Categoria: Economia

  • Bacia do Paraná já sente efeitos da seca sobre agronegócio e geração de energia

    Bacia do Paraná já sente efeitos da seca sobre agronegócio e geração de energia

    Disputa com setor elétrico pode parar hidrovia e acentuar conflitos com usuários da água para produção de alimentos

    6.jun.2021 às 23h15Atualizado: 7.jun.2021 às 9h26

    Nicola Pamplona Eduardo Anizelli

    TURAMA (MG), APARECIDA DO TABOADO (MS) e ILHA SOLTEIRA (SP)

    De pé sobre a terra avermelhada que um dia foi o lago da hidrelétrica Água Vermelha, na divisa de São Paulo com Minas Gerais, o aposentado José Carlos Jesus, 57, dá a dimensão da crise: “Aqui onde nós estamos nem dá pé quando o reservatório está cheio”.

    Cerca de cem metros o separam de seu rancho, onde ele vive hoje “escondido da pandemia”. A casa simples foi construída à beira da represa, mas o lago agora começa bem mais abaixo, o que o obrigou a esticar uma mangueira de 250 metros para captar água.

    Com apenas 7,7% de sua capacidade de armazenamento de energia, o reservatório da usina de Água Vermelha é um retrato da crise hídrica que assusta o país e vem levando o governo a anunciar medidas emergenciais para tentar evitar o racionamento de energia.

    Baixo nível do reservatório deixa à mostra antiga estrada submersa pela hidrelétrica Água Vermelha, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Folhapress

    Em um de seus braços, o ribeirão Pádua Diniz, em Indiaporã (SP), a água desceu tanto que deixou à mostra a velha estrada de terra alagada há mais de 40 anos, quando o reservatório foi criado. Resta apenas uma pequena lagoa, formada pelas poucas chuvas do verão, embaixo da ponte da estrada nova.

    “Já vim aqui de barco e, só ali embaixo da ponte, pegamos mais de 100 corvinas”, relembra a funcionária pública Aparecida Batista dos Reis, 53, enquanto tentava pescar no que restou do ribeirão na tarde de quarta (2).

    A situação é mais preocupante pela manutenção dos baixos níveis mesmo após o fim do chamado período chuvoso, quando os reservatórios deveriam estar cheios de água para garantir a travessia do inverno mais seco.

    E traz de volta o fantasma de 2015, quando a seca foi tão severa que o tráfego na hidrovia Tietê-Paraná teve que ser interrompido por falta de calado para a passagem dos comboios que levam grãos do Centro-Oeste para São Paulo.

    “Nem em 2015 o rio esteve assim”, reclama o empresário Jonzelito Luiz Pereira, 59, dono de uma fazenda e de uma pousada ao lado da barragem, em Iturama (MG). “Os poços [de água subterrânea] já estão secando. Era para começar a secar em outubro.”

    Água Vermelha é a última das 12 hidrelétricas do rio Grande, que nasce na serra da Mantiqueira e forma o rio Paraná após se juntar com o rio Paranaíba, na divisa entre São Paulo e Mato Grosso do Sul.

    Juntos, os três rios são responsáveis por dois terços da capacidade de armazenamento de energia do subsistema energético Sudeste/Centro-Oeste, considerado a principal caixa-d’água do setor elétrico brasileiro por concentrar represas de usinas importantes.

    Assim, a região está no foco do esforço do governo para tentar evitar o racionamento. Na semana passada, a ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento) declarou emergência hídrica na bacia, abrindo a porta para medidas mais drásticas, como limitar a captação de água nos rios.

    A abundância de água faz da região um importante polo do agronegócio, com fazendas de gado e cana-de-açúcar se estendendo até onde a vista alcança, e uma forte produção piscicultora, apontada como segunda maior criadoura de tilápias do Brasil.

    A seca já vem produzindo estragos na atividade local, com o atraso na colheita de cana e a piora nas condições dos pastos. Os produtores temem que a disputa com o setor elétrico inviabilize os negócios, o que deve acirrar conflitos pelo uso da água nos próximos meses.

    “Se eu tiver que parar de irrigar, perco toda a produção”, diz Edvaldo Costa Mello, proprietário da Fazenda Costa Mello, produtora de cítricos que tem uma área de plantio de limões logo abaixo da barragem de Água Vermelha.

    A sua propriedade fica às margens do rio Grande, mas já no reservatório da hidrelétrica Ilha Solteira, no rio Paraná. É a maior hidrelétrica da caixa-d’água, com capacidade para produzir 3.444 MW, e seu lago se estende para os dois rios que formam o Paraná.

    O reservatório é usado pela hidrovia Tietê-Paraná. Por isso, há um esforço contínuo para manter um volume de água suficiente para permitir a passagem dos comboios, que dependem de uma cota mínima de 325 metros acima do nível do mar, volume observado hoje.

    Mesmo assim, o gigantesco lago de 1.200 quilômetros quadrados (quase o tamanho da cidade de São Paulo) está agora com menos da metade de sua capacidade de armazenamento. Já é possível encontrar grandes áreas secas em alguns de seus braços, como o córrego do Cigano, em Três Fronteiras (SP).

    O presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Paranaíba, Breno Esteves Lasmar, defende que a importância da região para a economia e a possibilidade de paralisação da hidrovia devem ser consideradas na gestão dos reservatórios. “[A redução do nível] vai ter impacto muito grande sobre toda a economia nacional.”

    O impacto local sobre a geração de emprego e renda também pode ser considerável, diz Fernando Carmo, assistente agropecuário da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável da Secretaria de Agricultura de São Paulo.

    O governo estadual calcula que a piscicultura no entorno do lago de Ilha Solteira gere cerca de 5.000 empregos diretos e indiretos. A hidrovia seria responsável por outros três mil empregos, que ficaram suspensos durante a paralisação de 2015.

    A crise hídrica pega os produtores locais já enfrentando aumento de custos pela escalada nas cotações internacionais das commodities, já que rações são baseadas em soja e milho. Pereira, de Iturama, decidiu vender metade das 120 cabeças de gado que tinha para economizar na ração.

    “Há um complicador na manutenção dos pastos para o gado”, diz o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Aparecida do Taboado (MS), Eduardo Sanchez. “A planta sofre estresse hídrico, tem que fazer um trabalho mais custoso, de tratar o gado no coxo.”

    Na piscicultura, que chegou a fechar 40% das unidades na crise de 2015, os custos elevados podem inviabilizar investimentos para adaptação a níveis mais baixos do lago, diz Carmo. “O custo da ração está altíssimo, e muita gente pode parar de produzir por não ter como investir para deslocar os tanques.”

    “Se baixar mais, vai dar problema”, confirma Akemi More, da Piscicultura More, uma pequena empresa familiar que produz em espelho-d’água cedido pela União no rio Paranaíba. “O rio já está como se fosse na seca”, reforça seu irmão e sócio Sandro More. Com a crise, venderam na semana passada 15 dos 93 tanques que tinham.

    Nível de água baixo no lago da hidrelétrica Água Vermelha, em Iturama, interior do estado de Minas Gerais.
    Nível de água baixo no lago da hidrelétrica Água Vermelha, em Iturama, interior do estado de Minas Gerais. Eduardo Anizelli/Folhapress

    Os produtores locais confiam na manutenção da cota mínima para garantir o tráfego na hidrovia, mas na semana passada o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) divulgou relatório considerando a flexibilização para 319 metros em junho para reforçar a recuperação dos reservatórios.

    O operador quer reduzir as vazões obrigatórias nas hidrelétricas das partes altas dos rios Grande e Paranaíba para segurar água nos reservatórios de cabeceira. A energia gerada pelas vazões mínimas pode ser substituída agora por usinas eólicas no Nordeste, que está em plena estação de ventos.

    Em 2014, a redução da cota do reservatório de Ilha Solteira se transformou em uma guerra judicial, que culminou com a suspensão da geração de energia na hidrelétrica após liminar concedida a associações de piscicultores da região.

    Hoje, os produtores confiam que a proximidade do setor com o governo federal pode ajudar a evitar maiores impactos, diz Assis Henrique, diretor administrativo da Global Peixes, que produz tilápias e tem uma unidade de reprodução em tanques em diferentes pontos do lago.

    Especialistas no setor elétrico dizem entender a preocupação com a economia local, mas afirmam que os bilionários custos da crise energética que encarecem a conta de todos os brasileiros são relevantes no debate sobre a gestão das águas.

    A expectativa é que o brasileiro passe 2021 pagando taxa extra para bancar as usinas térmicas, que pressionarão também os reajustes das tarifas das distribuidoras ao longo dos próximos anos. Um racionamento de energia, no momento, é considerado improvável.

    É consenso entre os especialistas que a crise é estrutural e precisa de soluções de longo prazo. “São questões como mudança da ocupação do solo, mudança climática, aspectos de desenvolvimento econômico que levam à supressão de vegetação”, diz Lasmar. “Onde não há floresta, não há água.”

    Segundo o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), a bacia do rio Paraná vem enfrentando chuvas abaixo da média há 22 anos e a situação se agravou a partir de fevereiro de 2019, quando recebeu os piores volumes desde o início dos anos 1980.

    “Em termos de vazão, pode-se concluir que a porção alta da bacia do rio Paraná enfrenta uma situação que pode ser classificada como severa e excepcional desde 2014” diz.

    Roberto Kishinami, coordenador sênior do Instituto Clima e Sociedade, defende que o agronegócio da região deve buscar tecnologias mais eficientes de irrigação, como o gotejamento usado no Centro-Oeste. “Aqui [em São Paulo] se usa muito pivô central, que é como jogar água de mangueira.”

    No Brasil, em média, 50% da água captada nos rios brasileiros é usada para irrigação, diz a ANA. Um aumento na tarifa de captação de água, que é regulada pelos estados, poderia levar à busca por maior eficiência, considera Kishinami.

    O ex-presidente do ONS Luiz Eduardo Barata lembra que, a cada crise hídrica, autoridades falam em recuperação de mananciais e matas ciliares, as florestas às margens dos rios, mas as propostas raramente vão adiante.

    Ele defende mudanças no modelo do setor elétrico para permitir a contratação de mais energias renováveis, como solar e eólica, para garantir a recuperação dos reservatórios a seus níveis máximos, o que não ocorre há muito tempo —a última vez em que eles superaram os 80% de capacidade foi em abril de 2011.

    “Hoje, estamos enchendo o tanque até a metade e rodando até cair na reserva”, compara. “Mas seria melhor andar de tanque cheio e abastecer quando chega na metade. O custo é o mesmo e o risco, menor.”

    https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/06/bacia-do-parana-ja-sente-efeitos-da-seca-sobre-agronegocio-e-geracao-de-energia.shtml

    Questões

    1 Em que contexto político foi criado a ANA e quais são suas funções?

    2 Qual a importância das matas ciliares para a manutenção da vazão de um rio?

    3 Aponte os diversos usos de um rio presentes no texto jornalístico.

    4 Por que a Bacia do Rio Paraná apresenta um grande potencial instalado na produção de energia hidrelétrica?

    5 Explique como se obtém energia elétrica a partir de um rio.

    6 Quais são os impactos socio-ambientais ligados a produção de energia hidrelétrica.

    7 O que é uma Bacia Hidrográfica?

    Prof Luciano Mannarino

  • Enviar arroz à África nunca vai conter a migração para a Europa, diz escritor de Gana

    Enviar arroz à África nunca vai conter a migração para a Europa, diz escritor de Gana

    Ousman Umar defende ampliar acesso digital aos jovens para resolver pobreza e conter deslocamentos

    10.abr.2021 às 23h15

    Rafael Balago

    SÃO PAULO

    Para o escritor e ativista Ousman Umar, o caminho para tirar a África da pobreza passa por empoderar os jovens, e não por doar toneladas de arroz e comida.

    Ele criou a Nasco Feeding Minds, ONG que busca ampliar o acesso dos jovens em Gana ao mundo digital, para que eles aprendam e pensem formas de melhorar a África. A educação também é caminho para evitar que eles caiam nas promessas de traficantes que tentam convencê-los a tentar ir para a Europa, em viagens arriscadas que incluem a travessia do deserto e do mar Mediterrâneo em condições precárias.

    O escritor ganês Ousman Umar, autor de "Viagem ao País dos Brancos"
    O escritor ganês Ousman Umar – Divulgação

    “Vivi cinco anos infernais tentando chegar à Europa e não quero que ninguém passe mais por isso”, diz Umar. Ele chegou à Espanha em 2005 e lançou dois livros sobre sua vida: “Viaje al País de Los Blancos”, em 2019, sobre sua travessia, e “Desde el País de los Blancos”, lançado no mês passado, no qual conta as dificuldades para se adaptar à Europa.

    Umar, 32, participou do festival virtual Viva Livro, que reuniu autores que escrevem sobre migração, e falou com a Folha por telefone, de Gana. Abaixo, os principais trechos da conversa.

    Como a pandemia tem afetado a migração da África para a Europa? 

    Barcos com imigrantes seguem chegando. Cada vez mais gente quer ir embora, especialmente fugindo de guerras como as da Síria e da Líbia. A situação econômica piorou no mundo inteiro, mas na África piorou mais, porque os países eram mais pobres e já tinham problemas que vinham de muito antes.

    Como está a pandemia em Gana? 

    Em geral, há menos gente contaminada e mortes por coronavírus do que no Ocidente. Estou em Gana agora, e a situação está dez vezes melhor do que em Barcelona. A África viveu muitas outras epidemias recentemente, enquanto a Europa não tinha uma há quase cem anos, então sabe como fazer uma gestão melhor. Há casos em que há uma UTI para cada 1 milhão de habitantes, e, já que não temos como curar, temos que evitar que a enfermidade chegue. Na África, a população é muito mais jovem, e o coronavírus traz mais danos aos maiores de 50 anos, o que também é um fator.

    Quais foram os momentos mais marcantes de sua jornada até a Europa? 

    Com nove anos, deixei meu povoado e fui trabalhar na cidade. Aos 13, comecei uma viagem que passou por oito países da África. Cruzei parte do Saara a pé. Começamos a viagem em 46 pessoas, e só seis chegaram ao final com vida.

    Na Líbia, cheguei sem dinheiro, sem celular e sem falar árabe. Chegava a uma cidade, trabalhava em qualquer coisa, que ninguém queria fazer, para juntar dinheiro e pagar um táxi até o povoado seguinte. Por isso, demorei cinco anos até chegar à Europa. Cinco anos infernais, cruéis. Por isso, decidi que ninguém merece viver o que vivi.

    Fui tentar atravessar o Mediterrâneo em 2005. Traficantes disseram que em 45 minutos chegaríamos ao paraíso. Na primeira tentativa, 180 pessoas morreram. Na segunda, fiquei 48 horas sentado em um barco, sem comer ou beber, sem saber nadar e com a agonia de pensar que poderia morrer a qualquer momento.

    Ao chegar em terra, o grupo corre pela praia e se espalha pelas dunas; a Espanha recebeu nos sete primeiros meses de 2017 17 mil migrantes, o dobro do que tinha recebido no mesmo período do ano passado, segundo o governo.
    Ao chegar em terra, o grupo corre pela praia e se espalha pelas dunas; a Espanha recebeu nos sete primeiros meses de 2017 17 mil migrantes, o dobro do que tinha recebido no mesmo período do ano passado, segundo o governo. Jon Nazca/Reuters

    E como foi depois de chegar à Espanha? 

    Consegui a autorização para poder entrar, mas onde viver? Fiquei dois meses dormindo na rua em Barcelona, sem que ninguém me olhasse na cara. Nem no deserto me senti tão só. Tive a sorte que uma família me acolheu. Na primeira noite que dormi em uma casa, chorei como uma criança. Me perguntava o que eu tinha feito de mal para merecer tanta tortura e crueldade. E aí percebi que tinha dois propósitos: dar voz aos companheiros que não conseguiram chegar com vida [à Europa] e evitar que novos jovens caiam nesta armadilha infernal.

    Como fazer isso? 

    Assumi minha responsabilidade, como se fosse o presidente do meu país. Usei o dinheiro que ganhei como mecânico de bicicletas, juntei com empréstimos e doações de alguns amigos e comprei 45 computadores, em 2012. Contratei dois professores em Gana, que atuavam em duas escolas com aulas para inclusão digital. Hoje atuamos em 30. E sem ajuda de nenhum governo, só de pessoas que ouvem nossa história.

    A caridade não vai mudar a África. Enviar toneladas de arroz não funciona e nunca vai funcionar. Faz-se isso há 60 anos e tudo segue igual. Tem que mudar a estratégia. Nossa ONG alimenta mentes. Chega de pensar só em estômagos. A única maneira de retirar a África da pobreza é empoderar as pessoas. Temos de alimentar as mentes dos jovens, que são ambiciosos e têm tantos anseios, para que eles mudem as coisas partindo de dentro.

    Nas últimas eleições de Gana, tivemos o candidato mais jovem a chegar ao Parlamento. Não gosto da política. Tanto faz se você pensa verde, vermelho ou amarelo. O que gosto é de ver o exemplo para que muitos jovens vejam que a África tem muito potencial.

    Como vê o efeito de movimentos de valorização dos negros, como o Black Lives Matter? 

    Estamos vivendo uma época de mudanças. Mas, embora haja intenções, as coisas vão muito lentas. Cheguei à Espanha em 2005, analfabeto. Em menos de dez anos, estava estudando na Universidade de Barcelona. Química, porque queria entender se a magia negra era verdade ou não. E eu era “o” negro da universidade. O único.

    Para os imigrantes que chegam à Espanha, não há outro caminho a não ser os piores trabalhos, como colher tomates no campos, sem contrato, porque a lei migratória criminaliza o imigrante. Sem documentos, só resta trabalhar em coisas que os espanhois não querem fazer.

    O ator Johnathan Majors na capa da QG americana de outubro; três personalidades negras estiveram na capa da revista neste ano
    O ator Johnathan Majors na capa da QG americana de outubro; três personalidades negras estiveram na capa da revista neste ano QG/Reprodução

    No ano passado, vieram 240 pessoas para Lleida, uma cidade na Catalunha, para colher maçãs. Como havia a questão do vírus, ninguém os acolheu, e eles ficaram dormindo em uma praça por duas semanas. Até que um deles fez um vídeo, contando a história, e postou no Facebook. Um jogador de futebol do Mônaco [Keita Baldé] viu o vídeo e se dispôs a pagar um hotel para que as pessoas deixassem de dormir na rua, como animais. Os hotéis estavam vazios, mas não quiseram alugar um quarto para essas pessoas, porque eram negras. Por outro lado, se morre um americano negro nos Estados Unidos, todo mundo posta “black lives matter” em seus perfis. Mas falta atuar de verdade. Isso realmente faz falta.


    RAIO-X

    Ousman Umar, 33
    Nascido em Gana, migrou para Espanha, onde se formou em relações públicas e marketing na Universidade de Barcelona. Escreveu dois livros, sobre sua travessia até a Europa e sobre as dificuldades de se adaptar à vida no continente. É fundador da ONG Nasco Feeding Minds, que busca ampliar o acesso de jovens em Gana ao mundo digital

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/04/enviar-arroz-a-africa-nunca-vai-conter-a-migracao-para-a-europa-diz-escritor-de-gana.shtml

    Prof Luciano Mannarino

  • América Latina e convergência de rendimentos: história de um fracasso?

    América Latina e convergência de rendimentos: história de um fracasso?

    EM13 CHS 206     Analisar a ocupação humana e a produção do espaço em diferentes tempos, aplicando os princípios de localização, distribuição, ordem, extensão, conexão, arranjos, casualidade, entre outros que contribuem para o raciocínio geográfico.

    3.mar.2021 às 18h22

    Carlos Andrés Brando: Historiador. Doutor em História Econômica, London School of Economics & Political Science. Pesquisador pós-doutorando na U. de los Andes e reitor da Faculdade de Economia da U. Jorge Tadeo Lozano.

    Uma ideia popular em economia sustenta que os países pobres tendem a crescer mais rapidamente do que os países ricos. Portanto, as economias do mundo acabam convergindo em seus níveis de renda. A vantagem mais importante que os retardatários têm é copiar os melhores padrões e práticas institucionais, tecnológicas e produtivas dos que estão à frente.

    Além disso, segundo a teoria, os pobres recebem grandes quantidades de capital dos ricos, o que significa que, apesar de investirem cada vez mais capital na formação de sua força de trabalho ou em suas indústrias, os retornos que obtêm com esses investimentos são cada vez menores.

    COMO É A TEORIA À LUZ DA HISTÓRIA?

    Após a Revolução Industrial Inglesa e o crescimento econômico moderno que ela gerou em meados do século 18, uma dúzia de países ocidentais atingiu níveis de renda semelhantes aos ingleses nos cem anos seguintes. Primeiro vieram a Holanda e a Bélgica. Depois França, Suíça, Dinamarca, Alemanha, Nova Zelândia, Austrália, Canadá e Argentina. No início do século passado, o grupo dos ricos foi completado pela Noruega e Suécia.

    Os Estados Unidos merecem uma menção especial, pois ultrapassaram a Inglaterra para se tornarem o país mais rico do mundo, o líder tecnológico e o poder político hegemônico global à beira da Primeira Guerra Mundial.

    Desde então, tem havido pouca convergência. Durante os chamados “anos dourados” do período pós-guerra, o crescimento econômico acelerado experimentado pela Áustria, Finlândia, Itália e Espanha os trouxe para o clube de elite. A Irlanda e Portugal somaram-se ao grupo recentemente.

    E A AMÉRICA LATINA?

    A região não tem sido completamente imune ao fenômeno. Entretanto, as experiências históricas de convergência têm sido amargas.

    A Argentina era uma das 12 economias mais prósperas do mundo durante o primeiro terço do século 20 e desde então começou um longo declínio gradual (relativo) de seu PIB per capita até os anos 2000. Foi superada pela Venezuela nos anos 1950, cuja economia cresceu rapidamente por mais duas décadas, apenas para sofrer uma grande retração e mais 30 anos de estagnação.

    Um frango chega a custar 14.600.000 Bs, pouco mais de R$ 8
    Um frango chega a custar 14.600.000 Bs na Venezuela, pouco mais de R$ 8 Carlos Garcia Rawlins/Reuters

    Assim, a Venezuela apresenta uma evolução de sua renda próxima à forma de um sino de distribuição normal. Evidentemente, em nenhum dos casos a convergência foi cimentada.

    Um século de convergência (ou divergência) na América Latina, anos 1920 - anos  2010
    Um século de convergência (ou divergência) na América Latina, anos 1920 – anos 2010 (Evolução do PIB real p/c, US$ de – Razões de países selecionados em relação aos Estados Unidos) – Reprodução

    Fonte: Elaboração própria a partir do Maddison Project Database (2020). G10+ (média do grupo de países ricos mencionados acima, dos quais Argentina e Venezuela fizeram parte temporariamente em diferentes décadas).

    Embora os casos do Chile e da Colômbia sejam semelhantes, já que ambos terminam suas trajetórias em níveis de renda muito próximos aos de seus pontos de partida um século atrás, o Chile fica marcadamente atrás do G10+ por 50 anos (1930 a 1970), e só começa a se recuperar na década de 1980. A Colômbia, entretanto, permaneceu praticamente estática desde a década de 1940, com uma reviravolta na última década.

    O Brasil é diferente. Mostra uma tendência ascendente apenas desacelerada pela crise da dívida dos anos 1980 e a subsequente “década perdida”. Em 100 anos, a renda dos brasileiros passou de representar pouco mais de 10% da renda dos Estados Unidos para 28%. A este ritmo, a convergência com o líder levará cerca de 300 anos.

    O SUCESSO DOS PAÍSES ASIÁTICOS

    O fracasso da América Latina em convergir é claro e contundente. Mas nem todos sofreram este destino. As experiências do Japão, Hong Kong, Singapura, Taiwan e Coreia do Sul (os “tigres” asiáticos) representam casos de convergência bem-sucedidos.

    Começando com o Japão nos anos 1960, e sucessivamente com diferenças de cerca de uma década entre os anos 1970 e 2000, os quatro casos restantes na ordem acima atingiram os níveis de renda do G10+. Enquanto o fizeram com taxas de crescimento diferentes, Hong Kong e Japão com taxas muito altas e a Coreia a um ritmo mais lento, todos eles alcançaram a terra prometida.

    Um século de convergência na Ásia Oriental, anos 1920 – anos 2010
    Um século de convergência na Ásia Oriental, anos 1920 – anos 2010 (Crescimento real do PIB p/c, US$ de 2011 – Razões de países selecionados em relação aos Estados Unidos) – Reprodução

    Fonte: Elaboração própria a partir do Maddison Project Database (2020). G10+ (média do grupo de países ricos mencionados acima, dos quais Argentina e Venezuela fizeram parte temporariamente em diferentes décadas).

    ONDE ESTÁ A DIFERENÇA?

    O fator decisivo para entender a razão das diferentes experiências nas duas regiões reside na natureza da integração com a economia internacional.

    Por um lado, a América Latina foi integrada através de exportações primárias. Ao longo do século, as matrizes de exportação das cinco economias foram dominadas por commodities: café, trigo, carne, borracha, lã, soja, cobre, nitrato, carvão e petróleo.

    Por outro lado, os “tigres” transformaram gradualmente suas matrizes, afastando-se da exportação de bens primários para se concentrarem no desenvolvimento das exportações de bens industriais (e serviços comerciais e financeiros em Singapura e Hong Kong).

    Os anos de rápido crescimento e convergência foram anos de dinamismo e consolidação em setores como o automotivo, máquinas de alta precisão, fibras sintéticas, plásticos, semicondutores, software de computador e produtos eletrônicos. Todos esses competindo nos mercados internacionais. Em outras palavras, estas economias deram um grande impulso à sua industrialização, redirecionando-a para a exportação.

    A industrialização das exportações estimulou a demanda por atividades domésticas ligadas à produção no exterior, gerou um trabalho formal cada vez mais qualificado, e permitiu que a acumulação de economias fosse recanalizada como investimento em infraestrutura e outros setores ávidos de recursos.

    Mas, acima de tudo, este compromisso de exportação exigiu a formação de um sistema tecnológico nacional capaz de inovação contínua, tanto nos produtos quanto nos processos de produção. Assim, empresas e trabalhadores asiáticos se tornaram mais produtivos e agregaram cada vez mais valor aos bens e serviços oferecidos. Como resultado, eles recebiam maiores rendimentos.

    Para ser justo, os latino-americanos conseguiram exportar produtos industriais. Mas eles o fizeram em proporções menores, na maioria das vezes regionalmente e episodicamente. Em vez de criar tecnologia em casa, ela foi importada e o círculo virtuoso foi rompido.

    As commodities traçaram outro caminho, com problemas estruturais antigos: vulnerabilidade externa, desvalorização da moeda, volatilidade do crescimento e escassez de estímulos e ligações com outras atividades.

    O mundo mudou e as notícias não são boas. As condições para saltar adiante são mais difíceis agora do que eram para os “tigres” há quatro ou cinco décadas. Os acordos comerciais bilaterais, as regras do jogo regulatório do comércio internacional e a ubiquidade dos direitos de propriedade intelectual reduziram significativamente o espaço para desenvolver o tipo de políticas industriais que os agora ricos implementaram quando procuraram sair da pobreza.

    A América Latina parece condenada a contribuir para as teorias da divergência.

    Tradução do espanhol por Maria Isabel Santos Lima

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/latinoamerica21/2021/03/america-latina-e-convergencia-de-rendimentos-historia-de-um-fracasso.shtml

  • Indústria de chips dos EUA pede que administração Biden financie fábricas

    Indústria de chips dos EUA pede que administração Biden financie fábricas

    Pandemia levou a distorção na cadeia produtiva, que paralisou produções da Ford Motor e General Motors

    11.fev.2021 às 15h13

    REUTERS

    Um grupo de empresas de chips dos EUA enviou nesta quinta-feira (11) uma carta ao presidente Joe Biden pedindo “financiamento substancial para incentivos à fabricação de semicondutores” como parte de seus planos de recuperação econômica e infraestrutura.

    Os presidentes-executivos das principais empresas americanas, entre elas Intel, Qualcomm, Micron Technology e Advanced Micro Devices, assinaram a carta.

    Isso ocorre no momento em que uma escassez global de chips paralisou as linhas de fábrica da Ford Motor e General Motors, com executivos das montadoras prevendo perda de bilhões de lucros. O estoque apertado de chips tornou ainda mais difícil para os consumidores comprar consoles de jogos populares, como o Xbox, da Microsoft, e o Playstation, da Sony.

    Linha de produção da montadora de caminhões Mercedes-Benz em São Bernardo do Campo, grande São Paulo – Bruno Santos – 18.mai.2020/Folhapress

    Os chips que faltam são fabricados principalmente em países como Taiwan e Coreia do Sul, que passaram a dominar o setor. A carta, enviada pela Semiconductor Industry Association, dizia que a participação dos Estados Unidos na fabricação de semicondutores caiu de 37% em 1990 para 12% hoje.

    “Isso ocorre principalmente porque os governos de nossos concorrentes globais oferecem incentivos e subsídios significativos para atrair novas instalações de fabricação de semicondutores, enquanto os Estados Unidos não”, disse o grupo.

    O Congresso autorizou no ano passado subsídios para fabricação de chips e pesquisa de semicondutores, mas os parlamentares ainda precisam decidir quanto financiamento fornecer. O grupo de chips dos EUA instou Biden a fornecer esse financiamento na forma de doações ou créditos fiscais.

    “Trabalhando com o Congresso, sua administração agora tem uma oportunidade histórica de financiar essas iniciativas para torná-las realidade”, escreveu o grupo. “Acreditamos que uma ação ousada é necessária para enfrentar os desafios que enfrentamos. Os custos da inação são altos.

    https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/02/industria-de-chips-dos-eua-pede-que-administracao-biden-financie-fabricas.shtml

    INDÚSTRIA E SEUS FATORES LOCACIONAIS (vídeo e atividades)

  • NO AGRONEGÓCIO, PRESERVAÇÃO E PRODUÇÃO DEVEM ANDAR JUNTAS

    NO AGRONEGÓCIO, PRESERVAÇÃO E PRODUÇÃO DEVEM ANDAR JUNTAS

    Também no setor energético cresce a percepção de que sustentabilidade é um bom negócio

    15.dez.2020 às 18h0

    No Brasil, independentemente de políticas governamentais, vários setores da economia privada estão buscando suas próprias soluções para descarbonizar a economia. No agronegócio, o principal motor da economia brasileira e que depende muito da exportação, o caminho de práticas ambientalmente mais comprometidas, onde o fim do desmatamento e o aumento da eficiência produtiva andam juntos, é algo consolidado.

    Muitos produtores perceberam que mercados se fecham quando não há comprovação de que estão sendo respeitadas regras de proteção do meio ambiente.

    Muito da pecuária extensiva, por exemplo, tem sido trocada pela intensiva, com gado semiconfinado. Facilita o controle de alimentação, de questões de saúde animal e da qualidade da carne. Além disso, o abate ocorre em menos tempo, e tudo contribui para a criação de mais animais em menor espaço.

    Muitas fazendas também estão integrando lavoura, pecuária e floresta, em que a produção não exige desmatamento.

    Apesar de avanços, os números do sistema SEEG –Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa, uma iniciativa da ONG Observatório do Clima–, mostram que as maiores fontes de emissão de gases de efeito estufa no Brasil ainda são o desmatamento (45% em 2019) e a agropecuária (28%). Por isso, a mitigação nesses dois casos é mais urgente.

    “No primeiro caso, precisamos empreender esforços de fiscalização para impedir desmatamentos ilegais e pagar pela manutenção da floresta em pé em áreas onde a derrubada de árvores seria ainda permitida, remunerando o agricultor pelo valor que ele obteria com o desmatamento legal”, afirma Carolina Dubeux, pesquisadora da COPPE.

    Segundo ela, o Brasil ainda tem condições de aumentar as áreas de conservação florestal e terras indígenas, de reflorestar o que for possível (há 100 milhões de hectares de pastos degradados) e fomentar a bioeconomia como forma de prover renda alternativa à população.

    “No caso da agropecuária, é urgente ampliar a produtividade do rebanho nacional, aumentando a taxa de lotação do gado (cabeça/hectare) e reduzindo a idade de abate. As medidas previstas no Plano ABC (política pública federal que visa estimular o uso de práticas de produção sustentáveis no campo) precisam se tornar a norma e não uma opção”, diz.

    ENERGIA

    Outro setor que avança é o de geração de energia renovável, como a eólica e a solar. Com o barateamento dos equipamentos, têm surgido vários parques de geração pelo país.

    No caso da energia solar, contam a favor do Brasil a extensão territorial e a posição no globo, que garante a incidência de raios solares o ano todo.

    Com relação à energia eólica, especialistas afirmam que a qualidade dos ventos (velocidade e constância), principalmente no Nordeste, fazem do Brasil uma espécie de Arábia Saudita desse tipo de energia.

    https://estudio.folha.uol.com.br/hora-de-esfriar-o-planeta/2020/12/no-agronegocio-preservacao-e-producao-devem-andar-juntas.shtml

    Prof Luciano Mannarino