Categoria: Energia

  • Demanda por combustíveis fósseis mostra fragilidade das energias renováveis

    Demanda por combustíveis fósseis mostra fragilidade das energias renováveis

    Transição energética é o maior desafio da humanidade, mas poucos compreendem os sacrifícios para chegarmos lá

    19.out.2021 às 21h3

    Em seu recente livro, “How to Avoid a Climate Disaster” (Como evitar o desastre climático), Bill Gates define o “ágio verde” (“green premium”) como a diferença de custo entre fazer algo (produto, serviço ou atividade) da maneira tradicional (com emissão de carbono) e fazer o mesmo de forma limpa, “verde”.

    Organismos multilaterais e governos de países desenvolvidos têm forçado as empresas a implementar uma transição rápida para o mundo verde. Do lado privado, a mudança no comportamento do consumidor de países ricos e o ESG também contribuem na mesma direção.

    A transição energética – cuja meta é alcançar zero emissões líquidas em 2050–, é o maior desafio que a humanidade já teve, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). Poucos, no entanto, compreendem a magnitude dos sacrifícios necessários para chegarmos lá.

    Operações de extração de petróleo em Midland, nos Estados Unidos – Nick Oxford – 11.mai..2021/Reuters

    O ágio verde ainda é muito alto, e o encarecimento dos produtos frequentemente os torna inacessíveis para a população de mais baixa renda. A fabricação de aço mais limpo custa 30% mais caro, e o querosene de aviação mais limpo custa mais que o dobro que o tradicional.

    Os ambientalistas argumentam que este é um preço baixo a pagar para salvar a humanidade da catástrofe das mudanças climáticas. Mas não são os ambientalistas da ONU que pagam este “imposto verde”. Ao contrário dos pobres no Brasil e em países subdesenvolvidos, a população de países ricos pode se dar ao luxo de pagar mais caro.

    Neste ano, a volta à normalidade econômica em um cenário ainda com rupturas das cadeias de suprimento por conta da pandemia revelou a fragilidade da transição: irrompeu uma crise energética global. A crise elevou os preços do carvão, gás natural e petróleo, que por sua vez encarecem quase todos os produtos e aumentam o ágio verde. É o greenflation (inflação dos produtos verdes).

    A China tem sofrido com cortes de energia elétrica e racionamento; quase 150 mil empresas em Guangdong sofreram cortes em setembro. O crescimento econômico chinês, pujante no primeiro semestre, desacelerou significativamente neste terceiro trimestre, para 4,9%.

    A Europa está sob ameaça de apagões e diminuição de produção, em particular com a chegada do inverno. A crise hídrica no Brasil está conectada com a escassez de energia na Europa e Ásia. O Brasil tem importado uma quantidade recorde de gás natural liquefeito, contribuindo com a alta de preços internacionais e a alta nas tarifas de energia por aqui. Ironicamente, o mundo está no momento dependendo de mais combustíveis fósseis.

    A Aneel estipula três níveis de tarifas, conforme a produção de energia nas hidrelétricas do país. Os patamares de tarifa são denominados por cores: verde, amarelo e vermelho (que é dividido em nível 1 e 2)
    Aneel estipula três níveis de tarifas, conforme a produção de energia nas hidrelétricas do país. Os patamares de tarifa são denominados po Lucas Lacaz Ruiz/Folhapress

    Porém, a despeito dos aumentos de preços dos combustíveis fósseis, não há aumento correspondente na sua produção. Nos últimos dez anos, os investimentos em exploração e produção das maiores petroleiras caíram à metade e migraram para a transição para energia renovável.



    As energias solar e eólica são intermitentes e difíceis de armazenar. E são muito deficientes em uma métrica importante: o EROI (uma comparação entre energia economizada e energia utilizada). Por exemplo, é preciso muito alumínio, cobre e outros metais –que consomem muita energia em sua fabricação– para fabricar turbinas eólicas e painéis solares.

    Está claro que a transição rápida para a economia de baixo carbono será conturbada e pode não ocorrer no prazo almejado pelos organismos multilaterais. Quando se mexe na matriz energética, algo complexo e interdependente, de cima pra baixo, de forma brusca, aumenta o risco e a fragilidade do sistema. Isso ficou explicitado pela crise global. Enquanto não se superam os imensos desafios tecnológicos para energia renovável acessível, uma solução pode ser a energia nuclear.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helio-beltrao/2021/10/demanda-por-combustiveis-fosseis-mostra-fragilidade-das-energias-renovaveis.shtml

    Questões

    1 Quais são as críticas as fontes solar e eólica presente na reportagem?

    2 O que se entende como “ágio verde”?

    3 Por que a “transição energética” é o maior desafio que a humanidade tem diante de si?

    Energia insustentável

    Energia nuclear pode ser aliada contra a mudança climática?

    CLIMA E FATORES DO CLIMA (vídeo e atividades)

    Prof Luciano Mannarino

  • Energia nuclear pode ser aliada contra a mudança climática?

    Energia nuclear pode ser aliada contra a mudança climática?

    Opção gera poucos gases de efeito estufa, muito menos que o carvão, o gás ou a energia solar

    18.out.2021 às 6h00

    Julien MiviellePARIS | AFP

    É a pergunta que não quer calar: A energia nuclear, que não emite gases de efeito estufa, pode salvar o clima ou ao menos ajudar enquanto as energias renováveis são desenvolvidas? Especialistas e países parecem divididos sobre o assunto.

    “Tudo o que permite reduzir as emissões é uma boa notícia”, respondeu o diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, ao ser questionado pela AFP sobre o papel da energia nuclear e das renováveis.

    “Todas as fontes de eletricidade limpa me satisfazem”, acrescentou.

    Uma das principais vantagens da energia nuclear, que representa em torno de 10% da produção mundial de eletricidade, é que não emite diretamente dióxido de carbono (CO2).

    Usina nuclear francesa em Civaux – Stephane Mahe – 8.out.2021/Reuters

    Mesmo quando se analisa o conjunto de seu ciclo de vida, considerando as emissões vinculadas à extração de urânio ou ao concreto das usinas, gera poucos gases de efeito estufa, muito menos que o carvão, o gás ou a energia solar.

    A energia nuclear avança “na maioria” dos cenários dos especialistas climáticos da ONU (IPCC) para limitar o aquecimento do planeta a 1,5ºC, em comparação com o final do século 19.

    Esta fonte parece estar destinada a desempenhar um papel-chave, especialmente quando o mundo precisar de mais eletricidade para substituir as energias fósseis, como no transporte rodoviário.

    Sendo assim, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) aumentou suas projeções pela primeira vez desde a catástrofe de Fukushima em 2011 e prevê agora que a potência instalada será duplicada até 2050, no cenário mais favorável.

    A China lidera os países com mais reatores novos. “Muitos estão considerando introduzir a energia nuclear para apoiar a produção de energia confiável e limpa”, acrescenta o órgão com sede em Viena.

    Seu diretor-geral, o argentino Rafael Grossi, vê um sinal de que o mundo está cada vez mais consciente de que essa energia “é absolutamente vital para alcançarmos” a neutralidade do carbono em meados do século.

    Este objetivo será central na próxima grande cúpula sobre o clima, a COP26, programada para novembro no Reino Unido.

    Por outro lado, os cientistas do IPCC reconhecem também que a “futura implantação da [energia] nuclear pode ser limitada pelas preferências da sociedade”.

    Em alguns países, essa energia ainda possui uma imagem ruim por causa do risco de catástrofes ou do antigo problema dos resíduos, que continua sem solução.

    Na União Europeia (UE), por exemplo, a divisão é nítida e esquenta os debates sobre se o setor nuclear deve ser considerado uma atividade benéfica para o clima e o meio ambiente.

    A Alemanha decidiu abandonar essa fonte de energia progressivamente após a catástrofe de Fukushima, mas outros países da Europa central a veem como uma alternativa à sua dependência do carvão.

    A cidade de Namie, na província de Fukushima (Japão), classificada como de difícil retorno devido à radiação após acidente nuclear causado por terremoto e tsunami
    A cidade de Namie, na província de Fukushima (Japão), classificada como de difícil retorno devido à radiação após acidente nuclear causado p Rodrigo Sicuro/FolhapressMAIS 

    A opinião pública também não é unânime. “Na República Tcheca, a energia nuclear é vista como uma fonte de eletricidade confiável e relativamente barata”, afirma Wadim Strielkowski, especialista da Prague Business School.

    Já os críticos –geralmente defensores do pacifismo como o Greenpeace– abandonam seus tradicionais argumentos para se concentrarem na eficácia.

    O custo das renováveis não parou de cair, enquanto os grandes projetos nucleares se tornaram grandes e caros, geralmente com enormes custos adicionais.

    Os novos projetos nucleares são “muito mais caros e mais lentos que as renováveis”, estima Mycle Schneider, autor de um relatório anual crítico e para quem investir neste setor “agrava a crise climática”.

    No entanto, a indústria nuclear estima que ainda não ditou sua última palavra.

    Há alguns anos, tem seus olhos voltados para os pequenos reatores modulares (SMR, nas siglas em inglês): mais simples, fabricados em série e menos propensos a custos adicionais.

    “O futuro da energia nuclear (…) poderia passar pelos pequenos reatores”, estima Strielkowski. No entanto, apesar do interesse manifestado por vários países, só a Rússia lançou de fato uma usina que faz uso dessa tecnologia.

    https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2021/10/energia-nuclear-pode-ser-aliada-contra-a-mudanca-climatica.shtmlicos

    Questões.

    1 Por que a Energia Nuclear pode ser uma aliada contra a mudança climática?

    2 Aponte críticas quanto a produção de energia elétrica a partir da fonte nuclear.

    3 Quais foram os objetivos do Programa Nuclear Brasileiro?

    4 O que foi a “catástrofe de Fukushima”?

    5 Como é produzido energia elétrica a partir da fonte nuclear?

    Dez anos após Fukushima, energia nuclear cresce com China e crise climática

    Centrais Termonucleares (avaliação)

    Investimentos na matriz eólica superam R$ 187,1 bi na última década

    Energia insustentável

    Desarmamento nuclear é nobre, mas algo limitado pela política (atividade)

    Prof Luciano Mannarino

  • Investimentos na matriz eólica superam R$ 187,1 bi na última década

    Investimentos na matriz eólica superam R$ 187,1 bi na última década

    Fonte de energia ganha competitividade no país com preocupação ambiental

    17.jul.2021 às 23h15

    Luis Henrique Gomes

    NATAL

    Quando o primeiro leilão de energia eólica foi feito no Brasil, em 2009, só 0,5% da capacidade de geração de eletricidade do país tinha essa origem. Passados 12 anos, esse percentual cresceu para 10,6%, com investimentos no país que somam US$ 35,8 bilhões entre 2011 e 2019, segundo os cálculos da Bloomberg New Energy Finance. A quantia corresponde a R$ 187,1 bilhões em valores atuais.

    Com esse crescimento, numa década em que o mundo se comprometeu em reduzir a emissão de carbono, a matriz eólica se tornou uma fonte de energia competitiva no Brasil e tem a seu favor o financiamento de bancos internacionais que buscam cumprir as metas do Acordo de Paris, realizado em 2015.

    Somente no Rio Grande do Norte, o estado que mais produz esse tipo de energia no Brasil hoje, mais de R$ 15 bilhões foram investidos em parques eólicos.

    Parque eólico da Neoenergia, localizado em Rio do Fogo, no litoral do Rio Grande do Norte, estado com maior produção de energia eólica no Brasil
    Parque eólico da Neoenergia, localizado em Rio do Fogo, no litoral do Rio Grande do Norte, estado com maior produção de energia eólica no Brasil Alex Régis/Folhapress

    O primeiro foi instalado pela Neoenergia em 2006, no município de Rio do Fogo, distante 80 quilômetros de Natal, com capacidade de 28 MW (megawatts). Hoje, o estado possui uma capacidade de 5.266 MW instalados, em mais de 180 parques.

    Além dos investimentos, empresas têm buscado cada vez mais adquirir energia gerada em parques eólicos, de acordo com a presidente da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica), Elbia Gannoum. Em 2020, cerca de 3 GW (gigawatts) foram comprados por companhias.

    Dois fatores contribuem para isso: a perspectiva de uma energia mais limpa, com menos passivos ambientais, e o preço competitivo.

    “Hoje a energia eólica é a mais barata do país. Por isso, a perspectiva é que os investimentos aumentem nos próximos anos”, diz Gannoum.

    Segundo a presidente da Abeeólica, o Brasil já está entre os países com as matrizes energéticas mais limpas do mundo, mas o setor eólico continuará em expansão. Os investimentos até 2029 devem chegar a R$ 72,3 bilhões.

    “O Brasil tem a melhor posição do mundo em energia porque é o país mais rico em recursos renováveis”, diz ela.

    https://www1.folha.uol.com.br/mpme/2021/07/investimentos-na-matriz-eolica-superam-r-1871-bi-na-ultima-decada.shtml

    Questão

    Explique as condições climáticas que torna o nordeste um grande produtor de energia elétrica a partir de fontes renováveis.

    Procure

    Prof Luciano Mannarino

  • Bacia do Paraná já sente efeitos da seca sobre agronegócio e geração de energia

    Bacia do Paraná já sente efeitos da seca sobre agronegócio e geração de energia

    Disputa com setor elétrico pode parar hidrovia e acentuar conflitos com usuários da água para produção de alimentos

    6.jun.2021 às 23h15Atualizado: 7.jun.2021 às 9h26

    Nicola Pamplona Eduardo Anizelli

    TURAMA (MG), APARECIDA DO TABOADO (MS) e ILHA SOLTEIRA (SP)

    De pé sobre a terra avermelhada que um dia foi o lago da hidrelétrica Água Vermelha, na divisa de São Paulo com Minas Gerais, o aposentado José Carlos Jesus, 57, dá a dimensão da crise: “Aqui onde nós estamos nem dá pé quando o reservatório está cheio”.

    Cerca de cem metros o separam de seu rancho, onde ele vive hoje “escondido da pandemia”. A casa simples foi construída à beira da represa, mas o lago agora começa bem mais abaixo, o que o obrigou a esticar uma mangueira de 250 metros para captar água.

    Com apenas 7,7% de sua capacidade de armazenamento de energia, o reservatório da usina de Água Vermelha é um retrato da crise hídrica que assusta o país e vem levando o governo a anunciar medidas emergenciais para tentar evitar o racionamento de energia.

    Baixo nível do reservatório deixa à mostra antiga estrada submersa pela hidrelétrica Água Vermelha, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Folhapress

    Em um de seus braços, o ribeirão Pádua Diniz, em Indiaporã (SP), a água desceu tanto que deixou à mostra a velha estrada de terra alagada há mais de 40 anos, quando o reservatório foi criado. Resta apenas uma pequena lagoa, formada pelas poucas chuvas do verão, embaixo da ponte da estrada nova.

    “Já vim aqui de barco e, só ali embaixo da ponte, pegamos mais de 100 corvinas”, relembra a funcionária pública Aparecida Batista dos Reis, 53, enquanto tentava pescar no que restou do ribeirão na tarde de quarta (2).

    A situação é mais preocupante pela manutenção dos baixos níveis mesmo após o fim do chamado período chuvoso, quando os reservatórios deveriam estar cheios de água para garantir a travessia do inverno mais seco.

    E traz de volta o fantasma de 2015, quando a seca foi tão severa que o tráfego na hidrovia Tietê-Paraná teve que ser interrompido por falta de calado para a passagem dos comboios que levam grãos do Centro-Oeste para São Paulo.

    “Nem em 2015 o rio esteve assim”, reclama o empresário Jonzelito Luiz Pereira, 59, dono de uma fazenda e de uma pousada ao lado da barragem, em Iturama (MG). “Os poços [de água subterrânea] já estão secando. Era para começar a secar em outubro.”

    Água Vermelha é a última das 12 hidrelétricas do rio Grande, que nasce na serra da Mantiqueira e forma o rio Paraná após se juntar com o rio Paranaíba, na divisa entre São Paulo e Mato Grosso do Sul.

    Juntos, os três rios são responsáveis por dois terços da capacidade de armazenamento de energia do subsistema energético Sudeste/Centro-Oeste, considerado a principal caixa-d’água do setor elétrico brasileiro por concentrar represas de usinas importantes.

    Assim, a região está no foco do esforço do governo para tentar evitar o racionamento. Na semana passada, a ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento) declarou emergência hídrica na bacia, abrindo a porta para medidas mais drásticas, como limitar a captação de água nos rios.

    A abundância de água faz da região um importante polo do agronegócio, com fazendas de gado e cana-de-açúcar se estendendo até onde a vista alcança, e uma forte produção piscicultora, apontada como segunda maior criadoura de tilápias do Brasil.

    A seca já vem produzindo estragos na atividade local, com o atraso na colheita de cana e a piora nas condições dos pastos. Os produtores temem que a disputa com o setor elétrico inviabilize os negócios, o que deve acirrar conflitos pelo uso da água nos próximos meses.

    “Se eu tiver que parar de irrigar, perco toda a produção”, diz Edvaldo Costa Mello, proprietário da Fazenda Costa Mello, produtora de cítricos que tem uma área de plantio de limões logo abaixo da barragem de Água Vermelha.

    A sua propriedade fica às margens do rio Grande, mas já no reservatório da hidrelétrica Ilha Solteira, no rio Paraná. É a maior hidrelétrica da caixa-d’água, com capacidade para produzir 3.444 MW, e seu lago se estende para os dois rios que formam o Paraná.

    O reservatório é usado pela hidrovia Tietê-Paraná. Por isso, há um esforço contínuo para manter um volume de água suficiente para permitir a passagem dos comboios, que dependem de uma cota mínima de 325 metros acima do nível do mar, volume observado hoje.

    Mesmo assim, o gigantesco lago de 1.200 quilômetros quadrados (quase o tamanho da cidade de São Paulo) está agora com menos da metade de sua capacidade de armazenamento. Já é possível encontrar grandes áreas secas em alguns de seus braços, como o córrego do Cigano, em Três Fronteiras (SP).

    O presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Paranaíba, Breno Esteves Lasmar, defende que a importância da região para a economia e a possibilidade de paralisação da hidrovia devem ser consideradas na gestão dos reservatórios. “[A redução do nível] vai ter impacto muito grande sobre toda a economia nacional.”

    O impacto local sobre a geração de emprego e renda também pode ser considerável, diz Fernando Carmo, assistente agropecuário da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável da Secretaria de Agricultura de São Paulo.

    O governo estadual calcula que a piscicultura no entorno do lago de Ilha Solteira gere cerca de 5.000 empregos diretos e indiretos. A hidrovia seria responsável por outros três mil empregos, que ficaram suspensos durante a paralisação de 2015.

    A crise hídrica pega os produtores locais já enfrentando aumento de custos pela escalada nas cotações internacionais das commodities, já que rações são baseadas em soja e milho. Pereira, de Iturama, decidiu vender metade das 120 cabeças de gado que tinha para economizar na ração.

    “Há um complicador na manutenção dos pastos para o gado”, diz o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Aparecida do Taboado (MS), Eduardo Sanchez. “A planta sofre estresse hídrico, tem que fazer um trabalho mais custoso, de tratar o gado no coxo.”

    Na piscicultura, que chegou a fechar 40% das unidades na crise de 2015, os custos elevados podem inviabilizar investimentos para adaptação a níveis mais baixos do lago, diz Carmo. “O custo da ração está altíssimo, e muita gente pode parar de produzir por não ter como investir para deslocar os tanques.”

    “Se baixar mais, vai dar problema”, confirma Akemi More, da Piscicultura More, uma pequena empresa familiar que produz em espelho-d’água cedido pela União no rio Paranaíba. “O rio já está como se fosse na seca”, reforça seu irmão e sócio Sandro More. Com a crise, venderam na semana passada 15 dos 93 tanques que tinham.

    Nível de água baixo no lago da hidrelétrica Água Vermelha, em Iturama, interior do estado de Minas Gerais.
    Nível de água baixo no lago da hidrelétrica Água Vermelha, em Iturama, interior do estado de Minas Gerais. Eduardo Anizelli/Folhapress

    Os produtores locais confiam na manutenção da cota mínima para garantir o tráfego na hidrovia, mas na semana passada o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) divulgou relatório considerando a flexibilização para 319 metros em junho para reforçar a recuperação dos reservatórios.

    O operador quer reduzir as vazões obrigatórias nas hidrelétricas das partes altas dos rios Grande e Paranaíba para segurar água nos reservatórios de cabeceira. A energia gerada pelas vazões mínimas pode ser substituída agora por usinas eólicas no Nordeste, que está em plena estação de ventos.

    Em 2014, a redução da cota do reservatório de Ilha Solteira se transformou em uma guerra judicial, que culminou com a suspensão da geração de energia na hidrelétrica após liminar concedida a associações de piscicultores da região.

    Hoje, os produtores confiam que a proximidade do setor com o governo federal pode ajudar a evitar maiores impactos, diz Assis Henrique, diretor administrativo da Global Peixes, que produz tilápias e tem uma unidade de reprodução em tanques em diferentes pontos do lago.

    Especialistas no setor elétrico dizem entender a preocupação com a economia local, mas afirmam que os bilionários custos da crise energética que encarecem a conta de todos os brasileiros são relevantes no debate sobre a gestão das águas.

    A expectativa é que o brasileiro passe 2021 pagando taxa extra para bancar as usinas térmicas, que pressionarão também os reajustes das tarifas das distribuidoras ao longo dos próximos anos. Um racionamento de energia, no momento, é considerado improvável.

    É consenso entre os especialistas que a crise é estrutural e precisa de soluções de longo prazo. “São questões como mudança da ocupação do solo, mudança climática, aspectos de desenvolvimento econômico que levam à supressão de vegetação”, diz Lasmar. “Onde não há floresta, não há água.”

    Segundo o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), a bacia do rio Paraná vem enfrentando chuvas abaixo da média há 22 anos e a situação se agravou a partir de fevereiro de 2019, quando recebeu os piores volumes desde o início dos anos 1980.

    “Em termos de vazão, pode-se concluir que a porção alta da bacia do rio Paraná enfrenta uma situação que pode ser classificada como severa e excepcional desde 2014” diz.

    Roberto Kishinami, coordenador sênior do Instituto Clima e Sociedade, defende que o agronegócio da região deve buscar tecnologias mais eficientes de irrigação, como o gotejamento usado no Centro-Oeste. “Aqui [em São Paulo] se usa muito pivô central, que é como jogar água de mangueira.”

    No Brasil, em média, 50% da água captada nos rios brasileiros é usada para irrigação, diz a ANA. Um aumento na tarifa de captação de água, que é regulada pelos estados, poderia levar à busca por maior eficiência, considera Kishinami.

    O ex-presidente do ONS Luiz Eduardo Barata lembra que, a cada crise hídrica, autoridades falam em recuperação de mananciais e matas ciliares, as florestas às margens dos rios, mas as propostas raramente vão adiante.

    Ele defende mudanças no modelo do setor elétrico para permitir a contratação de mais energias renováveis, como solar e eólica, para garantir a recuperação dos reservatórios a seus níveis máximos, o que não ocorre há muito tempo —a última vez em que eles superaram os 80% de capacidade foi em abril de 2011.

    “Hoje, estamos enchendo o tanque até a metade e rodando até cair na reserva”, compara. “Mas seria melhor andar de tanque cheio e abastecer quando chega na metade. O custo é o mesmo e o risco, menor.”

    https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/06/bacia-do-parana-ja-sente-efeitos-da-seca-sobre-agronegocio-e-geracao-de-energia.shtml

    Questões

    1 Em que contexto político foi criado a ANA e quais são suas funções?

    2 Qual a importância das matas ciliares para a manutenção da vazão de um rio?

    3 Aponte os diversos usos de um rio presentes no texto jornalístico.

    4 Por que a Bacia do Rio Paraná apresenta um grande potencial instalado na produção de energia hidrelétrica?

    5 Explique como se obtém energia elétrica a partir de um rio.

    6 Quais são os impactos socio-ambientais ligados a produção de energia hidrelétrica.

    7 O que é uma Bacia Hidrográfica?

    Prof Luciano Mannarino

  • Energia insustentável

    Energia insustentável

    POLÍTICAS PÚBLICAS 

    Para além do investimento financeiro, estudiosos veem no alto custo social e ambiental empecilho para expansão hidrelétrica na Amazônia

    Operário trabalha na construção de casa de força da hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira (PA), em 2013 Lalo de Almeida / Folhapress

    Domingos Zaparolli

    Edição 284
    out. 2019

    A Bacia Amazônica, que em território brasileiro ocupa 3,8 milhões de quilômetros quadrados em sete estados e responde por mais de 60% de toda a disponibilidade hídrica do país, é considerada a área com maior potencial para a expansão da geração hidrelétrica no Plano Nacional de Energia (PNE) elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia. Estudos recentes sobre os impactos socioambientais da construção de hidrelétricas na região e a capacidade de essas usinas gerarem os resultados pretendidos ao longo de sua vida útil, porém, sugerem cautela.

    “As hidrelétricas amazônicas só são economicamente competitivas com outras fontes de energia se não são computados os custos sociais e ambientais, os custos de sua eventual remoção, se o cálculo é feito com base no custo da energia instalada e não na energia efetivamente produzida, e se não são considerados os custos de uma justa compensação, que são transferidos para a sociedade”, afirma Emilio Moran, professor de antropologia, geografia e ciências ambientais na Universidade Estadual de Michigan (MSU), nos Estados Unidos, e na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Moran coordenou equipe multidisciplinar formada por professores e pesquisadores das áreas da saúde, geografia, antropologia, economia agrícola e ambiental da Unicamp, da MSU, das universidades federais do Pará (UFPA), Rio Grande do Sul (UFRGS) e Santa Catarina (UFSC), e da suíça St. Gallen. Eles foram a campo no sudoeste do Pará com o objetivo de avaliar os impactos socioambientais gerados pela construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu. Os resultados foram divulgados no final de agosto, em evento realizado em São Paulo.

    A pesquisa constatou que a usina hidrelétrica gerou danos para a biodiversidade pesqueira local e para a população de Altamira e Vitória do Xingu, cidades paraenses vizinhas à obra. Aumento do custo de vida, queda na renda de ribeirinhos e agricultores familiares, diminuição da pesca, piora em indicadores da saúde, saneamento deficitário e aumento da violência são alguns dos danos observados. “O que ocorreu em Belo Monte era previsível, já havia ocorrido antes em outros projetos hidrelétricos. Só demonstra que o Estado continua permitindo os mesmos erros que cometia há 40 anos”, diz Moran, referindo-se aos impactos socioambientais registrados nos anos 1970 e 1980 na construção das usinas hidrelétricas de Tucuruí, no rio Tocantins, e Balbina, no rio Uatumã, afluente do Amazonas, e não devidamente considerados na construção de Belo Monte.

    O Plano Nacional de Energia foi lançado em 2006 e recebeu sua atualização mais recente em 2018. Contém previsões de consumo e o mapeamento de oportunidades de expansão da oferta energética até 2050. Segundo o documento, dependendo da expansão econômica do país, a demanda por energia deverá crescer a um ritmo de 1,4% a 2,2% ao ano, no período. O potencial hidrelétrico brasileiro foi calculado em 176 mil megawatts (MW). Destes, 108 mil MW já estão disponíveis ou sendo providenciados em outras construções. Entre os demais 68 mil MW inventariados, 52 mil MW correspondem a projetos que envolvem a construção de usinas de médio e grande porte. Desse total, 64%, ou 33 mil MW, são previstos na Bacia Amazônica.

    Cotidiano fluvial: botijão de gás é transportado em barcoMaíra Fainguelernt

    Conhecedor da região Amazônica, onde trabalha desde 1978 como pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e convidado do evento, o biólogo norte-americano Philip Martin Fearnside, um dos ganhadores do Prêmio Nobel da Paz em 2007 como membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), diz que o potencial hidrelétrico da Bacia Amazônica está superdimensionado e que os investimentos não trarão os resultados esperados. “Não estão considerando, por exemplo, os efeitos do aquecimento global que reduz as precipitações pluviométricas e consequentemente o fluxo de água nos rios”, alega.

    Fearnside cita um estudo realizado em 2015 pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), do governo federal, intitulado “Brasil 2040”, no qual são projetadas as consequências do aquecimento global para o clima do país. Para a região Amazônica, a projeção indica diminuição substancial das chuvas refletindo no volume de água dos rios e na capacidade de geração de hidreletricidade. Os impactos deverão ser diferentes para cada bacia hídrica. Nos cenários projetados, a capacidade de geração em Belo Monte, por exemplo, poderá ser reduzida entre 20% e 55%.

    A hidreletricidade é tida pela indústria do setor e por alguns especialistas como uma forma limpa de energia por não utilizar fontes fósseis como combustível. Fearnside considera essa percepção equivocada, principalmente em relação às hidrelétricas instaladas em regiões de floresta. “Há emissão de gases de efeito estufa em quantidades substanciais”, afirma. Estudos realizados pelo cientista indicam que os primeiros anos de atividade de uma hidrelétrica concentram grande emissão de dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O). Segundo ele, o tempo que uma hidrelétrica leva para gerar benefícios, reduzindo a emissão de gases de efeito estufa, é medido em décadas e varia de acordo com a localização, o tamanho e o perfil da área ocupada pela barragem. Em Belo Monte, com a primeira barragem planejada rio acima, o pesquisador estima que pode demorar 40 anos.

    Mãe e filha lavam roupas no rioMaíra Fainguelernt

    Dependência do rio Xingu
    O complexo hidrelétrico de Belo Monte é formado por duas casas de força, ou seja, são duas usinas, que somam 24 turbinas, totalizando uma capacidade instalada de 11,2 mil MW, que deverá ser alcançada no último trimestre deste ano com a entrada em funcionamento das quatro últimas turbinas. Com isso, a hidrelétrica passará a ocupar o posto de terceira maior do mundo em capacidade instalada. Mas não em produção efetiva. Em Belo Monte, a oferta de energia firme, aquela que pode ser assegurada, limita-se a 4,4 mil MW em média. A produção efetiva depende da vazão do rio Xingu. Nos meses de seca na região, entre junho e outubro, sua capacidade de geração é bastante reduzida.

    Belo Monte é uma usina a fio d’água, ou seja, seu reservatório foi projetado para permitir uma regularização do fluxo de água para poucos dias de operação e não para todo o período seco. Por isso, seu reservatório é quase três vezes menor do que o necessário em uma usina tradicional. Mesmo assim, soma 478 km² em duas represas interligadas por um canal de derivação com 20 km de extensão.

    Em janeiro de 2011, quando as obras em Belo Monte foram iniciadas, a hidrelétrica foi orçada em R$ 16 bilhões. Em julho último, o Ministério de Minas e Energia estimou em R$ 42 bilhões seu custo total. A usina pertence a Norte Energia S.A., que tem a estatal Eletrobras como principal acionista, detentora de 49,98% das ações. Os investimentos – na ordem de 80% – tiveram financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

    Miquéias Calvi, professor da Faculdade de Engenharia Florestal da UFPA, é morador de Altamira há 30 anos. Acompanhou de perto todo o processo de comunicação promovido pelo governo federal e o grupo Norte Energia para o convencimento da população local. Ele relata que foi estabelecida uma narrativa muito convincente de como a usina seria a condutora do desenvolvimento regional, com geração de emprego, renda para o produtor rural e para os comerciantes locais, além de melhorias na oferta de serviços públicos de saúde, saneamento, distribuição de água potável, segurança e moradia. “Conquistaram um apoio grande à obra, que hoje quase não existe mais”, afirma.

    Emilio Moran resume a percepção atual da população local em uma frase, repetida inúmeras vezes aos pesquisadores envolvidos no projeto sobre os impactos socioambientais de Belo Monte: “Bom para o Brasil, péssimo para nós”. Os resultados do estudo apresentam as razões da mudança da opinião pública. Antes de Belo Monte, a cidade de Altamira abrigava 75 mil moradores. Dois anos depois do início das obras, já eram quase 150 mil. A construção da usina chegou a gerar 50 mil empregos diretos e indiretos, contingente que foi diminuindo à medida que etapas da obra foram vencidas. Em 2018 a população estimada era de 113 mil habitantes.

    A movimentação demográfica teve consequências, inclusive na saúde da população. Márcia Grisotti, chefe do Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFSC, estuda os impactos de Belo Monte e destaca o aumento dos registros de sífilis em gestantes da cidade de Altamira, que passou de um caso para cada mil crianças nascidas em 2010 para 15 casos, em 2015. A violência aumentou. Em 2015, a cidade conquistou o indesejável título de a mais violenta do Brasil. Segundo dados do Ministério da Saúde, foram 124,6 homicídios para cada 100 mil habitantes. Cinco anos antes, a taxa era de 60,9 homicídios para cada 100 mil habitantes. Também houve crescimento no número de suicídios e de mortes por acidente de trânsito. “As medidas compensatórias relacionadas à saúde se restringiram à instalação de equipamentos médicos e sanitários, sem acompanhamento dos indicadores nem definição de uma estratégia para mitigar problemas que poderiam ter sido evitados”, diz Grisotti.

    Belo Monte será a terceira maior do mundo em capacidade instalada, mas não em produção efetiva

    A construção da barragem de Belo Monte e as mudanças no nível de água do Xingu exigiram o deslocamento de 22 mil pessoas que viviam às margens do rio. Essa população foi realocada em cinco Reassentamentos Urbanos Coletivos (RUCs) na periferia de Altamira. Não sem problemas, observa o professor do curso de desenvolvimento regional da UFRGS Guillaume Leturcq. “Pessoas que obtinham sua subsistência do Xingu foram assentadas em vilas distantes a 3 ou 4 quilômetros do rio”, conta. “Não lhes foi oferecida a oportunidade de transferência para localidades onde poderiam manter seu modo de vida.” Muitas das novas casas já foram abandonadas ou vendidas.

    O adensamento populacional gerou problemas sanitários. Até 2012, o abastecimento de água de 86% da população era feito por intermédio de poços e o esgoto de 90% das casas era destinado para fossas sépticas. De acordo com Cristina Gauthier, da MSU, a Norte Energia melhorou a infraestrutura de saneamento de Altamira, mas não o suficiente para o crescimento populacional que a cidade enfrentou. Resultado: o uso de poços e fossas segue sendo comum no lugar.  “Com o adensamento geográfico, o número de poços e fossas é maior do que antes da construção da usina. Um número maior de fossas impacta a qualidade de água subterrânea do lugar”, diz Gauthier. Em amostra realizada em 30 casas, a pesquisadora constatou que apenas seis poços possuíam água sem contaminantes fecais na época da seca e sete no período chuvoso. Procurada, a Norte Energia não comentou os resultados das pesquisas.

    Nem mesmo ribeirinhos que vivem em áreas mais distantes da usina e não precisaram abandonar suas casas ficaram imunes. Moradores da comunidade a jusante de Vila Nova, que soma 156 famílias, relatam que hoje precisam de seis dias para obter a mesma quantidade de peixes que antes pescavam em dois. Além disso, os peixes são menores e há dificuldade em comercializá-los. “Em Altamira é possível comprar peixes de outras regiões do Pará e de Santa Catarina. Apenas um supermercado vendia peixe local em 2015”, diz Miquéias Calvi.

    Removido da casa onde vivia por causa da construção da hidrelétrica, morador desmancha palafita em área próxima ao igarapé AltamiraLalo de Almeida / Folhapress

    Calvi investigou os impactos de Belo Monte na produção rural na região de Altamira. “A promessa era de que o aumento da população e da demanda por alimentos iria beneficiar o produtor local”, observa. No entanto, três anos após o início da obra, 60% dos agricultores familiares haviam abandonado suas lavouras temporárias. Os cultivos de arroz, feijão, milho e mandioca caíram de 40 mil hectares em 2011 para 20 mil hectares em 2017.

    Emilio Moran acredita que muitos dos problemas constatados na pesquisa poderiam ter sido evitados se o licenciamento da usina tivesse sido precedido de um adequado Estudo de Impacto Ambiental e o respectivo Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima). Para isso, e como determina a legislação brasileira, seria necessário estudar antecipadamente a região, em seus aspectos físicos e humanos, e ouvir as comunidades locais. Órgãos públicos como o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), avalia Moran, também deveriam ter “capacidade e vontade política” para negar licenças, se constatado que determinado empreendimento não atende as obrigações da legislação brasileira e as recomendações do relatório de impacto social e ambiental.  “Isso nunca ocorre no Brasil”, lamenta. “Os estudos são feitos, mas as obras começam sem a resolução dos problemas apontados nos estudos.”

    O físico José Goldemberg, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEA-USP) e ex-secretário nacional do Meio Ambiente e de Ciência e Tecnologia, concorda apenas parcialmente com as críticas. Segundo ele, muitos dos impactos socioambientais de Belo Monte poderiam, de fato, ter sido evitados e a empresa deveria ser responsabilizada pelos danos gerados. No entanto, Belo Monte, pondera, não pode ser julgada apenas pelos danos sociais, mas também pelos benefícios gerados para o abastecimento energético de todo o país.

    Em sua opinião, as hidrelétricas na Bacia Amazônica devem ser avaliadas caso a caso, levando em consideração sua viabilidade diante dos custos de mitigar os impactos socioambientais e diante dos possíveis efeitos das mudanças climáticas, mas não devem ser descartadas a priori. “O Brasil precisa expandir sua produção de eletricidade e uma hidrelétrica, entre as opções que garantem geração firme, constitui alternativa melhor do que as usinas que utilizam combustíveis fósseis e do que as nucleares”, avalia.

    Questões

    Por que a vazão do rio Xingu oscila ao longo do ano e de que forma isso afeta a produção de energia hidrelétrica?

    A produção energia elétrica através de uma hidrelétrica é considerada uma fonte limpa? Justifique.

    Explique o papel do Estado brasileiro na produção de energia elétrica?

    Aponte os impactos socioambientais ligados a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

    Prof Luciano Mannarino