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  • Armas nucleares podem ser salvação da cúpula entre Biden e Putin

    Armas nucleares podem ser salvação da cúpula entre Biden e Putin

    Primeira reunião dos líderes ocorre sob forte pessimismo nesta quarta em Genebra

    Igor GielowSÃO PAULO

    Razão última pela qual reuniões de cúpula entre presidentes americanos e russos são objeto de atenção mundial, as armas nucleares podem ser a tábua de salvação do encontro de Joe Biden com Vladimir Putin nesta quarta (16).

    Os líderes farão em Genebra, na Suíça, a primeira reunião com Biden como presidente. Um cardápio indigesto de temas já foi adiantado por ambos em entrevistas, com o reforço de que ninguém vai mudar de posição e que avanços são altamente improváveis.

    Biden deixa o avião presidencial após aterrissar no aeroporto de Genebra, cidade onde irá se encontrar com Putin
    Biden deixa o avião presidencial após aterrissar no aeroporto de Genebra, cidade onde irá se encontrar com Putin – Denis Balibouse/Pool/Reuters

    Entram nessa lista a guerra civil na Ucrânia, o apoio russo à ditadura na Belarus e a opressão do Kremlin aos opositores domésticos como Alexei Navalni.

    Biden já disse que vai riscar “linhas vermelhas”, algo que seu ex-chefe Barack Obama tentou com Putin na Síria, só para ser humilhado. E o russo disse que as diferenças são claras.

    Sobram assuntos menores, como a retomada de atividades diplomáticas de lado a lado e talvez algum debate sobre o futuro da guerra civil no país árabe. E as armas nucleares.

    O primeiro gesto de política externa de Biden foi estender por cinco anos, como queria Putin, o último tratado vigente de limitação de armas nucleares. O antecessor do americano, Donald Trump, havia retirado os EUA de dois outros acordos e queria deixar o Novo Start caducar.

    Biden reverteu o último ponto e agora há espaço para negociar novos limites, regimes de inspeção e talvez até incluir armas mais sofisticadas, como os mísseis hipersônicos desenvolvidos pela Rússia.

    “Nós instamos os líderes a aproveitar a oportunidade e fazer progressos significativos para reduzir arsenais e rumar à adesão ao Tratado de Proibição de Armas Nucleares”, afirmou Beatrice Fihn, diretora-executiva da Campanha Internacional pela Abolição de Armas Nucleares (Ican, na sigla inglesa).

    Ela e uma sobrevivente do ataque atômico a Hiroshima em 1945 receberam, em 2017, o Prêmio Nobel da Paz concedido à Ican. Mas sua visão é otimista, sendo confrontada pela realpolitik: não se espera que os donos de 90% das armas nucleares do planeta renunciem a seus arsenais. “O risco do uso de armas é maior hoje do que na Guerra Fria”, disse Fihn. “O único modo de eliminar o risco é eliminar as bombas.”

    O presidente dos EUA, Joe Biden, e sua esposa, a primeira-dama Jill Biden (esq.), posam com a rainha Elizabeth durante encontro no Castelo de Windsor, logo antes de irem tomar chá juntos
    O presidente dos EUA, Joe Biden, e sua esposa, a primeira-dama Jill Biden (esq.), posam com a rainha Elizabeth durante encontro no Castelo de Windsor, logo antes de irem tomar chá juntos Steve Parsons /AFPL

    Em relatório divulgado nesta semana, o Instituto Internacional da Paz de Estocolmo afirmou que tanto russos como americanos ampliaram em cerca de 50 ogivas seus arsenais em 2020. “No ano passado, EUA e Rússia gastaram juntos US$ 45,5 bilhões desenvolvendo e mantendo seus arsenais”, afirmou a ativista.

    Para ela, seria importante coibir as novas formas de emprego da bomba. “A expansão qualitativa é tão perigosa quanto o aumento dos números de ogivas, e nós vimos como essas tecnologias emergentes podem aumentar o risco de uso das armas”, disse Fihn.

    Seja como for, ambos os líderes pretendem capitalizar o embate suíço.

    Biden poderá aparecer como alguém firme, o que pega bem em casa e é notado pelos rivais em Pequim. Putin, por sua vez, fará o mesmo ante sua audiência doméstica —fora que a hostilidade de um americano que já o chamou de assassino pode ser usada para justificar a repressão à oposição apoiada pelos EUA.

    Tema/statusDo que se trataPosição de BidenPosição de Putin
    Ucrânia
    Sem acordo
    País perdeu a Crimeia e leste é ocupado por rebeldes pró-KremlinBusca pacificar a região e trazer a Ucrânia para a UE e para a OtanQuer manter áreas rebeldes autônomas e não aceita Kiev ocidental
    Belarus
    Sem acordo
    Repressão política pós-eleição isolou o país, que tem apoio de MoscouPrepara novas sanções contra a ditadura e quer mudança de regimeQuer manter o status quo e talvez promover a unificação dos países
    Alexei Navalni
    Sem acordo
    Opositor foi preso após ser envenenado e sua organização, fechadaQuer Navalni solto e pede melhoria nos direitos humanos na RússiaConsidera que são assuntos internos e vê interferência ocidental
    Otan
    Sem acordo
    Aliança militar tem missão anti-Rússia renovada sob BidenAmericano quer manter pressão e agradar os aliadosReforça sua posição militar na fronteira com a Europa
    Ciberataques
    Sem acordo
    EUA acusam Rússia por série de ataques em 2016 e 2020Vai fazer a acusação e ameaçar medidas retaliatóriasNega a acusação, que chama de paranoia ocidental
    Sanções
    Sem acordo
    Desde 2014 EUA e Europa aplicam sanções econômicasDesde que assumiu, manteve e ampliou as medidasCritica sanções como atos de agressão internacional
    Vacinação
    Sem avanço
    Países competem na geopolítica do imunizanteQuer distribuir de graça 500 mi de doses em um anoQuer ver a Sputnik V aprovada na Europa
    Energia
    Avanço difícil
    Putin está completando um novo gasoduto com a AlemanhaAplica sanções à obra, que amplia dependência europeiaVê obra como fato consumado e conta com pragmatismo
    Síria
    Pode haver avanço
    Guerra civil tem seu fim travado devido a impassesSem cartas, pode bancar paz nos termos do KremlinPode rifar ditador Assad em troca de seguir no país
    Armas nucleares
    Deve haver avanço
    Países precisam renegociar acordo de limitaçãoAceitou termos de Putin e deve seguir em frenteEstá satisfeito, mas não quer incluir novos mísseis
    Embaixadas
    Deve haver avanço
    Embaixadores foram retirados e há restrições de movimentoDeve aceitar uma retomada da normalidadeDeve aceitar uma retomada da normalidade

    Biden chegou nesta terça (15) a Genebra, onde se encontrou com autoridades suíças. Disse que “sempre estou pronto”, ao ser questionado sobre a beligerância previsível na reunião.

    Na véspera, ele havia dito que não buscava um conflito com a Rússia, mas que o país precisa ser responsabilizado por ações agressivas. Ele falava em Bruxelas, onde se encontrou com a cúpula da Otan, a aliança militar ocidental demonizada por Putin.

    O comunicado final do encontro, que incluiu pela primeira vez a China como uma preocupação estratégica do clube, manteve Moscou como a principal ameaça à segurança dos Estados-membros.

    Tanques ucranianos fazem manobras perto de Donetsk
    Tanques ucranianos fazem manobras perto de Donetsk Forças Armadas da Ucrânia – 14.abr.2021/Via Reuters

    Putin deverá chegar pela manhã, e o encontro começará às 13h (8h em Brasília) no histórico palacete Villa La Grange, no parque homônimo, quase em frente ao famoso jato d’água do lago Genebra e não muito distante da Villa Diodati, palco da famosa competição etílico-literária patrocinada pelo lorde Byron em 1818, da qual nasceu o “Frankenstein” de Mary Shelley.

    A segurança envolve quase 4.000 policiais e militares, e o formato da cúpula reflete o clima entre os dois presidentes, o pior desde a Guerra Fria entre Moscou e Washington.

    Não haverá almoço, e as conversas vão durar de quatro a cinco horas, presenciadas na maior parte do tempo pelo secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, e pelo chanceler russo, Serguei Lavrov, assessorados pela tropa usual de intérpretes.

    Ambos os líderes serão recebidos pelo presidente suíço, Guy Parmelin, que irá deixá-los na biblioteca do palacete.

    Será a trigésima reunião entre ocupantes da Casa Branca e do Kremlin desde que os países tomaram rumos rivais ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, após terem lutado juntos contra o Eixo.

    O encontro mais recente foi em outro país com fama de neutro, a Finlândia, em 2018. Nele, Trump impressionou negativamente os EUA ao aceitar a negativa de Putin de que teria havido influência de hackers russos na eleição americana de 2016 —em favor do republicano.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/06/armas-nucleares-podem-ser-salvacao-da-cupula-entre-biden-e-putin.shtml

    Questões

    1 Por que a Cidade de Genebra é constantemente usada como palco para costurar acordos de limitação de armas nucleares?

    2 Por que Beatrice Fihn recebeu o Premio Nobel da Paz de 2017?

    3 Embora lutarem juntos na 2 Guerra Mundial, Russos e Americanos se tornaram rivais logo após o seu término. Por quê?

    4 Explique a posição de americanos e russo em relação a questão da Ucrânia.

    5 O que é o Novo Start?

    Prof Luciano Mannarino

  • O estranho comportamento do núcleo da Terra que intriga os cientistas

    O estranho comportamento do núcleo da Terra que intriga os cientistas

    Por razões desconhecidas, o núcleo interno do nosso planeta, uma massa compacta de ferro e níquel, está crescendo mais rápido de um lado que do outro

    15.jun.2021 às 15h30

    BBC NEWS BRASIL

    A milhares de quilômetros abaixo da terra, está ocorrendo um fenômeno científico que ninguém sabe explicar.

    É que o núcleo interno do nosso planeta, uma massa compacta de ferro e níquel, está crescendo mais rápido de um lado que do outro.

    Um estudo realizado por sismólogos da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos, e publicado na revista científica Nature Geoscience, revelou que a área do núcleo, localizada numa zona abaixo do mar de Banda, na Indonésia, é maior que a parte que se encontra no outro extremo, debaixo do Brasil.

    Terra é formada por várias camadas, como uma cebola
    Terra é formada por várias camadas, como uma cebola – Science Photo Library

    Por meio de simulações de computador, os especialistas criaram uma espécie de mapa que mostra o crescimento do núcleo da Terra durante os últimos 1 bilhão de anos.

    E chegaram à conclusão que ele se comportou num “padrão desequilibrado”, com novos “cristais de ferro” que se formam mais rapidamente do seu lado asiático.

    “O lado oeste tem aparência diferente do lado leste até o centro, não só na parte superior do núcleo interno, como alguns sugeriram. A única maneira de explicar isso é que um lado esteja crescendo mais rápido que o outro”, disse Daniel Frost, um dos cientistas que participaram da pesquisa, em um comunicado.

    De acordo com os especialistas, esse fenômeno tem implicações para o campo magnético da Terra (que nos protege das partículas perigosas do Sol).

    Isso porque o campo magnético é formado pela convecção no núcleo externo, impulsionada pela liberação de calor do núcleo interno.

    AS EVIDÊNCIAS

    O interior da Terra é formado por camadas parecidas com as de uma cebola. A última delas (a mais profunda) é o núcleo interno sólido de ferro e níquel, que tem um raio de 1.200 km, aproximadamente três quartos do tamanho da Lua.

    Ele é rodeado por um núcleo externo fluido de ferro fundido e níquel, de aproximadamente 2.400 km de espessura. O núcleo externo, por sua vez, é circundado por um manto de rocha quente com 2.900 km de espessura e coberto por uma fina crosta rochosa fria na superfície.

    Por meio do estudo de ondas sísmicas, os especialistas analisam como se comportam essas camadas, mas faz anos que têm notado que as ondas não se distribuem na mesma direção quando viajam entre os polos e na zona equatorial.

    Essa suposição foi a base para a compreensão de que poderia haver uma certa diferença no núcleo da Terra, responsável por esse fenômeno.

    “O movimento do ferro líquido no núcleo externo retira o calor do núcleo interno, fazendo com que ele congele”, disse Frost na revista científica Live Science.

    “Isso significa que o núcleo externo tem recebido mais calor do lado leste [sob a Indonésia] do que do oeste [sob o Brasil]”, acrescentou.

    Segundo o cientista, a melhor forma de visualizar o que está acontecendo a milhares de quilômetros de profundidade é imaginar um corte do tronco da árvore formado por anéis de crescimento que partem de um ponto central.

    O centro dos anéis, neste caso, seria deslocado do centro da árvore, de modo que os círculos fiquem mais espaçados no lado leste da árvore e mais próximos no lado oeste.

    No entanto, este crescimento mais rápido sob o mar da Indonésia não deixou o núcleo desequilibrado, explicam os cientistas.

    A gravidade distribui o novo crescimento uniformemente, mantendo o núcleo interno esférico e expandindo seu raio em média um milímetro por ano.

    A IDADE DO NÚCLEO

    As simulações por computador permitiram também aos sismólogos estabelecer uma data mais precisa para a formação do núcleo terrestre.

    E sabe-se que o núcleo se formou quando a Terra já havia se organizado, aparentemente a partir da concentração de metais como ferro e níquel.

    “Determinamos limites bastante flexíveis para a idade do núcleo interno, entre 500 e 1,5 bilhão de anos, o que pode ajudar no debate sobre como o campo magnético foi gerado antes que o núcleo interno sólido existisse”, disse Barbara Romanowicz, outra pesquisadora que participou do estudo.

    “Sabemos que o campo magnético já existia 3 bilhões de anos atrás, então outros processos devem ter conduzido a convecção no núcleo externo naquela época”, acrescentou.

    De acordo com a pesquisa, a idade mais jovem do núcleo interno pode significar que, no início da história da Terra, o calor que fervia o núcleo do fluido vinha de elementos leves que se separaram do ferro, não da cristalização deste metal.

    https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2021/06/o-estranho-comportamento-do-nucleo-da-terra-que-intriga-os-cientistas.shtml

    Questões

    1 Caracterize cada uma das principais camadas do interior do nosso planeta.

    2 De que forma os cientistas analisam o comportamento das camadas internas do nosso planeta?

    3 Explique a formação do campo magnético do nosso planeta e destaque sua importância.

    CAMADAS DA TERRA E ESCALA GEOLÓGICA DO TEMPO (vídeo e atividades)

    Prof Luciano Mannarino

  • Planícies associadas às florestas de mangue retiram carbono da atmosfera

    Ambiente estuarino descampado armazena nutrientes e ajuda no combate ao efeito estufa

    Léo Ramos Chaves

    Gilberto Stam

    Quem observa a floresta de mangue em um passeio de barco talvez saiba que o ecossistema é um berçário da vida aquática. Menos conhecida é a paisagem que às vezes se segue, dezenas de metros adiante, onde a floresta vicejante dá lugar a um campo aberto de chão rachado, como o do sertão, em períodos mais secos. Entre poucas plantas rasteiras, ainda mais esparsos são arbustos resistentes à alta salinidade da água do solo ‒ até cinco vezes maior que a do mar, excessivo até para as árvores do manguezal. Mesmo adaptadas ao sal, ali elas não vingam ou desenvolvem porte anão. Chamada de planície hipersalina pelos ecólogos e salgado ou apicum (brejo de água salgada, em tupi-guarani) pelos moradores locais, essa face pouco conhecida do manguezal absorve no solo quantidade significativa de gás carbônico da atmosfera e o estoca sob a forma de biomassa, segundo estudo publicado na revista Biogeosciences em abril.

    Quando não está alagado, o solo do apicum, impregnado de sal, frequentemente aparece rachado como em zonas áridas

    “O solo não é morto, mas revestido por um tapete vivo denominado microfitobentos, composto de algas, fungos, bactérias, pequenos insetos e crustáceos”, diz o ecólogo Humberto Marotta, da Universidade Federal Fluminense (UFF), coordenador do Laboratório de Ecossistemas e Mudanças Globais (LEMG-UFF) e da Unidade Multiusuário de Gases de Efeito Estufa e Combustíveis Voláteis (GAS-UFF), em Niterói, Rio de Janeiro, um dos autores do artigo. São as cianobactérias, também chamadas de algas azuis, as responsáveis pela maior parte da absorção de carbono. Trata-se de microrganismos fotossintetizantes que, como as plantas, produzem seu próprio alimento a partir do gás carbônico que absorvem e da energia do sol.

    “Parte do microfitobentos que morre permanece no solo, preservado pelo sal”, explica o oceanógrafo Christian Sanders, da Universidade de Southern Cross, na Austrália, e coordenador do trabalho que contou com pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos. Conforme as marés trazem mais sedimentos, o solo cresce em camadas, por volta de 1 ou 2 milímetros ao ano, enterrando microrganismos repletos de carbono que podem ficar lá por séculos

    Estudando as camadas do solo, os pesquisadores verificaram que nos últimos 100 anos o apicum da Reserva Biológica Estadual de Guaratiba, às margens da baía de Sepetiba, na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, absorveu cerca de 21 gramas de carbono por ano, ou 1 quilograma de carbono a cada 50 anos, por metro quadrado. Usando aparelhos que medem a quantidade de carbono que entra e sai do solo, eles verificaram que o elemento químico era mais absorvido do que eliminado nos sedimentos, confirmando que o solo salgado absorve o principal gás do efeito estufa como uma esponja.


    “As planícies hipersalinas não absorveram tanto carbono quanto as florestas do mangue, recordistas nessa modalidade, mas podem ser até mais extensas em determinadas áreas, o que torna relevante a absorção total”, diz Sanders. Os pesquisadores defendem que essas planícies sejam consideradas um componente do sistema de carbono azul, ou seja, um dos ecossistemas costeiros capazes de sequestrar carbono e atenuar as mudanças climáticas.

    “O manguezal como um todo, incluindo o apicum, guarda carbono nos troncos, nas folhas, nas raízes e no solo. O total pode chegar a quatro vezes mais do que nas florestas terrestres, como a amazônica, por unidade de área”, calcula o oceanógrafo Mário Soares, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenador do Núcleo de Estudos em Manguezais (Nema), outro coautor do artigo da Biogeosciences. Nas florestas terrestres, quando os seres vivos morrem e são decompostos, a maior parte do carbono na base de suas moléculas orgânicas volta ao ar na forma de gás carbônico.

    Os apicuns ocorrem em locais onde há um desnível do terreno nas regiões tropicais e subtropicais de todo o globo. Ao contrário do solo lodoso da floresta, submerso todos os dias, a maré só chega até a planície hipersalina duas vezes por mês – quando a lua cheia ou minguante e o sol, alinhados à Terra, somam suas forças gravitacionais para produzir a chamada maré viva, mais alta que as demais. A água empoça no terreno plano e evapora, acumulando sal. “Variações frequentes entre condições submersas ou expostas do apicum devido aos regimes de chuva e à maré podem representar mudanças pronunciadas na apreensão de carbono pela atividade fotossintetizante do microfitobentos ao longo do ano”, comenta a ecóloga Roberta Peixoto, pesquisadora em estágio de pós-doutorado no grupo de Marotta.

    No Brasil, os apicuns ocorrem principalmente desde o Rio de Janeiro até o Oiapoque, no Amapá, extremo norte do país, sendo mais comuns e amplos no Nordeste, onde a estação seca bem demarcada faz a água da maré evaporar mais rapidamente e o terreno plano é extenso. Em São Paulo não há apicuns, porque a serra do Mar deixa pouco espaço para essas formações e o clima mais chuvoso não favorece sua existência.

    Avicennia schaueriana, a mais tolerante à salinidade entre as espécies de mangue, mantém estatura anã na planície hipersalina, e a rasteira Sarcocornia ambigua é comum nesse ambienteLéo Ramos Chaves

    Múltiplas funções
    Além de ser uma máquina de enterrar carbono, a planície hipersalina também absorve nutrientes importantes para as plantas, como nitrogênio e fósforo. Quando a maré lava as planícies salgadas, borbulha do solo uma espuma de cianobactérias mortas, rica em nutrientes, que escorre para a floresta e enriquece o solo lodoso do manguezal.

    Por ficar normalmente entre a floresta de mangue e o sistema terrestre, o apicum serve de passagem para animais, como a onça. “Por ali passam também aves migratórias, que se alimentam de microcrustáceos, moluscos e peixes jovens que vivem nas poças d’agua. Há, ainda, caranguejos e mamíferos, como guaxinins, gatos e cachorros-do-mato”, relata Soares. O pesquisador encontrou pegadas de onça no apicum de Guaratiba e prepara, com outros pesquisadores, um artigo sobre a ocorrência do animal no local.

    Quando começou a estudar os manguezais de Guaratiba, no início da década de 1990, Soares e sua equipe se intrigaram com a paisagem aparentemente inóspita, em uma época na qual a criação de camarão, ou carcinicultura, começava a florescer nas planícies hipersalinas do Nordeste, perfeitas por serem planas e próximas da água salgada. “Precisamos entender esse ambiente antes que seja destruído”, ponderaram na época.

    Cianobactérias que vivem no solo são importantes no armazenamento de carbonoLuiz Bento / Unicamp

    Conflitos salgados
    Ao contrário da floresta de mangue, o apicum não foi considerado uma área de proteção ambiental pelo Código Florestal de 2012, o que facilitou a sua exploração. Embora a carcinicultura seja uma indústria lucrativa, um estudo do zoólogo Andrew Balmford, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, publicado na revista Science em 2002, estimou que o manguezal preservado gera 70% mais recursos do que o camarão, que polui o ambiente e prejudica as florestas. “Os recursos do manguezal são distribuídos em diversas atividades, como extrativismo, pesca e turismo, enquanto na carcinicultura o dono do negócio ganha e o ambiente sofre”, diz Soares.

    “Para as populações locais, o ecossistema manguezal é uma fonte de renda e de segurança alimentar contra a fome e a miséria em tempos de crise, uma verdadeira previdência social da natureza”, observa a antropóloga Cecília Mello, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “É também uma fonte de moradia, pois até as casas são construídas com tijolos de barro do mangue e erguidas nas suas proximidades.”

    Mello fez uma etnografia dos conflitos entre populações locais da cidade de Caravelas, na Bahia, e empreendedores interessados em desenvolver a carcinicultura na região, publicada em 2016 na Revista de Antropologia. Os pescadores locais resistiram e lideraram a formação da Reserva Extrativista do Cassurubá, implementada em junho de 2009, com o apoio de universidades públicas e organizações não governamentais (ONGs). “Os aquicultores procuram seduzir os moradores locais oferecendo emprego, mas eles só são necessários na construção das piscinas; a criação de camarão é pouco intensiva em mão de obra”, conta a antropóloga.

    Criação de camarão em Canguaretama, no Rio Grande do NorteClemente Coelho Junior / UPE

    A pesquisadora relata que em Curral Velho, comunidade pesqueira em Acaraú, no Ceará, a comunidade local adaptou todo o calendário escolar de acordo com as atividades de pesca. “Os filhos podiam aprender a pescar com os pais e quando a família estava toda no mangue não tinham aula. Em outros períodos as aulas eram mais intensivas”, conta Mello. Além da pesca, a captura de crustáceos, como caranguejos, e moluscos reforça a renda das marisqueiras, via de regra mulheres que aportam com seu trabalho a renda principal da unidade familiar.

    Embora o artigo da Biogeosciences se apoie no mercado de carbono para mostrar a importância do apicum, os pesquisadores ressaltam que o estoque do elemento é apenas uma entre muitas funções daquele ambiente. “A função social é tão ou mais importante. Precisamos mudar o paradigma mercantil, que é a causa da degradação ambiental, e reduzir as emissões”, argumenta Soares. Mello concorda: “A importância do ecossistema é incomensurável e não entra nos dados do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], nem nas estimativas do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas]. O manguezal não é apenas um ativo que presta serviços ambientais: ele é a casa, a feira, o emprego e a previdência de pescadores e marisqueiras de toda a costa brasileira”.

    Fonte: revistapesquisa.fapesp.br

    Prof Luciano Mannarino

  • Camisa da Ucrânia para a Eurocopa causa irritação na Rússia

    Camisa da Ucrânia para a Eurocopa causa irritação na Rússia

    Luís Curro

    Duas repúblicas que pertenciam à finada URSS (1922-1991), Ucrânia e Rússia ampliaram as tensões geopolíticas entre elas por uma razão futebolística.

    Às vésperas da Eurocopa, mais importante competição da Europa entre seleções, que começa nesta sexta (11) –com um ano de atraso devido à pandemia de Covid–, a Ucrânia apresentou o uniforme com que irá a campo.

    O atacante Roman Yarenchuk usa camisa que tem o mapa da Ucrânia incluindo a península da Crimeia, na parte inferior à direita (Gleb Garanich – 7.jun.2021/Reuters)

    Na cor da camisa, nenhuma novidade: o tradicional amarelo, que lembra na tonalidade mais a vestimenta da Suécia do que a do Brasil.

    Porém um detalhe no design deixou os russos indignados e/ou irritados. No centro da parte da frente da camisa, em torno do escudo da federação do país, há o mapa da Ucrânia.

    E esse mapa inclui a Crimeia, província no território ucraniano, na parte meridional, que foi anexada em 2014 pela Rússia, cujas tropas militares ocupavam a região.

    Origem
A Crimeia sediava colônias gregas. Em 988, o príncipe Vladimir converteu-se ao cristianismo onde hoje fica Sebastopol. Ele liderava o Rus de Kiev, primeira terra dos rus, povo nórdico que deu origem a russos e a ucranianos. No século 13, mongóis da Horda de Ouro dominaram a costa do mar Negro, estabelecendo o canato da Crimeia –lar dos tártaros muçulmanos. Com o tempo, tornaram-se vassalos do Império Otomano

    Origem A Crimeia sediava colônias gregas. Em 988, o príncipe Vladimir converteu-se ao cristianismo onde hoje fica Sebastopol. Ele liderava o Rus de Kiev, primeira terra dos rus, povo nórdico que deu origem a russos e a ucranianos. No século 13, mongóis da Horda de Ouro dominaram a costa do mar Negro, estabelecendo o canato da Crimeia –lar dos tártaros muçulmanos. Com o tempo, tornaram-se vassalos do Império Otomano

    https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/1628128405358288-fronteiras-da-crimeia#foto-1697229316953433

    O governo ucraniano, entretanto, jamais concordou com o ocorrido, e a ONU (Organização das Nações Unidas) concorda, pois considera o referendo legal por ter descumprido resolução constante da Assembleia Geral da entidade.

    Desse modo, a maior parte da comunidade internacional considera a Crimeia um território ucraniano sob ocupação do regime de Vladimir Putin.

    Nesse contexto, o lançamento da camisa da seleção da Ucrânia contendo a Crimeia gerou enorme animosidade com o Kremlin.

    Quem a apresentou, no domingo (6), foi o presidente da Federação Ucraniana de Futebol, Andrii Pavelko.

    Em rede social, o presidente da Federação Ucraniana de Futebol publicou mapa da Ucrânia ilustrado com jogadores da seleção e contendo o espaço reservado à Crimeia (Andrii Pavelko no Facebook)

    “Acreditamos que o mapa da Ucrânia dará força aos jogadores, que irão lutar por toda a Ucrânia”, disse o dirigente em rede social. “Toda a Ucrânia, de Sebastopol e Simferopol a Kiev [capital do país], de Donetsk e Luhansk a Uzhhorod, os apoiará.”

    Das seis cidades citadas por Pavelko, duas localizam-se na Crimeia: Sebastopol e Simferopol, que é a capital da península.

    O deputado russo Dmitri Svishchev considerou, segundo a agência russa de notícias Ria, o desenho na camisa uma “provocação política”, acrescentando ser ilegal mostrar um mapa da Ucrânia “que inclui o território russo”.

    Maria Zakharova, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, indo além do descontentamento com o mapa, mencionou, nas redes sociais, os dois slogans que constam no uniforme (“Glória à Ucrânia!” e “Glória aos heróis!”). De acordo com ela, eles ecoam grito de guerra da Alemanha nazista.

    Submarinos da Frota do Mar Negro da Marinha russa em docas na baía de Sebastopol, na Crimeia
    Submarinos da Frota do Mar Negro da Marinha russa em docas na baía de Sebastopol, na Crimeia Igor Gielow – 15.abr.2019 /Folhapress

    Nesse cenário de tensão, menos mal que os rivais não se encontrarão tão logo na Euro. Caso avancem em suas chaves, a primeira chance de duelo é nas quartas de final.

    A Rússia está no Grupo B, ao lado de Bélgica, Dinamarca e Finlândia, e a Ucrânia, no C, junto com Áustria, Holanda e Macedônia do Norte.

    Os russos estreiam no sábado (12), contra os belgas, em São Petersburgo. Os ucranianos jogam um dia depois, em Amsterdã, diante dos holandeses

    Questões

    1 Por que a camisa da Seleção de Futebol da Ucrânia contribui para o aumento da tensão entre russos e ucranianos?

    2 Quando começou a animosidades entre esses dois Países?

    3.Qual a importância geopolítica que a região em disputa tem para a Rússia?

    4.As fronteiras de um Estado não são exatamente as fronteiras de uma nação? Justifique.

    Prof Luciano Mannarino

  • Bacia do Paraná já sente efeitos da seca sobre agronegócio e geração de energia

    Bacia do Paraná já sente efeitos da seca sobre agronegócio e geração de energia

    Disputa com setor elétrico pode parar hidrovia e acentuar conflitos com usuários da água para produção de alimentos

    6.jun.2021 às 23h15Atualizado: 7.jun.2021 às 9h26

    Nicola Pamplona Eduardo Anizelli

    TURAMA (MG), APARECIDA DO TABOADO (MS) e ILHA SOLTEIRA (SP)

    De pé sobre a terra avermelhada que um dia foi o lago da hidrelétrica Água Vermelha, na divisa de São Paulo com Minas Gerais, o aposentado José Carlos Jesus, 57, dá a dimensão da crise: “Aqui onde nós estamos nem dá pé quando o reservatório está cheio”.

    Cerca de cem metros o separam de seu rancho, onde ele vive hoje “escondido da pandemia”. A casa simples foi construída à beira da represa, mas o lago agora começa bem mais abaixo, o que o obrigou a esticar uma mangueira de 250 metros para captar água.

    Com apenas 7,7% de sua capacidade de armazenamento de energia, o reservatório da usina de Água Vermelha é um retrato da crise hídrica que assusta o país e vem levando o governo a anunciar medidas emergenciais para tentar evitar o racionamento de energia.

    Baixo nível do reservatório deixa à mostra antiga estrada submersa pela hidrelétrica Água Vermelha, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Folhapress

    Em um de seus braços, o ribeirão Pádua Diniz, em Indiaporã (SP), a água desceu tanto que deixou à mostra a velha estrada de terra alagada há mais de 40 anos, quando o reservatório foi criado. Resta apenas uma pequena lagoa, formada pelas poucas chuvas do verão, embaixo da ponte da estrada nova.

    “Já vim aqui de barco e, só ali embaixo da ponte, pegamos mais de 100 corvinas”, relembra a funcionária pública Aparecida Batista dos Reis, 53, enquanto tentava pescar no que restou do ribeirão na tarde de quarta (2).

    A situação é mais preocupante pela manutenção dos baixos níveis mesmo após o fim do chamado período chuvoso, quando os reservatórios deveriam estar cheios de água para garantir a travessia do inverno mais seco.

    E traz de volta o fantasma de 2015, quando a seca foi tão severa que o tráfego na hidrovia Tietê-Paraná teve que ser interrompido por falta de calado para a passagem dos comboios que levam grãos do Centro-Oeste para São Paulo.

    “Nem em 2015 o rio esteve assim”, reclama o empresário Jonzelito Luiz Pereira, 59, dono de uma fazenda e de uma pousada ao lado da barragem, em Iturama (MG). “Os poços [de água subterrânea] já estão secando. Era para começar a secar em outubro.”

    Água Vermelha é a última das 12 hidrelétricas do rio Grande, que nasce na serra da Mantiqueira e forma o rio Paraná após se juntar com o rio Paranaíba, na divisa entre São Paulo e Mato Grosso do Sul.

    Juntos, os três rios são responsáveis por dois terços da capacidade de armazenamento de energia do subsistema energético Sudeste/Centro-Oeste, considerado a principal caixa-d’água do setor elétrico brasileiro por concentrar represas de usinas importantes.

    Assim, a região está no foco do esforço do governo para tentar evitar o racionamento. Na semana passada, a ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento) declarou emergência hídrica na bacia, abrindo a porta para medidas mais drásticas, como limitar a captação de água nos rios.

    A abundância de água faz da região um importante polo do agronegócio, com fazendas de gado e cana-de-açúcar se estendendo até onde a vista alcança, e uma forte produção piscicultora, apontada como segunda maior criadoura de tilápias do Brasil.

    A seca já vem produzindo estragos na atividade local, com o atraso na colheita de cana e a piora nas condições dos pastos. Os produtores temem que a disputa com o setor elétrico inviabilize os negócios, o que deve acirrar conflitos pelo uso da água nos próximos meses.

    “Se eu tiver que parar de irrigar, perco toda a produção”, diz Edvaldo Costa Mello, proprietário da Fazenda Costa Mello, produtora de cítricos que tem uma área de plantio de limões logo abaixo da barragem de Água Vermelha.

    A sua propriedade fica às margens do rio Grande, mas já no reservatório da hidrelétrica Ilha Solteira, no rio Paraná. É a maior hidrelétrica da caixa-d’água, com capacidade para produzir 3.444 MW, e seu lago se estende para os dois rios que formam o Paraná.

    O reservatório é usado pela hidrovia Tietê-Paraná. Por isso, há um esforço contínuo para manter um volume de água suficiente para permitir a passagem dos comboios, que dependem de uma cota mínima de 325 metros acima do nível do mar, volume observado hoje.

    Mesmo assim, o gigantesco lago de 1.200 quilômetros quadrados (quase o tamanho da cidade de São Paulo) está agora com menos da metade de sua capacidade de armazenamento. Já é possível encontrar grandes áreas secas em alguns de seus braços, como o córrego do Cigano, em Três Fronteiras (SP).

    O presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Paranaíba, Breno Esteves Lasmar, defende que a importância da região para a economia e a possibilidade de paralisação da hidrovia devem ser consideradas na gestão dos reservatórios. “[A redução do nível] vai ter impacto muito grande sobre toda a economia nacional.”

    O impacto local sobre a geração de emprego e renda também pode ser considerável, diz Fernando Carmo, assistente agropecuário da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável da Secretaria de Agricultura de São Paulo.

    O governo estadual calcula que a piscicultura no entorno do lago de Ilha Solteira gere cerca de 5.000 empregos diretos e indiretos. A hidrovia seria responsável por outros três mil empregos, que ficaram suspensos durante a paralisação de 2015.

    A crise hídrica pega os produtores locais já enfrentando aumento de custos pela escalada nas cotações internacionais das commodities, já que rações são baseadas em soja e milho. Pereira, de Iturama, decidiu vender metade das 120 cabeças de gado que tinha para economizar na ração.

    “Há um complicador na manutenção dos pastos para o gado”, diz o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Aparecida do Taboado (MS), Eduardo Sanchez. “A planta sofre estresse hídrico, tem que fazer um trabalho mais custoso, de tratar o gado no coxo.”

    Na piscicultura, que chegou a fechar 40% das unidades na crise de 2015, os custos elevados podem inviabilizar investimentos para adaptação a níveis mais baixos do lago, diz Carmo. “O custo da ração está altíssimo, e muita gente pode parar de produzir por não ter como investir para deslocar os tanques.”

    “Se baixar mais, vai dar problema”, confirma Akemi More, da Piscicultura More, uma pequena empresa familiar que produz em espelho-d’água cedido pela União no rio Paranaíba. “O rio já está como se fosse na seca”, reforça seu irmão e sócio Sandro More. Com a crise, venderam na semana passada 15 dos 93 tanques que tinham.

    Nível de água baixo no lago da hidrelétrica Água Vermelha, em Iturama, interior do estado de Minas Gerais.
    Nível de água baixo no lago da hidrelétrica Água Vermelha, em Iturama, interior do estado de Minas Gerais. Eduardo Anizelli/Folhapress

    Os produtores locais confiam na manutenção da cota mínima para garantir o tráfego na hidrovia, mas na semana passada o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) divulgou relatório considerando a flexibilização para 319 metros em junho para reforçar a recuperação dos reservatórios.

    O operador quer reduzir as vazões obrigatórias nas hidrelétricas das partes altas dos rios Grande e Paranaíba para segurar água nos reservatórios de cabeceira. A energia gerada pelas vazões mínimas pode ser substituída agora por usinas eólicas no Nordeste, que está em plena estação de ventos.

    Em 2014, a redução da cota do reservatório de Ilha Solteira se transformou em uma guerra judicial, que culminou com a suspensão da geração de energia na hidrelétrica após liminar concedida a associações de piscicultores da região.

    Hoje, os produtores confiam que a proximidade do setor com o governo federal pode ajudar a evitar maiores impactos, diz Assis Henrique, diretor administrativo da Global Peixes, que produz tilápias e tem uma unidade de reprodução em tanques em diferentes pontos do lago.

    Especialistas no setor elétrico dizem entender a preocupação com a economia local, mas afirmam que os bilionários custos da crise energética que encarecem a conta de todos os brasileiros são relevantes no debate sobre a gestão das águas.

    A expectativa é que o brasileiro passe 2021 pagando taxa extra para bancar as usinas térmicas, que pressionarão também os reajustes das tarifas das distribuidoras ao longo dos próximos anos. Um racionamento de energia, no momento, é considerado improvável.

    É consenso entre os especialistas que a crise é estrutural e precisa de soluções de longo prazo. “São questões como mudança da ocupação do solo, mudança climática, aspectos de desenvolvimento econômico que levam à supressão de vegetação”, diz Lasmar. “Onde não há floresta, não há água.”

    Segundo o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), a bacia do rio Paraná vem enfrentando chuvas abaixo da média há 22 anos e a situação se agravou a partir de fevereiro de 2019, quando recebeu os piores volumes desde o início dos anos 1980.

    “Em termos de vazão, pode-se concluir que a porção alta da bacia do rio Paraná enfrenta uma situação que pode ser classificada como severa e excepcional desde 2014” diz.

    Roberto Kishinami, coordenador sênior do Instituto Clima e Sociedade, defende que o agronegócio da região deve buscar tecnologias mais eficientes de irrigação, como o gotejamento usado no Centro-Oeste. “Aqui [em São Paulo] se usa muito pivô central, que é como jogar água de mangueira.”

    No Brasil, em média, 50% da água captada nos rios brasileiros é usada para irrigação, diz a ANA. Um aumento na tarifa de captação de água, que é regulada pelos estados, poderia levar à busca por maior eficiência, considera Kishinami.

    O ex-presidente do ONS Luiz Eduardo Barata lembra que, a cada crise hídrica, autoridades falam em recuperação de mananciais e matas ciliares, as florestas às margens dos rios, mas as propostas raramente vão adiante.

    Ele defende mudanças no modelo do setor elétrico para permitir a contratação de mais energias renováveis, como solar e eólica, para garantir a recuperação dos reservatórios a seus níveis máximos, o que não ocorre há muito tempo —a última vez em que eles superaram os 80% de capacidade foi em abril de 2011.

    “Hoje, estamos enchendo o tanque até a metade e rodando até cair na reserva”, compara. “Mas seria melhor andar de tanque cheio e abastecer quando chega na metade. O custo é o mesmo e o risco, menor.”

    https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/06/bacia-do-parana-ja-sente-efeitos-da-seca-sobre-agronegocio-e-geracao-de-energia.shtml

    Questões

    1 Em que contexto político foi criado a ANA e quais são suas funções?

    2 Qual a importância das matas ciliares para a manutenção da vazão de um rio?

    3 Aponte os diversos usos de um rio presentes no texto jornalístico.

    4 Por que a Bacia do Rio Paraná apresenta um grande potencial instalado na produção de energia hidrelétrica?

    5 Explique como se obtém energia elétrica a partir de um rio.

    6 Quais são os impactos socio-ambientais ligados a produção de energia hidrelétrica.

    7 O que é uma Bacia Hidrográfica?

    Prof Luciano Mannarino