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  • Distâncias

    Distâncias

    Há momentos em que nos deixamos ver. Não por completo — isso talvez seja impossível —, mas o suficiente para que o outro perceba algo além da superfície. É como se, por um instante, entregássemos a alguém um telescópio. De repente, aquilo que antes era difuso ganha contorno: aparecem as marcas, as nuances, as pequenas tempestades internas que, a olho nu, passariam despercebidas.

    Mas há um detalhe silencioso nisso tudo.

    Ver melhor não é estar mais perto.

    Assim como o Sol, que pode ser observado com precisão quase íntima — suas manchas, seus ciclos, suas explosões — e ainda assim permanece a uma distância inalcançável, nós também continuamos onde sempre estivemos. A nitidez não encurta o caminho. A compreensão não elimina o intervalo.

    Talvez exista uma ilusão delicada nas relações: a de que ser compreendido é o mesmo que ser alcançado. Não é. O outro pode enxergar com clareza, pode até nomear aquilo que sentimos, mas nunca ocupará exatamente o mesmo ponto de onde olhamos o mundo. Há sempre um espaço entre dois seres — não um vazio, mas um campo onde as diferenças persistem.

    No fim, não somos aquilo que o outro alcança.

    Somos aquilo que ele consegue ver — E ainda assim, algo se constrói ali.

    Prof Luciano Mannarino

  • Um idiota!!!

    Um idiota!!!

    Um Idiota!

    — Quando eu chegar, vejo isso, mas você é um idiota mesmo! Droga…

    Foi o que meu tio disse ao telefone quando contei que seu passarinho havia fugido. E, por um momento, achei que ele tinha razão.

    Minha única tarefa era ridiculamente simples: limpar a gaiola, trocar a água, repor o alpiste. Só isso. Mas, de alguma forma, deixei a portinha aberta por um instante e ele escapou.

    Deixei a gaiola encostada num canto e fui fazer outra coisa, tentando ignorar o problema. Agora, além da bronca ao telefone, eu teria que encarar meu tio pessoalmente, e já imaginava o sermão.

    Mas no fim da tarde, aconteceu algo inacreditável: o passarinho voltou. Ele entrou sozinho na gaiola.

    Sem hesitar, fechei a portinha o mais rápido possível.

    Quando meu tio chegou, viu a cena, me olhou e disse apenas para eu “tomar mais cuidado”. Como se nada tivesse acontecido.

    O passarinho viveu mais quatro anos e morreu de velhice na gaiola.

    Por muito tempo, achei que ele era um idiota. Teve a chance de ser livre e voltou para a prisão.

    Foi só depois que ele morreu que vi um velho que deixava a gaiola aberta, e sua ave saía, voava até uma árvore próxima, ficava ali por horas… e depois voltava sozinha. Sempre.

    — Como isso é possível? — perguntei, tentando entender.

    O velho sorriu e disse:

    — Confiança, meu filho. Se ele volta uma vez, volta sempre.

    O passarinho do meu tio não foi um idiota.

    Eu podia ter dado a ele o direito de ir e vir, mas fechei a portinha assim que tive a chance.

    Meu tio tinha razão.

    Prof Luciano Mannarino