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    Ártico

    Aquecimento de região polar impõe reforma no Cofre Global de Sementes

    Marcelo Leite

    Lalo de Almeida

    1.mai.2018 – 02h00

    LONGYEARBYEN

    Frio e vento castigavam a encosta da montanha Platô (Platåberget, em norueguês), em frente ao aeroporto da cidade de Longyearbyen, na ilha Spitsbergen (Noruega). Os cantores do coral masculino Store Norske, porém, aguentaram firmes com seus macacões azuis e quepes brancos.

    Entoaram canções populares norueguesas debaixo de chuva, que nunca esteve no programa da cerimônia para comemorar o décimo aniversário do Cofre Global de Sementes.

    O ministro norueguês da Agricultura, Jon Georg Dale, duas dúzias de jornalistas e outro tanto de doadores de sementes ficaram molhados. Todos estavam preparados para neve, não para água, em pleno inverno ártico.

    Funcionário do Centro de Recursos Genéticos Nórdicos (NordGen) descarrega amostras de sementes para serem guardadas no Cofre Global de Sementes, nos arredores de Longyearbyen – Lalo de Almeida/Folhapress

    O cofre e o aeroporto ficam a 5 km do centro de Longyearbyen, cidade mais ao norte do planeta. Os termômetros costumam marcar -15ºC nessa época, não os 3ºC positivos daquele 26 de fevereiro, incomuns no local do paralelo 78ºN, a meros 1.300 km do polo Norte.

    Cerca de 2.000 pessoas vivem na capital do arquipélago de Svalbard. E muitos turistas se dispõem a pagar R$ 600 por diária de hotel para ver a aurora boreal, passear em motos de neve e encontrar ursos polares ameaçados de extinção pelo aquecimento global –desde que munidos de uma espingarda, para o caso de o animal estar faminto.

    No dia seguinte, choveu de novo. Muita gente foi embora de Svalbard sem ver a aurora boreal. A água congelou no chão, e os turistas que permaneceram no arquipélago ficaram confinados em seus hotéis.

    A reportagem da Folha tinha reservado a data para alcançar geleiras distantes que se encontram em retração por força da mudança do clima. Com a chuva, só pôde registrar imagens de enxurradas e poças em Longyearbyen e ao longo da rodovia que leva às minas de carvão.

    Na manhã seguinte, foi possível fazer uma incursão na geleira Longyear, a menor no topo do vale em que se abriga a vila. Duas estacas fincadas na neve marcam a entrada de uma caverna de gelo que o derretimento aprofunda todo verão.

    Depois de cavar bastante, o guia Francisco “Chicco” Mattos encontrou a escada de acesso. Brasileiro apaixonado pelo Ártico, ele vive há 7 anos em Longyearbyen, onde trabalha com produção de documentários. De início, a fenda se parece com uma toca de animal, mas logo se revela uma basílica comprimida de gelo marmoreado pelos resíduos de rocha que tritura há séculos, ou milênios.

    Paisagem de Longyearbyen com água acumulada pelo derretimento de gelo, uma consequência de temperaturas acima do normal no Ártico – Lalo de Almeida/Folhapress

    Foi uma semana atípica no Ártico. A região é a que mais tem esquentado no globo, ganhando pelo menos 4ºC nas últimas décadas, contra 1ºC no restante do planeta. No final de fevereiro, porém, o tempo batia recordes de esquisitice.

    No norte da Groenlândia, a estação Morris Jesup, uma das mais próximas do polo Norte, marcou mais de 60 horas de temperaturas positivas. O Ártico todo, segundo medições de satélite, esteve até 20ºC acima do normal. Em Svalbard, a média de fevereiro ficou 11ºC além do esperado.

    Não terá sido a primeira vez que uma reviravolta no tempo frustrou planos de humanos na cidade criada pelo americano John Munro Longyear em 1906. Mineiros de carvão, entretanto, tinham mais a temer com neve e avalanches, não com portas de carro imobilizadas pela chuva congelada.

    Acima, entrada de caverna de gelo que se aprofunda a cada ano pela ação de água corrente, no verão, com o degelo na geleira Longyear; abaixo, interior da caverna
    Acima, entrada de caverna de gelo que se aprofunda a cada ano pela ação de água corrente, no verão, com o degelo na geleira Longyear; abaixo, interior da caverna – Lalo de Almeida/Folhapress

    A transformação climática do Ártico criou percalços para o Cofre Global de Sementes, construído dez anos atrás pelo governo da Noruega por US$ 9 milhões (cerca de R$ 15 milhões à época) como um seguro para enfrentar as consequências do aquecimento global na agricultura.

    Desde então, 1.059.646 amostras únicas de sementes já foram depositadas no local, as últimas 76 mil em 26 de fevereiro, no décimo aniversário da instalação. São duplicatas de sementes guardadas em 73 bancos doadores espalhados pelo mundo, como o do Cenargen (Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia) em Brasília.

    A guerra civil na Síria inviabilizou uma importante coleção do Centro Internacional para Pesquisa em Agricultura de Áreas Secas (Icarda, na abreviação em inglês) na cidade de Aleppo. Com 92.430 duplicatas de Svalbard, a instituição pôde reconstituir o acervo no Líbano e em Marrocos, em 2015 (só a instituição que depositou as sementes pode sacá-las do banco gelado).

    “O problema mais básico da agricultura hoje em dia é que as sementes que nos alimentam não podem adaptar-se tão rápido à mudança do clima. As plantas e a humanidade se adaptaram ao mundo todo, mas isso levou dezenas de milhares de anos”, explica Haga.

    “Precisamos cruzar plantas que resistam a temperaturas mais altas, que tolerem salinidade mais alta no solo, que possam combater novas pragas e doenças. E essa diversidade de cultivares é a matéria-prima que usamos.”

    Um exemplo frequente do que se pode alcançar com cruzamentos de variedades é a soja, de clima temperado. Ela foi aclimatada pela Embrapa para cultivo no cerrado tropical e até na Amazônia equatorial.

    Uma única variedade comercial de trigo, como a “Veery”, desenvolvida nos anos 1980, resulta de 3.170 cruzamentos com 51 plantas oriundas de 26 países.

    Construir uma fortaleza gelada a fim de conservar diversidade para o futuro, 14 anos atrás, era uma ideia considerada maluca e talvez constrangedora para o governo norueguês, conta Cary Fowler, primeiro diretor do Crop Trust.

    Ele apresentou a proposta para o Ministério das Relações Exteriores em Oslo e ouviu de um jovem funcionário de alto escalão: “Dr. Fowler, o sr. está dizendo que esse é o recurso natural mais importante da Terra? E que Svalbard seria o melhor lugar da Terra para conservá-lo? Como poderíamos dizer não?”

    Svalbard pode ser o melhor local do mundo para guardar o tesouro, mas nem por isso está imune ao aquecimento global. A temperatura indicada para conservar sementes é -18ºC, e nada melhor, para economizar energia, do que usar um depósito numa montanha em que os termômetros variam entre -3ºC e -4ºC, mesmo durante o verão.

    Acima, porta coberta por gelo no Cofre Global de Sementes, em Longyearbyen; abaixo, funcionário da Nordgen manuseia caixas com amostras de sementes no interior do local – Lalo de Almeida/Folhapress

    Ao percorrer 130 m de túnel em ligeiro declive para alcançar a câmara frigorífica de 95 m², o visitante tem a sensação de que o interior da construção é mais quente que o exterior. Isso decorre da ausência de vento, mas também do fato de que a temperatura externa, em dias normais como o domingo (25/2), reservado para a equipe da Folha, estava vários graus mais negativa.

    Num ano típico, o cofre só é aberto três ou quatro vezes, quando há sementes para depositar. Na comemoração dos dez anos, houve mais de uma dúzia de aberturas, 11 delas para os times de reportagem credenciados. Um grupo por vez, acompanhado do pessoal do Centro de Recursos Genéticos Nórdicos (NordGen), que faz a zeladoria do cofre.

    Por razões de segurança, é proibido fotografar dentro do túnel escavado na rocha, mas foi possível constatar que existiam obras em curso. Svalbard se caracteriza pela presença do permafrost, o solo congelado de regiões de tundra, que não se recompôs como esperado em volta da célebre construção triangular que marca a entrada da fortaleza na encosta da Platåberget.

    O derretimento do permafrost representa um impacto do aquecimento global preocupante para os donos de imóveis em Longyearbyen, que correm o risco de vê-los afundar. No Cofre das Sementes, não causa problemas em suas três câmaras frias, cada uma com capacidade para 1,5 milhão de amostras, pois elas estão no meio de um maciço de pedra.

    Já o túnel apresentou infiltração de água desde os primeiros anos de funcionamento e agora será reconstruído para se tornar mais impermeável. A obra está orçada pelo governo norueguês em US$ 13 milhões (R$ 45 milhões), mais do que o valor investido na construção.

    O túnel será reforçado com concreto. Haverá novos recintos para abrigar equipamentos elétricos e de refrigeração capazes de manter a temperatura mesmo em caso de pane na energia elétrica. Os operadores do cofre asseguram que as sementes estocadas jamais estiveram em risco.

    As três câmaras ficam num grande átrio revestido de concreto que se abre ao final do túnel, com pé-direito de mais de 6 m, apelidado “catedral”. Há portas duplas de metal no nicho de entrada de cada uma, mas só a do meio está recoberta de cristais de gelo. É a única, por ora, refrigerada a -18ºC.

    Passaram dois anos até que se estabilizasse a temperatura desejada. Foi necessário que os compressores a diesel garantissem o resfriamento da camada de rocha em volta do compartimento, para evitar flutuações no frio de -18ºC. As equipes de reportagem tiveram só dez minutos de permanência na sala forte, para evitar que o calor corporal perturbasse o ambiente.

    Máquinas são usadas para reforma no Cofre Global de Sementes, em Longyearbyen
    Máquinas são usadas para reforma no Cofre Global de Sementes, em Longyearbyen – Lalo de Almeida/Folhapress

    São meia dúzia de corredores com estantes de aço até o teto, cheias de caixas de plástico. Dentro delas ficam os envelopes de grossa folha de alumínio revestida de plástico em que se acondicionam as sementes, seladas com apenas 5% de umidade interna. Nessas condições, elas podem germinar até um século depois de guardadas. Os idealizadores do Cofre das Sementes defendem que localizá-lo em Svalbard foi a decisão correta e que a ilha de Spitsbergen permanece como o melhor lugar para ele.

    “O aquecimento global e seu efeito no permafrost é uma grande irritação, mas não uma ameaça [para as sementes]”, afirma Cary Fowler.

    “Não importa aonde você for no planeta para armazenar sementes, sempre terá de rebaixar a temperatura que a natureza lhe oferece. Não há lugar na Terra onde você possa chegar e sair facilmente que lhe garanta uma temperatura de -18ºC constantes.”

    “No interior da montanha ainda teremos por vários séculos -4ºC”, defende Marie Haga, do Crop Trust. “Há outras vantagens: politicamente é uma parte do mundo muito estável, sem terremotos nem vulcões. E a comunidade de Longyearbyen toma conta do cofre. Se pessoas com más intenções entrarem na cidade, todos saberão na hora.”

    O meteorologista Kim Holmén, diretor internacional do Instituto Polar Norueguês, observa paisagem em Longyearbyen, a cidade mais ao norte do planeta – Lalo de Almeida/Folhapress

    “Quando contemplo geleiras que conheço há 30 anos, vejo que mudaram mais que minha mulher mudou”, lamenta o meteorologista Kim Holmén, diretor internacional do Instituto Polar Norueguês. Ele mora há nove anos em Longyearbyen e faz pesquisa em Svalbard há três décadas. Não economiza palavras para registrar a profunda transformação do Ártico.

    “Onde quer que eu olhe vejo mudanças óbvias. O fiorde ali fora da janela não está coberto de gelo. Nesta época do ano [fevereiro] costumava haver um metro, de fora a fora, e agora são águas abertas. A neve desaparece duas semanas antes na primavera”, diz.

    A espessura das geleiras diminui até 40 cm por ano. As temperaturas noturnas no inverno subiram dez graus nos últimos 30 anos, enquanto as do verão não subiram tanto, o que é consistente com os cálculos sobre como os humanos induzem a mudança do clima. “A lista é interminável.”

    A fauna local passa por mudança acentuada de perfil. Não são só os ursos polares que sofrem com o desaparecimento de gelo marinho usado como plataforma para emboscar focas.

    Tordas-anãs se veem forçadas a voar para o norte, em busca de copépodes com mais gordura armazenada em seu diminuto corpo de crustáceo. O bacalhau polar parte em busca de águas mais frias e placas de gelo em cujas frestas se abrigam os alevinos (filhotes). Outros peixes de águas mais quentes invadem o arquipélago, como a cavala, atrás da qual chegam novas espécies de pássaros, como o ganso-patola.

    No alto, capim brota em meio ao gelo nos arredores de Longyearbyen; no meio, paisagens com vegetação e água; acima, montes de carvão mineral na região do arquipélago de Svalbard – Lalo de Almeida/Folhapress

    “O urso polar é um símbolo para todo o ecossistema, mas o bacalhau polar é parte dele, assim como a baleia beluga, os narvais e outras espécies que dependem do gelo marinho”, diz Holmén. “Há poucos de nós privilegiados o bastante para ver ursos polares em seu habitat natural. Muita gente acha que o mundo estará mais pobre se o urso polar desaparecer.”

    Algumas dessas pessoas, caso tenham recursos e coragem para enfrentar o frio, visitam Svalbard na esperança de contemplar o urso ameaçado. Circulam pela ilha de Spitsbergen em carros movidos a diesel e motos de neve que queimam gasolina.

    No caminho do aeroporto, a usina termelétrica consome a energia fóssil do carvão para aquecer hotéis e restaurantes –além de agravar o efeito estufa e alimentar os geradores que mantêm o Cofre das Sementes a -18ºC.

    Cidade de Longyearbyen, a mais ao norte do planeta, localizada no arquipélago de Svalbard, Noruega – Lalo de Almeida/Folhapress

    A Noruega paga pelo Cofre das Sementes, pôs US$ 1 bilhão (R$ 3,5 bilhões) à disposição do Fundo Amazônia para atividades que reduzam a pressão sobre a floresta brasileira e dá pesado incentivo fiscal para eletrificar sua frota de carros. No entanto, quase toda sua riqueza deriva do petróleo e do gás natural, que produz e exporta a partir do Mar do Norte.

    “Como um país rico que obtém renda de combustíveis fósseis, temos de mudar nossa economia, pois sabemos que a indústria de óleo e gás será menos importante no futuro”, concede Ola Elvestuen, ministro de Clima e Ambiente da Noruega.

    “Não é algo que possamos simplesmente desligar. Precisamos estar na vanguarda da redução de emissões, assumir responsabilidade pela nossa parte e pensar em como podemos tornar nossa economia mais diversificada.”

    “A indústria é parte da solução, não é inimiga. Você e eu somos parte do problema, eu e você somos parte da solução. Se não começarmos a fabricar e consumir produtos que requeiram menos petróleo, nada irá mudar”, pondera Kim Holmén, do Instituto Polar Norueguês.

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/artico/aquecimento-de-regiao-polar-impoe-reforma-no-cofre-global-de-sementes/

    Questões

    Qual a importância de um Cofre Global de Semente e por que ele foi construído no norte da Noruega?

    A fonte energética dos geradores do Cofre revela uma contradição. Justifique.

  • O que são mudanças climáticas e outras 14 perguntas para entender o fenômeno

    O que são mudanças climáticas e outras 14 perguntas para entender o fenômeno

    1. O que são as mudanças climáticas?

    O termo mudança climática é mais amplo do que aquecimento global, que se refere apenas ao aumento da temperatura.

    O que se chama de mudanças climáticas inclui temperatura, intensidade das chuvas e eventos climáticos extremos, como furacões e ondas de calor.

    O clima do planeta muda constantemente ao longo do tempo. A temperatura média global atualmente é de 15ºC, e evidências geológicas indicam que ela já foi bem mais alta e bem mais baixa no passado.

    No entanto, o período atual de aquecimento está ocorrendo mais rápido do que no passado. Cientistas temem que as flutuações naturais no clima têm sido superadas por um aquecimento rápido induzido pelo homem com sérias implicações para a estabilidade climática do planeta.

    Não há mais dúvida de que essas mudanças são devidas em grande parte à atividade humana, especificamente à emissão na atmosfera de grandes quantidades de gases do efeito estufa, como CO² e metano.

    Cidade sob o sol
    2018 foi o quarto ano mais quente desde que os registros de temperatura começaram, em 1850

    2. O que é o efeito estufa?

    Esse fenômeno se refere à maneira com que a atmosfera da Terra retém parte da energia do sol. A energia solar que reflete na superfície terrestre em direção ao espaço é absorvida pelos gases do efeito estufa e reemitida em todas as direções.

    Ela passa então a aquecer tanto zonas mais baixas da atmosfera quanto a superfície terrestre. Sem esse efeito, a Terra seria quase 30ºC mais fria, tornando o planeta hostil à vida.

    Cientistas afirmam que o homem está acrescentando ao efeito estufa natural gases resultantes da indústria e da agricultura (chamados também de emissões), levando a uma retenção maior da energia solar e aumentando a temperatura do planeta. Isso é o que costuma se chamar hoje de aquecimento global.

    O mais importante dos gases do efeito estufa, em termos de impacto no aquecimento, é o vapor d’água, mas suas concentrações apresentam mudanças pequenas que persistem na atmosfera apenas por alguns dias.

    O gás carbônico (CO₂), no entanto, persiste por muito mais tempo (levaria séculos para retornarmos aos níveis pré-industriais). Além disso, apenas uma parte do CO₂ pode ser absorvido por reservatórios naturais como os oceanos.

    A maioria das emissões humanas de gás carbônico são oriundas da queima de combustíveis fósseis. Quando florestas capazes de absorver CO₂ são derrubadas por madeireiras ou queimadas para serem transformadas em pasto, o carbono aprisionado ali também volta à atmosfera, contribuindo para o aquecimento global.

    Outros gases do efeito estufa, como o metano, também são emitidos em atividades humanas, mas a concentração deles é pequena em comparação à do dióxido de carbono.

    Desde o início da revolução industrial, em torno de 1750, os níveis de CO₂ aumentaram mais de 30% e os de metano, mais de 140%. A concentração de dióxido de carbono na atmosfera é hoje a mais alta em 800 mil anos, pelo menos.

    Urso polar nada no oceano
    As geleiras do Ártico diminuíram nos últimos anos

    3. Quais são as evidências do aquecimento global?

    Registros de temperaturas desde o século 19 mostram que a temperatura média da superfície da Terra cresceu 0,8ºC nos últimos cem anos. Quase 0,6ºC desse total ocorreu nas últimas três décadas.

    Os 20 anos mais quentes já registrados ocorreram nos últimos 22 anos, liderados pelo período entre 2015 e 2018.

    Ao redor do planeta, o nível médio do mar cresceu 3,6 mm por ano entre 2005 e 2015. A maior parte dessa mudança ocorre em razão da expansão térmica da água do mar. Com o aumento da temperatura dela, as moléculas se tornam menos densas, levando ao aumento do volume do oceano.

    Pessoas em meio a enchente em Moçambique
    Ciclones que atingiram a África nos últimos dois meses deixaram centenas de mortos

    Mas a redução da massa de gelo nos polos tem sido considerada o principal fator nessa tendência. A maioria das geleiras em regiões temperadas do mundo e ao longo da península da Antártida está diminuindo.

    Desde 1979, imagens de satélite mostram um declínio dramático na extensão de gelo no Ártico, a uma velocidade de 4% por década. Em 2012, essa faixa atingiu seu patamar mais baixo, que é 50% menor que a média entre 1979 e 2000.

    A camada de gelo na Groenlândia tem passado por um derretimento recorde nos últimos anos. Se todo esse gelo derreter, elevaria os níveis do mar em 6 metros.

    Dados de satélite mostram que a camada de gelo oeste da Antártida também está perdendo massa, e um estudo recente indicou que o lado leste da região, que não tem apresentado qualquer tendência de aquecimento ou resfriamento, pode ter começado a perder massa nos últimos anos.

    Mas cientistas não esperam mudanças drásticas. Em alguns lugares, a massa pode inclusive crescer, já que o aumento da temperatura pode levar à produção de mais neve.

    Os efeitos das mudanças climáticas também podem ser vistos na vegetação e nos pastos. Eles incluem mudanças nos ciclos de vida das plantas, como uma floração antecipada, e alterações nos territórios ocupados por animais.

    4. Quanto as temperaturas vão subir no futuro?

    Em uma ampla análise científica de 2013, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) previu uma série de cenários baseados na modelagem computacional. A maioria das simulações indica que a temperatura na superfície terrestre deve subir 1,5ºC até o fim do século 21, em relação a 1850.

    A Organização Meteorológica Mundial afirma que, caso a atual tendência de aquecimento se mantenha, as temperaturas podem subir de 3ºC a 5ºC até o fim do século.

    Um patamar de 2ºC tem sido considerado, há muito tempo, como a porta de entrada para um cenário mais perigoso. Recentemente, cientistas e formuladores de políticas públicas reviram a cifra e afirmaram que o aumento da temperatura não deveria passar de 1,5ºC.

    Média de aquecimento global projetada para 2100

    Ainda assim, um relatório do IPCC publicado em 2018 mostra que mesmo a meta de 1,5ºC exigiria “mudanças rápidas, amplas e sem precedentes em todos os aspectos da sociedade”.

    Mesmo com a redução drástica das emissões de gases que agravam o efeito estufa, cientistas afirmam que levaria décadas para retirá-los da atmosfera e por isso o impacto no clima continuaria por anos sobre grandes volumes de água e gelo.

    5. Como a mudança do clima vai nos afetar?

    Há vários graus de incerteza sobre o tamanho do impacto do aquecimento global. Mas as mudanças decorrentes dele podem levar à escassez de água doce, a uma transformação radical da capacidade global de produzir alimentos, além do aumento de mortes por inundações, tempestades, ondas de calor e seca.

    Isso ocorreria porque estima-se que as mudanças climáticas devem aumentar a frequência de eventos climáticos extremos, ainda que seja muito difícil associar qualquer evento isolado ao aquecimento do planeta como um todo.

    Cientistas preveem mais chuvas em geral, mas apontam um risco maior de seca em regiões afastadas do litoral. Tempestades e aumento do nível do mar devem levar também a mais inundações. Haveria, no entanto, alta variação desses fenômenos ao longo das regiões.

    Países mais pobres, que são menos preparados e equipados para lidar com mudanças bruscas, podem sofrer mais com as transformações.

    Há previsões também de extinção de animais e plantas incapazes de se adaptar à mudança rápida do habitat, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que a saúde de milhões de pessoas pode ser ameaçada pelo avanço da malária, de doenças transmitidas pela água e da desnutrição.

    Com o aumento do CO₂ emitido na atmosfera, há um avanço da captura desse gás pelos oceanos, o que torna a água mais ácida. Esse processo contínuo pode representar grandes problemas para os recifes de coral do mundo, pois as mudanças na química impedem que os corais formem um esqueleto calcificado, essencial para sua sobrevivência.

    Modelos gerados por computador são usados nos estudos das dinâmicas do clima terrestre e levam a projeções sobre mudanças de temperatura.

    Esses cenários variam em torno da “sensibilidade climática”, a exemplo do peso de cada elemento (como o CO₂) no aquecimento ou no resfriamento. E mostram diferenças no modo com que esses “feedbacks climáticos” podem ocorrer.

    O aquecimento global causará algumas mudanças que provavelmente levarão a mais aquecimento, como a liberação de grandes quantidades de metano dos gases de efeito estufa à medida que derrete o permafrost (solo permanentemente congelado encontrado principalmente no Ártico). Isso é conhecido como feedback positivo sobre o clima.

    Mas feedbacks negativos podem compensar o aquecimento. Vários “reservatórios” na Terra absorvem CO₂ como parte do ciclo do carbono – o processo pelo qual o carbono é trocado entre, por exemplo, os oceanos e a terra.

    A questão é: como eles vão se equilibrar?

    6. Que países são os maiores emissores de gases do efeito estufa?

    Os países que emitem mais gases de efeito estufa são, de longe, a China e os EUA. Juntos, eles são responsáveis por mais de 40% do total global de emissões, de acordo com dados de 2017 do Centro Comum de Pesquisa da Comissão Europeia e da Agência Holandesa de Avaliação Ambiental (PBL).

    A política ambiental dos EUA mudou sob o governo de Donald Trump, que adotou uma agenda pró-combustíveis fósseis.

    Os maiores emissores de gases de efeito estufa

    Depois de tomar posse, o presidente americano anunciou a retirada do país do Acordo de Paris, referente à mitigação das mudanças climáticas.

    Na ocasião, Trump disse que queria negociar um novo acordo “justo” que não prejudicasse as empresas e trabalhadores americanos.

    7. Quais são as maiores companhias poluidoras do mundo?

    Um estudo do instituto de pesquisas Climate Accountability Institute, com sede nos Estados Unidos, diz que um grupo de 20 empresas é responsável por mais de um terço das emissões de gases causadores do efeito estufa em todo o mundo desde 1965. A estatal brasileira Petrobras aparece na lista, na 20ª posição.

    Segundo a análise, as 20 empresas produtoras de petróleo, gás natural e carvão foram responsáveis por 480,16 bilhões de toneladas de dióxido de carbono e metano liberados na atmosfera nesse período.

    O montante representa 35% das emissões totais de combustíveis fósseis e cimento, que foram de 1,35 trilhão de toneladas.

    Esse cálculo é baseado na produção anual de petróleo, gás natural e carvão relatada pelas empresas, e leva em conta as emissões desde a extração até o uso final do combustível.

    A Petrobras disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que tem buscado aplicar em suas operações “tecnologias que têm como consequência direta a redução da intensidade de carbono, com resultados significativos já alcançados”.

    Segundo comunicado da empresa, “desde 2008, já foram reinjetadas 9,8 milhões de toneladas de CO2 dos campos de pré-sal na Bacia de Santos”, e até 2025, “a companhia projeta reinjetar cerca de 40 milhões de toneladas de CO₂”.

    No processo de reinjeção, o CO₂ é separado do petróleo e do gás extraído do poço e reinjetado de volta, aumentando também a pressão interna — o que acaba por induzir uma produção maior.

    8. Qual é o impacto econômico das mudanças climáticas?

    No último século, as mudanças climáticas aumentaram a desigualdade entre as nações, puxando para baixo o crescimento econômico dos países mais pobres e aumentando a prosperidade de alguns dos países mais ricos do planeta, aponta um estudo da Universidade Stanford, na Califórnia.

    Segundo pesquisadores, o Brasil teria tido um crescimento 25% maior se não fossem os efeitos do aquecimento global.

    “Os dados históricos mostram claramente que as plantações são mais produtivas, e as pessoas são mais saudáveis e mais produtivas no trabalho quando as temperaturas não são nem tão quentes nem tão frias”, explica um dos autores da pesquisa, Marshal Burke, do Earth System Science, de Stanford.

    Indianos usando computador
    O aquecimento global prejudicou economias como a da Índia e de vários países da África, diz o estudo

    De acordo com a pesquisa, entre 1961 e 2010, todos os 18 países com emissões históricas que totalizam menos de 10 toneladas de dióxido de carbono per capita foram impactados negativamente pelo aquecimento global. Eles tiveram, em média, uma redução de 27% no PIB per capita comparado a um cenário sem alta nas temperaturas.

    Por outro lado, 14 dos 19 países cujas emissões ultrapassam 300 toneladas de dióxido de carbono per capita se beneficiaram do aquecimento global, tendo um crescimento médio adicional de 13% no PIB.

    9. O aquecimento global causa eventos climáticos extremos?

    Fenômenos climáticos se intensificaram em relação à média dos anos anteriores.

    As ondas de calor que atingiram a Europa em 2018 foram duas vezes mais prováveis ​​devido ao aquecimento global, de acordo com o consórcio World Weather Attribution (WWA).

    O aumento da temperatura na atmosfera e nos oceanos também está tornando furacões e tempestades mais intensos.

    “Podemos ver os traços das mudanças climáticas em todos os eventos extremos”, diz o cientista holandês Geert Jan van Oldenborgh, membro da WWA.

    É muito difícil provar que um evento específico foi “causado” pelas mudanças climáticas.

    Mas para o professor Michael Mann, da Universidade Estadual da Pensilvânia, perguntar se a mudança climática “causa” um evento específico é fazer a pergunta errada.

    “A questão relevante é a seguinte: as mudanças climáticas afetam esses eventos e os tornam mais extremos? E podemos dizer com bastante confiança que a resposta é positiva”.

    10. Quais são os impactos dessas mudanças nos oceanos?

    Os oceanos absorvem quase um terço das emissões de CO₂.

    Mas esse processo tem trazido um grande efeito indesejado – a diminuição do pH da água, tornando-a mais ácida.

    A chamada acidificação das águas oceânicas abala a fixação do carbonato de cálcio em conchas, ouriços do mar, ostras e outras espécies, causando o declínio de grupos sensíveis (a exemplo das estrelas do mar) e colocando em risco ecossistemas marinhos, como os recifes de coral. Estes são vitais à pesca por funcionarem como “berços” para peixes.

    Desse modo, o risco à descalcificação coloca toda a cadeia alimentar em perigo.

    11. As ondas de frio contradizem os indícios de aquecimento global?

    O clima é um panorama mais prolongado e completo dos padrões de tempo. Ele se refere às condições que prevalecem em uma região ou em toda a Terra, e pode ser estudado com uma análise das tendências históricas.

    Quando falam em clima, os cientistas estão se referindo à situação do planeta todo, ao longo do tempo. Ou seja, mesmo que esteja fazendo mais frio que a média em uma região específica, o mundo como um todo está, na média, mais quente – é isso que apontam centenas de estudos feitos por cientistas no mundo todo ao longo de décadas.

    Esse aquecimento da temperatura média da Terra – que cientistas creditam aos gases de efeitos estufa produzidos por ação humana – provoca eventos climáticos extremos, desde inundações na África até seca no Brasil, passando por invernos muito mais rigorosos na América do Norte.

    Gelo do mar Ártico diminuiu

    Em sua página na internet voltada para crianças, a Agência Espacial Americana (Nasa) explica que devemos esperar tempos frios mesmo que as temperaturas do planeta estejam aumentando de forma geral.

    “O caminho até um mundo mais quente terá muitos episódios de tempos extremamente quentes e extremamente frios”, diz o site da agência.

    Isso porque as mudanças climáticas incluem alterações na forma como correntes marítimas, correntes de vento e outros fenômenos meteorológicos funcionam ao redor do mundo, gerando eventos meteorológicos extremos – tanto de frio quanto de calor.

    12. O que é pegada de carbono?

    Trata-se da quantidade de carbono emitida por um indivíduo ou uma organização por um período determinado, ou emitida durante o processo de fabricação de um produto.

    Recentemente, a jovem ativista sueca Greta Thunberg realizou um giro pela Europa de trem para levar sua mensagem sobre a urgência de se enfrentar o que descreveu como a “crise existencial” das mudanças climáticas.

    Thunberg se recusou a viajar de avião sob o argumento de que queria reduzir sua pegada de carbono. Estima-se que, em uma viagem de trem, uma pessoa gera 15g de CO₂ por km. De avião, são 100g por km.

    13. E neutralidade de carbono?

    É um processo no qual as emissões de CO₂ são equivalentes a zero.

    A Costa Rica anunciou recentemente seus planos de atingir o “carbono zero” até 2050. Isso não significa, no entanto, que o país não emitirá gases do efeito estufa.

    Quando se fala de emissões líquidas equivalentes a zero, isso significa que o CO₂ lançado na atmosfera deve ser compensado pela absorção do carbono por outros métodos, com o plantio de florestas.

    14. A tecnologia pode ser usada para reverter ou frear esse processo?

    A geoengenharia é a área da tecnologia que poderia ser usada para deter ou mesmo reverter o aquecimento global. Entre os mecanismos estão, por exemplo, a captura do CO₂ da atmosfera e seu armazenamento de forma subterrânea.

    Há também tentativas como o lançamento de para-sóis para refletir a luz solar ou mesmo espelhos gigantes com o mesmo fim.

    Alguns cientistas alertam, no entanto, que estes itens são tecnologias de eficácia pouco comprovada.

    Outros afirmam que a geoengenharia será necessária ante a falta de medidas drásticas para reduzir as emissões de CO₂.

    15. Há um ponto em que a situação não terá mais volta?

    Os chamados mecanismos de retroalimentação podem ser positivos (aumentam o ritmo do aquecimento) ou negativos (desacelerando o processo).

    Um dos exemplos mais fortes de retroalimentação positiva é a chamada “Amplificação Ártica”, que explica por que as temperaturas têm, em média, aumentado mais no Ártico do que no resto do planeta.

    O gelo reflete a luz do sol, mas ao derreter surge o oceano escuro, que absorve essa radiação, esquenta e faz com que mais gelo derreta.

    Tendo em vista esses mecanismos de retroalimentação, há o que se chama de “ponto sem retorno”, ou seja, as mudanças climáticas ultrapassam o nível limítrofe em que será muito mais difícil detê-las ou revertê-las.

    Em outras palavras, o processo se agravaria por sua própria dinâmica interna, independente das ações que possam ser tomadas para reduzir a emissão de gases do efeito estufa.

    Línea

    https://www.bbc.com/portuguese/geral-50019998

    Prof Luciano Mannarino

  • Demanda por combustíveis fósseis mostra fragilidade das energias renováveis

    Demanda por combustíveis fósseis mostra fragilidade das energias renováveis

    Transição energética é o maior desafio da humanidade, mas poucos compreendem os sacrifícios para chegarmos lá

    19.out.2021 às 21h3

    Em seu recente livro, “How to Avoid a Climate Disaster” (Como evitar o desastre climático), Bill Gates define o “ágio verde” (“green premium”) como a diferença de custo entre fazer algo (produto, serviço ou atividade) da maneira tradicional (com emissão de carbono) e fazer o mesmo de forma limpa, “verde”.

    Organismos multilaterais e governos de países desenvolvidos têm forçado as empresas a implementar uma transição rápida para o mundo verde. Do lado privado, a mudança no comportamento do consumidor de países ricos e o ESG também contribuem na mesma direção.

    A transição energética – cuja meta é alcançar zero emissões líquidas em 2050–, é o maior desafio que a humanidade já teve, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). Poucos, no entanto, compreendem a magnitude dos sacrifícios necessários para chegarmos lá.

    Operações de extração de petróleo em Midland, nos Estados Unidos – Nick Oxford – 11.mai..2021/Reuters

    O ágio verde ainda é muito alto, e o encarecimento dos produtos frequentemente os torna inacessíveis para a população de mais baixa renda. A fabricação de aço mais limpo custa 30% mais caro, e o querosene de aviação mais limpo custa mais que o dobro que o tradicional.

    Os ambientalistas argumentam que este é um preço baixo a pagar para salvar a humanidade da catástrofe das mudanças climáticas. Mas não são os ambientalistas da ONU que pagam este “imposto verde”. Ao contrário dos pobres no Brasil e em países subdesenvolvidos, a população de países ricos pode se dar ao luxo de pagar mais caro.

    Neste ano, a volta à normalidade econômica em um cenário ainda com rupturas das cadeias de suprimento por conta da pandemia revelou a fragilidade da transição: irrompeu uma crise energética global. A crise elevou os preços do carvão, gás natural e petróleo, que por sua vez encarecem quase todos os produtos e aumentam o ágio verde. É o greenflation (inflação dos produtos verdes).

    A China tem sofrido com cortes de energia elétrica e racionamento; quase 150 mil empresas em Guangdong sofreram cortes em setembro. O crescimento econômico chinês, pujante no primeiro semestre, desacelerou significativamente neste terceiro trimestre, para 4,9%.

    A Europa está sob ameaça de apagões e diminuição de produção, em particular com a chegada do inverno. A crise hídrica no Brasil está conectada com a escassez de energia na Europa e Ásia. O Brasil tem importado uma quantidade recorde de gás natural liquefeito, contribuindo com a alta de preços internacionais e a alta nas tarifas de energia por aqui. Ironicamente, o mundo está no momento dependendo de mais combustíveis fósseis.

    A Aneel estipula três níveis de tarifas, conforme a produção de energia nas hidrelétricas do país. Os patamares de tarifa são denominados por cores: verde, amarelo e vermelho (que é dividido em nível 1 e 2)
    Aneel estipula três níveis de tarifas, conforme a produção de energia nas hidrelétricas do país. Os patamares de tarifa são denominados po Lucas Lacaz Ruiz/Folhapress

    Porém, a despeito dos aumentos de preços dos combustíveis fósseis, não há aumento correspondente na sua produção. Nos últimos dez anos, os investimentos em exploração e produção das maiores petroleiras caíram à metade e migraram para a transição para energia renovável.



    As energias solar e eólica são intermitentes e difíceis de armazenar. E são muito deficientes em uma métrica importante: o EROI (uma comparação entre energia economizada e energia utilizada). Por exemplo, é preciso muito alumínio, cobre e outros metais –que consomem muita energia em sua fabricação– para fabricar turbinas eólicas e painéis solares.

    Está claro que a transição rápida para a economia de baixo carbono será conturbada e pode não ocorrer no prazo almejado pelos organismos multilaterais. Quando se mexe na matriz energética, algo complexo e interdependente, de cima pra baixo, de forma brusca, aumenta o risco e a fragilidade do sistema. Isso ficou explicitado pela crise global. Enquanto não se superam os imensos desafios tecnológicos para energia renovável acessível, uma solução pode ser a energia nuclear.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helio-beltrao/2021/10/demanda-por-combustiveis-fosseis-mostra-fragilidade-das-energias-renovaveis.shtml

    Questões

    1 Quais são as críticas as fontes solar e eólica presente na reportagem?

    2 O que se entende como “ágio verde”?

    3 Por que a “transição energética” é o maior desafio que a humanidade tem diante de si?

    Energia insustentável

    Energia nuclear pode ser aliada contra a mudança climática?

    CLIMA E FATORES DO CLIMA (vídeo e atividades)

    Prof Luciano Mannarino

  • Energia nuclear pode ser aliada contra a mudança climática?

    Energia nuclear pode ser aliada contra a mudança climática?

    Opção gera poucos gases de efeito estufa, muito menos que o carvão, o gás ou a energia solar

    18.out.2021 às 6h00

    Julien MiviellePARIS | AFP

    É a pergunta que não quer calar: A energia nuclear, que não emite gases de efeito estufa, pode salvar o clima ou ao menos ajudar enquanto as energias renováveis são desenvolvidas? Especialistas e países parecem divididos sobre o assunto.

    “Tudo o que permite reduzir as emissões é uma boa notícia”, respondeu o diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, ao ser questionado pela AFP sobre o papel da energia nuclear e das renováveis.

    “Todas as fontes de eletricidade limpa me satisfazem”, acrescentou.

    Uma das principais vantagens da energia nuclear, que representa em torno de 10% da produção mundial de eletricidade, é que não emite diretamente dióxido de carbono (CO2).

    Usina nuclear francesa em Civaux – Stephane Mahe – 8.out.2021/Reuters

    Mesmo quando se analisa o conjunto de seu ciclo de vida, considerando as emissões vinculadas à extração de urânio ou ao concreto das usinas, gera poucos gases de efeito estufa, muito menos que o carvão, o gás ou a energia solar.

    A energia nuclear avança “na maioria” dos cenários dos especialistas climáticos da ONU (IPCC) para limitar o aquecimento do planeta a 1,5ºC, em comparação com o final do século 19.

    Esta fonte parece estar destinada a desempenhar um papel-chave, especialmente quando o mundo precisar de mais eletricidade para substituir as energias fósseis, como no transporte rodoviário.

    Sendo assim, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) aumentou suas projeções pela primeira vez desde a catástrofe de Fukushima em 2011 e prevê agora que a potência instalada será duplicada até 2050, no cenário mais favorável.

    A China lidera os países com mais reatores novos. “Muitos estão considerando introduzir a energia nuclear para apoiar a produção de energia confiável e limpa”, acrescenta o órgão com sede em Viena.

    Seu diretor-geral, o argentino Rafael Grossi, vê um sinal de que o mundo está cada vez mais consciente de que essa energia “é absolutamente vital para alcançarmos” a neutralidade do carbono em meados do século.

    Este objetivo será central na próxima grande cúpula sobre o clima, a COP26, programada para novembro no Reino Unido.

    Por outro lado, os cientistas do IPCC reconhecem também que a “futura implantação da [energia] nuclear pode ser limitada pelas preferências da sociedade”.

    Em alguns países, essa energia ainda possui uma imagem ruim por causa do risco de catástrofes ou do antigo problema dos resíduos, que continua sem solução.

    Na União Europeia (UE), por exemplo, a divisão é nítida e esquenta os debates sobre se o setor nuclear deve ser considerado uma atividade benéfica para o clima e o meio ambiente.

    A Alemanha decidiu abandonar essa fonte de energia progressivamente após a catástrofe de Fukushima, mas outros países da Europa central a veem como uma alternativa à sua dependência do carvão.

    A cidade de Namie, na província de Fukushima (Japão), classificada como de difícil retorno devido à radiação após acidente nuclear causado por terremoto e tsunami
    A cidade de Namie, na província de Fukushima (Japão), classificada como de difícil retorno devido à radiação após acidente nuclear causado p Rodrigo Sicuro/FolhapressMAIS 

    A opinião pública também não é unânime. “Na República Tcheca, a energia nuclear é vista como uma fonte de eletricidade confiável e relativamente barata”, afirma Wadim Strielkowski, especialista da Prague Business School.

    Já os críticos –geralmente defensores do pacifismo como o Greenpeace– abandonam seus tradicionais argumentos para se concentrarem na eficácia.

    O custo das renováveis não parou de cair, enquanto os grandes projetos nucleares se tornaram grandes e caros, geralmente com enormes custos adicionais.

    Os novos projetos nucleares são “muito mais caros e mais lentos que as renováveis”, estima Mycle Schneider, autor de um relatório anual crítico e para quem investir neste setor “agrava a crise climática”.

    No entanto, a indústria nuclear estima que ainda não ditou sua última palavra.

    Há alguns anos, tem seus olhos voltados para os pequenos reatores modulares (SMR, nas siglas em inglês): mais simples, fabricados em série e menos propensos a custos adicionais.

    “O futuro da energia nuclear (…) poderia passar pelos pequenos reatores”, estima Strielkowski. No entanto, apesar do interesse manifestado por vários países, só a Rússia lançou de fato uma usina que faz uso dessa tecnologia.

    https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2021/10/energia-nuclear-pode-ser-aliada-contra-a-mudanca-climatica.shtmlicos

    Questões.

    1 Por que a Energia Nuclear pode ser uma aliada contra a mudança climática?

    2 Aponte críticas quanto a produção de energia elétrica a partir da fonte nuclear.

    3 Quais foram os objetivos do Programa Nuclear Brasileiro?

    4 O que foi a “catástrofe de Fukushima”?

    5 Como é produzido energia elétrica a partir da fonte nuclear?

    Dez anos após Fukushima, energia nuclear cresce com China e crise climática

    Centrais Termonucleares (avaliação)

    Investimentos na matriz eólica superam R$ 187,1 bi na última década

    Energia insustentável

    Desarmamento nuclear é nobre, mas algo limitado pela política (atividade)

    Prof Luciano Mannarino

  • Mulheres se tornam peças-chave na transição demográfica e econômica da China

    Mulheres se tornam peças-chave na transição demográfica e econômica da China

    Ouvir as demandas delas é necessário também para a própria legitimidade do Estado-Partido chinês

    16.out.2021 às 10h00

    Tatiana Prazeres

    PEQUIM

    As expectativas do governo chinês mudaram tão rapidamente que as propagandas nas ruas ainda mantêm o padrão antigo da “família margarina”. No metrô de Pequim, por exemplo, é possível ver um anúncio do Templo do Céu, um dos cartões postais da capital, em que pais jovens aparecem com duas crianças —um menino e uma menina—, todos felizes num passeio em um dia de céu azul.

    Após a política do filho único imperar durante 36 anos, o governo passou a estimular a formação de famílias maiores. A grande mudança ocorreu em 2015, quando ter um segundo filho foi permitido. Em maio de 2021, foi a vez de o terceiro ser autorizado. Assim, os cartazes do metrô já estão desatualizados.

    0
    Chinesas em um vagão de metrô exclusivo para mulheres em Guangzhou, capital da província de Guangdong, a mais populosa do país  – Giulia Marchi – 5.fev.18/The New York Times

    Políticas de planejamento familiar são tão debatidas na China que, horas depois do anúncio da última mudança, a hashtag #apolíticadoterceirofilhochegou teve 1,76 bilhão de visualizações na rede Weibo.

    Essa guinada acontece porque uma crise demográfica bate à porta da China, algo que ficou evidente no censo divulgado neste ano. As mulheres chinesas têm, em média, 1,3 filho, taxa bem abaixo do necessário para a reposição da população, de 2,1 filhos. Por isso, a população deve começar a encolher em breve.

    A redução populacional preocupa sobretudo devido às repercussões econômicas. A diminuição da força de trabalho limita o potencial de crescimento do país e, sem o bônus demográfico de tempos atrás, há menos gente produzindo e mais gastos com saúde, previdência e assistência social aos idosos.

    O temor é o de que, como em outros países, a China fique presa na armadilha da renda média, em que, após atingir certo nível de riqueza, vem a estagnação, impedindo-a de alcançar um padrão de renda alta.

    Para enfrentar esse desafio, o comando central chinês, formado em sua maioria por homens, precisa ouvir e olhar para as chinesas, peças-chave na transição demográfica e econômica do país.

    Na China de hoje, os casamentos estão em baixa, os divórcios em alta, e o interesse em ter dois filhos —quem dirá três— não é grande. Logo que as autoridades anunciaram que os casais poderiam ter três filhos, a agência estatal de notícias Xinhua pensou ser uma boa ideia conduzir uma enquete online: “Você está pronto para a política de três filhos?”. Resultado: “Não considero, de jeito nenhum, ter três filhos” foi a resposta mais selecionada, muito à frente das demais. A enquete rapidamente saiu do ar.

    As mulheres são as que mais hesitam, pois sabem que, apesar de mudanças significativas nas últimas quatro décadas, a sociedade segue depositando responsabilidades elevadas sobre elas.

    O governo tenta reverter a situação. Para conter a alta do número de divórcios, por exemplo, o primeiro Código Civil chinês, em vigor desde janeiro, estabeleceu um período para “esfriar a cabeça”, uma espécie de intervalo entre o pedido e a efetivação da separação para quem sabe, evitar decisões impulsivas.

    Quando o governo fala em famílias maiores, refere-se ao modelo tradicional. Caso elas decidam ser mães sozinhas, encontram dificuldades para que os filhos obtenham o “hukou”, o registro de residência que garante acesso aos serviços públicos básicos como saúde e educação.

    Em setembro, o governo também anunciou um estímulo à educação sexual de jovens, com o objetivo claro de evitar abortos que não sejam motivados por questões de saúde. A interrupção da gravidez é legal e relativamente comum na China, passando ao largo do debate moral-religioso comum em muitos países.

    Devido às altas expectativas relacionadas à educação, criar filhos custa especialmente caro para a classe média chinesa. Por isso, o governo se movimentou para impor limites rígidos à indústria de aulas extracurriculares, na tentativa de ajudar a aliviar a pressão financeira sobre os pais.

    Algumas cidades foram além e criaram incentivos financeiros para proles maiores. Em Panzhihua, na província de Sichuan, os casais poderão pleitear uma ajuda mensal equivalente a US$ 77 (cerca de R$ 423) para o segundo e o terceiro filhos, até que as crianças completem três anos de idade. Gansu, uma das províncias mais pobres da China, também divulgou recentemente medidas com a mesma finalidade.

    Ainda que sofram pressão de familiares para “dar continuidade” ao sangue e ao sobrenome do pai, ou que corram o risco de serem estigmatizadas como as “que sobraram”, muitas mulheres têm resistido a seguir os passos de suas mães. Cada vez mais elas têm se voltado contra o modelo de casamento tradicional.

    Sobre os homens recaem cobranças para que sejam deixadas de lado características consideradas “femininas”. Agora, autoridades determinaram que homens “afeminados” tenham menos espaço na TV.

    O movimento feminista, apesar das dificuldades, tem crescido na esteira do aumento de denúncias de casos de abuso e assédio sexual, na linha do #metoo. Mas mesmo com conquistas recentes, como leis e campanhas contra violência doméstica, a luta das mulheres na China é diferente da de outras partes.

    Feministas testam os limites do sistema e a tolerância das autoridades. Normalmente, encontram soluções criativas, buscam manter a discrição, usam emojis em vez de texto para contornar controles de conteúdo ou se manifestam evitando confrontação —uma comediante feminista, por exemplo, faz sucesso nas redes. Porque as mulheres, claro, ainda têm de contribuir para preservar a dita harmonia social.

    Os gêmeos Sun Qiyu e Sun Qichun seguram a bandeira chinesa na Praça da Paz Celestial, em Pequim
    Os gêmeos Sun Qiyu e Sun Qichun seguram a bandeira chinesa na Praça da Paz Celestial, em Pequim Kim Kyung-Hoon – 2.nov.2015

    O desafio demográfico requer que as mulheres, além de procriar, sigam trabalhando. Com a população economicamente ativa encolhendo, elas são indispensáveis na força laboral. Precisam, assim, continuar consumindo, além de cuidar da geração anterior, cada vez mais longeva. A conta não fecha. São necessárias mudanças significativas nas políticas de suporte e no mercado de trabalho.

    Como em outros países, a China precisa de mais creches. Mas os chineses precisam também vencer uma barreira cultural: a persistência da tradição de deixar crianças aos cuidados dos avós paternos, o que aumenta ainda mais a dependência das mulheres em relação ao marido. A percepção popular é a de que seria melhor confiar a eles —não a algum estranho– o cuidado dos pequenos.

    Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho pode ser cruel com as mulheres, especialmente em idade fértil ou com filhos pequenos. Ainda ocorre de uma mulher enfrentar, em entrevistas de emprego, perguntas sobre se pretende engravidar —talvez um resquício da época em que a unidade de trabalho tinha a responsabilidade de garantir o respeito às regras de planejamento familiar.

    A centralidade da mulher na nova fase econômica chinesa contrasta com a concentração persistente de homens na cúpula do governo e do Partido Comunista. Dos 25 membros do Politburo, uma das estruturas de poder mais importantes do país, há apenas uma mulher. No Comitê Permanente do Politburo, órgão ainda mais relevante, nunca houve uma mulher entre os seus sete membros.

    Conceber políticas públicas com um olhar para a situação das mulheres também se relaciona com a legitimidade do partido diante das novas gerações —especialmente as mulheres da nova classe média urbana. Seus desejos e ambições podem ser muito diferentes dos de suas mães que, até poucas décadas atrás, viviam majoritariamente num ambiente rural e centrado no modelo de família tradicional.

    A capacidade de as autoridades reconhecerem e responderem a essas mudanças têm impacto direto na satisfação —ao menos delas— em relação ao governo.

    Se em 2021 o Partido Comunista Chinês comemorou seu centenário, agora já está de olho nos objetivos associados à próxima comemoração. Em 2049, no 100º aniversário da República Popular da China, os líderes do país pretendem realizar o dito “sonho chinês”.

    Querem que a China seja “forte, democrática, civilizada, harmoniosa e um país socialista moderno’’. Pois a China não será tudo isso se as mulheres ficarem para trás. Ouvir as mulheres é necessário não apenas para o crescimento econômico, mas também para a própria legitimidade do Estado-Partido.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/10/mulheres-se-tornam-peca-chave-na-transicao-demografica-e-economica-da-china.shtml

    Prof Luciano Mannarino

    Para conter crise demográfica, China autorizará 3 filhos por família

    População da China tem menor crescimento em décadas e atinge 1,41 bilhão

    DEMOGRAFIA E TEORIA DA TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA.