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  • Demanda por combustíveis fósseis mostra fragilidade das energias renováveis

    Demanda por combustíveis fósseis mostra fragilidade das energias renováveis

    Transição energética é o maior desafio da humanidade, mas poucos compreendem os sacrifícios para chegarmos lá

    19.out.2021 às 21h3

    Em seu recente livro, “How to Avoid a Climate Disaster” (Como evitar o desastre climático), Bill Gates define o “ágio verde” (“green premium”) como a diferença de custo entre fazer algo (produto, serviço ou atividade) da maneira tradicional (com emissão de carbono) e fazer o mesmo de forma limpa, “verde”.

    Organismos multilaterais e governos de países desenvolvidos têm forçado as empresas a implementar uma transição rápida para o mundo verde. Do lado privado, a mudança no comportamento do consumidor de países ricos e o ESG também contribuem na mesma direção.

    A transição energética – cuja meta é alcançar zero emissões líquidas em 2050–, é o maior desafio que a humanidade já teve, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). Poucos, no entanto, compreendem a magnitude dos sacrifícios necessários para chegarmos lá.

    Operações de extração de petróleo em Midland, nos Estados Unidos – Nick Oxford – 11.mai..2021/Reuters

    O ágio verde ainda é muito alto, e o encarecimento dos produtos frequentemente os torna inacessíveis para a população de mais baixa renda. A fabricação de aço mais limpo custa 30% mais caro, e o querosene de aviação mais limpo custa mais que o dobro que o tradicional.

    Os ambientalistas argumentam que este é um preço baixo a pagar para salvar a humanidade da catástrofe das mudanças climáticas. Mas não são os ambientalistas da ONU que pagam este “imposto verde”. Ao contrário dos pobres no Brasil e em países subdesenvolvidos, a população de países ricos pode se dar ao luxo de pagar mais caro.

    Neste ano, a volta à normalidade econômica em um cenário ainda com rupturas das cadeias de suprimento por conta da pandemia revelou a fragilidade da transição: irrompeu uma crise energética global. A crise elevou os preços do carvão, gás natural e petróleo, que por sua vez encarecem quase todos os produtos e aumentam o ágio verde. É o greenflation (inflação dos produtos verdes).

    A China tem sofrido com cortes de energia elétrica e racionamento; quase 150 mil empresas em Guangdong sofreram cortes em setembro. O crescimento econômico chinês, pujante no primeiro semestre, desacelerou significativamente neste terceiro trimestre, para 4,9%.

    A Europa está sob ameaça de apagões e diminuição de produção, em particular com a chegada do inverno. A crise hídrica no Brasil está conectada com a escassez de energia na Europa e Ásia. O Brasil tem importado uma quantidade recorde de gás natural liquefeito, contribuindo com a alta de preços internacionais e a alta nas tarifas de energia por aqui. Ironicamente, o mundo está no momento dependendo de mais combustíveis fósseis.

    A Aneel estipula três níveis de tarifas, conforme a produção de energia nas hidrelétricas do país. Os patamares de tarifa são denominados por cores: verde, amarelo e vermelho (que é dividido em nível 1 e 2)
    Aneel estipula três níveis de tarifas, conforme a produção de energia nas hidrelétricas do país. Os patamares de tarifa são denominados po Lucas Lacaz Ruiz/Folhapress

    Porém, a despeito dos aumentos de preços dos combustíveis fósseis, não há aumento correspondente na sua produção. Nos últimos dez anos, os investimentos em exploração e produção das maiores petroleiras caíram à metade e migraram para a transição para energia renovável.



    As energias solar e eólica são intermitentes e difíceis de armazenar. E são muito deficientes em uma métrica importante: o EROI (uma comparação entre energia economizada e energia utilizada). Por exemplo, é preciso muito alumínio, cobre e outros metais –que consomem muita energia em sua fabricação– para fabricar turbinas eólicas e painéis solares.

    Está claro que a transição rápida para a economia de baixo carbono será conturbada e pode não ocorrer no prazo almejado pelos organismos multilaterais. Quando se mexe na matriz energética, algo complexo e interdependente, de cima pra baixo, de forma brusca, aumenta o risco e a fragilidade do sistema. Isso ficou explicitado pela crise global. Enquanto não se superam os imensos desafios tecnológicos para energia renovável acessível, uma solução pode ser a energia nuclear.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helio-beltrao/2021/10/demanda-por-combustiveis-fosseis-mostra-fragilidade-das-energias-renovaveis.shtml

    Questões

    1 Quais são as críticas as fontes solar e eólica presente na reportagem?

    2 O que se entende como “ágio verde”?

    3 Por que a “transição energética” é o maior desafio que a humanidade tem diante de si?

    Energia insustentável

    Energia nuclear pode ser aliada contra a mudança climática?

    CLIMA E FATORES DO CLIMA (vídeo e atividades)

    Prof Luciano Mannarino

  • Lua Cheia!!!

    Lua Cheia!!!

    Cada partícula do nosso corpo tem a idade do Universo (cerca de 15 Bilhões de anos). Somos constituídos por material celeste que usamos por um breve período até o fatídico dia em que devolvemos para a natureza. Esse material poderá ser usado por outros seres vivos. Há no seu corpo partículas já fizeram parte de outros organismos.

    Lembro do dia em que enterrei meu cachorro próximo a raiz de um pé de abacate no meu quintal. Alguns anos depois fiz saborosas vitaminas com a fruta que colhi. Talvez isso explique por que eu fico circunspecto diante de uma lua cheia.

    Nada se perde. Nada se cria. Tudo se transforma.

    Prof Luciano Mannarino

    Pensamentos

  • Energia nuclear pode ser aliada contra a mudança climática?

    Energia nuclear pode ser aliada contra a mudança climática?

    Opção gera poucos gases de efeito estufa, muito menos que o carvão, o gás ou a energia solar

    18.out.2021 às 6h00

    Julien MiviellePARIS | AFP

    É a pergunta que não quer calar: A energia nuclear, que não emite gases de efeito estufa, pode salvar o clima ou ao menos ajudar enquanto as energias renováveis são desenvolvidas? Especialistas e países parecem divididos sobre o assunto.

    “Tudo o que permite reduzir as emissões é uma boa notícia”, respondeu o diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, ao ser questionado pela AFP sobre o papel da energia nuclear e das renováveis.

    “Todas as fontes de eletricidade limpa me satisfazem”, acrescentou.

    Uma das principais vantagens da energia nuclear, que representa em torno de 10% da produção mundial de eletricidade, é que não emite diretamente dióxido de carbono (CO2).

    Usina nuclear francesa em Civaux – Stephane Mahe – 8.out.2021/Reuters

    Mesmo quando se analisa o conjunto de seu ciclo de vida, considerando as emissões vinculadas à extração de urânio ou ao concreto das usinas, gera poucos gases de efeito estufa, muito menos que o carvão, o gás ou a energia solar.

    A energia nuclear avança “na maioria” dos cenários dos especialistas climáticos da ONU (IPCC) para limitar o aquecimento do planeta a 1,5ºC, em comparação com o final do século 19.

    Esta fonte parece estar destinada a desempenhar um papel-chave, especialmente quando o mundo precisar de mais eletricidade para substituir as energias fósseis, como no transporte rodoviário.

    Sendo assim, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) aumentou suas projeções pela primeira vez desde a catástrofe de Fukushima em 2011 e prevê agora que a potência instalada será duplicada até 2050, no cenário mais favorável.

    A China lidera os países com mais reatores novos. “Muitos estão considerando introduzir a energia nuclear para apoiar a produção de energia confiável e limpa”, acrescenta o órgão com sede em Viena.

    Seu diretor-geral, o argentino Rafael Grossi, vê um sinal de que o mundo está cada vez mais consciente de que essa energia “é absolutamente vital para alcançarmos” a neutralidade do carbono em meados do século.

    Este objetivo será central na próxima grande cúpula sobre o clima, a COP26, programada para novembro no Reino Unido.

    Por outro lado, os cientistas do IPCC reconhecem também que a “futura implantação da [energia] nuclear pode ser limitada pelas preferências da sociedade”.

    Em alguns países, essa energia ainda possui uma imagem ruim por causa do risco de catástrofes ou do antigo problema dos resíduos, que continua sem solução.

    Na União Europeia (UE), por exemplo, a divisão é nítida e esquenta os debates sobre se o setor nuclear deve ser considerado uma atividade benéfica para o clima e o meio ambiente.

    A Alemanha decidiu abandonar essa fonte de energia progressivamente após a catástrofe de Fukushima, mas outros países da Europa central a veem como uma alternativa à sua dependência do carvão.

    A cidade de Namie, na província de Fukushima (Japão), classificada como de difícil retorno devido à radiação após acidente nuclear causado por terremoto e tsunami
    A cidade de Namie, na província de Fukushima (Japão), classificada como de difícil retorno devido à radiação após acidente nuclear causado p Rodrigo Sicuro/FolhapressMAIS 

    A opinião pública também não é unânime. “Na República Tcheca, a energia nuclear é vista como uma fonte de eletricidade confiável e relativamente barata”, afirma Wadim Strielkowski, especialista da Prague Business School.

    Já os críticos –geralmente defensores do pacifismo como o Greenpeace– abandonam seus tradicionais argumentos para se concentrarem na eficácia.

    O custo das renováveis não parou de cair, enquanto os grandes projetos nucleares se tornaram grandes e caros, geralmente com enormes custos adicionais.

    Os novos projetos nucleares são “muito mais caros e mais lentos que as renováveis”, estima Mycle Schneider, autor de um relatório anual crítico e para quem investir neste setor “agrava a crise climática”.

    No entanto, a indústria nuclear estima que ainda não ditou sua última palavra.

    Há alguns anos, tem seus olhos voltados para os pequenos reatores modulares (SMR, nas siglas em inglês): mais simples, fabricados em série e menos propensos a custos adicionais.

    “O futuro da energia nuclear (…) poderia passar pelos pequenos reatores”, estima Strielkowski. No entanto, apesar do interesse manifestado por vários países, só a Rússia lançou de fato uma usina que faz uso dessa tecnologia.

    https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2021/10/energia-nuclear-pode-ser-aliada-contra-a-mudanca-climatica.shtmlicos

    Questões.

    1 Por que a Energia Nuclear pode ser uma aliada contra a mudança climática?

    2 Aponte críticas quanto a produção de energia elétrica a partir da fonte nuclear.

    3 Quais foram os objetivos do Programa Nuclear Brasileiro?

    4 O que foi a “catástrofe de Fukushima”?

    5 Como é produzido energia elétrica a partir da fonte nuclear?

    Dez anos após Fukushima, energia nuclear cresce com China e crise climática

    Centrais Termonucleares (avaliação)

    Investimentos na matriz eólica superam R$ 187,1 bi na última década

    Energia insustentável

    Desarmamento nuclear é nobre, mas algo limitado pela política (atividade)

    Prof Luciano Mannarino

  • Mulheres se tornam peças-chave na transição demográfica e econômica da China

    Mulheres se tornam peças-chave na transição demográfica e econômica da China

    Ouvir as demandas delas é necessário também para a própria legitimidade do Estado-Partido chinês

    16.out.2021 às 10h00

    Tatiana Prazeres

    PEQUIM

    As expectativas do governo chinês mudaram tão rapidamente que as propagandas nas ruas ainda mantêm o padrão antigo da “família margarina”. No metrô de Pequim, por exemplo, é possível ver um anúncio do Templo do Céu, um dos cartões postais da capital, em que pais jovens aparecem com duas crianças —um menino e uma menina—, todos felizes num passeio em um dia de céu azul.

    Após a política do filho único imperar durante 36 anos, o governo passou a estimular a formação de famílias maiores. A grande mudança ocorreu em 2015, quando ter um segundo filho foi permitido. Em maio de 2021, foi a vez de o terceiro ser autorizado. Assim, os cartazes do metrô já estão desatualizados.

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    Chinesas em um vagão de metrô exclusivo para mulheres em Guangzhou, capital da província de Guangdong, a mais populosa do país  – Giulia Marchi – 5.fev.18/The New York Times

    Políticas de planejamento familiar são tão debatidas na China que, horas depois do anúncio da última mudança, a hashtag #apolíticadoterceirofilhochegou teve 1,76 bilhão de visualizações na rede Weibo.

    Essa guinada acontece porque uma crise demográfica bate à porta da China, algo que ficou evidente no censo divulgado neste ano. As mulheres chinesas têm, em média, 1,3 filho, taxa bem abaixo do necessário para a reposição da população, de 2,1 filhos. Por isso, a população deve começar a encolher em breve.

    A redução populacional preocupa sobretudo devido às repercussões econômicas. A diminuição da força de trabalho limita o potencial de crescimento do país e, sem o bônus demográfico de tempos atrás, há menos gente produzindo e mais gastos com saúde, previdência e assistência social aos idosos.

    O temor é o de que, como em outros países, a China fique presa na armadilha da renda média, em que, após atingir certo nível de riqueza, vem a estagnação, impedindo-a de alcançar um padrão de renda alta.

    Para enfrentar esse desafio, o comando central chinês, formado em sua maioria por homens, precisa ouvir e olhar para as chinesas, peças-chave na transição demográfica e econômica do país.

    Na China de hoje, os casamentos estão em baixa, os divórcios em alta, e o interesse em ter dois filhos —quem dirá três— não é grande. Logo que as autoridades anunciaram que os casais poderiam ter três filhos, a agência estatal de notícias Xinhua pensou ser uma boa ideia conduzir uma enquete online: “Você está pronto para a política de três filhos?”. Resultado: “Não considero, de jeito nenhum, ter três filhos” foi a resposta mais selecionada, muito à frente das demais. A enquete rapidamente saiu do ar.

    As mulheres são as que mais hesitam, pois sabem que, apesar de mudanças significativas nas últimas quatro décadas, a sociedade segue depositando responsabilidades elevadas sobre elas.

    O governo tenta reverter a situação. Para conter a alta do número de divórcios, por exemplo, o primeiro Código Civil chinês, em vigor desde janeiro, estabeleceu um período para “esfriar a cabeça”, uma espécie de intervalo entre o pedido e a efetivação da separação para quem sabe, evitar decisões impulsivas.

    Quando o governo fala em famílias maiores, refere-se ao modelo tradicional. Caso elas decidam ser mães sozinhas, encontram dificuldades para que os filhos obtenham o “hukou”, o registro de residência que garante acesso aos serviços públicos básicos como saúde e educação.

    Em setembro, o governo também anunciou um estímulo à educação sexual de jovens, com o objetivo claro de evitar abortos que não sejam motivados por questões de saúde. A interrupção da gravidez é legal e relativamente comum na China, passando ao largo do debate moral-religioso comum em muitos países.

    Devido às altas expectativas relacionadas à educação, criar filhos custa especialmente caro para a classe média chinesa. Por isso, o governo se movimentou para impor limites rígidos à indústria de aulas extracurriculares, na tentativa de ajudar a aliviar a pressão financeira sobre os pais.

    Algumas cidades foram além e criaram incentivos financeiros para proles maiores. Em Panzhihua, na província de Sichuan, os casais poderão pleitear uma ajuda mensal equivalente a US$ 77 (cerca de R$ 423) para o segundo e o terceiro filhos, até que as crianças completem três anos de idade. Gansu, uma das províncias mais pobres da China, também divulgou recentemente medidas com a mesma finalidade.

    Ainda que sofram pressão de familiares para “dar continuidade” ao sangue e ao sobrenome do pai, ou que corram o risco de serem estigmatizadas como as “que sobraram”, muitas mulheres têm resistido a seguir os passos de suas mães. Cada vez mais elas têm se voltado contra o modelo de casamento tradicional.

    Sobre os homens recaem cobranças para que sejam deixadas de lado características consideradas “femininas”. Agora, autoridades determinaram que homens “afeminados” tenham menos espaço na TV.

    O movimento feminista, apesar das dificuldades, tem crescido na esteira do aumento de denúncias de casos de abuso e assédio sexual, na linha do #metoo. Mas mesmo com conquistas recentes, como leis e campanhas contra violência doméstica, a luta das mulheres na China é diferente da de outras partes.

    Feministas testam os limites do sistema e a tolerância das autoridades. Normalmente, encontram soluções criativas, buscam manter a discrição, usam emojis em vez de texto para contornar controles de conteúdo ou se manifestam evitando confrontação —uma comediante feminista, por exemplo, faz sucesso nas redes. Porque as mulheres, claro, ainda têm de contribuir para preservar a dita harmonia social.

    Os gêmeos Sun Qiyu e Sun Qichun seguram a bandeira chinesa na Praça da Paz Celestial, em Pequim
    Os gêmeos Sun Qiyu e Sun Qichun seguram a bandeira chinesa na Praça da Paz Celestial, em Pequim Kim Kyung-Hoon – 2.nov.2015

    O desafio demográfico requer que as mulheres, além de procriar, sigam trabalhando. Com a população economicamente ativa encolhendo, elas são indispensáveis na força laboral. Precisam, assim, continuar consumindo, além de cuidar da geração anterior, cada vez mais longeva. A conta não fecha. São necessárias mudanças significativas nas políticas de suporte e no mercado de trabalho.

    Como em outros países, a China precisa de mais creches. Mas os chineses precisam também vencer uma barreira cultural: a persistência da tradição de deixar crianças aos cuidados dos avós paternos, o que aumenta ainda mais a dependência das mulheres em relação ao marido. A percepção popular é a de que seria melhor confiar a eles —não a algum estranho– o cuidado dos pequenos.

    Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho pode ser cruel com as mulheres, especialmente em idade fértil ou com filhos pequenos. Ainda ocorre de uma mulher enfrentar, em entrevistas de emprego, perguntas sobre se pretende engravidar —talvez um resquício da época em que a unidade de trabalho tinha a responsabilidade de garantir o respeito às regras de planejamento familiar.

    A centralidade da mulher na nova fase econômica chinesa contrasta com a concentração persistente de homens na cúpula do governo e do Partido Comunista. Dos 25 membros do Politburo, uma das estruturas de poder mais importantes do país, há apenas uma mulher. No Comitê Permanente do Politburo, órgão ainda mais relevante, nunca houve uma mulher entre os seus sete membros.

    Conceber políticas públicas com um olhar para a situação das mulheres também se relaciona com a legitimidade do partido diante das novas gerações —especialmente as mulheres da nova classe média urbana. Seus desejos e ambições podem ser muito diferentes dos de suas mães que, até poucas décadas atrás, viviam majoritariamente num ambiente rural e centrado no modelo de família tradicional.

    A capacidade de as autoridades reconhecerem e responderem a essas mudanças têm impacto direto na satisfação —ao menos delas— em relação ao governo.

    Se em 2021 o Partido Comunista Chinês comemorou seu centenário, agora já está de olho nos objetivos associados à próxima comemoração. Em 2049, no 100º aniversário da República Popular da China, os líderes do país pretendem realizar o dito “sonho chinês”.

    Querem que a China seja “forte, democrática, civilizada, harmoniosa e um país socialista moderno’’. Pois a China não será tudo isso se as mulheres ficarem para trás. Ouvir as mulheres é necessário não apenas para o crescimento econômico, mas também para a própria legitimidade do Estado-Partido.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/10/mulheres-se-tornam-peca-chave-na-transicao-demografica-e-economica-da-china.shtml

    Prof Luciano Mannarino

    Para conter crise demográfica, China autorizará 3 filhos por família

    População da China tem menor crescimento em décadas e atinge 1,41 bilhão

    DEMOGRAFIA E TEORIA DA TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA.

  • Angola vive o fim de sua perestroika

    Angola vive o fim de sua perestroika

    Brasil deve estar preparado para se posicionar do lado do progresso democrático no país africano

    10.out.2021 às 17h02

    Nos anos Bolsonaro, o debate sobre Angola no Brasil se resume às querelas missionárias animadas pelos bispos evangélicos da base governista. Mas o país, fundamental para a diplomacia brasileira em tempos normais, tem conhecido importantes transformações.

    A chegada de João Lourenço ao poder em 2017 foi vivida como uma inesperada ruptura com os anos de autoritarismo e obscenidade financeira do interminável regime de José Eduardo dos Santos. Para a surpresa de todos, Lourenço, membro do MPLA, mesmo partido que o de seu predecessor, encampou uma agenda de abertura política e tomou medidas espetaculares, como a prisão de membros da família Dos Santos e a reorganização da estatal petrolífera Sonangol.

    O presidente de Angola, João Lourenço, na Assembleia-Geral da ONU em Nova York – Timothy A. Clary/Pool via Reuters

    Mas o conto da perestroika angolana era um mito criado pelo MPLA, mestre na arte de adaptar a narrativa nacional às expectativas da comunidade internacional para se eternizar no comando do país. A despeito dos avanços concretos em termos de governança, as medidas anticorrupção parece ter sido calibradas para enfraquecer os oligarcas ligados ao ex-presidente Santos e consolidar o novo projeto de poder.

    A implementação do plano de reformas acertado com o FMI é celebrada como um modelo de competência tecnocrática. Mas a economia real está em frangalhos. O fim do ciclo de ouro da indústria petrolífera dissipou a ilusão de um petroestado desenvolvimentista que pairava sobre o país.

    A infraestrutura está decadente, os serviços públicos desmoronaram, a fome cresce nas regiões rurais e a população urbana vive no marasmo de um modelo econômico em via de extinção.

    Ninguém esperava que o novo governo transformasse de ponta-cabeça, em anos de pandemia, um país refém de dogmas soviéticos e oligarquias góticas. Mas o período deixou claro que a reconversão econômica é incompatível com a ausência de alternância política. Lançada oficialmente na semana passada, a Frente Patriótica Unida representa o maior avanço da construção democrática angolana desde 2002.

    O vento de mudança deixou a ala mais reacionária do MPLA desesperada. Os quadros mais autoritários da era Dos Santos regressaram ao jogo político, e o partido voltou a manifestar seus piores reflexos.

    Estudante de Angola desinfecta os tênis antes de entrar em uma escola da capital, Luanda, que foi reaberta em fevereiro, após 11 meses fechada
    studante de Angola desinfecta os tênis antes de entrar em uma escola da capital, Luanda, que foi reaberta em fevereiro, após 11 meses fecha Osvaldo Silva – 10.fev.21/AFPMAIS 

    Logo depois da criação da Frente Patriótica Unida, o Tribunal Constitucional, capturado por membros do MPLA, abriu uma ofensiva legal para deslegitimar o principal líder da oposição, Adalberto Costa Júnior. Por enquanto, Lourenço parece resistir, mas a pressão do MPLA pelo fechamento do regime deve aumentar nos próximos meses.

    Nesse cenário, as eleições presidenciais agendadas para outubro de 2022 podem ser um teste importante para o Brasil na África.

    A inesperada alternância de poder na Zâmbia criou esperança na África austral, atormentada pelo impasse autoritário no Zimbábue, o colapso social na África do Sul e o desastre militar em Moçambique. O Brasil foi o primeiro país a reconhecer a independência de Angola, em 1975. Ele deve estar preparado para, quando chegar a hora, se posicionar novamente do lado do progresso democrático.

    www1.folha.uol.com.br/colunas/mathias-alencastro/2021/10/angola-vive-o-fim-de-sua-perestroika.shtml

    Questão.

    1 O que seria o “petroestado”? Aponte um outro exemplo.

    2 Aponte semelhanças entre o Brasil e Angola em relação a exploração de petróleo.

    3 Explique a expressão russa do título do texto.

    4 Por que a independência de Angola só se deu após 1975?

    5 De que forma a “guerra fria” esteve presente no processo de independência da Angola?

    Professor Luciano Mannarino