Categoria: ATIVIDADES

Modelos de atividades para a Sala de Aula (Geografia)

  • Crise do Clima “Panamá”

    Panamá

    Ressacas e superpopulação forçam indígenas gunas a abandonar ilhas

    A ilha Caranguejo – Lalo de Almeida/Folhapress

    Marcelo Leite/Lalo de Almeida

    22.abr.2018 – 02h00

    GUNA YALA

    Bastou virar o vento para sentir o poder do mar sobre as 370 ilhas do arquipélago de San Blas, na comarca de Guna Yala, Panamá. Quando passou a soprar do norte, ondas de mais de um metro se levantaram sobre os corais em torno da ilha do Diabo (Niadub, na língua indígena guna). As águas, antes verdes, se turvaram com a areia revolvida e avançaram entre os coqueiros que sombreiam duas dúzias de cabanas para turistas.

    A elevação no nível dos oceanos, provocada pelo aquecimento global, não é a única dificuldade a rondar os gunas. Crescimento populacional (60% entre 1920 e 2000), hordas de turistas e desentendimentos com o governo panamenho também ameaçam o modo de vida tradicional nas ilhas do território semiautônomo.

    Victoriano Martínez, piloto do barco, Edwin Smith, proeiro, e Rommel Bastidas, guia de turismo, viram o mar lamber suas barracas armadas perto da linha de maré. Mudaram-nas para mais longe sem uma palavra de queixa. Em minutos estavam a postos na lancha de fibra de vidro com a bandeira vermelha e amarela mostrando uma cruz suástica invertida do Onmaggeddummad Sunmmagaled (Congresso Geral Guna).

    Acima, ilha Formiga (Sichirdub), com continente ao fundo; no alto, 3 dos 6 filhos do pescador Tony Castro Pérez na cabana em que vivem 3 meses do ano – Lalo de Almeida/Folhapress

    O destino da equipe era a ilha Formiga (Sichirdub), um afloramento de areia e coral com não mais que 40 m². Ali se ergue a cabana de palha em que Tony Castro Pérez, 46, vive durante três meses do ano, com seis filhos e a mulher.

    Parecia que a ilhota iria desaparecer sob as ondas, com a mudança do vento. Mas ela só se encolheu, e os filhos, que não haviam saído para pescar, saltavam entre os troncos de coqueiro e muretas de coral que a protegem da erosão.

    O chefe da família buscava nos manguezais de ilhas vizinhas os peixes para uma festa de quatro dias na comunidade em que mora nos meses restantes, na ilha de Pedra (Aggwadub). Ao notar o movimento na Formiga, aproxima-se remando sua canoa. Após vários minutos de negociação com o guia, que lhe mostra as cartas de autorização do Congresso, concorda com a realização de fotografias e entrevista.

    Castro encara com desdém a ressaca, que não chegou a inundar seu casebre, como noutras tempestades. “Estou acostumado às mudanças do vento e do mar. Deus me deu esta terra, vou ficar para sempre, morrer aqui. Não tenho medo.”

    O pescador também faz pouco caso da elevação do nível do mar prevista pelos estudiosos do clima. Para gunas como ele, quando o mar sobe é porque estão nascendo mais peixes. “Só creio em Deus. Cabe a ele dizer se a ilha vai desaparecer ou não.”

    A virada do tempo em dezembro de 2017 não se compara com a tempestade de novembro de 2008. Essa ainda segue viva na memória dos mais de 30 mil habitantes de Guna Yala, estreito território semiautônomo no leste do litoral atlântico panamenho.

    Por duas semanas, a maior parte das casas permaneceu inundada. Na ilha mais apinhada, Caranguejo (Gardi Sugdub), a comunidade se reuniu para rezar na casa cerimonial do Congresso. Dois anos depois, em 2010, cerca de 300 famílias de Sugdub se alistaram para uma mudança definitiva à “terra firme” e se tornaram assim algumas das primeiras pessoas deslocadas pela mudança climática.

    Pressionados também pela superpopulação em algumas das ilhas, planejam fazer meia volta em direção ao continente de onde seus ancestrais partiram, em meados do século 19, para escapar das doenças e dos espanhóis. Só em Sugdub são cerca de 2.000 pessoas numa área menor que dez campos de futebol.

    A vulnerabilidade dos gunas decorre da baixa altitude das ilhas de San Blas, formadas por corais. A costa caribenha do Panamá observou aumento do nível do mar de cerca de 2 mm/ano no século passado, em linha com a média global (1,7 mm/ano). O ritmo avançou para 6 mm/ano nas últimas décadas.

    Na média, estima-se que os mares do mundo subiram 20 cm desde o início da Era Industrial. Boa parte disso decorre de sua expansão térmica, ou seja, da dilatação sofrida pela água ao aquecer-se. Cresce, contudo, a contribuição dada pelo derretimento de geleiras terrestres, principalmente as do Ártico –região do planeta mais afetada pelo aquecimento global, onde a temperatura vem aumentando com o dobro da velocidade do restante do mundo.

    O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC, na abreviação em inglês), órgão criado pela ONU e pela Organização Meteorológica Mundial, prediz que os oceanos subirão algo entre 44 cm e 74 cm até o final deste século, porém não exclui que o avanço alcance 1 m. Seria o bastante para inundar boa parte das cidades costeiras e para riscar do mapa países como Tuvalu ou Kiribati –além de submergir a maioria das ilhas de San Blas.

    As previsões do IPCC, entretanto, já são consideradas muito conservadoras. O derretimento de geleiras se acelera, e só a Groenlândia perdeu 375 bilhões de toneladas por ano –pense num cubo de gelo com 7 km de aresta– entre 2011 e 2014, segundo divulgou o Conselho Ártico (fórum integrado por Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, Finlândia, Islândia, Noruega, Reino Unido e Rússia). As projeções mais recentes falam em 2 m.

    Os 20 cm ganhos com um aumento da temperatura de apenas 1,1ºC podem parecer coisa pouca, mas, somados com marés mais fortes (de sizígia, nas luas cheias e novas) e tempestades com ventos intensos em direção à costa, ocasionam ressacas possantes e destruidoras, que turbinam a erosão marinha.

    Os gunas empregam as mãos e pedras de coral e até lixo para conquistar terreno ao mar. Em lugar de resguardá-los, a prática, na verdade, pode aumentar sua exposição aos rigores do mar do Caribe, indicam cientistas.

    O estudo de caso mais abrangente sobre os gunas e suas ilhas em San Blas foi publicado em 2003 pelo periódico científico “Conservation Biology” e tinha como autor principal o costarriquenho Héctor Guzmán, do Instituto Smithsonian de Pesquisa Tropical no Panamá (STRI, na sigla em inglês).

    Com base em levantamentos aéreos feitos 30 anos antes, estabeleceu-se que a subida do mar tinha subtraído cinco hectares (50 mil m²) das ilhas não habitadas do arquipélago. Em compensação, os aterros tinham agregado outros 6,2 hectares às comunidades insulares.

    Nada menos que 20 km de muros foram erguidos. O ganho de área habitável foi devastador para os recifes de coral vivo. Eles cobriam 60% do arquipélago, nos anos 1970, e a depredação os reduziu para 13%.

    Como os recifes também são barreiras físicas e atenuam a força das ondas durante tempestades, o esforço épico dos gunas acabou por deixá-los mais vulneráveis a eventos extremos como as chuvas de novembro de 2008.

    O bom e o ruim nessa estratégia de sobrevivência ficam visíveis na ilha Mosca (Gugurdub). Rodeada por uma contenção de coral com 30 cm de altura, boa parte do terreno de 200 m² está preenchida com embalagens de alimentos industrializados.

    No centro da ilhota restam só os postes de troncos de coqueiros que sustentavam o telhado de uma casinha. Ainda visível em imagens de satélite, ela foi destruída numa das tempestades que varrem San Blas de dezembro a abril.

    A partir do artigo de Guzmán, o flagelo dos gunas foi eleito como caso exemplar de vítimas do aquecimento global por ONGs internacionais como a Displacement Solutions.

    Num vídeo de animação com três minutos, produzido pelo Congresso com apoio do Smithsonian e da Embaixada do Reino Unido no Panamá, o locutor diz na língua local: “Temos um futuro difícil pela frente. A mudança do clima está aquecendo o oceano, levando a uma elevação gradual do nível do mar e possivelmente a tempestades mais fortes. No curto prazo, precisamos pensar em nossa mudança das ilhas para o continente.”

    Acima, ilha de San Blas em processo de ampliação (estacas no centro da foto); na imagem do meio, a pouca profundidade das ilhas de coral; no alto, uma ilha ocupada do arquipélago – Lalo de Almeida/Folhapress

    A casa de Victoria Navarro na superpopulosa ilha Caranguejo não tem mais que 80 m². Ali vivem 15 pessoas, cujas roupas se espalham pelos varais do pátio compartilhado com outra cabana e pelo chão de terra batida.

    Numa antessala, a senhora recostada na rede borda uma “mola”, parte principal da vestimenta tradicional das mulheres. No cômodo central, em outra rede, três crianças improvisam um karaokê com celular. Atrás delas, o marido da matriarca, Raulio Harris, retira pães do forno.

    “Em nossa tradição, que tem milhares de anos, já nos acostumamos com o nível do mar. Há 60, 70 anos a água chegava aqui até os joelhos com a maré”, explica Navarro. Ela é a escolhida pelo Congresso Geral para coordenar o êxodo de cerca de 220 famílias da ilha para Barriada, um terreno de 17 hectares no continente, de onde se avista parte do arquipélago. As outras 80 famílias alistadas para uma mudança definitiva à “terra firme” são de egressos da Caranguejo que vivem na Cidade do Panamá.

    “Mas é claro que estamos preocupados com os nossos netos”, concede. “Ninguém sabe se vai acontecer ou não. Queremos estar preparados.”

    Navarro diz que não há mais espaço para construir na sua ilha, nem para as crianças brincarem. Há muitas delas correndo pelas vielas, com sacos de Infladitos, um salgadinho, e refrigerantes coloridos Cappy. A ilha tem jeito de favela e um poste com painel solar em cada casa, que fornece energia suficiente para quatro lâmpadas, uma TV de 20 polegadas e a tomada de recarregar celulares. Durante a entrevista, o tradutor Sérgio López usa o aparelho para tomar notas.

    Acima, netos de Victoria Navarro cantam música acompanhando clipe no celular; no alto, em sua rede, a coordenadora da mudança de Gardi Sugdub para o continente

    Acima, netos de Victoria Navarro cantam música acompanhando clipe no celular; no alto, em sua rede, a coordenadora da mudança de Gardi Sugdub para o continente – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    A líder comunitária Victoria Navarro diz que o planejamento da mudança começara sete anos antes. Não contavam com o apoio do governo panamenho. Adquiriram de gunas da própria comunidade a área da Barriada, que fica na mesma comarca e margeia a estrada asfaltada e sinuosa que leva turistas da capital para os ancoradouros de onde partem as lanchas de fibra de vidro destinadas ao arquipélago.

    O terreno já está desmatado, mas não há sinal das 300 casas prometidas três anos antes pelo governo, como parte do projeto Tetos de Esperança, similar ao Minha Casa Minha Vida do Brasil. Saíram todas as licenças, e o Ministério da Habitação e Ordenamento territorial fez uma licitação no valor de US$ 9,4 milhões (cerca de R$ 30 milhões), vencida pela construtora HOS.

    Seus engenheiros já estiveram duas vezes no local, até janeiro, quando deveriam começar as construções, o que não ocorreu. Faltava ainda o aval derradeiro da Controladoria Geral de República do Panamá.

    Quadros mostram líderes históricos do povo guna no Centro Gardi Sugdub, onde ex-moradores da ilha se reúnem na Cidade do Panamá – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    A ausência de casas e de população local não impediu o governo de erguer, em área vizinha, uma escola-modelo com dezenas de salas de aula, laboratórios, dormitórios e um ginásio com sete degraus de arquibancadas. Tudo vazio. O mato cresce entre as passagens cobertas que ligam um prédio a outro. Mais adiante, as obras de um hospital sequer foram concluídas.

    “Achamos engraçado. Tinham de construir as casas primeiro”, comenta Nádia Ehrman Pérez, que secretaria a comissão de reassentamento na Cidade do Panamá.

    Ela recebe a reportagem no restaurante do Centro Gardi Sugdub, para onde convergem os gunas da capital em busca de “dule masi”, o ensopado de peixe, mandioca, banana e coco tradicional nas ilhas.

    “Nossos anciãos não pensavam em pedir ajuda do governo. Aí entraram os jovens, sociólogos, ambientalistas. Agora é tudo com o governo. Talvez se tivéssemos mudado, pronto, já estaríamos vivendo lá”, conjetura. Ela confirma que a elevação do mar tampouco estava em pauta quando os “saglas” (pronuncia-se “saila”) da Caranguejo tiveram a ideia de deslocar a comunidade para terra firme.

    “As inundações estão mais frequentes agora”, diz. “Com a mudança do clima e as enchentes, nossa gente se deu conta de que era necessário mudar, mas nem todos quiseram. Nossos avós não deram muito crédito [às notícias sobre clima].”

    Moradores de Gardi Sugdub na Barriada, área onde será erguida a vila para refugiados da ilha

    Moradores de Gardi Sugdub na Barriada, área onde será erguida a vila para refugiados da ilha – Lalo de Almeida/Folhapress

    Giuseppe “Olo” Villalaz, jovem guna formado em matemática que participou de quatro conferências internacionais sobre mudança climática, explica que o conceito abstrato é de difícil assimilação pelos mais velhos. Seu foco está em conviver com a natureza e suas intempéries, não em lutar contra elas.

    O problema é que nem mesmo existe uma expressão na língua guna para essa noção. Quando falam com os anciãos, os jovens que circulam pelo Panamá e pelo mundo recorrem a algo mais concreto, “neg guaimai”, que quer dizer mudança de temperatura.

    Depois de traduzir a entrevista de Victoria Navarro, Sérgio López se apressa a esclarecer que entre pessoas mais jovens como ele (39 anos, 4 filhos) ninguém tem dúvida sobre a mudança climática. Diz que a incompreensão dos mais velhos está enraizada na cultura: a montanha com florestas e caça é a mãe dos gunas, as árvores são seus primos, os rios, irmãos –e o mar é a avó, que dá de comer o peixe de cada dia.

    Antes de cortar árvores ou corais, pedem-lhes permissão. Existe o costume de falar com as ondas para que se acalmem, quando o mar encrespa. Ameaçam o vento e as nuvens com paus e facões, na tentativa de amedrontar tempestades, mas, por via das dúvidas, no passado construíam casas sobre palafitas para enfrentar as inundações, uma prática hoje em desuso.

    Já o tsunami que varreu o arquipélago no terremoto de 1882 eles atribuem ao castigo de Baba e Nana (Deus) por supostos desvios de comportamento, explica o tradutor e empresário, que vive do turismo e do comércio de gasolina para as lanchas. É como se a divindade cindida dissesse aos gunas: “Estou vivo. Vejam a força com que posso mudar o mundo. Comportem-se”.

    Tempestade se aproxima de ilhas do arquipélago San Blas; em primeiro plano, área conquistada ao mar – Lalo de Almeida/Folha

     

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/panama/ressacas-e-superpopulacao-forcam-indigenas-gunas-a-abandonar-ilhas/

     

     

     

    Prof. Luciano Mannarino

  • Crise do Clima “Litoral paulista”

    Litoral paulista

    Erosão come praias e até casas inteiras; obras tentam conter as ressacas frequentes

    Menino anda sobre escombros de casas destruídas na Praia do Leste, em Iguape, no litoral sul de São Paulo; local sofre efeitos da erosão marinha, intensificada por ressacas – Lalo de Almeida/Folhapress

    Mariana Versolato/Lalo de Almeida

    12.jun.2018 – 02h00

     

    SANTOS, IGUAPE E ILHA COMPRIDA (SP)

    Quando a água invade as casas de palafitas da favela do Mangue Seco, na zona noroeste de Santos (SP), “é hora de se mandar”. Quem avisa é Dyennifer Aparecida da Silva, 35, auxiliar de limpeza que está desempregada.

    “Ela chega no tornozelo, às vezes até no joelho. Aí entra rato, barata, aqueles mosquitos que tu não te aguenta mais. Você pode ser limpíssima, mas o rato come a sua comida.”

    A zona noroeste de Santos se expandiu sobre uma área de manguezal que fica apenas 1,4 metro acima do nível do mar. Na década de 1950, um sistema de drenagem por canais foi instalado na região para permitir a agricultura. É por meio deles que, mesmo a cerca de 15 km da Ponta da Praia, o Mangue Seco se vê invadido por enchentes quando o nível do mar está alto ou a ressaca é forte.

    “O que chamam de minirressaca lá na praia às vezes é um tsunami aqui”, diz Dyennifer.

    Acima, favela do Mangue Seco, na zona noroeste de Santos, que foi alvo de estudos sobre adaptação a mudanças climáticas; abaixo, Dyennifer Silva em frente ao seu barraco – Lalo de Almeida/Folhapress

    Enquanto anda pelas ruelas da comunidade, equilibrando-se em tábuas de madeira com vãos grandes o bastante para se ver o esgoto que corre abaixo, ela cumprimenta vizinhos e familiares –são cinco filhos biológicos e uns 12 ou 13 “de coração”.

    Ela, sua irmã Jane Maria Vieira, 50, e outras dez mulheres são líderes da associação de moradores da comunidade, que pressiona a Prefeitura de Santos por casas populares.

    Enquanto a morada de alvenaria não vem, a vizinhança toda vai elevando as casas e adaptando-as às enchentes mais frequentes e mais altas.

    Para fugir da água, furam o piso para fixar através deles novos pilares que sustentam as casas com pedaços de madeira mais compridos. Fincam o novo suporte do barraco no meio de pneus velhos de caminhões que jogam sobre o lodo na maré baixa e enchem com entulho, areia e brita, na tentativa de estabilizá-los. Uma engenharia “digna da Nasa”, diz Jane.

    “A gente quer um lugar bom pra não se preocupar com ressaca, maré alta, vento, incêndio. Tem gente que olha com pena, acham que a gente está aqui porque quer. Mas são muitos desempregados que não têm como pagar aluguel.”

    É o caso de Antônio Roberto da Silva, 65, o Seu Toninho, e também de Bruno da Silva Araújo, 28. Vizinhos, estão sem emprego e ganham a vida fazendo bicos. As duas casas, no fim da ruela, já à beira de um largo, chamam a atenção. A de Seu Toninho está inclinada, com a parte de trás afundada. A de Bruno, muito mais baixa que as outras, quase encosta na água.

    “Já subi um metro e meio, depois mais uns 90 centímetros, mas vou ter de subir de novo. Quando der ressaca a água vai entrar com tudo”, diz Bruno.

    Antônio Silva, conhecido como Seu Toninho, aponta para a água do mar da janela de sua palafita que está inclinada na favela do Mangue Seco, em Santos – Lalo de Almeida/Folhapress

    A temporada de ressacas vai de abril a setembro. É nesse período que os ciclones extratropicais formados entre a Argentina e o Rio Grande do Sul avançam para o Sudeste do Brasil, gerando ondas de muita energia e grande elevação do nível do mar.

    Ressacas são um fenômeno natural, ressalta o físico e meteorologista José Marengo, coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

    Mas, com o aquecimento global, elas ficam mais frequentes e intensas. O calor da água do mar aumenta a força dos ventos que, por sua vez, geram ondas maiores que batem mais alto na infraestrutura da cidade. Essas ondas também chegam mais longe com o aumento do nível do mar, causado pelo derretimento de geleiras e a expansão de volume de águas aquecidas.

    No mundo todo, o nível do mar subiu 1,7 mm ao ano no século passado, segundo o IPCC (painel de mudanças climáticas da ONU). Em Santos, dados do marégrafo do porto apontam uma alta de 1,2 mm ao ano nas últimas três décadas, totalizando 3,6 cm, com tendência de alta na última década. Fatores como padrões de circulação oceânica e a subsidência do solo, ou seja, o quanto ele afunda, influenciam na medição do nível do mar e ajudam a explicar a taxa menor que a média mundial.

    No futuro, porém, esse aumento pode ser de 18 a 23 centímetros até 2050 e de 36 a 45 centímetros até 2100, como concluiu o Projeto Metrópole.

    Coordenado por Marengo e apoiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), o projeto avaliou, de 2013 a 2017, a capacidade de adaptação às mudanças climáticas de três cidades costeiras: Broward, na Flórida (EUA), Selsey, no Reino Unido, e Santos.

    Na cidade brasileira, os alvos dos estudos foram a turística Ponta da Praia, a última para quem vai do centro da cidade ao porto, e a empobrecida zona noroeste, onde fica o Mangue Seco. Os dois bairros, apesar das realidades sociais contrastantes, são fisicamente vulneráveis ao aumento de nível do mar e a eventos extremos, como ressacas fortes, e já sofrem os impactos da mudança climática, diz Marengo.

    De frente para o mar, o edifício Enseada, obra do arquiteto João Artacho Jurado (1907-1983), é um dos alvos preferidos das ressacas na Ponta da Praia. Na pior já registrada na cidade, em 2005, o carro da microempresária Patricia Castaldino Amado, 41, ficou totalmente debaixo d’água no estacionamento subterrâneo, junto com outros oito veículos.

    Depois do episódio, o prédio instalou um alarme antirressaca, que é acionado pelo porteiro de serviço. Todas as sextas-feiras, às 11h, o aviso sonoro, altíssimo, passa por um teste.

    Numa madrugada de abril de 2016, veio uma ressaca brava e o alarme funcionou como esperado. Patricia, porém, não acordou de imediato. Foi uma das últimas a tirar o carro da garagem. Com a água já alta na avenida, o motor pifou.

    “Agora não tenho mais carro, só ando de Uber. Quem mora na beira do mar tem que se adaptar, né?”

    Morador pesca em barreira de pedras na Ponta da Praia, em Santos, em frente ao edifício Enseada, projeto do arquiteto Artacho Jurado – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    Celia Regina de Gouveia Souza, pesquisadora do Instituto Geológico do Estado de São Paulo e participante do Projeto Metrópole, mantém um banco de dados de ressacas em Santos e observou um salto a partir do final da década de 1990.

    “As décadas de 2000 e 2010 já tiveram mais ressacas do que o último século todo”, diz ela. Em 2010, foram registrados 15 eventos do tipo, contra um máximo de 4 por ano entre 1960 e início dos anos de 1990.

    Adaptar a Ponta da Praia e a zona noroeste de Santos às mudanças climáticas custaria, no mínimo, R$ 300 milhões, segundo o Projeto Metrópole. O valor inclui obras sugeridas pela população, como recuperação do manguezal da zona noroeste, construção de muros antirressaca na Ponta da Praia e melhorias no sistema de comportas e estações de bombeamento.

    Não fazer nada, porém, pode consumir pelo menos R$ 1,2 bilhão. A cifra é conservadora porque leva em conta, no cálculo de perdas, apenas o valor venal de imóveis valorizados, de frente para o mar.

    “Uma parte importante do projeto é a percepção de que há um problema e o que pode ser feito para resolvê-lo. A pesquisa não descobriu a pólvora, mas deu o chute inicial para a população pensar em adaptação”, diz Marengo.

    “O pior que poderia ter acontecido era aparecer alguém dizendo que mudança climática era mentira, coisa de cientista louco, ou a prefeitura dizer que não tinha nada a ver com isso. Pelo contrário, tivemos total apoio e não teríamos conseguido fazer os estudos de outra forma. Agora é com eles.”

    Acima, barcos de mergulhadores próximos de barreira submersa com sacos de areia em Santos, para conter a erosão marinha; abaixo, profissional trabalha no local – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    A instalação de uma fileira de 49 sacos gigantescos de areia dentro do mar na Ponta da Praia, como forma de minimizar a força das ressacas e conter a erosão costeira grave na região, já é uma resposta, diz Marengo.

    Esse trecho está desaparecendo e perdendo faixa de areia. Trampolins, campos de futebol e postes de luz de décadas atrás já não existem mais.

    Com menos areia, as ondas atingem a praia e a avenida com mais violência. As ressacas, por sua vez, levam embora a pouca areia que sobrou na orla já fragilizada.

    As causas da erosão da Ponta da Praia também resultam de obras humanas. Segundo Celia Souza, do Instituto Geológico, o problema se agrava desde a década de 1930, quando a avenida à beira-mar foi construída em cima da praia. O emissário submarino de esgotos e as estruturas de apoio náutico também tiveram impacto.

    À esquerda, embarcação auxilia construção de barreira submersa em Santos para evitar a erosão marinha

    à direita, caminhão descarrega areia para a obra
    À esquerda, embarcação auxilia construção de barreira submersa em Santos para evitar a erosão marinha; à direita, caminhão descarrega areia para a obra – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    A Ponta da Praia só não sumiu de vez por algumas razões. Em primeiro lugar, há décadas a prefeitura a recompõe com areia que as correntes marítimas levam, no sentido oeste, para os canais 1, 2 e 3, onde a praia é mais larga. Além disso, a cidade é uma espécie de armadilha de areia que vem de Praia Grande, Peruíbe e Itanhaém e acaba parando na baía de Santos. A água que sai do emissário submarino e do canal de drenagem número 6 também atrapalha a ação das correntes que levam a areia da praia para alto mar. E, por fim, destroços de um navio que encalhou há décadas na Ponta da Praia também ajudam a fixar a areia por ali.

    Desde 2010, a erosão piorou ainda mais por causa do alargamento e aprofundamento do canal de navegação do porto. A dragagem teria contribuído para o aumento da energia das ondas, segundo admitiu a Codesp (Companhia Docas do Estado de São Paulo) em acordo assinado com o Ministério Público Federal em dezembro de 2017.

    A Codesp se comprometeu a adotar medidas para recuperação, mitigação e prevenção dos efeitos da erosão costeira nas praias da baía de Santos. O acordo explicita que a obra não poderia ser rígida, permitindo fácil reversão ou adaptação em caso de falha, e cita os grandes sacos de areia, chamados de “geobags”, como opção.

    A estrutura, inédita no país, já tinha sido testada na Austrália, no México e na Coreia do Sul. Foi sugerida por Tiago Zanker Girelli, professor da Unicamp que trabalha com engenharia costeira, e seus colegas, como contraproposta a uma ideia da prefeitura de construir um quebra-mar com pelo menos 4 m ou 5 m acima do mar, do canal do porto ao canal 4.

    “Achamos o paredão muito impactante. Poderia acabar com o problema de ressacas, mas ia acabar também com a praia como o santista a conhece.”

    A implantação desse recife artificial construído com “geobags” terminou em abril, bem a tempo da temporada de ressacas. Custou cerca de R$ 3 milhões, dinheiro todo do acordo entre Codesp e Procuradoria. “Se der certo, a gente amplia. Se der errado, é só rasgar os bags e devolver a areia que está neles para a praia”, diz Girelli.

    Já há indícios de que não será preciso. A intervenção está acumulando areia, um ótimo sinal, segundo Girelli. Mas ainda não é hora de comemorar: “Precisamos ver se a estrutura vai sobreviver à temporada de ressacas. Pode ser que venha uma grande como a de 2016 e leve tudo”.

    Os pesquisadores Tiago Girelli (à esq.) e Ricardo Campos fazem medições para estudar impactos da construção de uma barreira cujo objetivo é conter a erosão marinha em Santos – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    Só em fevereiro do ano que vem será possível responder às seguintes questões: os bags conseguirão reter a areia e engordar a praia, especialmente quando houver ressacas? Ou as ressacas vão seguir roubando areia para o canal do porto sem nunca mais voltar?

    A equipe de Girelli segue monitorando não só a Ponta da Praia, mas também as faixas de areia vizinhas. “Não adianta cobrir um santo e descobrir o outro”, diz. Eles também tentam projetar como se dará o uso dos bags no futuro, diante da tendência de alta nas ressacas. “Será que continuarão funcionando com ondas mais altas? Precisaremos enchê-los com mais areia?”

    A microempresária Patricia Amado, que mora em frente à obra, conta que já ouviu muita gente dizer que até 2020 o mar já teria tomado toda a praia. “Até agora não tomou, mas a praia aonde eu levava o meu filho para brincar há 15 anos já não existe mais. Não sei se daqui a 40 anos ainda vai ter praia em Santos.”

    Entulhos de construções que foram destruídas pelo mar e parcialmente cobertos pela areia em Ilha Comprida, no litoral sul de São Paulo; abaixo, morador caminha no local – Lalo de Almeida/Folhapress

    Desde 1992, a geóloga Celia Souza monitora a erosão das praias do litoral de São Paulo. A cada cinco anos, atualiza um mapa dinâmico de risco.

    As praias urbanas com risco muito alto de erosão têm grande chance de sumir, diz ela. Ainda mais com elevação de nível do mar, com mais eventos extremos e com obras de urbanização inadequadas que invadem as praias e roubam areia.

    “Cada vez que visito essas áreas vejo uma imagem diferente. Sempre uma imagem de destruição, mas sempre diferente”, diz. Em cada uma delas, busca as causas da erosão crônica para poder avaliar as melhores medidas de recuperação.

    Em Ilha Comprida e na Praia do Leste, em Iguape, no litoral sul de São Paulo, restos de casas estão espalhadas por grande parte das orlas, como se por ali tivesse passado um furacão. Foram construídas a quilômetros de distância da água, mas o mar as alcançou.

    Pescadores recolhem barco ao lado de árvore que fazia parte de um jardim de uma casa que foi engolida pelo mar em Ilha Comprida (SP) – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    O processo na região, diz Souza, é diferente do de Santos. O cenário é natural, pouco modificado pelo homem. “Há um jogo de empurra-empurra de dinâmicas costeiras instáveis e imprevisíveis, com muita coisa em jogo. É mar, rio, laguna, chuva, onda, eventos extremos”, diz. “Quando cresce areia, todo mundo cresce os olhos e faz casa. Quando erode, vai tudo embora.”

    O contador aposentado Albino Souza, 70, comprou uma casa na Praia do Leste em 1998. “Fiquei uns anos sem vir. Quando cheguei em 2010, ela estava ali, dentro do mar”, diz ele, apontando para um ponto 50 metros adiante, ao redor de destroços de casas na areia.

    Em dezembro, comprou outra casa na Praia do Leste e se mudou de vez, a contragosto dos filhos. “Dizem que sou louco, mas aqui não vem ninguém e eu gosto do silêncio. Pra mim, foi um desastre bom.”

    Sonia Santos caminha por escombros de sua casa que foi destruída pelo mar em Ilha Comprida (SP) – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    A caseira Sonia Maria Santos Carvalho, 57, também perdeu moradia para a erosão. Foram duas casas à beira do mar, das quais ainda se veem os restos.

    Na primeira, viveu 12 anos. “Não era segura, era só de telha. Quando dava o vento sul, trepidava e a gente sentia um medinho. Já tinha histórico [de outras casas arrasadas], mas a minha estava muito longe do mar quando eu vim. Precisei ver pra crer. E aí aconteceu.”

    Na segunda, morou por quatro anos. “Essa deu dó de ver cair. Três quartos bons, tudo de laje, uma casa maravilhosa. Quando o mar bateu e estourou os canos, não tinha mais o que fazer.”

    Ficou três meses morando de ajuda na casa de conhecidos. Depois foi sorteada para ganhar uma casa popular, dessa vez bem longe do mar.

    “Acho que estou protegida por um bom tempo. Dizem que o mar está fechando, que a Ilha Comprida vai sair do mapa. Acho que dá tempo de eu subir [aponta pro céu] antes que isso aconteça. Espero que dê.”

    Homem caminha em meio a ruínas de uma casa engolida pelo mar na Praia do Leste, em Iguape – Lalo de Almeida/Folhapress 
     

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/litoral-paulista/no-litoral-de-sp-erosao-come-praias-e-ate-casas-inteiras-obras-buscam-protecao-contra-ressacas-mais-frequentes/

    Prof Luciano Mannarino

  • Crise do Clima “Porto Rico”

    Porto Rico

    Meio milhão de pessoas devem deixar a ilha devastada pelo furacão Maria

    Dois meses após o furacão Maria, que devastou Porto Rico em setembro, Alfonso Colón ainda retirava escombros de sua casa semidestruída em Punta Santiago – Lalo de Almeida/Folhapress

    Marcelo Leita/Lalo de Almeida

    15.mai.2018 – 02h00

    SAN JUAN

    As pás decepadas das turbinas eólicas da empresa Gestamp em Naguabo, leste de Porto Rico, não deixam dúvida sobre a energia dos ventos. Não tanto a da fonte alternativa que promete amenizar o aquecimento global, mas a força destruidora com que uma atmosfera desequilibrada pela mudança climática lançou a fúria do furacão Maria sobre a ilha, em 20 de setembro de 2017.

    A cerca de 15 km do parque eólico destroçado em Naguabo, outra fonte de energia limpa sofreu o impacto do acúmulo de gases do efeito estufa na atmosfera. Em Humacao, uma fazenda de painéis fotovoltaicos da empresa Reden Solar teve destruída a monotonia de suas fileiras de placas.

    A ilha caribenha foi assolada por ventos de até 250 km/h do ciclone de força 4 ao tocar Porto Rico (sobre o mar, Maria chegou à intensidade 5 e foi um dos furacões mais potentes de 2017). Maria deixou um rastro de US$ 90 bilhões em prejuízos e um Estado norte-americano –se bem que de segunda classe, apenas “associado”– em completo desamparo.

    Acima, pás quebradas de turbinas eólicas em parque de Naguabo, Porto Rico, após passagem do furacão Maria; abaixo, usina de energia solar em Humacao, também destruída pela tempestade – Lalo de Almeida/Folhapress 

    Foi uma temporada inesquecível de furacões. Harvey inundou 100 mil imóveis em Houston, no Texas. Irma foi o mais forte já registrado, com 37 horas na categoria 5. Maria completou a tríade causadora de US$ 265 bilhões de perdas em território norte-americano. Ainda se debate, todavia, se tanta destruição já seria produto da mudança climática global.

    Furacões crescem com o calor da água do mar, e sua temperatura está subindo com o aquecimento global. São fenômenos raros, porém, e as estatísticas sobre intensidade e frequências dessas tormentas não dão segurança plena de que a ligeira tendência de alta registrada no século 20 resulte de perturbações na atmosfera.

    A temperatura da superfície marinha já subiu 1,5ºC no Atlântico Norte, e algumas projeções indicam que se elevará pelo menos mais 1ºC na região, que engloba o mar do Caribe. Modelos de computador que simulam o clima do futuro projetam que furacões de categoria 4 e 5 poderão tornar-se mais comuns, que a intensidade média dos ciclones caribenhos subiria 4% neste século e que a quantidade de chuva despejada aumentaria de 10% a 15%.

    O aeroporto inundou. O próprio governo entrou em colapso, acompanhando a infraestrutura. Pelo menos 90 mil postes caíram. A maioria da população “boricua”, como se chamam os habitantes de Porto Rico, ficou sem energia elétrica, telefonia celular, combustível e internet por semanas.

    Quase oito meses depois, em 18 de abril, a seis semanas de iniciar-se nova temporada de furacões, a ilha voltou a sofrer apagão generalizado. E isso poucas horas depois de o governo anunciar que tudo voltara ao normal e que só 3% da população ainda estava sem luz.

    O olho do furacão Maria entrou na ilha pelo sudeste, em Yabucoa. Cortou-a de ponta a ponta, saindo por Isabela, no noroeste, num percurso aproximado de 190 km. As rajadas mais intensas varreram a porção leste do território, incluindo a capital San Juan.

    Mulher recolhe suas cabras ao lado de casa destruída pelo furacão Maria na comunidade Caonillas, em Utuado, região central de Porto Rico – Lalo de Almeida/Folhapress

    “Rugia como um leão, inexplicável”, conta Janet González, líder comunitária em Punta Santiago, perto de onde irrompeu o olho do furacão. O mar adentrou 300 m de terreno, fazendo emergir águas negras de fossas e esgotos. “O telhado se foi, caiu parte do forro. Já experimentei outros furacões, como Hugo em 1989, mas nem chegam aos pés [de Maria].”

    Janet aguardava o início da distribuição de água e alimentos por um grupo de voluntários do bairro Camarones, na vizinha Guaynabo. Todos vestiam camisetas cor de laranja com os dizeres “No te quites. Levántate. Unidos somos fuertes” (Não vá embora. Levante-se. Unidos somos fortes), alusão aos compatriotas que abandonaram o país depois do furacão, a maioria para a parte continental dos EUA.

    Pessoas atravessam o rio Espírito Santo, em Porto Rico, após a passagem do furacão Maria – Mario Tama – 8.out.17/Getty Images

    Sob o sol forte da uma da tarde, a carreata para na casa de madeira semidestruída de Alfonso Lugo Colón. A sala desapareceu. “Caía água salgada do telhado”, diz. “Não se respeita a palavra de Deus. Aconteceu porque tinha de acontecer.”

    A casa que dividiu por 48 anos com a mulher, morta há dois, está coberta por uma de milhares de lonas plástica azuis distribuídas em Porto Rico pela Agência Federal de Administração de Emergências dos EUA (Fema, na abreviação em inglês). A sua fora esticada por bombeiros de um país cujo nome Lugo não recorda mais.

    Sem luz havia dois meses, portanto sem geladeira, o aposentado sobrevive com as doações. Guarda na cozinha dezenas de fardos de água mineral e latas de alimentos em conserva. “Ajuda do governo, nada. Só das pessoas que trazem comida e remédios.” Lugo já tinha preenchido o formulário da Fema descrevendo suas perdas e aguardava uma decisão da agência sobre uma indenização.

    “Há que ter paciência e tolerância”, conforma-se. “Pelo menos tenho a vida.”

    Maria não poupou nem mesmo os moradores do centro histórico de San Juan, conhecido como Casco Viejo. A capital fica a cerca de 100 km de Punta Santiago, ao norte da trajetória do olho de Maria, na área em que os ventos foram mais devastadores.

    Acima e no meio, moradores de San Juan sofrem com falta de iluminação desde a passagem do Maria; abaixo, homem caminha em Casco Viejo, região da capital iluminada com a ajuda de geradores – Lalo de Almeida/Folhapress

    O escritor Héctor Feliciano mora na Calle Sol, a poucos metros do palácio que abrigou o conquistador espanhol Juan Ponce de León (1474-1521). Sua casa do século 18 resistiu bem, à parte alguns trechos de reboco caído, mas tremeu por horas seguidas –só a mangueira do pátio sofreu dano grave, perdendo folhas e frutos.

    “Foi como o rugido de um dragão somado ao estrondo de um Concorde”, narra o escritor, referindo-se ao avião supersônico popular na França durante as duas décadas em que lá viveu. Escolheu voltar a Porto Rico para criar as duas filhas.

    Ele diz que furacões são como um rito de passagem para crianças do Caribe, até mesmo um dia de festa. A família se mantém unida em torno de um caldeirão enorme de sopa. Maria foi exceção.

    As meninas choraram a noite inteira, de medo. O vento arrasou a rede mambembe de cabos elétricos que passava de casa em casa, num bairro quase desprovido de postes. Os dias e semanas seguintes foram de isolamento quase completo –sem telefone, sem internet, sem poder tirar dinheiro do banco, levantando às 4h da manhã para tentar conseguir gasolina.

    Os únicos contatos eram com vizinhos, que se organizavam para limpar as ruas de escombros. Aficionados de corridas de cavalos, os raros donos de radinhos de pilha, tornaram-se subitamente populares.

    “Porto Rico possuía uma penetração digital de 70% e a arrogância em aço inoxidável dos países digitalizados”, escreveu Feliciano numa crônica. “Em poucas horas, Maria arrasou a arrogância e a falsa abundância que a sustentava.”

    De pouco valeu aos boricuas habitar um Estado associado dos EUA. Sem meios de honrar uma dívida pública de US$ 73 bilhões (cerca de R$ 230 bilhões) já antes do desastre, os 3,4 milhões de habitantes da ilha viram o presidente Donald Trump dizer, três semanas depois, que teriam de arcar com o peso maior da recuperação.

    Entulho em frente de casas atingidas pelo furacão Maria em Porto Rico; abaixo, caminhões despejam escombros em aterro sanitário de Toa Baja, também na ilha caribenha – Lalo de Almeida/Folhapress

    O republicano também os congratulou pelo número baixo de mortos (a cifra oficial era 16, naquela altura), em comparação com as vítimas do furacão Katrina em Nova Orleans (1.833), em 2005. Após a visita de Trump, o número de mortos reconhecido pelo governo de Porto Rico continuou subindo, até alcançar 64 em novembro, mas mesmo essa cifra foi posta em dúvida.

    Sob pressão, o governador Ricardo Rosselló designou uma comissão para revisar o número. Embora a contagem oficial supostamente inclua as chamadas vítimas indiretas, aos poucos tornou-se claro que não estavam sendo consideradas as mortes de pessoas por falta de ambulâncias ou de energia para realizar diálise, por exemplo.

    Estimativas independentes indicam que haveria pelo menos mil vítimas não contabilizadas. Investigação do jornal “The New York Times” com registros de óbitos de setembro e outubro em 2016 e 2017 apontou excedente de 1.052 mortes após o furacão. Estudo do demógrafo Alexis Santos, da Universidade do Estado da Pensilvânia (EUA), e do colaborador Jeffrey Howard chegou a quantidade semelhante: 1.085.

    “Nenhuma estrutura está preparada para um evento dessa magnitude. Jamais imaginei que seria possível”, disse à Folha a advogada Tania Vásquez, secretária de Recursos Naturais e Ambientais de Porto Rico. “Os rios saíram de seus leitos por até três milhas [quase 5 km]… Nem nas previsões para 500 anos.”

    “Há que mudar toda nossa maneira de ver as coisas”, afirma a advogada, o que inclui proteger os recifes de coral que amenizam o impacto das ressacas ciclônicas. “Mas, se seguirmos aquecendo o planeta, não sei, não.”

    Interior de casa em Toa Baja que ficou alagada com a passagem do furacão Maria em Porto Rico – Lalo de Almeida/Folhapress

    José Molinelli, geomorfólogo da Universidade de Porto Rico, diz que a vulnerabilidade da ilha não diz respeito só a furacões, mas também a terremotos e tsunamis. Se os oceanos subirem um metro, algo que pode ocorrer até o final do século em consequência da mudança climática global, a infraestrutura hoteleira da ilha estaria ameaçada, pois foi construída a não mais que 100 m da linha de maré.

    “A visão inteligente, resiliente, é respeitar os locais da natureza, sair das áreas inundáveis”, defende. “Há que pensar em como redesenhar o país.”

    A geóloga Maritza Barreto, da mesma universidade, investiga a erosão marinha, ameaça mais constante a rondar a Ilha Encantada (frase constante em placas de automóveis). Levantamento seu amostrou 60% dos 580 km de costa e constatou que pelo menos um quinto das praias já sofreu erosão grave, sob ação de ressacas causadas por frentes frias que entram de novembro a março e se tornam cada vez mais frequentes.

    No bairro de classe média Ocean Park, orla marítima de San Juan, o mar retoma 1,2 m de terreno por ano. Em Loiza, uma faixa de manguezais, lagunas e dunas habitadas na maioria por descendentes de escravos africanos, o avanço do oceano alcança 1,8 m/ano.

    Na comunidade de Piñones moram cerca de 2.000 pessoas. Apenas 15 casas se perderam –segundo Maricruz Rivera Clemente, líder comunitária, porque as dunas e o mangue oferecem proteção contra as ressacas. Ela reclama que a ajuda do governo mal chega ao local, o que atribui ao racismo não declarado em Porto Rico.

    O artesão David Morales, veterano da Guerra do Iraque, teve sua oficina na parte de trás da casa destruídas pelo furacão Maria em Loiza, Porto Rico – Lalo de Almeida/Folhapress

    Perto dali o artesão negro David Tejada Morales, veterano de três temporadas de combate no Iraque, é o retrato do desamparo: perdeu parte da perna, não na guerra, mas depois de pisar num prego, e aos 69 anos mora sozinho na metade da casa que não foi derrubada por Maria. Caiu a oficina na parte de trás, onde fazia artesanato com metal. Agora passa os dias na cadeira de rodas, à espera.

    Uma funcionária da Fema tinha visitado a casa dois dias antes para tirar fotos do estrago. Morales animou-se quando viu da varandinha mais indivíduos brancos tirando fotos na rua, pensando que a Fema retornava com boas notícias sobre indenização –mas era só a reportagem da Folha.

    Árvores começavam a recuperar umas poucas folhas em novembro, dois meses após a passagem do furacão Maria em Utuado, Porto Rico – Lalo de Almeida/Folhapress

    Estima-se que cerca de 20% das árvores de Porto Rico jamais se recuperarão. Nas que sobreviveram, folhas brotam diretamente dos troncos e cotos de galhos, o que as deixa parecidas com grandes cotonetes verdes. Há relatos de borboletas diurnas circulando à noite em busca de flores inexistentes e morcegos desorientados pela falta de frutos.

    As estradas que levam a Utuado –cidade das mais afetadas– ainda compunham em novembro um cenário de bombardeio, com crateras e montes de terra por todos os lados. Poucos carros circulam por elas, não raro veículos de empreiteiras e companhias elétricas envolvidas em reparos, ou camionetes de excursões que combinam caridade com selfies.

    Diante da casa de Yessica Matos Torres, um SUV novo, vidros tingidos de preto, estaciona para o desembarque de um jovem loiro com o letreiro #yonomequito (eu não vou embora) na camiseta justa. Os olhos da jovem mãe se enchem de lágrimas ao receber um fardo de água mineral Cristalia e o cartão Visa no valor de US$ 300.

    Da morada de Carlos Soto López sobrou só o portãozinho pendurado num pedaço de mureta, onde se lê que a família está na próxima casa, estrada acima. A sua deslizou pelo barranco às 2h20 da madrugada, solapada por uma bica d’água que virou riacho. Ainda pode ser visto 20 m abaixo um carro amarrotado na garagem destruída.

    Sem condução para chegar ao trabalho a 20 km de distância, numa ilha em que quase não vê transporte público, Soto perdeu o emprego de motorista de caminhão de lixo. Ele sustenta agora os dois filhos pequenos fazendo bicos como mecânico na casa em que ocupou, do amigo Manolo, que se mudou para os EUA.

    Casa de Carlos Lopez na comunidade de Caonillas que foi arrastada pela enxurrada durante passagem do furacão Maria pela região – Lalo de Almeida/Folhapress

    Porto Rico já vinha perdendo população para o continente, em especial para o a Flórida, à taxa de meio milhão de pessoas por década, empurradas pela estagnação do emprego. Nos dois meses após o furacão, o abandono se acentuou, com quase 200 mil borícuas embarcados em voos para os EUA.

    Edwin Meléndez e Jennifer Hinojosa, demógrafos do Centro de Estudos Porto-Riquenhos da Universidade da Cidade de Nova York (Cuny, na sigla em inglês), estimaram que até 470 mil nativos, ou 14% da população da ilha, poderão emigrar em definitivo para o continente nos dois anos após o furacão.

    As vítimas de Maria fogem de um futuro turvado pela necessidade de reconstruir um país fisicamente devastado e financeiramente falido. Só a tarefa de recolher os escombros das ruas e estradas –um volume projetado em 6 milhões de metros cúbicos, ou o equivalente a 2.400 piscinas olímpicas– deve consumir seis meses.

    “Não sabemos mais em que país estamos”, lamenta Jorge Báez, ambientalista da ONG Para La Naturaleza.

     

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/porto-rico/meio-milhao-de-pessoas-devem-deixar-a-ilha-devastada-pelo-furacao-maria/

     

     

    Prof Luciano Mannarino

  • Crise do Clima “Portugal”

    Portugal

    Tempestades de fogo mataram 115 portugueses em 2017

    Casas queimadas em Almaça, região no centro de Portugal que foi atingida por incêndios florestais em junho de 2017 – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    Giuliana Miranda/Lalo de Almeida

    8.mai.2018 – 02h00

    CERDEIRA

    O agricultor António Marques da Costa, 74, anda todos os dias por um caminho de terra batida até uma fonte próxima para recolher a água com que abastece seus animais. Em seu percurso, na aldeia de Cerdeira, no centro de Portugal, contempla aquilo que foi destruído em 16 de outubro de 2017.

    Naquela noite anormalmente quente de outono teve início o pior incêndio florestal do ano, um dos maiores da história em Portugal. “Já vi outros fogos, mas não como esse. Os outros arderam e apagaram-se bem.”

    Foram 49 mortes, que se somaram às 66 vítimas de outro incêndio quatro meses antes. Muitos em Portugal associam os fogos à mudança climática causada pelo aquecimento global, mas, antes de tudo, criticam o despreparo das autoridades para lidar com a emergência.

     

    O agricultor António Marques da Costa, 74, caminha com um garrafão de água em meio a oliveiras em Cerdeira, na região central de Portugal – Lalo de Almeida/Folhapress

    À beira da estradinha, uma oliveira centenária consumida pelas chamas ainda carrega dezenas de azeitonas. Os frutos, que já estavam próximos da colheita, pendem murchos dos galhos. A paisagem se repete até onde os olhos alcançam.

    Marques da Costa presenciou algo que se torna mais e mais comum em Portugal e noutras partes do mundo, como a Califórnia, nos Estados Unidos. São as chamadas tempestades de fogo, incêndios florestais poderosos que realimentam as chamas com as próprias correntes de ar que criam, desde que hajam as condições meteorológicas adequadas e material combustível abundante.

    “O pior foi ver a arder tudo o que nós criamos aqui. Andávamos aí para trás e para frente para salvar uma casa em que eu fui criado e que eu dei aos filhos.” Além de mais de uma centena de oliveiras, o agricultor perdeu plantações, uma área com castanheiras e uma casa usada para guardar material de trabalho. Diz que não tem esperança de recuperar o que foi perdido no incêndio.

    “O que tiver, guarda-se. As casas eu já não recupero. Dinheiro [para reconstruir a casa e as plantações] eu não tenho. Minha aposentadoria é só de 300 euros, não dá para nada.”

     

    Vegetação e casas queimadas em área rural de Oliveira do Hospital, que foi atingida por incêndios florestais em 2017 – Lalo de Almeida/Folhapress

    Embora os incêndios florestais sejam bastante comuns no verão de Portugal, a extensão e a gravidade dos danos em 2017 foram inéditas: 115 mortos e ao menos 5.000 km² atingidos, mais que o triplo da superfície do município de São Paulo. Causou surpresa que os dois principais incêndios tenham acontecido no outono e na primavera.

    A tragédia anterior se dera em 17 de junho, um sábado de sol a quatro dias do início do verão. Deixou 66 mortos, incluindo nove crianças e adolescentes, e mais de 250 feridos na região de Pedrógão Grande e Góis, no centro do país.

    No dia 16 de outubro, outro incêndio florestal, desta vez na região de Oliveira do Hospital, Castelo Branco e adjacências, também na área central do país, matou 49 pessoas e deixou mais de 70 feridos.

    Os prejuízos materiais foram de cerca de 1 bilhão de euros (cerca de R$ 4 bilhões), segundo o secretário de Estado do Desenvolvimento e Coesão, Nelson de Souza. E tudo indica que esse tipo de catástrofe pode se tornar mais frequente.

    Compare o passado recente de Espanha e Portugal, países limítrofes com clima semelhante e resultados distintos no que respeita a incêndios: enquanto na Espanha, a partir de meados da década de 1980, houve redução considerável da área queimada, em Portugal quase não houve variação.

    Ainda não é possível afirmar de forma taxativa que o aumento dos incêndios florestais em Portugal seja resultado do aquecimento global. Mas há indícios consistentes disso, aponta o climatologista Pedro Miranda, diretor do Instituto Dom Luiz –instituição dedicada à pesquisa de meteorologia, clima, geofísica e ciências da Terra– da Universidade de Lisboa.

    “Para haver fogo, é preciso ter floresta. E esta floresta deve ter condições favoráveis para arder. Isto é, tem de estar seca e em temperaturas elevadas.”

    Em Portugal, a diminuição das chuvas, com períodos prolongados de seca em vários anos, é uma das principais manifestações das alterações climáticas. E viria daí o maior fator a contribuir para a ocorrência de incêndios.

    “Nesses últimos anos, temos tido várias secas: em 2003, 2005, 2017. E elas vêm coincidir com períodos de mais fogos”, afirma Miranda.

     
     

    O climatologista afirma que já existem estudos reforçando a correlação entre as mudanças climáticas e a ocorrência de incêndios. Para confirmá-la de vez, entretanto, seria preciso um volume maior de dados.

    Os números do IPMA (Instituto Português do Mar e da Atmosfera), órgão vinculado ao governo, vão nessa direção. O ano de 2017 foi mesmo extremamente quente e seco: a temperatura média do ar ficou cerca de 1,1ºC acima do normal, fazendo dele o segundo ano mais quente desde 1931, atrás apenas de 1997.

    Proprietária de uma empresa de obras e serviços ligados à construção civil, a empresária Verónica Fonseca diz viver na pele aquilo que os cientistas descrevem em números. As instalações de sua fábrica foram destruídas no grande incêndio de outubro, que extrapolou a floresta e chegou à zona industrial de Oliveira do Hospital. Mais de 70 empresas queimaram na localidade.

    “Aqui eu noto muito: cada vez tem chovido menos”, relata. “Nesta região não é nada normal, nós passávamos semanas e semanas com chuva, e agora não tem acontecido isso. Eu acho que o tempo tem andado um bocadinho para frente. Não sei se há aqui algumas alterações climatéricas, mas todos os anos se prolonga mais o tempo de calor e de seca”, conta a empresária, nascida e criada na região.

    Ela fita com tristeza o amontoado de ferro retorcido no qual se transformou a fábrica fundada por seu pai há 40 anos. Uma dezena de funcionários escava os escombros e as cinzas em busca de materiais aproveitáveis. Caminhonetes de serviço são reconhecidas apenas por seus esqueletos.

    “Era como se o fogo voasse”, diz, relembrando os ventos fortes que ajudaram a propagar as chamas pelo ar seco. “Geralmente os fogos florestais aconteciam, mas nunca tiveram uma dimensão completamente catastrófica”, conta.

    Ela estima que seu prejuízo seja de pelo menos 1 milhão de euros (aproximadamente R$ 4 milhões). Reclama de pouca atenção do Estado português e mesmo da comunidade internacional.

    “Quando houve a situação em Pedrógão [o incêndio de junho que matou 66 pessoas], houve muita divulgação. Aqui foi bem menos”, compara. “Talvez porque lá houve mais perdas humanas.”

     

    Empresa de obras e serviços ligados à construção civil que foi destruída por incêndio florestal em 2017; abaixo, a empresária e proprietária do local Verónica Fonseca observa interior do estabelecimento – Lalo de Almeida/Folhapress

    Os incêndios de 17 de junho ficaram marcados sobretudo pelas imagens do trecho de rodovia que concentrou a maioria das vítimas fatais das chamas. No dia do incêndio, havia muitos visitantes na região de Pedrógão Grande, conhecida pelo turismo em suas praias fluviais. É um destino popular para quem viaja de Évora a Coimbra, duas das cidades históricas mais visitadas de Portugal.

    Quase seis meses após a tragédia, quando a reportagem da Folha esteve no local, as árvores queimadas e as placas de trânsito destruídas testemunhavam de modo sutil o que aconteceu na via nacional 236, que passou a ser conhecida como estrada da morte.

    A rodovia, assim como outras do interior de Portugal, é estreita e serpenteia por entre uma vegetação densa de pinheiros e eucaliptos, duas espécies com alto poder combustível.

    Segundo o relatório da comissão independente que investiga o incêndio, o local do sinistro tem ainda uma inclinação que aumenta em 67% a velocidade de propagação das chamas em comparação ao terreno plano. Quanto maior é a inclinação, maior é o efeito das colunas de convecção que aquecem a vegetação, o que ajuda a espalhar as chamas no sentido ascendente.

     

    As vítimas tentavam usar a via como rota de fuga do incêndio, mas acabaram morrendo ao ficarem encurraladas em um trecho de menos de 500 metros que foi engolido pelo fogo.

    Um ponto bastante criticado foi a falta de resposta das autoridades, especialmente o número insuficiente de bombeiros, que em Portugal são em sua maior parte voluntários (os profissionais normalmente se restringem às cidades maiores).

    A quantidade de bombeiros vem caindo em Portugal, segundo dados do INE (Instituto Nacional de Estatística). Em 2015, o efetivo era de pouco menos de 29 mil bombeiros. Dez anos atrás, eram 42 mil. Um dos principais motivos é demográfico: há cada vez menos pessoas –especialmente jovens– vivendo no interior do país.

    Os eventos derrubaram dois nomes da cúpula política: a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, e o chefe da Proteção Civil, Joaquim Leitão, criticados pela atuação no primeiro grande incêndio e pelo fato de não terem evitado o segundo, quatro meses depois.

    Flores colocadas na beira de estrada próxima a Pedrógão Grande em homenagem às vítimas dos incêndios florestais que atingiram a região central de Portugal em 2017 – Lalo de Almeida/Folhapress

    Não faltam relatos de tentativas, em vão, de conseguir auxílio. “Eu tentei pedir ajuda, mas nós não tínhamos comunicações em lado nenhum. As únicas autoridades que a gente viu foi muita polícia, a tentar coordenar, mas a certa altura até eles próprios já estavam preocupados com as próprias vidas deles. É mesmo assim: cada um estava por si”, conta a empresária Verónica Fonseca, sobre a noite do incêndio em sua fábrica.

    Sócio da fábrica Azeites do Cobral, o empresário Luís Miguel Brito também se viu sem apoio para combater as chamas naquela noite. Proprietário de caminhões, tratores e alguns equipamentos que dispersam água, ele precisou escolher entre salvar sua plantação de azeitonas ou as casas de seus vizinhos. Optou pelos vizinhos.

    “Eu tenho 30 hectares de olival, e ele foi destruído na totalidade. Tanto o olival tradicional, quanto os antigos, centenários. Perdeu-se para sempre a qualidade do azeite produzido pelas oliveiras centenárias.”

    Ele aposta em uma redução significativa no volume de azeite produzido em toda a região. O movimento fraco do lagar –local de processamento das azeitonas para obter azeite– em pleno período de colheita indica que os agricultores tiveram perdas significativas.

    Morador caminha em frente à casa destruída por incêndio florestal em Cerdeira, centro de Portugal – Lalo de Almeida/Folhapress

    A região de Oliveira do Hospital, onde fica a Azeites do Cobral, passou anos sem grandes sobressaltos por causa de incêndios. Um feito atribuído, entre outros fatores, ao bom manejo das florestas, como a limpeza constante das áreas de mata, diminuindo o material seco que alimenta as chamas.

    A realidade não se repete no restante do país, segundo especialistas, que classificaram as regras de ordenamento florestal de Portugal como insuficientes. Áreas com espécies nativas, como carvalhos e castanheiras, vêm sendo replantadas com pinheiros e eucaliptos, que oferecem retorno financeiro mais rápido, mas são mais propensas ao fogo por formarem bosques homogêneos de árvores resinosas que acumulam biomassa seca sobre o solo.

    De acordo com o Inventário Florestal Nacional, houve um aumento de 13% na quantidade de eucaliptos em Portugal entre 1995 e 2010. Hoje a árvore originária da Austrália é dominante nas florestas portuguesas.

    “Os incêndios dependem muito da ocupação dos terrenos e da maneira como ela é gerida”, diz o climatologista Pedro Miranda. “Se a nossa floresta não tivesse uma grande quantidade de árvores muito fáceis de entrar em combustão, ela seria mais resistente.”

    No relatório do estado do ambiente de Portugal em 2017, a Agência Portuguesa do Ambiente indica que os eventos ambientais extremos que marcaram o ano devem ser encarados como um prenúncio do que está por vir.

    “A seca grave, as temperaturas acima da média, a intensificação de fenômenos meteorológicos extremos que vivemos neste ano serão, de acordo com grande parte da comunidade científica, a nova realidade”, alertam.

    Coordenador do Plano Intermunicipal de Adaptação às Alterações Climáticas da Região de Coimbra, a maior do país, com 19 municípios, João Carlos Mano Castro Loureiro, professor da Universidade de Coimbra, destaca que algumas características da floresta portuguesa, como a concentração nas mãos de pequenos proprietários privados, tornam necessária a criação de políticas públicas de estímulo à preservação de espécies autóctones.

    Acima, oliveiras destruídas por incêndios florestais em Travanca dos Lagos; abaixo, o empresário Luís Brito que precisou escolher entre salvar sua plantação de azeitonas ou as casas de seus vizinhos – Lalo de Almeida/Folhapress

    Suas projeções indicam que a própria viabilidade do eucalipto pode ficar comprometida diante do aumento das temperaturas e das mudanças que vêm com ele. “Pode haver oportunidade para espécies nossas, autóctones, muito mais bem-adaptadas a este clima.”

    O governo prometeu ainda para 2018 apresentar alterações na legislação florestal, inclusive na regulamentação do eucalipto e de outras espécies estrangeiras.

    Para os pesquisadores, é preciso também insistir na conscientização das populações para a nova realidade florestal no contexto da mudança climática. Em Portugal, assim como no Brasil, existe uma cultura de fazer queimadas para “limpar” o terreno.

     
     

    “As pessoas têm isso como sua rotina anual, um bocadinho insensível às condições [meteorológicas] daquele momento”, avalia o pesquisador. “Infelizmente, na tragédia que houve em outubro último, [foi] uma das principais razões para as pessoas terem feito queimadas.”

    O relatório interdisciplinar contou ainda com técnicos no terreno, que fizeram perguntas à população sobre as alterações climáticas. A socióloga Fátima Alves, pesquisadora da Universidade de Coimbra, destaca que são poucos os que não acreditam no aquecimento global e em suas consequências.

    “De um modo geral, já ouviram falar das alterações climáticas, conseguem identificar onde é que elas se manifestam em seu dia a dia”, avalia. Mas isso não basta: “As pessoas sabem o que se passa, mas não estão, digamos, igualmente comprometidas com a mudança do seu próprio comportamento”.

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/portugal/tempestades-de-fogo-mataram-115-portugueses-em-2017/

    Prof Luciano Mannarino