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  • O que é um fiorde?

    O que é um fiorde?

    Corredores estreitos e profundos num litoral alto, cavados pela erosão glaciária, são hoje submersos invadidos pelo mar. No litoral da Noruega e da Groenlândia aparece muito bem representado este tipo de costa. Também na península do Labrador, na Terra Nova, no sul do Chile e na Islândia aparecem costas altas com vales de origem glacial, de paredes abruptas e invadidos pelo mar, constituindo costas do tipo fiorde ou fiorde.

    As costas, ou melhor, os vales que constituem os fiordes avançam cerca de 30 a 40 quilómetros para o interior e têm profundidade de 400 a 600 metros.

    Foto por Anton H em Pexels.com

    A escavação desses vales foi feita a um nível bem mais alto que o atual, sendo sua posição altimétrica explicada por abaixamento das terras, com consequente invasão marinha, transformando os antigos vales em verdadeiros golfos. Da mesma maneira que nos vales glaciais os fiordes têm a forma do leito em U.

    Fonte: Novo dicionário geológico-geomorfológico – Antonio Teixeira Guerra, Antonio José Teixeira Guerra. Rio de Janeiro – Bertrand Brasil, 1997.

    Prof Luciano Mannarino

    O que estuda a Geomorfologia?

  • O que são os fatores endógenos na formação do relevo?

    O que são os fatores endógenos na formação do relevo?

    Também chamados agentes internos ou ainda forças subterrâneas, têm origem no calor que permanece no interior do globo e nas pressões dos gases que são liberados. Podem-se fazer sentir extremamente, através de movimentos súbitos, rápidos ou lentos e imperceptíveis. Entre os agentes internos que contribuem para modificar a paisagem, podemos citar: vulcânicos, sismos, movimentos epirogênicos ou isostáticos, tectônicos etc. Por conseguinte, os fatores endógenos resultam da dinâmica interna, refletindo se externamente através das diversas manifestações acima citadas.

    Fonte: Novo dicionário geológico-geomorfológico – Antonio Teixeira Guerra, Antonio José Teixeira Guerra. Rio de Janeiro – Bertrand Brasil, 1997.

    Prof Luciano Mannarino

  • Multiversos…

    Multiversos…

    Se eu pudesse me encontrar agora com todos os Lucianos que escolheram viver uma vida plena com cada uma das pessoas que atravessaram meu caminho, faria a seguinte pergunta.

    Quem é o mais feliz?

    Luciano Mannarino.

  • Baía de Guanabara ‘fura fila’ e vê nova promessa de despoluição

    Baía de Guanabara ‘fura fila’ e vê nova promessa de despoluição

    Concessão acelera fim do despejo de dejetos, mas adia ampliação de rede de coleta em 8 cidades no Rio de Janeiro
    Canal do Cunha é uma das regiões mais críticas da baía de Guanabara, com alta taxa de poluição e lançamento de resíduos Gabriel Monteiro – 16.nov.2021 / Folhapress

    3.jan.2022 às 20h05

    Italo Nogueira

    RIO DE JANEIRO

    Um dia depois de se mudar para sua casa em Vigário Geral, há 20 anos, o aposentado Reinaldo de Almeida, 76, viu sua porta ficar alagada com água misturada a esgoto após forte chuva na zona norte do Rio de Janeiro.

    A razão era comum a muitos moradores da região metropolitana: dejetos lançados na rede pluvial, feita para coletar água de chuva, que acaba transbordando poluída em temporais.

    A construção de uma rede de esgoto há nove anos em parte do bairro não resolveu o problema do aposentado. Os canos entopem com frequência, provocando transbordamentos da água poluída, que escorre pela rua até a galeria pluvial cujo destino é o rio Pavuna, afluente da baía de Guanabara.

    Sujeira em água turva
    Poluição no canal do Cunha, próximo ao Complexo da Maré, uma das partes mais críticas da região – Gabriel Monteiro/Folhapress

    Assim como Almeida, mais da metade dos cerca de 9 milhões de habitantes do entorno da baía não tem esgoto tratado. É um problema crônico cujas promessas de solução somam quase 40 anos.

    Almeida e seus vizinhos simbolizam também a principal falha dos projetos que prometeram limpar a baía. Eles estão ao lado da ETE (estação de tratamento de esgoto) Pavuna, mas não conseguem enviar seus resíduos para lá de forma adequada.

    O Programa de Despoluição da Baía de Guanabara, de 1994, construiu quatro estações de tratamento, mas não todos os canos necessários para levar os dejetos até elas. O que foi instalado sofre com falhas de manutenção. A ETE Pavuna opera com apenas 18% de sua capacidade.

    O fracasso empurrou para a Olimpíada de 2016 a promessa de tratar 80% do esgoto lançado na baía. Cinco anos depois, a taxa varia de 24% a 46%, a depender da fonte de dados.

    A concessão do saneamento básico no Rio, concluída em abril, renovou as promessas. A nova meta é tratar 90% até 2033, em linha com o novo marco regulatório do setor.

    Um investimento emergencial de R$ 2,7 bilhões nos próximos cinco anos por parte da concessionária Águas do Rio, vencedora do leilão na região, está previsto para acelerar o fim do despejo de dejetos na baía.

    Para isso, porém, foi adiada a solução definitiva para os que não contam com um sistema de esgoto em oito municípios da bacia hidrográfica (Belford Roxo, Duque de Caxias, Itaboraí, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Rio de Janeiro e São Gonçalo). Por cinco anos, o índice de atendimento nessas cidades ficará o mesmo.

    A aposta nesse período é o chamado coletor de tempo seco, de implantação mais rápida. Em vez de novas tubulações ligando casas à rede exclusiva de esgoto, a poluição continua sendo escoada pela rede de drenagem de chuva e será bloqueada ou antes do deságue nos rios ou na própria calha fluvial antes de chegar à baía. Dali, será direcionada para as estações de tratamento, atualmente ociosas.

    Chama-se de tempo seco porque, em caso de chuvas fortes, o sistema não dá conta da vazão e a água poluída é despejada nos rios. Assim, alagamentos e valões que contaminam ruas e vielas devem continuar, segundo especialistas.

    “Tempo seco não acaba com o valão de esgoto. O objetivo é despoluir o rio a curto prazo”, diz Adacto Ottoni, professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

    Para ele, o sistema se justifica como estratégia emergencial na bacia do rio Guandu, principal fonte de água da região metropolitana. A poluição no local tem gerado sucessivas crises hídricas, como a proliferação da geosmina. “Não é o caso da baía de Guanabara.”

    O engenheiro sanitarista Alexandre Pessoa, da Fiocruz, afirma que a concessão deveria priorizar a melhoria na saúde dos moradores. “O sistema é feito para trazer uma melhoria ambiental da baía ou para garantir que a população não entre em contato com esgoto das comunidades?”, indaga.

    Para a engenheira Eloisa Elena, o tempo seco pode beneficiar quem vive às margens de rios poluídos. Contudo, ela afirma que o clima chuvoso, intensificado pela crise climática, pode tornar a estratégia ineficaz.

    “Na França, eles passam seis meses sem uma gota de chuva. Lá vale a pena. A nossa situação é diferente. Aqui no nosso bioma, de mata atlântica, todo mês chove. Tempo seco aqui é quebra-galho.”

    Todos os planos anteriores para despoluir a baía tinham como base a ampliação do sistema “separador absoluto”, no qual a água da chuva e o esgoto não se misturam. O tempo seco foi proposto pela primeira vez em 2018, pela Câmara Metropolitana, órgão do governo estadual.

    O urbanista Luiz Firmino, ex-superintendente da Câmara, defende o modelo. Ele afirma que investimentos para o tempo seco antecipam intervenções também necessárias ao “separador absoluto”, como a melhoria de estações de tratamento e instalação de bombas.

    Ele diz também que os dois modelos precisam existir em conjunto para garantir saneamento à população e limpeza dos rios.

    “No mundo inteiro há falha no sistema de esgoto. Não conheço nenhuma cidade no mundo que tenha sucesso no saneamento que não tenha esse mix.”

    Em pesquisa recém-concluída pela Universidade de Lisboa, o urbanista comparou o tratamento de esgoto em Algarve (Portugal) e na região dos Lagos do Rio —ambos usam majoritariamente o tempo seco e têm populações semelhantes. As cidades fluminenses tiveram o triplo de chuva da região portuguesa, mas a perda de eficiência do sistema foi de 18%.

    “Isso não impede o uso desse sistema no clima tropical”, avalia ele.

    Firmino afirma ainda que estudo da concessionária que atua na região dos Lagos aponta queda em internações por diarreias, indicando melhorias na saúde dos moradores por causa do tempo seco.

    O secretário estadual da Casa Civil, Nicola Miccione, afirma que a concessão buscou aproveitar a entrada da iniciativa privada para acelerar a melhoria ambiental da baía.

    “É uma demanda histórica. Trazer saneamento sem a despoluição da baía de Guanabara logo é perder uma oportunidade de ter também o maior projeto ambiental do mundo. Seria renegar por cinco anos algo que pode acontecer agora”, afirmou ele.

    Baía de Guanabara

    Pescador na Baía de Guanabara, próximo ao município de Magé, região metropolitana do rio de Janeiro
    Pescador na Baía de Guanabara, próximo ao município de Magé, região metropolitana do rio de Janeiro Gabriel Monteiro/FolhapressMAIS 

    O caderno de encargos da concessão é expresso ao propor “adiamento da ampliação do sistema de esgotamento sanitário (delay) de cinco anos” nos oito municípios em troca do tempo seco. Também mostra que os índices a serem cobrados das concessionárias sobre esgoto permanecem constantes nessas cidades no período.

    Apesar disso, o governo afirma que não haverá espera. Segundo Riley Rodrigues, assessor especial da Casa Civil, as intervenções para o “separador absoluto” nessa área começarão já, mas só terão efeito depois.

    “Até conseguir efeito, preciso de uma estrutura muito grande. Nesse período, o tempo seco funciona como medida emergencial”, diz Rodrigues.

    Miccione afirma que a baía de Guanabara não está “furando a fila” dos moradores, que aguardam há décadas saneamento básico adequado.

    “Para os outros locais as soluções passam por questões técnicas mais específicas. Não se trata de furar fila, mas a baía tem duas opções de solução e não só uma”, disse.

    O biólogo Mário Moscatelli afirma que, com ou sem adiamento da coleta de esgoto ideal, a baía precisa de intervenções emergenciais.

    “O paciente baía de Guanabara definha dia a dia. Não dá para esperar para atacar as causas e depois pensar nas consequências. Não estamos, do ponto de vista ecológico, numa posição confortável.”

    O monitoramento das águas da baía feito pelo Inea (Instituto Estadual do Ambiente) mostra o passivo ambiental. Dos 19 pontos de análise em 2019 (mais recente disponível), 14 apresentaram média de nível ruim ou péssimo, e 5 foram considerados regulares. Nenhum estava bom ou ótimo.

    A balneabilidade das praias da baía também evidencia a poluição. A de Botafogo, aos pés do Pão de Açúcar, esteve 99,8% dos dias imprópria para banho entre 2015 e 2019, segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica da Baía de Guanabara.

    Estudo de 2014 do Instituto Trata Brasil mostra que a falta de saneamento básico é responsável por 15% das internações causadas por doenças gastrointestinais. No ano anterior, o número total de hospitalizações foi de 2.745.

    A Águas do Rio —vencedora dos blocos 1 e 4— tem até abril de 2022 para apresentar um plano de investimento a ser aprovado pela agência reguladora responsável por fiscalizar o cumprimento das metas, como o tratamento de 90% do esgoto da área.

    Não fazem parte desse índice as favelas consideradas não urbanizadas, que concentram 1,2 milhão de pessoas na capital, cerca de 18% da população.

    Nessas áreas da capital, a Águas do Rio tem como obrigação investir R$ 1,2 bilhão em saneamento, independentemente do percentual que isso representa para o total de moradores dessas áreas — o contrato não menciona comunidades dos demais municípios.

    Um dos locais priorizados é o Complexo da Maré, às margens da baía. A concessionária deverá construir um cinturão no seu entorno para coleta de tempo seco.

    Problemas de saneamento no Complexo da Maré

    Mesmo ao lado da estação de tratamento, Complexo da Maré lança esgoto 'in natura' na baía de Guanabara por falha no saneamento básico
    Mesmo ao lado da estação de tratamento, Complexo da Maré lança esgoto ‘in natura’ na baía de Guanabara por falha no saneamento básico Nicollas Witzel/Folhapress

    O bairro possui rede de esgoto, mas, das cinco bombas necessárias, apenas uma está funcionando e de forma precária.

    Assim como Vigário Geral, o complexo de favelas fica próximo a uma ETE, a Alegria, mas não consegue enviar seu esgoto para lá, e ele acaba “in natura” na baía. A unidade funciona com apenas 28% da capacidade.

    Ottoni cita a Maré como um exemplo de local onde ele considera adequada a instalação do tempo seco.

    “Em áreas sem urbanização e segurança não tem como implantar o separador absoluto. É uma área de risco para fazer manutenção”, afirma o professor da Uerj.h

    A diretora da ONG Redes da Maré, Eliana Sousa Silva, critica o argumento.

    “O Estado, que não provê o direito à segurança pública na favela, usa essa falha como argumento para dizer que tem dificuldade de dar acesso pleno ao saneamento. Não podemos aceitar isso”, diz ela.

    Foi não aceitando que moradores da Maré criaram o projeto Cocôzap, que monitora os problemas de saneamento da região. Entre maio e setembro, foram 225 registros, a maior parte relacionada ao esgoto.

    “A ideia é que a participação da população ajude a problematizar essa questão na Maré e a parar de naturalizar esses problemas que para nós são normais. É mostrar que a gente está ali e que a gente importa”, afirmou Vinicius Lopes, coordenador do projeto.

    Firmino afirma ainda que é preciso acompanhar de perto os investimentos a serem feitos pela concessionária.

    “Esse desenho [de investimentos] tem que ser calibrado. Quem vai ditar a prioridade? Se deixar frouxo, quem dita é a economia: onde cumpre mais metas com menos esforço”, diz.

    Alexandre Pessoa, da Fiocruz, vê com preocupação a capacidade do Estado de fiscalizar as metas. “Há uma série de lacunas na modelagem da concessão. Elas são riscos a médio e longo prazo.”

    Miccione, no entanto, diz que haverá acompanhamento. “A despoluição da baía de Guanabara não é mais uma promessa porque ela consta em contrato.”

    https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2022/01/baia-de-guanabara-fura-fila-e-ve-nova-promessa-de-despoluicao.shtml

    Prof Luciano Mannarino

  • Número de golpes de Estado no mundo em 2021 foi o maior em duas décadas

    Número de golpes de Estado no mundo em 2021 foi o maior em duas décadas

    Veja como estão Mianmar, Chade, Mali, Guiné e Sudão, os cinco países que assistiram a militares tomarem o poder neste ano

    26.dez.2021 às 17h00

    SÃO PAULO

    A fórmula até parece similar: militares alegam que houve fraude na eleição, que o governo civil é corrupto e ineficaz para mitigar as desigualdades sociais. Tomam, então, o poder, asfixiam liberdades civis e estabelecem um calendário fantasma de transição para a democracia. Com esse passo a passo já clássico, sete tentativas de golpe de Estado ocorreram no mundo em 2021, e cinco delas tiveram êxito.

    O número é o maior das últimas duas décadas, de acordo com monitoramento dos professores Jonathan Powell e Clayton Thyne, das universidades Central da Flórida e Kentucky, respectivamente.

    À Folha Powell diz que uma fusão de elementos fez de 2021 um ano mais propenso a golpes. O primeiro fator está relacionado ao cenário doméstico das nações: “A falta de legitimidade dos líderes locais leva à insatisfação popular, o que faz as Forças Armadas pensarem que um golpe seria celebrado”. A questão pode ser doméstica, mas o professor afirma que há uma crise global de legitimidade das lideranças.

    O segundo fator, explica, seria a pandemia de Covid, quando a comunidade internacional se tornou menos pró-ativa para responder a golpes, já que os esforços de cada país estavam voltados para o combate da crise sanitária em seus próprios territórios.

    O professor de ciência política Jonathan Phillips, da USP, faz análise semelhante. Ele diz que as tensões internas sempre têm maior peso decisivo para um golpe, mas destaca que, neste ano, as condições internacionais foram mais relevantes que o normal. “Em termos de custo-benefício, os militares pensaram que seria mais lucrativo e menos custoso fazer o golpe nessa janela de atenção internacional.”

    Phillips, graduado em Oxford e pós-graduado pela Harvard, acrescenta que a maioria dos países que sofreram golpes neste ano não tinham regimes democráticos no poder, mas, sim, governos autoritários, o que também pesa na balança. Além disso, eram sociedades militarizadas, onde as Forças Armadas há muito interferiam na política.

    MianmarChadeMaliGuiné e Sudão seguiram o roteiro acima descrito e viveram golpes de Estado em 2021. Confira, abaixo, como cada país está no final deste ano e quais as perspectivas.1 10

    Países que passaram por golpes de Estado em 2021

    Mianmar (1/2): o país do Sudeste Asiático foi palco de um golpe em 1º de fevereiro, quando os militares destituíram o governo civil eleito alegando fraude nas eleições e prenderam diversas lideranças, entre elas Suu Kyi (no cartaz da foto), ganhadora do Nobel da Paz
    Mianmar (1/2): o país do Sudeste Asiático foi palco de um golpe em 1º de fevereiro, quando os militares destituíram o governo civil eleito a 1.abr.21/Facebook via AFPMAIS 

    

    MIANMAR

    A curta experiência democrática de Mianmar, que teve início em 2011, foi interrompida em 1º de fevereiro, quando o país do Sudeste Asiático estreou a lista de nações que foram palco de golpes de Estado neste ano. Naquele dia, as Forças Armadas, que não haviam deixado de ocupar espaço na política institucional, alegaram fraude nas eleições e destituíram o governo civil do poder.

    O golpe ocorreu após o partido apoiado pelos militares ser derrotado nas legislativas. Lideranças foram detidas, entre elas Suu Kyi, 76, ganhadora do Nobel da Paz e principal líder civil do país. O episódio levou a uma onda de protestos sociais, violentamente reprimidos.

    O saldo de mortos pelo regime chegava a 1.346 na segunda quinzena de dezembro, segundo levantamento da Associação de Assistência a Presos Políticos de Mianmar. Mais de 10 mil pessoas foram detidas, e pelo menos 75 foram condenadas à pena de morte.1 10

    A esposa de Phoe Chit, uma manifestante que morreu durante uma manifestação contra o golpe militar em 3 de março, chora sobre o caixão de seu marido durante seu funeral
    A esposa de Phoe Chit, uma manifestante que morreu durante uma manifestação contra o golpe militar em 3 de março, chora sobre o caixão de se 5.mar.2021/AFP/AFPMAIS 

    Houve, ainda, amplo movimento repressivo contra a imprensa. Cerca de 26 jornalistas foram detidos no país, segundo levantamento do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ, na sigla em inglês) —o número fez de Mianmar o segundo país que mais encarcerou profissionais da imprensa neste ano, atrás apenas da China (50).

    A junta que assumiu o governo do país asiático afirmou que irá promover eleições em agosto de 2023. Os generais têm tentado, ainda que sem sucesso, alçar reconhecimento diplomático —as Nações Unidas, por exemplo, relutam em aceitar o representante designado pelos militares para a Assembleia-Geral do organismo multilateral.

    Outra consequência do golpe foi o avanço, a galope, da pobreza no país. Projeções do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) mostram que metade da população de Mianmar pode estar abaixo da linha da pobreza no próximo ano.

    CHADE

    O Chade deu sequência neste ano à tradição de sucessões presidenciais tensas e golpes de Estado, quando o filho do ditador Idriss Déby assumiu o poder após a morte do pai, dissolvendo o Congresso e consolidando a dinastia Déby no comando do país.

    Déby pai comandava o país do centro-norte africano desde um golpe de estado em 1990, que tirou do poder o ditador Hissène Habré. Em abril deste ano, ele venceu a sexta eleição consecutiva, contestada pela oposição e por grupos que lançaram uma ofensiva militar para retirá-lo do poder, após acusações de escalada autoritária.

    O presidente foi para a guerra lutar contra os rebeldes e morreu no campo de batalha dias depois, em 20 de abril. Pela Constituição, quem deveria suceder o mandatário nesses casos é o chefe da Assembleia Nacional, mas não foi o que aconteceu.

    O processo foi visto como um golpe, já que as regras de sucessão não foram respeitadas. Se parte do país já manifestava insatisfação com o pai, a nomeação do filho para liderar o Chade sem novas eleições inflamou protestos, que foram reprimidos de forma violenta e deixaram mortos e centenas de pessoas presas. A ofensiva dos rebeldes se manteve em campo, até ser derrotada pela junta militar em maio.

    A tomada de poder foi apoiada por aliados do país como a França, da qual o Chade foi colônia até 1960. O ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Yves Le Drian, afirmou que havia “razões de segurança excepcionais que precisavam ser garantidas para estabilizar o país”.

    O regime tenta dar um ar de normalidade ao país assolado por miséria e fome. Em setembro, nomeou uma nova Assembleia Nacional —que não foi eleita, mas escolhida pela junta. Dois meses depois, anistiou 296 pessoas que haviam sido acusadas durante os protestos por “crimes de opinião”, “terrorismo” e “dano à integridade do Estado”.

    MALI

    O Mali sofreu em 2021 um golpe dentro de um golpe. No ano passado, em meio a protestos que pediam a renúncia do então presidente Ibrahim Boubacar Keita, o mandatário foi preso e deposto, em movimento liderado pelo coronel Assimi Goïta. Bah Ndaw passou a comandar o país, em um governo de transição que deveria durar até fevereiro de 2022.

    Em maio deste ano, no entanto, Goïta, que se tornou vice-presidente interino, mandou deter e depôs Ndaw, além do premiê. A justificativa foi uma remodelação do governo que excluiu dos ministérios dois oficiais que participaram ativamente do golpe em 2020. Segundo Goïta, ele não foi consultado, o que violaria a carta de transição.

    Havia ainda, porém, a promessa de manter as eleições para fim de fevereiro de 2022. Mas no início de novembro os integrantes da Cedeao (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental) souberam que as autoridades malinesas não iriam cumprir o prazo.

    A Cedeao, então, ameaçou com sanções, o que forçou Goïta a se comprometer com uma nova data: o coronel prometeu apresentar um novo cronograma até 31 de janeiro. Na última reunião, em 12 de dezembro, a entidade subiu o tom e reforçou a promessa de sanções a partir de 1º de janeiro caso o prazo não fosse respeitado. A União Europeia também anunciou que deve adotar medidas.

    Soma-se a isso um contexto de extrema insegurança, com o norte do país tomado por ataques jihadistas. A junta no poder ameaça recorrer ao Grupo Wagner, uma organização paramilitar que atua na África Subsaariana e é suspeita de ter ligações com o presidente russo, Vladimir Putin.

    GUINÉ

    Quando Alpha Condé, figura de oposição aos governos autoritários que historicamente dominaram a Guiné, foi eleito, em 2010, para a Presidência do país nas primeiras eleições democráticas desde a independência —conquistada em 1958—, a população guineense viu despontar a chance de, enfim, viver sob uma democracia. Pouco mais de uma década depois, a esperança foi frustrada.

    Condé, 83, foi reeleito em 2015. Em 2020, quando uma trava na Constituição o impedia de disputar o terceiro mandato, costurou uma reforma no documento. Alegando que promoveria os direitos humanos, como a proibição da circuncisão feminina, alterou a Carta Magna em março daquele ano, e conseguiu reeleger-se em outubro. A oposição alega que houve fraude no processo eleitoral.

    Com os argumentos de que era preciso colocar fim ao culto das personalidades políticas na Guiné e que o governo de Condé foi incapaz de melhorar os indicadores sociais, o coronel Mamady Doumbouya, líder do Grupo de Forças Especiais, liderou um golpe de Estado no país em 5 de setembro e sequestrou o presidente, que foi liberado somente três meses depois.2 11

    Uma tentativa de golpe de Estado contra o governo da Guiné provocou tiroteios perto do palácio presidencial, na capital, Conacri
    Uma tentativa de golpe de Estado contra o governo da Guiné provocou tiroteios perto do palácio presidencial, na capital, Conacri Cellou Binani/AFPMAIS 

    Doumbouya, 41, que recebeu treinamento na França e já serviu em missões no Afeganistão, autodeclarou-se presidente de transição e formou um governo com Mohamed Beavogui, ex-subsecretário-geral das Nações Unidas, como premiê. Não esclareceu, porém, qual será o calendário de retorno à ordem constitucional.

    Organizações internacionais, como a União Africana e a Cedeao, aplicaram sanções ao país e o excluíram de seus processos decisórios. A Cedeao pede que eleições sejam realizadas em, no máximo, seis meses, e afirma que, caso um calendário não seja estabelecido até o final deste ano, novas sanções serão aplicadas.

    SUDÃO

    Foi há três anos, em dezembro de 2018, que os sudaneses começaram a sair às ruas para protestar contra as condições de vida sob o regime de Omar al-Bashir, que estava no poder havia três décadas. Ao longo dos meses seguintes, os manifestantes conseguiram derrubar o ditador e arrancar das Forças Armadas o compromisso de que iriam entregar em breve o poder para um governo civil escolhido por meio do voto. O Sudão caminhava, enfim, em direção à democracia.

    Tudo mudou em 25 de outubro deste ano, quando tropas lideradas pelo general Abdel Fattah al-Burhan deram um golpe de Estado e prenderam os integrantes civis do governo de transição. Os militares decretaram estado de emergência e bloquearam as telecomunicações. Segundo a versão dos golpistas, o movimento visava impedir a eclosão de uma guerra civil no país do Norte da África.

    Manifestante sudanês coberto com a bandeira nacional ao lado de pneus em chamas durante uma manifestação na capital, Cartum; pessoas saíram às ruas após ter início um golpe militar no país da África Oriental: o premiê e diversas figuras civis do governo foram detidos ilegalmente
    Manifestante sudanês coberto com a bandeira nacional ao lado de pneus em chamas durante uma manifestação na capital, Cartum; pessoas saíram  25.out.21/AFPMAIS 

    Mesmo diante da repressão brutal das forças de segurança, que já deixou ao menos 40 mortos, multidões têm participado em marchas recorrentes para exigir a saída dos militares. Sob pressão, as Forças Armadas libertaram e restituíram Abdallah Hamdok, o premiê civil deposto no golpe de Estado —o acordo foi celebrado pela comunidade internacional, mas segue sendo rejeitado pelas ruas do país.

    Para Samahir Elmubarak, porta-voz da Associação de Profissionais Sudaneses (SPA, na sigla em inglês), principal grupo à frente dos protestos, a população não aceita mais o antigo esquema de partilha de poder com os militares. “O povo sudanês deixou claro ao longo desta revolução que queremos viver em uma democracia”, diz ela à Folha desde Cartum. “As Forças Armadas buscam dar um verniz de legitimidade ao golpe. Se este regime for aceito, golpistas em outros países se sentirão encorajados a tomar o poder por saber que não sofrerão consequências”.

    Dani Avelar , Mayara Paixão , Patricia Pamplona e Thiago Amâncio

    tps://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/12/numero-de-golpes-de-estado-no-mundo-em-2021-foi-o-maior-em-duas-decadas.shtml

    Prof Luciano Mannarino