Sistema que transporta água da Corrente do Golfo para Hemisfério Norte pode perder estabilidade diante do aquecimento global
O Globo26/02/2021 – 04:30
RIO — Um sistema de circulação oceânica que transporta água quente da superfície da Corrente do Golfo para o Atlântico Norte está no seu ponto mais baixo dos últimos mil anos. A Europa, nesta situação, está mais sujeita a fenômenos extremos, como tempestades, secas e aumento das ondas de calor. Cidades da Costa Leste dos Estados Unidos, como Nova York e Washington, poderiam sofrer com o aumento do nível do mar.
Mulher se protege de ondas em Auderville, na França, em 2018: a Tempestade Eleanor provocou ventos de até 155 km/h e forçou o fechamento da Torre Eiffel Foto: CHARLY TRIBALLEAU/AFP
Conhecido como Circulação Meridional de Capotamento do Atlântico (Apoc, na sigla em inglês), o sistema pode ser reduzido em cerca de 34% a 45% até o final do século, o que o aproxima de um “ponto de inflexão”, ou seja, em que perderá totalmente a estabilidade. O panorama foi retratado em uma pesquisa publicada esta quinta-feira na revista Nature Geoscience.
— Em um período de 20 a 30 anos, é provável que este sistema enfraqueça ainda mais, e isso inevitavelmente influenciará nosso clima, então veríamos um aumento nas tempestades e ondas de calor na Europa e no nível do mar na Costa Leste dos EUA — descreveu o climatologista Stefan Rahmstorf, do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático, ao jornal britânico Guardian.
Rahmstorf e cientistas das universidades Maynooth (Irlanda) e College London (Reino Unido) estudaram sedimentos de gelo da Groenlândia, que revelam padrões climáticos de outros períodos geológicos, e concluíram que o atual enfraquecimento da Apoc não foi visto pelo menos nos últimos mil anos.
No Atlântico Norte, a água quente que vem do Golfo e do Norte do Brasil esfria e se torna mais salgada até afundar ao norte da Islândia, que extrai mais água quente do Caribe. Essa circulação é acompanhada por ventos que também ajudam a trazer clima ameno e úmido para a Irlanda, Reino Unido e outras partes da Europa Ocidental. O enfraquecimento deste sistema, segundo cientistas, é resultado do aquecimento global.
— Corremos o risco de desencadear (um ponto de inflexão) neste século, e a circulação diminuiria no próximo século. Não podemos ter nem sequer 10% de chances de que isso aconteça, isso seria inaceitável. Precisamos parar o aquecimento global — explicou Rahmstorf ao Guardian.
Autoridades emitem alertas para tempestade, que deve afetar até 100 milhões de pessoas na área central do país
17.fev.2021 às 17h21
HOUSTON e AUSTIN | REUTERS e AFP
O sul dos Estados Unidos segue enfrentando problemas por conta de uma forte onda de frio, que gerou uma ampla falta de energia. Nesta quarta (17), cerca de 3 milhões de residências e empresas estavam no escuro, segundo o site PowerOutage. No dia anterior, eram cerca de 4 milhões. A maioria dos atingidos, 2,9 milhões de pontos de consumo, está no Texas, que tem 29 milhões de habitantes.
O NWS (Serviço Nacional de Meteorologia) disse que a queda de neve deveria parar por volta do meio-dia no norte do Texas, mas que as baixas temperaturas, entre -6º e 1ºC, devem seguir por mais alguns dias em toda a região.
Boneco de neve decorado com colar e garrafa em referência à festa de carnaval Mardi Gras, em Forth Worth, no Texas – Ron Jenkins – 16.fev.21/AFP
A entidade emitiu alertas, pois a tempestade deve seguir na direção da Virgínia e da Carolina do Norte na noite desta quarta e afetar, ao todo, até 100 milhões de pessoas na área central do país. Além do Texas, estados como Louisiana, Arkansas e Mississippi deverão ter grandes acúmulos de gelo, o que dificulta a circulação nas ruas e estradas.
Até agora, ao menos 21 pessoas morreram no país por conta desta onda de frio —a maioria por acidentes nas vias ou em tentativas de se aquecer. Em Houston, uma mulher e uma criança morreram por intoxicação por monóxido de carbono. Elas entraram em um carro, com motor ligado, dentro de uma garagem, em busca de calor.
Laura Nowell, 45, tem quatro filhos, mora em Waco, no interior do Texas, e está sem eletricidade desde segunda (15). Para se manter aquecida, tem buscado correr dentro de casa e ficar dentro do carro, por curtos períodos. “Nós nunca tivemos tanto frio. Há gelo em todo lugar”, disse ela, à agência Reuters.
Nem o governo local nem as empresas dão previsões claras sobre a volta da energia. Há a expectativa de que os sistemas voltem a funcionar até o fim da semana. A companhia Ercot, que opera no Texas, disse que está fazendo rodízios controlados para dar conta da alta demanda.
Tempestades de neve são raras no Texas. Por conta disso, suas companhias não estavam preparadas para lidar com frio extremo, e a produção energética acabou prejudicada em um momento de alta demanda, pelo uso de aquecedores domésticos.
Em Austin, uma das áreas mais atingidas pela falta de energia, foram criados “centros de aquecimento” em escolas, para que as pessoas pudessem buscar abrigo caso suas casas estejam frias demais.
A falta de energia afeta a produção de petróleo e derivados, setor forte no sul do país. Cerca de um quinto de todas as refinarias dos EUA está fora de operação. Houve queda também na extração de petróleo —de 1 milhão de barris por dia— e de gás natural. O gás responde por 50% da geração de energia elétrica do Texas.
Especialistas apontam que levará alguns dias para que os equipamentos do setor de energia possam ser religados, pois será preciso fazer avaliações e eventuais reparos. O mau tempo também levou ao fechamento de portos, incluindo Houston e Galveston, o que trava as cadeias de suprimentos.
Estrada fechada pela neve em Madison, no estado americano do Mississipi Barbara Gauntt/Clarion-Ledger/Reuters
O Texas é o único estado continental dos Estados Unidos que tem uma rede de energia própria, desconectada dos vizinhos, o que impede manobras para enviar rapidamente energia de outros estados.
A crise gerada pelo frio fez o presidente Joe Biden declarar emergência na segunda-feira e liberar assistência federal para o Texas e outros estados que enfrentem problemas por conta da nevasca.
A temperatura abaixo da média também gera problemas em campos de imigrantes no México, perto da fronteira. Estrangeiros que esperam a resposta para pedidos de asilo nos EUA relatam que estão sofrendo com as baixas temperaturas, porque as tendas não são aquecidas e a maioria deles não possui roupas adequadas.
“Tudo congelou. A água com que cozinhamos, até as roupas ficaram duras de gelo”, conta Roberto Manuel, 43, que veio da Nicarágua e está em um campo em Matamoros, ao lado da fronteira, com outros cerca de mil estrangeiros. No México, ao menos seis pessoas já morreram por conta do frio, sendo quatro delas em Monterrey.
O Sistema Cantareira, principal rede de abastecimento da Grande São Paulo, está com um índice de armazenamento de água em 35,6% —o menor volume registrado no período desde dezembro 2013, mês que antecedeu a crise hídrica. Índices abaixo dos 40% acionam estado de alerta segundo a ANA (Agência Nacional das Águas). O sistema está assim desde outubro. A causa? Tem chovido menos do que a média histórica na região na região durante todo o ano. Para um geólogo ouvido pelo UOL, não há perigo imediato de desabastecimento, mas é preciso economizar e focar no problema estrutural: o principal culpado da baixa umidade é o crescente desmatamento na Amazônia.
Agentes do Ibama checam tora de madeira, durante apreensão realizada pela ‘Operação Onda Verde’, em Apuí (AM)Imagem: Bruno Kelly/Reuters
Segundo dados da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), só em três dos 12 meses de 2020 choveu mais do que a média histórica e, em dezembro, a quantidade está próxima. A maioria deles teve situação crítica. Em abril, início da estiagem, choveu apenas 2,2 mm dos 86,6 mm esperados para o período. “Não tem chovido o suficiente, e de onde vem a chuva que abastece a região? Da Amazônia. Não só o Cantareira está com esse déficit, como outros reservatórios importantes no país. Não é uma questão esporádica”, afirma o geólogo Pedro Côrtes, professor da USP (Universidade de São Paulo)
Essa relação de causa e efeito é apontada no relatório “O futuro climático da Amazônia”, publicado em 2014 pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Segundo o texto, o desmatamento na região altera os padrões de pressão em todo o interior do Brasil e pode causar o declínio dos ventos carregados de umidade que vem do oceano para o continente. Sem a floresta, a chuva na região poderia cessar por completo. Isso se dá porque a floresta funciona como uma bomba d’água que “puxa” a umidade dos oceanos. Cada árvore amazônica de grande porte pode evaporar mais de mil litros de água por dia —o que leva, ao todo, a cerca de 20 bilhões de toneladas de água por dia (20 trilhões de litros)
“Você tira árvores de raízes longas e troca por capim, de raízes curtas, que não tem a capacidade de drenagem para atingir os aquíferos profundos da região [amazônica]”, explica Côrtes. “Isso reduz a umidade da atmosfera e os ventos continuam soprando [para o sul], mas cada vez mais secos.” Em um estudo publicado na revista “Nature” em 1989, pesquisadores britânicos fizeram esta simulação e trocavam a mata nativa da Amazônia por pastagem. “A resposta simulada do clima local foi dominada por um ciclo hidrológico enfraquecido, com menos precipitações e evaporações e um aumento na temperatura da superfície”, diz o texto. Outro alerta foi dado em 2006, em um e aumento na temperatura da superfície”, diz o texto. Outro alerta foi dado em 2006, em um estudo do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) sobre o desmatamento na região. “As cidades principais do Brasil já estão no limite de abastecimento de água, e qualquer redução significativa de transporte de vapor de água da Amazônia teria sérias consequências sociais”, diz o texto do biólogo Philip Fearnside. Isso impacta em especial o interior do Brasil, regiões de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, entre outras, que não recebem as frentes frias vindas do Oceano Atlântico por causa das serras Neste ano, teve a seca sem precedentes no Pantanal. De onde vem a água do Pantanal? Da Amazônia”, aponta Côrtes. “No Sul, não conseguem perceber tanto este efeito porque as principais fontes de abastecimento de água vêm das frentes frias do sul do continente.”
Desmatamento bate recordes em 2020
De acordo com o Inpe, 2020 tornou-se o ano com maior taxa de desmatamento na Amazônia Legal desde 2008, com a derrubada de mais de 11,1 mil km² de área verde entre agosto de 2019 e julho deste ano – um aumento de 9,5% em relação ao mesmo período anterior. Na série histórica, o acompanhamento via satélite mostra que o desmatamento passou a cair em 2004, quando desceu de 27,8 mil km² para 19 mil km² no ano. A partir de 2019, no governo Jair Bolsonaro (sem partido), voltou a passar dos 10 mil km².
O ritmo só aumenta. Mês passado foi o novembro com maior desmatamento nos últimos dez anos na região, com a derrubada de 484 km² de área verde, aumento de 23% em comparação com o ano passado, segundo o SAD (Sistema de Alerta de Desmatamento), do Imazon. “Esse modelo de desmatamento na Amazônia está completando 50 anos, começou na década de 70, com a [rodovia] Transamazônica, e já não há mais justificativa para sua manutenção. Há trabalhos científicos do final dos anos 1980 que já alertavam que poderia gerar impactos ambientais, inclusive com redução do volume de chuvas. Hoje, estamos colhendo as consequências.”
Reserva da represa Jaguari/Jacareí, do Sistema Cantareira, durante a crise hídrica, em setembro de 201…
Situação é preocupante, mas risco não é imediato
O Sistema Cantareira abastece aproximadamente 46% da população da Região Metropolitana de São Paulo (cerca de 9,8 milhões de pessoas), segundo a ANA. Ele atende as zonas norte e central e parte das zonas leste e oeste da capital e mais dez cidades da Grande São Paulo. Côrtes afirma que a situação é “preocupante”, mas o risco de desabastecimento não é imediato. Neste mês, com a retomada das chuvas, o sistema vem aumentando a capacidade desde o dia 6 de dezembro, quando chegou a 31,3%. Abaixo dos 30%, já é considerada reserva técnica.
“Uma nova crise hídrica vai depender do comportamento do clima a partir do outono [de 2021]. Agora é esperado que chova mais, como tem chovido, mas não vai ser suficiente para reverter essa situação para que chegue a níveis confortáveis”, afirma o geólogo. Ao UOL, a Sabesp informou que o Cantareira hoje faz parte de um sistema integrado com seis reservatórios que abastece a região metropolitana, com ligações que não existiam na crise hídrica de 2014. Até terça (29), o sistema operava com 46,2% de sua capacidade total.
Também no setor energético cresce a percepção de que sustentabilidade é um bom negócio
15.dez.2020 às 18h0
No Brasil, independentemente de políticas governamentais, vários setores da economia privada estão buscando suas próprias soluções para descarbonizar a economia. No agronegócio, o principal motor da economia brasileira e que depende muito da exportação, o caminho de práticas ambientalmente mais comprometidas, onde o fim do desmatamento e o aumento da eficiência produtiva andam juntos, é algo consolidado.
Muitos produtores perceberam que mercados se fecham quando não há comprovação de que estão sendo respeitadas regras de proteção do meio ambiente.
Muito da pecuária extensiva, por exemplo, tem sido trocada pela intensiva, com gado semiconfinado. Facilita o controle de alimentação, de questões de saúde animal e da qualidade da carne. Além disso, o abate ocorre em menos tempo, e tudo contribui para a criação de mais animais em menor espaço.
Muitas fazendas também estão integrando lavoura, pecuária e floresta, em que a produção não exige desmatamento.
Apesar de avanços, os números do sistema SEEG –Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa, uma iniciativa da ONG Observatório do Clima–, mostram que as maiores fontes de emissão de gases de efeito estufa no Brasil ainda são o desmatamento (45% em 2019) e a agropecuária (28%). Por isso, a mitigação nesses dois casos é mais urgente.
“No primeiro caso, precisamos empreender esforços de fiscalização para impedir desmatamentos ilegais e pagar pela manutenção da floresta em pé em áreas onde a derrubada de árvores seria ainda permitida, remunerando o agricultor pelo valor que ele obteria com o desmatamento legal”, afirma Carolina Dubeux, pesquisadora da COPPE.
Segundo ela, o Brasil ainda tem condições de aumentar as áreas de conservação florestal e terras indígenas, de reflorestar o que for possível (há 100 milhões de hectares de pastos degradados) e fomentar a bioeconomia como forma de prover renda alternativa à população.
“No caso da agropecuária, é urgente ampliar a produtividade do rebanho nacional, aumentando a taxa de lotação do gado (cabeça/hectare) e reduzindo a idade de abate. As medidas previstas no Plano ABC (política pública federal que visa estimular o uso de práticas de produção sustentáveis no campo) precisam se tornar a norma e não uma opção”, diz.
ENERGIA
Outro setor que avança é o de geração de energia renovável, como a eólica e a solar. Com o barateamento dos equipamentos, têm surgido vários parques de geração pelo país.
No caso da energia solar, contam a favor do Brasil a extensão territorial e a posição no globo, que garante a incidência de raios solares o ano todo.
Com relação à energia eólica, especialistas afirmam que a qualidade dos ventos (velocidade e constância), principalmente no Nordeste, fazem do Brasil uma espécie de Arábia Saudita desse tipo de energia.