Categoria: ATIVIDADES

Modelos de atividades para a Sala de Aula (Geografia)

  • COVID ROUBA DOIS ANOS DA EXPECTATIVA DE VIDA DOS BRASILEIROS

    COVID ROUBA DOIS ANOS DA EXPECTATIVA DE VIDA DOS BRASILEIROS

    Mortalidade associada à doença diminui esperança de vida de 77 para 75 anos; Rio e Porto Alegre registraram mais mortes que nascimentos em 2020

    3abr2021_18h44

    A pandemia de Covid-19 roubou, sozinha, quase dois anos da esperança de vida no Brasil. O índice crescia sem parar desde 1945 – em média, a expectativa de vida aumentava cinco meses a cada ano. Era um sinal da melhoria nas condições básicas de vida, que aumentavam a longevidade da população. Mas esse quadro se reverteu em 2020, ano em que 195 mil brasileiros morreram por Covid-19. A estimativa era de que o índice chegasse a 77 anos em 2020, mas, por causa da Covid-19, ficou em 75 anos. Em algumas unidades da federação o retrocesso foi ainda maior: Distrito Federal, Amazonas, Amapá, Roraima e Espírito Santo tiveram redução de mais de três anos na esperança de vida ao nascer. 

    Esses resultados constam de estudo publicado em pré-print por pesquisadores de Harvard, Princeton, Universidade do Sul da Califórnia e Universidade Federal de Minas Gerais. O trabalho mediu o impacto direto das mortes por Covid-19 na demografia brasileira. E a conclusão é clara: a mortalidade pela doença no país tem sido “catastrófica”. “Nossa estimativa ainda foi extremamente conservadora”, explica a demógrafa Marcia Castro, chefe do departamento de Saúde Global e População da Universidade de Harvard e líder do estudo. “O nosso cálculo para este estudo considerou apenas os óbitos por Covid-19, mas o excesso de mortalidade observado no Brasil é muito maior do que só os óbitos pela doença.” Segundo o Conselho Nacional de Secretários de Saúde, o Brasil teve 275 mil mortes acima do esperado em 2020 – 80 mil a mais que os registros de morte por Covid-19. Esse excedente de mortes pode ser, em parte, atribuído ao colapso do sistema de saúde, consequência direta do descontrole da pandemia. 

    Ilustração de Carvall

    Castro e outros pesquisadores já iniciaram um novo estudo, agora para calcular o impacto do volume total de mortes na expectativa de vida. “Ainda não há dados para o mundo todo, mas certamente o Brasil vai estar entre os países com maior redução”, prevê Castro. O decréscimo que a Covid-19 causou na esperança de vida brasileira em 2020 foi 72% maior que o observado nos Estados Unidos, líder de mortes pela doença no planeta. E, a julgar pelo padrão de mortandade, o impacto em 2021 vai ser ainda maior. No Amazonas e em Rondônia, por exemplo, as mortes por Covid-19 nestes quatro primeiros meses do ano já superaram os registros de todo o ano passado. “É possível que a gente, pelo segundo ano seguido, observe impacto significativo na expectativa de vida”, diz Castro. 

    No Amazonas, atingido com voracidade pela pandemia que mergulhou o estado no caos e matou mais de 5 mil pessoas em 2020, a retração na esperança de vida foi ainda mais grave. A expectativa de vida, que deveria chegar a 73 anos em 2020, ficou em 69,5. A mortalidade da Covid-19 fez o estado perder, em apenas um ano, 60% do avanço na expectativa de vida conquistado nas últimas duas décadas. Além da redução desse índice, a Covid-19 também intensificou as desigualdades regionais no Brasil, refletindo o peso desproporcional da epidemia nos estados. Antes da pandemia, a diferença entre a maior e a menor expectativa de vida em nível estadual era de 8,54 anos. Depois da pandemia, a diferença aumentou para 9,15 anos. Na estimativa dos pesquisadores, Santa Catarina apresenta o maior índice (78 anos), e Roraima, o menor (69 anos). 

    A esperança de vida ao nascer é um indicador que reflete o potencial de sobrevivência da população, dadas as características demográficas. Serve para responder a uma pergunta hipotética: se uma pessoa que nasceu em um dado ano fosse submetida, ao longo da vida, às condições de mortalidade observadas naquele mesmo ano, por quanto tempo ela sobreviveria? Para calcular a esperança de vida, os pesquisadores coletam informações sobre a mortalidade do país em um ano específico – número de mortes, idade e sexo dos mortos. Depois, a curva de mortes é padronizada e os pesquisadores chegam a um número. Castro explica que isso não significa que todas as pessoas vão observar essas taxas na vida real. Ou seja, os nascidos em 2020 não vão necessariamente morrer aos 75 anos. Mas essa é a melhor maneira que os especialistas encontraram para acompanhar a evolução da mortalidade no mundo e comparar indicadores de saúde em vários locais diferentes. A expectativa de vida também tem aplicações práticas importantes: é um dos parâmetros usados para calcular o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

    “É óbvio que a queda da expectativa de vida ao nascer vai trazer o IDH para baixo”, diz Castro. Especialistas já alertaram que, com essa queda, o Brasil terá dificuldade para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável propostos pela ONU. Na análise de Castro, essa será uma tendência global, mas o impacto a longo prazo depende das medidas implementadas para controlar a pandemia. Nesse ponto, a situação do Brasil é preocupante. “Não temos nem vacinação rápida nem medidas sustentáveis que diminuam a transmissão do vírus”, avalia Castro. “A expectativa é que esse quadro melhore em 2022, mas não dá para garantir que a esperança de vida e o IDH voltem rapidamente ao nível pré-pandemia.” 

    É normal que crises sanitárias e humanitárias reduzam os índices vitais. A pandemia de gripe espanhola, no início do século XX, reduziu a expectativa nos Estados Unidos entre 7 e 12 anos. Assim que essas crises são superadas, geralmente há um repique que logo corrige a esperança de vida perdida. Mas, no caso da Covid-19 no Brasil, os pesquisadores argumentam que a situação não vai se estabilizar rapidamente. Primeiro porque o país atualmente atravessa o pior momento da pandemia. Com o sistema de saúde em colapso, a atenção básica não é capaz de diagnosticar e tratar outras doenças – e essa paralisia cobra um preço. Os pesquisadores estimam que só a redução dos tratamentos de tuberculose e HIV pode aumentar a mortalidade pelos próximos cinco anos. Em 2020, 20% das crianças deixaram de se vacinar contra hepatite B, poliomielite e outras enfermidades. Além disso, relatos de sequelas deixadas pela Covid-19 nos pacientes que sobrevivem continuam crescendo. Isso inclui fadiga, complicações neurológicas, pulmonares e cardiovasculares que podem trazer complicações a longo prazo.

    A crise econômica, que eleva os níveis de pobreza e desigualdade, também pode afetar os indicadores de saúde no Brasil nos próximos anos. O fim do auxílio emergencial aumentou o número de pessoas abaixo da linha da pobreza. Atualmente, cerca de 27 milhões de brasileiros estão nessa situação – o que corresponde a 12,8% da população. Os pesquisadores lembram que a perda de renda pode reduzir o acesso aos serviços de saúde e aumentar os índices de mortalidade infantil. “O que vai acontecer no longo prazo depende de como o cenário da Covid-19 vai se desenrolar nos próximos meses. No ano passado, quando as mortes estavam em declínio, não fizemos nada para conter a segunda onda”, lembra Castro. “Se continuarmos sujeitos a isso, sem impedir a transmissão do vírus, podemos ter esses efeitos se arrastando por um período cada vez mais longo.” 

    Pela primeira vez na história, o Brasil pode registrar mais óbitos que nascimentos. Em abril deste ano, até o dia 13, a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen) registrou 61.540 óbitos no país e 63.760 nascimentos – um saldo positivo de apenas 2.220 vidas. Os dados para esse período ainda não estão consolidados, mas indicam uma tendência perigosa. “Demograficamente, isso não é normal para o Brasil e está diretamente ligado ao excesso de mortalidade que estamos tendo por causa da pandemia”, explica Castro. A estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) era que esse cenário só aconteceria em 2047, com a progressiva mudança na pirâmide etária brasileira. O choque demográfico causado pela Covid-19 pode antecipar esse processo de maneira brusca. “Não era para isso acontecer agora”, conclui Castro.

    Em algumas cidades, o saldo negativo de vidas já é uma realidade. No ano passado, Rio de Janeiro e Porto Alegre registraram mais mortes que nascimentos, um cenário inédito nos registros da Arpen – o que os especialistas chamam de crescimento vegetativo negativo. A capital carioca, já com dados consolidados, fechou 2020 com saldo negativo de 4,6 mil habitantes e bateu recorde de mortes registradas no portal da Arpen – consequência direta da pandemia de Covid-19. O Rio de Janeiro chegou a ser a capital com a maior taxa de mortes pela doença a cada 100 mil habitantes no Brasil. Atualmente, todas as regiões da cidade estão sob risco muito alto de infecção e a tendência é que o morticínio prossiga em 2021. No mês de abril, até o dia 13, 19,4 mil óbitos foram registrados no município – e apenas 17,5 mil nascimentos. 

    “O caso do Rio de Janeiro levanta a questão do que vai acontecer com a estrutura da população depois da pandemia”, explica Castro. Essas mudanças podem trazer consequências econômicas. As projeções populacionais são publicadas todo ano pelo IBGE porque determinam o tamanho da verba destinada às cidades por meio de rubricas como o Fundo de Participação dos Municípios (FPM). A base dessas projeções atualmente ainda é o Censo de 2010, com estimativas atualizadas ano a ano. “Existem técnicas demográficas que corrigem esses dados. Mas agora, mais do que nunca, precisamos do Censo atualizado para saber o que está acontecendo com a população”, argumenta Castro. 

    As análises demográficas têm três pilares: nascimentos, óbitos e migração. O terceiro componente só pode ser medido pelo Censo. Sem os dados de migração não é possível saber se nessas cidades chegaram mais pessoas do que saíram – e se a população de cada município está, de fato, diminuindo.

    Em 2019, o IBGE pediu 3,4 bilhões de reais para realizar o Censo de 2020. Após pressão do governo federal, o órgão enxugou os gastos e estimou um custo de 2 bilhões. A pesquisa foi adiada por causa da pandemia de Covid-19. O Orçamento editado pelo governo neste ano prevê a liberação de apenas 71,7 milhões de reais para o Censo – menos de 4% do valor necessário. A verba inviabiliza o pagamento dos 204 mil recenseadores e supervisores, espalhados pelo Brasil, e dos demais custos da pesquisa. Procurado, o IBGE informou que aguarda uma definição do orçamento da União para se manifestar sobre o tema. “Só o Censo pode mostrar como está a população depois de um ano de pandemia”, explica Castro. Sem os dados, o país fica no escuro.

    A demógrafa Marcia Castro acredita que o crescimento vegetativo negativo será revertido. “Esse nível de mortalidade não é sustentável a longo prazo”, explica. “Nem consigo imaginar um cenário desses.” A questão, para ela, é saber quando isso vai acontecer. O efeito de uma pandemia, além de ser medido pelo número de mortes, também pode ser medido pelo número de nascimentos. Em uma pesquisa anterior, Castro estudou a epidemia do vírus da zika e verificou que, na época, o número de nascimentos diminuiu. 

    “Não é incomum que a fecundidade caia em momentos de crise”, explica. “Pode haver uma retração dos nascimentos porque a situação é tão grave que as pessoas adiam a gravidez.” Nesse cenário, uma volta à normalidade pré-pandemia seria ainda mais lenta. Uma outra possibilidade é um baby boom, explosão no número de novos nascimentos assim que a pandemia acabar, como observado em períodos pós-guerra. “Tudo isso vai ter que ser estudado a longo prazo”, diz. Mais urgente é controlar a pandemia e reduzir danos. Até a última segunda-feira (12), o país registrou 355 mil óbitos por Covid-19 – quase metade deles nos quatro primeiros meses de 2021. “Abril já é um mês perdido. Agora a gente precisa tomar as medidas para salvar os próximos meses. É uma situação desumana”, conclui Castro. 

    Questões

    Nas análises demográficas são fundamentais três grandes indicativos. Taxa de Natalidade, Taxa Mortalidade e Saldo das migrações. Explique por que o terceiro componente só pode ser medido através do Censo?

    O que é um “baby boom” é por que ele é observado em períodos pós guerra?

    O aumento da esperança de vida num país é motivo de júbilo e de preocupação. Explique essa contradição.

    De que forma a COVID pode afetar o IDH brasileiro?

    Explique a diferença na esperança de vida entre os estados de Santa Catarina e Roraima.

    Professor Luciano Mannarino

  • Enviar arroz à África nunca vai conter a migração para a Europa, diz escritor de Gana

    Enviar arroz à África nunca vai conter a migração para a Europa, diz escritor de Gana

    Ousman Umar defende ampliar acesso digital aos jovens para resolver pobreza e conter deslocamentos

    10.abr.2021 às 23h15

    Rafael Balago

    SÃO PAULO

    Para o escritor e ativista Ousman Umar, o caminho para tirar a África da pobreza passa por empoderar os jovens, e não por doar toneladas de arroz e comida.

    Ele criou a Nasco Feeding Minds, ONG que busca ampliar o acesso dos jovens em Gana ao mundo digital, para que eles aprendam e pensem formas de melhorar a África. A educação também é caminho para evitar que eles caiam nas promessas de traficantes que tentam convencê-los a tentar ir para a Europa, em viagens arriscadas que incluem a travessia do deserto e do mar Mediterrâneo em condições precárias.

    O escritor ganês Ousman Umar, autor de "Viagem ao País dos Brancos"
    O escritor ganês Ousman Umar – Divulgação

    “Vivi cinco anos infernais tentando chegar à Europa e não quero que ninguém passe mais por isso”, diz Umar. Ele chegou à Espanha em 2005 e lançou dois livros sobre sua vida: “Viaje al País de Los Blancos”, em 2019, sobre sua travessia, e “Desde el País de los Blancos”, lançado no mês passado, no qual conta as dificuldades para se adaptar à Europa.

    Umar, 32, participou do festival virtual Viva Livro, que reuniu autores que escrevem sobre migração, e falou com a Folha por telefone, de Gana. Abaixo, os principais trechos da conversa.

    Como a pandemia tem afetado a migração da África para a Europa? 

    Barcos com imigrantes seguem chegando. Cada vez mais gente quer ir embora, especialmente fugindo de guerras como as da Síria e da Líbia. A situação econômica piorou no mundo inteiro, mas na África piorou mais, porque os países eram mais pobres e já tinham problemas que vinham de muito antes.

    Como está a pandemia em Gana? 

    Em geral, há menos gente contaminada e mortes por coronavírus do que no Ocidente. Estou em Gana agora, e a situação está dez vezes melhor do que em Barcelona. A África viveu muitas outras epidemias recentemente, enquanto a Europa não tinha uma há quase cem anos, então sabe como fazer uma gestão melhor. Há casos em que há uma UTI para cada 1 milhão de habitantes, e, já que não temos como curar, temos que evitar que a enfermidade chegue. Na África, a população é muito mais jovem, e o coronavírus traz mais danos aos maiores de 50 anos, o que também é um fator.

    Quais foram os momentos mais marcantes de sua jornada até a Europa? 

    Com nove anos, deixei meu povoado e fui trabalhar na cidade. Aos 13, comecei uma viagem que passou por oito países da África. Cruzei parte do Saara a pé. Começamos a viagem em 46 pessoas, e só seis chegaram ao final com vida.

    Na Líbia, cheguei sem dinheiro, sem celular e sem falar árabe. Chegava a uma cidade, trabalhava em qualquer coisa, que ninguém queria fazer, para juntar dinheiro e pagar um táxi até o povoado seguinte. Por isso, demorei cinco anos até chegar à Europa. Cinco anos infernais, cruéis. Por isso, decidi que ninguém merece viver o que vivi.

    Fui tentar atravessar o Mediterrâneo em 2005. Traficantes disseram que em 45 minutos chegaríamos ao paraíso. Na primeira tentativa, 180 pessoas morreram. Na segunda, fiquei 48 horas sentado em um barco, sem comer ou beber, sem saber nadar e com a agonia de pensar que poderia morrer a qualquer momento.

    Ao chegar em terra, o grupo corre pela praia e se espalha pelas dunas; a Espanha recebeu nos sete primeiros meses de 2017 17 mil migrantes, o dobro do que tinha recebido no mesmo período do ano passado, segundo o governo.
    Ao chegar em terra, o grupo corre pela praia e se espalha pelas dunas; a Espanha recebeu nos sete primeiros meses de 2017 17 mil migrantes, o dobro do que tinha recebido no mesmo período do ano passado, segundo o governo. Jon Nazca/Reuters

    E como foi depois de chegar à Espanha? 

    Consegui a autorização para poder entrar, mas onde viver? Fiquei dois meses dormindo na rua em Barcelona, sem que ninguém me olhasse na cara. Nem no deserto me senti tão só. Tive a sorte que uma família me acolheu. Na primeira noite que dormi em uma casa, chorei como uma criança. Me perguntava o que eu tinha feito de mal para merecer tanta tortura e crueldade. E aí percebi que tinha dois propósitos: dar voz aos companheiros que não conseguiram chegar com vida [à Europa] e evitar que novos jovens caiam nesta armadilha infernal.

    Como fazer isso? 

    Assumi minha responsabilidade, como se fosse o presidente do meu país. Usei o dinheiro que ganhei como mecânico de bicicletas, juntei com empréstimos e doações de alguns amigos e comprei 45 computadores, em 2012. Contratei dois professores em Gana, que atuavam em duas escolas com aulas para inclusão digital. Hoje atuamos em 30. E sem ajuda de nenhum governo, só de pessoas que ouvem nossa história.

    A caridade não vai mudar a África. Enviar toneladas de arroz não funciona e nunca vai funcionar. Faz-se isso há 60 anos e tudo segue igual. Tem que mudar a estratégia. Nossa ONG alimenta mentes. Chega de pensar só em estômagos. A única maneira de retirar a África da pobreza é empoderar as pessoas. Temos de alimentar as mentes dos jovens, que são ambiciosos e têm tantos anseios, para que eles mudem as coisas partindo de dentro.

    Nas últimas eleições de Gana, tivemos o candidato mais jovem a chegar ao Parlamento. Não gosto da política. Tanto faz se você pensa verde, vermelho ou amarelo. O que gosto é de ver o exemplo para que muitos jovens vejam que a África tem muito potencial.

    Como vê o efeito de movimentos de valorização dos negros, como o Black Lives Matter? 

    Estamos vivendo uma época de mudanças. Mas, embora haja intenções, as coisas vão muito lentas. Cheguei à Espanha em 2005, analfabeto. Em menos de dez anos, estava estudando na Universidade de Barcelona. Química, porque queria entender se a magia negra era verdade ou não. E eu era “o” negro da universidade. O único.

    Para os imigrantes que chegam à Espanha, não há outro caminho a não ser os piores trabalhos, como colher tomates no campos, sem contrato, porque a lei migratória criminaliza o imigrante. Sem documentos, só resta trabalhar em coisas que os espanhois não querem fazer.

    O ator Johnathan Majors na capa da QG americana de outubro; três personalidades negras estiveram na capa da revista neste ano
    O ator Johnathan Majors na capa da QG americana de outubro; três personalidades negras estiveram na capa da revista neste ano QG/Reprodução

    No ano passado, vieram 240 pessoas para Lleida, uma cidade na Catalunha, para colher maçãs. Como havia a questão do vírus, ninguém os acolheu, e eles ficaram dormindo em uma praça por duas semanas. Até que um deles fez um vídeo, contando a história, e postou no Facebook. Um jogador de futebol do Mônaco [Keita Baldé] viu o vídeo e se dispôs a pagar um hotel para que as pessoas deixassem de dormir na rua, como animais. Os hotéis estavam vazios, mas não quiseram alugar um quarto para essas pessoas, porque eram negras. Por outro lado, se morre um americano negro nos Estados Unidos, todo mundo posta “black lives matter” em seus perfis. Mas falta atuar de verdade. Isso realmente faz falta.


    RAIO-X

    Ousman Umar, 33
    Nascido em Gana, migrou para Espanha, onde se formou em relações públicas e marketing na Universidade de Barcelona. Escreveu dois livros, sobre sua travessia até a Europa e sobre as dificuldades de se adaptar à vida no continente. É fundador da ONG Nasco Feeding Minds, que busca ampliar o acesso de jovens em Gana ao mundo digital

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/04/enviar-arroz-a-africa-nunca-vai-conter-a-migracao-para-a-europa-diz-escritor-de-gana.shtml

    Prof Luciano Mannarino

  • As Serras do Litoral se movem

    As Serras do Litoral se movem

    Carlos Fioravanti

    Edição 300 – fev/2021

    Publicado on-line em 5 jan 2021 – Atualizado em 15 mar 2021

    Sujeitas a um desgaste incessante, lentamente elas avançam para o interior do continente e, em milhões de anos, podem formar uma vasta planície litorânea

    O pico Dedo de Deus, ao centro, na serra do Mar, que já esteve unida à serra da Mantiqueira, formando uma cordilheira única – Carlos Perez Couto/WikiMedia Commons

    A identificação das taxas de desgaste das rochas nos últimos 100 mil anos esclareceu um pouco mais do passado e do que poderá ocorrer no futuro da paisagem das serras do Mar e da Mantiqueira, nas regiões do Sudeste e Sul.

    Depois de examinar a movimentação do relevo por meio da abundância de elementos químicos em minerais coletados em 24 pontos da região, o geógrafo Daniel Souza, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP), concluiu que as rochas dos morros do município de Ubatuba, no litoral norte paulista, apresentam a maior taxa de erosão na região.

    Isso significa que perderam até 100 metros (m) de altura por milhão de anos, o equivalente a 1 centímetro a cada 100 anos – o desgaste da cordilheira dos Andes é dez vezes maior. Como o efeito é cumulativo, a praia tende a se ampliar lentamente em direção ao interior. Em milhões de anos, a planície costeira poderá ser tão larga quanto a do município de Santos, também no litoral paulista.

    “A erosão das rochas das serras diminuiu, mas nas escarpas litorâneas nas bordas das serras continua tão intensa quanto há milhões de anos”, observou Souza. Escarpa é uma inclinação abrupta na borda de uma região plana, enquanto serra é uma estrutura que geralmente se assemelha a um prisma alongado. As análises do geógrafo indicaram que a erosão é mais intensa na serra do Mar, por causa das chuvas constantes, do que na Mantiqueira. “Os rios e as chuvas estão corroendo as bordas dos planaltos e ampliando as escarpas”, concluiu.

    Descrito em outubro de 2020 na Journal of South American Earth Sciences, o trabalho de Souza reforçou as evidências sobre o recuo das escarpas litorâneas em 10 quilômetros (km) a cada 10 milhões de anos e delineia o que pode acontecer daqui a milhões de anos: o avanço das escarpas para o interior e a ampliação das planícies costeiras, além da transformação de regiões serranas em vastos planaltos, a não ser que outros movimentos da superfície terrestre façam as serras empinarem novamente ou criem outras.

    Durante seu doutorado, realizado no Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) sob orientação do geólogo Peter Hackspacher, Souza aplicou duas técnicas para analisar os movimentos do relevo na região serrana.

    A primeira é a termocronologia, que registra a variação da temperatura das rochas no interior do planeta ao longo do tempo, de acordo com a taxa de decaimento (perda de massa) de seus elementos químicos – quanto menor a temperatura, mais próximo à superfície está a rocha.

    Por meio dessa metodologia ele examinou a proporção de urânio, tório, samário e hélio de seis amostras de granitos e gnaisses, às quais somou análises de 130 pontos da região feitas desde a década de 1990 por Hackspacher e outros pesquisadores do Brasil e do exterior.

    A outra técnica é a medição de isótopos do elemento químico berílio (10Be), formado pela interação de quartzo com raios cósmicos que chegam do espaço – quanto mais berílio 10, menor a erosão. Isótopos são variantes de um elemento químico que diferem na quantidade de nêutrons.

    Souza apresentou as análises de suas 18 amostras de sedimentos coletados em areia do fundo de rios em abril de 2019 na Geomorphology e as complementou com as 26 do geógrafo André Salgado, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), descritas em fevereiro de 2016 na revista Journal of South American Earth Sciences.

    Movimentos da crosta formaram, separaram e moldaram as serras do Mar e da Mantiqueira

    Juntos, esses trabalhos detalham a história das serras do Mar e da Mantiqueira, moldadas por incessantes movimentos da superfície e pela erosão causada por rios e pelo clima, principalmente a chuva.

    Um dos resultados da separação dos continentes, iniciada cerca de 130 milhões de anos atrás, as serras litorâneas do Sudeste e Sul constituíram inicialmente uma elevação única. Depois cresceram um pouco mais, atingindo 4 mil m de altitude, o dobro da Pedra da Mina, o ponto mais alto da região hoje, e se afastaram, formando o vale do Paraíba (ver infográfico).

    Hackspacher enumera três consequências dessa movimentação. A primeira é a formação das reservas de petróleo nas bacias sedimentares de Santos e de Campos, no litoral dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. A segunda é o desvio de rios. “O soerguimento das serras bloqueou o curso do rio Paraíba, que se separou do Tietê e começou a correr para o mar”, exemplifica. A terceira é a separação de comunidades de animais e plantas, favorecendo a formação de novas espécies.

    “Estamos apenas confirmando e detalhando, com técnicas modernas, as conclusões de Fernando Almeida [1916-2013]”, reconhece Hackspacker. Engenheiro carioca que se voltou à geologia, Almeida começou na década de 1950 a examinar a região serrana do estado de São Paulo, propondo hipóteses para a sua formação, como a separação das serras.

    “Essa região é um exemplo fascinante de movimentação tectônica intraplaca, como ocorre em poucos lugares do mundo”, diz o geólogo Claudio Riccomini, do IEE-USP e do Instituto de Geociências da USP, que estuda a região desde os anos 1980.

    “Além do clima”, diz ele, “há uma forte influência dos movimentos tectônicos, mesmo nos últimos 20 mil anos, na modelagem e na erosão do relevo”. Um estudo de que ele participou, publicado em maio de 2018 na Journal of Seismology, registrou mais de 20 falhas geológicas potencialmente ativas na região.

    Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

    Questão

    1 Por que o trabalho erosivo é mais intenso na Serra do Mar em relação a Serra da Mantiqueira?

    2 No texto é possível perceber a diferença entre uma escarpa e uma serra? Justifique.

    3 Explique a formação do Oceano Atlântico.

    4 Explique a formação do Rio Paraíba do Sul.

    Prof Luciano Mannarino

    VÍDEO – TEORIA DA DERIVA CONTINENTAL

    Conceitos de Epirogênese e de Orogênese.

  • JURANDYR ROSS: OS TRÊS BRASIS

    JURANDYR ROSS: OS TRÊS BRASIS

    Geógrafo paulista propõe uma síntese das três realidades ambientais, sociais e econômicas do país. (foto – Léo Ramos Chaves)

    Jurandyr Ross

    Idade 73 anos
    Especialidade Geomorfologia
    Instituição Universidade de São Paulo (USP)
    Formação Graduação em Geografia (1972), mestrado (1982) e doutorado (1987) pela USP
    Produção 45 artigos e 8 livros

    Por Carlos Fioravanti

    No escritório de seu apartamento, entre paredes cobertas de mapas, o geógrafo Jurandyr Luciano Sanches Ross redescobriu o Brasil à medida que examinava dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com colegas de outros estados. O que emergiu foram na verdade três Brasis: o que denominaram o Brasil da natureza, com grandes áreas verdes; o do semiárido, no sertão nordestino; e o de maior atividade econômica, ligada principalmente à agropecuária. “Provavelmente esse é meu último grande trabalho”, diz ele, aos 73 anos.

    Especialista em geomorfologia, estudo das formas de relevo e suas origens, Ross lançou na década de 1980 um mapa do relevo brasileiro. Elaborado com base nas informações do Projeto RadamBrasil, que ele integrou, seu trabalho sucedeu as versões dos geógrafos Aroldo de Azevedo (1910-1974), de 1949, e Aziz Ab’Saber (1924-2012), da década de 1960.

    Nascido em Promissão, noroeste paulista, e crescido em Rolândia, no Paraná, mudou-se para São Paulo na década de 1960. Viúvo, duas filhas (uma engenheira eletrônica e outra dentista), três netos, ele concedeu a entrevista a seguir por videoconferência em fevereiro.

    Mapas resultantes do projeto de pesquisa sobre ordenamento territorial no Brasil coordenado por Ross

    Em que você está trabalhando?
    Coordeno um projeto de três anos para estudar o ordenamento territorial do Brasil, o modo pelo qual o território do país está organizado. Esse trabalho, com financiamento do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], envolve minha equipe do Laboratório de Geomorfologia da USP, colegas da Universidade Estadual de Londrina, das universidades federais da Paraíba e de Uberlândia e um sociólogo do Ministério da Economia. Já produzimos muitos dados e adquirimos uma noção mais clara de quem somos nós, sob a perspectiva de uso do território nacional.

    O Brasil tem plano de ordenamento territorial?
    Tivemos a partir de 1993, em consequência da Rio-92, que levou a uma política de Estado e à criação do Ministério do Meio Ambiente, de unidades de conservação, principalmente na Amazônia, dos zoneamentos ecológico-econômicos em alguns estados e regiões, dos planos de gestão de recursos hídricos e dos planos diretores municipais, até 2002. Então começou outra política territorial e o Ministério do Meio Ambiente se tornou periférico. O ordenamento deixou de ser algo importante.

    E por que é importante?
    Porque ajuda a não serem feitas coisas erradas no uso e ocupação das terras. A primeira tarefa de um plano de ordenamento territorial é entender as áreas mais ou menos favoráveis para agricultura ou pecuária e as que não devem ser mexidas ou convertidas em agricultura ou pecuária. Dizem que o Brasil não precisa desmatar, e não precisa mesmo, porque tem muita terra subaproveitada. Mas que terras são essas, onde estão, com que tipo de relevo e de solo? Tem de saber se é favorável a algum uso econômico ou não. A ocupação do território brasileiro é espontânea, feita por quem compra e incorpora as terras. Andei por Parauapebas, no leste do Pará. Só se vê pastagem e nada de árvore. Quase ninguém deixou os 50% da área com vegetação nativa e as matas ciliares, obrigatórias por lei; agora a reserva legal é 80% da área. Participei da finalização do plano de zoneamento ecológico de Rondônia, que terminou em 2000. Ficaram definidas em torno de 10 áreas para diferentes tipos de ocupação ou preservação, mas o plano se perdeu ou não foi aplicado adequadamente. Hoje resta muito pouco de floresta, só mesmo em unidade de conservação. A maior parte do estado foi ocupada com café, banana, cacau e principalmente pasto.

    O que estão vendo agora?
    Focamos no Brasil rural e examinamos a agricultura, silvicultura, pecuária e mineração. Pensamos em fazer um levantamento das condições atuais do uso e da ocupação da terra, com base nos dados estatísticos do IBGE na escala municipal e os mapas do MapaBiomas Brasil [organização não governamental que acompanha as mudanças da cobertura da vegetação nativa e do uso do solo no país] sobre desmatamento e outras questões ambientais. Os mapas representam os 5.570 municípios brasileiros. Por exemplo, conseguimos ver por onde a soja caminha, desde que começou a ser cultivada no Rio Grande do Sul e em São Paulo nas primeiras décadas do século XX. Agora já está no Maranhão e no Piauí, quase chegando ao mar. A cana-de-açúcar está em São Paulo, mas também no Triângulo Mineiro, em Goiás e no noroeste do Paraná.

    E no Nordeste?
    A cana não está mais tão forte em Pernambuco, mas em Alagoas. Os tabuleiros de Pernambuco não são planos e grandes como os de Alagoas. A mecanização do plantio e corte da cana precisa de relevo plano. O relevo é fundamental na agricultura tanto quanto o solo e o clima, por conta da mecanização. Em outro mapa, ao examinar o PIB dos municípios por atividade econômica predominante, vimos que na Amazônia e sobretudo no semiárido a principal renda é o dinheiro público enviado às prefeituras e a pessoas, por meio das aposentadorias, do Bolsa Família e de outros benefícios sociais. Há dois anos estive no sertão do Ceará e fiquei assustado. Porque os jovens em grande parte saíram e continuam saindo do campo, ficando na zona rural principalmente os mais velhos, que recebem aposentadoria rural ou Bolsa Família, cuidam dos animais e fazem pequenas roças de feijão, milho e mandioca. Já o PIB per capita é mais alto na região Sudeste, sem o norte de Minas, como resultado do agronegócio, da atividade industrial e dos serviços. Estou mostrando esses mapas, originais, para falar do que chamamos de três Brasis, ou unidades de ordenamento territorial, que nossas análises revelaram.

    Quais são os três Brasis que vocês propõem?
    Um é o da natureza, outro do semiárido e o terceiro, o economicamente produtivo. O primeiro tem extensa área de terras preservadas e grande biodiversidade, mas é permanentemente ameaçado por causa da expansão, principalmente da pecuária. A área cobre a Amazônia, o Pantanal, o rio Araguaia e a faixa costeira, com a serra do Mar. Em situação oposta está o semiárido. Não é o Nordeste todo, mas uma área de restrição climática muito forte. Enquanto a ocupação na Amazônia é de baixa densidade e receptora de migrantes, o semiárido é o resultado de 500 anos de ocupação com êxodo de população. Quando a cana ocupou o litoral, o semiárido foi tomado com a pecuária. Existe hoje lá um esvaziamento ou estagnação demográfica. O terceiro Brasil é essencialmente o da produção agropecuária e atividades industriais com destaque para agroindústrias e indústrias sucroenergéticas, concentrada no Centro-Oeste, oeste da Bahia, do Maranhão, do Piauí, do sul e leste da região Norte, toda a região Sudeste e Sul e a faixa costeira brasileira, desde o Nordeste oriental até o Rio Grande do Sul. É o Brasil que gera mais empregos e renda nos três segmentos da economia: indústria, agropecuária e serviços.

    O que chamamos de três Brasis são realidades muito diferentes, que exigem abordagens distintas

    O que você pensou vendo essas diferenças?
    São realidades completamente diferentes, em biodiversidade, geodiversidade, que revelam problemas estruturais e exigem abordagens distintas. No semiárido, uma área de esvaziamento ou estagnação demográfica, temos de questionar: “Vamos deixar todo mundo ir embora e pronto?”. O ideal é que se comece a gerar mais renda e emprego, com uma economia mais dinâmica.

    E a Amazônia?
    Em 2019, fui dar um curso em Parintins, a leste de Manaus. Depois saímos de barco. Em um dos pontos em que paramos vivia uma família com a casa no terraço do rio. Perguntei para o homem da casa, devia ter uns 60 anos, do que ele vivia. Ele respondeu: “Ainda tenho algumas vacas, que comem o capim da várzea. Tiro leite, faço queijo e vendo o bezerro”. Ele tinha reduzido o número de vacas porque estava dando mais atenção a uma roça de guaraná na floresta, em sistema agroflorestal. Ele vendia a R$ 15 o quilograma da semente de guaraná, um valor três vezes mais alto que o do quilograma do bezerro. “E eu trabalho muito menos que com as vacas”, ele falou. “Porque praticamente é só manter a área limpa e colher as sementes.” A floresta tem solução, que não pode ser derrubar árvore para plantar pasto.

    O que vocês pretendem fazer com esses mapas?
    Vamos terminar o relatório, que já está com 900 páginas de mapas e textos. Queremos discutir essas informações com colegas da universidade, com gente do governo, com políticos, com o máximo de pessoas, de qualquer área. Queremos que essas informações sejam úteis para o país.

    Mapas resultantes do projeto de pesquisa sobre ordenamento territorial no Brasil coordenado por Ross

    Esse é o grande trabalho da sua carreira?
    Provavelmente é o meu último grande trabalho. Os outros foram o mapa de relevo do Brasil, na década de 1980, o mapa geomorfológico do estado de São Paulo, no final dos anos 1990 [ver Pesquisa FAPESP n° 35], com financiamento da FAPESP, e o mapa geomorfológico da América do Sul, concluído em 2019 [ver Pesquisa FAPESP n° 246]. Fiz muitas orientações tecnocientíficas em projetos de zoneamento ecológico-econômico, que determinam as áreas a serem ocupadas com atividades econômicas e as que devem ser preservadas, no litoral do Paraná e nos estados do Paraná e de Mato Grosso, na bacia do Alto Paraguai e no Tocantins.

    Por que resolveu fazer o mapa de relevo do Brasil?
    Quando estava no curso de geografia, dei aula em escolas e ficava agoniado quando tinha de ensinar coisas ultrapassadas sobre o relevo brasileiro. Eu já conhecia uma parte do Brasil. Nas férias de janeiro, saía com algum amigo e viajávamos de carona em caminhão. Fomos até a Argentina, Uruguai, sul do Brasil, Goiás e Mato Grosso, para o Pantanal, depois para o Nordeste. Terminei a graduação e resolvi fazer mestrado em geomorfologia. Na metade do mestrado, surgiu a possibilidade de fazer geomorfologia para o RadamBrasil. Foi onde eu me firmei profissionalmente como geógrafo.

    O que era o projeto Radam?
    O Radam foi um grande levantamento dos recursos naturais, entre os quais o do relevo brasileiro, que começou em 1970. Fui trabalhar para o Ministério de Minas e Energia, que administrava o projeto através do DNPM [Departamento Nacional de Produção Mineral]. Enquanto o Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] usava imagens de satélites, o Radam produzia os mapeamentos temáticos de geologia, geomorfologia, solos, vegetação e clima usando imagens de radar, mais fáceis de trabalhar porque as micro-ondas do radar atravessam as nuvens, que assim não atrapalham o levantamento. O trabalho começou pela Amazônia e por isso se chamava projeto Radam, de Radar da Amazônia, depois é que virou RadamBrasil. Nessa época o governo era muito cobrado porque não se conhecia direito o território e precisava mapear os recursos naturais. Eu morava com minha família em Goiânia e trabalhei no Radam de 1977 até 1983, na região centro-oeste e sul da Amazônia.

    Dei aula em escolas e ficava agoniado quando tinha de ensinar coisas ultrapassadas sobre o relevo

    Como era o trabalho de campo?
    Tínhamos as imagens de radar, com um pouco menos de 1 metro de comprimento, feitas por sobrevoos de avião, que mostravam basicamente as rugosidades do relevo. Íamos a campo para identificar as formas de relevo, a geologia, os tipos de solo e de vegetação. Viajávamos por terra, com uma Ford Willys, ou com avião bimotor em voo baixo, a 200 metros de altitude, fazendo ziguezague sobre a área objeto do mapeamento. As saídas eram longas, de 25 a 30 dias, tínhamos de dormir em rede, em barraca ou em hotelzinho de beira de estrada. Acampar ou amarrar a rede, era uma delícia, eu adorava. Fotografávamos tanto em terra como no ar, com helicóptero e avião, usávamos aqueles gravadores grandões, depois transcrevíamos e detalhávamos os mapas. Trabalhei em três grandes áreas em Goiás e no atual Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Triângulo Mineiro. Cada área era coberta com 16 folhas de imagens de radar. Cada folha, no corte internacional ao milionésimo, na escala de 1 para 1 milhão, tinha 16 mapas na escala 1 para 250 mil, portanto 48 mapas nessas três áreas, para cada tema de pesquisa.

    Por que você resolveu sair do Radam e entrar na USP?
    Meu orientador do mestrado e doutorado, Adilson Avansi de Abreu, me alertou para o fato de que o Radam acabaria um dia e que eu deveria terminar o mestrado e buscar outro trabalho. Segui o conselho dele e terminei. Depois ele me avisou de um concurso na USP, para preencher a vaga do Ab’Saber, que tinha se aposentado. Comecei na USP em janeiro de 1983 e aos poucos vi o que poderia fazer. Refiz meu projeto de doutorado para aproveitar o material do Radam e examinar uma província serrana interessante, próxima a Cuiabá. Ao mesmo tempo comecei a dar aulas para a graduação. Montei uma disciplina extracurricular para os alunos interessados em imagem de radar. O laboratório de geomorfologia do Departamento de Geografia da USP tinha o acervo completo das imagens do Radam, que o Ab’Saber havia pedido antes de se aposentar. Essas aulas viraram uma disciplina optativa e me estimularam a fazer duas coisas, que me tomaram os 10 anos seguintes. A primeira foi a síntese do relevo brasileiro e a segunda o mapa geomorfológico do estado de São Paulo, os dois com base em imagens de radar e nos relatórios do RadamBrasil. Ambos foram praticamente uma continuidade do que se fazia no Radam, agora no Laboratório de Geomorfologia do Departamento de Geografia da USP.

    Em seu mapa de relevo do Brasil, quais as inovações em relação ao que Aroldo de Azevedo e Ab’Saber tinham feito?
    Eram enfoques diferentes. Aroldo de Azevedo valorizou as diferenças de altitudes do relevo e fez um mapa apenas com planaltos e planícies, foi um desenho, uma figura de ilustração. Ab’Saber fez o mapa dos chamados domínios morfoclimáticos, unindo vegetação e relevo. Eu explorei as macroformas. Uma das inovações foi a incorporação das depressões, os corredores rebaixados entre os planaltos, já conhecidas desde a década de 1930, só não haviam sido ainda mapeadas. O RadamBrasil identificou as depressões, de Norte a Sul. Trabalhei nisso por três anos e o mapa saiu em 1989, publicado na Revista do Departamento de Geografia, aqui da USP, em 1990.

    Ross entre gêiseres nos Andes 2015 (Acervo pessoal)

    Quando o apresentou aos seus colegas?
    Um ano antes no simpósio de geografia física no Rio de Janeiro, em 1989. Estavam lá ex-colegas do Radam, que havia sido extinto quatro anos antes. Havia umas 300 pessoas assistindo, os congressos ainda eram pequenos e todos viam tudo. Depois da apresentação, meu ex-chefe perguntou: “Mas de onde você tirou esses conceitos de morfoestrutura e morfoescultura?”. Falei que vinha do meu aprendizado do doutorado, seguindo um conceito de alemães e russos que trabalham o relevo com duas perspectivas, a estrutural, que vem de dentro para fora, como os movimentos tectônicos, e a escultural, de fora para dentro, como o desgaste erosivo. E ele: “Legal, gostei”. O mapa chegou ao público não especializado por meio de reportagens nas revistas Nova Escola e Veja. Depois saiu no livro Geografia do Brasil (Edusp, 1996), que coordenei, e as editoras começaram a incorporá-lo em livros didáticos.

    Você também foi consultor para a construção de hidrelétricas nos rios Xingu, Madeira, Iguaçu e Uruguai. Como foi essa experiência?
    Foi no final da década de 1980, quando começou a aplicação dos EIA-Rimas [estudos e relatórios de impacto ambiental] e havia um plano nacional da Eletrobras para implantar hidrelétricas, até 2010, em todos os rios da Amazônia oriental, porque os do lado ocidental não têm caimento suficiente. O Projeto Radam já tinha indicado algumas possibilidades. Fui chamado para ensinar ex-alunos e estagiários que trabalhavam nas empresas contratadas a usar imagens de radar para fazer mapeamento e análise geomorfológica. Eu ajudava nos mapas e relatórios.

    As saídas do Radam eram longas, de 25 a 30 dias, tínhamos de dormir em rede. Uma delícia, eu adorava

    Se você pudesse entrar agora em um helicóptero e o piloto perguntasse “vamos para onde?”, que lugares escolheria para revisitar ou conhecer?
    Vou ser pragmático, estou precisando fazer um sobrevoo na Chapada Diamantina, na Bahia. Nunca estive lá e estou orientando um doutorado sobre essa região. É um lugar muito interessante porque entre os relevos montanhosos há superfícies baixas e planas, com um clima de transição do Cerrado para a Caatinga, solo fértil e uma intensa agricultura irrigada. Tenho muita curiosidade de conhecer esse lugar.

    Você conhece todos os estados brasileiros?
    Sim, embora não conheça todos inteiros. Já fui de Macapá até Oiapoque por estrada; de Boa Vista, Roraima, até Pacaraima, na divisa da Venezuela. Em maio de 2019 quase morri subindo a serra do Caparaó, na divisa de Minas Gerais com Espírito Santo. Durante a pandemia só tenho ido a uma casa que tenho em Boituva. Espero recomeçar a viajar assim que tiver tomado a vacina contra a Covid-19.

    https://revistapesquisa.fapesp.br/autor/fioravanti/

    Questões

    Aqui estão algumas questões bem elaboradas sobre o texto:

    Sobre a trajetória de Jurandyr Luciano Sanches Ross:

      Como a experiência de Ross no Projeto RadamBrasil influenciou sua carreira como geógrafo? Cite exemplos específicos de como esse projeto contribuiu para seu desenvolvimento profissional.

      Divisão do território brasileiro:

        O conceito dos “três Brasis” é central no trabalho de Ross. Explique como ele define essas três divisões e discuta a importância de cada uma para o entendimento do ordenamento territorial do Brasil.

        Planejamento territorial e sustentabilidade:

          Por que, segundo Ross, o planejamento territorial é importante para o Brasil? Quais são os principais desafios enfrentados na implementação de um ordenamento territorial adequado?

          Impactos da agricultura e pecuária no Brasil:

            Como a expansão da agricultura, particularmente a soja e a cana-de-açúcar, afeta diferentes regiões do Brasil, de acordo com o relato de Ross? Analise a importância do relevo na mecanização da agricultura.

            Mudanças sociais e econômicas no semiárido nordestino:

              O que Ross identificou como principais mudanças demográficas e econômicas no semiárido? Como essas transformações afetam a população e a estrutura econômica da região?

              Amazônia e sustentabilidade:

                Ross menciona uma experiência pessoal em Parintins, onde um agricultor passou a focar no cultivo de guaraná em vez da criação de gado. Como essa mudança reflete o potencial da Amazônia para uma economia sustentável? Quais são as principais lições que podem ser extraídas dessa história?

                Contribuições científicas de Ross:

                  Além do mapa de relevo do Brasil, Ross menciona outros projetos importantes que marcaram sua carreira. Escolha um desses projetos e explique sua relevância para o estudo da geomorfologia no Brasil.

                  Geografia física e relevância das macroformas:

                    Qual foi a principal inovação introduzida por Ross em seu mapa de relevo do Brasil em comparação aos trabalhos anteriores de Aroldo de Azevedo e Aziz Ab’Saber? Como a inclusão das depressões no mapa contribui para um melhor entendimento do relevo brasileiro?

                    Relação entre geografia e políticas públicas:

                      Como o trabalho de Ross pode influenciar políticas públicas no Brasil, especialmente em relação à ocupação do solo e à preservação ambiental? Dê exemplos de como mapas e zoneamentos ecológico-econômicos podem ser utilizados em decisões governamentais.

                      A importância dos dados do IBGE e MapaBiomas:

                      Ross utiliza dados do IBGE e do MapaBiomas em seu trabalho. Qual é a importância desses dados para a análise e compreensão do uso e ocupação do território brasileiro?

                        Essas questões abordam tanto os aspectos técnicos da carreira de Ross quanto as implicações de suas pesquisas no contexto social e ambiental do Brasil.

                        Prof Luciano Mannarino

                        A formação do Território Brasileiro (EM13CHS204)

                      1. Ucrânia pede ajuda à Otan contra a Rússia, que dá recado militar

                        Ucrânia pede ajuda à Otan contra a Rússia, que dá recado militar

                        Moscou diz que não quer conflito devido à crise no leste do vizinho, mas inspeciona tropas

                        6.abr.2021 às 14h12

                        Igor Gielow

                        SÃO PAULO

                        Em mais uma escalada na crise no leste da Ucrânia, o presidente do país disse que apenas sua admissão na aliança militar ocidental poderá encerrar a guerra que matou 13 mil pessoas desde 2014.

                        Ao mesmo tempo, o ministro da Defesa da Rússia, país cuja movimentação de tropas na fronteira ucraniana gerou o atual alarme no Ocidente, determinou uma inspeção de preparo de combate das Forças Armadas de Vladimir Putin.

                        Soldado ucraniano usa binóculos adaptados para observar linhas rebeldes perto de Donetsk
                        Soldado ucraniano usa binóculos adaptados para observar linhas rebeldes perto de Donetsk – Serhii Takhmazov/Reuters

                        São tambores de guerra usualmente rufados quando essas crises acontecem, mas dão a indicação do grau de tensão que registrou desde que a situação voltou a se deteriorar na região do Donbass.

                        O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, ligou nesta terça (6) para o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg.

                        Após o telefonema, ele publicou no Twitter que a Ucrânia espera ser convidada neste ano a se unir ao Plano de Ação de Filiação da Otan. “A Otan é o único meio de acabar com a guerra no Donbass. O plano para a Ucrânia seria um sinal real para a Rússia”, escreveu.

                        Nos últimos anos, a aliança ocidental tem dito que as Forças Armadas e o Estado ucraniano precisam de reformas antes de entrar no clube. “Reformas sozinhas não vão parar a Rússia”, escreveu Zelenski.

                        Na verdade, o Ocidente não trouxe a Ucrânia para a Otan, ou para a União Europeia, porque sabe que isso incitaria uma reação mais forte da Rússia.

                        A barra foi elevada por Putin em 2014, quando ele respondeu à derrubada de um governo pró-Kremlin em Kiev com a anexação da Crimeia e o apoio aos separatistas que iniciaram a guerra no Donbass —hoje ainda congelado, o conflito gestou duas repúblicas autônomas em torno das cidades de Donetsk e Lugansk.

                        Na retórica, Stoltenberg afirmou em comunicado que a “Otan apoia firmemente a integridade territorial e a soberania da Ucrânia”. “Nós permanecemos comprometidos com nossa parceria próxima”, disse. O silêncio da Casa Branca, ao ser questionada por repórteres sobre a ideia, é mais eloquente.

                        O presidente Joe Biden tem se notabilizado por uma retórica dura contra os russos e cobrou explicações para o envio de soldados, tanques e blindados para a fronteira e também para a Crimeia. Mas daí a acelerar a absorção da Ucrânia há uma distância.

                        Zelenski, um comediante que chegou de forma improvável ao poder em 2019, tentava uma saída negociada com Putin. Como vem perdendo popularidade (pesquisa recente diz que só 22% votariam nele de novo), cedeu à pressão do establishment local e aderiu ao discurso de confronto.

                        A inspeção determinada pelo ministro Serguei Choigu, por sua vez, também vem na linha de mostrar os dentes. O Kremlin já afirmou que não há nada de anormal no movimento de tropas e negou querer atacar a Ucrânia.

                        Por outro lado, sinalizou que deseja comprometimento do Ocidente com os Acordos de Minsk, que em sua última versão de 2015 estabeleceram condições nas quais as repúblicas rebeldes ficam com Kiev, mas com grande autonomia.

                        Os acordos foram copatrocinados pela Rússia e pelo Ocidente, mas a liderança ucraniana não os aceita por considerar que inviabilizam a integridade territorial do país.

                        “Nós duvidamos muito que isso entrar na Otan vá ajudar a Ucrânia a resolver o seu problema doméstico. Do nosso ponto de vista, só vai piorar a situação. Filiar-se à Otan é inaceitável para que mora nas repúblicas”, disse Dmitri Peskov, o porta-voz do Kremlin.

                        Veterano da guerra da União Soviética com o Afeganistão, na qual perdeu a visão de um olho, Nicolai hoje só vê vultos pela casa em Zaitseve, na Ucrânia
                        eterano da guerra da União Soviética com o Afeganistão, na qual perdeu a visão de um olho, Nicolai hoje só vê vultos pela casa em Zaitseve, na Ucrânia Yan Boechat/Folhapress

                        Após relativa calmaria desde 2015, o conflito voltou a esquentar neste ano. Houve escaramuças nos 500 km de fronteiras entre ucranianos e rebeldes, matando 23 soldados de Kiev e um número incerto de separatistas. No ano passado todo, morreram cerca de 50 pessoas em embates.

                        Moram na região estimadas 3,8 milhões de pessoas, a maioria russa étnica, entre os 44,3 milhões de habitantes de toda a Ucrânia.

                        Na cartilha geopolítica de Putin, o Ocidente traiu a Rússia após o fim da Guerra Fria, em 1991, expandido suas estruturas a leste em vez de ajudar a reconstrução do país que liderava a União Soviética.

                        Com efeito, 11 países ex-comunistas foram absorvidos pela União Europeia desde então, e 14 pela Otan.

                        Desde a guerra na Geórgia (2008), Putin vem deixando claro que o movimento teria de parar. Em 2014, deixou o Ocidente atônito ao anexar a Crimeia e incitar a revolta no Donbass.

                        Em comum a esses três lugares é a existência de áreas com maioria étnica russa. Quando Putin famosamente disse que o fim da União Soviética era o maior desastre geopolítico do século 20, falava da perda de um cinturão de defesa em sua periferia e, nominalmente, citava os russos que ficaram nos novos países livres.

                        Isso gera a crível desconfiança sobre as intenções russas. Se poucos analistas acreditam em uma guerra, é bom lembrar que toda vez em que Putin estava questionado, apostou em ações externas, como na própria Crimeia ou na Síria (2015).

                        E o líder russo, que acaba de regulamentar a possibilidade tentar ficar no cargo até 2036, está no pior nível de popularidade de suas duas décadas de poder (ainda que na casa de confortáveis 60%).

                        Em frente a monumento a mortos na Segunda Guerra, noiva e sargento da Marinha Russa dançam ao som de uma banda militar, tradição local
                        Em frente a monumento a mortos na Segunda Guerra, noiva e sargento da Marinha Russa dançam ao som de uma banda militar, tradição local

                        Ucrânia e Belarus, ditadura que apoia, são os principais anteparos entre suas fronteiras e as hostis nações da Otan no Leste Europeu. “Putin representa o que a elite russa pensa. Querem ser ocidentais, mas com a devida distância”, diz Konstantin Frolov, analista independente russo.

                        A anexação do Donbass não é desejada pelo Kremlin pelo alto custo econômico embutido —na Crimeia, foram mais de US$ 5 bilhões em obras desde 2014. O que interessa a Putin é deixar a Ucrânia fora da Europa.

                        Há ainda outras questões que podem disparar um conflito. Os ucranianos vêm cortando o abastecimento de água da Crimeia, que recebe 85% do que consome do seu antigo país. Nesta terça, Zelenski ordenou um treinamento especial de reservistas na região de fronteira dos dois territórios.

                        https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/04/ucrania-pede-ajuda-a-otan-contra-a-russia-que-da-recado-militar.shtml

                        Questões

                        1 – De que forma essa tensão se liga ao desmembramento da exURSS?

                        2 – Explique o componente étnico que envolve a posse da península da Crimeia

                        3 – No texto jornalístico é citado a OTAN.

                        • Quando ela foi criada?
                        • Explique um dos motivos de sua atual manutenção.

                        Prof Luciano Mannarino