Categoria: ATIVIDADES

Modelos de atividades para a Sala de Aula (Geografia)

  • DESIGUALDADE GLOBAL (ÁSIA)

    Ásia tira milhões da miséria, mas fosso de renda se abre

    China usa mão pesada do Estado e financiamento público a empresas para criar empregos, mas crescem as dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo intervencionista.
    Fernando CanzianLalo de Almeida (fotos)
    CHINA

     

    Quando jovens nos anos 1980, os agricultores Li Hu Hu, 58, e Hao Sanhuan, 54, moradores de Hohhot, cidade no norte da China perto da fronteira com a Mongólia, foram obrigados pelos pais a se casarem antes de terem se conhecido.

    “Daquela época, não vale nem recordar. Era muito duro. Nossos pais tinham muitos filhos e não podiam cuidar de todos”, diz Hao ao lado do marido.

     

    Com roupas e mãos encardidas de terra, o casal mostra a pequena casa em reforma onde vive em meio a galinhas e carneiros.

    Ambos trabalham em uma fazenda de cogumelos e é com o dinheiro dessa atividade que reconstroem a casa e que pagaram os estudos dos filhos.  Aos 28 anos, o caçula formou-se em química aplicada, fez mestrado e agora trabalha em Pequim.

    Em um país com quase 1,4 bilhão de pessoas, Li e Hao fazem parte dos quase 800 milhões de chineses que deixaram para trás a pobreza extrema desde 1978.

    Hao Sanhuan e Li Hu Hu trabalham em plantação de cogumelos financiada pelo governo chinês em Hohhot, na China; o casal em sua casa, onde criam carneiros e galinhas no quintal

     

    Foi naquele ano dois após a morte de Mao Tse-tung (1893-1976), responsável por fazer da China um país comunista que o então secretário-geral do PCC (Partido Comunista Chinês), Deng Xiaoping (1904-1997), introduziu as reformas econômicas que levariam o país a crescer cerca de 10% ao ano por um longo período. Até se transformar na segunda maior economia do mundo, atrás só dos EUA.

    A rápida industrialização chinesa baseada na exportação, em baixos salários (cada vez mais raros) e na alta produtividade foi crucial para a transformação do país. Agora, a meta do atual dirigente com cargo vitalício, Xi Jinping, 66, é eliminar a miséria da China até 2020.

    Após Xi tomar posse em 2013, o governo contabilizou 89 milhões de pessoas consideradas pobres no país. Em seis anos, segundo dados oficiais, esse total já foi reduzido para 13,1 milhões. Concentradas sobretudo em áreas rurais, onde os rendimentos são um quarto do que é observado nas cidades, elas agora são o alvo prioritário de projetos que têm por trás a mão pesada do Estado chinês.

    Su Gouxia, do Gabinete de Combate à Pobreza, diz que a verba deste ano para a área equivale a 3,4% do orçamento público, ou 120 bilhões de yuans (R$ 67 bilhões, o dobro do Bolsa Família, que atende 13,7 milhões de famílias).

    Funcionário do governo chinês apresenta estatísticas sobre a redução da pobreza no país

    “Injetamos muito dinheiro também em transporte, educação e serviços médicos nas zonas rurais”, diz Gouxia.

     

    A fazenda de cogumelos onde Li e Hao trabalham em Hohhot faz parte desse gigantesco esforço de subsidiar negócios e empresas que contratem diretamente pessoas em situação miserável. Na plantação foram investidos 650 milhões de yuans (R$ 360 milhões) em dinheiro público para a produção anual de 5.000 toneladas de diferentes tipos de cogumelos.

    Não há lucro ainda, diz Wang Hailin, diretor do negócio que emprega cerca de 500 agricultores. Mas, em média, cada um deles ganha entre 3.000 e 4.000 yuans por mês (R$ 1.650 a R$ 2.200), dependendo da produtividade.  Essa é a mesma faixa de renda que o vendedor e criador de gado Liu Yongsheng, 43, obtém na feira de Cheng Feng, em Tongliao, mais ao leste do país e perto da fronteira com a Coreia do Norte.

    Com a ajuda de empréstimos do governo, foram os administradores da própria feira que repassaram um financiamento de 100 mil yuans (R$ 56 mil) a Liu para que ele pudesse começar a criar e a comercializar gado. Como Liu, outras 41 pessoas foram ajudadas desde 2016.

    “As mudanças aqui são muito grandes e estamos bem melhor do que quando éramos jovens”, diz Liu, cujo sonho é fazer do filho de 17 anos um universitário.

     

    A feira de Cheng Feng comercializa cerca de 8.000 cabeças por pregão e foi criada por um ex-militar do Exército chinês e membro do Partido Comunista Chinês.

     

    Depois de montar a operação, ele constituiu uma célula do partido dentro do negócio, em uma configuração cada vez mais comum na China e testemunhada pela Folha em várias empresas visitadas.

    Estima-se que atualmente mais de 70% das companhias privadas (inclusive estrangeiras) na China tenham células do partido em atividade, numa tendência que vem se acentuando desde a chegada de Xi Jinping ao poder. Esses núcleos políticos servem tanto para que as empresas acompanhem melhor as políticas do governo central quanto para que possam se livrar de burocracias locais e obter vantagens como empréstimos subsidiados.

    Em novembro de 2018, o jornal oficial Diário do Povo anunciou que Jack Ma, fundador do grupo Alibaba e uma das pessoas mais ricas do mundo, filiou-se ao partido, seguindo um caminho já trilhado por grandes empresários no país.

    Ao todo, o PCC tem quase 90 milhões de membros na China e oferece um aplicativo para celulares a fim de que seus filiados acompanhem online as orientações do partido e os discursos de Xi Jinping.  “No nosso caso, a célula do PCC atraiu a participação de comerciantes vizinhos para a feira”, diz Zhang Min, gerente de vendas da Cheng Feng e irmã do fundador.

    Segundo Yu Xiaohua, professor da Universidade de Renmin, em Pequim, outra tendência do setor privado tem sido a de ampliar investimentos no interior, empregando mais pessoas em zonas ainda muito pobres, para fugir de custos e salários em alta nas áreas ricas do leste chinês.

    Paralelamente, outra meta do governo para 2020 é elevar a 60% o total de chineses nas zonas urbanas. Para isso, cidades com população entre 3 milhões e 5 milhões foram franqueadas aos que possuem apenas registros rurais de residência o “hukou”, uma espécie de passaporte interno.

    Criador de gado chinês que obteve subsídio do Estado tenta laçar vaca no interior da China; abaixo, instalações “high tech” em uma das maiores fábricas de leite do mundo, na China

     

    Ações como essas e o formidável crescimento chinês nas últimas décadas levaram a China a protagonizar a maior história de sucesso da humanidade em termos de redução da pobreza.

    Segundo o Relatório da Desigualdade Global da Escola de Economia de Paris, na qual atua o economista Thomas Piketty, desde o início das reformas de Deng Xiaoping, em 1978, a renda média chinesa saltou 780% como comparação, a alta nos EUA foi de 63%, e na França, de 38%.

    Seguindo a tendência de quase todos os países do mundo, no entanto, isso veio acompanhado de um aprofundamento da desigualdade, deixando para trás uma época em que os 10% mais ricos na China e os 50% mais pobres ficavam com cerca de um quarto (27%) da renda cada.

    Hoje, os 10% mais ricos se apropriam de mais de 40% dos rendimentos e os 50% mais pobres, de menos de 15%.

     

    Assim como a China, muitos dos países que tiveram sucesso no combate à pobreza extrema ou crescimento acelerado registraram aumento na desigualdade, pois houve ganhos maiores nos setores que puxaram o desenvolvimento. Seus participantes se beneficiaram mais.

     

    Na China, o aumento da renda acumulado pelos 10% mais ricos desde 1980 foi de 1.230%; entre os 50% mais pobres, de 386%. No caso chinês, a concentração de renda coincidiu com a onda de privatizações entre 1998 e 2006.

    No período, a classe média (os 40% “do meio” entre os 10% mais ricos e os 50% mais pobres) teve um ganho de 730%, apenas um pouco abaixo da média geral. Aboa notícia no caso chinês é que a desigualdade, embora estacionada em patamar elevado, vem parando de aumentar há quase 15 anos.

    Por causa da China e também da maioria de seus vizinhos asiáticos, a Terra hoje pode ser considerada um “planeta classe média”.

    Nele, mais da metade da população (cerca de 3,8 bilhões de pessoas) vive com algo entre US$ 11 e US$ 110 ao dia (R$ 42 a R$ 416) e tem renda suficiente para comprar geladeiras ou motocicletas, segundo o Brookings Institution, de Washington. “Mesmo onde a desigualdade ainda aumenta, o crescimento em países como China, Índia, Vietnã, Filipinas ou Indonésia é muito forte, a ponto de compensar a alta da disparidade de renda e causar a expansão de suas classes médias”, diz Homi Kharas, do programa de Economia Global do Brookings Institution.

    Na China, tanto a renda média dos 50% dos adultos mais pobres (cerca de R$ 1.400 mensais) quanto a da classe média (R$ 5.100) já superou, ainda que por pequena margem, a brasileira segundo o critério PPC (Paridade do Poder de Compra), que relaciona poder aquisitivo ao custo de vida local.

    Mulheres com roupas típicas em frente à entrada da Cidade Proibida, no centro de Pequim; na capital chinesa é comum grupos se reunirem para dançar pela manhã ou no final do dia.

     

    Para Lucas Chancel, coordenador do relatório, China e demais asiáticos protagonizam “o lado feliz da globalização”, que proporcionou a melhora da renda nesses países altamente populosos e voltados à exportação.

    “O outro lado da globalização é que a renda cresce em ritmo muito baixo para as classes trabalhadoras na América do Norte e em determinados países europeus. Alguns políticos já perceberam isso, e estamos vendo os efeitos”, diz Chancel, em referência às ondas de populismo e protecionismo dos últimos anos.

    Apesar das críticas de muitos líderes do Ocidente ao modelo de “capitalismo de Estado” chinês, sobretudo de Donald Trump nos EUA, alguns especialistas em desigualdade concordam que, em termos de combate à pobreza, ele traz resultados sólidos.

    “Na China, as empresas privadas produzem cerca de 70% de todo o valor agregado e empregam quase 80% da força de trabalho, que é assalariada. Portanto, há pessoas legalmente livres trabalhando”, diz Branko Milanovic, autor de “Global Inequality” (Harvard University Press).  “Isso não significa que o Estado chinês não tenha um papel ativo. Mas ele não é muito diferente do que o Estado francês teve nos anos 1980.”

    Seguranças orientam o público na Cidade Proibida, em Pequim; na entrada do palácio, foto do líder Mao Tsé-Tung

    Ao longo das últimas décadas, o crescimento chinês foi baseado amplamente em investimentos em infraestrutura e empréstimos a empresas com recursos estatais para plataformas de exportação que usavam mão de obra em larga escala e barata.

    Isso fez com que a taxa de investimentos da China alcançasse quase a metade do PIB e seja hoje equivalente a mais que o dobro da média dos países ricos. Já o consumo das famílias representa um terço do PIB, metade da taxa nos países desenvolvidos.

    Com o aumento da renda média, a expectativa era de que os investimentos públicos pudessem refluir, que o Estado se desfizesse de boa parte de suas 150 mil estatais e que o consumo virasse o principal motor do crescimento.

    Embora as grandes cidades chinesas agora estejam repletas de shoppings quase sempre cheios, a chegada de Xi Jinping ao poder parece ampliar novamente a participação do Estado na economia.

    A partir de 2013, por exemplo, as estatais subiram de 35% para 80% sua participação em empréstimos bancários, segundo dados do economista Nicholas Lardy, do Peterson Institute for International Economics.

    Por trás do novo intervencionismo estaria a tentativa de acelerar outra vez o investimento no menor patamar em 20 anos e a economia.

    Com crescimento anualizado em torno de 10% até a crise global de 2008, o PIB perde força e neste ano deve ceder a 6% ou menos, dependendo do impacto da guerra comercial com os Estados Unidos.

    O risco dessa estratégia, segundo especialistas, seria o de anabolizar demais a economia com empréstimos estatais para promover negócios que não encontrarão demanda correspondente no futuro.

     

    http://temas.folha.uol.com.br/desigualdade-global/asia/asia-tira-milhoes-da-miseria-mas-fosso-de-renda-se-abre.shtml

    Questões

    1. O que seria o “Capitalismo de Estado”? Exemplifique.

    2. Qual foi importância do governo de  Deng Xiaoping no crescimento da China?

    3. Quais são os principais desafios que a China deverá enfrentar nas próximas décadas?

     

     

     

    Prof Luciano Mannarino

     

  • DESIGUALDADE GLOBAL (EUROPA)

    Europa

    A revolta da classe média

    Afetados pela globalização perdem status e se rendem ao populismo

    Fernando CanzianLalo de Almeida (fotos)
    REINO UNIDO, FRANÇA E ESPANHA

    21:11

     

    Antes do início dos anos 1990, a paisagem do noroeste da Inglaterra era dominada pelas chaminés de mais de mil fábricas, a maioria de tecelagens do auge da revolução industrial, no século 19.

     

    Foi uma época em que as primeiras máquinas a vapor multiplicaram a geração de bens e de fortunas. Primeiro na Inglaterra. Depois, no resto da Europa, nos EUA e em outras partes do mundo.

    Em seu apogeu, Oldham, na Grande Manchester, foi um dos locais mais dinâmicos da Terra, conectado ao resto do mundo por ferrovias que chegavam ao porto de Liverpool.

    Hoje, a cidade de 100 mil habitantes parece um museu. Sobraram poucas chaminés e, com ares de decadência, centenas de pequenas casas de tijolos escuros que abrigavam os operários do passado.

    No alto, prédio em ruínas da tecelagem Hartford, inaugurada em 1907, em Oldham, no Noroeste da Inglaterra; abaixo, edifício abandonado de companhia de seguros e centro de Oldham

    Na Union Street, uma das ruas principais, o ponto mais movimentado parece ser um centro para desempregados. É ali que Brian Melling, 65, busca trabalho há quatro anos.

    Ex-motorista de caminhão, seu padrão de vida decaiu junto com as indústrias de Oldham, afetadas por uma globalização que encontrou salários mais baixos na Ásia e expulsou gente jovem e educada para as grandes cidades.

    Antes, Melling podia, como diz, “ter motocicleta, fumar, beber e fazer o que quisesse. E economizava dinheiro”.

    Hoje, vive em um apartamento quase que totalmente subsidiado por uma fundação privada e passa os dias com 73 libras por semana (R$ 340) do seguro desemprego. Para economizar, come enlatados de baixa qualidade, lanches frios, frutas e bebe muito chá.

    Melling e as pessoas de sua região foram as maiores responsáveis pela aprovação do brexit em 2016. Numa vitória apertada, 51,9% dos que votaram no referendo optaram por sair da União Europeia e reconquistar a opção de fechar o Reino Unido à imigração e a produtos estrangeiros.

    Em Oldham, não só mais pessoas votaram no referendo como o apoio ao brexit atingiu 61%, taxa que se repetiu em toda a Grande Manchester. Na Grande Londres, mais dinâmica e cosmopolita, deu-se o contrário: 60% votaram pela permanência.

    Recentemente, a ex-primeira-ministra britânica Theresa May renunciou ao não concluir o brexit, e pode ser substituída pelo ex-prefeito de Londres Boris Johnson, defensor da saída mesmo sem um acordo com a União Europeia.

    O motorista de caminhão desempregado Brian Melling vive com 73 libras por semana do seguro desemprego e mora em um apartamento subsidiado em Oldham, na Inglaterra

    “Votei pelo brexit porque estávamos melhor antes do mercado comum. Empobrecemos muito e todos têm nos tratado muito mal”, diz Melling.

     

    Em sua opinião, o radicalismo na Europa vem se alimentando de um sentimento parecido com o seu.”Veja os ‘coletes amarelos’ na França. As pessoas querem um basta.”

    Para David Soskice, coordenador do International Inequalities Institute, em Londres, enquanto moradores de grandes centros têm se saído melhor por serem mais educados e globalizados, os do interior perdem renda e status.Isso explicaria tanto o brexit quanto Donald Trump nos EUA, onde estados empobrecidos do meio-oeste garantiram a vitória do republicano.

    Mas o principal motor do radicalismo e do populismo, sobretudo no Ocidente, seria o empobrecimento da classe média -resultado da mistura de globalização, avanços tecnológicos, melhor educação concentrada no topo e financeirização do capital em detrimento da produção física que gera empregos.

    Cada vez mais distante dos ricos acima e pressionada por serviços públicos piores e gastos maiores, sobretudo com moradia, sem que os salários acompanhem, é a classe média quem se volta a partidos eurocéticos, anti-imigração e de extrema direita atrás de soluções.

    “São pessoas preocupadas em não cair no poço da pobreza, ou que isso possa acontecer aos seus filhos. Elas votam pensado nisso”, diz Soskice.

    Foi esse tipo de decadência pessoal que levou Mark Hodgkinson, 58, a marchar recentemente durante 14 dias e por 450 km em defesa do brexit, do interior da Inglaterra até o Parlamento em Londres.

    Morador de Rochdale, ao norte de Manchester, o vendedor de produtos online viu seus dois filhos e de amigos fugirem para cidades maiores como Londres atrás de oportunidades que não existem mais onde viviam.

    “Há 20 anos havia muito trabalho aqui. Hoje, os jovens não têm chances”, diz.

    Marcha pró brexit percorreu 450 km entre o interior da Inglaterra e o centro de Londres

    Mark Hodgkinson (3º da dir. à esq.) marchou durante 14 dias para pressionar o Parlamento inglês

    Ativista pró brexit carrega bandeira do Reino Unido durante marcha no interior da Inglaterra

     

    O economista Branko Milanovic, autor de “Global Inequality” (Harvard University Press), diz que o que existe hoje é um “voto de protesto” contra a falta de programas coerentes para estancar o encolhimento da classe média.

     

    Segundo ele, o fenômeno tornou-se estrutural e poderá, no futuro próximo, afetar o consumo, principal motor do crescimento econômico.

    “Para ficar num exemplo extremo, haveria demanda por um automóvel Maserati de um lado, e uma imensa demanda por arroz e pão, de outro. Isso não significa que não haverá crescimento, mas ele será de um tipo diferente. “Para Martin Wolf, comentarista-chefe no jornal britânico Financial Times, respostas como o brexit, Trump e outros radicalismos “não farão nada para resolver o problema”.

    “Na verdade, isso só vai piorar as coisas, encorajando pessoas a culpar algum outro grupo, muitas vezes mais vulnerável”, diz, em referência à imigração. Entre todas as regiões do mundo, contudo, é na Europa Ocidental onde a desigualdade de renda ainda cresce mais devagar, embora ela também tenha tomado uma curva ascendente desde os anos 1980 -sobretudo pela crescente acumulação no topo.

    No Reino Unido, o 1% mais rico dobrou a participação na renda nacional no período e hoje se apropria de cerca de 12% do total, segundo o Relatório da Desigualdade Global, da equipe do economista Thomas Piketty, da Escola de Economia de Paris.

    Abaixo do topo, porém, 500 mil britânicos decaíram nos últimos cinco anos e hoje vivem com renda mensal inferior a 60% da média nacional. Eles são hoje 4 milhões de trabalhadores (1 em cada 8) com renda mensal inferior a 1.100 libras (R$ 5.170), o que os classifica como pobres, segundo a Joseph Rowntree Foundation a partir de um dos critérios da União Europeia.

    Esse empobrecimento coincidiu com cortes de mais de 30 bilhões de libras (R$ 140 bilhões) em benefícios sociais no Reino Unido desde 2010.

    Isso contribuiu para dobrar, por exemplo, a procura pelos Food Banks (bancos de alimentos) entre os britânicos a partir de 2013.m”Em 2018, ajudamos quase 8.000 pessoas. Há sete anos, quando começamos, eram cem”, diz Lisa Leunig, 52, chefe do Food Bank de Oldham.

    Em todo o Reino Unido só no ano passado foram distribuídas 1,4 milhão dessas cestas montadas com doações -quase o dobro na comparação com cinco anos atrás.

    Quando a Folha visitou o Food Bank de Oldham, Katherine Storor, 33, estava lá com seu filho. Ex-funcionária de uma tecelagem que fechou e trabalhando agora em uma loja ganhando 250 libras por semana (R$ 1.170), ela recorre ao sistema em emergências.

    Katherine mora com a mãe porque não consegue alugar uma casa por menos de 600 libras (R$ 2.800) por mês.

    Mulher pede esmola em ponte de Canary Wharf, área que reúne bancos e empresas em Londres (no alto); em vários pontos da capital inglesa e em Paris, na França, grupos de sem-teto vivem em barracas

    Do outro lado do canal da Mancha, a França vive uma história parecida.

    Nos últimos dez anos, cerca de 630 mil pessoas passaram a viver na pobreza, muitas vindas da classe média. São considerados agora pobres 5 milhões de pessoas, ou 8% da população, segundo o Observatório das Desigualdades.

    O organismo considera pobre os que vivem com menos da metade do salário médio francês, ou cerca de 855 euros (R$ 3.600) -o equivalente ao aluguel de um apartamento de 20 m² em Paris.

    Usando a mesma régua do Reino Unido (menos de 60% da renda média), os pobres na França saltariam a 8,8 milhões, ou 14% da população. Na última década, o total de pessoas atendidas por programas de alimentação praticamente dobrou no país, para 4,8 milhões.

    Embora a França ainda apresente níveis de pobreza equivalentes à metade da média europeia, seu aumento vem rompendo uma histórica tendência de queda.

    Segundo o Relatório da Desigualdade Global, após os “gloriosos 30 anos” (1950-1983) que elevaram a renda média de 99% da população em 200% (e a do 1% mais rico em 109%), houve uma reversão.

    A partir dali, enquanto o crescimento acumulado dos rendimentos da metade mais pobre foi de 31%, no decil mais rico ele aumentou 49% -e chegou a 98% no 1% do topo.

    Com salários e ganhos de capital crescentes, os 10% mais ricos recebem hoje, em média, 109 mil euros por ano (R$ 460 mil). Na metade mais pobre, o valor médio é de 15 mil euros (R$ 63 mil).

    Os protestos dos “coletes amarelos” na França são considerados em parte produto da desigualdade e teriam se originado, por um lado, pelos cortes de impostos para os mais ricos adotados pelo presidente Emmanuel Macron.

    Por outro, pelo aumento da taxação sobre combustíveis no fim de 2018, quando as manifestações eclodiram.

    Manifestante empunha bandeira da França em Montmartre, em Paris

    Depois de percorrer o centro de Paris, “coletes amarelos” se reúnem em Montmartre, na capital francesa

    “Coletes amarelos” e sindicalistas ouvem discurso na Place de la République, em Paris

    Caixa eletrônico depredado no centro de Paris, na França, durante manifestação dos “coletes amarelos”

    Temendo depredações, funcionários cobrem com tapumes bancos e lojas na avenida Champs Élysées, em Paris

    Manifestante usa máscara para criticar o presidente francês Emmanuel Macron durante protesto em Paris

     

    “Quando as pessoas viram suas contas aumentando e outros sendo beneficiados, houve um grande descontentamento”, diz Lucas Chancel, coordenador do Relatório da Desigualdade Global.

     

    A menor taxação sobre os ricos na França, acredita, só aumentará a desigualdade.

    Moradora em Saint-Denis, ao norte de Paris e um dos locais mais empobrecidos da França, a designer Valery Voyér, 45, afirma que se juntou aos “coletes amarelos” como forma de protesto contra as desigualdades e a precarização do trabalho em seu país.

    “Muitos estão lá porque a situação é trágica, insustentável. Outros, por solidariedade aos demais”, afirma.

    Valery Voyér (à dir.) diz que se juntou aos “coletes amarelos” para protestar contra a desigualdade na França

    Valery diz ser obrigada a trabalhar ao menos 50 horas semanais (a jornada oficial na França é de 35 horas) para “manter um certo nível”.

    Como resposta às manifestações que já duram mais de seis meses, Macron anunciou a redução no imposto sobre o rendimento para 15 milhões de famílias, uma ajuda de até 1.000 euros (R$ 4.200) para pessoas de baixa renda e a suspensão do fechamento de hospitais e escolas até 2022.

    O impacto das medidas no Tesouro francês será de 17 bilhões de euros (R$ 71 bilhões).

    De olho nos manifestantes mais identificados com políticos nacionalistas, Macron também defendeu políticas mais duras contra a imigração, em um aceno aos cada vez mais numerosos simpatizantes da direita francesa.

    Casal pede esmola em frente a loja de artigos de luxo na avenida Champs Élysées, em Paris

     

     

    Neste cenário de radicalismo, a Espanha surpreendeu em abril quando os socialistas venceram as eleições parlamentares, embora sem conquistar sozinhos a maioria.

    No mesmo pleito, no entanto, foi confirmada a entrada no Parlamento do Vox, primeira legenda de ultradireita -e de viés populista- a chegar ao Congresso espanhol desde 1979.

    “Há esse reflorescimento da direita. Fruto do desemprego e de pessoas vivendo de ganhos irregulares que lembram a pré-história”, diz Joan Babiloni, 62, diretor de fotografia e morador do bairro El Raval, em Barcelona.

    Desde a crise global de 2008-2009, a desigualdade na Espanha subiu, e os 10% mais ricos ficam hoje com mais de 30% da renda bruta, ante os 26% divididos na metade mais pobre.

    “A classe média espanhola sempre foi de trabalhadores ou pequenos empresários com um futuro. Isso acabou. Agora, só há medo entre nós, os precarizados”, diz Babiloni.

     

    http://temas.folha.uol.com.br/desigualdade-global/europa/a-revolta-da-classe-media.shtml

     

    Prof Luciano Mannarino

     

    DESIGUALDADE GLOBAL (ÁSIA)

  • UM MUNDO DE MUROS (PERU)

    SEGREGAÇÃO

    Muro da Vergonha separa indígenas de ‘gringos’ em Lima

    Dez quilômetros de barreira de concreto que cortam os morros da capital peruana resumem o abismo social e étnico no país

    FABIANO MAISONNAVE E AVENER PRADO

    21.ago.2017 – 02h00

    Caso pudesse caminhar até a mansão onde trabalha de ajudante geral, Esteban Arimana levaria cinco minutos desde a porta da sua casa. Em vez disso, passa cerca de duas horas por dia dentro de ônibus lotados pelas vias congestionadas de Lima.

    A distância entre as casas vizinhas é imposta pelo Muro da Vergonha, como ficaram conhecidos os dez quilômetros de barreiras que serpenteiam os morros da capital peruana. Erguido a partir de meados dos anos 1980, a sua função é separar as áreas urbanizadas dos “povoados jovens”, o eufemismo local para designar favelas.

    “Se abrissem uma porta, seria bom”, diz Arimana, que vive com a mulher e três filhos, o mais velho de 14 anos, ao lado do muro de concreto de três metros coberto por arame farpado. “Mas, porque estamos na pobreza, é muito difícil sermos ouvidos.”

    Muro coberto por arame farpado separa as áreas urbanizadas dos “povoados jovens”, o eufemismo local para designar favelas, em Lima, no Peru (Avener Prado/Folhapress)
     

    A família é uma típica moradora de Pamplona Alta, conjunto de favelas com 96 mil pessoas erguida em um morro com o mesmo nome. Como a ampla maioria dos que vivem ali, os Arimana são migrantes de origem indígena do altiplano peruano.

    O casebre de paredes de compensado foi erguido por eles mesmos sobre o terreno acidentado. Não tem água encanada. O banheiro, do lado de fora, é apenas um buraco. Uma moradia ali sai, no máximo, por US$ 15 mil (R$ 47 mil).

    Internamente, Pamplona Alta está subdividida pela altura. Quanto mais perto do cume e dos muros, mais precária a situação das moradias, muitas delas erguidas sobre um aterro feito de pneus.

    As dezenas de quilômetros de ruas não pavimentadas foram esculpidas na pedra pelos próprios moradores. O método: novamente usando pneus, eles incendeiam a base das grandes rochas, que racham com a temperatura alta e em seguida são esmigalhadas a marteladas.

    O ajudante geral Esteban Arimana, morador de Pamplona Alta, que leva duas horas para chegar na mansão onde trabalha em Las Casuarinas (Avener Prado/Folhapress)
     

    Nas zonas mais baixas, onde já houve regularização das posses e há água encanada, alguns moradores criaram versões locais de condomínios privados. Para evitar roubos às casas, muitos fecharam as ruas por conta própria, usando cancelas atadas a correntes com cadeados.

    Em uma dessas áreas mais antigas, um vigia cuidava, em uma guarita sobre o muro, para que ninguém cruzasse para o lado rico. A metros dele, uma mensagem feita por moradores do lado pobre: “Não se aceitam maconheiros, ladrões, membros de gangue, traficantes etc. Sob sanção da justiça comunitária.”

    Arimana mora há dez anos em uma das áreas não regularizadas. Poucos metros acima, o muro de três metros marca o limite com o condomínio Las Casuarinas, onde o acesso, controlado por seguranças e câmeras no pé do morro, só é permitido a residentes e seus convidados.

    Com vista privilegiada de Lima, há mansões à venda ali por até US$ 4,5 milhões (cerca de R$ 14 milhões).

    É num desses casarões que ele trabalha, fazendo a segurança e pequenos consertos. “Profissão mesmo, não tenho. Pode ser em obra, em qualquer trabalho que apareça.” Ao contrário do metro quadrado das casas, a água é mais cara no lado de Arimana, que precisa recorrer a caminhões-pipa privados.

    Enquanto em Pamplona Alta, estocada em tonéis de plástico, sai por cerca de US$ 9 (R$ 29) por metro cúbico, no asfalto o preço da água que sai da torneira varia de US$ 0,3 a US$ 1,5, dependendo da faixa de consumo. Ou seja, os mais pobres pagam em média dez vezes o valor pago pelos ricos.

    “Daquele lado, todos têm piscina, enquanto nós sofremos com a falta de água”, compara Arimana para afirmar que a desigualdade no Peru está piorando.

    Rotina na Pamplona Alta, conjunto de favelas com 96 mil pessoas; no vídeo, grupo de igreja pentecostal se apresenta na comunidade
    Rotina na Pamplona Alta, conjunto de favelas com 96 mil pessoas; no vídeo, grupo de igreja pentecostal se apresenta na comunidade (Avener Prado/Folhapress)
     

    Chamados de “gringos” pelos vizinhos pobres em alusão à pele mais clara decorrente da origem europeia, os moradores de Las Casuarinas costumam argumentar que o muro foi erguido por razões de segurança e para conter as invasões de terra.

    Os residentes incluem o renomado chef e empresário Gastón Acurio, que tem uma das casas mais próximas ao muro. Filho de um senador e educado em Paris, ele é apontado como principal responsável pela popularização da culinária peruana no mundo.

    Por e-mail, Acurio diz que discorda do muro, mas não quis explicar o motivo. Ele afirma que planeja abrir, em 2019, sua segunda escola de culinária em Pamplona Alta voltada para alunos pobres –a primeira, aberta em outra zona empobrecida da cidade, ensina cerca de 300 jovens.

    “Tentamos, como empresários e família, atuar diretamente para que o Peru consiga terminar rápido e para sempre com todas as divisões econômicas, sociais, culturais e físicas que nos têm desonrado por séculos”, escreveu.

    Arquiteto e cartunista, Carlín atribui o muro e as grades onipresentes em Lima ao desemprego e à desigualdade racial prevalentes no país.

    “O pior racismo é aquele que as pessoas dizem que não existe”, diz Carlín, cujos desenhos criticando Lima foram reunidas no livro “Errar es Urbano”. “Somos um dos países mais racistas.”

    Residências de classe média alta no distrito de Santiago de Surco, em Lima, próximo a muro que divide região pobre de rica (Avener Prado/Folhapress)
     

    Como ocorre em outros países latino-americanos, o crescimento da população de Lima se deu principalmente pela expansão dos “povados jovens”, antigamente chamados de “barriadas”.

    Em 1961, 17% viviam em favelas limenhas. No censo mais recente, de 2007, esse número chegou a 4,1 milhões, o equivalente a 40% da população limenha, segundo dados coletados pelo sociólogo Julio Calderón no livro “La Ciudad Ilegal”.

     

     

    Além de procurar melhores oportunidades econômicas, milhares deles vieram a Lima nos anos 1980 e 1990 fugindo do conflito interno desencadeado pela guerrilha maoísta Sendero Luminoso, concentrada principalmente nos Andes.

    A construção do Muro da Vergonha seguiu o mesmo ritmo de ampliação das favelas. O primeiro trecho foi erguido em 1985 pelo Colégio Imaculada Conceição, administrado pelos jesuítas (a mesma ordem do papa Francisco).

    Na época, a escola disse que a intenção da obra – executada sem que houvesse licença prévia– era impedir que as invasões se aproximassem da instituição. Atualmente, além dos muros da escola, de Las Casuarinas e de outros condomínios privados, há também um trecho erguido e vigiado pelo poder público.

    Muro que separa região pobre de rica em Lima, no Peru; barreiras que serpenteiam os morros de Lima somam 10 km de extensão

    Muro que separa região pobre de rica em Lima, no Peru; barreiras que serpenteiam os morros de Lima somam 10 km de extensão (Avener Prado/Folhapress)

     

     

    La Molina, uma das 43 municipalidades de Lima, construiu uma barreira de pedras e arame farpado no limite com Pamplona Alta, que pertence ao município de San Juan de Miraflores. O muro é um pouco mais baixo do que o dos condomínios privados e conta com um ponto de passagem, onde há um posto de controle da guarda municipal de La Molina.

    O acesso é usado diariamente por moradores de Pamplona Alta que trabalham em La Molina, que tem bairros de classe média e alta. A descida é feita por pequenos caminhos pelo morro íngreme –ao contrário do lado pobre, não há escadas.

    “Da fronteira de La Molina para dentro é um desastre”, afirma Dionisio Chirinos, que voltava de um dia de trabalho, acompanhado pelo filho de adolescente, cujo joelho sangrava. “Como você viu, o meu filho acabou de machucar a perna.”

    Dionisio Chirinos caminha por morro íngreme usado por moradores de Pamplona Alta que trabalham em La Molina (Avener Prado/Folhapress)
     

    Pouco antes, a reportagem encontrou o único morador da zona mais rica que se aventurava por Pamplona Alta. Residente em La Molina, o estudante Julio Díaz havia escalado a montanha para se exercitar. Apesar de não ter receio de visitar a zona, disse ser favorável ao muro.

    “O muro é necessário para limitar as invasões. Há muito tráfico de terrenos. Pessoas mal intencionadas se apoderam de tudo, loteiam e vendem aos mais necessitados. Mas, como vemos aqui, há livre trânsito de pessoas.”

    Procurada, a assessoria de imprensa de La Molina se limitou a informar que a construção da barreira serve para proteger o meio ambiente de mais invasões, mas não atendeu ao pedido de entrevista com um porta-voz da municipalidade.

    Na parte mais alta do morro, a cerca de dez minutos de Pamplona Alta, está uma das invasões mais recentes, convenientemente batizada de Valle Escondido.

    Crianças jogam vôlei no Valle Escondido, a cerca de dez minutos de Pamplona Alta (Avener Prado/Folhapress)
     

    Ali, sem luz nem água e sob constantes ventos gelados, as famílias se dividiram em dois grupos pelo controle da região, gerando um ambiente de desconfiança.

    Um dos moradores, que falou sob a condição do anonimato por causa do clima tenso, explicou a ausência do muro: “Aqui é tão íngreme que não conseguimos caminhar até lá embaixo.”

     

    http://arte.folha.uol.com.br/mundo/2017/um-mundo-de-muros/peru/segregacao/

     

    Questões.

    1. O que são considerados “povoados jovens” em Lima?

    2. Segundo o texto, quem são os “gringos” na sociedade do Peru?

    3. A pobreza no Peru apresenta um componente étnico? Justifique.

     

     

    Prof. Luciano Mannarino

     

     

    UM MUNDO DE MUROS (EUA E MÉXICO)

     

  • UM MUNDO DE MUROS (EUA E MÉXICO)

    O SUL DA FRONTEIRA

    Expectativa e ressentimento atormentam quem fica para trás

    Sombra da barreira que começou a ser erguida nos anos 90 encobre debate migratório e preocupa quem a cruza; enrijecimento político já se faz sentir

    FABIANO MAISONNAVE E LALO DE ALMEIDA

     

    26.jun.2017 – 02h00

     

    O muro que Donald Trump prometeu construir na campanha ainda não saiu do papel. Mas os mexicanos já são obrigados a conviver há décadas com as barreiras deixadas por Barack Obama, George W. Bush e Bill Clinton.

    A separação física com o vizinho pobre do sul tem sido uma política de Estado desde que Clinton ergueu os primeiros trechos, em 1993, reaproveitando sucata trazida da Guerra do Golfo. Já são 1.046 km de barreiras separando os dois países, incluindo as grades de 4,6 metros contratadas pelo correligionário Obama.

    Mexicanos brincam em praia de Tijuana, que faz fronteira com San Diego, dos EUA; ao fundo, cerca divide as duas cidades (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Via de regra, o muro costuma crescer de altura à medida que se aproxima das regiões mais povoadas. Separa cidades, como as duas Nogales, a mexicana e a norte-americana. Diminui ou desaparece nas áreas mais inóspitas, onde caminhadas de dias ao longo da barreira natural do deserto produzem mortes diárias.

     

    O muro não é apenas físico. Os mexicanos também se ressentem do endurecimento da vigilância e das leis imigratórias, sobretudo após a ataques do 11 de Setembro, em 2001. As promessas feitas por Trump de mais repressão a imigrantes irregulares são mais questão de intensidade do que mudança de rumo.

    “Trump nos assusta e traz incertezas, mas é preciso recordar que Obama também foi um presidente muito cruel e rude com os imigrantes. Fez as ‘redadas’ [grandes operações de captura de imigrantes ilegais], as deportações em massa, as separações de famílias, os centros de detenção. Foi ele quem fez esse muro aqui e quem mais deportou na história dos EUA. Nunca disse nada, mas fez muito”, afirma o padre Javier Calvillo, 47, diretor da Casa do Migrante de Ciudad Juárez, sua cidade natal.

    xoxoxoxoxoxoxox
    Cerca divide praia nas cidades de Tijuana, no México, e San Diego, nos EUA; próximo à barreira, lado mexicano é mais agitado do que vizinho (Lalo de Almeida/Folhapress)

    “O meu maior medo é o muro que Trump pode construir nas mentes e nos corações dos americanos e até dos mexicanos que estão lá. É o muro mais perigoso: vem o racismo, vem o apontar de dedos. Em El Paso, as pessoas têm medo de ir à escola, ao trabalho. É um ambiente de pânico e terror”, completou.

    Mesmo no governo Trump, o muro de Obama continua avançando na região de Ciudad Juárez, substituindo uma antiga cerca baixa de tela, facilmente transponível.

    As obras estão agora em Puerto de Anapra, bairro de ruas de areia e casas sem acabamento a cerca de 30 minutos do centro de Juárez, cidade de cerca de 1,5 milhão de habitantes que já foi a mais violenta do mundo devido a disputas territoriais entre cartéis de narcotráfico.

     
     
     
    Detalhes das barreiras que separam o México dos Estados Unidos; muro costuma crescer de altura à medida que se aproxima das regiões mais povoadas (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Anapra é habitado principalmente por funcionários das “maquiladoras”, grandes fábricas, na maioria norte-americanas, que se instalam em território mexicano em busca de mão de obra barata. Apenas em Juárez, essas empresas mantêm cerca de 300 mil operários.

    O ritmo de construção é rápido. A cada 30 minutos, uma nova chapa da grade de 1,5 metro de extensão é erguida por um guindaste, encaixada na base de concreto e soldada com outra chapa por operários, a maioria mexicanos.

    “Não gosto de trabalhar aqui, mas tenho de alimentar a família”, diz um deles, que se identificou como Marcos e trabalha para uma fornecedora de cimento. Ele explica que os pais moram em Juárez, mas que a visita é cada vez mais difícil devido à segurança rígida –costuma levar cerca de duas horas para cruzar a ponte fronteiriça.

     

    As sobras da obra viraram uma fonte de renda extra para os moradores. Carregando um longo pedaço de cano de aço em um dos ombros, a operária Fabiola Vellez, 31, disse que a peça vale 50 pesos (US$ 2,80, ou R$ 9,30).

    Trata-se de um pequeno reforço do salário de mil pesos (US$ 56, ou R$ 190) que recebe por semana em uma fábrica de cabos automobilísticos. A poucos metros, no Texas, o salário mínimo semanal está em US$ 290, o quíntuplo.

    Apesar da fonte extra de renda, Vellez não está feliz: “Em dezembro, ‘la migra’ (Patrulha da Fronteira dos EUA) lançou brinquedos por cima da cerca. Com o muro, não será mais possível”, lamentou.

    O muro também atrai crianças, que pedem dólares e doces através da cerca. Mais ousado, um adolescente demonstrou à reportagem que conseguia escalar até o topo do novo muro em poucos segundos, para irritação de um operário, que prometeu chamar a mãe e recebeu em resposta uma saraivada de xingamentos em espanhol.

    Muro é construído na fronteira de Puerto de Anapra, bairro a cerca de 30 minutos do centro de Juárez, no México; durante as obras, garoto tenta escalar muro e irrita operários (Lalo de Almeida/Folhapress)

    O muro venceu José Hector Nevarez, 33. Detido e deportado pela primeira vez em 2010, no governo Obama, tentou voltar aos EUA duas vezes e foi capturado pela Patrulha da Fronteira nas duas.

    Resignado, decidiu reunir a família no México, que Hector havia deixado quando tinha 15 anos. Vieram a mulher, Gabriela, 32, e os filhos, Emiliano, 12, e Azul, 7.

    O muro impôs uma divisão na família. Num drama que se repete com frequência cada vez maior, os pais são mexicanos, mas os filhos possuem cidadania norte-americana por terem nascido lá.

    Para eles e centenas de outras famílias de deportados, a solução foi morar no povoado de Puerto Palomas, (157 km a oeste de Juárez). Todo dia, enquanto os pais trabalham no lado mexicano, os filhos atravessam a fronteira para ir às escolas norte-americanas do Novo México.

    “Os EUA são o seu país. Em seu momento, vão ter um emprego lá, ter uma vida social lá”, diz Hector, que nos EUA trabalhou na construção civil e como motorista. “Queremos que façam a sua vida lá. E, obviamente, se tivermos a oportunidade de lá visitarmos, tudo bem, mas vivendo não.”

     
     
     

    A rotina familiar começa às 6h, quando a temperatura costuma oscilar em um dígito. Primeiro, ele leva Emiliano até o posto fronteiriço. Ao lado do filho, caminha por alguns metros em território americano até a entrada do posto de controle imigratório. “Se quiserem, podem me prender aqui onde estamos.”

    Ao lado de outros pais deportados, Hector observa Emiliano entrar em um dos cinco ônibus amarelos enfileirados do outro lado da aduana. Uma hora mais tarde, ele repete a rotina com Azul.

    Na volta da escola, é a vez de Gabriela esperar os filhos na saída do posto de controle mexicano, onde as mochilas precisam passar por uma máquina de raio-X.

     
     
    Crianças brincam em escola da mexicana Puerto Paloma; ao fundo, cerca divide o México dos EUA (Lalo de Almeida/Folhapress)

    O muro traz perigos. O cuidado do casal em levar os filhos pessoalmente até a entrada do posto fronteiriço tem um motivo: evitar que as crianças sejam usadas por narcotraficantes para driblar a vigilância americana.

    “Lamentavelmente, vivemos em um país onde existe todo tipo de criminalidade. Há casos de meninos usados como mulas e detidos pela imigração. Estamos sempre atentos para que não levem nada mais do que o material escolar em suas mochilas.”

    O muro também gera dinheiro. Hector trabalha no tradicional restaurante Pink, a poucos passos da fronteira e popular entre norte-americanos que cruzam para Palomas em busca de dentistas e oculistas mexicanos que cobram uma fração do que custaria nos EUA.

     

    Em casa, Gabriela complementa a renda dando banho em cachorros. Os clientes são americanos, que entregam e pegam os bichos de estimação nos poucos metros de zona neutra entre os dois postos fronteiriços.

    O muro cria rotinas estranhas. Nos cinco anos em Palomas, o casal nunca foi à escola dos filhos -por Skype, viram a formatura do ensino fundamental de Emiliano e conversam com os professores. “Mas nos sentimos muitos sortudos, [estudar nos EUA] é um privilégio que nem todos podem ter”, diz Hector.

     

    Sobre Trump, ele tem dúvidas: “Ele está dizendo o que as pessoas querem ouvir. Está dizendo que ele vai fazer um muro enorme, bonito e grandioso, mas não vai acontecer. É só um falastrão.”

    A 680 km a oeste de Juárez, Caborca é a última parada para vários centro-americanos antes de se arriscar no deserto onde o muro ainda não alcançou. Ali, quase todos os dias, dezenas desembarcam da “Bestia”, apelido dado a qualquer um dos trens que atravessam o México e são usados pelos imigrantes para se aproximar da fronteira, em viagem clandestina e perigosa.

    Vizinho à estação de trem, uma Casa de Migrante abrigava 57 imigrantes em meados de abril, a grande maioria hondurenhos. No grupo, predominantemente masculino, muitos já haviam sido deportados dos EUA, mas preferem se arriscar de novo no país de Trump a viver nos pobres e violentos países centro-americanos, sobretudo Honduras, El Salvador e Guatemala.

    Imigrante descansa em abrigo a 680 km a oeste da mexicana Juárez, na última parada antes de se arriscar no deserto (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Ao contrário de Juárez, as instalações são precárias. A maioria dormia do lado de fora da casa acanhada, em cima de tapetes e sob o teto de lona, apesar da madrugada fria do deserto. O acúmulo de lixo deixava seu odor no ar.

    Os relatos revelam uma viagem perigosa. Um diz que foi obrigado a beber a própria urina durante a caminhada que durou cinco dias, sem sucesso. Outro teve de voltar após infecção provocada por picadas de carrapatos.

    Driblar o muro é caro e perigoso. Há dois preços cobrados pelos coiotes. São cerca de US$ 8 mil (R$ 26 mil) para a travessia, mas o valor pode cair pela metade se o imigrante levar uma mochila com drogas até os EUA.

    Imigrantes descansam e lavam roupa em abrigo em Caborca, no México, na rota para atravessar a fronteira com os EUA
     

    Imigrantes descansam e lavam roupa em abrigo em Caborca, no México, na rota para atravessar a fronteira com os EUA (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Um dos poucos que se aventuravam pela primeira vez, o salvadorenho Emir (nome fictício), 30, levou 45 dias até chegar a Caborca. Diz ter viajado em 15 trens. “Foi difícil, há situações de que não vou esquecer nunca. Conheci uma menina que perdeu a perna subindo no trem.”

    À espera do momento certo para se arriscar no deserto, Emir não teme a linha dura de Trump: “Não existe um presidente dos Estados Unidos que não tenha deportado pessoas”.

     

    O muro tem frestas. A lógica é parecida à de uma visita na prisão: todos os dias, alguma família se reúne entre as grades “padrão Obama” que separam Nogales, México, de Nogales, Estados Unidos. Trocam comida, presentes, notícias, conversam, cantam e tentam se tocar.

    No terreno inclinado de chão batido, a faxineira Aída Laurean, 47, no lado mexicano, passou das 11h30 às 18h30 ao lado da filha Sofia, no lado americano.

    As duas se separaram quando Aria não quis perder o funeral da mãe, no México, mesmo sabendo que não conseguiria voltar aos EUA.

    Chegou a tempo para o enterro, mas ficou sete anos sem ver a filha.

    Família se reúne entre as grades que separa Nogales, do México, de Nogales, dos Estados Unidos; lógica é parecida à de uma visita na prisão (Lalo de Almeida/Folhapress)

    O muro assusta. Sofia, atendente de telemarketing, só se arriscou a se aproximar dele depois que começou a transitar o documento para a residência, ao qual tem direito por ter se casado há pouco com um mexicano-americano. Enquanto o processo não ficar pronto, porém, ela não pode deixar os EUA.

    Sobre Trump, Aída apenas brinca: “O comentário é que ele quer fazer um muro novo. Que seja bem baixinho para que eu possa pular.

    http://arte.folha.uol.com.br/mundo/2017/um-mundo-de-muros/mexico/ao-sul-da-fronteira/

    Questões

    Como o texto caracteriza a continuidade das políticas de construção de barreiras na fronteira EUA-México entre os governos de Clinton, Bush, Obama e Trump? Quais são as semelhanças e diferenças?

    Explique o impacto do muro, tanto físico quanto simbólico, sobre as vidas dos mexicanos e imigrantes. Como isso afeta suas rotinas e suas relações familiares?

    Qual é o argumento do padre Javier Calvillo sobre a postura de Obama em relação aos imigrantes? Como isso contradiz a percepção comum sobre o governo Obama?

    Como o muro influencia as questões econômicas e de trabalho na fronteira, especialmente para os operários mexicanos como Marcos e Fabiola?

    De que maneira o muro é usado como ferramenta de repressão e controle, mas também se torna um meio de subsistência para alguns dos habitantes da fronteira?

    Segundo o texto, quais são os desafios enfrentados por famílias como a de Hector, que têm pais mexicanos e filhos com cidadania norte-americana? Como o muro impacta suas vidas diárias e expectativas para o futuro?

    A construção de barreiras físicas pode ser vista como uma metáfora para outras formas de separação. Como o padre Calvillo aborda o conceito de ‘muros nas mentes e corações’? Qual seria o impacto de tal muro?

    O texto apresenta relatos de imigrantes que se arriscam em travessias perigosas. Quais são os maiores desafios enfrentados por eles e como o muro contribui para a intensificação desses perigos?

    Como o texto explora o papel do narcotráfico na fronteira? De que maneira as crianças são envolvidas nesse cenário, e como as famílias tentam proteger seus filhos desse perigo?

    Em sua opinião, qual é o principal objetivo do texto ao narrar as experiências das pessoas afetadas pelo muro? Que mensagem o autor tenta transmitir sobre o impacto dessa política nas vidas humanas?

     
     
     

    Prof. Luciano Mannarino

  • UM MUNDO DE MUROS (QUÊNIA E SOMÁLIA)

    Na fronteira dos desprovidos, quem foge da fome se depara com o terror

    Cerca erguida entre dois dos países mais pobres do mundo para tentar frear o terrorismo barra famílias assombradas por seca, doenças e um Estado falido

    PATRICIA CAMPOS MELLO E LALO DE ALMEIDA

    10.jul.2017 – 02h00

    Noor Addow, 45, suas duas esposas e dez filhos andaram durante 17 dias. Fugindo da seca, da fome, do terrorismo e da epidemia de cólera na Somália, levavam apenas a roupa do corpo. As crianças, algumas descalças, outras com chinelos, tinham os pés cobertos de bolhas e de feridas.

    Toda vez que passavam por um vilarejo, paravam na mesquita e mendigavam comida. Quando a água de suas vasilhas acabava, enganavam a sede chupando raízes que achavam no caminho. À noite, dormiam no mato, com medo dos leões e das hienas.

    No 14º dia, Fatma, 19, a esposa mais nova de Noor, entrou em trabalho de parto.

    Estava muito fraca. No vilarejo onde viviam na Somália, primeiro a represa secou, depois a plantação de milho morreu e, por fim, foram-se as cabras. Havia muitos meses que ninguém comia direito.

    Fatma deu à luz embaixo de uma árvore. Eram gêmeos. Osman morreu no meio da noite, nos braços do pai. Khadija morreu de manhã, no colo da mãe. Não tiveram tempo para chorar.

    “Precisamos continuar andando, senão vamos perder mais filhos”, disse Noor.

    Barwago, uma das esposas de Noor Addow, segura a filha Salado, 2, em Dadaab, no Quênia –o maior campo de refugiados do mundo (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Caminharam mais três dias e chegaram a Dadaab, no Quênia – o maior campo de refugiados do mundo, onde vivem 250 mil pessoas, na maioria somalis.

    Os Addow não sabiam, mas não eram bem-vindos.

    Um ano antes, o governo do Quênia anunciara que fecharia Dadaab. Segundo o presidente, Uhuru Kenyatta, o campo tinha se transformado em um viveiro de terroristas do Al Shabaab – uma facção extremista islâmica ligada à Al Qaeda– e de lá haviam saído os extremistas que mataram 147 pessoas no ataque à universidade de Garissa, em 2 de abril de 2015.

    O governo passou a fazer repatriação voluntária dos refugiados, apesar da seca, do cólera e da milícia terrorista ainda estar em boa parte do território somali. Mais ou menos na mesma época, o Quênia deixou de dar status de refugiados aos somalis que cruzam a fronteira. “Anteriormente, eles recebiam automaticamente o status de refugiados, todo mundo sabia que não havia paz na Somália e que eles não vinham para cá a turismo”, diz Jean Bosco Rushatsi, chefe de operações do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) nos campos de Dadaab.

    “Depois da decisão do governo de fechar os campos, ninguém mais recebeu esse status.”

    Sem isso, os somalis não têm mais perspectiva de, um dia, serem reassentados em um país rico como Canadá, Austrália ou Estados Unidos.

    E o pior: por não serem considerados refugiados, os somalis que chegaram em Dadaab nos últimos dois anos não recebem o pacote de assentamento, que inclui um terreno e materiais para construírem suas barracas.

    Nem ganham o “ration card”, o vale-ração que dá direito a uma porção quinzenal de cereais, farinha, óleo, açúcar, sal e uma quantia para compra de vegetais e frutas.

    Sem a ração quinzenal, a família de Noor tem sobrevivido à base de folhas fervidas desde que chegou, há pouco mais de um mês. Todos os dias a filha mais velha recolhe as folhas no mato e ferve com água numa panela até que virem uma papa verde viscosa.

    “É salgadinho, o gosto não é ruim”, diz Abay, a filha de 20 anos.

    Quando chegou a Dadaab, Noor achou ter tirado a sorte grande. Ele encontrou um terreno com duas tendas cujos ocupantes acabavam de ser repatriados para a Somália.

    Acima, a somali Subam Ali (de azul), 36, segura criança próximo à sua tenda em Dadaab, no Quênia; abaixo, vista aérea do maior campo de refugiados do mundo

    Acima, a somali Subam Ali (de azul), 36, segura criança próximo à sua tenda em Dadaab, no Quênia; abaixo, vista aérea do maior campo de refugiados do mundo (Lalo de Almeida/Folhapress)

    A família de dez se dividiu nas manyattas improvisadas, cujas paredes eram feitas com galhos secos de acácia, amarrados uns nos outros com tiras de saco de lixo, cobertas por lona doada por organizações humanitárias e papelão.

    O mobiliário se restringia à esteira no chão. Dentro das tendas, morava um enxame inimaginável de moscas. No canto, ficava uma latrina construída por uma ONG.

    Ao redor do terreno, uma cerca feita com galhos secos de acácia, cheios de espinhos, e uma infinidade de roupas velhas e trapos enroscados. As roupas velhas funcionam como espantalhos para proteger as casas das hienas. Sorrateiros, os animais rondam durante a noite e matam os bodes. Às vezes, matam os bebês.

    Noor ficou feliz com a moradia herdada, mas logo descobriu que não teria direito ao vale-ração. Por um mês, a família viveu de alimentos doados por vizinhos e folhas fervidas. A maioria dos somalis é muçulmana e segue à risca os ensinamentos de Maomé de ajuda aos pobres.

    Vista aérea de cerca que está sendo construída pelo governo queniano na fronteira com a Somália; até agora, pouco mais de 5 km foram finalizados (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Até que ele recebeu um token -um jeito que o Acnur achou de dar ao menos um pouco de comida às famílias mais necessitadas que não tinham o status de refugiados.

    Noor se preparava, animado, para acordar às 4h e esperar na fila quilométrica para os armazéns mantidos pelo Programa Mundial de Alimentação. Sairia de lá com um pouco de feijão e milho.

    Apesar de tudo isso, Dadaab ainda é melhor que a Somália para os Addow.

    “Aqui ao menos tem água”, dizia Habiba, a filha de 13 anos, empurrando um carrinho de mão com algumas vasilhas. Eles também têm acesso a assistência médica. Salado, a filha de dois anos, está com malária e acabara de voltar do hospital. A menina franzina tem braços finos e barriga protuberante, marcas da desnutrição crônica.

    Crianças posam para foto no vilarejo BP1, próximo à cidade queniana de Mandera, que faz fronteira com a Somália e onde está sendo construída cerca (Lalo de Almeida/Folhapress)

    No Quênia, os refugiados não têm autorização para trabalhar, nem para sair dos campos. Vivem de bicos.

    “Minha mulher passou o dia lavando roupa para fora e ganhou um saco de arroz. Não faço nada senão esperar pelo food token”, diz Noor.

    Ele diz que gostaria muito de ir para a “América”, onde há muitos somalis. Informado de que o atual presidente americano, Donald Trump, tem dificultado a entrada de refugiados, franze a testa. “Não sabia disso não.”

    Noor tampouco sabia que o governo queniano está fechando os campos de refugiados. “A gente acabou de chegar. Se nos mandarem voltar para a Somália, não sei o que faremos. Somos pastores e agricultores, não podemos voltar para o mato seco.”

    Desde 2014, o Quênia fez a repatriação voluntária de 75 mil somalis que estavam em Dadaab. Dois dos cinco campos do complexo já fecharam.

    Segundo a ONU, 6,2 milhões de pessoas na Somália precisam de ajuda humanitária atualmente. Isso corresponde a quase a metade da população. Na última grande fome, em 2011, morreram 260 mil pessoas de inanição. Muitas estão em perigo novamente.

    “Eles vão fechar os campos e mandar as pessoas de volta para um país onde não existe nem atendimento médico nem escola, e há uma epidemia de cólera”, diz Liesbeth Aelbrecht, chefe da missão dos Médicos sem Fronteiras no Quênia.

    A vida dos refugiados vai ficar pior ainda.

    O governo queniano está construindo uma cerca de 700 km na fronteira com a Somália para restringir a entrada dos somalis. O objetivo é frear atentados terroristas da milícia islâmica Al Shabaab.

    A funcionária pública queniana Saadia Kullow, 29, festeja a construção da cerca. Ela mora em Mandera, cidade de 150 mil habitantes que fica na tríplice fronteira entre Quênia, Etiópia e Somália.

    A funcionária pública queniana Saadia Kullow (à dir.), 29, ao lado da filha Asia, 6; elas moram em Mandera, na tríplice fronteira entre Quênia, Etiópia e Somália (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Mandera vive sob estado de sítio há meses por causa dos ataques do Al Shabaab. Vigora um toque de recolher das 19h às 06h —quem sai na rua nesse horário é preso.

    Estrangeiros são proibidos de entrar na cidade por causa da falta de segurança.

    Representantes do governo e visitantes só andam acompanhados de carros com seguranças armados com metralhadoras. O último atentado foi no fim de maio. Uma bomba contra o comboio de carros onde estava o governador do condado matou cinco seguranças.

    Saadia, que mora em Mandera desde que nasceu, já testemunhou cinco atentados. No último, jogaram bombas a poucos metros da casa dela. Até hoje, toda vez que passa um caminhão na rua ou há algum barulho mais alto, seu filho de dois anos e meio acorda gritando: “Mamãe, mamãe, bomba!”

    Crianças se refrescam no vilarejo BP1, que fica próximo a Mandera, cidade queniana que faz fronteira com a Etiópia e Somália (Lalo de Almeida/Folhapress)

    “Sempre tem tensão, nunca sabemos quando eles vão atacar. Mas eles vão. Por isso vai ser ótimo esse muro.”

    Hoje, a fronteira é porosa, e os traficantes de armas, contrabandistas de açúcar e extremistas se aproveitam.

    Centenas de pessoas cruzam da Somália para o Quênia todos os dias para trabalhar, ver parentes, buscar pastos mais verdes para os animais. Se dão azar de encontrar um policial no caminho, os somalis sabem que basta pagar propina de uns 50 xelins quenianos (cerca de R$ 1,65) para passar.

    As obras da cerca começaram em 2014, mas, por ora apenas 5,3 km foram construídos.

    Mesmo isso já atrapalha.

    No povoado de BP1 (de Border Point 1, por ser o primeiro ponto desta que é uma das mais voláteis fronteiras do mundo), os pastores de cabras não podem mais atravessar facilmente para a Somália em busca de pastos verdes, cada vez mais raros.

    A maioria das crianças somalis estuda no Quênia, porque não há muitas escolas funcionando na Somália. Antes, bastava cruzar a fronteira. Agora, elas precisam andar 12 quilômetros na ida e 12 na volta para contornar a cerca e chegar à escola.

    “Esta fronteira é artificial, nossa comunidade é uma só: mesma língua, mesmo povo, mesma religião”, diz o chefe da aldeia BP1, Mohammad Salat. No norte do Quênia, a população é etnicamente somali e é muçulmana, ao contrário da maioria dos quenianos, que é cristã. Até 1925, essa área era parte da região somali de Jubaland.

    Segundo Fredrick Shisia, comissário do condado de Mandera, o propósito da cerca não é dividir somalis e quenianos, é evitar a entrada de terroristas. O Al Shabaab costuma atacar cristãos e funcionários do governo, soldados ou policiais quenianos.

    Tropas do Quênia estão na Somália desde 2011 combatendo o Al Shabaab.

    Shisia admite que a cerca dificultará a entrada dos refugiados somalis. “Mas a Somália está bem mais estável, estamos incentivando os somalis a voltarem para casa, pois ninguém reconstruirá o país se eles não voltarem.”

    Abay, 20, filha de Noor Adow, recolhe folhas e cozinha em frente à sua tenda no campo de refugiados de Dadaab, no Quênia (Lalo de Almeida/Folhapress)

    E, de qualquer forma, “esse número enorme de refugiados é um fardo para nossa economia”, diz o comissário. “Se para a Europa é difícil, imagine para a gente?”

    Diferentemente da Europa e dos Estados Unidos, onde os governos também ergueram muros para estancar o fluxo de refugiados, o Quênia não é um país rico.

    A Somália tem a menor renda per capita do mundo: US$ 400, ou cerca de R$ 1.300, por ano.

    No Quênia, a renda é mais de oito vezes a dos somalis. Ainda assim, o país fica em 185º de 230 países. Seus US$ 3.400 anuais por pessoa correspondem a 25% da renda anual per capita brasileira.

    Soldado do exército queniano observa área que faz fronteira com a Somália; cerca separa os dois países (Lalo de Almeida/Folhapress)

    No condado de Mandera, a taxa de analfabetismo é de 75%. Não existe estrada asfaltada. Mais de metade das crianças está desnutrida. Há apenas um médico para cada 114 mil habitantes.

    “Em vez de criticar o fechamento dos campos e a construção da cerca, a comunidade internacional deveria entender que Dadaab se transformou num covil de terroristas”, diz Harun Kamal, vice-comissário do condado de Garissa, onde fica Dadaab. ” Os países ricos deveriam se oferecer para receber 5 ou 10 mil refugiados somalis.

    https://arte.folha.uol.com.br/mundo/2017/um-mundo-de-muros/quenia/pobreza/

    Questões

    Analise os fatores que levam as famílias somalis a se deslocarem para campos de refugiados como Dadaab no Quênia. Qual é a relação entre os fatores ambientais, sociais e políticos nesse contexto?

    Discorra sobre o impacto da construção de cercas e muros nas fronteiras de países em desenvolvimento como o Quênia. Como essas barreiras influenciam a vida dos refugiados e a dinâmica entre segurança e direitos humanos?

    Avalie a situação dos refugiados somalis em Dadaab à luz dos direitos humanos. Como a falta de reconhecimento de seu status como refugiados afeta sua qualidade de vida e suas perspectivas futuras?

    Considerando a crise de refugiados abordada no texto, discuta o papel da comunidade internacional. O que poderia ser feito para ajudar países como o Quênia a lidar com o influxo de refugiados de forma mais humanitária?

    Refletindo sobre a questão dos “muros” mencionada no texto, discuta como a construção de barreiras físicas nas fronteiras reflete as tensões políticas e sociais globais em torno da imigração e do refúgio.

    Explique como as questões ambientais, como a seca e a falta de recursos, podem desencadear crises humanitárias. Como isso se reflete na situação da Somália e de seus refugiados?

    Descreva os desafios enfrentados pelas famílias somalis que chegam aos campos de refugiados. Como essas experiências podem influenciar a percepção global sobre a crise dos refugiados?

    O texto menciona que muitos refugiados somalis esperam um dia ser reassentados em países mais ricos. Discuta as dificuldades e as realidades desse processo de reassentamento em um cenário global de crescentes restrições à imigração.

    Analise o papel das organizações humanitárias em situações como a dos refugiados somalis no Quênia. Quais são os principais desafios que essas organizações enfrentam ao prestar assistência a essas populações?

    Discuta as implicações sociais e econômicas da presença de campos de refugiados como Dadaab em países como o Quênia. Como essa situação afeta a relação entre os refugiados e a população local?

    requestAnimationFrame((function(){window.__oai_logTTI?window.__oai_logTTI():window.__oai_SSR_TTI=window.__oai_SSR_TTI??Date.now()}))

    Prof Luciano Mannarino