Categoria: ATIVIDADES

Modelos de atividades para a Sala de Aula (Geografia)

  • DESIGUALDADE GLOBAL (EUA)

    Em 40 anos, metade dos EUA ganhou só US$ 200 a mais.

    Desde os anos 1980, total de americanos em famílias da classe média (com renda anual próxima a US$ 78,5 mil) encolheu de 60% para 50%.

    15:01

    Quem for à casa de shows Carnegie Hall ou visitar o museu Frick Collection, ambos em Nova York, estará diante da materialização da fortuna de dois dos homens mais ricos que os Estados Unidos já produziram.

    Mas também do legado de duas das figuras mais odiadas pelo movimento sindical norte-americano e protagonistas de um sangrento episódio de luta de classes na região de Pittsburgh, na Pensilvânia.

     

    Em 6 de julho de 1892, o industrial do aço Andrew Carnegie (1835-1919) e seu então executivo Henry Frick (1849-1919) enviaram uma milícia armada contra trabalhadores em greve na Carnegie Steel Company, no episódio que ficaria conhecido como a Batalha de Homestead.

    Ao fim do dia, a ação contra o movimento por melhores salários resultaria em dez mortes e 44 anos correriam até que os sindicatos locais se reorganizassem novamente.

    Nesse intervalo, marcado pelo esvaziamento dos movimentos de trabalhadores nos EUA, o país assistiria a uma forte concentração de renda.

    Foi quando Carnegie e Frick levantaram fortunas baseadas em siderúrgicas que transformaram Pittsburgh na maior região produtora de aço do mundo até os anos 1970.

    Nas últimas décadas, Pittsburgh deu lugar a centenas de empresas de serviços e tecnologia. Na maioria delas, os trabalhadores jamais viram um sindicato pela frente.

    Estátua que representa os trabalhadores da usina de aço Edgar Thomson (no alto); outdoors na entrada de Braddock, cidade vizinha a Pittsburgh, na Pensilvânia

     

    Mas a primeira siderúrgica de Carnegie, a Edgar Thomson, agora parte da USS Steel, segue viva desde 1872 no distrito vizinho de Braddock.

    Ela emprega hoje cerca de 550 trabalhadores, uma fração dos milhares de metalúrgicos do passado de Pittsburgh.

    Em pouco mais de meio século, a cidade viu sua população encolher à metade, para 302 mil pessoas levando vizinhanças como Braddock a uma profunda decadência.

    “Meu bisavô, meu avô e meu pai trabalharam nessa siderúrgica. Toda essa área era repleta de famílias da classe trabalhadora. Com o declínio da usina, isso acabou”, diz Isaac Bunn, 49, dono da última casa em pé nas proximidades da Edgar Thomson.

    Isaac Bunn, dono da última casa em pé nas proximidades da siderúrgica Edgar Thomson

     

    O que se vê ali não é muito diferente do cenário em outros estados industriais decadentes do chamado “rust belt” (cinturão da ferrugem), como Michigan e sua Detroit, ou em áreas de Ohio, Indiana, Iowa ou Wisconsin.

     

    Em 2016, todos eles votaram em Donald Trump acreditando que a América pode voltar a ser “grande novamente”.

    “Trump promete recuperar setores como o nosso, e é dai que vem o voto nele. Tarifas de importação ajudam nossa indústria e, por tabela, os trabalhadores”, diz John Gornall, presidente do sindicato dos siderúrgicos em Braddock.

    Todo o entorno da sede do sindicato e a colina de onde se vê a fumaça da Edgar Thomson são repletos de casas e imóveis comerciais abandonados, que dão a Braddock um ar de filme de zumbi.

    Andando por ali, é quase difícil lembrar que ainda se trata do país mais rico do mundo.

    Casa abandonada em Braddock, na Pensilvânia; a cidade decaiu junto com o setor industrial local

    Sem moradores, casas são tomadas por mato em Braddock, na Pensilvânia

    Casa abandonada em Braddock, na Pensilvânia; a cidade decaiu junto com o setor industrial local

    Mas o que Braddock e esses estados industriais têm realmente em comum com o resto dos EUA é a estagnação duradoura da renda do trabalho e o aumento da desigualdade.

     

    Além do encolhimento da classe média e de seu gigantesco endividamento, isso tem levado a uma ampliação cada vez mais acentuada da distância entre os trabalhadores americanos e os chamados super-ricos.

    Em nenhum outro país do mundo houve uma inversão tão chocante da distribuição de renda como nos EUA das últimas décadas.

    Essa troca de sinal, iniciada nos anos 1980 e acelerada na década de 1990, coincidiu com a forte desregulamentação do mercado financeiro no país que engendraria, anos depois, a crise de endividamento de 2008-2009.

    Hoje, o 1% mais rico nos EUA captura o equivalente a toda a renda que antes ficava com a metade mais pobre. Essa, por sua vez, viu sua participação no total de rendimentos cair quase à metade, para 12,5%.

    Enquanto os super-ricos prosperaram, os EUA convivem há quase 40 anos com a estagnação da renda da sua metade mais pobre.

    De 1980 para cá, o valor médio dos rendimentos anuais brutos desse segmento aumentou meros US$ 200 (R$ 760), para US$ 16,6 mil ao ano.

    Ao mesmo tempo, a renda média anual bruta dos 10% mais ricos dobrou (para US$ 311 mil); e a do 1% no topo triplicou (US$ 1,3 milhão).

    O 432 Park Avenue, em Manhattan, tem apartamentos de US$ 30 milhões no edifício residencial mais alto do mundo; abaixo, escadaria apelidada de “alpinista social” em novo mirante de US$ 200 milhões, em Nova York

     

    Já a classe média (os 40% “do meio” entre ricos e pobres) teve um aumento em sua renda pouco superior a 40%, o que a empobreceu relativamente aos estratos mais ricos, segundo dados do Relatório da Desigualdade Global, da equipe do economista francês Thomas Piketty.

    O think tank Pew Research Center, de Washington, estima que, ao longo desse período, o total de americanos em famílias da classe média (com renda anual média próxima a US$ 78,5 mil) tenha encolhido de 60% para cerca de 50%, e que boa parte dos que saíram dela tenha empobrecido.

    O pesquisador Rakesh Kochhar, do Pew Research, cita algumas das razões para a estagnação da renda dos mais pobres e da perda de relevância da classe média: declínio dos sindicatos, que viram o número de filiados minguar à metade desde os anos 1980; encolhimento do setor industrial; a globalização que levou empresas a outros países; e a tecnologia e a automação.

    Outros estudos ressaltam também como motivo mais recente a ascensão das chamadas empresas “superstars”.

    Nos últimos 20 anos, a fatia de mercado dominada por companhias líderes em seus setores aumentou 75%. O movimento teria reduzido substancialmente não apenas a competição empresarial, mas também os salários dos trabalhadores.

    Para o economista Branko Milanovic, um dos maiores especialistas no tema hoje, o termo “desigualdade” começa a se tornar quase obsoleto diante do que ocorre com a distribuição da renda nos EUA e na maior parte dos países, sobretudo no Ocidente.

    Terreno abandonado nas proximidades do centro de Pittsburgh, na Pensilvânia.

     

    “A palavra mais adequada hoje é polarização entre pobres e ricos”, diz Milanovic.

     

    “E é comum as pessoas se perguntarem qual o programa para as classes médias. O fato é que não há nenhum coerente, e o resultado que temos é o chamado voto de protesto.”

    A desigualdade e o medo das classes médias em perder status, segundo ele, estariam determinando cada vez mais as escolhas do eleitorado. E elas quase sempre têm desaguado em propostas e candidaturas no campo populista.

    Dos dez estados norte-americanos onde a classe média ainda predomina, reunindo mais de 60% da população, oito votaram em Trump em 2016, incluindo a Pensilvânia.

    É neles, que já foram relativamente ricos, onde a decadência tem sido mais aguda.

    O morador de Braddock Lou Berry, 59, por exemplo, diz conviver com várias frustrações depois de ter trabalhado a vida inteira. Principalmente por causa de seu último emprego em um grande hospital de Pittsburgh, com o qual ainda tem dívidas por conta de um tratamento de saúde.

    Berry diz que hoje só tem onde morar porque herdou da mãe a casa onde vive.

    O morador de Braddock Lou Berry, que tem dívidas com a empresa da área de saúde na qual trabalhou

     

    “Em 1979, quando ainda havia muitos empregos ligados a sindicatos, trabalhava na Westinghouse Electric e ganhava US$ 8 a hora. Podia comprar o que quisesse”, diz Berry.

     

    “Trinta e cinco anos depois, meu salário no hospital era de US$ 8,50 a hora. Muitas vezes tive de escolher entre remédios ou alimentos.”

    Não muito longe de sua casa, em outra rua com imóveis caindo aos pedaços, o policial aposentado Harrold Reichert, 67, conta histórias parecidas.

    “Anos atrás tínhamos mais dinheiro, e parece que ele rendia mais, durava mais. Para mim, chega a ser surpreendente que tantas pessoas ainda venham aguentando tudo isso por todo esse tempo”, diz.

    Bazar de roupas e objetos usados em Braddock; shopping center abandonado no interior da Pensilvânia

     

    A decadência em estados relevantes e a concentração da renda parecem contradizer dados positivos na superfície norte-americana como os últimos dez anos de crescimento ininterrupto e o desemprego abaixo de 4%.

     

    Mas esse vigor esconde duas realidades preocupantes.

    A primeira é que o endividamento das famílias sobe sem parar, revelando a incapacidade crônica de fecharem o mês, apesar do desemprego baixo. A inflação também não aumenta, mesmo com o juro baixo, o que indica renda e demanda insuficientes.

    Somadas, as dívidas dos domicílios americanos chegam a US$ 13,5 trilhões, e já estão quase US$ 1 trilhão (mais do que a metade do PIB do Brasil) acima de 2008, quando a crise de endividamento, sobretudo imobiliário, explodiu.

    De acordo com o Fed (o banco central dos EUA), cerca de 40% dos adultos no país não têm nenhum caixa para emergências superior a US$ 400.

    A segunda é que o aumento do PIB nos últimos dez anos (25%) equivale a pouco mais da metade do registrado no período anterior de crescimento de mesma longevidade, entre 1991 e 2001.

    Nos dois ciclos, o crescimento esteve amplamente apoiado em saltos de produtividade que não significaram ganhos aos trabalhadores. Mas concentração de rendimentos para altos executivos.

    Vista geral de Braddock com a siderúrgica Edgar Thomson em primeiro plano

     

     

    Desde meados dos anos 1970, a produtividade norte-americana saltou 77%, mas o valor médio da hora trabalhada em todos os estratos aumentou apenas 12%.

     

    Tomando-se apenas o salário mínimo federal como referência, ele poderia valer hoje US$ 20 a hora não US$ 7,25 se tivesse acompanhado a produtividade.

    No Congresso, os democratas agora pressionam para que esse valor alcance US$ 15 até 2024, indexando os rendimentos nacionais nesse piso. Mas há inúmeras resistências ao projeto, tanto de empresas quanto dos republicanos.

    Para Kochhar, do Pew Research Center, além de ter seus impactos políticos, a estagnação da renda dos mais pobres nos EUA já se transformou em uma preocupação macroeconômica relevante para o médio e longo prazos.

    “Uma das consequências da desigualdade em alta é que ela tende a gerar crescimento mais lento, já que a demanda geral na economia cai devido à renda concentrada no topo que flui para um número cada vez menor de pessoas”, diz o economista.

    Outros dois pontos sinalizados no Relatório da Desigualdade Global são cruciais sobre a natureza da concentração da renda nos EUA e suas implicações sobre o crescimento.

    A estagnação dos rendimentos entre os 50% mais pobres não é consequência do envelhecimento da população.

    Ao contrário, é entre os mais velhos que a renda cresce mais, revelando que os jovens, na prática, estão perdendo rendimentos em termos relativos com o tempo.

    Isso não só compromete a demanda futura como pode tornar impagável a dívida em créditos estudantis no país, considerada por muitos como uma nova “bomba-relógio”. Hoje ela passa do US$ 1,5 trilhão e envolve 45 milhões de norte-americanos.

    Estabelecimentos fechados na rua principal de Braddock, na Pensilvânia

     

    Na outra ponta, entre os mais ricos, enquanto os ganhos nas décadas de 1980 e 1990 ainda eram baseados sobretudo na renda do trabalho, a partir dos anos 2000 o salto ocorreu principalmente nos ganhos de capital.

     

    São rendimentos em negócios e aplicações financeiras que não necessariamente impactam na produção de bens físicos e no emprego e que contribuem para acelerar o aumento da desigualdade.

    No que os especialistas concordam é que uma das principais providências para atacar a desigualdade nos EUA e em outros países seria uma taxação mais progressiva sobre a renda e, principalmente, sobre ganhos de capital.

    Mas a tributação norte-americana tem sido cada vez menos progressiva desde a década de 1960. E se tornou ainda mais favorável aos super-ricos com os cortes de impostos adotados desde que Trump assumiu a Casa Branca.

    “Trump foi eleito com o discurso de que faria a economia trabalhar para os 50% de baixo, mas o que tem feito vai contra os interesses deles. O corte de impostos para os mais ricos é só mais uma evidência de que a desigualdade nos EUA seguirá aumentando”, diz Lucas Chancel, coordenador do Relatório da Desigualdade Global.

     

     

    https://temas.folha.uol.com.br/desigualdade-global/estados-unidos/em-40-anos-metade-dos-eua-ganhou-so-us-200-a-mais.shtml

     

     

     

    Questões

    1. Segundo o texto, aponte uma medida para combater a desigualdade social nos EUA e no mundo.

    2. O que é o “rust belt” e como ele se formou no EUA?

    3. O economista Branko Milanovic diz que devemos usar  a expressão polarização entre ricos e pobres em vez de desigualdade entre ricos e pobres. Por quê?

    DESIGUALDADE GLOBAL (ÁFRICA DO SUL)

  • Chuvas e secas em São Paulo estão mais intensas com aquecimento, mostram dados. (avaliação)

    Análise da Folha indica mudança no clima paulistano, que esquentou quase 3ºC desde 1960.

    SÃO PAULO

    O clima em São Paulo sofreu profundas mudanças nos últimos 60 anos: chuvas intensas estão mais comuns, mas longos períodos secos também aparecem mais, e a temperatura está quase 3ºC mais alta hoje (dependendo da forma de medição).

    Os dados, coletados pela Folha no Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), e pesquisadores indicam que a cidade enfrentará cada vez mais desafios na saúde pública, com mais mortes relacionadas a doenças cardíacas, por exemplo, que são mais comuns nas ondas de calor. E sofrerá cada vez mais problemas de infraestrutura, com mais alagamentos em alguns períodos e falta d’água em outros.

    A chuva é um dos grandes exemplos da mudança no clima em São Paulo no período. Até 1980, a cidade havia enfrentado apenas um evento com mais de 100 mm em um dia. Na década de 2010, foram seis.

    Patamar próximo a esse foi o que a capital paulista enfrentou no começo de fevereiro, quando os 114 mm foram suficientes para alagar trechos das marginais, ilhar moradores e suspender aulas e o serviço público.

    Por outro lado, os períodos sem chuva estão cada vez maiores. A década de 1960 começou com período de até 15 dias sem precipitação em alguns anos. Nesta década mais recente, já se chegou a 51 dias secos, em 2012.

    Após sequência de estiagens, a cidade sofreu com a crise hídrica de 2014, quando reservatórios chegaram a operar com 10% da capacidade, levando a racionamentos.

    Os dados do Inmet, que vão de 1961 a 2019 e são coletadas na zona norte, mostram também mudança no padrão de temperatura.

    Há diferentes formas de se avaliar essa variação. Considerando a diferença ano a ano, o acumulado desses 58 anos aponta para uma temperatura média 2ºC superior agora em relação ao período inicial (subindo da casa dos 20ºC para 22ºC).

    Se analisada a variação das temperaturas mínimas, o aquecimento é ainda maior (quase 3ºC a mais, saindo da casa dos 8ºC para 11ºC).

    Visto de outra forma, as temperaturas mínimas da década de 2010 estão 2,3ºC maiores do que de 1960, considerando as medianas (medida que identifica qual a temperatura é a que divide em dois o grupo analisado).

    Como as mudanças no regime de chuvas e nas temperaturas têm sido constantes ao longo das décadas, climatologistas dizem que a situação atual deverá ser o novo padrão da cidade para os próximos anos. E as projeções apontam para presença ainda maior de eventos extremos nas próximas décadas.

    “A situação exige melhoria significativa em ações para redução de desastres na região metropolitana”, escreveram o climatologista José Marengo e outros pesquisadores brasileiros em trabalho acadêmico publicado na revista da Academia de Ciências de Nova York, no começo deste ano.

    A pesquisa enfocou o padrão de chuvas na região —a reportagem se inspirou nessa metodologia para a análise, acrescentando dados mais recentes.

    Os cientistas destacam que as mudanças podem estar relacionadas à variação natural do clima, mas também podem ser fruto do aquecimento global e da urbanização da região.

    “O aumento das temperaturas é um processo natural, que pode ser acelerado pela ação humana, com urbanização, queima de combustível fóssil e desmatamento”, disse à reportagem o cientista Marengo, do Cemaden (centro nacional de monitoramento de desastres naturais). “O que não foi estabelecido é saber qual porcentagem é natural e qual é humana.”

    Mesmo que a causa das mudanças no clima da cidade ainda não esteja totalmente definida, já há pesquisas sobre o impacto na saúde da população decorrente das temperaturas mais altas e pelo novo padrão de chuvas.

    A população idosa parece ser mais sensível ao aumento do calor. Uma das razões é que o corpo nessa idade tem mais dificuldade para se adaptar à mudança de temperatura. E também tarda mais para perceber o aumento do calor, demorando também para se hidratar.

    As pesquisas mostram que aumento da temperatura está relacionado a mais casos de mortes decorrentes de doenças cardiovasculares e respiratórias.

    Em pesquisa feita no IAG-USP (instituto de ciências atmosféricas), o meteorologista Rafael Batista avaliou o impacto de altas temperaturas nos óbitos de idosos.

    O trabalho verificou que houve mais mortes do que o esperado em fevereiro de 2014 na região metropolitana de São Paulo, quando ocorreu forte onda de calor (26 dias consecutivos com máximas acima dos 30ºC).

    Outro impacto do aumento do calor é a elevação do consumo de água, aponta o professor da Faculdade de Saúde Pública da USP Leandro Giatti.

    E a situação pode se agravar porque o novo padrão de chuvas, com pancadas cada vez mais fortes, alternadas com períodos secos mais longos, não é o ideal para se acumular águas nos reservatórios.

    Nas chuvas intensas, a água passa muito rapidamente pelo solo, não sendo absorvida para os aquíferos, além de levar sujeira e sedimentos para os reservatórios.

    O aumento das chuvas intensas, e consequentes alagamentos, pode contribuir ainda para aumento de doenças como leptospirose e dengue ou diarreia, especialmente em crianças. Essa relação foi apontada em pesquisas de Juliana Duarte, da Faculdade de Saúde Pública da USP.

    Ela verificou que houve aumento de internações devido a essas doenças nos períodos mais chuvosos em Rio Branco (AC), entre os anos de 2008 e 2013.

    Todos esses problemas devem se intensificar, de acordo com os cientistas.

    A pesquisa do meteorologista Rafael Batista, do IAG-USP, estimou como deverá ser a temperatura na região metropolitana até 2099, considerando a evolução nas últimas décadas.

    Segundo esse cálculo, o número de dias de risco por altas temperaturas (médias acima de 25ºC) passará a ocupar 40% do ano, dentro das próximas seis décadas; hoje, são apenas 8% do ano.

    “O inverno pode passar a ficar parecido com o que conhecemos do verão”, disse o climatologista Fábio Gonçalves, do IAG (instituto de ciências atmosféricas), da USP. A unidade também faz monitoramento do clima, a partir de ponto na zona sul na cidade, e possui observações semelhantes ao verificado pela Folha.

     

    GOVERNOS AINDA TROPEÇAM PARA FREAR PROBLEMA

    As temperaturas mais altas e a frequência maior de eventos extremos ganham contornos mais graves quando se pensa que a cidade não para —nem em população (cresceu uma média de 100,8 mil habitantes por ano na última década) nem em mancha urbana (que hoje ocupa 878,6 km², o equivalente a 57% do território da cidade).

    A Prefeitura de São Paulo lista intervenções como a construção de piscinões, a melhoria da drenagem e a implantação de parques como respostas. Por outro lado, reportagem da Folha no começo do mês mostrou que a cidade tem ao menos 17 grandes obras de drenagem atrasadas.

    A cidade instituiu em 2009, na gestão Gilberto Kassab, sua Política Municipal de Mudança do Clima, que estabelece ações para mitigar os efeitos das mudanças ambientais.

    São Paulo também tem como meta reduzir em 45% as emissões de gás carbônico nos próximos dez anos em relação ao nível de 2010, e promete neutralizar as emissões de gases que provocam efeito estufa até 2050.

    “Os preâmbulos de todos os planos diretores, desde o Plano Urbanístico Básico, de 1968, até o Plano Diretor Estratégico de 2014, têm capítulos dedicados a chuvas, ao meio ambiente”, diz o professor Valter Caldana, da Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie, que afirma que o respeito a variáveis ambientais é um dos fundamentos da boa arquitetura, mesmo antes de se falar em mudanças climáticas.

    “Mas nós adotamos um modelo de desenvolvimento urbano no século 20 que passou por cima dos elementos naturais da nossa topografia, geomorfologia e hidrografia”, diz ele, ao citar o encanamento e enterramento indiscriminado de rios e córregos e a impermeabilização de áreas verdes da cidade.

    É preciso mudar o modo como se produzem cidades, diz o urbanista. E cita coisas práticas: cuidar do mobiliário urbano, aumentar a capacidade de drenagem, acabar com a exigência de recuos de edifícios (o que faz com que se desperdice espaços), fazer com que empresas abram espaços verdes para uso público.

    “Antigamente São Paulo tinha bolsões de calor. Hoje a cidade inteira virou um bolsão de calor. Tem que parar de agir só na emergência e agir cotidianamente”, diz.

    Galeria

    Favelas da Linha e do Nove sofrem com enchente em SPFavelas da Linha e do Nove sofrem com enchente em SP. Idosa recém-operada precisou ser resgatada de casa inundada; há 46 anos, moradores vivem sucessão de tragédias

     

    Secretário de Infraestrutura e Obras da cidade, o engenheiro Vitor Aly afirma que a atual administração tem olhado os problemas derivados das mudanças climáticas de forma propositiva, e não mais reativa como no passado, quando, segundo ele, apenas atacavam os efeitos das enchentes.

    “Os alagamentos acontecem no mundo todo agora. Veja Austrália, Inglaterra, Japão. É um problema da sociedade moderna. Fomos ocupando o território e agora precisamos nos ocupar do problema”, diz Aly.

    Ele lista soluções estruturais que têm sido elaboradas pela prefeitura: a construção de piscinões (já foram entregues oito e planejam mais cinco para 2020); um estudo para alteamento de pontes e pontilhões, que funcionam como represas quando enchem os rios; um mapeamento das 104 bacias hidrográficas e das manchas de inundação da cidade, com o propósito de alertar moradores e construtoras com precisão dos riscos de cada região.

    Um dos compromissos previstos no plano de metas da atual gestão é o de reduzir em 12,6% (2,77 km²) as áreas inundáveis da cidade.

    Nas ações de manutenção, o secretário de Subprefeituras, Alexandre Modonezi, diz que a drenagem tem funcionado bem diante desse desafio pluvial que se avoluma.

    Ele avalia que a limpeza de ramais e de bocas de lobo e a retirada de resíduos de córregos fizeram com que a água da chuva tivesse fluidez no último episódio de chuvas, por exemplo. Segundo ele, a drenagem da cidade levou toda a água para os rios Pinheiros e Tietê —”foram essas artérias que não suportaram todo o volume”, afirma Modonezi. A manutenção dos dois rios é incumbência do governo do estado.

    “Nas outras regiões da cidade tivemos alagamentos pontuais, pequenos, lâminas de água que acabaram sendo drenadas depois de passada a chuva”, completa.

    O plano de metas dedica diversas rubricas à problemática: recuperar 240 mil metros lineares de guias e sarjetas; limpar 2,8 milhões de metros quadrados de margens de córregos; retirar 176.406 toneladas de detritos de piscinões, entre outros.

    Em 2019, o prefeito Bruno Covas (PSDB) anunciou compromisso de elaborar um plano de ação climática para zerar a emissão de gases que provocam efeito estufa nos próximos 30 anos. A proposta do tucano está alinhada às metas do Acordo de Paris, repetidamente atacado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nos últimos anos.

    Ricardo Viegas, secretário adjunto de Verde e Meio Ambiente, diz que o plano será apresentado em junho, mas diversas ações para controle do aumento de temperatura e do efeito estufa já têm sido feitas.
    Ele diz que um grande esforço tem sido feito em relação ao transporte na cidade.

    A chamada “lei do clima”, sancionada pelo então prefeito João Doria (PSDB) em 2018, estabeleceu que as emissões de dióxido de carbono e de material particulado terão que ser zeradas até 2038 pela frota de ônibus municipal, por exemplo.

    A resposta às ilhas de calor e ao aumento de temperatura vem por meio da ampliação das áreas verdes. Nesse sentido, Viegas afirma que a prefeitura implantará dez parques até o final do ano e revitalizará outros 58. A cidade hoje conta com 107 parques.

    Outras propostas da gestão Covas que apontam para o longo prazo são a proibição do fornecimento de utensílios plásticos por estabelecimentos comerciais, a implantação de reuso de água em 100% dos novos equipamentos entregues e ampliação do atendimento da coleta seletiva para todos os endereços da capital.

     

    Fábio Takahashi, Guilherme Garcia, Guilherme Seto, Thiago Amâncio e Diana Yukari

     

     

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    Prof. Luciano Mannarino