Chorrochó (BA) A sucessão de secas e as mudanças climáticas transformaram o cenário da caatinga conhecido por um dos maiores personagens fictícios do sertão nordestino. Fabiano, escrito por Graciliano Ramos em “Vidas Secas”, se hoje morasse na comunidade de Jurema, no município de Chorrochó (BA), não esperaria mais o verde trazido pela chuva.
Damázeio Francisco do Nascimento, 85, nascido um ano depois do lançamento do livro, já não espera. “A mata que era caatinga não tem mais. Os paus morreram todos, as braúnas morreram todas”, diz.
O nome informal que dá para a nova vegetação da área onde mora é “tabuleiro”, uma terra mais seca, com flora pequena e rala, composta majoritariamente por galhos mortos —não os característicos galhos secos que florescem quando chove.
Homem idoso posa ao lado de cactus
Damázeio Francisco do Nascimento, 85, morador de Chorrochó, no norte da Bahia, que pertence à primeira região árida do Brasil – Rafaela Araújo/Folhapress
Damázeio mora na primeira região de clima árido identificada no Brasil, conforme estudo publicado pelo Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) e pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) no final do ano passado. Isso significa que, na cidade dele, a quantidade de água que evapora da superfície é maior do que a reposta pelas chuvas, causando um déficit hídrico.
O mesmo acontece nas cidades de Abaré, Macururé e, em partes, de Rodelas, Curaçá e Juazeiro, todas no norte da Bahia. No sul de Pernambuco, uma pequena região de Petrolina também se enquadra na nova classificação. O território com clima árido tem cerca de 5.700 km².
O estudo feito por Cemaden e Inpe considerou dados desde 1960, período em que a mudança, que é progressiva, pôde ser notada.
“Eu me lembro de quando eu tinha 5 anos. Nesse tempo chovia mais, tinha a caatinga e água para nós”, diz Damázeio. Agora, mesmo quando chove, segundo ele, as plantações não rendem como antes. “Feijão e milho não dá mais. Dá aquela chuvinha e aí o solo esquenta. Os solos são mais quentes e aí o legume não vai para frente.”
A primeira região de clima árido do Brasil
A física Ana Paula Cunha, que conduziu o estudo no Cemaden, confirma essa percepção: a passagem de semiárido para árido deixa a terra mais seca, danifica a vegetação natural e prejudica seu uso para atividades agrícolas.
O aumento da temperatura média é o ponto-chave da aridização, diz Cunha. Em regiões do semiárido onde a chuva já era escassa, afirma, o problema é que a temperatura maior faz com que a água do solo evapore mais rápido. Em alguns pontos, diz, chove até mais, mas a evaporação supera o volume de água precipitada.
“Está relacionado às mudanças climáticas antropogênicas, ou seja, resultado das emissões de gases de efeito estufa”, explica.
“Antigamente, quando a gente ouvia rádio, escutava dizer: ‘A temperatura está 20°C e alguma coisa’. Se passasse de 30°C, estava tudo lascado. Agora, já está indo para 40°C”, diz Israel da Cruz Oliveira, 54, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Chorrochó.
Ele anda pela comunidade de Jurema falando sobre as mudanças no local onde cresceu. “Cada ano vai morrendo uma espécie de planta, diminuindo… As abelhas também. Tem várias espécies de abelhas que a gente não conhece mais”, diz.
Para ele, fazem falta a braúna, uma das maiores árvores da caatinga, a imburana, a quixabeira, o umbuzeiro e até o mandacaru, característico da região, mas agora presente em apenas algumas partes da zona rural mais intocadas.
Até 2060, a caatinga pode perder 40% da biodiversidade por causa das mudanças climáticas, segundo estudo publicado no Journal of Ecology, feito por pesquisadores de São Paulo, Paraíba, Pernambuco, Minas Gerais e Goiás.
Mas não só a vegetação e os animais desaparecem da cidade de 10,5 mil habitantes. “Não tem como ficar”, diz Israel, que aponta a escassez de jovens na agricultura à medida que a comunidade se esvazia.
Todos os amigos da professora Suelani Cipriano, 27, saíram da área rural. Ela, mãe de um menino de 7 anos e uma menina de 1 ano, ficou.
“A temperatura não permite que eles brinquem da forma que eu brincava fora de casa. Seria uma irresponsabilidade se a mãe deixasse”, afirma. “No meu tempo, o benefício era a vegetação. Tudo verdinho, com sombra”, afirma, apesar de reconhecer que talvez, mesmo com as plantas verdes, os filhos preferissem o celular às brincadeiras de rua.
Quem fica, diz Israel, precisa se adaptar às novas condições. Para plantar, mesmo quando chove, irrigação é necessária, por exemplo.
Além disso os períodos de plantação e colheita são mais curtos devido ao calor e, em algumas épocas do ano, só é possível cultivar em uma estufa que protege as plantas do sol.
Entre os cerca 1.600 trabalhadores rurais filiados ao sindicato, contudo, menos da metade tem acesso às cisternas e à assistência técnica subsidiadas pelo poder público e executadas por ONGs.
A imagem mostra uma mulher segurando uma criança em um ambiente rural, vista através de uma janela. A mulher está de pé, com a criança em seus braços, e ambas estão olhando para fora. O cenário externo é árido, com algumas árvores secas e uma cerca ao fundo. O céu está parcialmente nublado, com algumas nuvens visíveis.
Suelani Cipriano e a filha Maria Júlia Cipriano em frente à sua casa na comunidade de Jurema – Rafaela Araújo/Folhapress
A ONG Agendha (Assessoria e Gestão em Estudo da Natureza, Desenvolvimento Humano e Agroecologia) é a única que atua na região do norte da Bahia chamada Vale de Itaparica, onde ficam Chorrochó, Macururé e Abaré.
A diretora da organização, Valda Aroucha, lamenta que o projeto não consiga ter maior abrangência. “Estamos em um território com mais de 7.000 famílias agrícolas e damos assistência técnica a 1.080.”
Segundo Valda, o semiárido —agora árido em partes— muitas vezes não recebe a atenção necessária no debate climático por sempre ter convivido com a estiagem e as altas temperaturas.
“Mas a gente não pode pensar assim, porque senão vai haver injustiça climática. Ou seja, aqueles que mais sofrem, porque estão sofridos, porque estão acostumados, não receberão as devidas políticas públicas e iniciativas”, afirma.
Para ela, o alerta sobre os impactos das mudanças climáticas no semiárido deve vir acompanhado de soluções para que as famílias sertanejas consigam permanecer em suas casas com qualidade de vida.
“Eu sou otimista, até por ser catingueira. Sou filha de agricultores. Quando ajudei a fundar a Agendha, foi no sentido de trabalhar por essasSuelani Cipriano e a filha Maria Júlia Cipriano em frente à sua casa na comunidade de Jurema – Rafaela Araújo/Folhapress pessoas, porque vi meu pai migrar por conta da seca na minha infância. Então, trabalhar resistência e persistência é fundamental”, afirma a diretora da ONG, que diz ver também mudanças positivas.
“Aqui não é mais aquilo de ‘Vidas Secas’ e ‘Os Sertões’”, fala, se referindo ao avanço das políticas públicas, mesmo que incipientes e contra um clima cada vez pior.
O projeto Excluídos do Clima é uma parceria com a Fundação Ford.
Questões.
Como a perda de biodiversidade, com o desaparecimento de árvores como a braúna e a imburana, impacta não apenas o ambiente natural, mas também a identidade cultural dos habitantes do sertão? Analise a interdependência entre natureza e cultura no contexto do semiárido.
Disserte sobre o conceito de “resiliência” no sertão nordestino. Como esse conceito é representado pelas histórias e vivências de personagens como Damázeio e Suelani no texto? O que a resiliência significa para quem vive em condições extremas de aridez?
Examine o papel das políticas públicas e da assistência de ONGs como a Agendha no contexto da aridificação e das mudanças climáticas. Essas iniciativas são suficientes para garantir a permanência das famílias em suas terras? O que poderia ser melhorado?
A figura de Fabiano, de Vidas Secas, e a realidade de Damázeio compartilham características, mas também diferem em alguns aspectos fundamentais. Qual seria o “novo Fabiano” das mudanças climáticas, e como ele poderia se adaptar ou resistir ao cenário atual em Chorrochó?
Valda Aroucha menciona o risco de “injustiça climática” ao se referir ao semiárido. Na sua visão, por que a adaptação das regiões que tradicionalmente convivem com a seca pode ser negligenciada em políticas nacionais de mudanças climáticas? Analise os fatores socioeconômicos e políticos envolvidos.
A migração dos jovens e a escassez de mão de obra na agricultura refletem uma mudança de valores e expectativas entre gerações. Na sua opinião, como o êxodo dos jovens pode influenciar o futuro do sertão? Que alternativas poderiam incentivá-los a permanecer?
As práticas de irrigação e estufas são mencionadas como soluções para a aridificação, mas podem ser insuficientes. Que inovações tecnológicas ou estratégias sustentáveis poderiam transformar a agricultura no sertão nordestino em um contexto de aquecimento global?
O texto destaca o desaparecimento de espécies de plantas e abelhas como um efeito das mudanças climáticas. Disserte sobre a importância da biodiversidade da caatinga para a estabilidade ecológica da região. Como a perda de espécies afeta não apenas o meio ambiente, mas também os modos de vida locais?
Como o conceito de “justiça climática” poderia ser aplicado de forma prática para beneficiar as regiões áridas do Brasil, como o sertão nordestino? Que políticas poderiam ser implementadas para garantir que esses lugares recebam os recursos e a atenção necessários para lidar com os efeitos do clima?
Em um contexto de transformação ambiental e social, a comunidade de Jurema enfrenta a ameaça de desaparecimento. Discuta o que significa “pertencimento” para os moradores que decidem ficar, como Suelani, e como essa escolha se relaciona com a resiliência da cultura sertaneja. Como o pertencimento e a identidade são fatores cruciais na luta contra o deslocamento forçado pelo clima?
Thanos, o vilão que tenta justificar suas ações com uma visão aparentemente “eco-malthusiana”, é, na verdade, um exemplo claro de como a lógica de vida dominada pelo consumo pode distorcer a percepção dos reais problemas ambientais. Sua crença de que eliminar metade da população universal resolveria a escassez de recursos é uma abordagem simplista e profundamente equivocada, que ignora as verdadeiras causas do esgotamento ambiental: o consumo excessivo e a desigualdade no acesso aos recursos.
No mundo real, e até no universo em que Thanos habita, o problema não está apenas na quantidade de pessoas, mas em como elas vivem e consomem. A vida em nosso planeta — e, por extensão, no universo fictício de Thanos — é marcada por uma lógica de consumo desenfreado, em que uma pequena elite consome desproporcionalmente mais recursos do que a maioria. Ao propor uma solução de genocídio em massa, Thanos trata todos como se fossem igualmente responsáveis pelo esgotamento dos recursos, ignorando as profundas desigualdades que realmente impulsionam a crise.
Thanos: a ilusão da ordem na máscara do caos
Thanos, longe de ser um salvador trágico, é, na verdade, um perpetuador da lógica destrutiva que alega querer corrigir. Sua abordagem é cega para as verdadeiras dinâmicas do consumo e da sustentabilidade, preservando as desigualdades e os excessos que realmente ameaçam o equilíbrio do universo. Ele se recusa a ver que o problema não é a quantidade de pessoas, mas como vivemos e consumimos.
Essa visão ignora que não é a simples existência de mais pessoas que ameaça o equilíbrio ecológico, mas sim o modo de vida de algumas delas. Existem aqueles que vivem com pouco, contribuindo minimamente para a pegada ecológica, enquanto outros consomem de forma voraz, acumulando e desperdiçando recursos em uma escala alarmante. Ao eliminar vidas de maneira aleatória, Thanos não ataca a raiz do problema — a cultura de consumo excessivo e desigual que continua a destruir os ecossistemas e a esgotar os recursos naturais.
Em vez de questionar e confrontar a lógica de vida baseada no consumo desenfreado, Thanos escolhe a solução mais fácil e desumana: exterminar metade da população. Ele não desafia o sistema que permite que alguns vivam em excessos enquanto outros mal sobrevivem. Sua visão, na verdade, reflete a própria mentalidade que ele finge combater — a crença de que o problema pode ser resolvido simplesmente reduzindo o número de consumidores, sem jamais abordar quanto e como consumimos.
Questões
Como a visão de Thanos se alinha ou contrasta com as teorias populacionais clássicas, como a teoria malthusiana e a teoria neomalthusiana?
Avalie como essas teorias tratam o controle populacional e a distribuição de recursos.
De que maneira o texto critica a aplicação prática de uma abordagem malthusiana ao contexto da crise ambiental atual?
Considere como a teoria de Malthus sobre o crescimento populacional se encaixa ou não nos problemas modernos.
Como as teorias populacionais modernas, como as teorias reformistas ou antinatalistas, oferecem alternativas à visão extrema de Thanos sobre o controle populacional?
Explore as soluções propostas por essas teorias em relação ao consumo e sustentabilidade.
Em que sentido a abordagem de Thanos poderia ser vista como uma interpretação distorcida da teoria neomalthusiana, que também preocupa-se com o esgotamento de recursos?
Discuta como essa visão pode negligenciar as diferenças no impacto ambiental entre diferentes estilos de vida.
Como o texto pode ser interpretado à luz da teoria da transição demográfica, que sugere uma estabilização da população em níveis sustentáveis?
Avalie se a solução drástica de Thanos considera as mudanças naturais nos padrões de crescimento populacional.
Geógrafo paulista propõe uma síntese das três realidades ambientais, sociais e econômicas do país. (foto – Léo Ramos Chaves)
Jurandyr Ross
Idade 73 anos Especialidade Geomorfologia Instituição Universidade de São Paulo (USP) Formação Graduação em Geografia (1972), mestrado (1982) e doutorado (1987) pela USP Produção 45 artigos e 8 livros
Por Carlos Fioravanti
No escritório de seu apartamento, entre paredes cobertas de mapas, o geógrafo Jurandyr Luciano Sanches Ross redescobriu o Brasil à medida que examinava dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com colegas de outros estados. O que emergiu foram na verdade três Brasis: o que denominaram o Brasil da natureza, com grandes áreas verdes; o do semiárido, no sertão nordestino; e o de maior atividade econômica, ligada principalmente à agropecuária. “Provavelmente esse é meu último grande trabalho”, diz ele, aos 73 anos.
Especialista em geomorfologia, estudo das formas de relevo e suas origens, Ross lançou na década de 1980 um mapa do relevo brasileiro. Elaborado com base nas informações do Projeto RadamBrasil, que ele integrou, seu trabalho sucedeu as versões dos geógrafos Aroldo de Azevedo (1910-1974), de 1949, e Aziz Ab’Saber (1924-2012), da década de 1960.
Nascido em Promissão, noroeste paulista, e crescido em Rolândia, no Paraná, mudou-se para São Paulo na década de 1960. Viúvo, duas filhas (uma engenheira eletrônica e outra dentista), três netos, ele concedeu a entrevista a seguir por videoconferência em fevereiro.
Em que você está trabalhando? Coordeno um projeto de três anos para estudar o ordenamento territorial do Brasil, o modo pelo qual o território do país está organizado. Esse trabalho, com financiamento do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], envolve minha equipe do Laboratório de Geomorfologia da USP, colegas da Universidade Estadual de Londrina, das universidades federais da Paraíba e de Uberlândia e um sociólogo do Ministério da Economia. Já produzimos muitos dados e adquirimos uma noção mais clara de quem somos nós, sob a perspectiva de uso do território nacional.
O Brasil tem plano de ordenamento territorial? Tivemos a partir de 1993, em consequência da Rio-92, que levou a uma política de Estado e à criação do Ministério do Meio Ambiente, de unidades de conservação, principalmente na Amazônia, dos zoneamentos ecológico-econômicos em alguns estados e regiões, dos planos de gestão de recursos hídricos e dos planos diretores municipais, até 2002. Então começou outra política territorial e o Ministério do Meio Ambiente se tornou periférico. O ordenamento deixou de ser algo importante.
E por que é importante? Porque ajuda a não serem feitas coisas erradas no uso e ocupação das terras. A primeira tarefa de um plano de ordenamento territorial é entender as áreas mais ou menos favoráveis para agricultura ou pecuária e as que não devem ser mexidas ou convertidas em agricultura ou pecuária. Dizem que o Brasil não precisa desmatar, e não precisa mesmo, porque tem muita terra subaproveitada. Mas que terras são essas, onde estão, com que tipo de relevo e de solo? Tem de saber se é favorável a algum uso econômico ou não. A ocupação do território brasileiro é espontânea, feita por quem compra e incorpora as terras. Andei por Parauapebas, no leste do Pará. Só se vê pastagem e nada de árvore. Quase ninguém deixou os 50% da área com vegetação nativa e as matas ciliares, obrigatórias por lei; agora a reserva legal é 80% da área. Participei da finalização do plano de zoneamento ecológico de Rondônia, que terminou em 2000. Ficaram definidas em torno de 10 áreas para diferentes tipos de ocupação ou preservação, mas o plano se perdeu ou não foi aplicado adequadamente. Hoje resta muito pouco de floresta, só mesmo em unidade de conservação. A maior parte do estado foi ocupada com café, banana, cacau e principalmente pasto.
O que estão vendo agora? Focamos no Brasil rural e examinamos a agricultura, silvicultura, pecuária e mineração. Pensamos em fazer um levantamento das condições atuais do uso e da ocupação da terra, com base nos dados estatísticos do IBGE na escala municipal e os mapas do MapaBiomas Brasil [organização não governamental que acompanha as mudanças da cobertura da vegetação nativa e do uso do solo no país] sobre desmatamento e outras questões ambientais. Os mapas representam os 5.570 municípios brasileiros. Por exemplo, conseguimos ver por onde a soja caminha, desde que começou a ser cultivada no Rio Grande do Sul e em São Paulo nas primeiras décadas do século XX. Agora já está no Maranhão e no Piauí, quase chegando ao mar. A cana-de-açúcar está em São Paulo, mas também no Triângulo Mineiro, em Goiás e no noroeste do Paraná.
E no Nordeste? A cana não está mais tão forte em Pernambuco, mas em Alagoas. Os tabuleiros de Pernambuco não são planos e grandes como os de Alagoas. A mecanização do plantio e corte da cana precisa de relevo plano. O relevo é fundamental na agricultura tanto quanto o solo e o clima, por conta da mecanização. Em outro mapa, ao examinar o PIB dos municípios por atividade econômica predominante, vimos que na Amazônia e sobretudo no semiárido a principal renda é o dinheiro público enviado às prefeituras e a pessoas, por meio das aposentadorias, do Bolsa Família e de outros benefícios sociais. Há dois anos estive no sertão do Ceará e fiquei assustado. Porque os jovens em grande parte saíram e continuam saindo do campo, ficando na zona rural principalmente os mais velhos, que recebem aposentadoria rural ou Bolsa Família, cuidam dos animais e fazem pequenas roças de feijão, milho e mandioca. Já o PIB per capita é mais alto na região Sudeste, sem o norte de Minas, como resultado do agronegócio, da atividade industrial e dos serviços. Estou mostrando esses mapas, originais, para falar do que chamamos de três Brasis, ou unidades de ordenamento territorial, que nossas análises revelaram.
Quais são os três Brasis que vocês propõem? Um é o da natureza, outro do semiárido e o terceiro, o economicamente produtivo. O primeiro tem extensa área de terras preservadas e grande biodiversidade, mas é permanentemente ameaçado por causa da expansão, principalmente da pecuária. A área cobre a Amazônia, o Pantanal, o rio Araguaia e a faixa costeira, com a serra do Mar. Em situação oposta está o semiárido. Não é o Nordeste todo, mas uma área de restrição climática muito forte. Enquanto a ocupação na Amazônia é de baixa densidade e receptora de migrantes, o semiárido é o resultado de 500 anos de ocupação com êxodo de população. Quando a cana ocupou o litoral, o semiárido foi tomado com a pecuária. Existe hoje lá um esvaziamento ou estagnação demográfica. O terceiro Brasil é essencialmente o da produção agropecuária e atividades industriais com destaque para agroindústrias e indústrias sucroenergéticas, concentrada no Centro-Oeste, oeste da Bahia, do Maranhão, do Piauí, do sul e leste da região Norte, toda a região Sudeste e Sul e a faixa costeira brasileira, desde o Nordeste oriental até o Rio Grande do Sul. É o Brasil que gera mais empregos e renda nos três segmentos da economia: indústria, agropecuária e serviços.
O que chamamos de três Brasis são realidades muito diferentes, que exigem abordagens distintas
O que você pensou vendo essas diferenças? São realidades completamente diferentes, em biodiversidade, geodiversidade, que revelam problemas estruturais e exigem abordagens distintas. No semiárido, uma área de esvaziamento ou estagnação demográfica, temos de questionar: “Vamos deixar todo mundo ir embora e pronto?”. O ideal é que se comece a gerar mais renda e emprego, com uma economia mais dinâmica.
E a Amazônia? Em 2019, fui dar um curso em Parintins, a leste de Manaus. Depois saímos de barco. Em um dos pontos em que paramos vivia uma família com a casa no terraço do rio. Perguntei para o homem da casa, devia ter uns 60 anos, do que ele vivia. Ele respondeu: “Ainda tenho algumas vacas, que comem o capim da várzea. Tiro leite, faço queijo e vendo o bezerro”. Ele tinha reduzido o número de vacas porque estava dando mais atenção a uma roça de guaraná na floresta, em sistema agroflorestal. Ele vendia a R$ 15 o quilograma da semente de guaraná, um valor três vezes mais alto que o do quilograma do bezerro. “E eu trabalho muito menos que com as vacas”, ele falou. “Porque praticamente é só manter a área limpa e colher as sementes.” A floresta tem solução, que não pode ser derrubar árvore para plantar pasto.
O que vocês pretendem fazer com esses mapas? Vamos terminar o relatório, que já está com 900 páginas de mapas e textos. Queremos discutir essas informações com colegas da universidade, com gente do governo, com políticos, com o máximo de pessoas, de qualquer área. Queremos que essas informações sejam úteis para o país.
Esse é o grande trabalho da sua carreira? Provavelmente é o meu último grande trabalho. Os outros foram o mapa de relevo do Brasil, na década de 1980, o mapa geomorfológico do estado de São Paulo, no final dos anos 1990 [ver Pesquisa FAPESP n° 35], com financiamento da FAPESP, e o mapa geomorfológico da América do Sul, concluído em 2019 [ver Pesquisa FAPESP n° 246]. Fiz muitas orientações tecnocientíficas em projetos de zoneamento ecológico-econômico, que determinam as áreas a serem ocupadas com atividades econômicas e as que devem ser preservadas, no litoral do Paraná e nos estados do Paraná e de Mato Grosso, na bacia do Alto Paraguai e no Tocantins.
Por que resolveu fazer o mapa de relevo do Brasil? Quando estava no curso de geografia, dei aula em escolas e ficava agoniado quando tinha de ensinar coisas ultrapassadas sobre o relevo brasileiro. Eu já conhecia uma parte do Brasil. Nas férias de janeiro, saía com algum amigo e viajávamos de carona em caminhão. Fomos até a Argentina, Uruguai, sul do Brasil, Goiás e Mato Grosso, para o Pantanal, depois para o Nordeste. Terminei a graduação e resolvi fazer mestrado em geomorfologia. Na metade do mestrado, surgiu a possibilidade de fazer geomorfologia para o RadamBrasil. Foi onde eu me firmei profissionalmente como geógrafo.
O que era o projeto Radam? O Radam foi um grande levantamento dos recursos naturais, entre os quais o do relevo brasileiro, que começou em 1970. Fui trabalhar para o Ministério de Minas e Energia, que administrava o projeto através do DNPM [Departamento Nacional de Produção Mineral]. Enquanto o Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] usava imagens de satélites, o Radam produzia os mapeamentos temáticos de geologia, geomorfologia, solos, vegetação e clima usando imagens de radar, mais fáceis de trabalhar porque as micro-ondas do radar atravessam as nuvens, que assim não atrapalham o levantamento. O trabalho começou pela Amazônia e por isso se chamava projeto Radam, de Radar da Amazônia, depois é que virou RadamBrasil. Nessa época o governo era muito cobrado porque não se conhecia direito o território e precisava mapear os recursos naturais. Eu morava com minha família em Goiânia e trabalhei no Radam de 1977 até 1983, na região centro-oeste e sul da Amazônia.
Dei aula em escolas e ficava agoniado quando tinha de ensinar coisas ultrapassadas sobre o relevo
Como era o trabalho de campo? Tínhamos as imagens de radar, com um pouco menos de 1 metro de comprimento, feitas por sobrevoos de avião, que mostravam basicamente as rugosidades do relevo. Íamos a campo para identificar as formas de relevo, a geologia, os tipos de solo e de vegetação. Viajávamos por terra, com uma Ford Willys, ou com avião bimotor em voo baixo, a 200 metros de altitude, fazendo ziguezague sobre a área objeto do mapeamento. As saídas eram longas, de 25 a 30 dias, tínhamos de dormir em rede, em barraca ou em hotelzinho de beira de estrada. Acampar ou amarrar a rede, era uma delícia, eu adorava. Fotografávamos tanto em terra como no ar, com helicóptero e avião, usávamos aqueles gravadores grandões, depois transcrevíamos e detalhávamos os mapas. Trabalhei em três grandes áreas em Goiás e no atual Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Triângulo Mineiro. Cada área era coberta com 16 folhas de imagens de radar. Cada folha, no corte internacional ao milionésimo, na escala de 1 para 1 milhão, tinha 16 mapas na escala 1 para 250 mil, portanto 48 mapas nessas três áreas, para cada tema de pesquisa.
Por que você resolveu sair do Radam e entrar na USP? Meu orientador do mestrado e doutorado, Adilson Avansi de Abreu, me alertou para o fato de que o Radam acabaria um dia e que eu deveria terminar o mestrado e buscar outro trabalho. Segui o conselho dele e terminei. Depois ele me avisou de um concurso na USP, para preencher a vaga do Ab’Saber, que tinha se aposentado. Comecei na USP em janeiro de 1983 e aos poucos vi o que poderia fazer. Refiz meu projeto de doutorado para aproveitar o material do Radam e examinar uma província serrana interessante, próxima a Cuiabá. Ao mesmo tempo comecei a dar aulas para a graduação. Montei uma disciplina extracurricular para os alunos interessados em imagem de radar. O laboratório de geomorfologia do Departamento de Geografia da USP tinha o acervo completo das imagens do Radam, que o Ab’Saber havia pedido antes de se aposentar. Essas aulas viraram uma disciplina optativa e me estimularam a fazer duas coisas, que me tomaram os 10 anos seguintes. A primeira foi a síntese do relevo brasileiro e a segunda o mapa geomorfológico do estado de São Paulo, os dois com base em imagens de radar e nos relatórios do RadamBrasil. Ambos foram praticamente uma continuidade do que se fazia no Radam, agora no Laboratório de Geomorfologia do Departamento de Geografia da USP.
Em seu mapa de relevo do Brasil, quais as inovações em relação ao que Aroldo de Azevedo e Ab’Saber tinham feito? Eram enfoques diferentes. Aroldo de Azevedo valorizou as diferenças de altitudes do relevo e fez um mapa apenas com planaltos e planícies, foi um desenho, uma figura de ilustração. Ab’Saber fez o mapa dos chamados domínios morfoclimáticos, unindo vegetação e relevo. Eu explorei as macroformas. Uma das inovações foi a incorporação das depressões, os corredores rebaixados entre os planaltos, já conhecidas desde a década de 1930, só não haviam sido ainda mapeadas. O RadamBrasil identificou as depressões, de Norte a Sul. Trabalhei nisso por três anos e o mapa saiu em 1989, publicado na Revista do Departamento de Geografia, aqui da USP, em 1990.
Ross entre gêiseres nos Andes 2015 (Acervo pessoal)
Quando o apresentou aos seus colegas? Um ano antes no simpósio de geografia física no Rio de Janeiro, em 1989. Estavam lá ex-colegas do Radam, que havia sido extinto quatro anos antes. Havia umas 300 pessoas assistindo, os congressos ainda eram pequenos e todos viam tudo. Depois da apresentação, meu ex-chefe perguntou: “Mas de onde você tirou esses conceitos de morfoestrutura e morfoescultura?”. Falei que vinha do meu aprendizado do doutorado, seguindo um conceito de alemães e russos que trabalham o relevo com duas perspectivas, a estrutural, que vem de dentro para fora, como os movimentos tectônicos, e a escultural, de fora para dentro, como o desgaste erosivo. E ele: “Legal, gostei”. O mapa chegou ao público não especializado por meio de reportagens nas revistas Nova Escola e Veja. Depois saiu no livro Geografia do Brasil (Edusp, 1996), que coordenei, e as editoras começaram a incorporá-lo em livros didáticos.
Você também foi consultor para a construção de hidrelétricas nos rios Xingu, Madeira, Iguaçu e Uruguai. Como foi essa experiência? Foi no final da década de 1980, quando começou a aplicação dos EIA-Rimas [estudos e relatórios de impacto ambiental] e havia um plano nacional da Eletrobras para implantar hidrelétricas, até 2010, em todos os rios da Amazônia oriental, porque os do lado ocidental não têm caimento suficiente. O Projeto Radam já tinha indicado algumas possibilidades. Fui chamado para ensinar ex-alunos e estagiários que trabalhavam nas empresas contratadas a usar imagens de radar para fazer mapeamento e análise geomorfológica. Eu ajudava nos mapas e relatórios.
As saídas do Radam eram longas, de 25 a 30 dias, tínhamos de dormir em rede. Uma delícia, eu adorava
Se você pudesse entrar agora em um helicóptero e o piloto perguntasse “vamos para onde?”, que lugares escolheria para revisitar ou conhecer? Vou ser pragmático, estou precisando fazer um sobrevoo na Chapada Diamantina, na Bahia. Nunca estive lá e estou orientando um doutorado sobre essa região. É um lugar muito interessante porque entre os relevos montanhosos há superfícies baixas e planas, com um clima de transição do Cerrado para a Caatinga, solo fértil e uma intensa agricultura irrigada. Tenho muita curiosidade de conhecer esse lugar.
Você conhece todos os estados brasileiros? Sim, embora não conheça todos inteiros. Já fui de Macapá até Oiapoque por estrada; de Boa Vista, Roraima, até Pacaraima, na divisa da Venezuela. Em maio de 2019 quase morri subindo a serra do Caparaó, na divisa de Minas Gerais com Espírito Santo. Durante a pandemia só tenho ido a uma casa que tenho em Boituva. Espero recomeçar a viajar assim que tiver tomado a vacina contra a Covid-19.
Aqui estão algumas questões bem elaboradas sobre o texto:
Sobre a trajetória de Jurandyr Luciano Sanches Ross:
Como a experiência de Ross no Projeto RadamBrasil influenciou sua carreira como geógrafo? Cite exemplos específicos de como esse projeto contribuiu para seu desenvolvimento profissional.
Divisão do território brasileiro:
O conceito dos “três Brasis” é central no trabalho de Ross. Explique como ele define essas três divisões e discuta a importância de cada uma para o entendimento do ordenamento territorial do Brasil.
Planejamento territorial e sustentabilidade:
Por que, segundo Ross, o planejamento territorial é importante para o Brasil? Quais são os principais desafios enfrentados na implementação de um ordenamento territorial adequado?
Impactos da agricultura e pecuária no Brasil:
Como a expansão da agricultura, particularmente a soja e a cana-de-açúcar, afeta diferentes regiões do Brasil, de acordo com o relato de Ross? Analise a importância do relevo na mecanização da agricultura.
Mudanças sociais e econômicas no semiárido nordestino:
O que Ross identificou como principais mudanças demográficas e econômicas no semiárido? Como essas transformações afetam a população e a estrutura econômica da região?
Amazônia e sustentabilidade:
Ross menciona uma experiência pessoal em Parintins, onde um agricultor passou a focar no cultivo de guaraná em vez da criação de gado. Como essa mudança reflete o potencial da Amazônia para uma economia sustentável? Quais são as principais lições que podem ser extraídas dessa história?
Contribuições científicas de Ross:
Além do mapa de relevo do Brasil, Ross menciona outros projetos importantes que marcaram sua carreira. Escolha um desses projetos e explique sua relevância para o estudo da geomorfologia no Brasil.
Geografia física e relevância das macroformas:
Qual foi a principal inovação introduzida por Ross em seu mapa de relevo do Brasil em comparação aos trabalhos anteriores de Aroldo de Azevedo e Aziz Ab’Saber? Como a inclusão das depressões no mapa contribui para um melhor entendimento do relevo brasileiro?
Relação entre geografia e políticas públicas:
Como o trabalho de Ross pode influenciar políticas públicas no Brasil, especialmente em relação à ocupação do solo e à preservação ambiental? Dê exemplos de como mapas e zoneamentos ecológico-econômicos podem ser utilizados em decisões governamentais.
A importância dos dados do IBGE e MapaBiomas:
Ross utiliza dados do IBGE e do MapaBiomas em seu trabalho. Qual é a importância desses dados para a análise e compreensão do uso e ocupação do território brasileiro?
Essas questões abordam tanto os aspectos técnicos da carreira de Ross quanto as implicações de suas pesquisas no contexto social e ambiental do Brasil.
Antonio Donato Nobre – Rios Voadores (Pesquisa FAPESP)
Os “rios voadores” têm um papel fundamental na dinâmica climática do Brasil. Eles são correntes de vapor d’água que se originam na floresta amazônica através do processo de evapotranspiração, onde as árvores liberam grandes quantidades de vapor na atmosfera. Este vapor é transportado pelos ventos para outras regiões do país, contribuindo significativamente para a formação de chuvas.
No Brasil, essas correntes de vapor afetam diretamente o clima das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Quando o vapor se encontra com massas de ar mais frias e se condensa, resulta em precipitação, trazendo chuvas essenciais para manter os níveis de água nos rios, reservatórios e para a agricultura. Esse processo é especialmente importante durante o período seco, ajudando a regular o ciclo da água e garantindo a umidade necessária para as plantações e o abastecimento urbano.
Sem eles, essas regiões seriam muito mais secas, enfrentando maiores riscos de estiagens e impactos severos na agricultura e no fornecimento de água. A floresta amazônica, ao liberar esse vapor, atua como um regulador climático natural, influenciando a temperatura e a umidade do ar. Dessa forma, os “rios voadores” destacam a importância da Amazônia para o equilíbrio climático do Brasil, mostrando como a conservação da floresta é vital para a sustentabilidade e a manutenção das condições de vida em diversas partes do país.
Questões
O que são os “rios voadores” e como eles se formam?
Qual é o papel da floresta amazônica na formação dos “rios voadores”?Como os “rios voadores” influenciam o clima em diferentes regiões do Brasil?
Por que a conservação da floresta amazônica é essencial para a manutenção dos “rios voadores”?
Como a ausência dos “rios voadores” poderia impactar a agricultura e o abastecimento de água no Brasil?
Explique como os ventos alísios contribuem para o movimento dos “rios voadores”.
De que maneira os “rios voadores” ajudam a regular as temperaturas e a umidade do ar nas regiões que eles atingem?
Qual é o impacto da expansão agrícola e do desmatamento na dinâmica dos “rios voadores”?
Como o conhecimento sobre os “rios voadores” pode contribuir para a conscientização ambiental e a preservação da Amazônia?