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  • Colonialismo tardio e dados imprecisos aprofundam diferenças entre países lusófonos (EM13CHS204/603)

    30.set.2021 às 4h00Atualizado: 2.out.2021 às 9h30

    GUARULHOS

    Nove pontos no mapa-múndi, distribuídos em quatro continentes, marcam hoje aquilo que é conhecido como a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

    A língua –ora tida como a quinta mais falada do mundo, ora como a sétima– é partilhada por um contingente aproximado de 260 milhões a 280 milhões de pessoas, número que deve dobrar até o final do século 21, se consideradas as projeções demográficas das Nações Unidas para a África, onde estão seis dos países lusófonos.

    Mais de cinco séculos após a expansão ultramarina de Portugal levar às ex-colônias o português, e muitas vezes impô-lo à força, essas nações compartilham a língua, alguns costumes e parte de suas histórias —mas estão longe de ser uma massa homogênea.

    Monumento aos Descobrimentos, referência às grandes navegações portuguesas, localizado em Lisboa, capital de Portugal, país que colonizou as demais nações que hoje compõem a comunidade lusófona
    Monumento aos Descobrimentos, referência às grandes navegações portuguesas, localizado em Lisboa, capital de Portugal, país que colonizou as Lalo de Almeida – 7.nov.17/FolhapressMAIS 

    Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste situam-se de maneira bem diferente nos índices internacionais que comparam áreas como economia, desenvolvimento humano e democracia. Há uma receita para ler essas diferenças, que envolve conhecimento sobre as características locais e pitadas de contexto histórico.

    Folha conversou com dois especialistas em lusofonia para saber quais fatores devem ser levados em conta na hora de analisar a radiografia dos países de língua portuguesa.

    Professor de economia da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, e ex-secretário-executivo da Comissão Econômica da ONU para a África, o guineense Carlos Lopes explica que o colonialismo tardio é um dos principais fatores que levaram os lusófonos a se desenvolverem de forma tão diferente.

    Enquanto o Brasil se tornou independente em 1822, os países de língua portuguesa localizados na África conquistaram sua independência mais de um século depois, na década de 1970. A independência tardia, afirma Lopes, teve dois efeitos principais.

    Com uma economia estruturada na dependência de matérias-primas, essas nações demoraram a iniciar o processo de industrialização, modernização econômica e diminuição da informalidade. “O colonialismo tardio traz com ele uma longa caminhada para chegar à transformação estrutural.”

    A conquista da independência em meio ao contexto da Guerra Fria também fez com que as novas nações tivessem de se posicionar de algum lado da disputa geopolítica, o que imprimiu contornos bem específicos às relações internacionais dos países. Houve ainda um atraso na formação de quadros políticos, já que, em geral, os lusófonos africanos chegaram à independência com um restrito acesso ao ensino superior, o que desembocou em problemas de gestão pública.

    “As antigas colônias portuguesas na África foram os últimos territórios do continente a contar com um estabelecimento de ensino superior”, diz a historiadora Helena Wakim Moreno, mestre pela USP e professora do Centro Universitário Sumaré. “Em Angola e Moçambique, essas instituições só foram formadas em 1963.”

    A contextos gerais se soma o que Lopes classifica como fabricações locais. “Na maior parte dos países, houve uma gestão do dinheiro público concentrada na classe dominante e, portanto, criou-se uma elite que gosto de chamar de rentista —aquela que suga a renda fácil que vem das matérias-primas”, diz.

    O comparativo internacional da lusofonia também pede cautela para a análise dos dados de nações africanas. Segundo Lopes, parte considerável das estatísticas dessas nações apresenta problemas nos censos —com exceção do arquipélago de Cabo Verde. “Nesses países temos uma média de 60% da população que não tem documentos, e apenas 10% das terras têm algum registro formal.”

    A situação não é melhor na contabilidade nacional, que fornece informações para que se possa, por exemplo, comparar o PIB (Produto Interno Bruto) dos países. O economista explica que os lusófonos africanos têm poucas atualizações na metodologia que afere a situação financeira. Um exemplo é Guiné-Bissau, onde o ano-base de dados econômicos ainda é o de 2007.

    “A economia que esses Estados conhecem é a das transações internacionais, como matérias-primas, balanço de pagamentos e ajuda financeira. As outras, de que os governos não precisam para funcionar, são abstraídas”, diz. “Isso exacerba a desigualdade, porque há uma parte significativa da população que vive às margens do Estado moderno.”

    Com esses contornos históricos, emergiram também nações muito diferentes quando os temas são o desenvolvimento humano e as liberdades democráticas —algo que muitos dos lusófonos africanos, por exemplo, só foram vivenciar na década de 1990, quando tiveram início eleições multipartidárias.

    “Os Estados estiveram por muito tempo submetidos a uma legislação do Estado colonial português que colocava uma série de restrições à educação e à economia”, diz Moreno. “Os africanos não podiam ser donos de comércios, e o desenvolvimento econômico estava nas mãos da elite colonial estrangeira.”

    Lopes acrescenta que o contexto histórico-social fez com que fossem retardadas as condições para que uma democracia plena emergisse na maioria dos países de língua portuguesa. Com uma administração pública que reconhecia apenas uma pequena parcela da sociedade —em geral, os colonos— como cidadãos, o comportamento cívico e participativo demorou a chegar para grande parte da lusofonia.

    “Os Estados, após a independência, alargaram mal a cidadania, porque havia um hábito da administração colonial de tratar a maior parte das pessoas como sujeitos, não como cidadãos”, diz. “E então começa a emergir uma democracia fechada, para os letrados. Isso exacerbou a etnicidade, o tribalismo.”

    Por isso, ele critica os comparativos internacionais que não levam em conta o contexto africano. “Digo que devemos democratizar a África e africanizar a democracia. Ou seja, aceitar que há um determinado número de características próprias do continente que precisam ser levadas em conta.”

    A partir desse incômodo, o economista participou da formulação do Índice Ibrahim de Governança Africana, que mede anualmente a qualidade da administração em 54 países africanos.

    Do outro lado do Atlântico, o Brasil, também uma jovem democracia, não têm mostrado grandes êxitos nos comparativos internacionais. O país vem caindo desde a década passada no ranking que mede a democracia e também despenca, por quatro anos consecutivos, no ranking de liberdade de imprensa.

    Desde 1996, os nove países lusófonos, que já compartilham a língua e parte de suas histórias, passaram a integrar a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, uma cúpula internacional cuja articulação teve grande participação do brasileiro José Aparecido de Oliveira (1929-2007), ex-ministro da Cultura.

    Lopes critica o que chama de “excitações diplomáticas” na história da CPLP e parte de sua arquitetura institucional. Um dos principais problemas seria o fato de as lideranças bienais da comunidade serem eleitas por meio de rotatividade geográfica. “Isso condena a comunidade a ter sempre uma pessoa designada pelo país da vez, em vez de escolher o melhor, a pessoa mais representativa e capaz.”

    Por outro lado, tece elogios e reconhece feitos que a mobilização diplomática já alcançou. “Veja a quantidade de líderes mundiais que a comunidade consegue produzir”, diz, referindo-se ao português António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas pelo segundo mandato consecutivo, ao brasileiro José Graziano, ex-diretor-geral da FAO (agência da ONU para Alimentação e Agricultura), e a ele próprio, que atua na ONU e já liderou a Comissão Econômica das Nações Unidas para África —uma espécie de Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) africana.

    A historiadora Helena Wakim Moreno afirma que a CPLP tem muito a oferecer aos falantes de português, especialmente se ampliar as prioridades para além “da tônica economicista adotada nos últimos anos”. Assim, para ela, mais cooperações universitárias, de pesquisa e ensino seriam bem-vindas.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/09/colonialismo-tardio-e-dados-imprecisos-aprofundam-diferencas-entre-paises-lusofonos.shtml

    Habilidades do BNCC presentes no texto.

    EF08GE15 – Analisar o papel do processo de colonização na formação econômica, política, social e cultural dos diferentes territórios colonizados por Portugal.

    O texto aborda o impacto do colonialismo português, enfatizando as diferenças no desenvolvimento econômico e social dos países de língua portuguesa.

    EM13CHS601 – Analisar criticamente os processos de colonização e descolonização, levando em conta as diferentes trajetórias e seus impactos na organização sociopolítica, econômica e cultural das nações.

    O texto detalha como o colonialismo tardio influenciou a trajetória histórica dos países lusófonos, e como esses países lidaram com sua independência no contexto da Guerra Fria.

    EM13CHS202 – Analisar as desigualdades econômicas e sociais, considerando as influências dos processos históricos, políticos e culturais em diferentes contextos e épocas.

    O texto explora as desigualdades nos países lusófonos, relacionando-as com o colonialismo, a falta de estrutura educacional, e a concentração de poder econômico nas elites locais.

    EF09HI22 – Identificar e analisar processos históricos, dinâmicas políticas e econômicas e características culturais de países africanos, a partir da interação com outras sociedades e culturas.

    O texto fala sobre a independência tardia dos países africanos lusófonos, suas dificuldades econômicas, e os desafios enfrentados para consolidar democracias.

    EM13CHS504 – Analisar criticamente as interações entre os países e seus impactos econômicos, sociais, políticos e culturais em contextos de integração regional e internacional.

    O texto menciona a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e seus desafios em relação à representação e à liderança rotativa, e analisa os impactos da integração de países lusófonos.

    EM13CHS301 – Compreender as transformações nas relações de poder entre as nações, considerando as disputas hegemônicas e suas consequências para o desenvolvimento socioeconômico.

    O texto aborda o papel da Guerra Fria na posição dos países recém-independentes e as transformações políticas nas ex-colônias portuguesas.

    Atividade

    Como o colonialismo tardio afetou o desenvolvimento econômico e político dos países lusófonos na África, de acordo com o texto?

    Quais são as principais diferenças entre os países lusófonos, e como essas diferenças estão relacionadas ao contexto histórico de cada nação?

    De acordo com o texto, quais desafios específicos a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) enfrenta para se consolidar como um bloco internacional coeso?

    Qual é a crítica de Carlos Lopes sobre as estatísticas nos países lusófonos africanos, e quais são as implicações disso para a comparação internacional?

    Como o contexto histórico e social influenciou o atraso na democratização dos países lusófonos africanos?

    A partir do texto, como você interpreta a frase de Carlos Lopes: “devemos democratizar a África e africanizar a democracia”?

    Quais fatores históricos e sociais levaram à formação de uma elite rentista nos países lusófonos africanos, e quais são as consequências disso para a sociedade?

    Quais são as limitações apontadas no texto sobre a metodologia de cálculo do PIB em alguns países lusófonos africanos, como a Guiné-Bissau?

    De que maneira o texto sugere que o passado colonial dos países lusófonos ainda influencia suas políticas de desenvolvimento e cidadania atualmente?

    Como o Brasil se posiciona no cenário internacional em relação aos outros países lusófonos, conforme descrito no texto? Quais são seus principais desafios?

      Prof Luciano Mannarino

    1. UM MUNDO DE MUROS (EUA E MÉXICO)

      O SUL DA FRONTEIRA

      Expectativa e ressentimento atormentam quem fica para trás

      Sombra da barreira que começou a ser erguida nos anos 90 encobre debate migratório e preocupa quem a cruza; enrijecimento político já se faz sentir

      FABIANO MAISONNAVE E LALO DE ALMEIDA

       

      26.jun.2017 – 02h00

       

      O muro que Donald Trump prometeu construir na campanha ainda não saiu do papel. Mas os mexicanos já são obrigados a conviver há décadas com as barreiras deixadas por Barack Obama, George W. Bush e Bill Clinton.

      A separação física com o vizinho pobre do sul tem sido uma política de Estado desde que Clinton ergueu os primeiros trechos, em 1993, reaproveitando sucata trazida da Guerra do Golfo. Já são 1.046 km de barreiras separando os dois países, incluindo as grades de 4,6 metros contratadas pelo correligionário Obama.

      Mexicanos brincam em praia de Tijuana, que faz fronteira com San Diego, dos EUA; ao fundo, cerca divide as duas cidades (Lalo de Almeida/Folhapress)

      Via de regra, o muro costuma crescer de altura à medida que se aproxima das regiões mais povoadas. Separa cidades, como as duas Nogales, a mexicana e a norte-americana. Diminui ou desaparece nas áreas mais inóspitas, onde caminhadas de dias ao longo da barreira natural do deserto produzem mortes diárias.

       

      O muro não é apenas físico. Os mexicanos também se ressentem do endurecimento da vigilância e das leis imigratórias, sobretudo após a ataques do 11 de Setembro, em 2001. As promessas feitas por Trump de mais repressão a imigrantes irregulares são mais questão de intensidade do que mudança de rumo.

      “Trump nos assusta e traz incertezas, mas é preciso recordar que Obama também foi um presidente muito cruel e rude com os imigrantes. Fez as ‘redadas’ [grandes operações de captura de imigrantes ilegais], as deportações em massa, as separações de famílias, os centros de detenção. Foi ele quem fez esse muro aqui e quem mais deportou na história dos EUA. Nunca disse nada, mas fez muito”, afirma o padre Javier Calvillo, 47, diretor da Casa do Migrante de Ciudad Juárez, sua cidade natal.

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      Cerca divide praia nas cidades de Tijuana, no México, e San Diego, nos EUA; próximo à barreira, lado mexicano é mais agitado do que vizinho (Lalo de Almeida/Folhapress)

      “O meu maior medo é o muro que Trump pode construir nas mentes e nos corações dos americanos e até dos mexicanos que estão lá. É o muro mais perigoso: vem o racismo, vem o apontar de dedos. Em El Paso, as pessoas têm medo de ir à escola, ao trabalho. É um ambiente de pânico e terror”, completou.

      Mesmo no governo Trump, o muro de Obama continua avançando na região de Ciudad Juárez, substituindo uma antiga cerca baixa de tela, facilmente transponível.

      As obras estão agora em Puerto de Anapra, bairro de ruas de areia e casas sem acabamento a cerca de 30 minutos do centro de Juárez, cidade de cerca de 1,5 milhão de habitantes que já foi a mais violenta do mundo devido a disputas territoriais entre cartéis de narcotráfico.

       
       
       
      Detalhes das barreiras que separam o México dos Estados Unidos; muro costuma crescer de altura à medida que se aproxima das regiões mais povoadas (Lalo de Almeida/Folhapress)

      Anapra é habitado principalmente por funcionários das “maquiladoras”, grandes fábricas, na maioria norte-americanas, que se instalam em território mexicano em busca de mão de obra barata. Apenas em Juárez, essas empresas mantêm cerca de 300 mil operários.

      O ritmo de construção é rápido. A cada 30 minutos, uma nova chapa da grade de 1,5 metro de extensão é erguida por um guindaste, encaixada na base de concreto e soldada com outra chapa por operários, a maioria mexicanos.

      “Não gosto de trabalhar aqui, mas tenho de alimentar a família”, diz um deles, que se identificou como Marcos e trabalha para uma fornecedora de cimento. Ele explica que os pais moram em Juárez, mas que a visita é cada vez mais difícil devido à segurança rígida –costuma levar cerca de duas horas para cruzar a ponte fronteiriça.

       

      As sobras da obra viraram uma fonte de renda extra para os moradores. Carregando um longo pedaço de cano de aço em um dos ombros, a operária Fabiola Vellez, 31, disse que a peça vale 50 pesos (US$ 2,80, ou R$ 9,30).

      Trata-se de um pequeno reforço do salário de mil pesos (US$ 56, ou R$ 190) que recebe por semana em uma fábrica de cabos automobilísticos. A poucos metros, no Texas, o salário mínimo semanal está em US$ 290, o quíntuplo.

      Apesar da fonte extra de renda, Vellez não está feliz: “Em dezembro, ‘la migra’ (Patrulha da Fronteira dos EUA) lançou brinquedos por cima da cerca. Com o muro, não será mais possível”, lamentou.

      O muro também atrai crianças, que pedem dólares e doces através da cerca. Mais ousado, um adolescente demonstrou à reportagem que conseguia escalar até o topo do novo muro em poucos segundos, para irritação de um operário, que prometeu chamar a mãe e recebeu em resposta uma saraivada de xingamentos em espanhol.

      Muro é construído na fronteira de Puerto de Anapra, bairro a cerca de 30 minutos do centro de Juárez, no México; durante as obras, garoto tenta escalar muro e irrita operários (Lalo de Almeida/Folhapress)

      O muro venceu José Hector Nevarez, 33. Detido e deportado pela primeira vez em 2010, no governo Obama, tentou voltar aos EUA duas vezes e foi capturado pela Patrulha da Fronteira nas duas.

      Resignado, decidiu reunir a família no México, que Hector havia deixado quando tinha 15 anos. Vieram a mulher, Gabriela, 32, e os filhos, Emiliano, 12, e Azul, 7.

      O muro impôs uma divisão na família. Num drama que se repete com frequência cada vez maior, os pais são mexicanos, mas os filhos possuem cidadania norte-americana por terem nascido lá.

      Para eles e centenas de outras famílias de deportados, a solução foi morar no povoado de Puerto Palomas, (157 km a oeste de Juárez). Todo dia, enquanto os pais trabalham no lado mexicano, os filhos atravessam a fronteira para ir às escolas norte-americanas do Novo México.

      “Os EUA são o seu país. Em seu momento, vão ter um emprego lá, ter uma vida social lá”, diz Hector, que nos EUA trabalhou na construção civil e como motorista. “Queremos que façam a sua vida lá. E, obviamente, se tivermos a oportunidade de lá visitarmos, tudo bem, mas vivendo não.”

       
       
       

      A rotina familiar começa às 6h, quando a temperatura costuma oscilar em um dígito. Primeiro, ele leva Emiliano até o posto fronteiriço. Ao lado do filho, caminha por alguns metros em território americano até a entrada do posto de controle imigratório. “Se quiserem, podem me prender aqui onde estamos.”

      Ao lado de outros pais deportados, Hector observa Emiliano entrar em um dos cinco ônibus amarelos enfileirados do outro lado da aduana. Uma hora mais tarde, ele repete a rotina com Azul.

      Na volta da escola, é a vez de Gabriela esperar os filhos na saída do posto de controle mexicano, onde as mochilas precisam passar por uma máquina de raio-X.

       
       
      Crianças brincam em escola da mexicana Puerto Paloma; ao fundo, cerca divide o México dos EUA (Lalo de Almeida/Folhapress)

      O muro traz perigos. O cuidado do casal em levar os filhos pessoalmente até a entrada do posto fronteiriço tem um motivo: evitar que as crianças sejam usadas por narcotraficantes para driblar a vigilância americana.

      “Lamentavelmente, vivemos em um país onde existe todo tipo de criminalidade. Há casos de meninos usados como mulas e detidos pela imigração. Estamos sempre atentos para que não levem nada mais do que o material escolar em suas mochilas.”

      O muro também gera dinheiro. Hector trabalha no tradicional restaurante Pink, a poucos passos da fronteira e popular entre norte-americanos que cruzam para Palomas em busca de dentistas e oculistas mexicanos que cobram uma fração do que custaria nos EUA.

       

      Em casa, Gabriela complementa a renda dando banho em cachorros. Os clientes são americanos, que entregam e pegam os bichos de estimação nos poucos metros de zona neutra entre os dois postos fronteiriços.

      O muro cria rotinas estranhas. Nos cinco anos em Palomas, o casal nunca foi à escola dos filhos -por Skype, viram a formatura do ensino fundamental de Emiliano e conversam com os professores. “Mas nos sentimos muitos sortudos, [estudar nos EUA] é um privilégio que nem todos podem ter”, diz Hector.

       

      Sobre Trump, ele tem dúvidas: “Ele está dizendo o que as pessoas querem ouvir. Está dizendo que ele vai fazer um muro enorme, bonito e grandioso, mas não vai acontecer. É só um falastrão.”

      A 680 km a oeste de Juárez, Caborca é a última parada para vários centro-americanos antes de se arriscar no deserto onde o muro ainda não alcançou. Ali, quase todos os dias, dezenas desembarcam da “Bestia”, apelido dado a qualquer um dos trens que atravessam o México e são usados pelos imigrantes para se aproximar da fronteira, em viagem clandestina e perigosa.

      Vizinho à estação de trem, uma Casa de Migrante abrigava 57 imigrantes em meados de abril, a grande maioria hondurenhos. No grupo, predominantemente masculino, muitos já haviam sido deportados dos EUA, mas preferem se arriscar de novo no país de Trump a viver nos pobres e violentos países centro-americanos, sobretudo Honduras, El Salvador e Guatemala.

      Imigrante descansa em abrigo a 680 km a oeste da mexicana Juárez, na última parada antes de se arriscar no deserto (Lalo de Almeida/Folhapress)

      Ao contrário de Juárez, as instalações são precárias. A maioria dormia do lado de fora da casa acanhada, em cima de tapetes e sob o teto de lona, apesar da madrugada fria do deserto. O acúmulo de lixo deixava seu odor no ar.

      Os relatos revelam uma viagem perigosa. Um diz que foi obrigado a beber a própria urina durante a caminhada que durou cinco dias, sem sucesso. Outro teve de voltar após infecção provocada por picadas de carrapatos.

      Driblar o muro é caro e perigoso. Há dois preços cobrados pelos coiotes. São cerca de US$ 8 mil (R$ 26 mil) para a travessia, mas o valor pode cair pela metade se o imigrante levar uma mochila com drogas até os EUA.

      Imigrantes descansam e lavam roupa em abrigo em Caborca, no México, na rota para atravessar a fronteira com os EUA
       

      Imigrantes descansam e lavam roupa em abrigo em Caborca, no México, na rota para atravessar a fronteira com os EUA (Lalo de Almeida/Folhapress)

      Um dos poucos que se aventuravam pela primeira vez, o salvadorenho Emir (nome fictício), 30, levou 45 dias até chegar a Caborca. Diz ter viajado em 15 trens. “Foi difícil, há situações de que não vou esquecer nunca. Conheci uma menina que perdeu a perna subindo no trem.”

      À espera do momento certo para se arriscar no deserto, Emir não teme a linha dura de Trump: “Não existe um presidente dos Estados Unidos que não tenha deportado pessoas”.

       

      O muro tem frestas. A lógica é parecida à de uma visita na prisão: todos os dias, alguma família se reúne entre as grades “padrão Obama” que separam Nogales, México, de Nogales, Estados Unidos. Trocam comida, presentes, notícias, conversam, cantam e tentam se tocar.

      No terreno inclinado de chão batido, a faxineira Aída Laurean, 47, no lado mexicano, passou das 11h30 às 18h30 ao lado da filha Sofia, no lado americano.

      As duas se separaram quando Aria não quis perder o funeral da mãe, no México, mesmo sabendo que não conseguiria voltar aos EUA.

      Chegou a tempo para o enterro, mas ficou sete anos sem ver a filha.

      Família se reúne entre as grades que separa Nogales, do México, de Nogales, dos Estados Unidos; lógica é parecida à de uma visita na prisão (Lalo de Almeida/Folhapress)

      O muro assusta. Sofia, atendente de telemarketing, só se arriscou a se aproximar dele depois que começou a transitar o documento para a residência, ao qual tem direito por ter se casado há pouco com um mexicano-americano. Enquanto o processo não ficar pronto, porém, ela não pode deixar os EUA.

      Sobre Trump, Aída apenas brinca: “O comentário é que ele quer fazer um muro novo. Que seja bem baixinho para que eu possa pular.

      http://arte.folha.uol.com.br/mundo/2017/um-mundo-de-muros/mexico/ao-sul-da-fronteira/

      Questões

      Como o texto caracteriza a continuidade das políticas de construção de barreiras na fronteira EUA-México entre os governos de Clinton, Bush, Obama e Trump? Quais são as semelhanças e diferenças?

      Explique o impacto do muro, tanto físico quanto simbólico, sobre as vidas dos mexicanos e imigrantes. Como isso afeta suas rotinas e suas relações familiares?

      Qual é o argumento do padre Javier Calvillo sobre a postura de Obama em relação aos imigrantes? Como isso contradiz a percepção comum sobre o governo Obama?

      Como o muro influencia as questões econômicas e de trabalho na fronteira, especialmente para os operários mexicanos como Marcos e Fabiola?

      De que maneira o muro é usado como ferramenta de repressão e controle, mas também se torna um meio de subsistência para alguns dos habitantes da fronteira?

      Segundo o texto, quais são os desafios enfrentados por famílias como a de Hector, que têm pais mexicanos e filhos com cidadania norte-americana? Como o muro impacta suas vidas diárias e expectativas para o futuro?

      A construção de barreiras físicas pode ser vista como uma metáfora para outras formas de separação. Como o padre Calvillo aborda o conceito de ‘muros nas mentes e corações’? Qual seria o impacto de tal muro?

      O texto apresenta relatos de imigrantes que se arriscam em travessias perigosas. Quais são os maiores desafios enfrentados por eles e como o muro contribui para a intensificação desses perigos?

      Como o texto explora o papel do narcotráfico na fronteira? De que maneira as crianças são envolvidas nesse cenário, e como as famílias tentam proteger seus filhos desse perigo?

      Em sua opinião, qual é o principal objetivo do texto ao narrar as experiências das pessoas afetadas pelo muro? Que mensagem o autor tenta transmitir sobre o impacto dessa política nas vidas humanas?

       
       
       

      Prof. Luciano Mannarino