Categoria: ATIVIDADES

Modelos de atividades para a Sala de Aula (Geografia)

  • Dez anos após Fukushima, energia nuclear cresce com China e crise climática

    Dez anos após Fukushima, energia nuclear cresce com China e crise climática

    Produção mundial voltou aos níveis anteriores ao desastre; ambientalistas defendem fontes renováveis

    11.mar.2021 às 8h00

    Igor Gielow

    SÃO PAULO

    Em março de 2011, quando o desastre da usina japonesa de Fukushima horrorizou o mundo, o futuro comercial da energia nuclear foi dado como no mínimo incerto.

    A Alemanha anunciou o fim de seu programa de usinas atômicas, o Japão desligou para revisão seus 33 reatores, 3 dos quais tiveram seus núcleos derretidos após o terremoto e tsunami devastadores, grupos ambientalistas se disseram enfim reconhecidos no seu pleito por um mundo sem energia nuclear.

    A usina nuclear japonesa de Fukushima Daiichi, que teve três reatores atingidos no tsunami de 2011
    A usina nuclear japonesa de Fukushima Daiichi, que teve três reatores atingidos no tsunami de 2011 – Kazuhiro Nogi/AFP

    Dez anos depois, após uma queda, a produção mundial de suas usinas nucleares voltou aos índices pré-Fukushima. São 2.750 TWh (terawatts-hora), ante 2.720 TWh em 2010.

    E a tendência é de crescimento, puxado pela necessidade do corte mundial de emissões de carbono e pelo ambicioso programa energético da China.

    Durante seu encontro legislativo anual, chamado de Duas Sessões, o governo de Xi Jinping estabeleceu uma meta de aumento de 27% de sua produção nuclear até 2025.

    Das 53 usinas em construção em todo mundo, segundo a Associação Nuclear Mundial, o maior contingente (11) é chinês. Em 2020, havia 441 reatores civis em operação no planeta.

    O plano é considerado central para a ambição chinesa de atingir o máximo de sua emissão de carbono em 2030 e ser um país neutro no quesito em 2060. O tombo da economia mundial com a pandemia é visto como uma oportunidade de rearranjar a casa no clima.

    É o país mais poluente do mundo, segundo dados da Agência Internacional de Energia em 2020, responsável por 28% do despejo mundial de CO₂ na atmosfera —os EUA vêm em segundo lugar, com 15%.

    É o preço de ter virado uma das fábricas do mundo: de 1990 para cá, a emissão de carbono cresceu 356% no país, a segunda maior economia do mundo, atrás dos EUA.

    Hoje, apenas 4,7% da eletricidade consumida na China têm origem nuclear, sendo que dois terços da energia do país vem do ultrapoluente carvão.

    A terra do presidente e ativista climático Joe Biden, por sua vez, tem 19,4% de sua eletricidade oriunda de 94 usinas nucleares, maior parque da Terra. A produção anual está estável desde 2010 e fechou 2019 em 830 THh.

    Nem todo mundo está feliz com o plano chinês. O grupo ambientalista Greenpeace advoga que o mundo deve focar energias renováveis, como a solar e a eólica, mas isso esbarra na intermitência natural delas e no custo ainda alto devido à baixa escala.

    Uma vez ligado e alimentado, um reator nuclear gera energia virtualmente eterna sem emitir CO₂. Claro, a extração e o processamento do urânio que usa como combustível entram na conta, mas é uma fração muito baixa em relação a outras fontes poluentes.

    Usando fontes abertas sobre mortalidade e acidentes relacionados a fontes poluentes, o site Our World in Data fez uma comparação acerca dos efeitos de matrizes energéticas sobre uma cidade europeia média, com cerca de 188 mil habitantes e com o perfil usual de consumo no continente.

    A cidade de Namie, na província de Fukushima (Japão), classificada como de difícil retorno devido à radiação após acidente nuclear causado por terremoto e tsunami
    A cidade de Namie, na província de Fukushima (Japão), classificada como de difícil retorno devido à radiação após acidente nuclear causado por terremoto e tsunami Rodrigo Sicuro/Folhapress

    Pelas contas, 25 pessoas morreriam prematuramente por ano devido ao carvão, 18 pelo petróleo, 3 por causa do gás. Demoraria 14 anos para alguém morrer devido à energia nuclear, 29 anos pela eólica, 42 pela hidroelétrica, e 53, pela solar.

    Ou seja, aplica-se às usinas nucleares e sua relação com o entorno basicamente a regra do avião: é um modo muito seguro de transporte, desde que você não esteja dentro de um quando ele cai.

    Em conversa com a Folha no ano passado, o diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, apontou para essa contradição daqueles que demandam ação efetiva contra a mudança climática associada ao CO₂ na atmosfera.

    Para ele, a vantagem do nuclear é óbvia. Hoje, cerca de 10% da eletricidade consumida no mundo vêm de reatores nucleares, enquanto 38% vêm de carvão, 23% de gás natural, e 16%, de hidroelétricas. Alternativas (biomassa, solar e eólica) somam 7%.

    Já como fonte de energia para a economia, o petróleo segue imbatível com 31%, o carvão responde por 25%, e o gás, por 23%. O átomo fica com 4% do bolo, atrás de biomassa (7%) e hidroelétricas (6%). Vento e sol originam 3%.

    O caso alemão é exemplar do desafio colocado pelo temor de uma nova Fukushima —isso para não falar no pior acidente da história, em 1986, na usina de Tchernóbil (União Soviética, hoje Ucrânia). Em 2010, Berlim era a quinta maior geradora mundial de energia nuclear, com 140 TWh.

    Higashimatsushima, Província de Miyagi - 12.mar.11 / 3.mar.12
    Higashimatsushima, Província de Miyagi – 12.mar.11 / 3.mar.12 Reuters

    Em 2011, o país já havia decidido reduzir sua emissão de carbono. O acidente acelerou o processo de retirada da matriz nuclear, sob pressão da bancada verde no Parlamento, e o plano é desligar as seis usinas remanescentes em 2022.

    O problema é que a emissão de carbono se manteve relativamente estável, de 731 milhões de toneladas de CO₂ em 2011 para 677 milhões de toneladas em 2018, segundo a Agência Internacional de Energia.

    Curiosamente, países em que o movimento ambientalista é forte, como França e Suécia, têm alta dependência de energia nuclear: 71%, a maior do mundo, e 39%, respectivamente.

    País onde a tragédia de Fukushima ocorreu, o Japão vem religando suas usinas paulatinamente. Era o terceiro país em produção de energia atômica em 2010, com 286 TWh e 33 usinas. Em 2015, produziu apenas 4 TWh, quase quatro vezes menos que o Brasil e suas duas unidades em Angra dos Reis.

    Em 2019, último dado disponível, já havia subido para 70 TWh, tendo acionado nove de suas plantas nucleares.

    É um processo complicado, porque o trauma dos acidentes é altíssimo. Radiação é um subproduto perigosíssimo para lidar, e anos de construções com falhas de desenho (caso de Tchernóbil) ou em locais inadequados (Fukushima) colocam uma sombra permanente sobre a matriz nuclear.

    Na esteira de Tchernóbil, a segurança primária de reatores na antiga União Soviética foi melhorada, mas há lacunas. Enquanto nove unidades RBMK, iguais à que explodiu em 1986, ainda subsistem na Rússia, modelos de primeira e segunda geração VVER seguem pelo mundo.

    Um dos mais temidos por especialistas é o que equipa a planta de Metsamor, na Armênia. Numa região suscetível a terremotos devastadores, junto à capital Ierevan, ela quase foi alvo de forças azeris no conflito entre os países em 2020. Como fornece um terço da energia do país, deverá seguir onde está.

    Mulher presta homenagem às vítimas em cemitério de Kiev, na Ucrânia
    Mulher presta homenagem às vítimas em cemitério de Kiev, na Ucrânia Sergei Supinsky

    A questão dos resíduos é central, estatisticamente mais complexa do que a de acidentes em si. Lixo atômico é o combustível gasto pelos reatores, reciclável até certo ponto.

    No 14º Plano Quinquenal da China, revelado na reunião desta semana em Pequim, está inclusive previsto um trabalho específico em tecnologias que facilitem o reprocessamento do lixo.

    Os resíduos mais nocivos, o combustível gasto e não reciclável, precisa ser enterrado a centenas de metros por milênios. São um problema ambiental real, embora 99% do lixo seja de mais fácil manejo, como filtros, peças e roupas de proteção usadas.

    Por fim, mais intangível, há o preconceito que pode ser associado às tragédias e também às armas nucleares, que ocupam faixa semelhante no imaginário popular. Já os benefícios das aplicações médicas de isótopos radioativos, um terceiro ramo da energia nuclear, não costumam assustar tanto —exceto quando algo dá errado, como na exposição do césio-137 em Goiânia, em 1987.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/03/dez-anos-apos-fukushima-energia-nuclear-cresce-com-china-e-crise-climatica.shtml

  • Nova Zelândia cancela alarme de tsunami após três terremotos atingirem o país

    Nova Zelândia cancela alarme de tsunami após três terremotos atingirem o país

    Moradores de parte do litoral que haviam sido evacuados já podem voltar para casa

    4.mar.2021 às 19h12Atualizado: 4.mar.2021 às 21h49

    WELLINGTON (NOVA ZELÂNDIA) REUTERS e AFP

    A Nova Zelândia cancelou um alarme de tsunami após três terremotos atingirem o paísnesta quinta-feira (3, sexta-feira, 4, no horário local).

    Milhares de pessoas na costa leste da Ilha Norte da Nova Zelândia deixaram suas casas e foram evacuadas para um terreno mais alto, mas a agência de gerenciamento de emergência nacional confirmou na noite desta quinta que a ameaça já havia passado e que os moradores poderiam retornar às suas casas.

    Nenhum dano foi registrado. O primeiro tremor, de magnitude 7.2, atingiu o norte do país, foi sentido por mais de 60 mil pessoas e provocou o primeiro alerta de tsunami —que foi retirado mais tarde.

    Depois vieram outros, de 7.4 e de 8.0 —o último foi registrado às 8h28 locais (16h28 em Brasília), a 1.033 km da costa, segundo o Serviço Geológico dos EUA.

    Moradores se reúnem em área mais alta de Whangarei, após alerta de tsunami na Nova Zelândia – Skykiwi/Xinhua

    O centro de alerta para tsunamis do Pacífico informou que é possível que haja ondas na Nova Zelândia, em Tonga, em Samoa Americana e em Fiji.

    “Moradores das zonas costeiras devem partir imediatamente para a área elevada mais próxima, fora de todas as zonas de evacuação e terra adentro. NÃO FIQUE EM CASA”, pediu no Twitter a agência neozelandesa de gestão de emergências.

    “Espero que todos estejam bem, especialmente na Costa Leste, que sentiu a força total do terremoto”, escreveu no Instagram a primeira-ministra, Jacinda Ardern.

    Os terremotos deixaram o Chile em “estado de precaução”. Segundo o Onemi (Escritório Nacional de Emergência do Ministério do Interior e Segurança Pública), isso significa que existe a possibilidade de um “tsunami menor”, que poderia atingir a costa do país nesta madrugada.

    Socorristas carregam corpo de vítima de tsunami na praia de Tanjung Lesung, na Indonésia
    Socorristas carregam corpo de vítima de tsunami na praia de Tanjung Lesung, na Indonésia Antara Foto/Reuters

    O departamento responsável na Marinha do Peru emitiu alerta de tsunami após um dos tremores na Nova Zelândia.

    Os neozelandeses estão habituados com os terremotos devido à posição geográfica do país, situado na região conhecida como Círculo de Fogo do Pacífico, marcada por intensa atividade sísmica e vulcânica.

    De acordo com o GeoNet, a Nova Zelândia tem cerca de 20 mil terremotos por ano, embora nem todos sejam percebidos pela população.

    Em 2011, um terremoto de magnitude 6,3 causou 185 mortes na cidade de Christchurch. Em 2016, houve duas mortes e prejuízos bilionários após um terremoto de magnitude 7,8 na cidade de Kaikoura.

    Também nesta quinta, um terremoto de magnitude 5.7 atingiu o centro Grécia, segundo o Centro Sismológico Europeu do Mediterrâneo (EMSC), que localizou o epicentro a 17 km a oeste da cidade de Tyrnavos.

    Segundo o serviço de bombeiros, o tremor causou danos am casas antigas e um pequeno deslizamento de rochas em uma região com um complexo de mosteiros, mas não houve relatos de mortes ou pessoas feridas.

    As autoridades gregas montaram tendas e alugaram hotéis nas cidades próximas de Trikala e Larissa para quem optou por ficar fora de casa por motivos de segurança.

    O abalo aconteceu um dia após um outro terremoto de magnitude 6 ter atingido a mesma área. Na quarta-feira, o abalo fez com que a população saísse de suas casas, e danificou casas e carros em vilarejos próximos.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/03/terremotos-disparam-alerta-de-tsunami-na-nova-zelandia.shtml

    VÍDEO – TEORIA DA DERIVA CONTINENTAL

    GEOLOGIA (aula)

  • América Latina e convergência de rendimentos: história de um fracasso?

    América Latina e convergência de rendimentos: história de um fracasso?

    EM13 CHS 206     Analisar a ocupação humana e a produção do espaço em diferentes tempos, aplicando os princípios de localização, distribuição, ordem, extensão, conexão, arranjos, casualidade, entre outros que contribuem para o raciocínio geográfico.

    3.mar.2021 às 18h22

    Carlos Andrés Brando: Historiador. Doutor em História Econômica, London School of Economics & Political Science. Pesquisador pós-doutorando na U. de los Andes e reitor da Faculdade de Economia da U. Jorge Tadeo Lozano.

    Uma ideia popular em economia sustenta que os países pobres tendem a crescer mais rapidamente do que os países ricos. Portanto, as economias do mundo acabam convergindo em seus níveis de renda. A vantagem mais importante que os retardatários têm é copiar os melhores padrões e práticas institucionais, tecnológicas e produtivas dos que estão à frente.

    Além disso, segundo a teoria, os pobres recebem grandes quantidades de capital dos ricos, o que significa que, apesar de investirem cada vez mais capital na formação de sua força de trabalho ou em suas indústrias, os retornos que obtêm com esses investimentos são cada vez menores.

    COMO É A TEORIA À LUZ DA HISTÓRIA?

    Após a Revolução Industrial Inglesa e o crescimento econômico moderno que ela gerou em meados do século 18, uma dúzia de países ocidentais atingiu níveis de renda semelhantes aos ingleses nos cem anos seguintes. Primeiro vieram a Holanda e a Bélgica. Depois França, Suíça, Dinamarca, Alemanha, Nova Zelândia, Austrália, Canadá e Argentina. No início do século passado, o grupo dos ricos foi completado pela Noruega e Suécia.

    Os Estados Unidos merecem uma menção especial, pois ultrapassaram a Inglaterra para se tornarem o país mais rico do mundo, o líder tecnológico e o poder político hegemônico global à beira da Primeira Guerra Mundial.

    Desde então, tem havido pouca convergência. Durante os chamados “anos dourados” do período pós-guerra, o crescimento econômico acelerado experimentado pela Áustria, Finlândia, Itália e Espanha os trouxe para o clube de elite. A Irlanda e Portugal somaram-se ao grupo recentemente.

    E A AMÉRICA LATINA?

    A região não tem sido completamente imune ao fenômeno. Entretanto, as experiências históricas de convergência têm sido amargas.

    A Argentina era uma das 12 economias mais prósperas do mundo durante o primeiro terço do século 20 e desde então começou um longo declínio gradual (relativo) de seu PIB per capita até os anos 2000. Foi superada pela Venezuela nos anos 1950, cuja economia cresceu rapidamente por mais duas décadas, apenas para sofrer uma grande retração e mais 30 anos de estagnação.

    Um frango chega a custar 14.600.000 Bs, pouco mais de R$ 8
    Um frango chega a custar 14.600.000 Bs na Venezuela, pouco mais de R$ 8 Carlos Garcia Rawlins/Reuters

    Assim, a Venezuela apresenta uma evolução de sua renda próxima à forma de um sino de distribuição normal. Evidentemente, em nenhum dos casos a convergência foi cimentada.

    Um século de convergência (ou divergência) na América Latina, anos 1920 - anos  2010
    Um século de convergência (ou divergência) na América Latina, anos 1920 – anos 2010 (Evolução do PIB real p/c, US$ de – Razões de países selecionados em relação aos Estados Unidos) – Reprodução

    Fonte: Elaboração própria a partir do Maddison Project Database (2020). G10+ (média do grupo de países ricos mencionados acima, dos quais Argentina e Venezuela fizeram parte temporariamente em diferentes décadas).

    Embora os casos do Chile e da Colômbia sejam semelhantes, já que ambos terminam suas trajetórias em níveis de renda muito próximos aos de seus pontos de partida um século atrás, o Chile fica marcadamente atrás do G10+ por 50 anos (1930 a 1970), e só começa a se recuperar na década de 1980. A Colômbia, entretanto, permaneceu praticamente estática desde a década de 1940, com uma reviravolta na última década.

    O Brasil é diferente. Mostra uma tendência ascendente apenas desacelerada pela crise da dívida dos anos 1980 e a subsequente “década perdida”. Em 100 anos, a renda dos brasileiros passou de representar pouco mais de 10% da renda dos Estados Unidos para 28%. A este ritmo, a convergência com o líder levará cerca de 300 anos.

    O SUCESSO DOS PAÍSES ASIÁTICOS

    O fracasso da América Latina em convergir é claro e contundente. Mas nem todos sofreram este destino. As experiências do Japão, Hong Kong, Singapura, Taiwan e Coreia do Sul (os “tigres” asiáticos) representam casos de convergência bem-sucedidos.

    Começando com o Japão nos anos 1960, e sucessivamente com diferenças de cerca de uma década entre os anos 1970 e 2000, os quatro casos restantes na ordem acima atingiram os níveis de renda do G10+. Enquanto o fizeram com taxas de crescimento diferentes, Hong Kong e Japão com taxas muito altas e a Coreia a um ritmo mais lento, todos eles alcançaram a terra prometida.

    Um século de convergência na Ásia Oriental, anos 1920 – anos 2010
    Um século de convergência na Ásia Oriental, anos 1920 – anos 2010 (Crescimento real do PIB p/c, US$ de 2011 – Razões de países selecionados em relação aos Estados Unidos) – Reprodução

    Fonte: Elaboração própria a partir do Maddison Project Database (2020). G10+ (média do grupo de países ricos mencionados acima, dos quais Argentina e Venezuela fizeram parte temporariamente em diferentes décadas).

    ONDE ESTÁ A DIFERENÇA?

    O fator decisivo para entender a razão das diferentes experiências nas duas regiões reside na natureza da integração com a economia internacional.

    Por um lado, a América Latina foi integrada através de exportações primárias. Ao longo do século, as matrizes de exportação das cinco economias foram dominadas por commodities: café, trigo, carne, borracha, lã, soja, cobre, nitrato, carvão e petróleo.

    Por outro lado, os “tigres” transformaram gradualmente suas matrizes, afastando-se da exportação de bens primários para se concentrarem no desenvolvimento das exportações de bens industriais (e serviços comerciais e financeiros em Singapura e Hong Kong).

    Os anos de rápido crescimento e convergência foram anos de dinamismo e consolidação em setores como o automotivo, máquinas de alta precisão, fibras sintéticas, plásticos, semicondutores, software de computador e produtos eletrônicos. Todos esses competindo nos mercados internacionais. Em outras palavras, estas economias deram um grande impulso à sua industrialização, redirecionando-a para a exportação.

    A industrialização das exportações estimulou a demanda por atividades domésticas ligadas à produção no exterior, gerou um trabalho formal cada vez mais qualificado, e permitiu que a acumulação de economias fosse recanalizada como investimento em infraestrutura e outros setores ávidos de recursos.

    Mas, acima de tudo, este compromisso de exportação exigiu a formação de um sistema tecnológico nacional capaz de inovação contínua, tanto nos produtos quanto nos processos de produção. Assim, empresas e trabalhadores asiáticos se tornaram mais produtivos e agregaram cada vez mais valor aos bens e serviços oferecidos. Como resultado, eles recebiam maiores rendimentos.

    Para ser justo, os latino-americanos conseguiram exportar produtos industriais. Mas eles o fizeram em proporções menores, na maioria das vezes regionalmente e episodicamente. Em vez de criar tecnologia em casa, ela foi importada e o círculo virtuoso foi rompido.

    As commodities traçaram outro caminho, com problemas estruturais antigos: vulnerabilidade externa, desvalorização da moeda, volatilidade do crescimento e escassez de estímulos e ligações com outras atividades.

    O mundo mudou e as notícias não são boas. As condições para saltar adiante são mais difíceis agora do que eram para os “tigres” há quatro ou cinco décadas. Os acordos comerciais bilaterais, as regras do jogo regulatório do comércio internacional e a ubiquidade dos direitos de propriedade intelectual reduziram significativamente o espaço para desenvolver o tipo de políticas industriais que os agora ricos implementaram quando procuraram sair da pobreza.

    A América Latina parece condenada a contribuir para as teorias da divergência.

    Tradução do espanhol por Maria Isabel Santos Lima

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/latinoamerica21/2021/03/america-latina-e-convergencia-de-rendimentos-historia-de-um-fracasso.shtml

  • Estudo indica união da ferrovia com o agronegócio para desenvolver o país

    Estudo indica união da ferrovia com o agronegócio para desenvolver o país

    Estudo do Instituto de Engenharia aponta como ferrovias e agronegócio podem se desenvolver juntos.

    (Serafin Reyna)

    Marcelo Toledo

    Um estudo desenvolvido pelo Instituto de Engenharia, organização com mais de cem anos de atuação, mostra que o caminho para o escoamento da produção do agronegócio nacional é o investimento no desenvolvimento ferroviário do país.

    Juntos, podem contribuir para o crescimento da economia do país, gerando empregos, reduzindo custos –em relação ao sistema rodoviário, emissão de gás carbônico e perdas–, e ampliando a capacidade de transporte devido ao tamanho das composições, diz o instituto.

    Além disso, as ferrovias impulsionariam a tecnologia e a infraestrutura dos municípios em setores como energia e telecomunicações, segundo o estudo “Ocupação Sustentável do Território Nacional pela Ferrovia Associada ao Agronegócio”.

    Conforme o trabalho do instituto, a ocupação territorial produtiva nos eixos Oeste (Mato Grosso) e Nordeste (Matopiba e norte de Goiás) continua a se expandir pelas condições favoráveis da terra e tecnologia empregada, mas, devido à logística, a produção precisa ser escoada na maior parte pelos portos do Sul e Sudeste, a longas distâncias rodoviárias, elevando custos.

    O estudo faz ainda comparações com o modal rodoviário, como a que mostra que uma composição ferroviária com 134 vagões tem capacidade de transportar o equivalente a 500 carretas de minério.

    Além disso, mostra que apesar de o país ter em tese uma malha ferroviária de 29 mil quilômetros, apenas 10 mil quilômetros estão em uso, insuficiente para a demanda.

    “É pouco principalmente se levarmos em conta que essas ferrovias foram criadas para atender principalmente café e passageiros [no século 19]. Muitas das ferrovias que estão desativadas estão adequadas ao agronegócio e em regiões do agro. A ferrovia de Petrolina a Salvador, que está desativada, com pouco uso, é o principal eixo para a exportação de frutas”, disse o consultor Jorge Hori, relator dos estudos do instituto.

    Outra rota que poderia ter melhor destinação, segundo ele, é a ferrovia entre Teresina e o litoral da Paraíba, também desativada.

    Americana fica na linha tronco da concessão, o chamado corredor de exportações
    Americana fica na linha tronco da concessão, o chamado corredor de exportações Rafael Hupsel/Folhapress

    As ferrovias surgiram em São Paulo a partir da segunda metade do século 19 para atender principalmente interesses dos cafeicultores em trechos curtos, razão pela qual seu traçado até hoje é sinuoso em alguns locais –seguia a lógica de passar nas lavouras de café para embarcar com destino ao porto de Santos.

    Com isso, há curvas inadequadas, rampas acentuadas, os trens precisam trafegar em baixa velocidade e composições cortam a zona urbana de importantes cidades.

    Essas inadequações devem sumir a partir da assinatura da renovação antecipada da concessão da malha paulista, dando mais segurança e velocidade ao sistema ferroviário.

    Ao buscar a renovação da concessão, a Rumo, concessionária que administra a malha, produziu um caderno de obrigações com contrapartidas que contempla obras em ao menos 35 municípios paulistas, que vão de contornos ferroviários à reativação de ramais, passando por viadutos, passarelas e pontes.

    A discussão sobre os gargalos ferroviários foi a primeira feita pela entidade pelo fato de a logística nacional estar muito ruim, segundo Eduardo Lafraia, presidente do instituto, para quem as ferrovias ainda têm o papel de integrar o território nacional.

    “Praticamente cada estação virou uma cidade no estado de São Paulo. Falamos também do planejamento disso, como levar o desenvolvimento para esses lugares. Falamos de ferrovia, mas também de levar junto todos os equipamentos, o desenvolvimento do mundo de hoje, quem vai morar nesses lugares são pessoas tecnicamente preparadas e precisam do conforto da vida moderna”, disse.

    Segundo a ANTF (Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários), o transporte de minério e carvão representa 80% do volume total do setor.

    Hori disse que as concessionárias de ferrovias se atentaram para a importância do transporte desses produtos, mas precisam ter a percepção de que o agro é um grande mercado para elas, o que poderá ser mostrado já nos próximos anos.

    “Primeiro com a conclusão da Norte-Sul, mas também a Fiol [Ferrovia de Integração Oeste-Leste], a Fico [Ferrovia de Integração do Centro-Oeste] e a malha paulista.”

    Ferrovia Norte-Sul tem estrutura para 9 milhões de toneladas de grãos
    Ferrovia Norte-Sul tem estrutura para 9 milhões de toneladas de grãos Karime Xavier/Folhapress

    Conforme Lafraia, o estudo é desenvolvido há quatro anos e não tem de ser visto como um programa de governo, mas de Estado.

    “Não acreditamos que vá depender só de governo [o desenvolvimento ferroviário], mas de dinheiro privado. Uma coisa que a gente nota muito claramente é que a pandemia que para o mundo todo não está parando o nosso agronegócio. Por isso temos de estudar, tem uma coisa fora de moda no Brasil que se chama planejamento”, afirmou o presidente do instituto.

    Conforme ele, o país costuma ter planos para quatro anos –período dos mandatos no Executivo–, mas para ferrovias deveria pensar em no mínimo 20 anos. “Apesar da crise que passamos nosso agro está funcionando bem, se desenvolvendo, e temos de dar condições para ele. Quando falamos de logística boa, na verdade estamos falando em diminuir o custo de transporte.”

    Questões

    1 Analise o contexto histórico da criação das primeiras ferrovias em São Paulo.

    2 O texto jornalístico descortina um dos grandes problemas que afetam a competitividade da nossa economia? Justifique.

    3 O surgimento de diversas cidades do interior paulista esta ligada a malhar ferroviária do Estado? Justifique.

    4 O transporte ferroviário é, sob o ponto de vista ambiental e econômico, mais eficiente do que o transportes rodoviário? Justifique.

    Prof Luciano Mannarino

  • Realismo geopolítico fala mais alto na relação entre EUA e Arábia Saudita

    Realismo geopolítico fala mais alto na relação entre EUA e Arábia Saudita

    Apesar de prometer foco em direitos humanos, Biden não pune príncipe saudita por assassinato de jornalista

    1º.mar.2021 às 23h15

    Patrícia Campos Mello

    SÃO PAULO

    Durante a campanha eleitoral, o então candidato Joe Biden prometeu linha dura com o governo da Arábia Saudita, que era queridinho do então presidente Donald Trump. Em um governo Biden, disse o democrata, os sauditas envolvidos no assassinato e esquartejamento do jornalista saudita Jamal Khashoggi dentro do consulado saudita em Istambul, em 2018, iriam “pagar por isso”, e os EUA fariam deles “os párias que realmente são”.

    Na sexta-feira (26), a CIA divulgou um relatório que responsabiliza pessoalmente o príncipe Mohammed bin Salman, conhecido pela sigla MbS, por ter ordenado o assassinato de Khashoggi. E o que aconteceu? O Departamento do Tesouro impôs sanções contra o antigo vice-chefe da inteligência saudita, Ahmed al-Asiri, e contra a Força de Intervenção Rápida da monarquia saudita, que se reportava diretamente ao príncipe e “cuidava” de dissidentes. Além disso, vetaram vistos para 76 pessoas que sequestravam jornalistas e dissidentes no exterior e os levavam para serem presos em solo saudita. Já MbS saiu incólume e, se quiser, pode até passar as férias na Disney.

    O príncipe saudita, Mohammed bin Salman, participa de evento em Riad
    O príncipe saudita, Mohammed bin Salman, participa de evento em Riad – Bandar al-Jaloud – 27.fev.21/AFP

    Frente à promessa de Biden de fazer uma reviravolta na política externa americana, tornando os direitos humanos uma prioridade, as imposições da realpolitik falaram mais alto.

    “Achamos que existem maneiras mais eficientes de garantir que isso [assassinato de Khashoggi] não aconteça novamente, enquanto mantemos espaço para trabalhar em conjunto com os sauditas em áreas em que há entendimento mútuo, e há interesses nacionais para os EUA. Isso é diplomacia”, disse a secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, no domingo (28), após intensa pressão de legisladores democratas e ativistas para uma ação mais enérgica contra MbS.

    O governo Biden criou expectativas ao dizer que haveria mais anúncios sobre o caso na segunda-feira (1º). No entanto, um porta-voz do Departamento de Estado limitou-se a afirmar que o governo americano está “focado no comportamento futuro” da Arábia Saudita e simplesmente instou Riad a melhorar sua atuação em direitos humanos e acabar com a “força de elite” que matou Khashoggi.

    O presidente Joe Biden faz uma aposta arriscada: quer limpar sua barra com o público doméstico, que exige atitudes contra MbS, sem implodir o relacionamento com o príncipe saudita, que é quem realmente manda na monarquia do Golfo.

    Em diplomatiquês, a Casa Branca afirma que o objetivo seria recalibrar a relação com a Arábia Saudita, mas sem causar uma ruptura.

    Parte da recalibragem seria a decisão do governo Biden de vetar vendas de armas para ações de ataque dos sauditas na guerra do Iêmen. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes mataram milhares de civis usando armamentos vendidos pelos americanos, na tentativa de derrubar os rebeldes houthis, financiados pelo Irã, o arqui-inimigo de Riad. Biden também cancelou vendas que haviam sido autorizadas por Trump. Mas deixou claro que continuaria a vender armamentos para que a Arábia Saudita possa se defender do Irã e dos aliados do país xiita.

    Em sua primeira ligação para o governo saudita, Biden falou com o rei Salman, e o governo afirmou que o monarca é que seria interlocutor do presidente americano, e não MbS. Trump oferecia a MbS uma linha direta com a Casa Branca, via seu genro, Jared Kushner. Além disso, o democrata designou um diplomata como enviado especial para a guerra do Iêmen, para tentar por fim ao conflito que se arrasta desde 2015 e já matou 230 mil pessoas.

    Entidades de direitos humanos, jornalistas, legisladores democratas e até John Brennan, ex-diretor da CIA no governo Obama, criticaram duramente a decisão de Biden de não impor sanções contra MbS.

    “Dizer que o príncipe regente MbS foi o responsável pelo horrendo assassinato de Jamal Khashoggi não é suficiente para responsabilizá-lo. O governo Biden precisa fazer muito mais. Para começar, vetar encontros com autoridades americanas e visitas aos EUA”, escreveu Brennan no Twitter.

    Capa do relatório de inteligência da CIA sobre assassinato do jornalista Jamal Khashoggi
    Capa do relatório de inteligência da CIA sobre assassinato do jornalista Jamal Khashoggi

    Em artigo nesta segunda-feira, Fred Ryan, publisher do Washington Post, que era empregador de Khashoggi, disse que Biden havia dado um “passe livre para um assassinato”.

    Os EUA já sancionaram chefes de Estado ou governo antes: Nicolás Maduro, ditador da Venezuela; Kim Jong-un, ditador da Coreia do Norte, e Bashar al-Assad, da Síria. Mas nenhum desses países tem o poder de estabilizar —ou mergulhar no caos— o mercado de petróleo mundial. Por mais que o aumento de produção nos EUA tenha reduzido, e muito, a dependência do reino, a Arábia Saudita ainda tem o poder de reduzir significativamente sua produção, algo que a maioria dos outros produtores não tem.

    Além disso, impor sanções contra MbS é, na realidade, cortar relações com o reino saudita por um longo período. O rei Salman tem 85 anos e a saúde frágil. O príncipe de 35 anos é quem governa de facto e deve se manter no poder por muitos anos.

    O democrata quer preservar alguma boa vontade dos sauditas. Biden precisa do apoio da Arábia Saudita em operações antiterrorismo e para gerenciar o equilíbrio no Oriente Médio. E ele já vai gerar insatisfação no reino do Golfo ao tentar ressuscitar o acordo nuclear com o Irã, sabotado por Trump. O governo saudita é forte opositor do acordo, desde que foi instituído, no governo Obama. Além disso, o rei Salman vem intensificando os laços com a Rússia e a China, os inimigos estratégicos dos EUA.

    Trump justificava a insistência em vender armas para os sauditas, mesmo após oposição do Congresso, como uma questão econômica. De fato, o intercâmbio comercial entre os dois países é significativo —foi de US$ 38 bilhões em 2019 (R$ 214 bi, nesta segunda), e os sauditas são grandes compradores de armamentos.

    Mas esse é apenas um pedaço da história. A aliança estratégica entre os EUA e a Arábia Saudita vem de longe, foi firmada 76 anos atrás, entre o presidente Franklin Delano Roosevelt e o avô de MbS, rei Abdulaziz. Os EUA garantiriam acesso ao petróleo saudita, e, em troca, protegeriam a Arábia Saudita de ameaças estrangeiras, como o Irã.

    Desde sempre, eram países muito diferentes: uma democracia que, pelo menos no papel, é comprometida com direitos humanos e liberdade de expressão, e uma monarquia absolutista que reprime dissidentes e opositores. Ao longo da história, muitas vezes, os EUA tiveram de fechar os olhos para violações de direitos humanos, quando a geopolítica era mais importante. Aparentemente, é isso que vai acontecer, de novo.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/03/realismo-geopolitico-fala-mais-alto-na-relacao-entre-eua-e-arabia-saudita.shtml

    Trabalho em Grupo (sala de aula)

    Após a leitura do texto jornalístico, explique o significado de seu título.

    Prof Luciano Mannario