Categoria: Clima

  • Mais desmatamento, menos chuva e menor produção agrícola

    Mais desmatamento, menos chuva e menor produção agrícola

    ECOLOGIA

    7:00
    31 Maio 2021


    Atualizado em
    4 jun 2021


    Carlos Fioravanti

    A quantidade anual de chuva caiu à metade ao longo dos últimos 20 anos em regiões de Rondônia, norte de Mato Grosso e sul do Pará onde a agropecuária ocupou até 60% de áreas antes florestadas, de acordo com análises da equipe do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Publicado em 10 de maio na revista científica Nature Communications, esse trabalho indicou que as áreas mais atingidas pela redução da precipitação são grandes produtoras de soja.

    “Financeiramente não compensa desmatar para produzir, porque em poucos anos a perda causada com a redução de chuvas será maior que o ganho de produção decorrente do aumento da área plantada”, conclui o engenheiro florestal Argemiro Teixeira Leite-Filho, da UFMG, principal autor do trabalho. “O desmatamento de um ano faz a produtividade cair já no ano seguinte.”

    Em 20 anos, precipitação caiu à metade em áreas que perderam 60% da vegetação nativa, com prejuízo anual estimado em R$ 5,7 bilhõesÁrea desmatada de Rondonópolis, leste do estado de Mato Grosso, preparada para o plantio de soja: perda de vegetação nativa reduz a quantidade de chuva e a produtividade agrícola

    James Martins/Wikimedia

    Causada pelo aumento do albedo (capacidade de refletir a luz solar) e pela queda na umidade liberada pela vegetação nas áreas desmatadas em comparação com a das florestas, a redução de chuva pode causar uma perda de produtividade estimada em US$ 1 bilhão (R$ 5,7 bilhões) por ano na produção de soja e carne na região amazônica, de acordo com esse estudo.

    “Neste ano ainda está chovendo bastante no sul da Amazônia, por causa do La Niña [esfriamento das águas da região equatorial do oceano Pacífico], mas em anos de El Niño [aquecimento do Pacífico equatorial] a diminuição da chuva pode intensificar a seca”, diz Leite-Filho.

    As análises da equipe da UFMG, coordenadas pelo geólogo Britaldo Soares-Filho, se apoiaram em informações do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Brasileira por Satélite (Prodes) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do satélite Tropical Rainfall Measuring Mission (TRMM) da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, de 1999 a 2019.

    Os pesquisadores avaliaram a perda de vegetação nativa e a redução da precipitação em células de 28, 56, 112 e 224 quilômetros quadrados (km2) em uma área total de 1,9 milhão de km2, do sul da região amazônica, do Acre ao Tocantins (ver mapa). O trabalho contou com apoio do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Tecnológicas (CNPq), Banco Mundial e Fundação de Pesquisa da Alemanha (DFG).

    “A ciência já alerta para a possibilidade há mais de 10 anos, mas esse trabalho é o primeiro a quantificar o prejuízo econômico decorrente da diminuição da chuva”, diz o físico Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), que não participou do estudo. Especialista na pesquisa sobre aerossóis e membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), ele foi um dos autores do trabalho que em 2016 mostrou como partículas de aerossóis influenciam a formação e o desenvolvimento de nuvens na Amazônia.

    De imediato, em escala local, o desmatamento pode aumentar a quantidade de chuva, de acordo com um estudo publicado em junho de 2003 na Remote Sensing of Environment. “As áreas desmatadas ficam mais quentes, o albedo muda e surgem circulações de correntes de ar que favorecem o aumento da chuva”, diz um dos autores do trabalho, o meteorologista Luiz Augusto Machado, filiado ao Instituto Max Planck da Alemanha e ao IF-USP, após se aposentar no Inpe.

    Esse efeito desaparece, porém, quando a área sem vegetação nativa se amplia. “Quando o desmatamento alcança grandes proporções, com a perda da vegetação nativa em centenas de hectares, o efeito da circulação atmosférica local torna-se muito limitado e ocorre claramente uma redução da precipitação”, acrescenta Machado. Ele alerta: “O prejuízo é muito maior se considerarmos que o desmatamento na Amazônia reduz drasticamente a chuva nas regiões Sul e Sudeste”.

    Estação chuvosa mais curta
    Leite-Filho observou outro efeito do desmatamento: o adiamento do início e o encurtamento em cerca de 30 dias da estação chuvosa no sul da Amazônia, de acordo com um trabalho que publicou em setembro de 2019 na International Journal of Climatology. As chuvas, que nessa região normalmente começam em setembro e seguem até abril, indicam o que e quando plantar.

    Em dezembro de 2020, o jornal O Estado de S. Paulo noticiou que as chuvas irregulares e em uma quantidade 50% menor que a média desde agosto já haviam causado uma perda de 7,3 milhões de toneladas de grãos, principalmente soja, milho e arroz, em todo o país na safra 2020/21.

    “O desmatamento também tem aumentado a frequência e a duração dos veranicos”, diz o pesquisador. Veranicos são períodos secos em meio à estação chuvosa que prejudicam o desenvolvimento das culturas agrícolas.

    Artaxo ressalta: “Se o desenvolvimento brasileiro depender da venda de carne, soja e outras commodities agrícolas a serem produzidas no Brasil Central, é melhor preservar a Amazônia para continuar a ter chuva abundante na região”.

    1. De que forma o La nina afeta o regime de chuvas no sul da Amazônia?

    2. O que é Albedo e por que muda quando ocorre desmatamento na Amazônia?

    3. Explique a importância das commodities agrícolas na economia do Brasil.

    4. O que são veranicos e porque ele vem aumentando sua frequência em porções da Amazônia?

    5. De que forma a perda da vegetação nativa afeta a produtividade da produção agrícola ao longo do tempo?

    Prof Luciano Mannarino

  • Investimentos na matriz eólica superam R$ 187,1 bi na última década

    Investimentos na matriz eólica superam R$ 187,1 bi na última década

    Fonte de energia ganha competitividade no país com preocupação ambiental

    17.jul.2021 às 23h15

    Luis Henrique Gomes

    NATAL

    Quando o primeiro leilão de energia eólica foi feito no Brasil, em 2009, só 0,5% da capacidade de geração de eletricidade do país tinha essa origem. Passados 12 anos, esse percentual cresceu para 10,6%, com investimentos no país que somam US$ 35,8 bilhões entre 2011 e 2019, segundo os cálculos da Bloomberg New Energy Finance. A quantia corresponde a R$ 187,1 bilhões em valores atuais.

    Com esse crescimento, numa década em que o mundo se comprometeu em reduzir a emissão de carbono, a matriz eólica se tornou uma fonte de energia competitiva no Brasil e tem a seu favor o financiamento de bancos internacionais que buscam cumprir as metas do Acordo de Paris, realizado em 2015.

    Somente no Rio Grande do Norte, o estado que mais produz esse tipo de energia no Brasil hoje, mais de R$ 15 bilhões foram investidos em parques eólicos.

    Parque eólico da Neoenergia, localizado em Rio do Fogo, no litoral do Rio Grande do Norte, estado com maior produção de energia eólica no Brasil
    Parque eólico da Neoenergia, localizado em Rio do Fogo, no litoral do Rio Grande do Norte, estado com maior produção de energia eólica no Brasil Alex Régis/Folhapress

    O primeiro foi instalado pela Neoenergia em 2006, no município de Rio do Fogo, distante 80 quilômetros de Natal, com capacidade de 28 MW (megawatts). Hoje, o estado possui uma capacidade de 5.266 MW instalados, em mais de 180 parques.

    Além dos investimentos, empresas têm buscado cada vez mais adquirir energia gerada em parques eólicos, de acordo com a presidente da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica), Elbia Gannoum. Em 2020, cerca de 3 GW (gigawatts) foram comprados por companhias.

    Dois fatores contribuem para isso: a perspectiva de uma energia mais limpa, com menos passivos ambientais, e o preço competitivo.

    “Hoje a energia eólica é a mais barata do país. Por isso, a perspectiva é que os investimentos aumentem nos próximos anos”, diz Gannoum.

    Segundo a presidente da Abeeólica, o Brasil já está entre os países com as matrizes energéticas mais limpas do mundo, mas o setor eólico continuará em expansão. Os investimentos até 2029 devem chegar a R$ 72,3 bilhões.

    “O Brasil tem a melhor posição do mundo em energia porque é o país mais rico em recursos renováveis”, diz ela.

    https://www1.folha.uol.com.br/mpme/2021/07/investimentos-na-matriz-eolica-superam-r-1871-bi-na-ultima-decada.shtml

    Questão

    Explique as condições climáticas que torna o nordeste um grande produtor de energia elétrica a partir de fontes renováveis.

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    Prof Luciano Mannarino

  • Amazônia: soberania e direito amazônico

    Amazônia: soberania e direito amazônico

    Cooperação entre Estados amazônicos deve servir para facilitar o cumprimento da responsabilidade sobre o território

    13.jul.2021 às 9h30

    Oito países soberanos estão reunidos em torno da bacia amazônica, do Amazonas, o coração da América do Sul. Esses oito Estados, todos vizinhos da imensa floresta comum, atravessados por rios que correm de todas as partes para o grande rio mãe –e que constitui a avenida do interior da América do Sul para o Oceano Atlântico–, são os administradores do que para muitos são os pulmões do mundo.

    Junto a eles, num canto da Amazônia, existe também um “território ultramarino” sob a soberania francesa. A riqueza da diversidade natural da Amazônia não foi totalmente quantificada, nem foi avaliado o seu potencial para o desenvolvimento dos Estados vizinhos. É um território tão grande –mais de sete milhões e meio de quilômetros quadrados– e tão difícil acesso em muitas partes que ainda se pode falar de “pontos brancos” no mapa da Amazônia e de populações que o ocupam e que provavelmente ainda não tiveram contato com a “civilização ocidental”. Populações localizadas em regiões que, na sua maioria, não foram capazes de se incorporar nos processos socioeconômicos dos respectivos países da zona e cujo potencial turístico ainda não foi descoberto.

    Há quarenta anos, muito antes do debate de posições em torno da Amazônia, o desenvolvimento sustentável, as alterações climáticas e o futuro do planeta e da humanidade se tornassem tão públicos e globais, e muito antes dos terríveis incêndios de centenas de milhares de hectares no lado brasileiro durante 2018, os oito países soberanos da Amazônia assinaram (em 3 de julho de 1978, Brasília) o Tratado de Cooperação Amazônica (TCA).

    O POTENCIAL DE DESENVOLVIMENTO DA AMAZÔNIA

    Os países ribeirinhos perceberam que o verdadeiro potencial para o desenvolvimento racional da Amazônia e a conservação da ecologia da área eram dois fatores que estavam do mesmo lado da equação, e que não era possível alcançá-los sem um esforço conjunto e coordenado no exercício da soberania territorial e sem uma gestão alinhada das políticas de todos os Estados envolvidos. Havia, na altura, um sentimento de responsabilidade partilhada inerente à soberania de cada um dos Estados da Amazônia. A cooperação entre os Estados amazônicos deve servir para facilitar o cumprimento dessa responsabilidade, tal como se afirma no próprio TCA

    Morador rural do município de Claudia no estado de Mato Grosso acompanha a operação de combate ao fogo, queima ilegal em uma área de Reserva Ambiental, durante expedição da Rainforest Foundation para monitorar a produção de soja no Brasil e sua relação com o desmatamento.
    Morador rural do município de Claudia no estado de Mato Grosso acompanha a operação de combate ao fogo, queima ilegal em uma área de Reserva Ambiental, durante expedição da Rainforest Foundation para monitorar a produção de soja no Brasil e sua relação com o desmatamento. Victor Moriyama/Rainforest Foundation Norway

    O desenvolvimento econômico e social da Amazônia, porém, tem sido desordenado, por vezes caótico, criminoso e predatório nessa área de floresta tropical, que é também o gerador de milhões de litros de água doce todos os dias. Não há apenas o caso brasileiro já mencionado, mas também o caso dantesco do Arco Mineiro na parte venezuelana, ou os grandes derrames de petróleo na área que corresponde ao Equador, para não falar da quantidade de descargas poluentes nos rios afluentes do Amazonas e deste último. Aqui os mais diretamente afetados são as populações locais, mais de 420 povos e comunidades indígenas, com os respectivos danos nas riquezas etnológicas da área amazônica. O dano é irreparável e a única coisa que pode ser feita é evitá-lo.

    Os países signatários do TCA perceberam que os melhores desejos de cooperação indispensável para a proteção e desenvolvimento equilibrado da região são meras ilusões se os compromissos entre eles não forem reforçados. É por isso que, vinte anos após a assinatura do TCA, foi assinada uma emenda ao tratado. O Protocolo de Caracas de 1998 criou a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), com personalidade jurídica própria, a fim de reforçar os compromissos de cooperação assumidos. Foi um passo importante para a supranacionalidade da Amazônia, como salientado por estudiosos contemporâneos, e desde 2003 a secretraria-geral da OTCA opera em Brasília.

    A “LEI DA AMAZÔNIA”

    Apesar deste progresso, no entanto, faltou o que os autores mais conceituados chamaram de uma verdadeira “lei amazônica”. Trata-se de um regulamento que estabelece com maior clareza e precisão os direitos das populações locais e de cada um dos países da região em relação à Amazônia, incluindo a proteção e conservação do ambiente, bem como os respectivos deveres dos Estados partes no TCA.

    Por outras palavras, são necessários regulamentos amazônicos. Mas ao mesmo tempo, e com igual urgência, é necessário que os próprios Estados partes no TCA criem, no seio da OTCA, os órgãos de controle do TCA e da lei amazônica. Ou seja, órgãos de investigação e fiscalização, uma polícia amazônica coordenada, e um ou mais órgãos de justiça amazônica para ouvir queixas por violação da lei amazônica –incluindo danos ao ambiente e às populações locais– e perante os quais não só os Estados são responsáveis pelo seu incumprimento, mas também indivíduos pelos seus crimes ambientais.

    A soberania nacional individual não deve ser um obstáculo, como não foi no passado, para alcançar esse resultado. É a justiça ambiental amazônica necessária que é imposta e que também constituiria um exemplo para o mundo. É um dever de solidariedade soberana dos países da Amazônia com os seus povos e com os habitantes do planeta Terra. Isso seria, pelo menos, um passo significativo no desenvolvimento do difícil processo de cooperação universal na conservação dos espaços mais delicados e úteis para o presente e, sobretudo, para o futuro de toda a humanidade.

    Eugenio Hernández-Bretón

    É reitor da Faculdade de Ciências Jurídicas e Políticas da Universidade de Monteávila (Caracas). Professor da Universidade Central da Venezuela e da Universidade Católica Andrés Bello.

    Tradução do espanhol por Dâmaris Burity.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/latinoamerica21/2021/07/amazonia-soberania-e-direito-amazonico.shtml

    Prof LUCIANO MANNARINO

  • A encruzilhada da América Latina para alçancar as emissões zero de carbono

    A encruzilhada da América Latina para alçancar as emissões zero de carbono

    É urgente repensar quais são os setores que poderiam gerar divisas e como reinserir a região no mundo

    5.jul.2021 às 9h00

    Leonardo E. Stanley

    Economista e pesquisador no Centro de Estudios de Estado y Sociedad (Cedes), na Argentina

    A comunidade científica levantou a necessidade de reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e evitar o acúmulo adicional de gases na atmosfera. Como resolver a situação? Quem deve liderar o processo de transição?

    Inicialmente a maioria das iniciativas se concentrou em mercados com o desenho de mecanismos de incentivo, precificando as emissões de carbono, a fim de estimular a busca de fontes renováveis. Independentemente das intenções e dos mecanismos implementados, as emissões continuaram a crescer. A indústria petroleira continuou a se expandir, aproximando o planeta de uma situação limite.

    Algo deve ser feito, e imediatamente. A comunidade científica propôs uma mudança de abordagem, e a ideia de manter reservas no subsolo está começando a se tornar popular. Isto supõe limitar a prospecção e a exploração de petróleo e associá-las a um “orçamento do carbono” – ou seja, uma certa quantidade que um país, setor ou cidade ainda tem para emitir GEE durante um período de tempo sem comprometer o objetivo de manter um aumento de temperatura inferior a 1,5°C ou 2°C.

    Em nível global, falamos de um estoque de carbono de 460 gtC02, o remanente do “orçamento do carbono” se o objetivo é manter o aumento da temperatura abaixo de 1,5°C. Ao ritmo atual das emissões anuais (fluxo: 41,5 gtC02) este orçamento estará esgotado em cerca de 11 anos. Por isso, a urgência. Caso contrário, as consequências seriam irreversíveis. Isto levanta a necessidade de um Estado que preveja os limites e estimule a transição.

    Manifestantes se fantasiam de ursos polares em ato convocado por diversas ONGs perto da Torre Eiffel, em Paris
    Manifestantes se fantasiam de ursos polares em ato convocado por diversas ONGs perto da Torre Eiffel, em Paris Francois Guillot – 12.dez.15/AFP

    Durante muito tempo, os líderes globais ignoraram o chamado da comunidade científica e foram surdos ao chamado dos jovens para a ação. Mas os riscos colocados pelo aquecimento global são palpáveis. Isto explica o comportamento das companhias de seguros, que rapidamente estão decidindo abandonar o “barco do carbono”.

    Os investidores também reagem pressionando as petroleiras a implementar planos de conversão para que seus ativos (estoques) não sejam afetados pela “bolha do carbono”. Esta bolha está associada à ideia de ativos estancados (stranded assets), que é o lado financeiro do risco descrito acima. Quanto mais nos aproximamos do limite do orçamento do carbono, mais acionistas estão interessados em sair de sua posição no setor, o que se reflete em uma venda acelerada de ações.

    Poucos acreditavam no peso do ativismo em 2011, quando o apelo ao desinvestimento foi ouvido pela primeira vez nos campi universitários dos EUA. A ideia de “deixar reservas no subsolo” era vista como utópica, impossível. A equação econômica também não era auspiciosa para os recursos renováveis, o que obrigava ao Estado a fornecer subsídios generosos ao setor a fim de torná-lo competitivo com os combustíveis fósseis. E as petroleiras foram legalmente “blindadas”, independentemente da origem da demanda, já que a justiça sempre decidiu a seu favor.

    UMA MUDANÇA ACELERADA

    Tudo está mudando rapidamente. O ativismo se espalhou entre os investidores e as energias renováveis estão se tornando muito mais baratas, enquanto as empresas petroleiras estão começando a se sentar no banco dos réus. Isto só acelera a transição, aproximando a indústria do abismo financeiro e os investidores vendo seus ativos desvalorizados.

    Em maio passado, a Agência Internacional de Energia (AIE) publicou um relatório destacando a necessidade de abandonar todos os projetos a fim de cumprir com os compromissos assumidos. Para alcançar uma queda acentuada nas emissões, a prospecção e a exploração devem ser abandonadas imediatamente. A publicação veio como um choque, um “tapa na cara” para a indústria petroleira.

    Para avançar com a transformação e garantir o cumprimento das metas (zero emissões líquidas até 2050), Carbon Tracker destaca a necessidade de tornar as ações das empresas transparentes.

    Mas isto não é tudo. Em 26 de maio, um tribunal holandês decidiu que a Royal Dutch Shell estava sujeita a condenação porque suas operações tradicionais (produção, distribuição, comercialização) haviam agravado o problema da mudança climática. O tribunal considerou que os atores não estatais, como as petroleiras, também são agentes responsáveis. A condenação obriga à empresa petrolífera a elaborar um plano de transição mais ambicioso e aumentar os cortes de emissões originalmente prometidos. Esta condena poderia desencadear uma reação em cadeia de grandes proporções.

    Manifestantes se reuniram no Masp, na Avenida Paulista, para pressionar autoridades a tomarem ações contra as mudanças climáticas
    Manifestantes se reuniram no Masp, na Avenida Paulista, para pressionar autoridades a tomarem ações contra as mudanças climáticas Matheus Moreira/Folhapress
    AS PETROLEIRAS ESTÃO COMEÇANDO A SE READAPTAR?

    O impulso de mudança também chega aos conselhos de administração das grandes petroleiras, como demonstrado pela recente reunião de acionistas da Exxon Mobil, onde um grupo acabou impondo um plano mais ambicioso de adaptação à empresa. Enquanto alguns investidores estão assumindo uma postura ativa, outros estão se abstendo de participar, e cada vez mais fundos de investimento estão decidindo parar de financiar a indústria petrolífera.

    Recentemente também foi divulgado um relatório das Nações Unidas, que destaca os efeitos nocivos da emissão de gás metano para a atmosfera. Ao contrário do dióxido de carbono que permanece por centenas de anos, o metano dura pouco tempo, cerca de uma década, embora seja muito mais perigoso. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), o efeito do metano sobre o aquecimento global é 86 vezes mais forte do que o gerado pelo CO2, portanto, o metano é considerado um “carbono com esteroides”. Portanto, a fim de reduzir rapidamente o aquecimento global, um número crescente de especialistas sugere também o abandono de projetos de gasíferos.

    Passo a passo, o lobby climático está ganhando força. Não apenas nas ruas, mas também nas salas de reunião e nos escritórios de justiça. Tudo isso deve soar como alarme e preocupar aqueles que continuam a apostar na exploração do petróleo na América Latina. Isto implica um tremendo desafio econômico, mas também um risco financeiro. É urgente repensar quais são os setores que poderiam gerar divisas e como reinserir esta região no mundo.

    Ignorar o problema e continuar a investindo em um setor destinado a desaparecer só agravaria a crise que temos de enfrentar inexoravelmente.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/latinoamerica21/2021/07/a-encruzilhada-da-america-latina-para-alcancar-as-emissoes-zero-de-carbono.shtml?origin=uol

    Prof Luciano Mannarino

    Questões

    1 O que você entende como “lobby climático”?

    2 Analise o papel do metano e do CO2 no aquecimento global.

    3 “Deixar reservas no subsolo” ainda pode ser considerado uma solução utópica para questão do aumento do efeito estufa?

    4 Explique o interesse das companhias de seguro no debate de mudanças climáticas mundiais.

    Prof Luciano Mannarino

  • A corrosão da Caatinga

    A corrosão da Caatinga

    Extração de madeira e uso da terra para roças e pastagens reduzem biodiversidade e transformam a paisagem do sertão

    Carlos Fioravanti

    Edição 266
    abr. 2018

    Durante três dias de sol forte, na segunda semana de março de 2018, uma equipe da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) cavou crateras na terra seca de roças abandonadas no Parque Nacional do Catimbau, na região central de Pernambuco, para examinar o interior de ninhos de saúva. Os pesquisadores viram que, em áreas de solo raso como as que escavavam, as formigas guardavam matéria orgânica a até 3 metros (m) de profundidade, dificultando o acesso das plantas a nutrientes e retardando a regeneração da vegetação original. Em outras expedições, já tinham observado que a densidade das colônias de saúva aumentava de duas por hectare (ha) nas áreas de vegetação nativa para 15 por ha (1 ha corresponde a 10 mil metros quadrados) nos trechos usados para cultivo agrícola ou pastagem. As saúvas  sobrepõem-se a outras espécies de formigas à medida que a vegetação nativa é retirada.

    Retirada de lenha no interior de PernambucoRicardo Azoury / olhar imagem

    A proliferação dos ninhos de saúva evidencia o empobrecimento da Caatinga causado pela retirada lenta e contínua de árvores e de animais das matas. Por consistir na extração de pequenas porções de recursos naturais, esse processo escapa das imagens de satélite, mas, em silêncio, transforma a paisagem do sertão nordestino e aumenta o risco de desertificação. Outro sinal visível da metamorfose é a proliferação de plantas invasoras como a algaroba (Prosopis juliflora), árvore nativa dos Andes usada para extração de madeira e alimentação do gado. As invasoras crescem com rapidez em ambientes mais abertos e tornam-se dominantes em roças ou pastos abandonados.

    Situado no município de Buíque, com 622 quilômetros quadrados (km2), o parque do Catimbau abriga cerca de 1.500 pessoas, que já viviam ali no momento de sua criação, em 2002. Os moradores usam as áreas de mata para plantar milho e feijão, criar cabras, retirar madeira para fazer cerca ou cozinhar e caçar para se alimentar. Ali, concluíram os pesquisadores da UFPE, as intervenções dos pequenos produtores rurais causaram a perda de pelo menos um terço da biodiversidade, principalmente de plantas.

    “Não é um quadro isolado”, diz o ecólogo Marcelo Tabarelli, da UFPE, coordenador do grupo de pesquisa. “A trajetória da degradação, com a transformação da floresta em uma vegetação dominada por arbustos e depois por herbáceas, ocorre em toda a CaatingaQuanto maior a pressão humana sobre a vegetação nativa e quanto menos água, mais pobres serão o ambiente e as pessoas que vivem dele.”

    A ação humana sobre a vegetação nativa do interior do Nordeste é antiga. No século XVI, o sertão produzia carne e alimentos para os moradores do litoral, que priorizavam a produção de cana-de-açúcar. Como resultado de cinco séculos de exploração econômica, quase metade (45%) da área original da Caatinga – 826 mil km2, o equivalente a 11% do território nacional – já foi desmatada, como resultado principalmente da ação dos grandes produtores rurais.

    Na introdução ao livro Caatinga – The largest tropical dry forest region in South America, publicado em 2017, Tabarelli, os biólogos Inara Leal, também da UFPE, e José Maria Cardoso, da Universidade de Miami, nos Estados Unidos, observaram que os moradores de comunidades rurais da Caatinga dependem da vegetação nativa para sobreviver, o que causa uma lenta e contínua alteração do ambiente. Segundo eles, somando a ação dos moradores do sertão com os grandes projetos de infraestrutura e a agricultura comercial, pelo menos 63% da Caatinga já deve ter sofrido os efeitos da ação humana.

    Mantidas em cercados, as cabras alimentam-se de plantas da Caatinga, dificultando a regeneração da vegetaçãoINARA LEAL/UFPE

    Das 89 famílias que vivem no parque do Catimbau, 85% dependem da extração da madeira para cozinhar, de acordo com um levantamento de 2012 da bióloga da UFPE Laís Rodrigues. O consumo médio de lenha foi de 606 quilogramas (kg) por ano por pessoa, o que equivale a 10 ha por ano, somente para abastecer os fogões a lenha. “Dentro do parque”, observa o biólogo Felipe Melo, professor da UFPE, “como o governo impõe restrições ao uso da terra, as famílias são mais pobres e mais dependentes dos recursos naturais que as de fora, mas também não conseguem sair de lá porque não têm para onde ir”.

    Fora das áreas de proteção ambiental, há também a extração de lenha para abastecer as empresas de produção de gesso, olarias, padarias e pizzarias. O consumo doméstico e comercial implica uma perda estimada em 30 milhões de metros cúbicos por ano de mata nativa, segundo o Ministério do Meio Ambiente.

    A situação é similar na Mata Atlântica no Nordeste. Um estudo de 2015 na Global Ecology and Conservation, com base em 270 famílias de sete comunidades de Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba, registrou um consumo médio de 686 kg de lenha por ano por pessoa, o que implicaria a retirada de 2 mil ha de mata por ano nos 270 municípios da região com esse tipo de vegetação. “Quanto menor a renda das famílias, maior a dependência e a retirada de lenha”, diz Melo. Florestas de clima semiárido ou desértico da África e da Índia que abrigam comunidades humanas registram o mesmo fenômeno.

    Menos espécies nativas
    No Catimbau, espécies típicas como aroeira (Myracrodruon urundeuva) e angico-branco (Anadenanthera colubrina) são as mais extraídas para construção de cercas ou casas, de acordo com um estudo de fevereiro deste ano na Environmental Research Letters. Em Parnamirim, município pernambucano a 350 km a oeste do Catimbau, cujos 20 mil moradores vivem da extração de madeira e de plantas, os pesquisadores verificaram que as espécies de árvores típicas tendem a ser substituídas por outras, que crescem com rapidez e suportam as alterações provocadas pelas roças e pastos itinerantes, como marmeleiro-do-mato (Croton sonderianus) e jurema-preta (Mimosa tenuiflora). As cabras, por sua vez, comem os galhos de árvores com folhas mais macias, deixando de lado arbustos menores e plantas herbáceas com folhas mais duras, que se tornam as predominantes em áreas de pastagens.

    Além da proliferação de saúvas, a ação humana altera as interações de outros grupos de formigas e insetos com as plantas. “Vimos que se perdem dois tipos de serviço que as formigas prestam às plantas: a proteção contra insetos herbívoros e a dispersão de sementes”, diz Inara. No primeiro caso, segundo ela, por sofrerem mais estresse em áreas mais abertas, as plantas acumulam menos néctar em seus nectários extraflorais, que atraem formigas. Por sua vez, as formigas se alimentam de insetos herbívoros, que, sem elas, atacariam as plantas. Com menos néctar e menos formigas, as plantas tornam-se mais vulneráveis aos insetos herbívoros. No segundo caso, as ações humanas causam uma redução das populações e da atividade de espécies de formigas consideradas boas dispersoras de sementes, como a tocandira (Dinoponera quadriceps). “Em consequência”, diz Inara, “as sementes são dispersas em menor quantidade e por menores distâncias.”

    Vista geral do Parque Nacional do Catimbau (PE), com áreas de roças e pastos abandonados com solo exposto, em primeiro planoKATIA RITO/UNAM

    Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a bióloga Gislene Ganade pode ter encontrado uma solução para um antigo problema da recomposição da Caatinga: as árvores plantadas em campo dificilmente sobrevivem ao clima seco, apesar de adaptadas a ambientes inóspitos. Em seus experimentos, árvores de 16 espécies foram inicialmente cultivadas em tubos plásticos até as raízes atingirem 1 m de comprimento. Depois, foram plantadas em uma cova regada com 4 litros de água, na Floresta Nacional de Assu, no Rio Grande do Norte, em junho de 2016.

    “Com água para abastecer as raízes, as árvores mantiveram-se verdes por dois meses, mesmo na seca, e depois de oito meses, quando choveu, produziram folhas novas e frutos”, Gislene observou. Segundo ela, um ano após o plantio, 75% das árvores tinham sobrevivido. Com base nesse método, as equipes da UFRN e da UFPE pretendem recompor a vegetação do Catimbau. O plano é criar uma área experimental de 5 ha com árvores que possam servir para a produção de mel ou de alimento para os moradores do parque e para os animais de criação.

    A integração entre a criação de cabras, a agricultura e o plantio de espécies de árvores usadas como lenha é outra estratégia cogitada para evitar a degradação ambiental e favorecer a renda dos proprietários rurais. “Como não haveria recursos próprios para implementar os sistemas integrados do tipo lavoura-pecuária, a participação dos órgãos governamentais é essencial, por meio de linhas de crédito e do apoio a pesquisas”, diz o engenheiro-agrônomo Luiz Antonio Martinelli, professor da Universidade de São Paulo.

    Políticas públicas já em vigor têm ajudado a preservar a Caatinga, observa Tabarelli, que desde 2012 percorre com frequência o Catimbau. “Os programas de transferência de renda, principalmente a aposentadoria rural, desaceleraram a exploração da Caatinga e deixaram as famílias menos dependentes dos recursos naturais”, observa. “Em vez de caçar, os sertanejos podem comprar frango e, em vez de tirar lenha da mata, podem comprar gás para cozinhar.

    Questões

    1. Caracterize a Caatinga (clima, vegetação, solo e relevo)

    2. De acordo com o texto, por que a Caatinga sofre um processo de “desertificação”?

    3 Qual era a função do Sertão para o ciclo da cana durante o Brasil colônia?

    4 Por que programas de transferência de renda desaceleram a exploração da Caatinga?

    5 Analise a seguinte afirmação “o problema do sertão não é a seca, e sim a cerca”

    6 O que é o Projeto de transposição da Bacia do São Francisco?

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    Prof Luciano Mannarino.