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Modelos de atividades para a Sala de Aula (Geografia)

  • James Webb: por que a Agência Espacial Europeia lança seus foguetes da América do Sul

    James Webb: por que a Agência Espacial Europeia lança seus foguetes da América do Sul

    26.dez.2021 às 17h49

    BBC NEWS MUNDO

    Trata-se de um pequeno território na América do Sul continental, com apenas 83.846 quilômetros quadrados, área equivalente à de Santa Catarina.

    Mas dentro de suas fronteiras, está um dos centros espaciais mais importantes da Europa: Kourou, administrado conjuntamente pela ESA (Agência Espacial Europeia), o CNES (Centro Nacional Francês de Estudos Espaciais) e a empresa Arianespace.

    Centro Espacial de Kourou está na Guiana Francesa – Getty Images

    A Guiana Francesa, com cerca de 259.109 habitantes e uma densidade populacional muito baixa, tem papel chave na corrida espacial, não só da Europa, mas também do mundo.

    Foi dali que o James Webb, o maior telescópio espacial da história, decolou no sábado (25) a bordo do foguete Ariane 5

    Considerado o sucessor do Telescópio Espacial Hubble da Nasa (agência espacial dos Estados Unidos), o James Webb foi projetado para olhar mais fundo no universo e, como consequência, detectar eventos que ocorreram há muito tempo, mais de 13,5 bilhões de anos atrás.

    Cientistas também esperam usar suas capacidades mais avançadas para estudar a atmosfera de planetas distantes, na esperança de detectar sinais de vida.

    Com um custo de US$ 10 bilhões (R$ 57 bilhões), o James Webb, que demorou 30 anos para ser construído, é liderado pela Nasa em conjunto com a ESA.

    Webb tem como destino uma estação de observação a cerca de 1,5 milhão de quilômetros da Terra. Nessa viagem, que deve durar um mês, o telescópio vai acionar seu espelho primário de 6,5 metros de diâmetro e um escudo para proteger suas observações do cosmos da luz e do calor do Sol.

    O objetivo é obter imagens dos primeiros objetos que se formaram após o Big Bang. E tudo será administrado a partir da sala de controle localizada em Kourou. “Posso dizer que (o centro espacial europeu) tem uma das melhores localizações do mundo em termos de adequação para lançamento ao espaço”, diz Julio Aprea, um dos gerentes da missão, à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.

    A HISTÓRIA DE KOUROU

    Em 1964, a França teve que escolher um local para lançar seus satélites. O país europeu não tinha mais a Argélia, que se tornara independente em 1962.

    Quatorze locais foram analisados ​​até que os especialistas escolheram Kourou, uma cidade na Guiana Francesa localizada a cerca de 55 km da capital, Caiena, e a 500 km da linha do Equador.

    Foram muitos os aspectos avaliados, desde históricos, políticos e até técnicos. Essa região, habitada por colonos europeus desde o século 17 e que já foi um centro penal, tornou-se oficialmente um departamento ultramarino da França em 1946.

    O aspecto geopolítico é de considerável importância. Apesar de estar no nordeste da América do Sul, a Guiana Francesa é parte da França — sua língua oficial, portanto, é o francês e sua moeda, o euro. Isso simplifica as coisas.

    Finalmente, em 1975, o governo francês tomou a decisão de compartilhar seu Centre Spatial Guyanais com a recém-criada ESA.

    Mas é sua posição estratégica no mapa que é ideal para cientistas e engenheiros espaciais. Quase a totalidade do país é coberto por florestas tropicais. Isso representa uma vantagem de segurança em caso de acidentes. Tampouco é afetado por ciclones ou furacões, visto que esses são formados mais em direção ao Caribe.

    Kourou fez seu primeiro lançamento em 1968 – Getty Images

    Já a Guiana Francesa tem o litoral norte e leste banhado pelas águas do Oceano Atlântico. Ela está a um ângulo de lançamento de 102 graus, o que lhe permite realizar todas as missões espaciais possíveis.

    Aprea explica que, para lançamentos ou órbita de transferência geoestacionária, na qual está localizada a maioria dos satélites de comunicação, os foguetes têm que decolar para o leste.

    Mas em seu caminho para o espaço, o foguete “se desprende” de camadas que caem em locais não povoados. No caso da Guiana Francesa, esse lugar é sobre o oceano.

    Mas também é fácil viabilizar lançamento a órbitas polares dali, em direção ao noroeste. Essas órbitas são sincronizadas com o Sol, o que significa que o satélite posicionado nessa órbita passará sobre o mesmo ponto na Terra na mesma hora todos os dias.

    “Se o Sol está sempre na mesma posição, as sombras serão sempre as mesmas, então você pode analisar melhor as diferentes mudanças. Se em vez disso você passar pelo mesmo ponto, mas tiver posições diferentes do Sol, as sombras mudam e é muito mais difícil analisar o que você está vendo”, explica Aprea.

    Alguns dos lançamentos mais importantes de Kourou foram o primeiro deles (1968), o lançamento do foguete Europa 2 (1971), o Ariane 1 (1979, o primeiro foguete de sucesso da ESA), o Soyuz (2011) e o Vega (2012).

    EFEITO ESTILINGUE

    Outra vantagem do centro espacial europeu é o que os cientistas chamam de “efeito estilingue”. E isso ocorre justamente pela proximidade do centro espacial com a linha do Equador. O “efeito estilingue” é a energia criada pela velocidade de rotação da Terra em torno do eixo dos polos. Vale lembrar que quanto mais perto um objeto está do Equador, mais rápido ele se move.

    Isso ocorre porque um objeto que está no meio do mundo tem que girar mais rápido do que um localizado nos polos do planeta. O tempo de rotação da Terra é de aproximadamente 24 horas. Mas dependendo da latitude, a velocidade empregada para que um objeto complete a rotação nesse tempo pode mudar.

    Telescópio James Webb foi lançado de Kourou a bordo do foguete Ariane 5 – Getty Images

    A linha do Equador mede 40.075 quilômetros. Mas, à medida que avançamos em direção aos polos, a linha circunferencial fica menor, então menos velocidade é usada para completar a curva em 24 horas.

    Essa energia dá um impulso inicial para os foguetes no momento da decolagem. “Imagine dois carros que têm que acelerar até 100 km/h. Um começa a partir de 0 km/h e o outro, a partir de 30 km/h. Obviamente, o segundo chegará mais rápido. Essa é a vantagem da linha do Equador”, explica Aprea.

    Esse impulso inicial é muito útil para lançamentos espaciais, pois economiza combustível e peso. Se o lançamento for feito em outras latitudes, o efeito muda e mais combustível é consumido. Também acrescentaria um peso considerável, até centenas de quilos, o que faz “uma grande diferença”, acrescenta Aprea.

    A Guiana Francesa é território francês, compartilhando mesma língua e moedas oficiais do país europeu. – Getty Images

    “Subir e descer é muito fácil. O que dá mais trabalho é entrar em órbita porque você tem que ir muito rápido para chegar a uma velocidade tal que você fique em órbita”.

    A ESA já está desenvolvendo o foguete Ariane 6 com o qual pretende aumentar o número de lançamentos. A agência espacial francesa está preparando as instalações em Kourou para a estreia desse foguete no segundo trimestre de 2022.

    https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/12/james-webb-por-que-a-agencia-espacial-europeia-lanca-seus-foguetes-da-america-do-sul.shtml

    Questões

    É possível estabelecer semelhanças entre Kourou e o Centro de Lançamento de Alcântara? Justifique.

    Cartografia

    tópicos

  • Israel vai dobrar número de habitantes nas colinas de Golã, anuncia governo

    Israel vai dobrar número de habitantes nas colinas de Golã, anuncia governo

    ORIENTE MÉDIO

    Medida deve apertar controle de Tel Aviv sobre território na fronteira com a Síria anexado após a Guerra dos Seis Dias

    26.dez.2021 às 17h06

    JERUSALÉM | REUTERS

    O governo de Israel aprovou neste domingo (26) um plano para dobrar em cinco anos o número de habitantes judeus nas colinas de Golã, território na fronteira com a Síria que Tel Aviv capturou e anexou após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, manobra que não conta com reconhecimento da comunidade internacional.

    O premiê Naftali Bennett, ao comentar a medida, citou o apoio ao reconhecimento da soberania israelense sobre a região dado pelo ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump e celebrou o fato do atual chefe da Casa Branca, Joe Biden, não ter revertido a decisão.

    Tanques de Israel nas colinas de Golã, território anexado por Tel Aviv após a Guerra dos Seis Dias – Jalaa Marey – 7.dez.21/AFP

    Cerca de 25 mil colonos israelenses vivem nas colinas de Golã ao lado de outros 23 mil drusos, uma minoria árabe que permaneceu nas terras após elas serem tomadas por Israel. O plano aprovado neste domingo prevê a construção de 7.300 novas casas em Katzrin, principal assentamento judeu, em um período máximo de cinco anos.

    Em fevereiro, pouco após Biden tomar posse da Presidência, o secretário de Estado, Antony Blinken, disse à rede americana CNN que o controle sobre a região continua sendo de vital importância para a segurança de Israel devido à presença de grupos e milícias apoiados pelo Irã na Síria, governada pelo ditador Bashar al-Assad. “Caso a situação mude, podemos olhar para as questões jurídicas, mas não estamos nem perto disso”, acrescentou.

    De acordo com o jornal The Jerusalem Post, o plano irá custar 1 bilhão de NIS (R$ 1,8 bilhão) para os cofres públicos. Dois novos bairros serão construídos em Katzrin, bem como duas novas cidades, que serão chamadas de Asif e Matar, além de sistemas de transporte e de saúde.PUBLICIDADE

    O assentamento israelense nas colinas de Golã tem escala muito menor do que na Cisjordânia ocupada ou em Jerusalém Oriental, áreas também capturadas na Guerra de Seis Dias e reivindicadas pelos palestinos.

    Israel insiste na ocupação do território ao afirmar que a cordilheira é essencial para a segurança do país, especialmente devido à guerra civil na Síria e ao aumento da pressão militar do Irã contra Tel Aviv.

    “Após cerca de dez anos da terrível guerra na Síria, toda pessoa bem informada entende que é preferível ter a presença israelense do que a outra alternativa”, disse o premiê Bennett após o anúncio.

    Colinas de Golã

    Fumaça escura sobe de vilarejo sírio afetado pela guerra civil próximo às colinas de Golã
    Fumaça escura sobe de vilarejo sírio afetado pela guerra civil próximo às colinas de Golã Daniel Avelar/Folhapress

    Iniciada em março de 2011, a guerra civil na Síria já deixou mais de 400 mil mortos e 6,6 milhões de refugiados. O conflito fragmentou o país, abriu espaço para o fortalecimento de facções extremistas e aprofundou a instabilidade no Oriente Médio.

    Quando as colinas de Golã foram ocupadas, em 1967, mais de 130 mil sírios fugiram da região. Desde então, nunca puderam retornar, e cerca de 340 vilarejos e fazendas que existiam no local foram destruídos.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/12/israel-vai-dobrar-numero-de-habitantes-nas-colinas-de-gola-anuncia-governo.shtmle

    Oriente Médio

    Rio Jordão, Colinas de Golã, Israel e a Síria. (Atividade)

  • Há 30 anos, desintegrava-se a União Soviética, personagem central do século 20

    Há 30 anos, desintegrava-se a União Soviética, personagem central do século 20

    Superpotência com vasto território não resistiu às políticas de abertura de Gorbatchov

    Jaime Spitzcovsky

    10.dez.2021 às 16h05

    “Acabou a União Soviética”, bradou a manchete da Folha a 26 de agosto de 1991. Em decisão editorial ousada, o jornal enfileirou naquela edição fatos responsáveis por descaracterizar, de forma irrecuperável, o império comunista criado por Vladimir Lênin.

    Símbolo da antiga União Soviética que ficava em uma avenida no centro de Moscou e hoje ocupa um parque histórico na capital russa – Alexander Nenemov/AFP

    No entanto, a formalização do ocaso bolchevique veio em dezembro daquele ano, há exatas três décadas, com a ofensiva política de Boris Ieltsin e a renúncia de Mikhail Gorbatchov.

    Em 1991, trabalhava eu em Moscou como correspondente da Folha. Ao desembarcar, no ano anterior, sabia da aproximação de momentos históricos, mas, certamente, não imaginava a desintegração da superpotência militar, protagonista da Guerra Fria e personagem central do século 20.

    No entanto, a formalização do ocaso bolchevique veio em dezembro daquele ano, há exatas três décadas, com a ofensiva política de Boris Ieltsin e a renúncia de Mikhail Gorbatchov.

    Em 1991, trabalhava eu em Moscou como correspondente da Folha. Ao desembarcar, no ano anterior, sabia da aproximação de momentos históricos, mas, certamente, não imaginava a desintegração da superpotência militar, protagonista da Guerra Fria e personagem central do século 20.


    O poderio bélico, exibido em trepidantes desfiles militares na praça Vermelha, e a impressionante vastidão territorial, unindo da fronteira polonesa ao extremo oriente asiático, pareciam cobrir com um manto de longevidade a sucessora do autoritarismo czarista.

    Avaliação equivocada. A máquina soviética, capaz de enviar o primeiro homem ao espaço (Iúri Gagárin, em 1961), fracassou na missão de prover algumas das necessidades básicas à população. Chegou a receber, na era Gorbatchov, ajuda humanitária internacional, com alimentos descarregados em pistas de pouso prontas a receber bólidos da poderosa Força Aérea vermelha.

    Ao assumir o poder, em 1985, Gorbatchov reconheceu o estado putrefato do sistema e, para salvá-lo e preservar o poder do Partido Comunista, lançou reformas políticas (glasnost, transparência em russo) e econômicas (perestroika, reestruturação). Em breve, perderia o controle do processo mudancista.

    A glasnost proporcionou liberdades inauditas, como de expressão e de prática religiosa. Na diplomacia, a busca pelo fim da dispendiosa corrida armamentista com os EUA culminou na eliminação da Guerra Fria. Gorbatchov ganhou, em 1990, o Prêmio Nobel da Paz.

    A “gorbimania” ocidental contrastava com a veloz deterioração da popularidade do dirigente no plano doméstico. A perestroika representou retumbante fracasso, com reformas tímidas e sem norte, desaguando na maior crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial.

    A paisagem moscovita emergia recortada por filas intermináveis, com soviéticos gastando horas à espera de pão ou de leite. Lojas estatais ofereciam prateleiras vazias.

    Gestava-se então o binômio crise econômica e separatismo, responsável por abreviar a aventura soviética. Líderes regionais, espalhados pela imensidão continental do país, de Brest a Vladivostok, responsabilizavam o Kremlin pela escassez de produtos e estimulavam sentimentos separatistas, prometendo avanços quando se livrassem do poder central, em Moscou.

    Líder da Rússia, a maior das 15 unidades a formar a multiétnica URSS, Boris Ieltsin abandonou o passado comunista, catalisou a insatisfação popular, incentivou o separatismo e se lançou como inimigo número um do sistema soviético e de Mikhail Gorbatchov.

    A 8 de dezembro, acompanhado dos líderes da Ucrânia e da Belarus, Ieltsin anunciou não mais reconhecer o poder soviético e decretou o fim da URSS. O mapa-múndi passou a desenhar 15 países onde havia apenas um.

    Gorbatchov tentou resistir. Porém, enfraquecido politicamente, renunciou a 25 de dezembro. A bandeira tricolor russa tremulou no Kremlin, no lugar da foice e martelo sobre um fundo vermelho.

    Deixei Moscou em 1994, para experimentar a estranha sensação de haver chegado a um país, a União Soviética, e, na saída, despedir-me de outro, a Rússia.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jaimespitzcovsky/2021/12/ha-30-anos-desintegrava-se-a-uniao-sovietica-personagem-central-do-seculo-20.shtml

  • Ártico

    Ártico

    Aquecimento de região polar impõe reforma no Cofre Global de Sementes

    Marcelo Leite

    Lalo de Almeida

    1.mai.2018 – 02h00

    LONGYEARBYEN

    Frio e vento castigavam a encosta da montanha Platô (Platåberget, em norueguês), em frente ao aeroporto da cidade de Longyearbyen, na ilha Spitsbergen (Noruega). Os cantores do coral masculino Store Norske, porém, aguentaram firmes com seus macacões azuis e quepes brancos.

    Entoaram canções populares norueguesas debaixo de chuva, que nunca esteve no programa da cerimônia para comemorar o décimo aniversário do Cofre Global de Sementes.

    O ministro norueguês da Agricultura, Jon Georg Dale, duas dúzias de jornalistas e outro tanto de doadores de sementes ficaram molhados. Todos estavam preparados para neve, não para água, em pleno inverno ártico.

    Funcionário do Centro de Recursos Genéticos Nórdicos (NordGen) descarrega amostras de sementes para serem guardadas no Cofre Global de Sementes, nos arredores de Longyearbyen – Lalo de Almeida/Folhapress

    O cofre e o aeroporto ficam a 5 km do centro de Longyearbyen, cidade mais ao norte do planeta. Os termômetros costumam marcar -15ºC nessa época, não os 3ºC positivos daquele 26 de fevereiro, incomuns no local do paralelo 78ºN, a meros 1.300 km do polo Norte.

    Cerca de 2.000 pessoas vivem na capital do arquipélago de Svalbard. E muitos turistas se dispõem a pagar R$ 600 por diária de hotel para ver a aurora boreal, passear em motos de neve e encontrar ursos polares ameaçados de extinção pelo aquecimento global –desde que munidos de uma espingarda, para o caso de o animal estar faminto.

    No dia seguinte, choveu de novo. Muita gente foi embora de Svalbard sem ver a aurora boreal. A água congelou no chão, e os turistas que permaneceram no arquipélago ficaram confinados em seus hotéis.

    A reportagem da Folha tinha reservado a data para alcançar geleiras distantes que se encontram em retração por força da mudança do clima. Com a chuva, só pôde registrar imagens de enxurradas e poças em Longyearbyen e ao longo da rodovia que leva às minas de carvão.

    Na manhã seguinte, foi possível fazer uma incursão na geleira Longyear, a menor no topo do vale em que se abriga a vila. Duas estacas fincadas na neve marcam a entrada de uma caverna de gelo que o derretimento aprofunda todo verão.

    Depois de cavar bastante, o guia Francisco “Chicco” Mattos encontrou a escada de acesso. Brasileiro apaixonado pelo Ártico, ele vive há 7 anos em Longyearbyen, onde trabalha com produção de documentários. De início, a fenda se parece com uma toca de animal, mas logo se revela uma basílica comprimida de gelo marmoreado pelos resíduos de rocha que tritura há séculos, ou milênios.

    Paisagem de Longyearbyen com água acumulada pelo derretimento de gelo, uma consequência de temperaturas acima do normal no Ártico – Lalo de Almeida/Folhapress

    Foi uma semana atípica no Ártico. A região é a que mais tem esquentado no globo, ganhando pelo menos 4ºC nas últimas décadas, contra 1ºC no restante do planeta. No final de fevereiro, porém, o tempo batia recordes de esquisitice.

    No norte da Groenlândia, a estação Morris Jesup, uma das mais próximas do polo Norte, marcou mais de 60 horas de temperaturas positivas. O Ártico todo, segundo medições de satélite, esteve até 20ºC acima do normal. Em Svalbard, a média de fevereiro ficou 11ºC além do esperado.

    Não terá sido a primeira vez que uma reviravolta no tempo frustrou planos de humanos na cidade criada pelo americano John Munro Longyear em 1906. Mineiros de carvão, entretanto, tinham mais a temer com neve e avalanches, não com portas de carro imobilizadas pela chuva congelada.

    Acima, entrada de caverna de gelo que se aprofunda a cada ano pela ação de água corrente, no verão, com o degelo na geleira Longyear; abaixo, interior da caverna
    Acima, entrada de caverna de gelo que se aprofunda a cada ano pela ação de água corrente, no verão, com o degelo na geleira Longyear; abaixo, interior da caverna – Lalo de Almeida/Folhapress

    A transformação climática do Ártico criou percalços para o Cofre Global de Sementes, construído dez anos atrás pelo governo da Noruega por US$ 9 milhões (cerca de R$ 15 milhões à época) como um seguro para enfrentar as consequências do aquecimento global na agricultura.

    Desde então, 1.059.646 amostras únicas de sementes já foram depositadas no local, as últimas 76 mil em 26 de fevereiro, no décimo aniversário da instalação. São duplicatas de sementes guardadas em 73 bancos doadores espalhados pelo mundo, como o do Cenargen (Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia) em Brasília.

    A guerra civil na Síria inviabilizou uma importante coleção do Centro Internacional para Pesquisa em Agricultura de Áreas Secas (Icarda, na abreviação em inglês) na cidade de Aleppo. Com 92.430 duplicatas de Svalbard, a instituição pôde reconstituir o acervo no Líbano e em Marrocos, em 2015 (só a instituição que depositou as sementes pode sacá-las do banco gelado).

    “O problema mais básico da agricultura hoje em dia é que as sementes que nos alimentam não podem adaptar-se tão rápido à mudança do clima. As plantas e a humanidade se adaptaram ao mundo todo, mas isso levou dezenas de milhares de anos”, explica Haga.

    “Precisamos cruzar plantas que resistam a temperaturas mais altas, que tolerem salinidade mais alta no solo, que possam combater novas pragas e doenças. E essa diversidade de cultivares é a matéria-prima que usamos.”

    Um exemplo frequente do que se pode alcançar com cruzamentos de variedades é a soja, de clima temperado. Ela foi aclimatada pela Embrapa para cultivo no cerrado tropical e até na Amazônia equatorial.

    Uma única variedade comercial de trigo, como a “Veery”, desenvolvida nos anos 1980, resulta de 3.170 cruzamentos com 51 plantas oriundas de 26 países.

    Construir uma fortaleza gelada a fim de conservar diversidade para o futuro, 14 anos atrás, era uma ideia considerada maluca e talvez constrangedora para o governo norueguês, conta Cary Fowler, primeiro diretor do Crop Trust.

    Ele apresentou a proposta para o Ministério das Relações Exteriores em Oslo e ouviu de um jovem funcionário de alto escalão: “Dr. Fowler, o sr. está dizendo que esse é o recurso natural mais importante da Terra? E que Svalbard seria o melhor lugar da Terra para conservá-lo? Como poderíamos dizer não?”

    Svalbard pode ser o melhor local do mundo para guardar o tesouro, mas nem por isso está imune ao aquecimento global. A temperatura indicada para conservar sementes é -18ºC, e nada melhor, para economizar energia, do que usar um depósito numa montanha em que os termômetros variam entre -3ºC e -4ºC, mesmo durante o verão.

    Acima, porta coberta por gelo no Cofre Global de Sementes, em Longyearbyen; abaixo, funcionário da Nordgen manuseia caixas com amostras de sementes no interior do local – Lalo de Almeida/Folhapress

    Ao percorrer 130 m de túnel em ligeiro declive para alcançar a câmara frigorífica de 95 m², o visitante tem a sensação de que o interior da construção é mais quente que o exterior. Isso decorre da ausência de vento, mas também do fato de que a temperatura externa, em dias normais como o domingo (25/2), reservado para a equipe da Folha, estava vários graus mais negativa.

    Num ano típico, o cofre só é aberto três ou quatro vezes, quando há sementes para depositar. Na comemoração dos dez anos, houve mais de uma dúzia de aberturas, 11 delas para os times de reportagem credenciados. Um grupo por vez, acompanhado do pessoal do Centro de Recursos Genéticos Nórdicos (NordGen), que faz a zeladoria do cofre.

    Por razões de segurança, é proibido fotografar dentro do túnel escavado na rocha, mas foi possível constatar que existiam obras em curso. Svalbard se caracteriza pela presença do permafrost, o solo congelado de regiões de tundra, que não se recompôs como esperado em volta da célebre construção triangular que marca a entrada da fortaleza na encosta da Platåberget.

    O derretimento do permafrost representa um impacto do aquecimento global preocupante para os donos de imóveis em Longyearbyen, que correm o risco de vê-los afundar. No Cofre das Sementes, não causa problemas em suas três câmaras frias, cada uma com capacidade para 1,5 milhão de amostras, pois elas estão no meio de um maciço de pedra.

    Já o túnel apresentou infiltração de água desde os primeiros anos de funcionamento e agora será reconstruído para se tornar mais impermeável. A obra está orçada pelo governo norueguês em US$ 13 milhões (R$ 45 milhões), mais do que o valor investido na construção.

    O túnel será reforçado com concreto. Haverá novos recintos para abrigar equipamentos elétricos e de refrigeração capazes de manter a temperatura mesmo em caso de pane na energia elétrica. Os operadores do cofre asseguram que as sementes estocadas jamais estiveram em risco.

    As três câmaras ficam num grande átrio revestido de concreto que se abre ao final do túnel, com pé-direito de mais de 6 m, apelidado “catedral”. Há portas duplas de metal no nicho de entrada de cada uma, mas só a do meio está recoberta de cristais de gelo. É a única, por ora, refrigerada a -18ºC.

    Passaram dois anos até que se estabilizasse a temperatura desejada. Foi necessário que os compressores a diesel garantissem o resfriamento da camada de rocha em volta do compartimento, para evitar flutuações no frio de -18ºC. As equipes de reportagem tiveram só dez minutos de permanência na sala forte, para evitar que o calor corporal perturbasse o ambiente.

    Máquinas são usadas para reforma no Cofre Global de Sementes, em Longyearbyen
    Máquinas são usadas para reforma no Cofre Global de Sementes, em Longyearbyen – Lalo de Almeida/Folhapress

    São meia dúzia de corredores com estantes de aço até o teto, cheias de caixas de plástico. Dentro delas ficam os envelopes de grossa folha de alumínio revestida de plástico em que se acondicionam as sementes, seladas com apenas 5% de umidade interna. Nessas condições, elas podem germinar até um século depois de guardadas. Os idealizadores do Cofre das Sementes defendem que localizá-lo em Svalbard foi a decisão correta e que a ilha de Spitsbergen permanece como o melhor lugar para ele.

    “O aquecimento global e seu efeito no permafrost é uma grande irritação, mas não uma ameaça [para as sementes]”, afirma Cary Fowler.

    “Não importa aonde você for no planeta para armazenar sementes, sempre terá de rebaixar a temperatura que a natureza lhe oferece. Não há lugar na Terra onde você possa chegar e sair facilmente que lhe garanta uma temperatura de -18ºC constantes.”

    “No interior da montanha ainda teremos por vários séculos -4ºC”, defende Marie Haga, do Crop Trust. “Há outras vantagens: politicamente é uma parte do mundo muito estável, sem terremotos nem vulcões. E a comunidade de Longyearbyen toma conta do cofre. Se pessoas com más intenções entrarem na cidade, todos saberão na hora.”

    O meteorologista Kim Holmén, diretor internacional do Instituto Polar Norueguês, observa paisagem em Longyearbyen, a cidade mais ao norte do planeta – Lalo de Almeida/Folhapress

    “Quando contemplo geleiras que conheço há 30 anos, vejo que mudaram mais que minha mulher mudou”, lamenta o meteorologista Kim Holmén, diretor internacional do Instituto Polar Norueguês. Ele mora há nove anos em Longyearbyen e faz pesquisa em Svalbard há três décadas. Não economiza palavras para registrar a profunda transformação do Ártico.

    “Onde quer que eu olhe vejo mudanças óbvias. O fiorde ali fora da janela não está coberto de gelo. Nesta época do ano [fevereiro] costumava haver um metro, de fora a fora, e agora são águas abertas. A neve desaparece duas semanas antes na primavera”, diz.

    A espessura das geleiras diminui até 40 cm por ano. As temperaturas noturnas no inverno subiram dez graus nos últimos 30 anos, enquanto as do verão não subiram tanto, o que é consistente com os cálculos sobre como os humanos induzem a mudança do clima. “A lista é interminável.”

    A fauna local passa por mudança acentuada de perfil. Não são só os ursos polares que sofrem com o desaparecimento de gelo marinho usado como plataforma para emboscar focas.

    Tordas-anãs se veem forçadas a voar para o norte, em busca de copépodes com mais gordura armazenada em seu diminuto corpo de crustáceo. O bacalhau polar parte em busca de águas mais frias e placas de gelo em cujas frestas se abrigam os alevinos (filhotes). Outros peixes de águas mais quentes invadem o arquipélago, como a cavala, atrás da qual chegam novas espécies de pássaros, como o ganso-patola.

    No alto, capim brota em meio ao gelo nos arredores de Longyearbyen; no meio, paisagens com vegetação e água; acima, montes de carvão mineral na região do arquipélago de Svalbard – Lalo de Almeida/Folhapress

    “O urso polar é um símbolo para todo o ecossistema, mas o bacalhau polar é parte dele, assim como a baleia beluga, os narvais e outras espécies que dependem do gelo marinho”, diz Holmén. “Há poucos de nós privilegiados o bastante para ver ursos polares em seu habitat natural. Muita gente acha que o mundo estará mais pobre se o urso polar desaparecer.”

    Algumas dessas pessoas, caso tenham recursos e coragem para enfrentar o frio, visitam Svalbard na esperança de contemplar o urso ameaçado. Circulam pela ilha de Spitsbergen em carros movidos a diesel e motos de neve que queimam gasolina.

    No caminho do aeroporto, a usina termelétrica consome a energia fóssil do carvão para aquecer hotéis e restaurantes –além de agravar o efeito estufa e alimentar os geradores que mantêm o Cofre das Sementes a -18ºC.

    Cidade de Longyearbyen, a mais ao norte do planeta, localizada no arquipélago de Svalbard, Noruega – Lalo de Almeida/Folhapress

    A Noruega paga pelo Cofre das Sementes, pôs US$ 1 bilhão (R$ 3,5 bilhões) à disposição do Fundo Amazônia para atividades que reduzam a pressão sobre a floresta brasileira e dá pesado incentivo fiscal para eletrificar sua frota de carros. No entanto, quase toda sua riqueza deriva do petróleo e do gás natural, que produz e exporta a partir do Mar do Norte.

    “Como um país rico que obtém renda de combustíveis fósseis, temos de mudar nossa economia, pois sabemos que a indústria de óleo e gás será menos importante no futuro”, concede Ola Elvestuen, ministro de Clima e Ambiente da Noruega.

    “Não é algo que possamos simplesmente desligar. Precisamos estar na vanguarda da redução de emissões, assumir responsabilidade pela nossa parte e pensar em como podemos tornar nossa economia mais diversificada.”

    “A indústria é parte da solução, não é inimiga. Você e eu somos parte do problema, eu e você somos parte da solução. Se não começarmos a fabricar e consumir produtos que requeiram menos petróleo, nada irá mudar”, pondera Kim Holmén, do Instituto Polar Norueguês.

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/artico/aquecimento-de-regiao-polar-impoe-reforma-no-cofre-global-de-sementes/

    Questões

    Qual a importância de um Cofre Global de Semente e por que ele foi construído no norte da Noruega?

    A fonte energética dos geradores do Cofre revela uma contradição. Justifique.

  • Atafona, distrito do RJ que vem sendo engolido pelo mar, serve de alerta para erosão costeira

    Atafona, distrito do RJ que vem sendo engolido pelo mar, serve de alerta para erosão costeira

    13.nov.2021 às 23h15

    Ana Luiza Albuquerque Nicollas Witzel

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    Restos de uma casa na beira da praia em Atafona; nos períodos mais críticos, o mar chegou a avançar nove metros por ano Nicollas Witzel/Folhapress

    ATAFONA (RJ)

    Se os escafandristas imaginados por Chico Buarque explorassem o mar de Atafona, lá encontrariam fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos e vestígios de uma civilização que, em parte, deixou de existir. Assim como a cidade submersa narrada na música “Futuros Amantes”, o distrito de São João da Barra, no Norte Fluminense, e suas memórias têm sido engolidos pela água.

    Desde a década de 1960, o avanço do mar já causou a destruição de mais de 500 casas, desabrigando centenas de famílias. Dezenas de quarteirões foram para o fundo do oceano.

    Apegados a Atafona, muitos moradores já trocaram de residência algumas vezes para fugir do mar, sem nunca deixar a pequena comunidade. Para eles, as perdas afetivas são mais dolorosas do que as materiais: há lugares que marcaram suas vidas para os quais nunca poderão voltar.

    Distrito de Atafona, em São João da Barra, município do Norte Fluminense, sofre com a erosão costeira há 60 anos – Arquivo Pessoal/Eduardo Bulhões

    A erosão costeira é explicada por uma série de motivos, mas o principal é o assoreamento do rio Paraíba do Sul, que tem seu delta (tipo de foz em que o rio desemboca no mar por meio de vários canais) em Atafona.

    Com cerca de 7.000 habitantes, o distrito é uma espécie de laboratório das consequências da intervenção humana em um ecossistema. Isso porque o assoreamento do rio foi causado especialmente por desvios de água para abastecimento doméstico, industrial e agrícola em São Paulo e no Rio de Janeiro.

    Com menor volume, o Paraíba do Sul não consegue fazer frente ao mar e transportar sedimentos em quantidade suficiente para barrar o avanço das águas em Atafona. Também contribuem para o processo condições naturais, como a dinâmica das correntes marítimas e os fortes ventos na localidade.

    Atafona é apenas uma entre tantas regiões litorâneas que sofrem com a erosão costeira em todo o mundo. Diante das mudanças climáticas e do aumento no nível dos oceanos, o cenário pode piorar nas próximas décadas.

    O geógrafo Eduardo Bulhões, professor na UFF (Universidade Federal Fluminense), lembra que uma pesquisa identificou que somente 4% de todas as regiões litorâneas no mundo erodem em taxas superiores a cinco metros por ano. Atafona é um desses lugares. Nas áreas mais críticas, o mar avança cerca de seis metros por ano. Em alguns períodos, o avanço chegou a nove metros.

    “A erosão só se torna um problema quando há uma cidade instalada. Nesse contexto, Atafona talvez seja o principal ponto do país”, diz.

    O severo processo de erosão que ali ocorre contrasta com a tranquilidade do local, onde a vida se desenrola em um ritmo mais devagar, não se veem edifícios e não se ouvem buzinas. É comum que os moradores se conheçam. Foi assim que a reportagem chegou à casa da aposentada Sonia Ferreira, 77, uma referência na comunidade.

    Acostumados a passar verões em Atafona, Sonia e sua família compraram uma casa ali no fim da década de 1970. À época, alguns quarteirões separavam a construção da praia. Hoje, a residência está de frente para o mar.

    Pilares de antiga construção enterrados na areia da praia de Atafona, distrito do município de São João da Barra, localizado no Norte Fluminense
    Pilares de antiga construção enterrados na areia da praia de Atafona, distrito do município de São João da Barra, localizado no Norte Flumin Nicollas Witzel/Nicollas Witzel/Folhapress

    Em frente à casa de Sonia estão as ruínas do conhecido prédio do Julinho, o único que havia na região, derrubado pelas ondas em 2008. “Foi um impacto muito grande. A gente sempre tem aquela esperança de que não vai chegar na nossa casa”, diz.

    Quando o mar destruiu seu muro, em 2019, Sonia aceitou que precisava se mudar. A aposentada decidiu ir para uma pequena casa nos fundos do terreno e, aos poucos, vem retirando seus pertences.

    “Atafona era um lugar de férias, passeio, alegria. Perder isso é difícil. Você tem seus cantinhos na casa que te remetem a pessoas queridas. Esses cantinhos ficam perdidos na sua história.”

    O prédio do Julinho também é citado como uma das melhores memórias da empresária Camila Hissa, 31, filha dos fundadores do restaurante Ricardinho, o mais famoso em Atafona. “Era um lugar icônico, tinha o barzinho que vendia uma empada deliciosa com um cheiro peculiar. É o resumo da infância”, diz.​

    Seus pais fundaram o restaurante em 1978 e tiveram que mudá-lo de lugar três vezes para fugir do avanço do mar. “Quem é daqui aprendeu a conviver. Não é uma coisa que você se revolta e larga tudo, vai embora.”

    Camila relata que os restaurantes e pescadores foram muito impactados pelas dificuldades de navegação com o assoreamento do rio. Há cerca de três anos houve um período tão crítico que os barcos não conseguiam desembarcar o peixe em Atafona.

    O pescador Valcinei Bento, 52, lembra que nessa época os barcos só trabalhavam com a maré cheia. “Foi um inferno. A gente chegava na beira dos frigoríficos e era uma zona fantasma”, afirma.

    Apesar das perdas financeiras, Camila diz que as perdas emocionais são as piores. “Aquela história foi simplesmente apagada. Era uma época na qual a fotografia era muito cara. As fotos são raras”, afirma.

    No início do ano, um projeto interativo conhecido como Museu Ambulante levou para as ruas uma enorme bicicleta com fotografias antigas de Atafona. O acervo e a iniciativa foram desenvolvidos pela residência artística CasaDuna, fundada pela filósofa Julia Naidin e pelo artista plástico Fernando Codeço.

    Codeço diz que a reação da comunidade foi impressionante e que muitos moradores se identificaram nas fotos, quando ainda eram crianças. “As pessoas imediatamente se emocionavam, queriam contar histórias”, diz.

    Ele afirma que a CasaDuna quer contribuir para a produção de memória local e também discutir sobre a forma predatória com a qual lidamos com o meio ambiente. “Falar de Atafona é falar desse Brasil que está ruindo e de um processo civilizatório que precisa mudar.”

    Algumas das fotos que mais chamaram a atenção foram as da Ilha da Convivência, primeiro lugar atingido pelo avanço do mar. Ao longo de décadas, as famílias de pescadores que lá viviam foram obrigadas a deixar o local, onde hoje ninguém vive.

    Avanço do mar em Atafona, distrito de São João da Barra (RJ), já destruiu 500 casas e desabrigou centenas de famílias
    Avanço do mar em Atafona, distrito de São João da Barra (RJ), já destruiu 500 casas e desabrigou centenas de famílias Gilberto Pessanha/Arquivo pessoa

    Uma das últimas a abandonar a ilha, em setembro de 2008, Jamira Pedra Gomes, 58, resistiu por décadas, mesmo após perder duas casas. Ela lembra que no dia de sua saída acordou de madrugada com o mar batendo nas paredes. “Eu falei ‘me ajuda, Deus’. Espera esfriar minhas pernas, que não vou botar minhas pernas quentes do cobertor nessa água fria”, diz.

    Da 1h às 8h, Jamira carregou sozinha todos os seus pertences. No dia seguinte, as paredes caíram. Sua irmã, Janira Pedra Monteiro, 60, se mudou da ilha anos antes. Quando o mar entrou em sua casa, ela deixou que tudo fosse levado. “A gente fica cansada. O mar tinha tomado quatro casas minhas”, afirma.

    Décadas após a mudança, as irmãs voltaram de barco à ilha acompanhadas pela reportagem. Janira diz que sente falta de andar de canoa, pescar manjuba, pegar caranguejo e fazer redes de pesca. “Eu penso [na ilha], eu quase nem durmo de noite. Essa noite pensei tanto naquele lugar, nas pessoas que se foram.”

    Jamira se emociona ainda mais —chegando na ilha, chorou e apontou para o lugar onde foi dona de um bar. “Eu queria envelhecer lá. Eu gosto tanto que dá vontade de ficar”, diz.

    Ela conta que a saudade se transformou em uma depressão. “Eu vivo do trabalho. Gosto de estar andando com as pessoas, conversando, para me distrair.”

    Os distúrbios psíquicos são citados pelo psicólogo Leandro Viana como uma das consequências do processo erosivo na vida dos moradores.

    Finalizando uma tese de doutorado pela Uenf (Universidade Estadual do Norte Fluminense) sobre Atafona, ele afirma que muitos relatam sentir angústia e ansiedade por estarem sempre em alerta para o movimento do mar. Também causa sofrimento a espera por uma solução.

    “Os pescadores falam muito da Ilha da Convivência, um lugar de muita troca e solidariedade. Ao perder esse lugar, perdeu-se isso também”, diz.

    Nos últimos seis anos, foram realizadas audiências para tratar do tema com a sociedade civil, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública. Três soluções foram apresentadas, mas nenhuma saiu do papel.

    A resolução esbarra em ao menos três pontos: a falta de articulação entre os poderes municipal, estadual e federal, o custo das obras e a insegurança a respeito de seus efeitos ambientais. Em primeiro lugar, é preciso obter uma licença com o Inea (Instituto Estadual do Ambiente).

    “União, estados e municípios têm responsabilidade de zelar pelo ecossistema da praia. Como as responsabilidades e o interesse são difusos, ninguém se sente na obrigação de resolver. Por outro lado, qualquer obra de aumento da faixa de praia leva tempo”, afirma o geógrafo Eduardo Bulhões, autor de um dos projetos.

    A proposta de Bulhões envolve o engordamento artificial da praia para inverter o déficit de areia. Ele avalia que qualquer solução que se proponha como definitiva, com o uso de estruturas rígidas como os espigões, é enganosa.

    “Em todos os lugares onde se criaram proteções com estruturas foram gerados problemas adicionais, e todas as obras têm tempo de vida útil”, diz.

    O geógrafo afirma que uma das opções que podem ser adotadas é a de não fazer nada, mas que mesmo assim precisa haver um planejamento e informação da população. “Acho que em Atafona houve essa opção, de vários governos, e isso não é comunicado de forma eficiente.”

    O professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Gilberto Pessanha, que estuda o caso de Atafona há 20 anos, afirma que mesmo o engordamento artificial requer monitoramento das ondas e dos ventos. Isso envolve tecnologia, pessoal e mais recursos.

    “Existe uma dúvida porque há locais onde houve iniciativa de engordamento de praia e o processo erosivo voltou”, diz.

    Secretária de Meio Ambiente de São João da Barra, Marcela Toledo afirma que o impacto das obras ainda não foi amplamente estudado. Ela diz que o Inea indicou, em 2020, que nenhum dos projetos tem eficácia comprovada. De fato, o órgão citou questões a serem trabalhadas, mas nenhum deles foi avaliado negativamente.

    Em setembro deste ano, foi criada uma Câmara Técnica com a Prefeitura e entidades da sociedade para continuar discutindo a situação e pensar em possíveis soluções. Toledo defende, também, que as ações precisam passar pela União, que, de acordo com a Constituição Federal, é dona das praias.

    Em nota enviada à Folha, a Secretaria de Coordenação e Governança do Patrimônio da União afirma que os encaminhamentos necessários competem à administração municipal. O governo federal argumenta que o Estatuto das Cidades deu aos municípios a capacidade jurídica de gestão das superfícies das cidades.

    https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2021/11/atafona-distrito-do-rj-que-vem-sendo-engolido-pelo-mar-serve-de-alerta-para-erosao-costeira.shtm

    Avaliação

    Erosão Costeira e Suas Causas (4 pontos)
    a) O texto menciona que a erosão costeira em Atafona é causada principalmente pelo assoreamento do rio Paraíba do Sul. Explique como a intervenção humana contribuiu para o assoreamento e, consequentemente, para a erosão costeira. (2 pontos)


    b) Quais são as condições naturais que também contribuem para o processo de erosão em Atafona? Explique como essas condições se combinam com os fatores antrópicos para agravar a situação. (2 pontos)

    Impactos Ambientais e Sociais (3 pontos)
    a) Discuta os impactos sociais da erosão costeira em Atafona, considerando as perdas emocionais e materiais dos moradores, conforme descrito no texto. Como esses impactos estão diretamente ligados às mudanças ambientais na região? (1,5 pontos)


    b) O texto menciona o avanço do mar em Atafona e sua relação com as mudanças climáticas. Como o aumento no nível dos oceanos, associado às mudanças climáticas, pode afetar outras regiões costeiras no Brasil e no mundo? (1,5 pontos)

    Soluções e Desafios Ambientais (3 pontos)
    a) O geógrafo Eduardo Bulhões propõe o “engordamento artificial da praia” como uma possível solução para a erosão em Atafona. Quais são os potenciais benefícios e riscos dessa solução do ponto de vista ambiental? (2 pontos)


    b) O texto aponta a falta de articulação entre os poderes municipal, estadual e federal como um obstáculo para resolver o problema da erosão em Atafona. Como uma gestão ambiental integrada poderia ajudar a enfrentar os desafios ecológicos e sociais nessa e em outras regiões afetadas por problemas semelhantes? (1 ponto)

    Prof Luciano Mannarino