis, no centro do país.

    No dia 16 de outubro, outro incêndio florestal, desta vez na região de Oliveira do Hospital, Castelo Branco e adjacências, também na área central do país, matou 49 pessoas e deixou mais de 70 feridos.

    Os prejuízos materiais foram de cerca de 1 bilhão de euros (cerca de R$ 4 bilhões), segundo o secretário de Estado do Desenvolvimento e Coesão, Nelson de Souza. E tudo indica que esse tipo de catástrofe pode se tornar mais frequente.

    Compare o passado recente de Espanha e Portugal, países limítrofes com clima semelhante e resultados distintos no que respeita a incêndios: enquanto na Espanha, a partir de meados da década de 1980, houve redução considerável da área queimada, em Portugal quase não houve variação.

    Ainda não é possível afirmar de forma taxativa que o aumento dos incêndios florestais em Portugal seja resultado do aquecimento global. Mas há indícios consistentes disso, aponta o climatologista Pedro Miranda, diretor do Instituto Dom Luiz –instituição dedicada à pesquisa de meteorologia, clima, geofísica e ciências da Terra– da Universidade de Lisboa.

    “Para haver fogo, é preciso ter floresta. E esta floresta deve ter condições favoráveis para arder. Isto é, tem de estar seca e em temperaturas elevadas.”

    Em Portugal, a diminuição das chuvas, com períodos prolongados de seca em vários anos, é uma das principais manifestações das alterações climáticas. E viria daí o maior fator a contribuir para a ocorrência de incêndios.

    “Nesses últimos anos, temos tido várias secas: em 2003, 2005, 2017. E elas vêm coincidir com períodos de mais fogos”, afirma Miranda.

     
     

    O climatologista afirma que já existem estudos reforçando a correlação entre as mudanças climáticas e a ocorrência de incêndios. Para confirmá-la de vez, entretanto, seria preciso um volume maior de dados.

    Os números do IPMA (Instituto Português do Mar e da Atmosfera), órgão vinculado ao governo, vão nessa direção. O ano de 2017 foi mesmo extremamente quente e seco: a temperatura média do ar ficou cerca de 1,1ºC acima do normal, fazendo dele o segundo ano mais quente desde 1931, atrás apenas de 1997.

    Proprietária de uma empresa de obras e serviços ligados à construção civil, a empresária Verónica Fonseca diz viver na pele aquilo que os cientistas descrevem em números. As instalações de sua fábrica foram destruídas no grande incêndio de outubro, que extrapolou a floresta e chegou à zona industrial de Oliveira do Hospital. Mais de 70 empresas queimaram na localidade.

    “Aqui eu noto muito: cada vez tem chovido menos”, relata. “Nesta região não é nada normal, nós passávamos semanas e semanas com chuva, e agora não tem acontecido isso. Eu acho que o tempo tem andado um bocadinho para frente. Não sei se há aqui algumas alterações climatéricas, mas todos os anos se prolonga mais o tempo de calor e de seca”, conta a empresária, nascida e criada na região.

    Ela fita com tristeza o amontoado de ferro retorcido no qual se transformou a fábrica fundada por seu pai há 40 anos. Uma dezena de funcionários escava os escombros e as cinzas em busca de materiais aproveitáveis. Caminhonetes de serviço são reconhecidas apenas por seus esqueletos.

    “Era como se o fogo voasse”, diz, relembrando os ventos fortes que ajudaram a propagar as chamas pelo ar seco. “Geralmente os fogos florestais aconteciam, mas nunca tiveram uma dimensão completamente catastrófica”, conta.

    Ela estima que seu prejuízo seja de pelo menos 1 milhão de euros (aproximadamente R$ 4 milhões). Reclama de pouca atenção do Estado português e mesmo da comunidade internacional.

    “Quando houve a situação em Pedrógão [o incêndio de junho que matou 66 pessoas], houve muita divulgação. Aqui foi bem menos”, compara. “Talvez porque lá houve mais perdas humanas.”

     

    Empresa de obras e serviços ligados à construção civil que foi destruída por incêndio florestal em 2017; abaixo, a empresária e proprietária do local Verónica Fonseca observa interior do estabelecimento – Lalo de Almeida/Folhapress

    Os incêndios de 17 de junho ficaram marcados sobretudo pelas imagens do trecho de rodovia que concentrou a maioria das vítimas fatais das chamas. No dia do incêndio, havia muitos visitantes na região de Pedrógão Grande, conhecida pelo turismo em suas praias fluviais. É um destino popular para quem viaja de Évora a Coimbra, duas das cidades históricas mais visitadas de Portugal.

    Quase seis meses após a tragédia, quando a reportagem da Folha esteve no local, as árvores queimadas e as placas de trânsito destruídas testemunhavam de modo sutil o que aconteceu na via nacional 236, que passou a ser conhecida como estrada da morte.

    A rodovia, assim como outras do interior de Portugal, é estreita e serpenteia por entre uma vegetação densa de pinheiros e eucaliptos, duas espécies com alto poder combustível.

    Segundo o relatório da comissão independente que investiga o incêndio, o local do sinistro tem ainda uma inclinação que aumenta em 67% a velocidade de propagação das chamas em comparação ao terreno plano. Quanto maior é a inclinação, maior é o efeito das colunas de convecção que aquecem a vegetação, o que ajuda a espalhar as chamas no sentido ascendente.

     

    As vítimas tentavam usar a via como rota de fuga do incêndio, mas acabaram morrendo ao ficarem encurraladas em um trecho de menos de 500 metros que foi engolido pelo fogo.

    Um ponto bastante criticado foi a falta de resposta das autoridades, especialmente o número insuficiente de bombeiros, que em Portugal são em sua maior parte voluntários (os profissionais normalmente se restringem às cidades maiores).

    A quantidade de bombeiros vem caindo em Portugal, segundo dados do INE (Instituto Nacional de Estatística). Em 2015, o efetivo era de pouco menos de 29 mil bombeiros. Dez anos atrás, eram 42 mil. Um dos principais motivos é demográfico: há cada vez menos pessoas –especialmente jovens– vivendo no interior do país.

    Os eventos derrubaram dois nomes da cúpula política: a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, e o chefe da Proteção Civil, Joaquim Leitão, criticados pela atuação no primeiro grande incêndio e pelo fato de não terem evitado o segundo, quatro meses depois.

    Flores colocadas na beira de estrada próxima a Pedrógão Grande em homenagem às vítimas dos incêndios florestais que atingiram a região central de Portugal em 2017 – Lalo de Almeida/Folhapress

    Não faltam relatos de tentativas, em vão, de conseguir auxílio. “Eu tentei pedir ajuda, mas nós não tínhamos comunicações em lado nenhum. As únicas autoridades que a gente viu foi muita polícia, a tentar coordenar, mas a certa altura até eles próprios já estavam preocupados com as próprias vidas deles. É mesmo assim: cada um estava por si”, conta a empresária Verónica Fonseca, sobre a noite do incêndio em sua fábrica.

    Sócio da fábrica Azeites do Cobral, o empresário Luís Miguel Brito também se viu sem apoio para combater as chamas naquela noite. Proprietário de caminhões, tratores e alguns equipamentos que dispersam água, ele precisou escolher entre salvar sua plantação de azeitonas ou as casas de seus vizinhos. Optou pelos vizinhos.

    “Eu tenho 30 hectares de olival, e ele foi destruído na totalidade. Tanto o olival tradicional, quanto os antigos, centenários. Perdeu-se para sempre a qualidade do azeite produzido pelas oliveiras centenárias.”

    Ele aposta em uma redução significativa no volume de azeite produzido em toda a região. O movimento fraco do lagar –local de processamento das azeitonas para obter azeite– em pleno período de colheita indica que os agricultores tiveram perdas significativas.

    Morador caminha em frente à casa destruída por incêndio florestal em Cerdeira, centro de Portugal – Lalo de Almeida/Folhapress

    A região de Oliveira do Hospital, onde fica a Azeites do Cobral, passou anos sem grandes sobressaltos por causa de incêndios. Um feito atribuído, entre outros fatores, ao bom manejo das florestas, como a limpeza constante das áreas de mata, diminuindo o material seco que alimenta as chamas.

    A realidade não se repete no restante do país, segundo especialistas, que classificaram as regras de ordenamento florestal de Portugal como insuficientes. Áreas com espécies nativas, como carvalhos e castanheiras, vêm sendo replantadas com pinheiros e eucaliptos, que oferecem retorno financeiro mais rápido, mas são mais propensas ao fogo por formarem bosques homogêneos de árvores resinosas que acumulam biomassa seca sobre o solo.

    De acordo com o Inventário Florestal Nacional, houve um aumento de 13% na quantidade de eucaliptos em Portugal entre 1995 e 2010. Hoje a árvore originária da Austrália é dominante nas florestas portuguesas.

    “Os incêndios dependem muito da ocupação dos terrenos e da maneira como ela é gerida”, diz o climatologista Pedro Miranda. “Se a nossa floresta não tivesse uma grande quantidade de árvores muito fáceis de entrar em combustão, ela seria mais resistente.”

    No relatório do estado do ambiente de Portugal em 2017, a Agência Portuguesa do Ambiente indica que os eventos ambientais extremos que marcaram o ano devem ser encarados como um prenúncio do que está por vir.

    “A seca grave, as temperaturas acima da média, a intensificação de fenômenos meteorológicos extremos que vivemos neste ano serão, de acordo com grande parte da comunidade científica, a nova realidade”, alertam.

    Coordenador do Plano Intermunicipal de Adaptação às Alterações Climáticas da Região de Coimbra, a maior do país, com 19 municípios, João Carlos Mano Castro Loureiro, professor da Universidade de Coimbra, destaca que algumas características da floresta portuguesa, como a concentração nas mãos de pequenos proprietários privados, tornam necessária a criação de políticas públicas de estímulo à preservação de espécies autóctones.

    Acima, oliveiras destruídas por incêndios florestais em Travanca dos Lagos; abaixo, o empresário Luís Brito que precisou escolher entre salvar sua plantação de azeitonas ou as casas de seus vizinhos – Lalo de Almeida/Folhapress

    Suas projeções indicam que a própria viabilidade do eucalipto pode ficar comprometida diante do aumento das temperaturas e das mudanças que vêm com ele. “Pode haver oportunidade para espécies nossas, autóctones, muito mais bem-adaptadas a este clima.”

    O governo prometeu ainda para 2018 apresentar alterações na legislação florestal, inclusive na regulamentação do eucalipto e de outras espécies estrangeiras.

    Para os pesquisadores, é preciso também insistir na conscientização das populações para a nova realidade florestal no contexto da mudança climática. Em Portugal, assim como no Brasil, existe uma cultura de fazer queimadas para “limpar” o terreno.

     
     

    “As pessoas têm isso como sua rotina anual, um bocadinho insensível às condições [meteorológicas] daquele momento”, avalia o pesquisador. “Infelizmente, na tragédia que houve em outubro último, [foi] uma das principais razões para as pessoas terem feito queimadas.”

    O relatório interdisciplinar contou ainda com técnicos no terreno, que fizeram perguntas à população sobre as alterações climáticas. A socióloga Fátima Alves, pesquisadora da Universidade de Coimbra, destaca que são poucos os que não acreditam no aquecimento global e em suas consequências.

    “De um modo geral, já ouviram falar das alterações climáticas, conseguem identificar onde é que elas se manifestam em seu dia a dia”, avalia. Mas isso não basta: “As pessoas sabem o que se passa, mas não estão, digamos, igualmente comprometidas com a mudança do seu próprio comportamento”.

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/portugal/tempestades-de-fogo-mataram-115-portugueses-em-2017/

    Prof Luciano Mannarino

     
     
  • Crise do Clima “Peru”

    Peru

    Camponês processa empresa alemã e pede indenização por encolhimento de geleiras

    O camponês e guia de montanha Saúl Luciano Lliuya caminha junto ao que restou de uma das geleiras da cordilheira Branca, norte do Peru – Lalo de Almeida/Folhapress

    Marcelo Leite/Lalo de Almeida

    29.mai.2018 – 02h00

    HUARAZ

    Juan Victor Morales Moreno, 52, tem um dos empregos mais solitários do mundo. Salvo incursões até o centro de Huaraz (Peru) nas folgas quinzenais, ele vigia o ano todo a lagoa Palcacocha (4.562 m de altitude), na cordilheira Branca, 100 m abaixo de sua cabana de pedra.

    O salário é de 2.500 soles (cerca de R$ 2.800). A missão: a cada duas horas, noite ou dia, relatar qualquer perturbação no lago glacial, por rádio ou telefone de satélite, ao Centro de Operações e Emergência Regional do departamento (estado) de Ancash. O trabalho como guardião da montanha castigada pelo aquecimento global já dura três anos.

    Toda sua atenção se volta para as geleiras Palcaraju e Pucaranra, que pendem ameaçadoras a 600 m acima do espelho d’água. De sua estabilidade depende a segurança de 25 mil huaracinos que vivem no chamado cone de risco aluvional (cerca de um sexto da população).

    Juan Victor Moreno vigia a lagoa Palcacocha, na cordilheira Branca, Peru; ele relata por rádio ou telefone de satélite qualquer perturbação no local – Lalo de Almeida/Folhapress

    Palcacocha ganhou notoriedade internacional quando um desses moradores –Saúl Luciano Lliuya– colocou-a no centro de um processo judicial na Alemanha contra a empresa de energia RWE. A ação demanda que a companhia pague uma parcela de 17 mil euros (R$ 68 mil) das obras de segurança na lagoa, com custo total estimado em R$ 20 milhões.

    A quantia corresponde ao quinhão de responsabilidade atribuído à RWE (0,47%) por todas as emissões de gases do efeito estufa lançadas no mundo desde 1854, segundo estudo publicado em 2014 por Richard Heede, do Climate Accountability Institute dos EUA.

    Por improvável que pareça, as cortes alemãs deram seguimento ao processo.

    A ameaça posta por Palcacocha é concreta. Em 1941, a lagoa tinha volume 30% menor que o atual e causou cerca de 2.000 mortes em Huaraz. Naquela manhã de 13 de dezembro, uma avalanche de pedras e lama cortou a cidade ao meio.

    Acredita-se que um bloco dos glaciares se desprendeu e criou uma onda com dezenas de metros de altura. Rompeu-se o dique natural de rochas e terra solta da moraina (depósito de fragmentos transportados pela geleira em movimento).

    Restaram então somente 500 mil m³ de água no reservatório, o equivalente a 200 piscinas olímpicas. Com o contínuo derretimento de Palcaraju e Pucaranra, tal volume multiplicou-se por 34.

    Tubulação que drena a água da Palcacocha, na cordilheira Branca; com aumento do volume do reservatório, uma eventual avalanche pode criar tsunami e aluvião que devastariam a cidade de Huaraz – Lalo de Almeida/Folhapress

    “No ano passado, no mês de maio, houve uma avalanche moderada da montanha Palcaraju. Caiu diretamente na lagoa e produziu uma onda de três metros”, conta o vigilante Victor Morales. “Levou os sifões para a parte esquerda e os amontoou como se fossem espaguete.”

    Morales se refere aos dez tubos negros com 25 cm de diâmetro que sugam água do meio da lagoa e a descarregam na cabeceira do riacho Cojup. O conjunto oferece um reforço para a tubulação de escoamento sob o dique de 7 m construído depois do terremoto de 1970, que, sozinho, não dá conta de manter a água na cota de segurança em época de chuva e derretimento acelerado, de setembro a maio.

    Trata-se de um sistema provisório e insuficiente, afirma o engenheiro Luis Alberto Beltrán Flores. Ele é o consultor do governo regional de Ancash para o projeto de obras de segurança em Palcacocha e outras 22 lagoas glaciais.

    A meta é rebaixar o nível de Palcacocha ainda mais. Para afastar o perigo pior, haveria ainda que construir um dique com o triplo de altura (20 m), reforçado com concreto.

    Por ora, só os termos de referência para a licitação foram feitos. Falta aprovar um orçamento do governo federal para contratar uma empresa que detalhe o projeto executivo de engenharia.

    Anoitecer na cidade de Huaraz, que fica aos pés da cordilheira Branca, no norte do Peru – Lalo de Almeida/Folhapress

    Ao lado de Beltrán na montanha, Mirtha Cervantes, secretária de Meio Ambiente e Recursos Naturais do governo de Ancash, ressalva que já se iniciou a implantação de um sistema de alerta precoce à população.

    O dispositivo envolverá o uso de sensores, sinais sonoros e exercícios de evacuação da zona de risco, no curto prazo de 40 minutos entre um “evento” em Palcacocha e a devastação de Huaraz. Por ora, tudo ainda está nas mãos –ou nos olhos e ouvidos­– do guardião Victor Morales.

    Depois de passar seu informe por rádio, o vigilante de Palcacocha serve canecas de leite com arroz doce cozido aos visitantes esfalfados pelo impacto da altitude. São 10h da manhã e, ao longe, começa o ronco diário de pequenas avalanches em Palcaraju e Pucaranra deflagradas pela temperatura em elevação.

    Nenhuma alcança a lagoa.

    O agricultor Saúl Luciano (envolto em manta listrada) observa a filha brincar ao lado de sua mãe (à dir.) enquanto sua mulher, Lidia (à esq.), colhe menta em Llupa, zona rural de Huaraz – Lalo de Almeida/Folhapress

    O guia de montanha e agricultor Saúl Luciano Lliuya, 37, fala baixo e de modo pausado. Durante entrevistas, revira os olhos nas órbitas, ao que parece buscando as palavras corretas em espanhol (até os seis anos, só falava quéchua em casa).

    Sua contenção destoa da imagem de camponês intrépido, que conduz turistas em segurança pelas paredes de gelo da cordilheira Branca e se aventura a processar uma potência empresarial em terras alemãs.

    O amor pelas montanhas venceu a timidez, é a sua explicação. Ele as sente correr nas veias como a água do degelo corre pelas “quebradas” (calhas dos riachos glaciais).

    O pai era carregador de escaladas. Menino, Luciano ficava fascinado com os equipamentos e as fotografias. “Cresci nesse ambiente. Aos 8 anos já caminhava por lá, [na altitude de] 4.500 metros, 4.800 metros”, recorda.

    Os três anos de curso para liderar grupos de turistas são um recurso comum das novas gerações para aumentar a renda nos meses secos, de junho a agosto. No restante do ano, Luciano planta e colhe batatas, quinoa, trigo e cevada na propriedade da família em Llupa, povoado a 15 minutos de carro do centro de Huaraz.

    Na garagem da casa de adobe com dois pisos, o guia tem uma perua Toyota –“station wagon”, como se diz na região– que usa para ir à cidade de noite, para as aulas de inglês, e em serviços de táxi informal. Às vezes dorme na segunda casa, que está terminando de construir em Nueva Florida, bairro incluído no cone de risco de Palcacocha.

    “Quando comecei a sair como guia, em 2002, vi que tudo era muito lindo. Nos anos seguintes na montanha, encontrava [os glaciares] cada vez menores”, conta.

    Acima, menino em frente a cruz feita por camponeses para proteger a terra, em Llupa, Huaraz; abaixo, ele observa camponesa que transporta lenha para cozinhar – Lalo de Almeida/Folhapress

    Ele já havia ouvido falar de aquecimento global na escola. Pesquisando sobre o descongelamento, as lagoas e os aluviões, descobriu que havia uma relação com a mudança climática: “Tudo isso é causado pela poluição, pelas indústrias, toda uma cadeia de relações”.

    “Isso te afeta. Estás perdendo algo. Além disso, sabíamos que Palcacocha era uma lagoa que estava em risco, crescendo. Perguntava-me o que deveria fazer. O que vai acontecer quando já não houver montanhas, água suficiente?”

    O contínuo derretimento de geleiras não cria só o risco emergencial de colapso das lagoas glaciais. Elas ameaçam também o futuro do Peru, que ficará sem água para gerar eletricidade e abastecer a população –um terço da qual vive na capital, Lima, quase inteiramente dependente do degelo para dar de beber a seus habitantes.

    Em 2014, quando se realizou em Lima a 20ª conferência internacional sobre mudança do clima, Luciano conheceu José Valdivia Roca, da ONG Wayintsik (“nossa casa”, em quéchua). Valdivia lhe apresentou Noah Walker-Crawford, um jovem antropólogo de família norte-americana nascido na Alemanha, que trabalhava na ONG Germanwatch.

    Das muitas conversas sobre como reagir à destruição da cordilheira Branca surgiu a ideia de responsabilizar os causadores da mudança do clima. A RWE terminou escolhida por ser a maior emissora de gases do efeito estufa na Europa e porque a Germanwatch poderia conseguir assessoria jurídica na Alemanha, sede da empresa de energia.

    Fumaça sai de cabana de pastores na área do Parque Nacional de Huascarán, no caminho para o nevado Pastoruri – Lalo de Almeida/Folhapress

    Luciano diz que, no Peru, é muito perigoso enfrentar uma companhia na Justiça, por exemplo uma mineradora grande: “Processar uma empresa lá [na Alemanha] dava o que pensar. Pensei por um tempo, uns dois meses. Decidi que sim, pois não via outra opção”. A ação começou em 2015.

    Por causa dela, o guia-agricultor precisou ir três vezes à Alemanha, o que lhe garantiu alguns olhares atravessados no povoado e na cidade. Há quem acredite que Luciano recebe dinheiro para promover a ação, embora os 17 mil euros da causa, caso saia vitoriosa, se destinem aos governos local e regional.

    Contrariando as expectativas do grupo, o processo caminhou. Apesar de recusado em primeira instância num tribunal de Essen, um recurso apreciado em novembro de 2017 numa corte de segunda instância em Hamm levou à decisão de que a causa era plausível perante a lei alemã (embora o tribunal não se tenha pronunciado sobre seu mérito).

    A RWE rejeitou na ocasião uma oferta de acordo de Luciano referendada pela corte. Com isso, o caso entrou numa fase de produção de provas e oitiva de especialistas, que pode durar vários meses. Até aqui, os custos da ação que cabem a Luciano foram cobertos por doações para um fundo especialmente criado para isso.

    Para Luciano, já será uma conquista significativa se um causador da mudança climática reconhecer sua responsabilidade. Não se trata só do dinheiro, ele justifica, mas de conseguir que os causadores contribuam com o que lhes cabe para as medidas de segurança ou de adaptação perante a mudança do clima.

    Os 160 mil km² de glaciares nos Andes peruanos entraram quase por acaso na vida do engenheiro civil César Portocarrero. Foram, entretanto, capazes de convertê-lo num dos glaciologistas mais requisitados de seu país.

    Ele trabalhava nas obras de segurança das lagoas da região, após o terremoto de 1970, quando foi designado para buscar, no aeroporto de Lima, o geólogo Lonnie Thompson, da Universidade do Estado de Ohio (EUA). Deveria também acompanhar o especialista em três meses de escavação de testemunhos (cilindros verticais) de gelo com que Thompson ajudou a reconstruir o passado do clima da Terra.

    Quando viu o interesse do jovem pelo campo de pesquisa, Thompson instigou-o a estudar glaciologia e geomorfologia no Alasca, depois em Ohio e, por fim, na Universidade Columbia, em Nova York.

    Portocarrero se tornaria depois líder da Unidade de Glaciologia instalada em Huaraz pela Autoridade Nacional de Águas do Peru (ANA). Ali se dedicou a monitorar o retrocesso das geleiras, em especial as que pendem de forma ameaçadora sobre as lagoas, com inclinação superior a 22º.

    Caminho que leva ao nevado Pastoruri, no Parque Nacional de Huascarán; local conta com uma trilha educativa sobre efeitos do aquecimento global, como o derretimento de geleiras – Lalo de Almeida/Folhapress

    Nos anos 1970, relata, as geleiras retrocediam de 7 m a 8 m por ano, em média. Na década de 1980 isso subiu para 20 m. Na de 2000, para 25 m. A diminuição em espessura se calcula em 4 m anuais. O derretimento acelerado cria um paradoxo: água demais no presente e escassez de recursos hídricos no futuro.

    Com mais gelo derretendo, os lagos crescem em volume e número. No inventário de 2003 da ANA, contaram-se 830 na cordilheira Branca; uma década depois, já eram 860. Mas só 23 delas, Palcacocha à frente, apresentam risco de despejar aluviões trágicos sobre a população de Ancash.

    Segundo Portocarrero, entre 10 mil e 14 mil pessoas poderiam morrer num desastre como o de 1941. Mesmo quando estiver em funcionamento o sistema de alerta precoce planejado pelo governo regional, as mortes poderiam chegar a 7 mil.

    “A cordilheira Branca é a maior que temos. Ela abastece de água um dos projetos [de irrigação] mais importantes do Peru, Chavimochic, no departamento de La Libertad”, alerta. Terras que há 40 anos eram áridas e agora se enchem de verde com cultivos de agroexportação.

    A agricultura consome 89% da água [no Peru], informa Portocarrero, e desses 89% se desperdiçam 65%. “Temos de começar a trabalhar no uso eficiente da água, como parte desse processo de adaptação ao problema que a mudança climática nos traz.”

    Curso de água que se forma próximo à lagoa Llaca, na cordilheira Branca; o derretimento acelerado de geleiras cria água líquida demais no presente – Lalo de Almeida/Folhapress

    “As geleiras são filhas do clima, crescem quando há frio e precipitação suficientes e diminuem nas épocas quentes”, afirma. De acordo com o que se conhece, nos últimos 800 mil anos houve 11 períodos de resfriamento.

    “O clima na Terra sempre foi cíclico, resfriamentos e aquecimentos, resfriamentos e aquecimentos. Agora estamos vivendo uma época de aquecimento, entre resfriamentos, cujo pico se deu há 18 mil anos.”

    Este “último verão” que estamos vivendo agora tem, na visão do glaciologista, uma particularidade: “O homem, em seu afã de indústria e desenvolvimento, está acelerando o aquecimento como nunca se viu antes”. E, com isso, esvaziando a caixa d’água do Peru.

    Lidia, mulher do agricultor Saúl Luciano Luciano Lliuya, corta batata em sua casa na comunidade de Llupa, na zona rural de Huaraz – Lalo de Almeida/Folhapress

    Saúl Luciano Lliuya convida os repórteres para almoçar. Estamos no andar superior da casa, que tem dois cômodos: o amplo quarto de pé-direito baixo, com livros dos montanhistas Jon Krakauer e Reinhold Messner convivendo com cordas, botas e mosquetões, e uma antecâmara em que outros equipamentos de escalada se misturam com centenas de espigas multicoloridas de milho.

    No piso abaixo, de terra batida, a mulher Lidia prepara no fogão de lenha um guisado de quinoa com ají e batatas para acompanhar o arroz. À exceção deste, todos os ingredientes provêm dos campos em volta, cultivados pelos homens da aldeia com ajuda de bois para arar a terra.

    A bebida é uma infusão fraca e adocicada, “água de menta”, planta que cabe às mulheres plantar e vender no mercado. No fundo da cozinha, ouvem-se sem parar os guinchos dos “cuyes” (porquinhos-da-índia) comuns nos lares quéchuas, iguaria reservada para grandes festas de aniversário e casamento.

    Luciano atravessou o mundo para lutar contra o aquecimento global e se espantou com a qualidade da vida europeia. Como boa parte dos peruanos, porém, ainda depende das geleiras para ter o que pôr na mesa.

    “A montanha me dá angústia. Vivemos debaixo dela, bebemos a água que desce da montanha. Como guias de turismo, trabalhamos na montanha. Comemos e sustentamos nossos filhos graças à montanha”, diz.

    “A montanha é tudo para mim.”

     

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/peru/campones-peruano-processa-empresa-eletrica-alema-e-pede-indenizacao-por-encolhimento-de-geleiras/

     

     

    Prof Luciano Mannarino

  • Crise do Clima “Cidade do Cabo”

    Cidade do Cabo

    Estiagem e herança do apartheid criam pânico com torneiras secas no Dia Zero

    Ventania levanta areia do leito seco da represa Theewaterskloof, responsável por grande parte do abastecimento de água da Cidade do Cabo, na África do Sul – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    Marcelo Leite/Lalo de Almeida

    5.jun.2018 – 02h00

    PROVÍNCIA DO CABO OCIDENTAL

    No primeiro domingo de maio (6), uma centena de moradores da Cidade do Cabo aguardava em duas filas ordeiras a vez de encher galões de água na cervejaria SAB. Naquela manhã ensolarada, pessoas de todas as cores pareciam pouco convencidas de que o fantasma do Dia Zero tivesse sido exorcizado em definitivo com a chegada da estação de chuvas.

    A empresa instalara várias torneiras na fonte tradicional, localizada no bairro abastado de Newlands. Mesmo com água em casa, era como se todos quisessem manter-se em forma para as medidas drásticas que o governo municipal decretaria no Dia Z: corte do fornecimento para domicílios, obrigando os “capetonians” a buscar sua ração diária de 25 litros (contra 50 l hoje) em um dos 200 pontos de coleta espalhados pela área metropolitana.

    Essa situação limite, que frequentara os pesadelos da população nos seis meses anteriores, já havia sido afastada pela prefeitura. Após adiar sucessivamente a data das torneiras secas, para maio e depois julho e agosto, o vice-prefeito Ian Neilson declarou no início de abril que o armagedão hídrico não viria antes de 2019.

    Naquela altura, os moradores já tinham perdido a confiança na quantidade e na qualidade da água distribuída pelo município. E também no governo, com a prefeita Patricia de Lille lutando nos tribunais contra seu afastamento sob uma tempestade de acusações de corrupção.

    Sem contar que o consumo individual continua, ainda hoje, limitado a 50 litros diários por pessoa e que as contas d’água não param de subir.

    Patricia Kazaka, gerente de uma empresa de comunicação, enfrenta seus 15 minutos de fila no pátio da cervejaria segurando seus dois filhos pequenos pelas mãos enquanto outro, mais velho, ajuda com os cinco vasilhames de 5 l cada. Ela faz a peregrinação à fonte todos os domingos depois da igreja, desde fevereiro, para garantir água de qualidade para a família.

    “Houve alguns incidentes em que pessoas beberam água da torneira de casa e ficaram doentes”, diz a gerente. A prefeitura soltou um comunicado dizendo que a água era segura, mas anunciou também que estava conduzindo alguns testes, conta.

    “Isso nos assustou um pouco. Talvez a gente devesse começar a comprar água, mas aí cada garrafa custa um pouco mais de dinheiro, e percebemos que poderíamos conseguir nossa água de graça [na fonte].”

    População enfrenta fila para abastecer seus galões vazios na fonte pública de Springsway, na Cidade do Cabo, África do Sul; local atrai muitos muçulmanos – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    Sua família mora numa casa com jardim, mas não pode mais regá-lo. A conta mensal, que ficava entre 800 e 1.200 rands (cerca de R$ 240 a R$ 360), dobrou.

    “Acho que a campanha do Dia Zero foi necessária, porque, se não fosse por ela, muitos de nós provavelmente não começaríamos a nos dar conta de como é importante economizar água, ensinar às nossas crianças quando dar a descarga.”

    Vários metros atrás dela, a antropóloga e professora de ioga Kate Ferguson afirma que pretende continuar a vir até a fonte mesmo que as autoridades anunciem que as represas se encheram de novo. Ela buscava apenas 15 l, mas diz que vem com frequência e tem sempre recipientes no carro para manter altos os estoques de água confiável.

    “Queremos tirar a pressão do abastecimento da cidade. Quanto mais pessoas vierem para pegar água de beber e de cozinhar, melhor.” Ferguson considera positiva a campanha do Dia Zero: “De certa maneira, foi muito esperta. Trouxe consciência para as pessoas de como a água é um recurso escasso, especialmente aqui no Cabo Ocidental”.

    Por outro lado, ela acha que água é um direito humano básico, e se queixa de não haver muita pressão sobre setores como a indústria da carne, que a consome muito. “A moralidade de como nossos líderes lidam com as coisas fica em questão. Eles instilam medo [nas pessoas] sobre um direito básico do cidadão.”

    Morador da Cidade do Cabo caminha em direção à fonte pública no bairro de classe média alta de Newlands para abastecer com água seus galões vazios – Lalo de Almeida/Folhapress

    A região da Cidade do Cabo não chega a ser árida, mas tem distribuição muito variada de chuvas num raio de 100 km. Certas partes da área metropolitana recebem menos de 400 mm por ano, comparável às piores situações do semiárido do Nordeste brasileiro, e no verão dependem das reservas mantidas em seis grandes represas.

    Os reservatórios recebem água das montanhas a leste, onde a precipitação pode chegar a 2.000 mm/ano. Mas as chuvas orográficas (quando o relevo força a condensação da umidade) ocorrem só no inverno, mais abundantes em julho e agosto.

    De outubro a maio grassa a estiagem típica do clima mediterrâneo. Trata-se de uma exceção na África do Sul, o que favoreceu a implantação de vinhedos no Cabo Ocidental, como nas imediações de Stellenbosch e Franschhoek, e também de árvores frutíferas, em particular maçãs e peras –culturas agora sob ameaça.

    Houve secas severas no passado, separadas por intervalos de mais ou menos quatro décadas, mas nenhuma que se compare à dos últimos três anos. Pelos cálculos do hidroclimatologista Piotr Wolski, da Universidade da Cidade do Cabo, um tal evento só se repetiria de 300 em 300 anos, ou mais.

    O especialista não está seguro de que a estiagem sem precedentes seja fruto de impacto direto da mudança do clima pelo aquecimento global. Ele vê “um desvio forte” das condições climáticas normais, que parece reforçar uma tendência de declínio na precipitação observada nos últimos 40 anos.

    Filete de água contrasta com paisagem seca da represa Theewaterskloof, a principal da província do Cabo Ocidental – Lalo de Almeida/Folhapress

    Quando se consideram os dados de 100 anos, porém, nenhuma tendência clara pode ser identificada. “Os resultados não são robustos, nesta altura. Talvez num par de meses nós tenhamos melhores resultados”, prevê Wolski.

    Seu palpite é que a mudança climática contribuiu para a seca extrema, mas que força primária à qual se somou ainda seria a variabilidade natural do clima no Cabo Ocidental. “É uma mensagem [vaga] muito difícil de oferecer, porque o mundo todo está olhando para a Cidade do Cabo, cientistas do clima e negacionistas [da mudança] do clima”, lamenta.

    No início de 2017, quando a seca já era evidente, pesquisadores se reuniram para fazer uma recomendação ao governo municipal, mas não conseguiram chegar a uma previsão segura para a estação chuvosa. Limitaram-se a aconselhar uma conduta conservadora, de aversão ao risco.

    Na incerteza, a prefeitura não fez muita coisa. No final do ano passado o estado periclitante dos reservatórios mostrou que os cientistas estavam certos em recomendar o máximo de prudência. Foi quando se começou a falar em Dia Zero.

    Ponte sobre o leito da represa Theewaterskloof, uma das seis responsáveis pelo abastecimento da Cidade do Cabo; município não está totalmente livre de um Dia Zero – Lalo de Almeida/Folhapress

    No verão 2016/17, o nível das represas despencava à taxa de 1,5% por semana. A prefeitura estabeleceu o limiar de 13,5% de reservação como gatilho para declarar o Dia Zero, e seus primeiros cálculos indicavam que ele cairia em abril.

    Uma cidade que consumia 1,2 bilhão de litros por dia (l/d) viu sua alocação reduzida para 480 milhões de l/d pelo governo nacional. Com a campanha alarmista, um aumento de tarifas e a ameaça das torneiras secas, conseguiu cortar o uso para 505 milhões de l/d, ainda acima da meta de chegar a 450 milhões.

    Fixou-se a cota de 50 litros diários por pessoa (menos de um terço do que consumia um paulista em 2016, 166 l/d, após a crise hídrica na região metropolitana de São Paulo). Cartazes recomendavam dar menos descargas nos vasos sanitários, reservando-as para dejetos sólidos, tomar banho com esponja ou até suspendê-lo uma vez por semana, e assim por diante.

    Começou também o corre-corre para ampliar a captação de água, com a perfuração de poços artesianos e a construção de quatro usinas de dessalinização, mas estas só ficam prontas agora, em junho. De todo modo, elas agregariam, quando muito, 20 milhões de l/d, contra 150 milhões de l/d dos aquíferos.

    Criança brinca com tubo para captar água do mar da usina dessalinizadora de Monwabisi, próxima à Cidade do Cabo, na África do Sul – Lalo de Almeida/Folhapress

    Ian Neilson, vice-prefeito encarregado de domar a crise, repele a acusação de que o governo teria falhado em preveni-la. Até aqui, justifica, a Cidade do Cabo vinha se valendo das águas de superfície e isso funcionou bem, mesmo com secas graves no passado –as represas sempre se enchiam de novo.

    “Entendíamos de maneira geral que uma mudança [climática] estava ocorrendo e que seria necessária uma adaptação”, afirma. “O que não previmos foi quão rapidamente ela viria.”

    Todas as projeções, alega Neilson, indicavam que a ampliação das fontes de captação seria necessária só na década de 2020. Agora, após três anos de estiagem, dois dos quais os piores já registrados, ele se convenceu de que a cidade está diante de uma nova realidade.

    “Esta é a mensagem que as cidades mundo afora precisam entender: quando a mudança acontece, ela pode vir de modo muito rápido e severo. Há que se preparar previamente, e não presumir um ritmo lento de adaptação.”

    Trabalhadores colhem maçãs na fazenda Breëvlei, no vale Elgin, região próxima à Cidade do Cabo, na África do Sul; agora, a cultura está sob ameaça devido à falta de água – Lalo de Almeida/Folhapress

    O vice-prefeito se queixa de que o Departamento Nacional de Água e Saneamento demorou a reduzir a cota de água para irrigação. A crítica tem um fundo político: a prefeitura está nas mãos do partido Aliança Democrática, de oposição ao Congresso Nacional Africano, que ocupa o governo nacional desde 1994, com o fim do apartheid.

    A disputa teria atrasado verbas para ampliar a capacidade das represas Voëlvlei e Berg River, acusa Neilson (o departamento não respondeu ao pedido de entrevista). Por outro lado, o governo nacional impôs ao setor agrícola um corte na alocação de água para irrigação de 60%, ainda mais drástico que o determinado para consumo urbano.

    “Temo que o impacto na agricultura tenha sido enorme, e nós reconhecemos isso. Ouvi que a indústria vinícola teve algo entre 20% e 40% de redução no volume, e isso significou perdas de empregos, como no caso de apanhadores de frutas”, ressalva.

    Danie Loubser, da fazenda Breëvlei no vale de Elgin, tem 50 hectares plantados com macieiras. Na primeira semana de maio ele finalizava a colheita da variedade Pink Lady, uma das melhores para exportação, que sofreu uma quebra de 15% a 20% com a seca.

    A propriedade de Loubser fica no vale banhado pelo rio Palmiet, bem aquinhoado com chuvas. O Palmiet alimenta a represa privada Eikenhof, que contribuiu para adiar em quase três semanas o Dia Zero. As comportas foram abertas para deixar passar 10 bilhões de litros além dos 9 a 23 bilhões de litros que ela carreia para o sistema público de abastecimento a cada ano.

    “Fechamos um bom acordo”, avalia Stuart Maxwell, presidente da Associação de Usuários de Água de Groenland (GWUA, em inglês), que construiu Einkenhof. Em contrapartida, o corte para os associados baixou de 60% para 10%.

    Passarela sobre reservatório Eikenhof, controlado por associação de fazendeiros e usado para irrigar suas plantações; em 2018, parte da água da represa foi enviada para abastecer a Cidade do Cabo – Lalo de Almeida/Folhapress

    Em um vale mais adiante, na região de Worcester, não há uma grande represa como Eikenhof. Vinhedos e frutíferas são arrancados para o plantio de trigo e pastagens destinadas a ovelhas.

    A estiagem e a crise agrícola deixam suas marcas também na vila vizinha de Villiersdorp. Na “township” (favela habitada por maioria de negros) Station 11, os barracos se multiplicam pela encosta para abrigar desempregados de várias partes.

    Esgotos correm por valas abertas. O riacho que desce da montanha está cheio de lixo. A maioria dos moradores tem de buscar água em torneiras comunitárias, que podem estar a várias ladeiras de distância.

    No caminho de volta para a Cidade do Cabo, a rua principal de Franschhoek exibe uma fileira de cartazes em inglês, afrikans e xhosa, um deles recomendando o “domingo sem banho”. A equipe da Folha estaciona para tirar fotografias das mensagens ao lado de operários negros que instalam um portão, sob a vigilância de um homem ruivo.

    “Aproveite a África do Sul antes que ela acabe”, diz o proprietário à reportagem. Ele não se refere à seca, mas à tomada do poder pela maioria negra com o fim do apartheid, à qual atribui saques e incêndios de fazendas, estupros e assassinatos cruéis.

    A maior parte dos produtos agrícolas são embarcados para o exterior, e não consumidos domesticamente, aponta Richard Pfaff, gerente do programa de água da organização ambientalista EMG (Environment Monitoring Group). Os empregos criados são precários, e a irrigação consome água demais diante do escasso benefício social.

    “Existe hoje um debate político sobre como a água deveria ser alocada de maneira justa, dado que a maioria da população, que é de pessoas negras, está percebendo que há uma distribuição desigual de água quando se trata de negros e brancos.”

    Acima, mulher lava a roupa em torneira comunitária na Station 11, em Villiersdorp; no meio e abaixo, a “township” (favela) vista de cima – Lalo de Almeida/Folhapress

    Pfaff enxerga pontos negativos e positivos na campanha do Dia Zero. O aspecto ruim, diz, foi a manipulação de informação, como o adiamento sucessivo da data em que as torneiras secariam, sem maiores explicações.

    Por outro lado, na sua opinião, a mensagem drástica teve o poder de elevar a consciência da população sobre a mudança do clima, oferecendo-lhes uma imagem muito concreta do que ela pode acarretar.

    “O segundo aspecto [positivo] da campanha foi que, numa cidade dividida como a do Cabo, ela representou uma oportunidade para as pessoas se encontrarem e conversarem, para tentar resolver esse problema para além das divisões de raça, de classe e de gênero.”

    Não muito longe das torneiras da cervejaria SAB, no mesmo bairro Newlands, outra fonte atrai um grupo menor à Springsway, uma rua sem saída. Há um bom número de mulheres com os cabelos cobertos e homens com barbas e barretes.

    Carregadores se oferecem para arrastar galões de até 50 litros em carrinhos, por uns poucos rands. Alguns guardam lugar na fila para possíveis clientes e burlam a regra de 25 litros por pessoa.

    Um muçulmano se irrita e chama a policial que aguarda em um carro de patrulha no início da viela. Pistola no cinto, a agente obriga um rapaz negro a se afastar com os vários galões vazios de uma senhora branca, que volta ao fim da fila.

    Já se preparando para ir embora, Judy Molokon, mulher negra que vem à fonte quinzenalmente, reclama de sua conta d’água, que subiu para 1.400 rands mensais (cerca de R$ 400) numa casa de quatro pessoas.

    “Tento tanto quanto possível evitar usar água da torneira [em casa]. Não podemos arcar com essas tarifas altas”, protesta. “E nem foi culpa nossa. Estamos rezando para a chuva voltar.”

    Árvores mortas no antigo leito da represa Theewaterskloof, um dos seis grandes reservatórios para abastecimento de água da Cidade do Cabo – Lalo de Almeida/Folhapress

    Cantareira está com nível de água mais baixo do que em maio pré-crise de 2014

    O sistema Cantareira se prepara para entrar no período mais seco do ano em situação pior do que se encontrava antes da crise da água de 2014. A recomendação é para que a população evite desperdício.

    No último dia 31, restavam 453 bilhões de litros de água. Em maio de 2013, antes do início da crise, havia 581 bilhões de litros para enfrentar o inverno e parte da primavera até a chegada das chuvas.

    Como comparação, no mesmo dia em 2017, o sistema tinha 664 bilhões de litros.

    Em maio, a chuva acumulada foi de 13,7 mm, um sexto do que costuma chover neste mês segundo média histórica.

    O Cantareira tem recebido 13,7 metros cúbicos de água por segundo, enquanto a Sabesp distribui 24,4 metros cúbicos por segundo para a população. Ao invés de encher, é como se perdesse quase 11 metros cúbicos por segundo, água suficiente para abastecer a zona leste da capital.

    Os demais reservatórios também estão com menos água do que estavam em maio de 2013.

    A Sabesp afirma que possui um sistema mais robusto, com mais interligações e maior capacidade de tratamento de água do que antes da crise hídrica. Cita a interligação Jaguari-Atibainha, que permite transferir água entre duas bacias distintas, e diz que, no sentido do Cantareira, pode enviar até 162 bilhões de litros de água por ano, volume equivalente a uma represa Guarapiranga cheia.

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/cidade-do-cabo/estiagem-e-heranca-do-apartheid-criam-panico-com-torneiras-secas-no-dia-zero/

     

     

    Prof Luciano Mannarino

     

  • Crise do Clima “Ártico”

    Ártico

    Aquecimento de região polar impõe reforma no Cofre Global de Sementes

    Cofre Global de Sementes, localizado nos arredores de Longyearbyen, no arquipélago de Svalbard, Noruega – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    Marcelo Leite/Lalo de Almeida

    1.mai.2018 – 02h00

     

    LONGYEARBYEN 

    Frio e vento castigavam a encosta da montanha Platô (Platåberget, em norueguês), em frente ao aeroporto da cidade de Longyearbyen, na ilha Spitsbergen (Noruega). Os cantores do coral masculino Store Norske, porém, aguentaram firmes com seus macacões azuis e quepes brancos.

    Entoaram canções populares norueguesas debaixo de chuva, que nunca esteve no programa da cerimônia para comemorar o décimo aniversário do Cofre Global de Sementes.

    O ministro norueguês da Agricultura, Jon Georg Dale, duas dúzias de jornalistas e outro tanto de doadores de sementes ficaram molhados. Todos estavam preparados para neve, não para água, em pleno inverno ártico.

    Funcionário do Centro de Recursos Genéticos Nórdicos (NordGen) descarrega amostras de sementes para serem guardadas no Cofre Global de Sementes, nos arredores de Longyearbyen – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    O cofre e o aeroporto ficam a 5 km do centro de Longyearbyen, cidade mais ao norte do planeta. Os termômetros costumam marcar -15ºC nessa época, não os 3ºC positivos daquele 26 de fevereiro, incomuns no local do paralelo 78ºN, a meros 1.300 km do polo Norte.

    Cerca de 2.000 pessoas vivem na capital do arquipélago de Svalbard. E muitos turistas se dispõem a pagar R$ 600 por diária de hotel para ver a aurora boreal, passear em motos de neve e encontrar ursos polares ameaçados de extinção pelo aquecimento global –desde que munidos de uma espingarda, para o caso de o animal estar faminto.

    No dia seguinte, choveu de novo. Muita gente foi embora de Svalbard sem ver a aurora boreal. A água congelou no chão, e os turistas que permaneceram no arquipélago ficaram confinados em seus hotéis.

    A reportagem da Folha tinha reservado a data para alcançar geleiras distantes que se encontram em retração por força da mudança do clima. Com a chuva, só pôde registrar imagens de enxurradas e poças em Longyearbyen e ao longo da rodovia que leva às minas de carvão.

    Na manhã seguinte, foi possível fazer uma incursão na geleira Longyear, a menor no topo do vale em que se abriga a vila. Duas estacas fincadas na neve marcam a entrada de uma caverna de gelo que o derretimento aprofunda todo verão.

    Depois de cavar bastante, o guia Francisco “Chicco” Mattos encontrou a escada de acesso. Brasileiro apaixonado pelo Ártico, ele vive há 7 anos em Longyearbyen, onde trabalha com produção de documentários. De início, a fenda se parece com uma toca de animal, mas logo se revela uma basílica comprimida de gelo marmoreado pelos resíduos de rocha que tritura há séculos, ou milênios.

    Paisagem de Longyearbyen com água acumulada pelo derretimento de gelo, uma consequência de temperaturas acima do normal no Ártico – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    Foi uma semana atípica no Ártico. A região é a que mais tem esquentado no globo, ganhando pelo menos 4ºC nas últimas décadas, contra 1ºC no restante do planeta. No final de fevereiro, porém, o tempo batia recordes de esquisitice.

    No norte da Groenlândia, a estação Morris Jesup, uma das mais próximas do polo Norte, marcou mais de 60 horas de temperaturas positivas. O Ártico todo, segundo medições de satélite, esteve até 20ºC acima do normal. Em Svalbard, a média de fevereiro ficou 11ºC além do esperado.

    Não terá sido a primeira vez que uma reviravolta no tempo frustrou planos de humanos na cidade criada pelo americano John Munro Longyear em 1906. Mineiros de carvão, entretanto, tinham mais a temer com neve e avalanches, não com portas de carro imobilizadas pela chuva congelada.

    Acima, entrada de caverna de gelo que se aprofunda a cada ano pela ação de água corrente, no verão, com o degelo na geleira Longyear; abaixo, interior da caverna

    Acima, entrada de caverna de gelo que se aprofunda a cada ano pela ação de água corrente, no verão, com o degelo na geleira Longyear; abaixo, interior da caverna – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    A transformação climática do Ártico criou percalços para o Cofre Global de Sementes, construído dez anos atrás pelo governo da Noruega por US$ 9 milhões (cerca de R$ 15 milhões à época) como um seguro para enfrentar as consequências do aquecimento global na agricultura.

    Desde então, 1.059.646 amostras únicas de sementes já foram depositadas no local, as últimas 76 mil em 26 de fevereiro, no décimo aniversário da instalação. São duplicatas de sementes guardadas em 73 bancos doadores espalhados pelo mundo, como o do Cenargen (Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia) em Brasília.

    “Há desastres naturais, como o tsunami que golpeou um banco genético nas Filipinas e pôs a perder material muito importante. Perdemos bancos genéticos no Afeganistão e no Iraque”, justifica Marie Haga, diretora executiva da ONG Global Crop Trust, que toma conta do Cofre das Sementes. “É reconfortante saber que, caso as coisas deem errado, podemos ir a Svalbard, recuperar as sementes e recomeçar do zero.”

    A guerra civil na Síria inviabilizou uma importante coleção do Centro Internacional para Pesquisa em Agricultura de Áreas Secas (Icarda, na abreviação em inglês) na cidade de Aleppo. Com 92.430 duplicatas de Svalbard, a instituição pôde reconstituir o acervo no Líbano e em Marrocos, em 2015 (só a instituição que depositou as sementes pode sacá-las do banco gelado).

    “O problema mais básico da agricultura hoje em dia é que as sementes que nos alimentam não podem adaptar-se tão rápido à mudança do clima. As plantas e a humanidade se adaptaram ao mundo todo, mas isso levou dezenas de milhares de anos”, explica Haga.

    “Precisamos cruzar plantas que resistam a temperaturas mais altas, que tolerem salinidade mais alta no solo, que possam combater novas pragas e doenças. E essa diversidade de cultivares é a matéria-prima que usamos.”

    Um exemplo frequente do que se pode alcançar com cruzamentos de variedades é a soja, de clima temperado. Ela foi aclimatada pela Embrapa para cultivo no cerrado tropical e até na Amazônia equatorial.

    Uma única variedade comercial de trigo, como a “Veery”, desenvolvida nos anos 1980, resulta de 3.170 cruzamentos com 51 plantas oriundas de 26 países.

    Construir uma fortaleza gelada a fim de conservar diversidade para o futuro, 14 anos atrás, era uma ideia considerada maluca e talvez constrangedora para o governo norueguês, conta Cary Fowler, primeiro diretor do Crop Trust.

    Ele apresentou a proposta para o Ministério das Relações Exteriores em Oslo e ouviu de um jovem funcionário de alto escalão: “Dr. Fowler, o sr. está dizendo que esse é o recurso natural mais importante da Terra? E que Svalbard seria o melhor lugar da Terra para conservá-lo? Como poderíamos dizer não?”

    Svalbard pode ser o melhor local do mundo para guardar o tesouro, mas nem por isso está imune ao aquecimento global. A temperatura indicada para conservar sementes é -18ºC, e nada melhor, para economizar energia, do que usar um depósito numa montanha em que os termômetros variam entre -3ºC e -4ºC, mesmo durante o verão.

    Acima, porta coberta por gelo no Cofre Global de Sementes, em Longyearbyen; abaixo, funcionário da Nordgen manuseia caixas com amostras de sementes no interior do local – Lalo de Almeida/Folhapress
     

    Ao percorrer 130 m de túnel em ligeiro declive para alcançar a câmara frigorífica de 95 m², o visitante tem a sensação de que o interior da construção é mais quente que o exterior. Isso decorre da ausência de vento, mas também do fato de que a temperatura externa, em dias normais como o domingo (25/2), reservado para a equipe da Folha, estava vários graus mais negativa.

    Num ano típico, o cofre só é aberto três ou quatro vezes, quando há sementes para depositar. Na comemoração dos dez anos, houve mais de uma dúzia de aberturas, 11 delas para os times de reportagem credenciados. Um grupo por vez, acompanhado do pessoal do Centro de Recursos Genéticos Nórdicos (NordGen), que faz a zeladoria do cofre.

    Por razões de segurança, é proibido fotografar dentro do túnel escavado na rocha, mas foi possível constatar que existiam obras em curso. Svalbard se caracteriza pela presença do permafrost, o solo congelado de regiões de tundra, que não se recompôs como esperado em volta da célebre construção triangular que marca a entrada da fortaleza na encosta da Platåberget.

    O derretimento do permafrost representa um impacto do aquecimento global preocupante para os donos de imóveis em Longyearbyen, que correm o risco de vê-los afundar. No Cofre das Sementes, não causa problemas em suas três câmaras frias, cada uma com capacidade para 1,5 milhão de amostras, pois elas estão no meio de um maciço de pedra.

    Já o túnel apresentou infiltração de água desde os primeiros anos de funcionamento e agora será reconstruído para se tornar mais impermeável. A obra está orçada pelo governo norueguês em US$ 13 milhões (R$ 45 milhões), mais do que o valor investido na construção.

    O túnel será reforçado com concreto. Haverá novos recintos para abrigar equipamentos elétricos e de refrigeração capazes de manter a temperatura mesmo em caso de pane na energia elétrica. Os operadores do cofre asseguram que as sementes estocadas jamais estiveram em risco.

    As três câmaras ficam num grande átrio revestido de concreto que se abre ao final do túnel, com pé-direito de mais de 6 m, apelidado “catedral”. Há portas duplas de metal no nicho de entrada de cada uma, mas só a do meio está recoberta de cristais de gelo. É a única, por ora, refrigerada a -18ºC.

    Passaram dois anos até que se estabilizasse a temperatura desejada. Foi necessário que os compressores a diesel garantissem o resfriamento da camada de rocha em volta do compartimento, para evitar flutuações no frio de -18ºC. As equipes de reportagem tiveram só dez minutos de permanência na sala forte, para evitar que o calor corporal perturbasse o ambiente.

    Máquinas são usadas para reforma no Cofre Global de Sementes, em Longyearbyen

    Máquinas são usadas para reforma no Cofre Global de Sementes, em Longyearbyen – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    São meia dúzia de corredores com estantes de aço até o teto, cheias de caixas de plástico. Dentro delas ficam os envelopes de grossa folha de alumínio revestida de plástico em que se acondicionam as sementes, seladas com apenas 5% de umidade interna. Nessas condições, elas podem germinar até um século depois de guardadas. Os idealizadores do Cofre das Sementes defendem que localizá-lo em Svalbard foi a decisão correta e que a ilha de Spitsbergen permanece como o melhor lugar para ele.

    “O aquecimento global e seu efeito no permafrost é uma grande irritação, mas não uma ameaça [para as sementes]”, afirma Cary Fowler.

    “Não importa aonde você for no planeta para armazenar sementes, sempre terá de rebaixar a temperatura que a natureza lhe oferece. Não há lugar na Terra onde você possa chegar e sair facilmente que lhe garanta uma temperatura de -18ºC constantes.”

    “No interior da montanha ainda teremos por vários séculos -4ºC”, defende Marie Haga, do Crop Trust. “Há outras vantagens: politicamente é uma parte do mundo muito estável, sem terremotos nem vulcões. E a comunidade de Longyearbyen toma conta do cofre. Se pessoas com más intenções entrarem na cidade, todos saberão na hora.”

    O meteorologista Kim Holmén, diretor internacional do Instituto Polar Norueguês, observa paisagem em Longyearbyen, a cidade mais ao norte do planeta – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    “Quando contemplo geleiras que conheço há 30 anos, vejo que mudaram mais que minha mulher mudou”, lamenta o meteorologista Kim Holmén, diretor internacional do Instituto Polar Norueguês. Ele mora há nove anos em Longyearbyen e faz pesquisa em Svalbard há três décadas. Não economiza palavras para registrar a profunda transformação do Ártico.

    “Onde quer que eu olhe vejo mudanças óbvias. O fiorde ali fora da janela não está coberto de gelo. Nesta época do ano [fevereiro] costumava haver um metro, de fora a fora, e agora são águas abertas. A neve desaparece duas semanas antes na primavera”, diz.

    A espessura das geleiras diminui até 40 cm por ano. As temperaturas noturnas no inverno subiram dez graus nos últimos 30 anos, enquanto as do verão não subiram tanto, o que é consistente com os cálculos sobre como os humanos induzem a mudança do clima. “A lista é interminável.”

    A fauna local passa por mudança acentuada de perfil. Não são só os ursos polares que sofrem com o desaparecimento de gelo marinho usado como plataforma para emboscar focas.

    Tordas-anãs se veem forçadas a voar para o norte, em busca de copépodes com mais gordura armazenada em seu diminuto corpo de crustáceo. O bacalhau polar parte em busca de águas mais frias e placas de gelo em cujas frestas se abrigam os alevinos (filhotes). Outros peixes de águas mais quentes invadem o arquipélago, como a cavala, atrás da qual chegam novas espécies de pássaros, como o ganso-patola.

    No alto, capim brota em meio ao gelo nos arredores de Longyearbyen; no meio, paisagens com vegetação e água; acima, montes de carvão mineral na região do arquipélago de Svalbard – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    “O urso polar é um símbolo para todo o ecossistema, mas o bacalhau polar é parte dele, assim como a baleia beluga, os narvais e outras espécies que dependem do gelo marinho”, diz Holmén. “Há poucos de nós privilegiados o bastante para ver ursos polares em seu habitat natural. Muita gente acha que o mundo estará mais pobre se o urso polar desaparecer.”

    Algumas dessas pessoas, caso tenham recursos e coragem para enfrentar o frio, visitam Svalbard na esperança de contemplar o urso ameaçado. Circulam pela ilha de Spitsbergen em carros movidos a diesel e motos de neve que queimam gasolina.

    No caminho do aeroporto, a usina termelétrica consome a energia fóssil do carvão para aquecer hotéis e restaurantes –além de agravar o efeito estufa e alimentar os geradores que mantêm o Cofre das Sementes a -18ºC.

    Cidade de Longyearbyen, a mais ao norte do planeta, localizada no arquipélago de Svalbard, Noruega – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    A Noruega paga pelo Cofre das Sementes, pôs US$ 1 bilhão (R$ 3,5 bilhões) à disposição do Fundo Amazônia para atividades que reduzam a pressão sobre a floresta brasileira e dá pesado incentivo fiscal para eletrificar sua frota de carros. No entanto, quase toda sua riqueza deriva do petróleo e do gás natural, que produz e exporta a partir do Mar do Norte.

    “Como um país rico que obtém renda de combustíveis fósseis, temos de mudar nossa economia, pois sabemos que a indústria de óleo e gás será menos importante no futuro”, concede Ola Elvestuen, ministro de Clima e Ambiente da Noruega.

    “Não é algo que possamos simplesmente desligar. Precisamos estar na vanguarda da redução de emissões, assumir responsabilidade pela nossa parte e pensar em como podemos tornar nossa economia mais diversificada.”

    “A indústria é parte da solução, não é inimiga. Você e eu somos parte do problema, eu e você somos parte da solução. Se não começarmos a fabricar e consumir produtos que requeiram menos petróleo, nada irá mudar”, pondera Kim Holmén, do Instituto Polar Norueguês.

     

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/artico/aquecimento-de-regiao-polar-impoe-reforma-no-cofre-global-de-sementes/