Categoria: ATIVIDADES

Modelos de atividades para a Sala de Aula (Geografia)

  • Crise do Clima “Peru”

    Peru

    Camponês processa empresa alemã e pede indenização por encolhimento de geleiras

    O camponês e guia de montanha Saúl Luciano Lliuya caminha junto ao que restou de uma das geleiras da cordilheira Branca, norte do Peru – Lalo de Almeida/Folhapress

    Marcelo Leite/Lalo de Almeida

    29.mai.2018 – 02h00

    HUARAZ

    Juan Victor Morales Moreno, 52, tem um dos empregos mais solitários do mundo. Salvo incursões até o centro de Huaraz (Peru) nas folgas quinzenais, ele vigia o ano todo a lagoa Palcacocha (4.562 m de altitude), na cordilheira Branca, 100 m abaixo de sua cabana de pedra.

    O salário é de 2.500 soles (cerca de R$ 2.800). A missão: a cada duas horas, noite ou dia, relatar qualquer perturbação no lago glacial, por rádio ou telefone de satélite, ao Centro de Operações e Emergência Regional do departamento (estado) de Ancash. O trabalho como guardião da montanha castigada pelo aquecimento global já dura três anos.

    Toda sua atenção se volta para as geleiras Palcaraju e Pucaranra, que pendem ameaçadoras a 600 m acima do espelho d’água. De sua estabilidade depende a segurança de 25 mil huaracinos que vivem no chamado cone de risco aluvional (cerca de um sexto da população).

    Juan Victor Moreno vigia a lagoa Palcacocha, na cordilheira Branca, Peru; ele relata por rádio ou telefone de satélite qualquer perturbação no local – Lalo de Almeida/Folhapress

    Palcacocha ganhou notoriedade internacional quando um desses moradores –Saúl Luciano Lliuya– colocou-a no centro de um processo judicial na Alemanha contra a empresa de energia RWE. A ação demanda que a companhia pague uma parcela de 17 mil euros (R$ 68 mil) das obras de segurança na lagoa, com custo total estimado em R$ 20 milhões.

    A quantia corresponde ao quinhão de responsabilidade atribuído à RWE (0,47%) por todas as emissões de gases do efeito estufa lançadas no mundo desde 1854, segundo estudo publicado em 2014 por Richard Heede, do Climate Accountability Institute dos EUA.

    Por improvável que pareça, as cortes alemãs deram seguimento ao processo.

    A ameaça posta por Palcacocha é concreta. Em 1941, a lagoa tinha volume 30% menor que o atual e causou cerca de 2.000 mortes em Huaraz. Naquela manhã de 13 de dezembro, uma avalanche de pedras e lama cortou a cidade ao meio.

    Acredita-se que um bloco dos glaciares se desprendeu e criou uma onda com dezenas de metros de altura. Rompeu-se o dique natural de rochas e terra solta da moraina (depósito de fragmentos transportados pela geleira em movimento).

    Restaram então somente 500 mil m³ de água no reservatório, o equivalente a 200 piscinas olímpicas. Com o contínuo derretimento de Palcaraju e Pucaranra, tal volume multiplicou-se por 34.

    Tubulação que drena a água da Palcacocha, na cordilheira Branca; com aumento do volume do reservatório, uma eventual avalanche pode criar tsunami e aluvião que devastariam a cidade de Huaraz – Lalo de Almeida/Folhapress

    “No ano passado, no mês de maio, houve uma avalanche moderada da montanha Palcaraju. Caiu diretamente na lagoa e produziu uma onda de três metros”, conta o vigilante Victor Morales. “Levou os sifões para a parte esquerda e os amontoou como se fossem espaguete.”

    Morales se refere aos dez tubos negros com 25 cm de diâmetro que sugam água do meio da lagoa e a descarregam na cabeceira do riacho Cojup. O conjunto oferece um reforço para a tubulação de escoamento sob o dique de 7 m construído depois do terremoto de 1970, que, sozinho, não dá conta de manter a água na cota de segurança em época de chuva e derretimento acelerado, de setembro a maio.

    Trata-se de um sistema provisório e insuficiente, afirma o engenheiro Luis Alberto Beltrán Flores. Ele é o consultor do governo regional de Ancash para o projeto de obras de segurança em Palcacocha e outras 22 lagoas glaciais.

    A meta é rebaixar o nível de Palcacocha ainda mais. Para afastar o perigo pior, haveria ainda que construir um dique com o triplo de altura (20 m), reforçado com concreto.

    Por ora, só os termos de referência para a licitação foram feitos. Falta aprovar um orçamento do governo federal para contratar uma empresa que detalhe o projeto executivo de engenharia.

    Anoitecer na cidade de Huaraz, que fica aos pés da cordilheira Branca, no norte do Peru – Lalo de Almeida/Folhapress

    Ao lado de Beltrán na montanha, Mirtha Cervantes, secretária de Meio Ambiente e Recursos Naturais do governo de Ancash, ressalva que já se iniciou a implantação de um sistema de alerta precoce à população.

    O dispositivo envolverá o uso de sensores, sinais sonoros e exercícios de evacuação da zona de risco, no curto prazo de 40 minutos entre um “evento” em Palcacocha e a devastação de Huaraz. Por ora, tudo ainda está nas mãos –ou nos olhos e ouvidos­– do guardião Victor Morales.

    Depois de passar seu informe por rádio, o vigilante de Palcacocha serve canecas de leite com arroz doce cozido aos visitantes esfalfados pelo impacto da altitude. São 10h da manhã e, ao longe, começa o ronco diário de pequenas avalanches em Palcaraju e Pucaranra deflagradas pela temperatura em elevação.

    Nenhuma alcança a lagoa.

    O agricultor Saúl Luciano (envolto em manta listrada) observa a filha brincar ao lado de sua mãe (à dir.) enquanto sua mulher, Lidia (à esq.), colhe menta em Llupa, zona rural de Huaraz – Lalo de Almeida/Folhapress

    O guia de montanha e agricultor Saúl Luciano Lliuya, 37, fala baixo e de modo pausado. Durante entrevistas, revira os olhos nas órbitas, ao que parece buscando as palavras corretas em espanhol (até os seis anos, só falava quéchua em casa).

    Sua contenção destoa da imagem de camponês intrépido, que conduz turistas em segurança pelas paredes de gelo da cordilheira Branca e se aventura a processar uma potência empresarial em terras alemãs.

    O amor pelas montanhas venceu a timidez, é a sua explicação. Ele as sente correr nas veias como a água do degelo corre pelas “quebradas” (calhas dos riachos glaciais).

    O pai era carregador de escaladas. Menino, Luciano ficava fascinado com os equipamentos e as fotografias. “Cresci nesse ambiente. Aos 8 anos já caminhava por lá, [na altitude de] 4.500 metros, 4.800 metros”, recorda.

    Os três anos de curso para liderar grupos de turistas são um recurso comum das novas gerações para aumentar a renda nos meses secos, de junho a agosto. No restante do ano, Luciano planta e colhe batatas, quinoa, trigo e cevada na propriedade da família em Llupa, povoado a 15 minutos de carro do centro de Huaraz.

    Na garagem da casa de adobe com dois pisos, o guia tem uma perua Toyota –“station wagon”, como se diz na região– que usa para ir à cidade de noite, para as aulas de inglês, e em serviços de táxi informal. Às vezes dorme na segunda casa, que está terminando de construir em Nueva Florida, bairro incluído no cone de risco de Palcacocha.

    “Quando comecei a sair como guia, em 2002, vi que tudo era muito lindo. Nos anos seguintes na montanha, encontrava [os glaciares] cada vez menores”, conta.

    Acima, menino em frente a cruz feita por camponeses para proteger a terra, em Llupa, Huaraz; abaixo, ele observa camponesa que transporta lenha para cozinhar – Lalo de Almeida/Folhapress

    Ele já havia ouvido falar de aquecimento global na escola. Pesquisando sobre o descongelamento, as lagoas e os aluviões, descobriu que havia uma relação com a mudança climática: “Tudo isso é causado pela poluição, pelas indústrias, toda uma cadeia de relações”.

    “Isso te afeta. Estás perdendo algo. Além disso, sabíamos que Palcacocha era uma lagoa que estava em risco, crescendo. Perguntava-me o que deveria fazer. O que vai acontecer quando já não houver montanhas, água suficiente?”

    O contínuo derretimento de geleiras não cria só o risco emergencial de colapso das lagoas glaciais. Elas ameaçam também o futuro do Peru, que ficará sem água para gerar eletricidade e abastecer a população –um terço da qual vive na capital, Lima, quase inteiramente dependente do degelo para dar de beber a seus habitantes.

    Em 2014, quando se realizou em Lima a 20ª conferência internacional sobre mudança do clima, Luciano conheceu José Valdivia Roca, da ONG Wayintsik (“nossa casa”, em quéchua). Valdivia lhe apresentou Noah Walker-Crawford, um jovem antropólogo de família norte-americana nascido na Alemanha, que trabalhava na ONG Germanwatch.

    Das muitas conversas sobre como reagir à destruição da cordilheira Branca surgiu a ideia de responsabilizar os causadores da mudança do clima. A RWE terminou escolhida por ser a maior emissora de gases do efeito estufa na Europa e porque a Germanwatch poderia conseguir assessoria jurídica na Alemanha, sede da empresa de energia.

    Fumaça sai de cabana de pastores na área do Parque Nacional de Huascarán, no caminho para o nevado Pastoruri – Lalo de Almeida/Folhapress

    Luciano diz que, no Peru, é muito perigoso enfrentar uma companhia na Justiça, por exemplo uma mineradora grande: “Processar uma empresa lá [na Alemanha] dava o que pensar. Pensei por um tempo, uns dois meses. Decidi que sim, pois não via outra opção”. A ação começou em 2015.

    Por causa dela, o guia-agricultor precisou ir três vezes à Alemanha, o que lhe garantiu alguns olhares atravessados no povoado e na cidade. Há quem acredite que Luciano recebe dinheiro para promover a ação, embora os 17 mil euros da causa, caso saia vitoriosa, se destinem aos governos local e regional.

    Contrariando as expectativas do grupo, o processo caminhou. Apesar de recusado em primeira instância num tribunal de Essen, um recurso apreciado em novembro de 2017 numa corte de segunda instância em Hamm levou à decisão de que a causa era plausível perante a lei alemã (embora o tribunal não se tenha pronunciado sobre seu mérito).

    A RWE rejeitou na ocasião uma oferta de acordo de Luciano referendada pela corte. Com isso, o caso entrou numa fase de produção de provas e oitiva de especialistas, que pode durar vários meses. Até aqui, os custos da ação que cabem a Luciano foram cobertos por doações para um fundo especialmente criado para isso.

    Para Luciano, já será uma conquista significativa se um causador da mudança climática reconhecer sua responsabilidade. Não se trata só do dinheiro, ele justifica, mas de conseguir que os causadores contribuam com o que lhes cabe para as medidas de segurança ou de adaptação perante a mudança do clima.

    Os 160 mil km² de glaciares nos Andes peruanos entraram quase por acaso na vida do engenheiro civil César Portocarrero. Foram, entretanto, capazes de convertê-lo num dos glaciologistas mais requisitados de seu país.

    Ele trabalhava nas obras de segurança das lagoas da região, após o terremoto de 1970, quando foi designado para buscar, no aeroporto de Lima, o geólogo Lonnie Thompson, da Universidade do Estado de Ohio (EUA). Deveria também acompanhar o especialista em três meses de escavação de testemunhos (cilindros verticais) de gelo com que Thompson ajudou a reconstruir o passado do clima da Terra.

    Quando viu o interesse do jovem pelo campo de pesquisa, Thompson instigou-o a estudar glaciologia e geomorfologia no Alasca, depois em Ohio e, por fim, na Universidade Columbia, em Nova York.

    Portocarrero se tornaria depois líder da Unidade de Glaciologia instalada em Huaraz pela Autoridade Nacional de Águas do Peru (ANA). Ali se dedicou a monitorar o retrocesso das geleiras, em especial as que pendem de forma ameaçadora sobre as lagoas, com inclinação superior a 22º.

    Caminho que leva ao nevado Pastoruri, no Parque Nacional de Huascarán; local conta com uma trilha educativa sobre efeitos do aquecimento global, como o derretimento de geleiras – Lalo de Almeida/Folhapress

    Nos anos 1970, relata, as geleiras retrocediam de 7 m a 8 m por ano, em média. Na década de 1980 isso subiu para 20 m. Na de 2000, para 25 m. A diminuição em espessura se calcula em 4 m anuais. O derretimento acelerado cria um paradoxo: água demais no presente e escassez de recursos hídricos no futuro.

    Com mais gelo derretendo, os lagos crescem em volume e número. No inventário de 2003 da ANA, contaram-se 830 na cordilheira Branca; uma década depois, já eram 860. Mas só 23 delas, Palcacocha à frente, apresentam risco de despejar aluviões trágicos sobre a população de Ancash.

    Segundo Portocarrero, entre 10 mil e 14 mil pessoas poderiam morrer num desastre como o de 1941. Mesmo quando estiver em funcionamento o sistema de alerta precoce planejado pelo governo regional, as mortes poderiam chegar a 7 mil.

    “A cordilheira Branca é a maior que temos. Ela abastece de água um dos projetos [de irrigação] mais importantes do Peru, Chavimochic, no departamento de La Libertad”, alerta. Terras que há 40 anos eram áridas e agora se enchem de verde com cultivos de agroexportação.

    A agricultura consome 89% da água [no Peru], informa Portocarrero, e desses 89% se desperdiçam 65%. “Temos de começar a trabalhar no uso eficiente da água, como parte desse processo de adaptação ao problema que a mudança climática nos traz.”

    Curso de água que se forma próximo à lagoa Llaca, na cordilheira Branca; o derretimento acelerado de geleiras cria água líquida demais no presente – Lalo de Almeida/Folhapress

    “As geleiras são filhas do clima, crescem quando há frio e precipitação suficientes e diminuem nas épocas quentes”, afirma. De acordo com o que se conhece, nos últimos 800 mil anos houve 11 períodos de resfriamento.

    “O clima na Terra sempre foi cíclico, resfriamentos e aquecimentos, resfriamentos e aquecimentos. Agora estamos vivendo uma época de aquecimento, entre resfriamentos, cujo pico se deu há 18 mil anos.”

    Este “último verão” que estamos vivendo agora tem, na visão do glaciologista, uma particularidade: “O homem, em seu afã de indústria e desenvolvimento, está acelerando o aquecimento como nunca se viu antes”. E, com isso, esvaziando a caixa d’água do Peru.

    Lidia, mulher do agricultor Saúl Luciano Luciano Lliuya, corta batata em sua casa na comunidade de Llupa, na zona rural de Huaraz – Lalo de Almeida/Folhapress

    Saúl Luciano Lliuya convida os repórteres para almoçar. Estamos no andar superior da casa, que tem dois cômodos: o amplo quarto de pé-direito baixo, com livros dos montanhistas Jon Krakauer e Reinhold Messner convivendo com cordas, botas e mosquetões, e uma antecâmara em que outros equipamentos de escalada se misturam com centenas de espigas multicoloridas de milho.

    No piso abaixo, de terra batida, a mulher Lidia prepara no fogão de lenha um guisado de quinoa com ají e batatas para acompanhar o arroz. À exceção deste, todos os ingredientes provêm dos campos em volta, cultivados pelos homens da aldeia com ajuda de bois para arar a terra.

    A bebida é uma infusão fraca e adocicada, “água de menta”, planta que cabe às mulheres plantar e vender no mercado. No fundo da cozinha, ouvem-se sem parar os guinchos dos “cuyes” (porquinhos-da-índia) comuns nos lares quéchuas, iguaria reservada para grandes festas de aniversário e casamento.

    Luciano atravessou o mundo para lutar contra o aquecimento global e se espantou com a qualidade da vida europeia. Como boa parte dos peruanos, porém, ainda depende das geleiras para ter o que pôr na mesa.

    “A montanha me dá angústia. Vivemos debaixo dela, bebemos a água que desce da montanha. Como guias de turismo, trabalhamos na montanha. Comemos e sustentamos nossos filhos graças à montanha”, diz.

    “A montanha é tudo para mim.”

     

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/peru/campones-peruano-processa-empresa-eletrica-alema-e-pede-indenizacao-por-encolhimento-de-geleiras/

     

     

    Prof Luciano Mannarino

  • Crise do Clima “Cidade do Cabo”

    Cidade do Cabo

    Estiagem e herança do apartheid criam pânico com torneiras secas no Dia Zero

    Ventania levanta areia do leito seco da represa Theewaterskloof, responsável por grande parte do abastecimento de água da Cidade do Cabo, na África do Sul – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    Marcelo Leite/Lalo de Almeida

    5.jun.2018 – 02h00

    PROVÍNCIA DO CABO OCIDENTAL

    No primeiro domingo de maio (6), uma centena de moradores da Cidade do Cabo aguardava em duas filas ordeiras a vez de encher galões de água na cervejaria SAB. Naquela manhã ensolarada, pessoas de todas as cores pareciam pouco convencidas de que o fantasma do Dia Zero tivesse sido exorcizado em definitivo com a chegada da estação de chuvas.

    A empresa instalara várias torneiras na fonte tradicional, localizada no bairro abastado de Newlands. Mesmo com água em casa, era como se todos quisessem manter-se em forma para as medidas drásticas que o governo municipal decretaria no Dia Z: corte do fornecimento para domicílios, obrigando os “capetonians” a buscar sua ração diária de 25 litros (contra 50 l hoje) em um dos 200 pontos de coleta espalhados pela área metropolitana.

    Essa situação limite, que frequentara os pesadelos da população nos seis meses anteriores, já havia sido afastada pela prefeitura. Após adiar sucessivamente a data das torneiras secas, para maio e depois julho e agosto, o vice-prefeito Ian Neilson declarou no início de abril que o armagedão hídrico não viria antes de 2019.

    Naquela altura, os moradores já tinham perdido a confiança na quantidade e na qualidade da água distribuída pelo município. E também no governo, com a prefeita Patricia de Lille lutando nos tribunais contra seu afastamento sob uma tempestade de acusações de corrupção.

    Sem contar que o consumo individual continua, ainda hoje, limitado a 50 litros diários por pessoa e que as contas d’água não param de subir.

    Patricia Kazaka, gerente de uma empresa de comunicação, enfrenta seus 15 minutos de fila no pátio da cervejaria segurando seus dois filhos pequenos pelas mãos enquanto outro, mais velho, ajuda com os cinco vasilhames de 5 l cada. Ela faz a peregrinação à fonte todos os domingos depois da igreja, desde fevereiro, para garantir água de qualidade para a família.

    “Houve alguns incidentes em que pessoas beberam água da torneira de casa e ficaram doentes”, diz a gerente. A prefeitura soltou um comunicado dizendo que a água era segura, mas anunciou também que estava conduzindo alguns testes, conta.

    “Isso nos assustou um pouco. Talvez a gente devesse começar a comprar água, mas aí cada garrafa custa um pouco mais de dinheiro, e percebemos que poderíamos conseguir nossa água de graça [na fonte].”

    População enfrenta fila para abastecer seus galões vazios na fonte pública de Springsway, na Cidade do Cabo, África do Sul; local atrai muitos muçulmanos – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    Sua família mora numa casa com jardim, mas não pode mais regá-lo. A conta mensal, que ficava entre 800 e 1.200 rands (cerca de R$ 240 a R$ 360), dobrou.

    “Acho que a campanha do Dia Zero foi necessária, porque, se não fosse por ela, muitos de nós provavelmente não começaríamos a nos dar conta de como é importante economizar água, ensinar às nossas crianças quando dar a descarga.”

    Vários metros atrás dela, a antropóloga e professora de ioga Kate Ferguson afirma que pretende continuar a vir até a fonte mesmo que as autoridades anunciem que as represas se encheram de novo. Ela buscava apenas 15 l, mas diz que vem com frequência e tem sempre recipientes no carro para manter altos os estoques de água confiável.

    “Queremos tirar a pressão do abastecimento da cidade. Quanto mais pessoas vierem para pegar água de beber e de cozinhar, melhor.” Ferguson considera positiva a campanha do Dia Zero: “De certa maneira, foi muito esperta. Trouxe consciência para as pessoas de como a água é um recurso escasso, especialmente aqui no Cabo Ocidental”.

    Por outro lado, ela acha que água é um direito humano básico, e se queixa de não haver muita pressão sobre setores como a indústria da carne, que a consome muito. “A moralidade de como nossos líderes lidam com as coisas fica em questão. Eles instilam medo [nas pessoas] sobre um direito básico do cidadão.”

    Morador da Cidade do Cabo caminha em direção à fonte pública no bairro de classe média alta de Newlands para abastecer com água seus galões vazios – Lalo de Almeida/Folhapress

    A região da Cidade do Cabo não chega a ser árida, mas tem distribuição muito variada de chuvas num raio de 100 km. Certas partes da área metropolitana recebem menos de 400 mm por ano, comparável às piores situações do semiárido do Nordeste brasileiro, e no verão dependem das reservas mantidas em seis grandes represas.

    Os reservatórios recebem água das montanhas a leste, onde a precipitação pode chegar a 2.000 mm/ano. Mas as chuvas orográficas (quando o relevo força a condensação da umidade) ocorrem só no inverno, mais abundantes em julho e agosto.

    De outubro a maio grassa a estiagem típica do clima mediterrâneo. Trata-se de uma exceção na África do Sul, o que favoreceu a implantação de vinhedos no Cabo Ocidental, como nas imediações de Stellenbosch e Franschhoek, e também de árvores frutíferas, em particular maçãs e peras –culturas agora sob ameaça.

    Houve secas severas no passado, separadas por intervalos de mais ou menos quatro décadas, mas nenhuma que se compare à dos últimos três anos. Pelos cálculos do hidroclimatologista Piotr Wolski, da Universidade da Cidade do Cabo, um tal evento só se repetiria de 300 em 300 anos, ou mais.

    O especialista não está seguro de que a estiagem sem precedentes seja fruto de impacto direto da mudança do clima pelo aquecimento global. Ele vê “um desvio forte” das condições climáticas normais, que parece reforçar uma tendência de declínio na precipitação observada nos últimos 40 anos.

    Filete de água contrasta com paisagem seca da represa Theewaterskloof, a principal da província do Cabo Ocidental – Lalo de Almeida/Folhapress

    Quando se consideram os dados de 100 anos, porém, nenhuma tendência clara pode ser identificada. “Os resultados não são robustos, nesta altura. Talvez num par de meses nós tenhamos melhores resultados”, prevê Wolski.

    Seu palpite é que a mudança climática contribuiu para a seca extrema, mas que força primária à qual se somou ainda seria a variabilidade natural do clima no Cabo Ocidental. “É uma mensagem [vaga] muito difícil de oferecer, porque o mundo todo está olhando para a Cidade do Cabo, cientistas do clima e negacionistas [da mudança] do clima”, lamenta.

    No início de 2017, quando a seca já era evidente, pesquisadores se reuniram para fazer uma recomendação ao governo municipal, mas não conseguiram chegar a uma previsão segura para a estação chuvosa. Limitaram-se a aconselhar uma conduta conservadora, de aversão ao risco.

    Na incerteza, a prefeitura não fez muita coisa. No final do ano passado o estado periclitante dos reservatórios mostrou que os cientistas estavam certos em recomendar o máximo de prudência. Foi quando se começou a falar em Dia Zero.

    Ponte sobre o leito da represa Theewaterskloof, uma das seis responsáveis pelo abastecimento da Cidade do Cabo; município não está totalmente livre de um Dia Zero – Lalo de Almeida/Folhapress

    No verão 2016/17, o nível das represas despencava à taxa de 1,5% por semana. A prefeitura estabeleceu o limiar de 13,5% de reservação como gatilho para declarar o Dia Zero, e seus primeiros cálculos indicavam que ele cairia em abril.

    Uma cidade que consumia 1,2 bilhão de litros por dia (l/d) viu sua alocação reduzida para 480 milhões de l/d pelo governo nacional. Com a campanha alarmista, um aumento de tarifas e a ameaça das torneiras secas, conseguiu cortar o uso para 505 milhões de l/d, ainda acima da meta de chegar a 450 milhões.

    Fixou-se a cota de 50 litros diários por pessoa (menos de um terço do que consumia um paulista em 2016, 166 l/d, após a crise hídrica na região metropolitana de São Paulo). Cartazes recomendavam dar menos descargas nos vasos sanitários, reservando-as para dejetos sólidos, tomar banho com esponja ou até suspendê-lo uma vez por semana, e assim por diante.

    Começou também o corre-corre para ampliar a captação de água, com a perfuração de poços artesianos e a construção de quatro usinas de dessalinização, mas estas só ficam prontas agora, em junho. De todo modo, elas agregariam, quando muito, 20 milhões de l/d, contra 150 milhões de l/d dos aquíferos.

    Criança brinca com tubo para captar água do mar da usina dessalinizadora de Monwabisi, próxima à Cidade do Cabo, na África do Sul – Lalo de Almeida/Folhapress

    Ian Neilson, vice-prefeito encarregado de domar a crise, repele a acusação de que o governo teria falhado em preveni-la. Até aqui, justifica, a Cidade do Cabo vinha se valendo das águas de superfície e isso funcionou bem, mesmo com secas graves no passado –as represas sempre se enchiam de novo.

    “Entendíamos de maneira geral que uma mudança [climática] estava ocorrendo e que seria necessária uma adaptação”, afirma. “O que não previmos foi quão rapidamente ela viria.”

    Todas as projeções, alega Neilson, indicavam que a ampliação das fontes de captação seria necessária só na década de 2020. Agora, após três anos de estiagem, dois dos quais os piores já registrados, ele se convenceu de que a cidade está diante de uma nova realidade.

    “Esta é a mensagem que as cidades mundo afora precisam entender: quando a mudança acontece, ela pode vir de modo muito rápido e severo. Há que se preparar previamente, e não presumir um ritmo lento de adaptação.”

    Trabalhadores colhem maçãs na fazenda Breëvlei, no vale Elgin, região próxima à Cidade do Cabo, na África do Sul; agora, a cultura está sob ameaça devido à falta de água – Lalo de Almeida/Folhapress

    O vice-prefeito se queixa de que o Departamento Nacional de Água e Saneamento demorou a reduzir a cota de água para irrigação. A crítica tem um fundo político: a prefeitura está nas mãos do partido Aliança Democrática, de oposição ao Congresso Nacional Africano, que ocupa o governo nacional desde 1994, com o fim do apartheid.

    A disputa teria atrasado verbas para ampliar a capacidade das represas Voëlvlei e Berg River, acusa Neilson (o departamento não respondeu ao pedido de entrevista). Por outro lado, o governo nacional impôs ao setor agrícola um corte na alocação de água para irrigação de 60%, ainda mais drástico que o determinado para consumo urbano.

    “Temo que o impacto na agricultura tenha sido enorme, e nós reconhecemos isso. Ouvi que a indústria vinícola teve algo entre 20% e 40% de redução no volume, e isso significou perdas de empregos, como no caso de apanhadores de frutas”, ressalva.

    Danie Loubser, da fazenda Breëvlei no vale de Elgin, tem 50 hectares plantados com macieiras. Na primeira semana de maio ele finalizava a colheita da variedade Pink Lady, uma das melhores para exportação, que sofreu uma quebra de 15% a 20% com a seca.

    A propriedade de Loubser fica no vale banhado pelo rio Palmiet, bem aquinhoado com chuvas. O Palmiet alimenta a represa privada Eikenhof, que contribuiu para adiar em quase três semanas o Dia Zero. As comportas foram abertas para deixar passar 10 bilhões de litros além dos 9 a 23 bilhões de litros que ela carreia para o sistema público de abastecimento a cada ano.

    “Fechamos um bom acordo”, avalia Stuart Maxwell, presidente da Associação de Usuários de Água de Groenland (GWUA, em inglês), que construiu Einkenhof. Em contrapartida, o corte para os associados baixou de 60% para 10%.

    Passarela sobre reservatório Eikenhof, controlado por associação de fazendeiros e usado para irrigar suas plantações; em 2018, parte da água da represa foi enviada para abastecer a Cidade do Cabo – Lalo de Almeida/Folhapress

    Em um vale mais adiante, na região de Worcester, não há uma grande represa como Eikenhof. Vinhedos e frutíferas são arrancados para o plantio de trigo e pastagens destinadas a ovelhas.

    A estiagem e a crise agrícola deixam suas marcas também na vila vizinha de Villiersdorp. Na “township” (favela habitada por maioria de negros) Station 11, os barracos se multiplicam pela encosta para abrigar desempregados de várias partes.

    Esgotos correm por valas abertas. O riacho que desce da montanha está cheio de lixo. A maioria dos moradores tem de buscar água em torneiras comunitárias, que podem estar a várias ladeiras de distância.

    No caminho de volta para a Cidade do Cabo, a rua principal de Franschhoek exibe uma fileira de cartazes em inglês, afrikans e xhosa, um deles recomendando o “domingo sem banho”. A equipe da Folha estaciona para tirar fotografias das mensagens ao lado de operários negros que instalam um portão, sob a vigilância de um homem ruivo.

    “Aproveite a África do Sul antes que ela acabe”, diz o proprietário à reportagem. Ele não se refere à seca, mas à tomada do poder pela maioria negra com o fim do apartheid, à qual atribui saques e incêndios de fazendas, estupros e assassinatos cruéis.

    A maior parte dos produtos agrícolas são embarcados para o exterior, e não consumidos domesticamente, aponta Richard Pfaff, gerente do programa de água da organização ambientalista EMG (Environment Monitoring Group). Os empregos criados são precários, e a irrigação consome água demais diante do escasso benefício social.

    “Existe hoje um debate político sobre como a água deveria ser alocada de maneira justa, dado que a maioria da população, que é de pessoas negras, está percebendo que há uma distribuição desigual de água quando se trata de negros e brancos.”

    Acima, mulher lava a roupa em torneira comunitária na Station 11, em Villiersdorp; no meio e abaixo, a “township” (favela) vista de cima – Lalo de Almeida/Folhapress

    Pfaff enxerga pontos negativos e positivos na campanha do Dia Zero. O aspecto ruim, diz, foi a manipulação de informação, como o adiamento sucessivo da data em que as torneiras secariam, sem maiores explicações.

    Por outro lado, na sua opinião, a mensagem drástica teve o poder de elevar a consciência da população sobre a mudança do clima, oferecendo-lhes uma imagem muito concreta do que ela pode acarretar.

    “O segundo aspecto [positivo] da campanha foi que, numa cidade dividida como a do Cabo, ela representou uma oportunidade para as pessoas se encontrarem e conversarem, para tentar resolver esse problema para além das divisões de raça, de classe e de gênero.”

    Não muito longe das torneiras da cervejaria SAB, no mesmo bairro Newlands, outra fonte atrai um grupo menor à Springsway, uma rua sem saída. Há um bom número de mulheres com os cabelos cobertos e homens com barbas e barretes.

    Carregadores se oferecem para arrastar galões de até 50 litros em carrinhos, por uns poucos rands. Alguns guardam lugar na fila para possíveis clientes e burlam a regra de 25 litros por pessoa.

    Um muçulmano se irrita e chama a policial que aguarda em um carro de patrulha no início da viela. Pistola no cinto, a agente obriga um rapaz negro a se afastar com os vários galões vazios de uma senhora branca, que volta ao fim da fila.

    Já se preparando para ir embora, Judy Molokon, mulher negra que vem à fonte quinzenalmente, reclama de sua conta d’água, que subiu para 1.400 rands mensais (cerca de R$ 400) numa casa de quatro pessoas.

    “Tento tanto quanto possível evitar usar água da torneira [em casa]. Não podemos arcar com essas tarifas altas”, protesta. “E nem foi culpa nossa. Estamos rezando para a chuva voltar.”

    Árvores mortas no antigo leito da represa Theewaterskloof, um dos seis grandes reservatórios para abastecimento de água da Cidade do Cabo – Lalo de Almeida/Folhapress

    Cantareira está com nível de água mais baixo do que em maio pré-crise de 2014

    O sistema Cantareira se prepara para entrar no período mais seco do ano em situação pior do que se encontrava antes da crise da água de 2014. A recomendação é para que a população evite desperdício.

    No último dia 31, restavam 453 bilhões de litros de água. Em maio de 2013, antes do início da crise, havia 581 bilhões de litros para enfrentar o inverno e parte da primavera até a chegada das chuvas.

    Como comparação, no mesmo dia em 2017, o sistema tinha 664 bilhões de litros.

    Em maio, a chuva acumulada foi de 13,7 mm, um sexto do que costuma chover neste mês segundo média histórica.

    O Cantareira tem recebido 13,7 metros cúbicos de água por segundo, enquanto a Sabesp distribui 24,4 metros cúbicos por segundo para a população. Ao invés de encher, é como se perdesse quase 11 metros cúbicos por segundo, água suficiente para abastecer a zona leste da capital.

    Os demais reservatórios também estão com menos água do que estavam em maio de 2013.

    A Sabesp afirma que possui um sistema mais robusto, com mais interligações e maior capacidade de tratamento de água do que antes da crise hídrica. Cita a interligação Jaguari-Atibainha, que permite transferir água entre duas bacias distintas, e diz que, no sentido do Cantareira, pode enviar até 162 bilhões de litros de água por ano, volume equivalente a uma represa Guarapiranga cheia.

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/cidade-do-cabo/estiagem-e-heranca-do-apartheid-criam-panico-com-torneiras-secas-no-dia-zero/

     

     

    Prof Luciano Mannarino

     

  • Crise do Clima “Ártico”

    Ártico

    Aquecimento de região polar impõe reforma no Cofre Global de Sementes

    Cofre Global de Sementes, localizado nos arredores de Longyearbyen, no arquipélago de Svalbard, Noruega – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    Marcelo Leite/Lalo de Almeida

    1.mai.2018 – 02h00

     

    LONGYEARBYEN 

    Frio e vento castigavam a encosta da montanha Platô (Platåberget, em norueguês), em frente ao aeroporto da cidade de Longyearbyen, na ilha Spitsbergen (Noruega). Os cantores do coral masculino Store Norske, porém, aguentaram firmes com seus macacões azuis e quepes brancos.

    Entoaram canções populares norueguesas debaixo de chuva, que nunca esteve no programa da cerimônia para comemorar o décimo aniversário do Cofre Global de Sementes.

    O ministro norueguês da Agricultura, Jon Georg Dale, duas dúzias de jornalistas e outro tanto de doadores de sementes ficaram molhados. Todos estavam preparados para neve, não para água, em pleno inverno ártico.

    Funcionário do Centro de Recursos Genéticos Nórdicos (NordGen) descarrega amostras de sementes para serem guardadas no Cofre Global de Sementes, nos arredores de Longyearbyen – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    O cofre e o aeroporto ficam a 5 km do centro de Longyearbyen, cidade mais ao norte do planeta. Os termômetros costumam marcar -15ºC nessa época, não os 3ºC positivos daquele 26 de fevereiro, incomuns no local do paralelo 78ºN, a meros 1.300 km do polo Norte.

    Cerca de 2.000 pessoas vivem na capital do arquipélago de Svalbard. E muitos turistas se dispõem a pagar R$ 600 por diária de hotel para ver a aurora boreal, passear em motos de neve e encontrar ursos polares ameaçados de extinção pelo aquecimento global –desde que munidos de uma espingarda, para o caso de o animal estar faminto.

    No dia seguinte, choveu de novo. Muita gente foi embora de Svalbard sem ver a aurora boreal. A água congelou no chão, e os turistas que permaneceram no arquipélago ficaram confinados em seus hotéis.

    A reportagem da Folha tinha reservado a data para alcançar geleiras distantes que se encontram em retração por força da mudança do clima. Com a chuva, só pôde registrar imagens de enxurradas e poças em Longyearbyen e ao longo da rodovia que leva às minas de carvão.

    Na manhã seguinte, foi possível fazer uma incursão na geleira Longyear, a menor no topo do vale em que se abriga a vila. Duas estacas fincadas na neve marcam a entrada de uma caverna de gelo que o derretimento aprofunda todo verão.

    Depois de cavar bastante, o guia Francisco “Chicco” Mattos encontrou a escada de acesso. Brasileiro apaixonado pelo Ártico, ele vive há 7 anos em Longyearbyen, onde trabalha com produção de documentários. De início, a fenda se parece com uma toca de animal, mas logo se revela uma basílica comprimida de gelo marmoreado pelos resíduos de rocha que tritura há séculos, ou milênios.

    Paisagem de Longyearbyen com água acumulada pelo derretimento de gelo, uma consequência de temperaturas acima do normal no Ártico – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    Foi uma semana atípica no Ártico. A região é a que mais tem esquentado no globo, ganhando pelo menos 4ºC nas últimas décadas, contra 1ºC no restante do planeta. No final de fevereiro, porém, o tempo batia recordes de esquisitice.

    No norte da Groenlândia, a estação Morris Jesup, uma das mais próximas do polo Norte, marcou mais de 60 horas de temperaturas positivas. O Ártico todo, segundo medições de satélite, esteve até 20ºC acima do normal. Em Svalbard, a média de fevereiro ficou 11ºC além do esperado.

    Não terá sido a primeira vez que uma reviravolta no tempo frustrou planos de humanos na cidade criada pelo americano John Munro Longyear em 1906. Mineiros de carvão, entretanto, tinham mais a temer com neve e avalanches, não com portas de carro imobilizadas pela chuva congelada.

    Acima, entrada de caverna de gelo que se aprofunda a cada ano pela ação de água corrente, no verão, com o degelo na geleira Longyear; abaixo, interior da caverna

    Acima, entrada de caverna de gelo que se aprofunda a cada ano pela ação de água corrente, no verão, com o degelo na geleira Longyear; abaixo, interior da caverna – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    A transformação climática do Ártico criou percalços para o Cofre Global de Sementes, construído dez anos atrás pelo governo da Noruega por US$ 9 milhões (cerca de R$ 15 milhões à época) como um seguro para enfrentar as consequências do aquecimento global na agricultura.

    Desde então, 1.059.646 amostras únicas de sementes já foram depositadas no local, as últimas 76 mil em 26 de fevereiro, no décimo aniversário da instalação. São duplicatas de sementes guardadas em 73 bancos doadores espalhados pelo mundo, como o do Cenargen (Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia) em Brasília.

    “Há desastres naturais, como o tsunami que golpeou um banco genético nas Filipinas e pôs a perder material muito importante. Perdemos bancos genéticos no Afeganistão e no Iraque”, justifica Marie Haga, diretora executiva da ONG Global Crop Trust, que toma conta do Cofre das Sementes. “É reconfortante saber que, caso as coisas deem errado, podemos ir a Svalbard, recuperar as sementes e recomeçar do zero.”

    A guerra civil na Síria inviabilizou uma importante coleção do Centro Internacional para Pesquisa em Agricultura de Áreas Secas (Icarda, na abreviação em inglês) na cidade de Aleppo. Com 92.430 duplicatas de Svalbard, a instituição pôde reconstituir o acervo no Líbano e em Marrocos, em 2015 (só a instituição que depositou as sementes pode sacá-las do banco gelado).

    “O problema mais básico da agricultura hoje em dia é que as sementes que nos alimentam não podem adaptar-se tão rápido à mudança do clima. As plantas e a humanidade se adaptaram ao mundo todo, mas isso levou dezenas de milhares de anos”, explica Haga.

    “Precisamos cruzar plantas que resistam a temperaturas mais altas, que tolerem salinidade mais alta no solo, que possam combater novas pragas e doenças. E essa diversidade de cultivares é a matéria-prima que usamos.”

    Um exemplo frequente do que se pode alcançar com cruzamentos de variedades é a soja, de clima temperado. Ela foi aclimatada pela Embrapa para cultivo no cerrado tropical e até na Amazônia equatorial.

    Uma única variedade comercial de trigo, como a “Veery”, desenvolvida nos anos 1980, resulta de 3.170 cruzamentos com 51 plantas oriundas de 26 países.

    Construir uma fortaleza gelada a fim de conservar diversidade para o futuro, 14 anos atrás, era uma ideia considerada maluca e talvez constrangedora para o governo norueguês, conta Cary Fowler, primeiro diretor do Crop Trust.

    Ele apresentou a proposta para o Ministério das Relações Exteriores em Oslo e ouviu de um jovem funcionário de alto escalão: “Dr. Fowler, o sr. está dizendo que esse é o recurso natural mais importante da Terra? E que Svalbard seria o melhor lugar da Terra para conservá-lo? Como poderíamos dizer não?”

    Svalbard pode ser o melhor local do mundo para guardar o tesouro, mas nem por isso está imune ao aquecimento global. A temperatura indicada para conservar sementes é -18ºC, e nada melhor, para economizar energia, do que usar um depósito numa montanha em que os termômetros variam entre -3ºC e -4ºC, mesmo durante o verão.

    Acima, porta coberta por gelo no Cofre Global de Sementes, em Longyearbyen; abaixo, funcionário da Nordgen manuseia caixas com amostras de sementes no interior do local – Lalo de Almeida/Folhapress
     

    Ao percorrer 130 m de túnel em ligeiro declive para alcançar a câmara frigorífica de 95 m², o visitante tem a sensação de que o interior da construção é mais quente que o exterior. Isso decorre da ausência de vento, mas também do fato de que a temperatura externa, em dias normais como o domingo (25/2), reservado para a equipe da Folha, estava vários graus mais negativa.

    Num ano típico, o cofre só é aberto três ou quatro vezes, quando há sementes para depositar. Na comemoração dos dez anos, houve mais de uma dúzia de aberturas, 11 delas para os times de reportagem credenciados. Um grupo por vez, acompanhado do pessoal do Centro de Recursos Genéticos Nórdicos (NordGen), que faz a zeladoria do cofre.

    Por razões de segurança, é proibido fotografar dentro do túnel escavado na rocha, mas foi possível constatar que existiam obras em curso. Svalbard se caracteriza pela presença do permafrost, o solo congelado de regiões de tundra, que não se recompôs como esperado em volta da célebre construção triangular que marca a entrada da fortaleza na encosta da Platåberget.

    O derretimento do permafrost representa um impacto do aquecimento global preocupante para os donos de imóveis em Longyearbyen, que correm o risco de vê-los afundar. No Cofre das Sementes, não causa problemas em suas três câmaras frias, cada uma com capacidade para 1,5 milhão de amostras, pois elas estão no meio de um maciço de pedra.

    Já o túnel apresentou infiltração de água desde os primeiros anos de funcionamento e agora será reconstruído para se tornar mais impermeável. A obra está orçada pelo governo norueguês em US$ 13 milhões (R$ 45 milhões), mais do que o valor investido na construção.

    O túnel será reforçado com concreto. Haverá novos recintos para abrigar equipamentos elétricos e de refrigeração capazes de manter a temperatura mesmo em caso de pane na energia elétrica. Os operadores do cofre asseguram que as sementes estocadas jamais estiveram em risco.

    As três câmaras ficam num grande átrio revestido de concreto que se abre ao final do túnel, com pé-direito de mais de 6 m, apelidado “catedral”. Há portas duplas de metal no nicho de entrada de cada uma, mas só a do meio está recoberta de cristais de gelo. É a única, por ora, refrigerada a -18ºC.

    Passaram dois anos até que se estabilizasse a temperatura desejada. Foi necessário que os compressores a diesel garantissem o resfriamento da camada de rocha em volta do compartimento, para evitar flutuações no frio de -18ºC. As equipes de reportagem tiveram só dez minutos de permanência na sala forte, para evitar que o calor corporal perturbasse o ambiente.

    Máquinas são usadas para reforma no Cofre Global de Sementes, em Longyearbyen

    Máquinas são usadas para reforma no Cofre Global de Sementes, em Longyearbyen – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    São meia dúzia de corredores com estantes de aço até o teto, cheias de caixas de plástico. Dentro delas ficam os envelopes de grossa folha de alumínio revestida de plástico em que se acondicionam as sementes, seladas com apenas 5% de umidade interna. Nessas condições, elas podem germinar até um século depois de guardadas. Os idealizadores do Cofre das Sementes defendem que localizá-lo em Svalbard foi a decisão correta e que a ilha de Spitsbergen permanece como o melhor lugar para ele.

    “O aquecimento global e seu efeito no permafrost é uma grande irritação, mas não uma ameaça [para as sementes]”, afirma Cary Fowler.

    “Não importa aonde você for no planeta para armazenar sementes, sempre terá de rebaixar a temperatura que a natureza lhe oferece. Não há lugar na Terra onde você possa chegar e sair facilmente que lhe garanta uma temperatura de -18ºC constantes.”

    “No interior da montanha ainda teremos por vários séculos -4ºC”, defende Marie Haga, do Crop Trust. “Há outras vantagens: politicamente é uma parte do mundo muito estável, sem terremotos nem vulcões. E a comunidade de Longyearbyen toma conta do cofre. Se pessoas com más intenções entrarem na cidade, todos saberão na hora.”

    O meteorologista Kim Holmén, diretor internacional do Instituto Polar Norueguês, observa paisagem em Longyearbyen, a cidade mais ao norte do planeta – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    “Quando contemplo geleiras que conheço há 30 anos, vejo que mudaram mais que minha mulher mudou”, lamenta o meteorologista Kim Holmén, diretor internacional do Instituto Polar Norueguês. Ele mora há nove anos em Longyearbyen e faz pesquisa em Svalbard há três décadas. Não economiza palavras para registrar a profunda transformação do Ártico.

    “Onde quer que eu olhe vejo mudanças óbvias. O fiorde ali fora da janela não está coberto de gelo. Nesta época do ano [fevereiro] costumava haver um metro, de fora a fora, e agora são águas abertas. A neve desaparece duas semanas antes na primavera”, diz.

    A espessura das geleiras diminui até 40 cm por ano. As temperaturas noturnas no inverno subiram dez graus nos últimos 30 anos, enquanto as do verão não subiram tanto, o que é consistente com os cálculos sobre como os humanos induzem a mudança do clima. “A lista é interminável.”

    A fauna local passa por mudança acentuada de perfil. Não são só os ursos polares que sofrem com o desaparecimento de gelo marinho usado como plataforma para emboscar focas.

    Tordas-anãs se veem forçadas a voar para o norte, em busca de copépodes com mais gordura armazenada em seu diminuto corpo de crustáceo. O bacalhau polar parte em busca de águas mais frias e placas de gelo em cujas frestas se abrigam os alevinos (filhotes). Outros peixes de águas mais quentes invadem o arquipélago, como a cavala, atrás da qual chegam novas espécies de pássaros, como o ganso-patola.

    No alto, capim brota em meio ao gelo nos arredores de Longyearbyen; no meio, paisagens com vegetação e água; acima, montes de carvão mineral na região do arquipélago de Svalbard – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    “O urso polar é um símbolo para todo o ecossistema, mas o bacalhau polar é parte dele, assim como a baleia beluga, os narvais e outras espécies que dependem do gelo marinho”, diz Holmén. “Há poucos de nós privilegiados o bastante para ver ursos polares em seu habitat natural. Muita gente acha que o mundo estará mais pobre se o urso polar desaparecer.”

    Algumas dessas pessoas, caso tenham recursos e coragem para enfrentar o frio, visitam Svalbard na esperança de contemplar o urso ameaçado. Circulam pela ilha de Spitsbergen em carros movidos a diesel e motos de neve que queimam gasolina.

    No caminho do aeroporto, a usina termelétrica consome a energia fóssil do carvão para aquecer hotéis e restaurantes –além de agravar o efeito estufa e alimentar os geradores que mantêm o Cofre das Sementes a -18ºC.

    Cidade de Longyearbyen, a mais ao norte do planeta, localizada no arquipélago de Svalbard, Noruega – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    A Noruega paga pelo Cofre das Sementes, pôs US$ 1 bilhão (R$ 3,5 bilhões) à disposição do Fundo Amazônia para atividades que reduzam a pressão sobre a floresta brasileira e dá pesado incentivo fiscal para eletrificar sua frota de carros. No entanto, quase toda sua riqueza deriva do petróleo e do gás natural, que produz e exporta a partir do Mar do Norte.

    “Como um país rico que obtém renda de combustíveis fósseis, temos de mudar nossa economia, pois sabemos que a indústria de óleo e gás será menos importante no futuro”, concede Ola Elvestuen, ministro de Clima e Ambiente da Noruega.

    “Não é algo que possamos simplesmente desligar. Precisamos estar na vanguarda da redução de emissões, assumir responsabilidade pela nossa parte e pensar em como podemos tornar nossa economia mais diversificada.”

    “A indústria é parte da solução, não é inimiga. Você e eu somos parte do problema, eu e você somos parte da solução. Se não começarmos a fabricar e consumir produtos que requeiram menos petróleo, nada irá mudar”, pondera Kim Holmén, do Instituto Polar Norueguês.

     

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/artico/aquecimento-de-regiao-polar-impoe-reforma-no-cofre-global-de-sementes/

     

  • Crise do Clima “Nordeste”

    Nordeste

    Seca histórica já dura seis anos e ameaça tornar-se regra no semiárido

    Paisagem desértica ao longo da rodovia RN-118, no Rio Grande do Norte – Avener Prado/Folhapress

    Fabiano Maisonnave/Avener Prado

    24.abr.2018 – 02h00

    PARAÍBA E RIO GRANDE DO NORTE . 

    Na estaca zero. É como o agricultor Inácio Manuel da Silva, 73, se sente após a seca ter dizimado o coqueiral no lote onde trabalha há 44 anos. Morador de Sousa (440 km de João Pessoa), ele colhia 21 mil frutos a cada 45 dias, num espaço de 4 hectares (o equivalente a cerca de cinco campos de futebol). “Hoje, se eu tivesse um coco bom aqui, vocês estariam tomando a água dele.”

    Na memória de Silva e de outros sertanejos, a aridez atual, iniciada em 2012, é a mais prolongada pela qual o Nordeste já passou. Já nos discos rígidos de pesquisadores, simulações preveem que o déficit hídrico dos últimos tempos deve tornar-se o “novo normal” da região, a reboque das mudanças no clima global.

    As previsões para o semiárido do PBMC (Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas), uma iniciativa governamental, são sombrias. Até 2040, projeta-se a diminuição de 10% a 20% das chuvas e aumento da temperatura entre 0,5°C a 1°C. Para 2070, a elevação será de 1,5°C a 2,5°C, enquanto a precipitação encolherá entre 25% e 35%.

    Esse cenário eleva o risco de aumento da desertificação, desatada sobretudo pelo uso inadequado do solo, como o desmatamento da caatinga para a produção de lenha.

    Coqueiral seco na cidade de Sousa (440 km de João Pessoa), na Paraíba; estima-se que apenas 5% dos coqueirais de 82 propriedades da região tenham sobrevivido à estiagem – Avener Prado/Folhapress

    Além de mais seco, o semiárido está se expandindo. Em novembro de 2017, a Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) incluiu 73 municípios na região, que passou a ter 1.130.446 km² (13,3% do território brasileiro). Os 1.262 municípios estão espalhados pelos nove estados do Nordeste, além de parte de Minas Gerais.

    Para o município ser considerado parte do semiárido –o que assegura acesso a vários programas, como linhas de financiamento–, é preciso responder ao menos um de três critérios. O mais usado é a precipitação pluviométrica média anual igual ou inferior a 800 mm. Para comparação, na cidade de São Paulo, chove 1.500 mm/ano.

    A vinculação dos seis anos contínuos de chuvas abaixo da média no Nordeste às mudanças climáticas divide os pesquisadores. Uns já estabelecem a causalidade, enquanto outros consideram ser muito cedo para essa conclusão.

    No entanto, há praticamente consenso quando se trata das próximas décadas. Um exemplo é o estudo recente da FGV (Fundação Getúlio Vargas) sobre a bacia do rio Piancó-Piranhas-Açu, nos sertões da Paraíba e do Rio Grande do Norte, uma das regiões mais áridas do país.

    Até 2065, o déficit hídrico acumulado na bacia de 43,6 mil km², área do tamanho do estado do Rio de Janeiro, deverá ser até 133% maior em comparação ao cenário que não considera mudança no clima.

    Para entender o semiárido nordestino cada vez mais seco, a Folha percorreu, em janeiro, cerca de 500 km ao longo dessa bacia, que reúne mais de 1,4 milhão de habitantes e está localizada no Nordeste setentrional, bastante castigado pela seca atual.

    Nas cidades e na zona rural mapeadas pela pesquisa da FGV, a reportagem encontrou açudes e torneiras quase vazios, caatinga acinzentada, agricultores acumulando prejuízos, gado morto e uma grande ansiedade pela iminente chegada das águas da transposição do rio São Francisco.

    Reza a lenda que, durante viagem ao Brasil, a cantora norte-americana Madonna gostou tanto da água de coco do Perímetro Irrigado de São Gonçalo, em Sousa (PB), que passou a importá-la em grandes quantidades. Outros contam que a fama de ser a água de coco mais doce do país provocou uma onda de falsificações do rótulo de origem.

    Tudo isso ficou no passado. Antes abastecidos pelo açude São Gonçalo, que represa o rio Piranhas, os canais de irrigação estão secos e inutilizados pela falta de manutenção. Construídos nos anos 1970 pelo Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), até o início da seca sustentavam a agricultura em uma área de 4.000 hectares.

    Hoje, os poucos coqueiros verdes –que bebem, cada um, 200 litros de água/dia– sobrevivem em torno dos poucos poços artesianos ainda viáveis. São oásis em meio a campos abandonados, onde predominam fantasmagóricos pés secos ou troncos tombados no chão.

    “Algumas pessoas migraram pra Brasília, outras pra São Paulo. Umas estão em empregos temporários e outras sobrevivem do apoio dos pais, que têm aposentadoria rural”, afirma o presidente de uma cooperativa local, Isaías Raimundo, 33.

    Ele estima que só 5% dos coqueirais dos 82 sócios tenham sobrevivido. No lote de 3 hectares da família, não sobrou nenhum dos 600 pés. “Há pouco, plantei meio hectare de banana e também está quase a óbito”, lamenta o líder comunitário.

    Segundo a FGV, em toda a bacia Piancó-Piranhas-Açu os prejuízos com a seca na bacia em cinco anos somam R$ 3 bilhões, ou 3,1% do PIB da região.

    Trechos da obra do Eixo Norte da transposição do rio São Francisco perto de São José de Piranhas, Paraíba

    Trechos da obra do Eixo Norte da transposição do rio São Francisco perto de São José de Piranhas, Paraíba – Avener Prado/Folhapress

     

    Mais perto da foz, no Rio Grande do Norte, agricultores do assentamento Novo Pingos, em Assu (214 km de Natal), perderam todos os cajueiros em uma área de 500 hectares. O prejuízo só não foi maior porque as árvores foram cortadas e vendidas como lenha.

    A boa notícia é que, em breve, a segurança hídrica da região deve melhorar. Após seis anos de atraso, o Ministério da Integação Nacional promete entregar, no segundo semestre de 2018, os 260 km do Eixo Norte da transposição do rio São Francisco, que alimentará a bacia Piancó-Piranhas-Açu. Em São Gonçalo, isso significa mais água para o açude e a perenização do rio Piranhas, que corta o perímetro.

    No Eixo Leste, inaugurado em março de 2017, o reforço do Velho Chico normalizou o abastecimento de dezenas de cidades de Pernambuco e Paraíba, incluindo Campina Grande (PB), que se encontrava à beira do colapso.

    O estudo da FGV avalia, porém, que a transposição, orçada em R$ 9,6 bilhões, tampouco será a panaceia para a bacia Piancó-Piranhas-Açu: na vazão prevista, as águas do São Francisco têm o potencial de reduzir, no máximo, 40% do seu déficit hídrico.

    “Em caráter emergencial, a transposição pode ser uma boa alternativa se bem gerenciada. Mas, a longo prazo, não há medida que ofereça a redenção. A redução dos danos da seca só será possível por meio de ações coordenadas que confiram resiliência aos sistemas hídricos locais”, afirma a engenheira ambiental Layla Lambiasi, coautora do estudo.

    Para iniciar um novo plantio, agricultor queima o que sobrou de coqueiral devastado pela seca em Sousa (PB) – Avener Prado/Folhapress
     

    Com mais de quatro décadas de experiência no local, o agricultor aposentado Inácio da Silva acredita que, mesmo com mais água, os produtores não terão dinheiro para investir no replantio de coco, que leva em média 3,5 anos para produzir.

    “Nós voltamos à estaca zero. Os terrenos estão descobertos, ninguém tem uma produção”, diz Silva. “Emprego não tem. Os velhos são aposentados, e os filhos ficam encostados na gente, porque a panela tem de ferver pra todo mundo.”

    Um dos sete filhos de Silva, Francisco, 49, passou 15 anos transportando o coco de Sousa para Recife e até Brasília. Quebrado, vendeu o caminhão e agora sonha migrar para o Guarujá, no litoral paulista. “Essa aí é a minha profissão agora”, diz, com um sorriso amargo, apontando para algumas galinhas no quintal.

    Acima, “carroça-pipa” puxada por burro em Brejo do Cruz (PB); no meio, fila para obter água em São José de Piranhas; no alto, o motorista de caminhão pipa Antonio Ferreira no reservatório Boa Vista – Avener Prado/Folhapress
     

    A 140 km de Sousa, São José de Piranhas (480 km de João Pessoa) é outra cidade sedenta à espera do socorro do rio São Francisco.

    Nos últimos meses, as bombas de água vinham funcionando apenas três dias por semana. Em 12 de fevereiro, o açude municipal entrou em colapso pela segunda vez desde o início da seca, deixando seus 20 mil habitantes dependentes dos carros-pipa. O sistema só foi religado no início de março, após chover forte na região.

    No futuro próximo, a cidade deve ser abastecida pelo reservatório Boa Vista, a 14 km do centro, que receberá água do São Francisco. Para isso acontecer, porém, ainda será preciso construir um aqueduto.

    Morador do Rabo da Gata, o bairro mais alto de Piranhas, o agricultor José Justino da Silva, 37, ficou sem água encanada desde setembro de 2017, quando a Cagepa (Companhia de Águas e Esgotos da Paraíba) suspendeu o racionamento por três dias para não prejudicar a Micaranhas, a micareta de São José de Piranhas.

    “Tinha água sobrando. São muitos anos que eu moro aqui, e eu nunca tinha tomado banho de chuveiro”, lembra Silva, da porta da sua casa de teto baixo, após ter buscado água de balde no carro-pipa.

    Terminada a folia, o racionamento voltou mais severo, e os canos secaram em definitivo no Rabo da Gata. A água agora só chega por meio de caminhões-pipa da prefeitura e do Exército ou por vendedores particulares, que cobram R$ 30 por mil litros (um metro cúbico).

    Mas, mesmo sem água, a conta continua chegando. Em janeiro, Silva teve de desembolsar R$ 40,84 em troca de vento encanado. Ele disse que prefere pagar a se arriscar ser cortado da rede –o religamento custa cerca de R$ 90.

    No entorno do reservatório Boa Vista, a expectativa também é grande. O agricultor piranhense Cicero Fernandes, 39, está com a vida paralisada há dois anos, desde que trocou o sítio, que será submergido quando o açude receber água da transposição, por uma das quatro vilas produtivas construídas para os reassentados.

    Fernandes e outros agricultores têm direito a lotes de 7 hectares, dos quais apenas 1 hectare será irrigado. Os demais são de “sequeiro”, termo usado para áreas agrícolas que dependem da chuva.

    Enquanto o projeto de irrigação não é implementado, as famílias reassentadas recebem uma ajuda mensal de 1,5 salário mínimo. Fernandes diz que o benefício é suficiente para se manter, mas vê as famílias fora dos assentamentos em situação pior.

    Muitos recorrem a temporadas de corte de cana em São Paulo ou à “furadinha” –venda ambulante de roupas em cidades do Maranhão e do Pará. O nome tem origem numa tabuleta de papel usada para fazer sorteio de produtos. Aos poucos, os vendedores trocaram a rifa pela confecção, mas o nome permaneceu.

    “A dificuldade aumentou. A cada ano que passa, a gente vê sofrimento das pessoas para sobrevivência humana e animal”, diz Fernandes. “Mas o sertanejo é forte, criativo, persistente. Tem sobressaído nessa teimosia dele e vai dando certo.”

    Principal açude do município de São José de Piranhas, seco; em fevereiro, local entrou em colapso por causa da estiagem – Avener Prado/Folhapress

     

    Coordenador local da Cagepa, Rondynelli Dias diz que o açude municipal “sangrou” (transbordou) pela última vez em 2011. Desde então, foi se esvaziando. No início de janeiro, quando a reportagem esteve na cidade, estava com apenas 1,6% da capacidade. No início de março, com as chuvas, subiu para pouco acima de 20%.

    Já acostumado a cobranças quando circula pelas ruas, Dias afirma que a Cagepa fará um levantamento sobre as contas indevidas de água.

    A seca prolongada é apenas um dos problemas do rio Piranhas, o principal da bacia. De tão debilitado, não consegue mais chegar ao mar.

    Em São Bento (390 km de João Pessoa), parte do esgoto corre a céu aberto em direção ao leito fluvial. A cidade, a maior às margens do rio, tem só 57% de esgotos recolhidos.

    “Não adianta [o rio] receber a água limpa do São Francisco e ela se contaminar com esgoto”, afirma o ex-vereador Josué Diniz de Araújo, 69, membro do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Piancó-Piranhas-Açu.

    Cenários desérticos na rodovia RN-118, no Rio Grande do Norte; abaixo, criação de camarão afetada pela seca na região da foz do rio Piranhas

    Cenários desérticos na rodovia RN-118, no Rio Grande do Norte; abaixo, criação de camarão afetada pela seca na região da foz do rio Piranhas – Avener Prado/Folhapress

     

    Há ainda a disputa pela água. O caso mais notório está perto do litoral, na região de Pendências (194 km de Natal), envolvendo moradores e a criação de camarões.

    Ex-pescadora do rio, Ana Lucia de Souza, 45, diz que há reclamação contra as empresas de camarão, acusadas de sobreuso da água. Por outro lado, é a principal fonte de emprego do município. “Não fossem essas empresas, não sei nem como a gente viveria por aqui. É uma coisa pela outra.”

    Nascida na região, ela diz que, antes, o rio era diferente, com água e peixe: “Uma coisa linda. Dá tristeza hoje, só vê mato”.

    Responsável pela gestão da bacia por ela ser interestadual, a ANA (Agência Nacional de Águas) não pode interferir para resolver o problema do esgoto urbano. Carlos Perdigão, coordenador da Superintendência de Planejamento de Recursos Hídricos, afirma que a prioridade da agência é melhorar a distribuição da água no semiárido.

    Além da conclusão da transposição, ele aponta como obras essenciais o término da barragem de Oiticica, em Jucurutu (RN), e a construção de um ramal para levar a água dali para a região do Seridó (PB/RN), que enfrenta processo de desertificação.

    Em linha semelhante, a FGV avalia que é preciso ir além da transposição para evitar um prejuízo econômico na bacia que, em 50 anos, pode alcançar R$ 7,8 bilhões: “Quanto mais diversificado for o conjunto de intervenções, a região estará menos exposta a eventos climáticos”, afirma Lambiasi.

    O estudo defende a “gestão da incerteza” como diretriz para minimizar os prováveis impactos da mudança do clima. As medidas sugeridas incluem a redução das perdas no trânsito da água entre reservatórios e a busca de atividades econômicas e práticas mais alinhadas com o semiárido.

    Os pesquisadores calcularam que, caso o poder público adote o conjunto de medidas recomendadas, a redução do déficit hídrico poderá chegar a 73%, e até 93% das potenciais perdas econômicas serão evitadas.

    Paraibano de Sousa e há pouco mais de dois anos à frente do Insa (Instituto Nacional do Semiárido), Salomão Medeiros afirma que um dos grandes desafios é levar a informação gerada pelos estudos até os gestores municipais. Os obstáculos vão desde a linguagem técnica difícil até a necessidade das prefeituras de atender a demandas urgentes do curto prazo.

    “Existe também uma questão cultural nossa: a esperança de que vai chover”, diz o engenheiro agrícola.

    Família se protege da chuva na cidade de São Bento (390 km de João Pessoa), na Paraíba – Avener Prado/Folhapress

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/nordeste/seca-historica-ja-dura-seis-anos-e-ameaca-tornar-se-regra-no-semiarido/

     

    Prof Luciano Mannarino

  • Crise no Clima “Cerrado”.

    Cerrado

    Agronegócio banca palestras de cético sobre mudança climática para ruralistas no Matopiba

    Trabalhadores rurais capinam terreno em Correntina, na Bahia, em meio a fumaça de queimada feita para “limpar” o campo – Avener Prado/Folhapress

     

    Patrícia Campos Mello/Avener Prado

    22.mai.2018 – 02h00

    OESTE DA BAHIA

    Uma plateia de mais de 400 produtores de soja, no coração do agronegócio brasileiro, aplaudiu longamente a apresentação do meteorologista Luiz Carlos Molion.

    “O aquecimento global é um mito: a temperatura mundial não está aumentando, nós vivemos ciclos de aquecimento e resfriamento que sempre existiram”, dizia Molion, conhecido cético sobre a noção de mudanças climáticas, em outubro do ano passado. Sua palestra havia sido patrocinada pela Agrosul, concessionária da multinacional de máquinas agrícolas John Deere, pela fabricante de adubos Fertilaqua e pela Fundação Bahia, entidade de pesquisa bancada por produtores baianos.

    “O CO2 não causa efeito estufa e a ação do homem é insignificante para causar efeitos sobre o clima”, afirmava Molion em um auditório decorado com tratores na cidade de Luís Eduardo Magalhães, onde se concentra a produção de soja no oeste da Bahia.

    Estrada rural corta cerrado em Correntina, no oeste baiano – Avener Prado/Folhapress

    Luís Eduardo Magalhães faz parte da região conhecida como Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), a mais nova fronteira agrícola do Brasil. Abriga a maior parte das terras ainda não exploradas no país. Aqui, as ideias de Molion são repetidas como mantra pelos produtores rurais.

    O pesquisador aposentado dá cerca de 50 palestras por ano em diversos estados brasileiros, contratado por empresas como a Syngenta e a Casa do Adubo, além de associações de produtores, prefeituras e governos estaduais. Na quarta-feira (16), ele foi o principal palestrante da convenção internacional da soja Soy Sur, patrocinada pela Bolsa de Chicago (CME Group), em Ciudad del Este, no Paraguai.

    Em suas apresentações, ele fala sobre a tendência do clima para a safra seguinte, os próximos dez anos, e denuncia “a inverdade científica chamada aquecimento global”. “Mostro para os agricultores que eles não são culpados, que o CO2 e o metano não têm nada a ver com variabilidade climática e que o desmatamento não tem nenhuma influência sobre o regime de chuvas”, disse Molion à Folha.

    Físico e pesquisador aposentado do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), Molion goza de pouca credibilidade no mundo acadêmico. “Alguém dizer que a molécula de gás carbônico não exerce efeito estufa atmosférico, isto é, que não absorve e reemite radiação térmica, é uma asneira anticientífica equivalente a dizer que a Terra é plana”, afirma o meteorologista Carlos Nobre, presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas e ex-pesquisador do Inpe.

    “É irônico ver empresas que dependem tanto de ciência para desenvolvimento de seus produtos patrocinarem de forma irresponsável e antiética a pseudociência, pensando somente no lucro que a expansão da fronteira agrícola vai lhes trazer.”

    A presidente do Sindicato de Produtores Rurais de Luís Eduardo Magalhães, Carminha Maria Missio, representa mais de 1.400 produtores rurais e cerca de 2 milhões de hectares de área plantada, equivalente ao estado de Sergipe. Ela afirma não existir prova de que a Terra está se aquecendo nem de que o homem tem alguma coisa a ver com isso.

    “Ninguém sabe o que é fato e o que é opinião. O que acabou com os dinossauros? Foi o desmatamento?”, indaga. Ela diz que sua região teve quatro anos de seca, de 2012 a 2016, e agora está voltando à “normalidade”.

    Pesquisas, no entanto, indicam o contrário.

    Segundo levantamento de Ludmila Rattis, das ONGs de pesquisa Woods Hole Research Center (WHRC, dos EUA) e Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), a temperatura média da região de Luís Eduardo Magalhães e Barreiras aumentou de 0,7ºC a 0,8ºC entre 1901 e 2015.

    A pesquisadora usou dados da Climate Research Unit da Universidade de East Anglia (Reino Unido). Constatou que houve aumento de até 2ºC em setores do cerrado, como o sul de Goiás. Ela ressalva que o estudo apenas aponta que houve, sim, aumento na temperatura –mas não analisa se isso já pode ser atribuído à ação do homem.

    O regime de chuvas também sofreu alterações. Dissertação de mestrado da bióloga Juliana Oliveira Campos, da Universidade de Brasília (UnB), aponta que houve queda de 8,4% na precipitação no cerrado entre 1977 e 2010. No sul desse bioma, em Goiás, a redução de chuvas chegou a 10,6%, enquanto ao norte, no Matopiba, foi de 4,7%.

    “Acreditamos que a redução das chuvas foi menor no Matopiba porque lá o desmatamento foi menor e teve início mais tardio”, diz Juliana. A retirada das árvores do cerrado e sua substituição por pastagens e lavouras teria levado a uma redução da evapotranspiração (perda de água do solo por evaporação e, nas plantas, por transpiração), que diminui a formação de chuvas.

    Marcos Heil Costa, professor de climatologia da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e coordenador de um estudo de avaliação do potencial hídrico do oeste da Bahia, considera que a seca dos últimos anos não faz parte de um ciclo natural.

     

    “A seca é bem mais longa do que o normal, está entrando no sexto ano. E em 2017, apesar de ter voltado a chover em algumas áreas, as chuvas começaram muito tarde. O IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, órgão criado pelas Nações Unidas e pela Organização Meteorológica Mundial] prevê que haverá expansão da área de semiárido para o cerrado”, diz.

    A agropecuária é o principal emissor no Brasil dos gases que agravam o efeito estufa e resultam na elevação da temperatura média da atmosfera terrestre.

    Segundo o Sistema Nacional de Registro de Emissões, 33% delas vêm do setor de energia, a maioria da queima de combustíveis fósseis. Em segundo lugar estão as emissões diretas da agropecuária, com 31%, por meio do uso de fertilizantes (que leva à emissão de óxido nitroso), do metano expelido pelo gado e da queima de combustível por máquinas agrícolas e de transporte.

    Em terceiro lugar, no cômputo oficial, aparece o desmatamento, com 24%. Como a derrubada de florestas se faz para aumentar a área de pasto e agricultura, a agropecuária responde em realidade por 55% das emissões brasileiras.

    Hoje, o Matopiba concentra a maior área agricultável ainda disponível do país, em grande parte porque sua conversão foi tardia. O Sudeste começou a ser convertido para agropecuária séculos atrás, e a Amazônia, em grande escala, nos anos 1970.

    Acima, vista aérea de campo de soja em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia; abaixo, pivô usado para irrigar o campo – Avener Prado/Folhapress

    Já o cerrado começou a ser explorado apenas 30 anos atrás, com a chegada de imigrantes do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Vinham atrás das terras que eram muito baratas, por causa do desafio de fazer o solo ácido começar a produzir.

    Os produtores, no entanto, estão expandindo a atividade agropecuária para locais onde não há viabilidade econômica, por exigir uso excessivo de produtos químicos para corrigir solo e de irrigação, adverte André Guimarães, diretor-executivo do Ipam.

    “Não somos contra a produção agropecuária, mas é preciso ordenar a ocupação do Matopiba. Em vez de ficar expandindo a agropecuária para áreas onde não há viabilidade econômica, precisamos preservar essas áreas”, diz Guimarães.

    Muitos produtores, mesmo sem acreditar que a mudança climática veio para ficar, já se adaptam a uma realidade mais seca e quente. Pedro Cappellesso, 30, e sua família têm uma fazenda de mil hectares onde produzem 70 mil sacas de soja –suficientes para encher mais de cem carretas de três eixos.

    Como grande parte dos produtores da região, ele faz rotação de culturas e plantio direto, duas técnicas agronômicas para preservar o solo. No sistema de plantio direto, a terra não fica nua, sujeita a erosão e enxurradas, mas coberta com a “palhada”, restos de cultura como sorgo, milho, capim braquiária e milheto. Antes de semear, o solo não é revolvido por arado.

    A prática reduz a perda no solo por erosão e os gastos com combustível, sementes e adubo –e também as emissões. Cappellesso agora usa o sorgo para rotação de culturas. “Não plantamos mais o milho, porque consome muito mais água e nós entendemos que o rio está dando problema”, diz.

    O proprietário de fazenda Pedro Cappellesso em plantação de sorgo em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia; ele se prepara para uma realidade mais seca e quente – Avener Prado/Folhapress

    As seguidas secas que afetaram a região mais a concessão desorganizada de outorgas para retirada de água para irrigação vêm diminuindo a vazão de alguns rios. A água faz diferença na produtividade: a soja sem irrigação, ou de sequeiro, rende 60 sacas por hectare. Com ela, o rendimento sobe para 80 a 85 sacas.

    “O norte do cerrado vive uma situação crítica –se a seca persistir, a atividade agrícola na região se tornará antieconômica”, diz Mercedes Bustamante, do Departamento de Ecologia da UnB.

    O aumento da temperatura, aliado à redução da vazão dos rios e ao avanço das grandes propriedades, tem acirrado os conflitos fundiários e também por água.

    A região de Correntina (BA) foi palco de uma invasão em novembro de 2017. Cerca de mil pequenos agricultores ocuparam a Fazenda Igarashi e destruíram as instalações. Eles culpam a fazenda pela baixa na vazão do rio Arrojado, que está inviabilizando a agricultura dos ribeirinhos.

    Os pequenos produtores usam sistemas de irrigação tradicionais, como o rego e a roda d’água, que não funcionam quando a vazão do rio cai muito. A Igarashi voltou a funcionar recentemente e líderes locais afirmam que vão invadi-la de novo se os rios voltarem a baixar.

    “No ano passado, a água que vinha pelo rego [sulco construído pelos produtores para irrigação] sumiu, a gente tinha que ficar acordado a noite inteira e se revezar para empoçar um pouco de água e conseguir molhar a terra [irrigar]. Foi uma tristeza, morreu o milho, o feijão, tudo”, diz Adolfo Batista de Oliveira, 55, que planta um hectare de milho, batata e feijão para sustentar a família de seis.

    “A crise hídrica é óbvia, a redução da vazão dos rios é percebida por toda a população”, diz Luciana Khoury, promotora de Justiça Ambiental na região. Segundo ela, o problema é que não existe um plano de bacia estabelecendo o que pode ser retirado dos rios e do aquífero Urucuia, que abastece a região, sem ameaça à segurança hídrica.

    Ela pediu em dezembro de 2015 que fosse suspensa a concessão de outorgas para captação dos rios até que o plano de bacias ficasse pronto, mas sua recomendação não foi acatada pelo governo estadual.

    Homem atravessa ponte sobre riacho seco em Correntina (BA) – Avener Prado/Folhapress

    Segundo Marcos Costa, da UFV, os dados apontam uma diminuição média da vazão dos rios na região. Mas, para ele, o fenômeno se deve mais à seca prolongada do que ao aumento de retirada de água para irrigação.

    Ele diz que, hoje em dia, as outorgas para retirada de água são concedidas com base em informações que estão defasadas. “Não se analisa, por exemplo, qual é o impacto da multiplicação dos poços sobre as águas subterrâneas, como as do aquífero Urucuia.”

    Mercedes Bustamante ressalva que o agronegócio não constitui um bloco homogêneo. “Há uma parcela de grandes produtores agrícolas muito conscientes, que praticam uma agricultura sustentável inovadora, usando alta tecnologia”, diz.

    “Eles estão usando métodos de conservação do solo, reduzindo uso de fertilizantes, porque, além de ser ecologicamente positivo, reduz o risco econômico.”

    Para o climatologista Carlos Nobre, a agricultura cometerá “suicídio se não se adaptar às mudanças climáticas que já ocorrem e que continuarão a ocorrer por muito tempo no futuro, como, por exemplo, o aumento dos extremos climático como secas e ondas de calor que tantos prejuízos trazem.”

    Procuradas pela reportagem, as empresas que bancam as palestras do professor cético dizem não compactuar com suas ideias e afirmaram estar comprometidas com ações de mitigação para mudanças climáticas. A Fertilaqua informou que contrata Molion porque ele tem boa credibilidade para previsão do tempo e é demandado por clientes, não por causa de sua campanha contra a ideia de aquecimento global.

    Segundo a Syngenta, a contratação se deu devido ao amplo conhecimento de Molion sobre o cultivo do café e seu sistema de previsibilidade climática. “Essa visão [ceticismo climático] não se alinha com a da Syngenta”, disse a empresa em nota.

    A John Deere afirma que as declarações feitas por qualquer palestrante em eventos afiliados à John Deere são opiniões pessoais e não representam o posicionamento da empresa. A multinacional disse também reconhecer a mudança climática e estar comprometida com agricultura sustentável.

    Homens trabalham na colheita de bananas em Barreiras, na Bahia – Avener Prado/Folhapress

    Já a Casa do Adubo, rede de lojas de insumos agropecuários, afirmou que contrata o palestrante porque ele acerta nas previsões do tempo, mas também por suas críticas à tese do aquecimento global.

    Molion afirma que as empresas o contratam como chamariz, porque sabem que suas palestras são populares.

    “Ele acerta na previsão de secas, mostra que não existe aquecimento global e que não é tudo culpa do agricultor”, diz Alexandre Moreira Maciel, 41, que produz banana e mamão na região de Barreiras (BA).

    “Gostamos muito das avaliações científicas dele, e em 2010 ele previu a seca pesada que tivemos em 2012”, diz Nílson Vicente, diretor-executivo da Fundação Bahia. “Se existisse mesmo esse aquecimento global, o café já ia ter sentido, porque é muito sensível à temperatura.”

    Há outros cientistas na região que compartilham da opinião de Molion, como Ricardo Reis Alves, professor de geografia da Universidade Federal do Oeste da Bahia, constantemente consultado pela Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba).

    “O filme do [ex-vice-presidente dos EUA] Al Gore deveria chamar ‘Uma mentira conveniente’, não “Uma verdade inconveniente”, diz o agrônomo Valmor dos Santos, 59, vice-presidente do Programa de Agronomia Sustentável em LEM. “São interesses estrangeiros tentando prejudicar nossa agricultura, a mais produtiva do mundo.”

     

     

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/cerrado/agronegocio-banca-palestras-de-cetico-sobre-mudanca-climatica-para-ruralistas-no-matopiba/

     

     

    Prof Luciano Mannarino