Autonomia da UE significa margem de manobra para o resto do mundo na rivalidade China-EUA
22.out.2020 às 23h15
A União Europeia (UE) tem uma opção a fazer. Ou será um jogador ou será o gramado em que outros jogarão. Foi esta a mensagem do chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, em dezembro de 2019, quando falava do renascimento da competição estratégica no cenário internacional. Mencionou a China, mas não apenas ela.
O ano de 2019 marcou mudança de tom da UE em relação a Pequim. Pela primeira vez, a Comissão Europeia passou a tratar a China também como um rival sistêmico. O rótulo impressiona, mas não resolve.
É difícil para a UE definir o que quer da China em função de diferentes tensões —e todas elas se tornaram mais agudas com a pandemia.
Até 24,7 milhões de trabalhadores podem perder o emprego em todo o mundo por causa da pandemia de coronavírus, afirmou a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Rivaldo Gomes/Folhapress
1) Há uma tensão entre valores e interesses na maneira como a UE vê a China.
Ao mesmo tempo, são vultosos os interesses europeus na China, que avança rumo ao topo do podium da economia mundial. O comércio bilateral supera US$ 1 bilhão por dia. Uma pesquisa da Câmara de Comércio da UE na China em fevereiro deste ano revelou que 89% das empresas europeias não estão considerando reorientar investimentos da China para outros mercados.
Muitas empresas vieram em função dos trabalhadores —mas ficaram por causa dos consumidores. Se a mão de obra barata era o incentivo inicial, hoje o mercado chinês, e sua classe média crescente, fazem a diferença. Na China desde 1978, a Volkswagen vende mais carros aqui do que em toda Europa ocidental.
Além disso, a UE precisa do engajamento chinês em outros temas que lhe são caros, como mudança climática e multilateralismo comercial. Rifar os chineses não ajuda a avançar essas agendas —ao contrário.
Lado a lado as bandeiras da China e da União Europeia – Jason Lee-25.jun.2018/Reuters
2) Há tensão entre as necessidades de países membros e a visão de Bruxelas.
Pressionados pela crise, governos nacionais buscam investimentos para promover recuperação econômica e modernização de infraestrutura.
Enquanto isso, a Comissão preocupa-se com a influência da China sobre economias da região. Atua para reforçar o controle sobre investimentos estrangeiros com base no argumento de segurança nacional.
No ano passado, quando a Itália se juntou à Nova Rota da Seda, Bruxelas torceu o nariz.
3) Há obviamente a tensão gerada pelos interesses americanos, que nem sempre coincidem os europeus a respeito da China.
A Europa sabe que agenda anti-China dos EUA, aliados históricos, não é exatamente o caminho que deve seguir.
Propriedade intelectual: esse capítulo do documento trata basicamente de questões relativas a fórmulas, processos e padrões que são utilizados por negócios para obter vantagem sobre a concorrência e que podem ser considerados confidenciais. Também engloba propriedade intelectual relacionada a produtos farmacêuticos, indicação geográfica de um bem ou serviço, marcas registradas e coação contra produtos pirateados e falsificados.
Na esteira da pandemia, a percepção sobre a China em vários países europeus despencou, segundo o Pew Research Center. 71% do alemães e 70% do franceses teriam hoje visão desfavorável da China.
À medida que a Europa mergulha numa segunda onda de casos de Covid-19 e que a China exibe autoconfiança e recuperação econômica, o ressentimento pode crescer. O contraste de uma Europa que desce e uma China que sobe exacerba tensões.
Se, como diz Borrell, a UE tem escolhas a fazer, a China também as tem. Suas habilidades político-diplomáticas serão postas à prova. Os chineses podem ter moderado o tom, mas é cedo para dizer que acertaram a mão. A tentação do discurso triunfalista está sempre à espreita.
Os europeus, por sua vez, precisam assegurar sua autonomia estratégica e fazer bom uso dela. A postura da UE diante da China e das tensões entre Pequim e Washington importa não apenas para o bloco, mas para todo o mundo.
A atuação da UE ajudará a definir a margem de manobra os demais países terão para navegar a competição geopolítica entre as duas grandes potências.
Tatiana Prazeres – Senior fellow na Universidade de Negócios Internacionais e Economia, em Pequim, foi secretária de comércio exterior e conselheira sênior do diretor-geral da OMC.
Nos últimos 20 anos, as culturas agrícolas voltadas para exportação, como soja e milho, cresceram exponencialmente, enquanto as plantações de itens da cesta básica, como arroz e feijão, tiveram expressivas reduções de área. Essa mudança no perfil da agricultura brasileira ajuda a explicar as recentes altas no preço dos alimentos, de acordo com especialistas.
Nos anos 2000, o arroz ocupava 3,2 milhões hectares de área plantada no Brasil; a estimativa para a safra atual é de 1,6 milhão de hectares, metade do que era plantado. Já a soja, que ocupava 13,9 milhões de hectares há duas décadas, atingiu 36,9 milhões de hectares neste ano, expansão de 165%. O mesmo acontece nas culturas do feijão (redução de 76,5%) e do milho (alta de 143%), segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Expansão das exportações agrícolas
“A partir de 2000, as exportações de soja e milho começaram a deslanchar”, observa o pesquisador da Embrapa Elisio Contini.
Para o coordenador do índice de preços da FGV, André Braz, a atratividade do mercado externo provoca uma mudança no comportamento do produtor brasileiro, que acaba dando preferência às commodities.
O incentivo para produzir arroz e feijão não é grande. O espaço para exportação de milho e soja é maior, remunera mais e, com a desvalorização do real, acaba sendo ainda mais vantajoso. No momento em que outras culturas pagam menos, é natural que o uso da terra seja voltado às commodities. André Braz, coordenador do índice de preços da FGV
O especialista não vê risco de desabastecimento, mas considera que a alta de preços de produtos da cesta básica é uma tendência que deve continuar. Isto somado à situação econômica do país é preocupante, segundo Braz.
O maior risco, numa recessão, é a falta de emprego. Ainda que o preço dos produtos suba, se você tem renda, consegue driblar o aumento. Se não tem renda, a qualquer nível de preço, o produto fica caro. André Braz, coordenador do índice de preços da FGV
Produtor do RS trocou arroz por soja
Na região da Campanha Gaúcha, o produtor Paulo Lederes plantava 1.500 hectares de arroz há quinze anos. Quando iniciou a produção de soja, foi deixando paulatinamente a rizicultura. Em 2005, passou a produzir mais soja que arroz e, nesta safra, está plantando 900 hectares de soja e um décimo (150 hectares) do que plantava de arroz.
Em razão dos altos custos de produção, baixos preços das safras e problemas de crédito, migramos para a soja. Paulo Lederes, produtor agrícola de São Gabriel (RS)
“A soja não tem volta, cada ano cresce de dez a quinze hectares na região”, diz o produtor de São Gabriel (RS).
O município está plantando 21 mil hectares de arroz (30% a menos do que no ano passado) e 140 mil hectares de soja neste ano, seguindo uma tendência que tem sido averiguada nos últimos anos, de crescimento de uma cultura sobre a outra.
Soja oferece vantagens financeiras ao produtor
Lederes lembra que, nos últimos anos, sete indústrias de soja chegaram à região, financiando a cultura.
A soja tem a venda garantida através de preços fixados no mercado futuro (Bolsa de Chicago), além da troca de parte da produção pelos insumos necessários ao plantio (sementes, fertilizantes e defensivos).
No caso do arroz, os produtores conseguem, no máximo, um empréstimo das indústrias, com preço negociado entre ambos, mas sem poder usufruir da garantia do preço futuro de uma Bolsa de commodities para a época da colheita.
O arroz não tem garantia de preço, vale bem menos a pena. Paulo Lederes, produtor agrícola de São Gabriel (RS)
Mais de 60% da soja e 30% do milho produzidos no Brasil são exportados, principalmente para a China, puxando as vendas internacionais do agronegócio brasileiro. Desde janeiro do ano passado, 60 novos mercados foram abertos para os produtos agrícolas brasileiros.
“A rentabilidade da soja aumentou muito com as exportações para a China. As indústrias passaram a remunerar melhor o produtor”, comenta Lederes.
Menos feijão no Paraná
À frente da produção de sementes de feijão feita por vinte cooperados no Oeste do Paraná, o produtor Airton Cittolin, de Cascavel (PR), observa que os 28 municípios paranaenses devem produzir 30% a menos do grão nesta safra.
A produção vai diminuir porque o preço da soja e do milho subiu muito. O feijão é uma cultura que oscila muito de preço, então o pessoal opta pelas culturas mais seguras. Airton Cittolin, produtor agrícola de Cascavel (PR)
Embora as sacas de feijão preto e carioca estejam valendo R$ 250 e R$ 280, enquanto a da soja seja vendida a R$ 120, a garantia de venda da soja ainda compensa mais o produtor do que o feijão.
A soja tem liquidez na hora, muitos lugares que recebem –é dólar na mão. Já o feijão tem pouco comprador, depende muito da qualidade e só paga em 30 dias. Airton Cittolin, produtor agrícola de Cascavel (PR)
O economista Marcelo Garrido, do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Agricultura do Paraná, informa que, em dez anos, a área plantada de feijão encolheu 92% no Paraná. No mesmo período, a soja cresceu 3,9%, para 995 mil hectares: “Para o Paraná, é uma expansão considerável porque não temos terra nova para plantio — a área agrícola está esgotada”.
Garrido observa que o movimento se repete em boa parte do país. “Nos últimos anos, a soja tem ganhado muita área em cima das culturas menores, em função de preço e liquidez. A soja é a cultura com mais rentabilidade, não depende do mercado interno. O feijão depende do mercado interno e é muito sensível ao clima”, compara.
Área caiu, mas produtividade aumentou
“Existe, de fato, uma substituição de culturas no Brasil. O Rio Grande do Sul perdeu muita área de arroz e foi para a soja, entre outras culturas. No arroz, em específico, a área decresceu 41% em dez anos, mas a produtividade aumentou 38%, compensando a queda. O consumo de arroz caiu 6%, enquanto a produção cresceu 5% nos últimos cinco anos”, pondera o superintendente de gestão de oferta da Conab, Alan dos Santos.
O especialista observa um movimento parecido com o feijão, que teve queda de 27% na área plantada nos últimos dez anos, mas crescimento de 18% na produtividade —queda de 13% na produção. Em uma década, o consumo do grão caiu de 3,6 milhões para 3,2 milhões de toneladas no Brasil. “São produtos básicos da alimentação brasileira, complementares, e seguiram tendências parecidas”, observa Santos.
Falta política pública para segurança alimentar?
Os especialistas afirmam que não existe risco para a segurança alimentar —uma responsabilidade da Secretaria de Política Agrícola, do Ministério da Agricultura (Mapa), que não se manifestou até a publicação da reportagem.
O maior desastre seria faltar produto. Mas isso, a meu ver, não vai acontecer. Elisio Contini, pesquisador da Embrapa
Segundo ele, o governo trabalha com estoques estratégicos, taxas de importação menores, incentivos à produção e oferta de crédito para garantir o abastecimento interno.
A política agrícola estimula a oferta de bens básicos, como o arroz e feijão. Isso tem garantido a oferta nacional. Houve crises de preço em 2011 e 2018, e a política de preço mínimo garantiu a permanência de produtores na cultura –para evitar a substituição de culturas e dependência externa. Alan dos Santos, superintendente de gestão de oferta da Conab
Há 30 anos no setor privado, o analista Carlos Cogo, que já trabalhou na Conab, discorda dos colegas do setor público.
O Brasil não tem política agrícola. O Brasil tem bombeiro que vai lá e apaga fogo quando tem um problema grave, como aconteceu agora no caso do arroz. Carlos Cogo, ex-Conab e diretor da Carlos Cogo Consultoria Agroeconômica
Ele lembra que o governo decidiu zerar as tarifas de importação do arroz quando os preços da saca já haviam batido R$ 40 nos supermercados.
Cogo lembra que há muito tempo a política de estoques públicos, empregada quando falta produto ou os preços estão muito baixos, vem sendo abandonada pelo governo. “A Conab não tem mais estoque público já faz um tempo, só tem estoque residual de milho. Não tem mais nada de trigo e arroz. Por isso não houve intervenção com leilões de estoques no caso do arroz”, observa.
O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Santa Catarina (Faesc/Senar-SC), José Zeferino Pedrozo, lembra que, apesar da alta no preço do arroz neste ano, a cultura vem causando prejuízos há muitas safras para os produtores, agravados pela ausência de instrumentos de política agrícola.
É justo assinalar que os arrozeiros amargaram muitos anos de prejuízos e que os ganhos deste ano não repõem as perdas do passado. Zeferino Pedrozo, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Santa Catarina
“Aqui em Santa Catarina se fala em manter os dois mercados, nacional e internacional”, relativiza o presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias de Santa Catarina (Fecoagro-SC), Ivan Ramos, à frente de dez cooperativas e o frigorífico Aurora. “Houve uma diminuição na área plantada de arroz, nos últimos anos, em função de preço. O pessoal está migrando bastante para fruticultura”, comenta o representante.
1. As culturas de exportações têm um papel fundamental em nossa balança comercial? Justifique.
2. Qual a importância da Embrapa na produção de alimentos no Brasil? (pesquisa)
3. De que forma é possível aumentar a produtividade sem avançar sobre novas áreas agrícolas?
4. O Brasil é um dos principais exportadores de alimentos do mundo, no entanto vem apresentando problemas de abastecimento interno. Explique essa contradição.
5. Aponte impactos ambientais ligados a produção agropecuária brasileira.
Desde os anos de 1970, a sociologia brasileira tem analisado intensamente a pobreza urbana. Espaços urbanos ocupados por esses grupos sociais foram caracterizados como “periferias” – espaços socialmente homogêneos, esquecidos pelas políticas estatais, e localizados tipicamente nas extremidades da área metropolitana. Tais espaços são constituídos predominantemente em um loteamento irregular ou ilegal de grandes propriedades, sem o cumprimento das exigências para a aprovação do assentamento no município.
A maioria das casas desses locais é “autoconstruída”. Essa solução de moradia tornou-se predominante em São Paulo, embora as favelas (uma outra solução de moradia tradicional para os pobres) também estivessem presentes.
Supunha-se que a configuração urbana geral fosse radial-concêntrica em sua geometria (Abreu, 1987; Brasileiro, 1976), com um pronunciado declínio do valor das terras, das atividades econômicas e das condições de vida a partir do centro em direção à periferia da cidade (Bonduki e Rolnik, 1982; Villaça, 1999; e Taschner e Bógus, 2000).
Em outras palavras, seria possível argumentar que esse modo de entender a forma urbana seria “dual”, contrastando fortemente o centro rico com as periferias muito pobres e com piores serviços públicos. Entretanto, essas características de homogeneidade e localização das periferias têm sido ultimamente questionadas de vários modos:
– o surgimento de vários novos empreendimentos urbanos fechados na zona oeste da Região Metropolitana, tradicionalmente ocupada pelos pobres (Caldeira, 2000); com isso, desfaz-se a geometria radial-concêntrica e ocorre um aumento significativo da heterogeneidade social nessa região, embora a ocupação desses condomínios tenda a produzir enclaves sem quase nenhum contato entre os grupos sociais;
– um processo de disseminação da pobreza e de pobres por toda a cidade, que levou ao desenvolvimento de uma nova onda de favelas, marcada por múltiplas invasões de porções muito pequenas de terra não ocupadas pela urbanização, tais como pequenos espaços entre pontes e margens de rios ou linhas de trem.
– um novo fator de mudança gerado pelo Estado, que se tornou cada vez mais presente nas periferias, levando a um significativo aumento de vários indicadores sociais, especialmente os relacionados ao acesso a serviços públicos. Esse fato pode ser em parte explicado pela intensa pressão dos movimentos sociais urbanos durante o processo de mobilização política que marcou a sociedade brasileira na década de 1980. Entretanto, essas periferias foram também objeto de várias políticas dinamizadas pelo aparelho estatal durante as décadas de 1980 e 1990, como demonstram os estudos de Marques (2000) e Watson (1992), É muito provável que os dois processos tenham reforçado um ao outro (Marques e Bichir, 2001).
Em relação aos indicadores sanitários, toda essa transformação significou quase uma universalização, até o ano 2000, do fornecimento de água e coleta de lixo nas mais importantes cidades brasileiras. No entanto, o mesmo não se aplica à rede de esgotos. Em outras palavras, os movimentos sociais e as políticas públicas introduziram importantes transformações nas periferias, exigindo uma reconsideração de antigos modelos analíticos que descreviam e investigavam essas concentrações populacionais nas décadas de 1970 e 1980. A proposição desse novo arcabouço conceitual é uma tarefa intelectual que ainda precisa ser realizada.
Os serviços e investimentos estatais, no entanto, não foram suficientes para elevar as condições de vida da população de baixa renda ao padrão das outras partes das cidades (Marques e Bichir, 2001). Isso se deve em parte ao tamanho do deficit entre essas condições de vida e um verdadeiro acesso a serviços e infra-estrutura, e também à qualidade dos serviços e equipamentos recentemente implantados pelo governo nessas áreas.
Na grande maioria dos casos, as obras realizadas ali eram (e ainda são) de baixa qualidade. Assim, as melhorias públicas feitas nessas áreas não eram finalizadas e tendiam a deteriorar-se, pois a lógica sistêmica da infra-estrutura urbana não era respeitada.
Em vários aspectos, esses processos contribuíram para a diferenciação dos grupos sociais urbanos pobres e seus territórios, fazendo das periferias (bem como das favelas) um fenômeno cada vez mais heterogêneo. Essa dimensão introduziu novos desafios conceituais e analíticos visto que, ao contrário dos anos de 1970, a simples classificação de um espaço como periferia já não nos permite prever os conteúdos sociais associados à moradia no local. Embora o desenvolvimento de um novo quadro conceitual seja uma tarefa complexa e necessariamente coletiva, esperamos que os elementos enfocados nas próximas seções apontem nesta direção.
1. Por que a homogeneidade e localização das periferias tem sido ultimamente questionada? Apresente exemplos utilizando o espaço urbano da Cidade do Rio de Janeiro.
2. O que são “periferias” dentro de um espaço urbano?
3. O Estado pode melhorar a condição de vida das populações que moram nas periferias das grandes metrópoles? Exemplifique.
Blocos adotam posições extremas no início das negociações do pós-brexit, que começam nesta segunda (2)
Ana Estela de Sousa Pinto
BRUXELAS
Divorciados oficialmente no último dia 31 de janeiro, Reino Unido e União Europeia começam a discutir sua relação futura nesta segunda-feira (2). Pelo tom das declarações feitas na semana passada, os dois lados prometem não facilitar a vida do ex-parceiro.
Será a primeira reunião de uma série de encontros mensais, em que britânicos e europeus precisam decidir os termos de todos os seus intercâmbios, sob risco de voltar à estaca zero depois de 47 anos de união. A lista tem 13 áreas, cada uma delas com vários itens, cada item com várias novas regras a definir, em assuntos como produtos, serviços, pessoas, informações, segurança e defesa e mais.
David Frost, negociador do Reino Unido, ao deixar sede da Comissão Europeia – François Lenoir – 7.out.2019/Reuters
Chegar a um acordo em todos esses campos até 31 de dezembro, como previsto, é tido por técnicos e diplomatas como impraticável, e os europeus balançam esse prazo como uma espada sobre a cabeça dos britânicos, para pressioná-los a aceitar suas condições ou pedir um adiamento.
Boris Johnson, porém, dobrou a aposta. O primeiro-ministro do Reino Unido já prometia não prorrogar prazos; na semana passada passou a falar numa saída em junho, se as conversas não avançarem.
Por enquanto, como ocorre em negociações —ainda mais se ela envolve 513 milhões de pessoas e PIBs somados de € 15,9 trilhões (cerca de R$ 79,5 trilhões)—, os dois lados esticam a corda ao máximo e evitam até mesmo falar a mesma língua.
Os britânicos proíbem que seus negociadores usem o termo “acordo ambicioso”, senha da União Europeia para rejeitar conversas aos pedaços —nas palavras de um representante europeu, “não gostamos de acordos-salame; preferimos os do tipo ravióli, refeição completa num prato só”.
Michel Barnier, negociador por parte da União Europeia – François Lenoir – 26.fev.2020/Reuters
Mandato, jargão da burocracia da UE para o documento-base da negociação, foi substituído pelo Reino Unido por “abordagem” (“approach”). Mestre na comunicação, Boris trocou “no deal” ou o “hard brexit” (separações sem acordo) por “um acordo do tipo australiano” —a Austrália não tem tratado de livre comércio com a União Europeia.
Das mais problemáticas é a expressão “level playing field”, abreviada como LPF, patamar mínimo de discussão. Na prática, significa que a União Europeia só aceita acordo amplo para bens e serviços se o Reino Unido adotar suas regras trabalhistas, ambientais, fitossanitárias e etc.
Nada mais indigesto para Boris, que fez a campanha do brexit prometendo retomar o controle de suas regulações. LPF aparece 20 vezes no mandato europeu, contra apenas uma na abordagem britânica. No vocabulário do Reino Unido, ela vira “garantias antidistorções”.
As partes também trocam provocações sobre quem perde mais sem um acordo. A União Europeia é o principal parceiro comercial do Reino Unido, responsável por cerca de 45% das exportações britânicas em 2018 e 53% de tudo o que os ex-parceiros compram (os números variam com critérios e taxas de câmbio).
Num dos setores mais importantes da economia britânica, o de serviços, o Reino Unido obtém 7,2% de sua receita de exportação com vendas à UE (o fluxo inverso representa só 1,1% das vendas europeias).
A indústria britânica, principalmente a mais avançada, depende de fornecedores e clientes europeus, e um impasse pode elevar muito seus custos.
Laboratórios farmacêuticos, agronegócio e indústria química também serão prejudicados se não houver entendimento sobre as regras de qualidade e segurança.
‘Festa do brexit’ comemorou saída do Reino Unido da UE em clima de Réveillon
Celebração do brexit em Londres; festa foi organizada pelo grupo Leave Means Leave (sair significa sair) Henry Nicholls/Reuters/Henry Nicholls/Reuters
Já a União Europeia tem o setor de segurança e defesa como prioridade, e nessa área a colaboração do Reino Unido é crucial.
O saldo é que há impacto para as duas economias, muito entrelaçadas nas cadeias de produção, fluxos financeiros e de pessoas (vivem no Reino Unido 3 milhões de cidadãos da UE; 1 milhão de britânicos tem domicílio na UE). Mas considerações políticas também complicam a DR.
Boris vendeu a seu público interno a promessa de recuperar as rédeas do país, mas precisa evitar a perda de empregos e de crescimento econômico. Para isso, pode até se render às exigências europeias, mas só depois de embalar o resultado como prova de soberania.
A União Europeia mantém um difícil equilíbrio entre 27 países com características e interesses díspares, quando não antagônicos. Neste ano, as divergências estão mais acirradas, com a discussão de quanto dinheiro o bloco terá nos próximos sete anos e como vai reparti-lo.
Se os governantes da UE precisam mostrar a seus membros que o benefício da união é maior que os custos de se submeter a suas regras e burocracias, aliviar a vida de quem acabou de se desligar é uma não opção. Entenda o que está em jogo.
O que é o brexit?
É a saída do Reino Unido da União Europeia, que aconteceu em 31 de janeiro de 2020. O bloco reúne agora 27 países.
Por que houve brexit?
A saída foi aprovada pela maioria dos britânicos em referendo em 2016. O brexit foi proposto para que o Reino Unido não precisasse seguir regras e políticas comuns da União Europeia. Se já houve o brexit, por que mais reuniões?
Para discutir as novas bases do relacionamento econômico e político entre o Reino Unido e a UE. As reuniões serão mensais, alternando-se entre Londres e Bruxelas. O acordo de saída estabelece um prazo de transição até 31 de dezembro deste ano.
Durante a transição, o Reino Unido ainda está na UE?
Não, e por isso não participa mais do Conselho Europeu, do Parlamento ou qualquer instância de decisão europeia. Mas continuam valendo todas as regras para cidadãos, consumidores, empresas, investidores, estudantes e pesquisadores, até que se negociem as novas bases.
A Corte de Justiça da União Europeia continua a ter jurisdição sobre o Reino Unido, inclusive em relação ao acordo de retirada.
A trajetória de Boris Johnson
Demitido de seu primeiro emprego, no Times, por inventar uma declaração de um historiador, ainda passaria pelo Daily Telegraph e pela semanal Spectator (foto), sempre exibindo um pendor sensacionalista. Em reportagens e colunas, fustigou a Comissão Europeia, Barack Obama e Hillary Clinton, além de equiparar africanos a guerreiros tribaisJim Watson – 25.set.2003/AFP
O que acontece se não houver acordo até 31/12/2020?
O período de transição pode ser estendido uma vez, e o prazo final tem que ficar entre dezembro de 2021 e dezembro de 2022. A prorrogação tem que ser aprovada pelos dois lados até 1º de julho deste ano. Mas o premiê britânico, Boris Johnson, já disse que não haverá prorrogação.
Como fica se houver prorrogação?
Valem as regras do período de transição. O Reino Unido não participa do Orçamento para o período de 2021 a 2027, mas precisará fazer uma contribuição, porque estará se beneficiando do mercado comum.
E se não houver acordo durante a transição?
O comércio do Reino Unido com a UE passa a obedecer às regras da OMC (Organização Mundial do Comércio) a partir do dia seguinte.
O que será negociado?
Comércio de bens e serviços, investimentos, transporte, energia, regras de pesca, cooperação judicial, coordenação em ações de defesa, partilha de dados, propriedade intelectual e acesso a concursos públicos, entre outros pontos.
Quais os pontos mais controversos?
1. Regulação
É a primeira de três condições que a Europa diz serem indispensáveis para um acordo amplo de zero tarifa e zero cota: o chamado ““level playing field”, ou seja, o compromisso dos britânicos de seguir regras trabalhistas, ambientais, fiscais e de subsídios vigentes na UE. O argumento é que isso evita competição desleal. Boris Johnson diz que não há intenção de baixar seus patamares de regulação, que já são no mínimo iguais aos britânicos.
2. Irlanda
A UE diz que não fará acordo sem garantia de que não haverá controle de fronteiras ou aduana entre a Irlanda do Norte (território britânico) e sua vizinha do sul. Para isso, seria preciso um controle no mar da Irlanda, que separa a ilha da Grã-Bretanha. O governo britânico, porém, tem sinalizado que não fará o controle marítimo.
3. Pesca
A UE quer garantir acesso livre às águas britânicas, enquanto Boris Johnson insiste em negociações anuais, baseadas em avaliações científicas sobre a quantidade de peixes e garantido primazia aos barcos britânicos. O Reino Unido vende 80% de seus peixes para a UE e importa de lá 70% do pescado que consome.
4. Escopo e prazo
O Reino Unido diz que não pedirá prorrogação de prazo e quer discutir livre comércio de um conjunto limitado de serviços e bens. A União Europeia afirma que não fará discussões aos pedaços e que a escolha por um prazo apertado é dos britânicos
5. Setor financeiro
Londres abriga o maior centro financeiro da Europa, e quer manter seu principal mercado para serviços bancários, seguros, gestão de patrimônio e operações financeiras. A União Europeia diz que acesso livre ao mercado não faz parte da conversa e menciona apenas cooperação “voluntária” na regulação financeira.
6. Solução de disputas
Para os europeus, qualquer discordância sobre o futuro relacionamento deve ser resolvido pela Corte de Justiça da UE. Boris argumenta que a Justiça europeia não pode se sobrepor às leis britânicas e sugere órgãos de arbitragem independentes.
OS CHEFES DA NEGOCIAÇÃO
David Frost, 55, inglês. Formado em história medieval europeia e francesa, é diplomata, foi embaixador na Dinamarca e encarregado de assuntos europeus no equivalente ao ministério britânico de Relações Exteriores.
Michel Barnier, 69, francês. Formado em administração, está na política desde 1970 e foi ministro da Agricultura, do Ambiente e de Relações Exteriores na França e comissário da UE para mercado interno, entre outros.
Globalização – Vantagens Comparativas – Guerra Fiscal – Toyotismo – Fordismo – Período JK- Industrialização brasileira – Economia de Aglomeração – Deseconomia de Aglomeração – Mundo pós Guerra – Redemocratização do Brasil – Desemprego estrutural – Mercosul – Novas fontes de energia – Neoliberalismo – Rodoviarismo – Transnacionais.
Eduardo Sodré
SÃO PAULO
O encerramento da fábrica da Ford em São Bernardo do Campo é um marco do esvaziamento no ABC. A região começou a despontar na década de 1950, quando foi criado o Geia (Grupo Executivo da Indústria Automobilística), no governo Juscelino Kubitschek (1956-1960). Até então, as empresas se limitavam a montar carros no país, não havia o conceito de indústria automotiva nacional. A General Motors já estava em São Caetano desde 1930.
A Willys-Overland chegou a São Bernardo no início da década de 1950 e, em 1967, foi adquirida pela Ford, Mercedes-Benz, Scania, Toyota e Volkswagen também se estabeleceram no ABC. Como a indústria automotiva tem uma cadeia extensa de fornecedores, criou-se um polo industrial. A região ficou nacionalmente conhecida em 1978, quando eclodiu a primeira greve dos metalúrgicos, sob o comando de Luiz Inácio Lula da Silva. As convenções trabalhistas melhoraram a remuneração e elevaram os custos de produção, mas o mercado fechado garantia projetos longevos com alta margem de lucro por carro vendido.
Outras regiões começaram a oferecer benefícios para atrair as montadoras. A Fiat já havia optado por Betim (MG) e começou a produzir em 1976, mas ainda era um caso isolado. Além de isenções e concessões de terrenos em outras cidades, a mão de obra mais cara no ABC passa a pesar na escolha de montadoras que planejavam produzir ou se expandir no Brasil.
Em uma nova onda de industrialização, na fim dos anos 1990, as empresas se espalham. A Renault vai para São José dos Pinhais (PR), cidade que também vira sede da fábrica conjunta de Volkswagen e Audi. O interior de São Paulo começou a se destacar. A Honda iniciou a produção de carros em Sumaré, enquanto a Toyota ergueu fábricas em Indaiatuba, Porto Feliz e Sorocaba, PSA Peugeot Citroën se instalou em Porto Real (RJ). A Ford concentrou parte de sua produção em Camaçari (BA) e a Chevrolet seguiu para Gravataí (RS). O grupo Caoa se dividiu entre Anápolis (GO) e, ao adquirir o controle da Chery, começou a produzir em Jacareí, também no interior de São Paulo.
Com as vendas em crescimento contínuo entre 2003 e 2012, o ABC não sentiu de imediato a debandada. Contudo, o período de recessão que veio em seguida esvaziou a região. Enquanto carros de maior valor agregado “migraram” para fábricas argentinas, modelos de grande volume deixaram de ser produzidos no ABC.
Hoje, os três carros mais vendidos do Brasil são o Chevrolet Onix, o Hyundai HB20 e o Ford Ka. São montados, respectivamente, em Gravataí, Piracicaba e Camaçari. Com o surgimento de novos polos industriais, o ABC deixa de ser relevante. A situação se agrava com os movimentos internacionais. As montadoras investem alto no desenvolvimento de carros eletrificados e fazem parcerias globais para redução de custos. Para conter os gastos, fábricas menos eficientes estão sendo fechadas mundo afora.
A indústria automotiva atual faz escolhas que não se prendem a países, muito menos a cidades. Tendem a priorizar regiões que ofereçam melhor escoamento da produção, rede forte de fornecedores e menor custo da mão de obra. Desde o surgimento de novos polos automotivos no Brasil, O ABC não monopoliza mais essas condições.
1) Cite “vantagens comparativas” que o Brasil tinha para atrair empreendimentos pós 2 Grande Guerra?
2) De que forma instalação de empreendimentos industriais no ABC paulista aprofundou o desequilíbrio regional brasileiro?
3) Por que a região do ABC paulista foi sendo preterida para receber empreendimentos industriais nas últimas décadas?
4) O apoio a entrada do capital externo da década de 50 se relacionou com os objetivos políticos do Governo J.K? Justifique.
5) De que forma a política rodoviarista impacta no atual custo Brasil?
6) Por que o Brasil assistiu uma nova onda de industrialização durante os anos 90?
7) Relacione “guerra fiscal” e “deseconomia de aglomeração”
8) Qual fato citado no texto pode ser visto como o surgimento de movimentos políticos que questionavam o governo?
Toyotismo é um sistema de organização voltado para a produção de mercadorias. Criado no Japão, após a Segunda Guerra Mundial, pelo engenheiro japonês Taiichi Ohno, o sistema foi aplicado na fábrica da Toyota.
Fordismo é um sistema de produção, criado pelo empresário norte-americano Henry Ford, cuja principal característica é a fabricação em massa. Henry Ford criou este sistema em 1914 para sua indústria de automóveis, projetando um sistema baseado numa linha de montagem.
Vantagens Comparativas – Relacionada ao comércio entre países diferentes, a Teoria das Vantagens Comparativas trata de um princípio que pretende explicar princípios comerciais e econômicos sobre o comércio internacional contemporâneo. Analisando razões de produtividade, custos absolutos de produção, acerto de demandas e fabricação de bens, a Teoria explica o comércio entre dois países, regiões ou pessoas, mostrando as vantagens e desvantagens desse processo no reflexo global
Guerra fiscal é a disputa, entre cidades e estados, para ver quem oferece melhores incentivos para que as empresas se instalem em seus territórios.
Economia de Aglomeração – uma etapa do processo de industrialização em que ocorre a concentração da instalação de empresas produtivas ou de atividades econômicas em uma determinada região do espaço geográfico.
Deseconomia de Aglomeração – a partir de um certo ponto, essas aglomerações passam a apresentar desvantagens que, do ponto de vista de diversas indústrias, superam as vantagens. Aumentam os custos dos imóveis, a força dos sindicatos gera elevação dos salários, o congestionamento de tráfego amplia os custos dos deslocamentos, as regulamentações municipais geram despesas maiores etc. Essas “deseconomias de aglomeração” ajudam a explicar a chamada ” fuga de indústrias” que ocorre em metrópoles de diversos lugares do mundo.
Desemprego Estrutural – ocorre quando o número de desempregados é superior ao número de colaboradores que o mercado quer contratar e esse excesso de oferta de trabalhadores não é temporário.
Neoliberalismo – é uma redefinição do liberalismo clássico, influenciado pelas teorias econômicas neoclássicas e é entendido como um produto do liberalismo econômico clássico.