Categoria: ATIVIDADES

Modelos de atividades para a Sala de Aula (Geografia)

  • O que é o Censo? Entenda como a não realização dele afeta a nossa vida.

    O que é o Censo? Entenda como a não realização dele afeta a nossa vida.

    Giacomo Vicenzo Colaboração para Ecoa, em São Paulo (SP) 26/04/2021 15h07

    Você já ouviu falar do Censo Demográfico?

    Talvez já tenha recebido os recenseadores do IBGE, responsáveis pela pesquisa, em sua casa, ou já os notou circulando pelas vias da cidade nos anos em que o levantamento é feito. A pesquisa estava prevista para ser realizada este ano, mas na sexta (23) o governo anunciou que o orçamento de 2021 não terá recursos para realização. O IBGE já sinalizava o que estava por vir ainda em março, quando divulgou uma nota em que apontava que o corte previsto no projeto do orçamento iria impossibilitar que o Censo 2021 fosse realizado. O estudo já estava atrasado, pois geralmente é feito nos países de 10 em 10 anos e o último feito no Brasil, foi em 2010. Mas o que é o Censo Demográfico e como esse estudo afeta a nossa vida? Ecoa conversou com especialistas, um ex-ministro e profissionais que lidam com esses dados em diversas esferas para entender os impactos de sua não realização e explicar como funciona esse levantamento.

    O que é o Censo?

    O Censo Demográfico realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) é um levantamento estatístico que traz diversos dados populacionais, como por exemplo, socioeconômicos, de modo de vida de uma população e étnicos. Se hoje você sabe quantas pessoas moram em sua cidade e outros dados a respeito da população do país ou do entorno onde mora, pode ter certeza que o Censo foi um dos responsáveis diretos ou indiretos por esses estudos. “Censo é a contagem da população. Parece simples, mas é basicamente contar cada mestre pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e que atuou como pesquisador do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) por sete anos. “Alguns dados podem ser estimados, como o total da população, a partir de taxas de natalidade e mortalidade. Outros não. O censo de 2010 tinha um gabarito com mais de 100 perguntas, onde eram medidas as coisas mais diversas, desde a quantidade de eletrodomésticos de uma casa até a escolaridade dos moradores”, explica Moraes.

    Quando foi o primeiro Censo?

    À primeira vista a ideia de levantamento demográfico nos parece algo relativamente novo e uma ferramenta das sociedades modernas, mas a verdade é que se chegamos até aqui com o número de informações e conhecimentos populacionais que detemos, é porque esse tipo de estudo já era feito no passado e foi sendo modernizado e adequado ao longo do tempo. A primeira concepção de Censo Demográfico surgiu há muitos anos atrás, como explica Paulo de Martino Jannuzzi, professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE) do IBGE a Ecoa: “O Censo Demográfico é o principal levantamento estatístico de qualquer país. Sua existência tem mais de 2 mil anos, pois contar o total populacional é algo que data em registros dos tempos bíblicos e sempre foi importante para que se tenha um dimensionamento da população [na época] para o exército e para fins fiscais”, explica Jannuzzi.

    O professor lembra que naturalmente os censos vão se sofisticando ao longo do tempo e ficando cada vez mais importantes. “Na Revolução Francesa e na Revolução Americana se tem a menção específica sobre censos como um instrumento para poder definir a representação [política] de cada região”, explica. Ao longo do tempo, o estudo passou a ter muitas outras funções, além da simples contagem populacional e hoje são um instrumento fundamental para retratar as sociedades ao longo de suas histórias. “Essa já é uma realidade desde o final do século 19, quando os questionários do censo começaram a levantar uma série de informações importantíssimas para o reconhecimento da identidade nacional”, ressalta Jannuzzi. O primeiro Censo Demográfico brasileiro foi em 1872 e o estudo ocorreu, de certa forma, com 20 anos de atraso, pois uma parcela da sociedade se opunha à realização do levantamento.

    Esse foi o primeiro e último da época do Império e era para ter sido feito em 1852, mas os latifundiários foram resistentes à realização do censo, pois, obviamente, a pesquisa iria mapear a quantidade de escravos e, portanto, identificaria as bases tributárias para reincidir impostos para o financiamento do Império”, explica Jannuzzi O professor ainda lembra que o Censo de 1872 já trazia informações sobre religião, ocupação, raça [como era entendida nesta época – alforriado, escravo e branco] e deficiência. “De lá para cá, as coisas se sofisticaram e a partir de 1960 com a introdução da técnica de amostragem, se tem a possibilidade de se detalhar ainda mais”, explica.

    Qual a importância do Censo atualmente?

    Nelson Teich -                                 REPRODUÇÃO/MINISTÉRIO DA SAÚDE                              -                                 REPRODUÇÃO/MINISTÉRIO DA SAÚDE
    Teich ficou no cargo de ministro da Saúde por menos de um mês Imagem: REPRODUÇÃO/MINISTÉRIO DA SAÚDE

    Já entendemos como o Censo funciona, uma coleta de dados e informações que são capazes de retratar uma sociedade e mostrar suas mais diversas nuances. No Brasil, com 28% dos domicílios sem acesso à internet, o estudo passa longe das possibilidades de ser feito de forma online e usa a visita dos recenseadores para coletar dados dos mais diversos e tem o objetivo de mapear por igual o país.

    Mas qual a importância de se fazer esse levantamento ainda hoje?

    Moraes explica que ele é um norte fundamental ao Estado brasileiro na hora de criar políticas públicas. “O Fundo de Participação dos Municípios utiliza os dados do Censo para calcular quanto cada município tem a receber”, comenta. “Pensando em um exemplo atual, quando o Ministério da Saúde calcula qual o público-alvo de uma campanha de vacinação, utiliza-se os dados do Censo. Se sabemos que na cidade ‘X’ tem uma quantidade ‘Y’ de pessoas com mais de 60 anos, é porque houve um Censo que contou aquela população”, completa Nelson Teich, ex-Ministro da Saúde e médico oncologista explica, em entrevista a Ecoa, que os dados do Censo são como ter um diagnóstico do que está acontecendo com o país. “Sem esses dados, não se consegue dimensionar e nem diagnosticar os problemas para que se aloque as verbas de forma eficaz e se crie políticas públicas.

    É preciso lembrar que todos os recursos são finitos”, comenta Teich. Ainda que existam outros estudos, a importância do Censo é primordial no sentido de apresentar justamente diferenças entre regiões e populações. “Não se pode trabalhar um país na média, é preciso conhecer as características da Nelson Teich, ex-Ministro da Saúde e médico oncologista explica, em entrevista a Ecoa, que os dados do Censo são como ter um diagnóstico do que está acontecendo com o país. “Sem esses dados, não se consegue dimensionar e nem diagnosticar os problemas para que se aloque as verbas de forma eficaz e se crie políticas públicas. É preciso lembrar que todos os recursos são finitos”, comenta Teich.

    Ainda que existam outros estudos, a importância do Censo é primordial no sentido de apresentar justamente diferenças entre regiões e populações. “Não se pode trabalhar um país na média, é preciso conhecer as características das pessoas e os lugares. Até mesmo em países pequenos se encontra situações muito heterogêneas”, defende o ex-ministro de Saúde “Quando se tem a informação detalhada, se obriga que o gestor trabalhe, pois se tem o diagnóstico exato do que é preciso fazer”, completa.

    Como seria um Brasil sem Censo para sempre?

    Toda política pública é criada baseada nas necessidades da população, mas para conhecer essas necessidades é preciso ter dados às mãos. O ex-ministro da saúde Teich afirma que a pandemia de covid-19 mostrou que essa incapacidade de gerar informações levou a uma necessidade de se criar ações baseadas em intuições e não em diagnósticos reais dos problemas. “Sem dados se criam políticas públicas com base na impressão, não se sabe se está criando algo efetivo”, diz. “É como chegar a um lugar em que há muito câncer de pulmão e descobrir que quem usa isqueiro têm mais câncer. É claro que não é isqueiro, é cigarro. Mas sem essa informação, corre-se o risco de fazer uma campanha de política pública contra o isqueiro”, comenta Teich

    Mais do que navegar às cegas e encarcerar os vendedores de isqueiros em um Brasil hipotético, sem esses dados, o país não teria conseguido focalizar políticas públicas de segurança alimentar de forma bem orientada, que garantiram a saída do Mapa da Fome. “Ter mapeado a população em extrema pobreza nos Censos de 2000 e de 2010, trouxe a garantia de uma boa focalização em programas como o Bolsa Família, que fez com que as ações de segurança alimentar e assistência social se dirigissem aos bolsões de extrema pobreza na zona rural e nas periferias urbanas com um nível de qualidade técnica e precisão muito bom, que fez com que o Cadastro Único pudesse refletir esse mapeamento e auxiliasse na saída do Mapa da Fome”, comenta Jannuzzi. Adiado para 2022, a possível aceitação do estudo por uma parcela da sociedade preocupa o pesquisador. “O discurso contra o Censo é um sentimento que pode pegar em determinados segmentos, que podem não querer participar da pesquisa.

    Da mesma forma que se pregou a contra a vacina, talvez ano que vem tenhamos um movimento muito ruim em relação a isso”, avalia. “O Censo é uma realização técnica, mas que tem motivação política. O estudo traz um reconhecimento da identidade nacional. O fato de não se priorizar o estudo mostra que estamos em um momento muito diferente de outros da história do Brasil”, completa Jannuzzi.

    https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/04/26/o-que-e-o-censo-entenda-como-a-nao-realizacao-dele-afeta-a-nossa-vida.htm

  • Após um ano de ausência, portugueses voltam às ruas para celebrar Revolução dos Cravos e fim da ditadura

    Chaimite (veículo blindado) é uma das atrações do desfile de Lisboa | Foto: S. Couvreu

    Giuliana Miranda

    Impedidos de comemorar nas ruas a Revolução dos Cravos em 2020,  quando estava em vigor o primeiro lockdown contra a Covid-19, os portugueses puderam, neste ano, voltar às celebrações presenciais.

    Embora ainda com restrições, distanciamento e máscaras obrigatórias, o 25 de abril, que marca os 47 anos do fim da ditadura do Estado Novo, foi festejado em todo o país.

    Festa nacional e feriado, a data também foi celebrada com uma sessão especial no Parlamento e um discurso do Presidente da República.

    A manifestação mais emblemática, na av. da Liberdade, em Lisboa, voltou a acontecer. Ainda que os organizadores não tenham incentivado a participação presencial, muitas pessoas fizeram questão de acompanhar o tradicional cortejo.

    O dia ensolarado e quente –contrariando a previsão do tempo, que antevira uma tempestade– parece ter motivado os portugueses a também desconfinarem a participação cívica.

    Desfile do 25 de abril voltou às ruas de Lisboa em 2021 | Foto: S. Couvreur
    Desfile do 25 de abril voltou às ruas de Lisboa em 2021 | Foto: S. Couvreur

    O público na manifestação lisboeta, como de costume, foi um mix de faixas etárias, incluindo muitos idosos, estudantes, jovens trabalhadores e famílias com crianças.

    Um detalhe: neste ano, estava mais difícil conseguir comprar o cravo que é símbolo da festa. Talvez por não terem botado fé no quórum do desfile, os tradicionais vendedores de flores não davam conta da demanda.

    Muitas famílias com crianças estiveram presentes em Lisboa | Foto: S. Couvreur
    Muitas famílias com crianças estiveram presentes em Lisboa | Foto: S. Couvreur

    O desfile é marcado pela participação de delegações de várias cidades e associações, que costumam ostentar faixas que condenam o fascismo e exaltam a democracia. Além, é claro, de reivindicações como melhores salários e melhores cuidados de saúde.

    Muitos brasileiros participaram da manifestação e houve críticas ao governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Em vários momentos do desfile, manifestantes entoaram o coro “Bolsonaro genocida”, em referência à gestão da pandemia no Brasil.

    Brasileiros também participam do 25 de abril | Foto: S. Couvreur
    Brasileiros também participam do 25 de abril | Foto: S. Couvreur

    A REVOLUÇÃO

    Em 25 de abril de 1974, um movimento de sublevação nos quartéis portugueses ganhou as ruas e levou à queda de uma das mais longas ditaduras do século 20.

    Inaugurado por António Oliveira Salazar em 1933, o chamado Estado Novo durou 41 anos, período marcado por repressão, pobreza e uma sangrenta guerra colonial.

    Em 1968, Salazar sofreu um acidente e ficou incapacitado para continuar no comando do país. Foi substituído por Marcello Caetano, que já ocupara vários ministérios no regime de exceção. Salazar morreria em 1970, mas o regime que criara seguia em funcionamento.

    Com a adesão das tropas e da população ao movimento revolucionário, Marcello Caetano anunciou sua rendição no início da noite do próprio dia 25 de abril.

    O antigo autocrata partiu para o exílio no Brasil, vivendo no Rio de Janeiro e trabalhando como professor universitário. Ele morreu em 1980, sem jamais retornar a Portugal.

    Questões

    Relacione Revolução dos Cravos e a independência da Angola e de Moçambique na África.

    Crise do Clima “Portugal”

    DESIGUALDADE GLOBAL (ÁFRICA DO SUL)

    Prof Luciano Mannarino

  • Aquecimento profundo

    Aquecimento profundo

    Sensores instalados a até 4,7 mil metros abaixo da superfície registram aumento de temperatura em regiões abissais do Atlântico SulTrecho do Atlântico Sul próximo à Argentina (à esq.) e ao Uruguai (acima), onde foram feitas as medições

    Ricardo Zorzetto

    Edição 300 fev 2021

    Começam a surgir evidências robustas de que está em curso um fenômeno que oceanógrafos e estudiosos do clima temiam: o aquecimento das águas profundas dos oceanos. De 2009 a 2019, a temperatura em regiões abissais do Atlântico, situadas a mais de 4 mil metros (m) abaixo da superfície, tornou-se de 0,02 a 0,04 grau Celsius (°C) mais quente.

    Essa elevação sutil, mas extremamente relevante, foi registrada por um grupo internacional de pesquisadores e apresentada em um artigo publicado em setembro de 2020 na revista Geophysical Research Letters. Para os especialistas, uma das causas mais prováveis do aumento de temperatura dos mares, onde está armazenada 97% de toda a água do planeta, são as mudanças no clima decorrentes da emissão de gases de efeito estufa associada à atividade humana, que já tornaram a atmosfera cerca de 1 °C mais quente do que era em 1900.

    “Temos agora sinais consistentes de que a elevação da temperatura média da atmosfera está gerando reflexos nas profundezas dos oceanos”, afirma o oceanógrafo brasileiro Edmo Campos, da Universidade de São Paulo (USP), um dos autores do estudo, realizado em parceria com colaboradores da Administração Nacional Atmosférica e Oceânica (Noaa), dos Estados Unidos, e da Universidade de Buenos Aires, na Argentina. “Lentamente, eles estão esquentando”, diz Campos.

    No trabalho, os pesquisadores analisaram dados do que provavelmente é a mais longa série de medições contínuas já feitas em regiões abissais dos oceanos ao sul do equador. Durante pelo menos uma década, sensores localizados em quatro pontos no fundo do Atlântico registraram a temperatura da água de hora em hora. Instalados em 2009 em uma expedição feita com o navio hidroceanográfico Cruzeiro do Sul, da Marinha do Brasil, os equipamentos estão a profundidades que variam de 1.360 m a 4.757 m.

    Eles e outros instalados posteriormente, alguns deles com apoio da FAPESP, assentam-se a 1 m do assoalho oceânico ao longo do paralelo 34,5° Sul, linha imaginária que circunda o globo e passa próximo ao município do Chuí, no Rio Grande do Sul, e à Cidade do Cabo, na África do Sul. Entrevista: Edmo Campos00:00 / 22:10

    Os oceanógrafos consideram a coleta de dados ao longo desse paralelo fundamental para se conhecer como as alterações na temperatura da atmosfera afetam a zona abissal do Atlântico – essas mudanças de temperatura a grandes profundidades, por sua vez, podem provocar alterações drásticas no clima do planeta. É que, por essa latitude, a profundidades superiores a 4 mil m, passam as águas gélidas (com temperatura da ordem de 0,1 °C) provenientes da Antártida, que fluem para o norte e se espalham pelo fundo do oceano.

    Essas águas antárticas funcionam como um dos raros pontos de conexão direta entre a atmosfera e as partes mais profundas dos oceanos. Nas regiões tropicais do planeta, o ar é mais quente do que a água e transfere calor para as camadas mais superficiais dos mares (até mil m de profundidade). Próximo aos polos, porém, a situação se inverte: o ar é bem mais frio do que a água e extrai calor dela. Esse fenômeno ocorre, por exemplo, em uma região do oceano Austral chamada mar de Weddell, ao redor do qual estão instaladas várias estações de pesquisa antárticas – entre elas, a brasileira.

    As águas superficiais do mar de Weddell perdem calor para a atmosfera, tornam-se mais densas e afundam. Ao submergir, mergulham sob uma camada intermediária de águas relativamente mais quentes e avançam ao ritmo de algumas centenas de quilômetros por ano rumo ao hemisfério Norte. Como quase não há variação térmica a grandes profundidades, a temperatura medida próximo ao assoalho oceânico no paralelo 34,5° é praticamente a mesma da água que afundou na vizinhança da Antártida. O problema é que, com o aumento da temperatura média da atmosfera, o degelo nas regiões polares vem aumentando e a água parece estar submergindo ligeiramente mais quente.

    Em viagem realizada em 2016 com o navio Puerto Deseado, pesquisadores preparam sonda para ser ancorada no fundo do oceano-Alberto Piola / Universidade de Buenos Aires

    Um aumento de poucos centésimos na temperatura da água em regiões abissais pode parecer irrisório, mas não é. A água é uma das substâncias da natureza que exige maior quantidade de energia para se aquecer. “A energia necessária para promover um aumento de centésimos de grau na água no fundo do oceano provocaria uma elevação da ordem de graus na atmosfera”, conta o oceanógrafo. Além disso, as regiões profundas do Atlântico armazenam um volume de água gigantesco.

    “Essas pequenas alterações podem causar efeitos significativos na circulação global do oceano e, consequentemente, na forma como o calor é absorvido e redistribuído pelas diversas regiões do planeta”, explica Campos, que também é pesquisador na Universidade Americana de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, e foi um dos coautores do capítulo 3 do 5º Relatório de Avaliação do Clima do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas, apresentado em 2014.

    Havia tempos se suspeitava de que os oceanos estivessem aquecendo. Medições feitas nas últimas quatro décadas por instrumentos transportados por navios, capazes de registrar a temperatura ao longo de toda a coluna de água, ou, mais recentemente, aferições da temperatura das camadas mais superficiais dos mares feitas por satélites ou flotilhas de boias, já indicavam uma tendência de elevação. Esses dados, no entanto, geravam alguma desconfiança porque as medições nem sempre eram feitas nos mesmos pontos ou realizadas com intervalos de tempo suficientemente longos.

    “As medições infrequentes deixavam dúvida”, relata o oceanógrafo argentino Alberto Piola, da Universidade de Buenos Aires e do Serviço de Hidrografia Naval da Argentina, um dos coautores do estudo. “Os novos dados permitem confirmar que a tendência de aquecimento nesses 10 anos é robusta e semelhante à observada em levantamentos anteriores, sugerindo que se trata de uma resposta ao aquecimento global”, afirma.

    Para o meteorologista Pedro Leite da Silva Dias, diretor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, que não colaborou nessa pesquisa, as medições realizadas hora a hora no fundo do oceano eliminam a possibilidade de que a mudança de temperatura observada seja decorrente de uma amostragem inadequada, que poderia falsear os dados. “O aumento medido nesse estudo é compatível com o que se espera que o aquecimento global cause”, conta Dias, que participou da elaboração do 4º relatório de avaliação do IPCC, em 2007. “Se a causa fossem ciclos naturais de variação da temperatura, a magnitude da elevação seria menor”, explica.

    O mapa mostra a localização de sensores (círculos alaranjados) atualmente em funcionamento, instalados a diferentes profundidades e distâncias da costa

    O ritmo com que esse aumento de temperatura se manifestou nas regiões abissais do Atlântico chegou a surpreender alguns especialistas. O efeito do aquecimento global estava mais bem caracterizado nas camadas superficiais do oceano. Em um estudo publicado em julho de 2020 na revista Nature Climate Change, os oceanógrafos Gregory Johnson e John Lyman, ambos do Noaa, ao analisar dados obtidos desde 1968 por diferentes estratégias de observação, constataram que as águas superficiais de 53% a 79% dos oceanos apresentavam tendência de aumento de temperatura.

    “Com o trabalho da Geophysical Research Letters, fica registrado que esse aquecimento está atingindo o fundo do oceano e é um processo mais rápido do que se imaginava”, comenta o oceanógrafo José Henrique Muelbert, da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), especialista em interações entre organismos marinhos e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Mar Centro de Oceanografia Integrado (INCT-Mar COI). “Até então, essas regiões profundas do oceano eram consideradas muito estáveis.”

    Os pesquisadores afirmam que ainda é necessário mais tempo de observação contínua nas águas abissais do paralelo 34,5° Sul – e também em mais locais do Atlântico e em outros oceanos – para se caracterizar melhor esse aquecimento e confirmar se, de fato, ele é decorrente das mudanças climáticas associadas à ação humana. Mesmo assim, eles receiam que o aumento de temperatura das águas profundas possa produzir efeitos de curto e de longo prazo. “De imediato, haveria o risco de aumento no nível do mar, que pode ser pequeno, mas torna mais vulneráveis as populações vivendo em ilhas e áreas costeiras”, diz Piola. Ele também menciona que esse aquecimento pode afetar a reprodução de organismos marinhos, uma vez que ovos e larvas são muito mais sensíveis às condições do ambiente do que os indivíduos adultos.

    Mantido por longos períodos, o aquecimento poderia até ter impacto sobre o clima do planeta. Aquecidas pela radiação solar na região tropical, as águas superficiais do Atlântico transportam calor para o hemisfério Norte, aumentando a temperatura da atmosfera próximo ao Ártico e permitindo a ocorrência de um clima mais ameno na Europa – ao perder calor, essas águas submergem e retornam para o sul em uma camada intermediária, mais fria. “Caso o aquecimento do oceano enfraqueça essa circulação, após dezenas ou centenas de anos, poderia haver alterações drásticas no clima”, afirma Campos. Registros paleoclimáticos sugerem que essa circulação estava enfraquecida nas últimas glaciações, quando geleiras cobriram boa parte do hemisfério Norte do planeta.

    Prof Luciano Mannarino

  • Há 50 anos, campeonato de pingue-pongue abriu novo capítulo na relação EUA-China

    Há 50 anos, campeonato de pingue-pongue abriu novo capítulo na relação EUA-China

    Rodaram o mundo as fotos do encontro inusitado entre representantes de países cujas relações diplomáticas estavam rompidas

    15.abr.2021 às 23h15

    Há 50 anos, no auge da Guerra Fria, o Japão sediava o campeonato mundial de pingue-pongue. O que deveria ser um evento sem nenhuma relevância política serviu de palco para uma das manobras diplomáticas mais fascinantes e consequentes da nossa era. Abriu-se um novo capítulo na história do relacionamento entre EUA e China.

    Num dado momento durante a competição, o jogador americano Glenn Cowan entrou, por engano, no ônibus que conduzia a equipe chinesa de pingue-pongue. O ônibus partiu. No caminho, com a ajuda de um intérprete, o campeão mundial Zhuang Zedong puxou conversa com o americano. Presenteou-o com imagens de montanhas chinesas pintadas em seda.

    O atleta de tênis de mesa Zhuang Zedong, à dir., cumprimenta o jogador americano Glenn Cowan durante visita aos EUA
    O atleta de tênis de mesa Zhuang Zedong, à dir., cumprimenta o jogador americano Glenn Cowan durante visita aos EUA – Xu Bihua – abr.72/Xinhua via AFP

    Devidamente alertada, a imprensa estava pronta para registrar o momento em que o ônibus chegasse ao seu destino. Circularam no mundo as fotos do encontro inusitado — e amistoso — entre representantes de países cujas relações diplomáticas estavam rompidas havia duas décadas.

    A dois dias do fim da competição, o time chinês surpreendeu a equipe americana com um convite para visitar a China. Foi basicamente assim, quase de supetão —mas com diplomacia ousada nos bastidores—, que ocorreu a primeira visita oficial de uma delegação americana à China em mais de 20 anos.

    Em 14 de abril de 1971, no Grande Salão do Povo em Pequim, o time americano foi recebido pelo primeiro-ministro Zhou Enlai. Diante de jovens americanos estáticos, o premiê anunciou: “Vocês inauguraram um novo capítulo na história dos povos da China e dos EUA”.

    A chamada diplomacia do pingue-pongue serviu de catalisador para aproximar China e EUA que, naquele momento, tinham na União Soviética um inimigo comum. Richard Nixon queria terminar a guerra no Vietnã. Mao Tsé-Tung queria tirar a China do isolamento em que se encontrava. O interesse era recíproco —apesar de as desconfianças serem enormes e nutridas mutuamente.

    O pingue-pongue ajudou a preparar o público para a ideia de uma reaproximação. Humanizou uma relação vista até então apenas pelo ângulo geopolítico. Mais que uma distração, ajudou os dois lados a deixarem as diferenças de lado.

    Propriedade intelectual: esse capítulo do documento trata basicamente de questões relativas a fórmulas, processos e padrões que são utilizados por negócios para obter vantagem sobre a concorrência e que podem ser considerados confidenciais. Também engloba propriedade intelectual relacionada a produtos farmacêuticos, indicação geográfica de um bem ou serviço, marcas registradas e coação contra produtos pirateados e falsificados
    Propriedade intelectual: esse capítulo do documento trata basicamente de questões relativas a fórmulas, processos e padrões que são utilizados por negócios para obter vantagem sobre a concorrência e que podem ser considerados confidenciais. Também engloba propriedade intelectual relacionada a produtos farmacêuticos, indicação geográfica de um bem ou serviço, marcas registradas e coação contra produtos pirateados e falsificados Kevin Lamarque – 15.jan.2020/Reuters

    O episódio abriu o caminho para que, no ano seguinte, Nixon visitasse a China. Em 1972, o presidente americano foi a Pequim, Xangai e Hangzhou — as mesmas cidades que o time de pingue-pongue havia visitado no ano anterior.

    De lá para cá, o mundo assistiu à ascensão e queda do relacionamento bilateral.

    Nesta semana, o aniversário da diplomacia do pingue-pongue motivou eventos em Xangai, discursos de diplomatas chineses e notícias na imprensa local evocando o espírito daquele momento. Nos EUA, isso não encontra mais eco.

    A política de engajamento dos americanos em relação à China, inaugurada pela diplomacia do pingue-pongue, encerra seu ciclo justamente 50 anos depois. Não terminou com Donald Trump. O fim está sendo decretado por Joe Biden, ao dar continuidade à linha do seu antecessor. Não é claro o que substituirá o engajamento, mas é certo que, como concebido, não tem mais futuro.

    Joe Biden faz juramento como 46º presidente dos EUA
    Joe Biden faz juramento como 46º presidente dos EUA Kevin Lamarque/Reuters

    Acertadamente, Biden busca corrigir vários aspectos da política externa de Trump. Em matéria de China, no entanto, hesita. O legado tóxico de Trump deixou marcas profundas nos EUA. Ainda é cedo para tirar conclusões, mas muitos sinais são de trumpismo sem Trump.

    Não deixa de ser irônico que, justamente quando se relembra o pingue-pongue, vozes nos EUA defendam o boicote da Olimpíada de Inverno de Pequim de 2022. Provavelmente não boicotarão, mas a mera discussão do assunto é emblemática da mudança de postura.

    Em 1971, durante o campeonato no Japão, Glenn Cowan, presenteado pelo colega chinês, buscou algo para lhe oferecer em retribuição. A lembrança improvisada pelo jogador de cabelos longos, visual hippie e fã dos Beatles foi uma camiseta com os dizeres “Let it Be”. Definitivamente outros tempos. O jogo agora é outro.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tatiana-prazeres/2021/04/ha-50-anos-campeonato-de-pingue-pongue-abriu-novo-capitulo-na-relacao-eua-china.shtml

    Questões

    Explique o contexto geopolítico que aproximaram chineses e americanos no início dos anos de 1970.

    Por que o “legado tóxico de Trump deixou marcas profundas” nas relações entre China e EUA?

    Por que as relações diplomáticas entre EUA e a China foram interrompidas após da 2 Guerra Mundial?

    Prof Luciano Mannarino

  • Energia insustentável

    Energia insustentável

    POLÍTICAS PÚBLICAS 

    Para além do investimento financeiro, estudiosos veem no alto custo social e ambiental empecilho para expansão hidrelétrica na Amazônia

    Operário trabalha na construção de casa de força da hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira (PA), em 2013 Lalo de Almeida / Folhapress

    Domingos Zaparolli

    Edição 284
    out. 2019

    A Bacia Amazônica, que em território brasileiro ocupa 3,8 milhões de quilômetros quadrados em sete estados e responde por mais de 60% de toda a disponibilidade hídrica do país, é considerada a área com maior potencial para a expansão da geração hidrelétrica no Plano Nacional de Energia (PNE) elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia. Estudos recentes sobre os impactos socioambientais da construção de hidrelétricas na região e a capacidade de essas usinas gerarem os resultados pretendidos ao longo de sua vida útil, porém, sugerem cautela.

    “As hidrelétricas amazônicas só são economicamente competitivas com outras fontes de energia se não são computados os custos sociais e ambientais, os custos de sua eventual remoção, se o cálculo é feito com base no custo da energia instalada e não na energia efetivamente produzida, e se não são considerados os custos de uma justa compensação, que são transferidos para a sociedade”, afirma Emilio Moran, professor de antropologia, geografia e ciências ambientais na Universidade Estadual de Michigan (MSU), nos Estados Unidos, e na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Moran coordenou equipe multidisciplinar formada por professores e pesquisadores das áreas da saúde, geografia, antropologia, economia agrícola e ambiental da Unicamp, da MSU, das universidades federais do Pará (UFPA), Rio Grande do Sul (UFRGS) e Santa Catarina (UFSC), e da suíça St. Gallen. Eles foram a campo no sudoeste do Pará com o objetivo de avaliar os impactos socioambientais gerados pela construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu. Os resultados foram divulgados no final de agosto, em evento realizado em São Paulo.

    A pesquisa constatou que a usina hidrelétrica gerou danos para a biodiversidade pesqueira local e para a população de Altamira e Vitória do Xingu, cidades paraenses vizinhas à obra. Aumento do custo de vida, queda na renda de ribeirinhos e agricultores familiares, diminuição da pesca, piora em indicadores da saúde, saneamento deficitário e aumento da violência são alguns dos danos observados. “O que ocorreu em Belo Monte era previsível, já havia ocorrido antes em outros projetos hidrelétricos. Só demonstra que o Estado continua permitindo os mesmos erros que cometia há 40 anos”, diz Moran, referindo-se aos impactos socioambientais registrados nos anos 1970 e 1980 na construção das usinas hidrelétricas de Tucuruí, no rio Tocantins, e Balbina, no rio Uatumã, afluente do Amazonas, e não devidamente considerados na construção de Belo Monte.

    O Plano Nacional de Energia foi lançado em 2006 e recebeu sua atualização mais recente em 2018. Contém previsões de consumo e o mapeamento de oportunidades de expansão da oferta energética até 2050. Segundo o documento, dependendo da expansão econômica do país, a demanda por energia deverá crescer a um ritmo de 1,4% a 2,2% ao ano, no período. O potencial hidrelétrico brasileiro foi calculado em 176 mil megawatts (MW). Destes, 108 mil MW já estão disponíveis ou sendo providenciados em outras construções. Entre os demais 68 mil MW inventariados, 52 mil MW correspondem a projetos que envolvem a construção de usinas de médio e grande porte. Desse total, 64%, ou 33 mil MW, são previstos na Bacia Amazônica.

    Cotidiano fluvial: botijão de gás é transportado em barcoMaíra Fainguelernt

    Conhecedor da região Amazônica, onde trabalha desde 1978 como pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e convidado do evento, o biólogo norte-americano Philip Martin Fearnside, um dos ganhadores do Prêmio Nobel da Paz em 2007 como membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), diz que o potencial hidrelétrico da Bacia Amazônica está superdimensionado e que os investimentos não trarão os resultados esperados. “Não estão considerando, por exemplo, os efeitos do aquecimento global que reduz as precipitações pluviométricas e consequentemente o fluxo de água nos rios”, alega.

    Fearnside cita um estudo realizado em 2015 pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), do governo federal, intitulado “Brasil 2040”, no qual são projetadas as consequências do aquecimento global para o clima do país. Para a região Amazônica, a projeção indica diminuição substancial das chuvas refletindo no volume de água dos rios e na capacidade de geração de hidreletricidade. Os impactos deverão ser diferentes para cada bacia hídrica. Nos cenários projetados, a capacidade de geração em Belo Monte, por exemplo, poderá ser reduzida entre 20% e 55%.

    A hidreletricidade é tida pela indústria do setor e por alguns especialistas como uma forma limpa de energia por não utilizar fontes fósseis como combustível. Fearnside considera essa percepção equivocada, principalmente em relação às hidrelétricas instaladas em regiões de floresta. “Há emissão de gases de efeito estufa em quantidades substanciais”, afirma. Estudos realizados pelo cientista indicam que os primeiros anos de atividade de uma hidrelétrica concentram grande emissão de dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O). Segundo ele, o tempo que uma hidrelétrica leva para gerar benefícios, reduzindo a emissão de gases de efeito estufa, é medido em décadas e varia de acordo com a localização, o tamanho e o perfil da área ocupada pela barragem. Em Belo Monte, com a primeira barragem planejada rio acima, o pesquisador estima que pode demorar 40 anos.

    Mãe e filha lavam roupas no rioMaíra Fainguelernt

    Dependência do rio Xingu
    O complexo hidrelétrico de Belo Monte é formado por duas casas de força, ou seja, são duas usinas, que somam 24 turbinas, totalizando uma capacidade instalada de 11,2 mil MW, que deverá ser alcançada no último trimestre deste ano com a entrada em funcionamento das quatro últimas turbinas. Com isso, a hidrelétrica passará a ocupar o posto de terceira maior do mundo em capacidade instalada. Mas não em produção efetiva. Em Belo Monte, a oferta de energia firme, aquela que pode ser assegurada, limita-se a 4,4 mil MW em média. A produção efetiva depende da vazão do rio Xingu. Nos meses de seca na região, entre junho e outubro, sua capacidade de geração é bastante reduzida.

    Belo Monte é uma usina a fio d’água, ou seja, seu reservatório foi projetado para permitir uma regularização do fluxo de água para poucos dias de operação e não para todo o período seco. Por isso, seu reservatório é quase três vezes menor do que o necessário em uma usina tradicional. Mesmo assim, soma 478 km² em duas represas interligadas por um canal de derivação com 20 km de extensão.

    Em janeiro de 2011, quando as obras em Belo Monte foram iniciadas, a hidrelétrica foi orçada em R$ 16 bilhões. Em julho último, o Ministério de Minas e Energia estimou em R$ 42 bilhões seu custo total. A usina pertence a Norte Energia S.A., que tem a estatal Eletrobras como principal acionista, detentora de 49,98% das ações. Os investimentos – na ordem de 80% – tiveram financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

    Miquéias Calvi, professor da Faculdade de Engenharia Florestal da UFPA, é morador de Altamira há 30 anos. Acompanhou de perto todo o processo de comunicação promovido pelo governo federal e o grupo Norte Energia para o convencimento da população local. Ele relata que foi estabelecida uma narrativa muito convincente de como a usina seria a condutora do desenvolvimento regional, com geração de emprego, renda para o produtor rural e para os comerciantes locais, além de melhorias na oferta de serviços públicos de saúde, saneamento, distribuição de água potável, segurança e moradia. “Conquistaram um apoio grande à obra, que hoje quase não existe mais”, afirma.

    Emilio Moran resume a percepção atual da população local em uma frase, repetida inúmeras vezes aos pesquisadores envolvidos no projeto sobre os impactos socioambientais de Belo Monte: “Bom para o Brasil, péssimo para nós”. Os resultados do estudo apresentam as razões da mudança da opinião pública. Antes de Belo Monte, a cidade de Altamira abrigava 75 mil moradores. Dois anos depois do início das obras, já eram quase 150 mil. A construção da usina chegou a gerar 50 mil empregos diretos e indiretos, contingente que foi diminuindo à medida que etapas da obra foram vencidas. Em 2018 a população estimada era de 113 mil habitantes.

    A movimentação demográfica teve consequências, inclusive na saúde da população. Márcia Grisotti, chefe do Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFSC, estuda os impactos de Belo Monte e destaca o aumento dos registros de sífilis em gestantes da cidade de Altamira, que passou de um caso para cada mil crianças nascidas em 2010 para 15 casos, em 2015. A violência aumentou. Em 2015, a cidade conquistou o indesejável título de a mais violenta do Brasil. Segundo dados do Ministério da Saúde, foram 124,6 homicídios para cada 100 mil habitantes. Cinco anos antes, a taxa era de 60,9 homicídios para cada 100 mil habitantes. Também houve crescimento no número de suicídios e de mortes por acidente de trânsito. “As medidas compensatórias relacionadas à saúde se restringiram à instalação de equipamentos médicos e sanitários, sem acompanhamento dos indicadores nem definição de uma estratégia para mitigar problemas que poderiam ter sido evitados”, diz Grisotti.

    Belo Monte será a terceira maior do mundo em capacidade instalada, mas não em produção efetiva

    A construção da barragem de Belo Monte e as mudanças no nível de água do Xingu exigiram o deslocamento de 22 mil pessoas que viviam às margens do rio. Essa população foi realocada em cinco Reassentamentos Urbanos Coletivos (RUCs) na periferia de Altamira. Não sem problemas, observa o professor do curso de desenvolvimento regional da UFRGS Guillaume Leturcq. “Pessoas que obtinham sua subsistência do Xingu foram assentadas em vilas distantes a 3 ou 4 quilômetros do rio”, conta. “Não lhes foi oferecida a oportunidade de transferência para localidades onde poderiam manter seu modo de vida.” Muitas das novas casas já foram abandonadas ou vendidas.

    O adensamento populacional gerou problemas sanitários. Até 2012, o abastecimento de água de 86% da população era feito por intermédio de poços e o esgoto de 90% das casas era destinado para fossas sépticas. De acordo com Cristina Gauthier, da MSU, a Norte Energia melhorou a infraestrutura de saneamento de Altamira, mas não o suficiente para o crescimento populacional que a cidade enfrentou. Resultado: o uso de poços e fossas segue sendo comum no lugar.  “Com o adensamento geográfico, o número de poços e fossas é maior do que antes da construção da usina. Um número maior de fossas impacta a qualidade de água subterrânea do lugar”, diz Gauthier. Em amostra realizada em 30 casas, a pesquisadora constatou que apenas seis poços possuíam água sem contaminantes fecais na época da seca e sete no período chuvoso. Procurada, a Norte Energia não comentou os resultados das pesquisas.

    Nem mesmo ribeirinhos que vivem em áreas mais distantes da usina e não precisaram abandonar suas casas ficaram imunes. Moradores da comunidade a jusante de Vila Nova, que soma 156 famílias, relatam que hoje precisam de seis dias para obter a mesma quantidade de peixes que antes pescavam em dois. Além disso, os peixes são menores e há dificuldade em comercializá-los. “Em Altamira é possível comprar peixes de outras regiões do Pará e de Santa Catarina. Apenas um supermercado vendia peixe local em 2015”, diz Miquéias Calvi.

    Removido da casa onde vivia por causa da construção da hidrelétrica, morador desmancha palafita em área próxima ao igarapé AltamiraLalo de Almeida / Folhapress

    Calvi investigou os impactos de Belo Monte na produção rural na região de Altamira. “A promessa era de que o aumento da população e da demanda por alimentos iria beneficiar o produtor local”, observa. No entanto, três anos após o início da obra, 60% dos agricultores familiares haviam abandonado suas lavouras temporárias. Os cultivos de arroz, feijão, milho e mandioca caíram de 40 mil hectares em 2011 para 20 mil hectares em 2017.

    Emilio Moran acredita que muitos dos problemas constatados na pesquisa poderiam ter sido evitados se o licenciamento da usina tivesse sido precedido de um adequado Estudo de Impacto Ambiental e o respectivo Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima). Para isso, e como determina a legislação brasileira, seria necessário estudar antecipadamente a região, em seus aspectos físicos e humanos, e ouvir as comunidades locais. Órgãos públicos como o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), avalia Moran, também deveriam ter “capacidade e vontade política” para negar licenças, se constatado que determinado empreendimento não atende as obrigações da legislação brasileira e as recomendações do relatório de impacto social e ambiental.  “Isso nunca ocorre no Brasil”, lamenta. “Os estudos são feitos, mas as obras começam sem a resolução dos problemas apontados nos estudos.”

    O físico José Goldemberg, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEA-USP) e ex-secretário nacional do Meio Ambiente e de Ciência e Tecnologia, concorda apenas parcialmente com as críticas. Segundo ele, muitos dos impactos socioambientais de Belo Monte poderiam, de fato, ter sido evitados e a empresa deveria ser responsabilizada pelos danos gerados. No entanto, Belo Monte, pondera, não pode ser julgada apenas pelos danos sociais, mas também pelos benefícios gerados para o abastecimento energético de todo o país.

    Em sua opinião, as hidrelétricas na Bacia Amazônica devem ser avaliadas caso a caso, levando em consideração sua viabilidade diante dos custos de mitigar os impactos socioambientais e diante dos possíveis efeitos das mudanças climáticas, mas não devem ser descartadas a priori. “O Brasil precisa expandir sua produção de eletricidade e uma hidrelétrica, entre as opções que garantem geração firme, constitui alternativa melhor do que as usinas que utilizam combustíveis fósseis e do que as nucleares”, avalia.

    Questões

    Por que a vazão do rio Xingu oscila ao longo do ano e de que forma isso afeta a produção de energia hidrelétrica?

    A produção energia elétrica através de uma hidrelétrica é considerada uma fonte limpa? Justifique.

    Explique o papel do Estado brasileiro na produção de energia elétrica?

    Aponte os impactos socioambientais ligados a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

    Prof Luciano Mannarino