Encontro entre corredor de umidade, que flui de norte para sul do país, e frentes frias causa chuvas fortes nesta época do ano
1º.fev.2022 às 8h46
Rafael BarifouseBBC NEWS BRASIL
As tempestades que vêm causando uma sequência de tragédias no Brasil desde o final do ano passado têm em comum um mesmo fenômeno.
Assim como a água corre em terra, também há fluxos massivos de água nos céus.
Na América do Sul, um desses enormes corredores de umidade atmosférica vai da região amazônica até o centro-sul do país.
Tempestades provocaram deslizamentos e mortes em São Paulo – Reuters
Esse “rio voador” carrega parte da água que evapora no norte para outras partes do território nacional.
“É uma região muito úmida e tropical, onde tem um aquecimento constante. A Floresta Amazônica por si só já despeja uma quantidade enorme de água na atmosfera pela evaporação”, explica Estael Sias, da Metsul Meteorologia.
“O relevo da América do Sul, a cordilheira dos Andes, não deixa essa umidade escapar do continente, obrigando esse rio voador a descer.”
Se esse corredor de umidade se encontra com uma frente fria vinda do sul, as nuvens carregadas tendem a ficar concentradas por alguns dias em uma determinada região.
‘Rio voador’ leva umidade da Amazônia até o sul do país – MetSul Meteorologia
Um fenômeno potencializa o outro, formando um terceiro —a chamada zona de convergência do Atlântico Sul, que é recorrente durante o verão nesta região do planeta e provoca fortes chuvas.
Foi o que aconteceu primeiro no sul da Bahia, no final do ano passado e, depois, em Minas Gerais, no início do mês.
Agora, foi a vez das chuvas torrenciais atingirem São Paulo, provocando mais inundações, deslizamentos e mortes.
Sias explica que o rio voador da América do Sul corre a uma altitude entre 5 a 10 km do solo e fica ativo durante o ano todo.
Seu curso e alcance são influenciados pela dinâmica dos ventos na região e pela passagem de outros fenômenos pelo continente.
“No inverno, um sistema de alta pressão atmosférica não deixa a maioria das frentes frias subirem até o Sudeste ou o Centro-Oeste, por isso é um período muito seco nessa parte do país, e o rio atmosférico consegue ir até mais ao sul”, afirma a especialista.
“No verão, esse bloqueio vai para o oceano, se afastando do continente, e as frentes frias conseguem subir. Quando sobe uma frente fria, ela se conecta à umidade amazônica, e elas vão andando juntas até parar em cima do Sudeste ou do Nordeste do Brasil e se transformar em chuvas e temporais.”
Encontro de ‘rio voador’ com frente fria cria zona de convergência na região do Atlântico Sul – Climatempo
Sias afirma que, na semana passada, o rio voador estava mais disperso, mas que, nesta semana, uma massa de ar frio e seco chegou ao sul do país e criou uma barreira que não deixou o corredor de umidade avançar.
As nuvens ficaram então paradas sobre a região metropolitana de São Paulo e foram potencializadas pela frente fria, provocando fortes chuvas.
O resultado foi que choveu em poucos dias a média histórica para o mês inteiro, e isso foi fatal em uma região que já vinha sofrendo com tempestades.
FENÔMENO É CARACTERÍSTICO DO VERÃO
No entanto, apesar de muita gente pensar que chuvas assim são excepcionais, Francisco de Assis, do Instituto Nacional de Meteorologia, explica que as zonas de convergência são algo característico da América do Sul no verão.
“Dependendo do ano, ocorrem mais para o sul ou mais para o norte”, afirma Assis.
Nesta época do ano, o corredor de umidade que vem da Amazônia ganha força. “Há uma alta liberação de calor e umidade da Amazônia devido às temperaturas elevadas,”, afirma Assis.
Também há uma maior evaporação de água dos oceanos Pacífico e Atlântico, intensificando esses fenômenos meteorológicos, explica o especialista.
Josélia Pegorim, meteorologista da Climatempo, reforça que as zonas de convergência acontecem todos os anos, com maior ou menor intensidade.
“Se pegarmos outros eventos de desastres naturais e de chuvas catastróficas, no Sudeste em particular, quase todos, ou a maior parte, estiveram associados à formação de zonas de convergência”, diz Pegorim.
Em poucos dias, choveu a média de janeiro inteiro na região metropolitana de SP – Reuters
A especialista avalia que as tragédias ocorrem não pela intensidade das chuvas ou porque elas sejam imprevisíveis —na verdade, foi o contrário, dizem os meteorologistas ouvidos pela reportagem, e alertas foram emitidos com antecedência.
O problema é a falta de preparo e de reação das autoridades aos avisos.
“A culpa é da chuva até certo ponto. Não se pode dizer que é por causa das mudanças climáticas ou que nunca choveu assim, porque já teve chuvas até piores. Não teve surpresa”, diz Pegorim.
Ao mesmo tempo, afirma a meteorologista, a canalização do ar úmido da região Norte em direção ao Centro-Oeste e ao Sudeste e a formação das zonas de convergência no encontro com frentes frias, formando tempestades, tem uma função importante.
“Esse sistema é fundamental para que consigamos recompor as reservas de água para os reservatórios de geração de energia e de abastecimento da população.”
1 De que forma o aumento da devastação da floresta amazônica pode modificar a quantidade de chuvas no verão das regiões Centro Oeste e Sudeste?
2 Explique as características do Clima Equatorial a partir de seu Climograma.
3 Por que eventos de chuvas intensas atingem mais as populações de baixa renda nas grandes metrópoles da região sudeste? Quais intervenções que o poder público poderia fazer para diminuir os danos dessas chuvas sobre essas populações?
4 Como o “La Nina” altera o comportamento das massas de ar que atuam no Brasil?
A grave crise no Leste Europeu que opõe a Rússia de Vladimir Putin à Ucrânia e ao Ocidente, representado pela sua aliança militar, a Otan, pode trazer a guerra de volta ao solo europeu.
Ao mesmo tempo, as negociações em torno do impasse testam duas décadas de política de Putin e talvez seu futuro político — no poder desde 1999, ele mudou a Constituição e pode tentar ficar no cargo até 2036.
Força de reserva ucraniana treina a defesa de Kiev, capital do país, no fim de 2021 – Serguei Supinski – 25.dez.2021/AFP
O presidente da Rússia, que assumiu sobre as ruínas dos dez anos de crise após o fim da União Soviética, trabalhou um plano geopolítico claro. Críticos o acusam de buscar restaurar o império comunista, mas suas preocupações são as mesmas de governantes do maior país do mundo desde tempos imperiais: aumentar a distância entre seu território e os adversários, perdida quando a união caiu, em 1991.
Há outros pontos, como a proteção de russos étnicos que ficaram para trás, e a manutenção da popularidade, que tem na ideia de uma Rússia forte um de seus pilares. O adversário, claro, é a Otan, liderada pelos vencedores da Guerra Fria, os EUA.
Três décadas depois, o Ocidente se vê encurralado pelos russos na Ucrânia, uma crise que Putin tenta resolver com um xeque-mate — ou um ippon, para ficar no judô que aprecia. A Folha resume o caminho que trouxe os dois países com os maiores arsenais nucleares do mundo frente a frente, novamente.
O que está acontecendo na Ucrânia agora?
No começo de novembro, Putin deslocou mais de 100 mil soldados e equipamentos para áreas próximas, relativamente, da Ucrânia. O vizinho, os EUA e a Otan o acusaram de planejar uma invasão militar, que ele nega.
Tanques ucranianos fazem manobras perto de Donetsk Forças Armadas da Ucrânia – 14.abr.2021/Via Reuters
Mas o que existe lá que interessa a Putin?
Em 2014, o governo pró-Rússia de Kiev foi derrubado (golpe ou revolução, depende de quem conta). Putin percebeu que a Otan e a União Europeia poderiam absorver o vizinho e agiu, promovendo a anexação da Crimeia, um território étnico russo que havia sido cedido à Ucrânia nos tempos soviéticos, em 1954. E fomentou uma guerra civil de separatistas pró-Kremlin na região do Donbass, no leste da Ucrânia, que está no centro da confusão agora.
A ONU disse o quê?
Ela não reconhece a Crimeia russa.
Alguém reconhece?
Apenas oito aliados do Kremlin. Mas, na prática, a anexação é vista como um fato consumado na comunidade diplomática.
E as áreas autônomas?
Aqui a coisa complica. Primeiro, porque não são tão homogêneas etnicamente; segundo, porque Putin não jogou todo seu peso militar para apoiar de forma decisiva os rebeldes.
Mas isso não o interessava?
Anexar o Donbass seria muito mais complexo e caro, além de ter evidente custo militar e humano. A prioridade de Putin é outra: evitar que a Ucrânia, ou qualquer outro país ex-soviético, entre na Otan e, de forma talvez mais secundária, na União Europeia.
Por quê?
Historicamente, os russos têm o seu flanco mais vulnerável no Leste Europeu. Por isso, tanto o Império Russo quanto a União Soviética ou dominavam ou tinham aliados na região. O ocaso soviético fez com que parte desses países fosse absorvida na esfera ocidental, e em 2004 a expansão da Otan chegou a três repúblicas que eram da união: Estônia, Letônia e Lituânia. Isso foi a gota d’água para Putin.
Mas isso não seria uma questão dos países?
Sim, é o que diz o direito internacional e a lógica ocidental, quando lhe interessa. Politicamente, contudo, os EUA se comportaram como vencedores pouco magnânimos da Guerra Fria, perdendo a oportunidade de atrair a Rússia para uma parceria mais estável com seus aliados europeus.
E então Putin agiu.
Ele primeiro travou uma guerra em 2008 na Geórgia, um país pequeno numa região explosiva, o Cáucaso, uma das rotas históricas de invasões e guerras —no caso, contra a Turquia. Nos dias de hoje, o problema lá é a infiltração de radicais islâmicos, como as duas guerras que Moscou lutou na Tchetchênia, que faz parte de seu território, demonstraram. No caso georgiano, o então presidente do país tinha uma atitude agressiva e foi visto como imprudente ao provocar os russos, dando a desculpa para que eles atacassem em nome da minoria étnica que povoa duas áreas do país. Resultado, hoje a Geórgia não controla 20% de seu território, o que na prática impede que ela se una à Otan.
Que é exatamente o que Putin queria.
Sim, e é o motivo pelo qual ele é visto como um vilão no Ocidente, pelo uso de força bruta quando acha necessário. O passo seguinte foram as ações na Ucrânia, em 2014.
E as sanções ocidentais tiveram efeito?
Há uma pressão sobre a Rússia, mas especialistas se dividem sobre o real impacto, porque a resultante das sanções foi um incremento no mercado interno, o maior descolamento do sistema financeiro internacional e uma certa diversificação da economia, que ainda é dependente da exportação de hidrocarbonetos (petróleo e gás).
E a Europa segue comprando gás russo.
O gasoduto Nord Stream 2, completado no ano passado, permitirá à Rússia, quando a Alemanha liberar sua operação, retirar boa parte do trânsito do gás natural que vende aos europeus por meio de velhas linhas que passam pela Ucrânia. Assim, Kiev pode perder boa parte dos US$ 2 bilhões anuais que aufere em taxas. O Nord Stream 2 e seu irmão em operação, o ramal 1, ligam a Rússia à Alemanha pelo mar Báltico. Hoje, 40% do gás que a Europa consome vem do país de Putin, e os EUA lutam para inviabilizar o gasoduto porque consideram que os europeus fazem jogo duplo.
Por que a Ucrânia não entrou na Otan e na UE?
Pelo mesmo motivo da Geórgia: as regras dos clubes não permitem países com conflitos territoriais ativos. Isso torna conveniente o discurso ocidental, já que ninguém quer pagar para ver em um confronto direto com a Rússia. Assim, Kiev recebe apoio e algum armamento da Otan, mas não se esperam tropas em solo para sua defesa.
E o que acontece agora?
Putin quer ver implementados os Acordos de Minsk 2, de 2015, que congelaram a guerra civil no Donbass. Só que eles preveem um grau de autonomia às áreas russas que Kiev não aceita. Ao deslocar tropas, insinua que pode usar a força como em 2014, o que alguns acham ser blefe.
Por quê?
Porque o Exército ucraniano não pode derrotar o russo, mas causar um bom estrago. E uma invasão implicaria anexação de áreas, o que custa bilhões que Putin não dispõe. Fora o risco de a Otan mudar de ideia e defender Kiev, o que arriscaria uma escalada perigosa, talvez nuclear. Não por acaso, as cinco potências atômicas se comprometeram recentemente a nunca iniciar uma guerra com essas armas.
Tanque russo atira durante treinamento no campo de Mulino Vadim Savitski – 11.set.2021/Ministério da Defesa da Rússia/via Reuters
O que está sendo negociado?
Russos e ocidentais não avançaram nas negociações iniciadas em meados de janeiro para debater os termos apresentados por Putin para pacificar a região. Ele “trucou”, pedindo compromisso do fim da expansão da Otan e retirada de forças da aliança de membros que entraram após 1997, ou seja, todo o bloco que era comunista. Isso não será aceito, mas pode haver concessões pontuais e o reinício de negociações sobre a Ucrânia, o que já será vendido em Moscou como uma vitória do líder.
E qual a resposta?
Até aqui, é não, mas o fato de que diversas frentes de negociações foram abertas traz a esperança de que algum avanço venha a acontecer.
Se não der certo, pode haver guerra?
Sim, o risco é real, embora não seja necessariamente o cenário mais provável. Putin tem na mesa opções mais drásticas e perigosas, como tentar invadir totalmente a Ucrânia e depois deixar o país sob condições de que nunca entre na Otan, ou ações mais pontuais.
E a Otan, faria o quê?
Joe Biden cometeu um erro e admitiu que uma ação limitada não deveria trazer as sanções econômicas devastadoras que promete aplicar ao Kremlin em caso de invasão. Tentou corrigir, mas o estrago foi feito. Além disso, países como a Alemanha, o mais forte economicamente da Europa, são reticentes em um embate direto com Putin, explicitando o racha na aliança.
Em frente a monumento a mortos na Segunda Guerra, noiva e sargento da Marinha Russa dançam ao som de uma banda militar, tradição local
Mas a Otan não reforçou suas fronteiras com caças e navios? Sim, foi uma sinalização política, embora do ponto de vista militar não deverá fazer grande diferença, até porque não pretende defender diretamente a Ucrânia. Ainda assim, os EUA colocarem soldados em alerta é sempre um sinal forte.
E a crise recente no Cazaquistão, como se encaixa nisso?
Há duas teorias sobre o fato de protestos legítimos contra o aumento de combustível terem quase virado uma revolução, com gente armada nas ruas. Primeiro, que foi fomentada pelo Ocidente para enfraquecer Putin. Segundo, que foi obra do Kremlin para, resolvida rapidamente, o colocar em posição de força. Seja o que for, Putin saiu fortalecido.
Há outras implicações?
A crise aproximou ainda mais a Rússia da China, que deu apoio a Putin e disse que ambos os paísesprecisam se defender juntos do Ocidente. É uma tendência que já estava colocada, mas que pode ter efeitos no futuro próximo.
Há alguma chance de uma Terceira Guerra Mundial com a China e a Rússia de um lado, e o Ocidente, do outro?
Isso é especulação pura, até porque tal conflito não interessaria a ninguém e teria uma grande chance de acabar com a civilização. Ainda assim, não passou despercebido que a China reiniciou seu embate com os EUA no Indo-Pacfício, reagindo a exercícios de dois porta-aviões americanos na sua vizinhança com mais uma grande incursão aérea contra Taiwan.
Sempre com belas jovens a tiracolo, Olacyr de Moraes descia do jatinho em Ponta Porã (MS) para vistoriar sua fazenda de 500 km², maior que o território de 17 países reconhecidos pela ONU. A pista particular de aterrissagem do chamado “rei da soja”, maior produtor individual do grão no mundo no final do século 20, é usada agora para secar o milho produzido no maior assentamento sem-terra do país.
Após a derrocada empresarial de Moraes, a terra foi desapropriada e distribuída a mais de 3.000 famílias, a partir de 2003. O atual distrito de Nova Itamarati quer virar município e possui 17 mil habitantes atraídos por esse simbólico exemplo de reforma agrária no Brasil. O revelador é que 80% deles é de “brasiguaios”, população que migrou para o país vizinho e voltou nos últimos anos.
O paranaense Djones Ambrust, conhecido como Tigrinho, viveu no Paraguai até os 18 anos. Justo acontecia a Copa do Mundo de 1998 quando ele atravessou a fronteira para se juntar a um acampamento de sem-terra em Naviraí (MS). “Minha família plantava na terra dos outros, e o dinheiro só dava pra pagar as contas. E ainda tinha que conviver com a perseguição e preconceito dos paraguaios. Por isso, vim embora”, conta
Meses depois, ele se mudou para uma barraca feita de paus e lonas, como tantas outras, em uma fazenda ocupada em Itaquiraí (MS), à beira da BR-163. “Era numa ribanceira, as carretas passavam aceleradas, e o vento rasgava a lona. A gente acordava com o sereno da noite caindo na gente.” Atualmente, tem casa e lote no assentamento Itamarati.
Em 2000, seus familiares que ficaram na colônia de brasileiros em Canindeyú (Paraguai) avisaram que um grande proprietário estava precisando de gente para a colheita, e Tigrinho atravessou a fronteira de volta — para sua tristeza. “Não gosto nem de lembrar. Era como se tivessem arrasado toda minha infância: eles derrubaram a casa, o pomar e a escola para fazer plantação. O lugar onde eu cresci foi todo empurrado e virou entulho no meio do mato.” Assim como a paisagem, a própria história dessa gente está sendo apagada.
O paranaense Djones Ambrust, 41, saiu do Paraguai com 18 anos e hoje planta soja orgânica no maior assentamento sem-terra do Brasil.
Quando as marchas se encontram
A divisa entre os dois países ganhou o desenho atual há exatos 150 anos. Após dois anos do fim da Guerra do Paraguai (1864-1870), era assinado o tratado bilateral Loizaga-Cotegipe, que estabeleceu os limites entre as nações. Os vencedores ficaram com territórios que antes eram reivindicados pelos derrotados, e começou o avanço de empresas e populações brasileiras que nem sempre obedeceram aos marcos fronteiriços.
O primeiro mega empreendimento da região foi a extração da erva-mate nativa dos dois países pela Companhia Matte Larangeira, propriedade de Thomaz Larangeira, empresário que fornecera insumos para as tropas imperiais. Com sucessivas concessões e explorando mão de obra indígena, a empresa vendeu chimarrão para os argentinos até os anos 1940.
Grupo de agricultores brasiguaios presente em reunião no assentamento Itamarati, em Ponta Porã (MS).
Foi quando começou a “Marcha para o Oeste”, promovida pelo Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945). Arregimentou-se levas de sulistas para as áreas de fronteira, com desmatamento e lavoura. A partir da década de 1960, o avanço passou a alfândega: o ditador paraguaio Alfredo Stroessner fomentou por seu lado a “Marcha ao Leste”, incentivando a migração de agricultores vizinhos habituados à mecanização.
Resultado: na década de 1980, 10% dos habitantes do Paraguai eram brasileiros e descendentes — hoje, a porcentagem é 3% (240 mil). Uma das razões dessa diminuição foram os conflitos agrários. Nessa briga, os mais desprotegidos são os pequenos lavradores e empregados rurais brasileiros. O agronegócio verde-amarelo, que chega a ser dono de mais de 50% das terras em áreas fronteiriças, segundo censos econômicos paraguaios, tem conexões políticas na capital, Assunção, e se protege bem mais dos vários movimentos campesinos.
Brazilians, go home
“Direto eu ouvia: ‘volta pro seu país’. Isso é também um resquício da guerra. Estudei na escola de lá, e, quando ensinam História, havia muito ódio aos brasileiros”, relembra Jacob Bamberg, 48. Ele nasceu em Cascavel (PR) e morou dos 11 aos 38 anos no país vizinho. Um grileiro brasileiro enganou seu pai, que comprou um terreno sem título oficial paraguaio — e a família acabou ganhando a vida como funcionários de outros conterrâneos.
Bamberg foi tratorista, churrasqueiro e garçom e nunca teve terra própria no Paraguai. Ouvia falar das ocupações de latifúndios improdutivos no Brasil, mas não se arriscava a voltar. “Muita gente me convidou, mas se falava muito mal dos sem-terra, e eu não queria morar em acampamento. Acabei vindo por pura necessidade”, conta ele, que é uma das lideranças atuais do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) no assentamento Itamarati.
O agricultor brasiguaio Jacob Bamberg toma tereré em pausa do trabalho em seu lote no assentamento Itamarati, o maior do Brasil..
Nessa condição, voltou ao Paraguai para verificar as ameaças que camponeses paraguaios faziam a carvoeiros brasileiros, confundidos com jagunços de grandes proprietários. “Eles não tinham nem uma espingarda velha para caçar passarinho e não sabiam do perigo que corriam. Quando contei para eles, choraram de tanto medo”, relata.
Segundo Bamberg, o campesinato paraguaio é muito dividido. “Há muitos grupos pequenos que se voltam contra os colonos brasileiros porque é mais fácil, é o vizinho tão pobre quanto eles. Outros radicalizam e querem expulsar todos os estrangeiros. E ainda tem os que vão para as guerrilhas”, analisa. O país conta com os únicos grupos guerrilheiros em atividade da América do Sul, como o EPP (Ejército del Pueblo Paraguayo) e EML (Ejército del Mariscal López), com incursões em propriedades de brasileiros por lá.
Guerrilheiros na fazenda
“Eles queimaram o maquinário, os tratores e os galpões. Enquanto a situação for essa, não vou mais investir ali.” Assim o empresário gaúcho Iracy Antoniolli descreve a ação em 2018 do EPP, grupo armado de no máximo 80 integrantes, que entrou e destruiu sua fazenda no Departamento de Concepción, centro-norte do Paraguai.
Antoniolli, 81, é uma exceção entre os brasiguaios: fez fortuna extraindo peroba nas matas vizinhas e hoje tem gado, madeireiras e plantações nos dois países. A ideia inicial era trocar a vidinha na serra gaúcha pelas oportunidades em Sinop (MT), mas sua mulher, quando percebeu que iria morar no meio da floresta, decidiu que não dariam mais nem um passo na direção norte. “A gente estava em Campo Grande, e pra distraí-la, disse para ir até a fronteira. Quando nos hospedamos no hotel de Ponta Porã, choveu corretor oferecendo terra no Paraguai”, recorda-se. Formado em contabilidade, fez os cálculos e viu que podia ficar milionário com o negócio.
O empresário brasiguaio Iracy Antoniolli posa em seu escritório em Pedro Juan Caballero com chimarrão e bandeira paraguaia.
Voltou para Nova Prata (RS), vendeu os três carros que tinha e pediu um empréstimo no banco. Foi ao país vizinho, comprou “um perobal maravilhoso”, botou abaixo e vendeu tudo para empreiteiras paulistanas, afinal, as perobas estavam cada vez mais escassas em território nacional. “Não tinha um balde de asfalto nas estradas do Paraguai, era ruim trazer as toras pro Brasil, mas o Stroessner dava muito incentivo fiscal e financiamento para quem colocava dinheiro no país”, afirma. Hoje, Antoniolli tem 35 funcionários no Paraguai e 50 no Brasil. Mora em Ponta Porã, mas seu escritório é em Pedro Juan Caballero, aproveitando a conurbação binacional. Ele é da direção tanto do CTG (Centro do de Tradições Gaúchas) do lado brasileiro quanto da Asociación Rural do Departamento de Amambay, do lado paraguaio.
Ponte sem amizade
O casal Rosane e Ivanildo Silva também tiveram sua terra no Departamento de Caaguazú invadidas. Pior: tomada por pessoas que eles consideravam amigos. “Um deles tinha sido meu colega de escola. Outro ajudava meu marido no trator e tomava tereré com a gente. No dia que íamos construir o casebre no terreno, eles barraram a gente na estrada com facões, machadinhas e galões de gasolina”, conta Rosane, que perdeu um dente e ficou com a boca inchada por tentar argumentar com o grupo, que era uma milícia rural e não tinha ligação com os chamados carperos da Via Campesina, maior agrupação paraguaia de sem-terra.
Depois de três décadas de Paraguai, três filhos para cuidar e com todas as economias investidas no sítio ocupado, o casal decidiu se juntar ao movimento sem-terra em Mato Grosso do Sul.
Braz Correia, 46, viveu metade da vida no Paraguai, mas agora cuida de seu rebanho e é motorista escolar no assentamento Itamarati (MS)
Os brasiguaios são os únicos da diáspora brasileira com perfil rural. Além da vegetação e do solo similar ao Brasil, a concentração de terras no Paraguai é parecida também, e isso determinou as perambulações dessa população da região Sul para o Paraguai e depois em direção ao Centro-Oeste nas últimas décadas.
O que tomaram de Rosane e Ivanildo no Paraguai eles tentam reconstruir do lado brasileiro, cuidando de seu lote familiar e ajudando nas terras coletivas do assentamento Itamarati. “É como diz o ditado: o bom filho à casa torna”, resume Rosane.
O paranaense Altair Schlickmann viveu 31 anos no Paraguai, onde nasceu seu filho, mas hoje é assentado da reforma agrária em Ponta Porã (MS)
Concessão acelera fim do despejo de dejetos, mas adia ampliação de rede de coleta em 8 cidades no Rio de Janeiro
Canal do Cunha é uma das regiões mais críticas da baía de Guanabara, com alta taxa de poluição e lançamento de resíduos Gabriel Monteiro – 16.nov.2021 / Folhapress
Um dia depois de se mudar para sua casa em Vigário Geral, há 20 anos, o aposentado Reinaldo de Almeida, 76, viu sua porta ficar alagada com água misturada a esgoto após forte chuva na zona norte do Rio de Janeiro.
A razão era comum a muitos moradores da região metropolitana: dejetos lançados na rede pluvial, feita para coletar água de chuva, que acaba transbordando poluída em temporais.
A construção de uma rede de esgoto há nove anos em parte do bairro não resolveu o problema do aposentado. Os canos entopem com frequência, provocando transbordamentos da água poluída, que escorre pela rua até a galeria pluvial cujo destino é o rio Pavuna, afluente da baía de Guanabara.
Poluição no canal do Cunha, próximo ao Complexo da Maré, uma das partes mais críticas da região – Gabriel Monteiro/Folhapress
Assim como Almeida, mais da metade dos cerca de 9 milhões de habitantes do entorno da baía não tem esgoto tratado. É um problema crônico cujas promessas de solução somam quase 40 anos.
Almeida e seus vizinhos simbolizam também a principal falha dos projetos que prometeram limpar a baía. Eles estão ao lado da ETE (estação de tratamento de esgoto) Pavuna, mas não conseguem enviar seus resíduos para lá de forma adequada.
O Programa de Despoluição da Baía de Guanabara, de 1994, construiu quatro estações de tratamento, mas não todos os canos necessários para levar os dejetos até elas. O que foi instalado sofre com falhas de manutenção. A ETE Pavuna opera com apenas 18% de sua capacidade.
O fracasso empurrou para a Olimpíada de 2016 a promessa de tratar 80% do esgoto lançado na baía. Cinco anos depois, a taxa varia de 24% a 46%, a depender da fonte de dados.
A concessão do saneamento básico no Rio, concluída em abril, renovou as promessas. A nova meta é tratar 90% até 2033, em linha com o novo marco regulatório do setor.
Um investimento emergencial de R$ 2,7 bilhões nos próximos cinco anos por parte da concessionária Águas do Rio, vencedora do leilão na região, está previsto para acelerar o fim do despejo de dejetos na baía.
Para isso, porém, foi adiada a solução definitiva para os que não contam com um sistema de esgoto em oito municípios da bacia hidrográfica (Belford Roxo, Duque de Caxias, Itaboraí, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Rio de Janeiro e São Gonçalo). Por cinco anos, o índice de atendimento nessas cidades ficará o mesmo.
A aposta nesse período é o chamado coletor de tempo seco, de implantação mais rápida. Em vez de novas tubulações ligando casas à rede exclusiva de esgoto, a poluição continua sendo escoada pela rede de drenagem de chuva e será bloqueada ou antes do deságue nos rios ou na própria calha fluvial antes de chegar à baía. Dali, será direcionada para as estações de tratamento, atualmente ociosas.
Chama-se de tempo seco porque, em caso de chuvas fortes, o sistema não dá conta da vazão e a água poluída é despejada nos rios. Assim, alagamentos e valões que contaminam ruas e vielas devem continuar, segundo especialistas.
“Tempo seco não acaba com o valão de esgoto. O objetivo é despoluir o rio a curto prazo”, diz Adacto Ottoni, professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).
Para ele, o sistema se justifica como estratégia emergencial na bacia do rio Guandu, principal fonte de água da região metropolitana. A poluição no local tem gerado sucessivas crises hídricas, como a proliferação da geosmina. “Não é o caso da baía de Guanabara.”
O engenheiro sanitarista Alexandre Pessoa, da Fiocruz, afirma que a concessão deveria priorizar a melhoria na saúde dos moradores. “O sistema é feito para trazer uma melhoria ambiental da baía ou para garantir que a população não entre em contato com esgoto das comunidades?”, indaga.
Para a engenheira Eloisa Elena, o tempo seco pode beneficiar quem vive às margens de rios poluídos. Contudo, ela afirma que o clima chuvoso, intensificado pela crise climática, pode tornar a estratégia ineficaz.
“Na França, eles passam seis meses sem uma gota de chuva. Lá vale a pena. A nossa situação é diferente. Aqui no nosso bioma, de mata atlântica, todo mês chove. Tempo seco aqui é quebra-galho.”
Todos os planos anteriores para despoluir a baía tinham como base a ampliação do sistema “separador absoluto”, no qual a água da chuva e o esgoto não se misturam. O tempo seco foi proposto pela primeira vez em 2018, pela Câmara Metropolitana, órgão do governo estadual.
O urbanista Luiz Firmino, ex-superintendente da Câmara, defende o modelo. Ele afirma que investimentos para o tempo seco antecipam intervenções também necessárias ao “separador absoluto”, como a melhoria de estações de tratamento e instalação de bombas.
Ele diz também que os dois modelos precisam existir em conjunto para garantir saneamento à população e limpeza dos rios.
“No mundo inteiro há falha no sistema de esgoto. Não conheço nenhuma cidade no mundo que tenha sucesso no saneamento que não tenha esse mix.”
Em pesquisa recém-concluída pela Universidade de Lisboa, o urbanista comparou o tratamento de esgoto em Algarve (Portugal) e na região dos Lagos do Rio —ambos usam majoritariamente o tempo seco e têm populações semelhantes. As cidades fluminenses tiveram o triplo de chuva da região portuguesa, mas a perda de eficiência do sistema foi de 18%.
“Isso não impede o uso desse sistema no clima tropical”, avalia ele.
Firmino afirma ainda que estudo da concessionária que atua na região dos Lagos aponta queda em internações por diarreias, indicando melhorias na saúde dos moradores por causa do tempo seco.
O secretário estadual da Casa Civil, Nicola Miccione, afirma que a concessão buscou aproveitar a entrada da iniciativa privada para acelerar a melhoria ambiental da baía.
“É uma demanda histórica. Trazer saneamento sem a despoluição da baía de Guanabara logo é perder uma oportunidade de ter também o maior projeto ambiental do mundo. Seria renegar por cinco anos algo que pode acontecer agora”, afirmou ele.
Baía de Guanabara
Pescador na Baía de Guanabara, próximo ao município de Magé, região metropolitana do rio de Janeiro Gabriel Monteiro/FolhapressMAIS
O caderno de encargos da concessão é expresso ao propor “adiamento da ampliação do sistema de esgotamento sanitário (delay) de cinco anos” nos oito municípios em troca do tempo seco. Também mostra que os índices a serem cobrados das concessionárias sobre esgoto permanecem constantes nessas cidades no período.
Apesar disso, o governo afirma que não haverá espera. Segundo Riley Rodrigues, assessor especial da Casa Civil, as intervenções para o “separador absoluto” nessa área começarão já, mas só terão efeito depois.
“Até conseguir efeito, preciso de uma estrutura muito grande. Nesse período, o tempo seco funciona como medida emergencial”, diz Rodrigues.
Miccione afirma que a baía de Guanabara não está “furando a fila” dos moradores, que aguardam há décadas saneamento básico adequado.
“Para os outros locais as soluções passam por questões técnicas mais específicas. Não se trata de furar fila, mas a baía tem duas opções de solução e não só uma”, disse.
O biólogo Mário Moscatelli afirma que, com ou sem adiamento da coleta de esgoto ideal, a baía precisa de intervenções emergenciais.
“O paciente baía de Guanabara definha dia a dia. Não dá para esperar para atacar as causas e depois pensar nas consequências. Não estamos, do ponto de vista ecológico, numa posição confortável.”
O monitoramento das águas da baía feito pelo Inea (Instituto Estadual do Ambiente) mostra o passivo ambiental. Dos 19 pontos de análise em 2019 (mais recente disponível), 14 apresentaram média de nível ruim ou péssimo, e 5 foram considerados regulares. Nenhum estava bom ou ótimo.
A balneabilidade das praias da baía também evidencia a poluição. A de Botafogo, aos pés do Pão de Açúcar, esteve 99,8% dos dias imprópria para banho entre 2015 e 2019, segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica da Baía de Guanabara.
Estudo de 2014 do Instituto Trata Brasil mostra que a falta de saneamento básico é responsável por 15% das internações causadas por doenças gastrointestinais. No ano anterior, o número total de hospitalizações foi de 2.745.
A Águas do Rio —vencedora dos blocos 1 e 4— tem até abril de 2022 para apresentar um plano de investimento a ser aprovado pela agência reguladora responsável por fiscalizar o cumprimento das metas, como o tratamento de 90% do esgoto da área.
Não fazem parte desse índice as favelas consideradas não urbanizadas, que concentram 1,2 milhão de pessoas na capital, cerca de 18% da população.
Nessas áreas da capital, a Águas do Rio tem como obrigação investir R$ 1,2 bilhão em saneamento, independentemente do percentual que isso representa para o total de moradores dessas áreas — o contrato não menciona comunidades dos demais municípios.
Um dos locais priorizados é o Complexo da Maré, às margens da baía. A concessionária deverá construir um cinturão no seu entorno para coleta de tempo seco.
Problemas de saneamento no Complexo da Maré
Mesmo ao lado da estação de tratamento, Complexo da Maré lança esgoto ‘in natura’ na baía de Guanabara por falha no saneamento básico Nicollas Witzel/Folhapress
O bairro possui rede de esgoto, mas, das cinco bombas necessárias, apenas uma está funcionando e de forma precária.
Assim como Vigário Geral, o complexo de favelas fica próximo a uma ETE, a Alegria, mas não consegue enviar seu esgoto para lá, e ele acaba “in natura” na baía. A unidade funciona com apenas 28% da capacidade.
Ottoni cita a Maré como um exemplo de local onde ele considera adequada a instalação do tempo seco.
“Em áreas sem urbanização e segurança não tem como implantar o separador absoluto. É uma área de risco para fazer manutenção”, afirma o professor da Uerj.h
A diretora da ONG Redes da Maré, Eliana Sousa Silva, critica o argumento.
“O Estado, que não provê o direito à segurança pública na favela, usa essa falha como argumento para dizer que tem dificuldade de dar acesso pleno ao saneamento. Não podemos aceitar isso”, diz ela.
Foi não aceitando que moradores da Maré criaram o projeto Cocôzap, que monitora os problemas de saneamento da região. Entre maio e setembro, foram 225 registros, a maior parte relacionada ao esgoto.
“A ideia é que a participação da população ajude a problematizar essa questão na Maré e a parar de naturalizar esses problemas que para nós são normais. É mostrar que a gente está ali e que a gente importa”, afirmou Vinicius Lopes, coordenador do projeto.
Firmino afirma ainda que é preciso acompanhar de perto os investimentos a serem feitos pela concessionária.
“Esse desenho [de investimentos] tem que ser calibrado. Quem vai ditar a prioridade? Se deixar frouxo, quem dita é a economia: onde cumpre mais metas com menos esforço”, diz.
Alexandre Pessoa, da Fiocruz, vê com preocupação a capacidade do Estado de fiscalizar as metas. “Há uma série de lacunas na modelagem da concessão. Elas são riscos a médio e longo prazo.”
Miccione, no entanto, diz que haverá acompanhamento. “A despoluição da baía de Guanabara não é mais uma promessa porque ela consta em contrato.”
Veja como estão Mianmar, Chade, Mali, Guiné e Sudão, os cinco países que assistiram a militares tomarem o poder neste ano
26.dez.2021 às 17h00
SÃO PAULO
A fórmula até parece similar: militares alegam que houve fraude na eleição, que o governo civil é corrupto e ineficaz para mitigar as desigualdades sociais. Tomam, então, o poder, asfixiam liberdades civis e estabelecem um calendário fantasma de transição para a democracia. Com esse passo a passo já clássico, sete tentativas de golpe de Estado ocorreram no mundo em 2021, e cinco delas tiveram êxito.
O número é o maior das últimas duas décadas, de acordo com monitoramento dos professores Jonathan Powell e Clayton Thyne, das universidades Central da Flórida e Kentucky, respectivamente.
À Folha Powell diz que uma fusão de elementos fez de 2021 um ano mais propenso a golpes. O primeiro fator está relacionado ao cenário doméstico das nações: “A falta de legitimidade dos líderes locais leva à insatisfação popular, o que faz as Forças Armadas pensarem que um golpe seria celebrado”. A questão pode ser doméstica, mas o professor afirma que há uma crise global de legitimidade das lideranças.
O segundo fator, explica, seria a pandemia de Covid, quando a comunidade internacional se tornou menos pró-ativa para responder a golpes, já que os esforços de cada país estavam voltados para o combate da crise sanitária em seus próprios territórios.
O professor de ciência política Jonathan Phillips, da USP, faz análise semelhante. Ele diz que as tensões internas sempre têm maior peso decisivo para um golpe, mas destaca que, neste ano, as condições internacionais foram mais relevantes que o normal. “Em termos de custo-benefício, os militares pensaram que seria mais lucrativo e menos custoso fazer o golpe nessa janela de atenção internacional.”
Phillips, graduado em Oxford e pós-graduado pela Harvard, acrescenta que a maioria dos países que sofreram golpes neste ano não tinham regimes democráticos no poder, mas, sim, governos autoritários, o que também pesa na balança. Além disso, eram sociedades militarizadas, onde as Forças Armadas há muito interferiam na política.
Mianmar, Chade, Mali, Guiné e Sudão seguiram o roteiro acima descrito e viveram golpes de Estado em 2021. Confira, abaixo, como cada país está no final deste ano e quais as perspectivas.1 10
Países que passaram por golpes de Estado em 2021
Mianmar (1/2): o país do Sudeste Asiático foi palco de um golpe em 1º de fevereiro, quando os militares destituíram o governo civil eleito a 1.abr.21/Facebook via AFPMAIS
MIANMAR
A curta experiência democrática de Mianmar, que teve início em 2011, foi interrompida em 1º de fevereiro, quando o país do Sudeste Asiático estreou a lista de nações que foram palco de golpes de Estado neste ano. Naquele dia, as Forças Armadas, que não haviam deixado de ocupar espaço na política institucional, alegaram fraude nas eleições e destituíram o governo civil do poder.
O golpe ocorreu após o partido apoiado pelos militares ser derrotado nas legislativas. Lideranças foram detidas, entre elas Suu Kyi, 76, ganhadora do Nobel da Paz e principal líder civil do país. O episódio levou a uma onda de protestos sociais, violentamente reprimidos.
O saldo de mortos pelo regime chegava a 1.346 na segunda quinzena de dezembro, segundo levantamento da Associação de Assistência a Presos Políticos de Mianmar. Mais de 10 mil pessoas foram detidas, e pelo menos 75 foram condenadas à pena de morte.1 10
A esposa de Phoe Chit, uma manifestante que morreu durante uma manifestação contra o golpe militar em 3 de março, chora sobre o caixão de se 5.mar.2021/AFP/AFPMAIS
Houve, ainda, amplo movimento repressivo contra a imprensa. Cerca de 26 jornalistas foram detidos no país, segundo levantamento do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ, na sigla em inglês) —o número fez de Mianmar o segundo país que mais encarcerou profissionais da imprensa neste ano, atrás apenas da China (50).
A junta que assumiu o governo do país asiático afirmou que irá promover eleições em agosto de 2023. Os generais têm tentado, ainda que sem sucesso, alçar reconhecimento diplomático —as Nações Unidas, por exemplo, relutam em aceitar o representante designado pelos militares para a Assembleia-Geral do organismo multilateral.
Outra consequência do golpe foi o avanço, a galope, da pobreza no país. Projeções do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) mostram que metade da população de Mianmar pode estar abaixo da linha da pobreza no próximo ano.
CHADE
O Chade deu sequência neste ano à tradição de sucessões presidenciais tensas e golpes de Estado, quando o filho do ditador Idriss Déby assumiu o poder após a morte do pai, dissolvendo o Congresso e consolidando a dinastia Déby no comando do país.
Déby pai comandava o país do centro-norte africano desde um golpe de estado em 1990, que tirou do poder o ditador Hissène Habré. Em abril deste ano, ele venceu a sexta eleição consecutiva, contestada pela oposição e por grupos que lançaram uma ofensiva militar para retirá-lo do poder, após acusações de escalada autoritária.
O presidente foi para a guerra lutar contra os rebeldes e morreu no campo de batalha dias depois, em 20 de abril. Pela Constituição, quem deveria suceder o mandatário nesses casos é o chefe da Assembleia Nacional, mas não foi o que aconteceu.
O processo foi visto como um golpe, já que as regras de sucessão não foram respeitadas. Se parte do país já manifestava insatisfação com o pai, a nomeação do filho para liderar o Chade sem novas eleições inflamou protestos, que foram reprimidos de forma violenta e deixaram mortos e centenas de pessoas presas. A ofensiva dos rebeldes se manteve em campo, até ser derrotada pela junta militar em maio.
A tomada de poder foi apoiada por aliados do país como a França, da qual o Chade foi colônia até 1960. O ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Yves Le Drian, afirmou que havia “razões de segurança excepcionais que precisavam ser garantidas para estabilizar o país”.
O regime tenta dar um ar de normalidade ao país assolado por miséria e fome. Em setembro, nomeou uma nova Assembleia Nacional —que não foi eleita, mas escolhida pela junta. Dois meses depois, anistiou 296 pessoas que haviam sido acusadas durante os protestos por “crimes de opinião”, “terrorismo” e “dano à integridade do Estado”.
MALI
O Mali sofreu em 2021 um golpe dentro de um golpe. No ano passado, em meio a protestos que pediam a renúncia do então presidente Ibrahim Boubacar Keita, o mandatário foi preso e deposto, em movimento liderado pelo coronel Assimi Goïta. Bah Ndaw passou a comandar o país, em um governo de transição que deveria durar até fevereiro de 2022.
Em maio deste ano, no entanto, Goïta, que se tornou vice-presidente interino, mandou deter e depôs Ndaw, além do premiê. A justificativa foi uma remodelação do governo que excluiu dos ministérios dois oficiais que participaram ativamente do golpe em 2020. Segundo Goïta, ele não foi consultado, o que violaria a carta de transição.
Havia ainda, porém, a promessa de manter as eleições para fim de fevereiro de 2022. Mas no início de novembro os integrantes da Cedeao (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental) souberam que as autoridades malinesas não iriam cumprir o prazo.
A Cedeao, então, ameaçou com sanções, o que forçou Goïta a se comprometer com uma nova data: o coronel prometeu apresentar um novo cronograma até 31 de janeiro. Na última reunião, em 12 de dezembro, a entidade subiu o tom e reforçou a promessa de sanções a partir de 1º de janeiro caso o prazo não fosse respeitado. A União Europeia também anunciou que deve adotar medidas.
Soma-se a isso um contexto de extrema insegurança, com o norte do país tomado por ataques jihadistas. A junta no poder ameaça recorrer ao Grupo Wagner, uma organização paramilitar que atua na África Subsaariana e é suspeita de ter ligações com o presidente russo, Vladimir Putin.
GUINÉ
Quando Alpha Condé, figura de oposição aos governos autoritários que historicamente dominaram a Guiné, foi eleito, em 2010, para a Presidência do país nas primeiras eleições democráticas desde a independência —conquistada em 1958—, a população guineense viu despontar a chance de, enfim, viver sob uma democracia. Pouco mais de uma década depois, a esperança foi frustrada.
Condé, 83, foi reeleito em 2015. Em 2020, quando uma trava na Constituição o impedia de disputar o terceiro mandato, costurou uma reforma no documento. Alegando que promoveria os direitos humanos, como a proibição da circuncisão feminina, alterou a Carta Magna em março daquele ano, e conseguiu reeleger-se em outubro. A oposição alega que houve fraude no processo eleitoral.
Com os argumentos de que era preciso colocar fim ao culto das personalidades políticas na Guiné e que o governo de Condé foi incapaz de melhorar os indicadores sociais, o coronel Mamady Doumbouya, líder do Grupo de Forças Especiais, liderou um golpe de Estado no país em 5 de setembro e sequestrou o presidente, que foi liberado somente três meses depois.2 11
Uma tentativa de golpe de Estado contra o governo da Guiné provocou tiroteios perto do palácio presidencial, na capital, Conacri Cellou Binani/AFPMAIS
Doumbouya, 41, que recebeu treinamento na França e já serviu em missões no Afeganistão, autodeclarou-se presidente de transição e formou um governo com Mohamed Beavogui, ex-subsecretário-geral das Nações Unidas, como premiê. Não esclareceu, porém, qual será o calendário de retorno à ordem constitucional.
Organizações internacionais, como a União Africana e a Cedeao, aplicaram sanções ao país e o excluíram de seus processos decisórios. A Cedeao pede que eleições sejam realizadas em, no máximo, seis meses, e afirma que, caso um calendário não seja estabelecido até o final deste ano, novas sanções serão aplicadas.
SUDÃO
Foi há três anos, em dezembro de 2018, que os sudaneses começaram a sair às ruas para protestar contra as condições de vida sob o regime de Omar al-Bashir, que estava no poder havia três décadas. Ao longo dos meses seguintes, os manifestantes conseguiram derrubar o ditador e arrancar das Forças Armadas o compromisso de que iriam entregar em breve o poder para um governo civil escolhido por meio do voto. O Sudão caminhava, enfim, em direção à democracia.
Tudo mudou em 25 de outubro deste ano, quando tropas lideradas pelo general Abdel Fattah al-Burhan deram um golpe de Estado e prenderam os integrantes civis do governo de transição. Os militares decretaram estado de emergência e bloquearam as telecomunicações. Segundo a versão dos golpistas, o movimento visava impedir a eclosão de uma guerra civil no país do Norte da África.
Manifestante sudanês coberto com a bandeira nacional ao lado de pneus em chamas durante uma manifestação na capital, Cartum; pessoas saíram 25.out.21/AFPMAIS
Mesmo diante da repressão brutal das forças de segurança, que já deixou ao menos 40 mortos, multidões têm participado em marchas recorrentes para exigir a saída dos militares. Sob pressão, as Forças Armadas libertaram e restituíram Abdallah Hamdok, o premiê civil deposto no golpe de Estado —o acordo foi celebrado pela comunidade internacional, mas segue sendo rejeitado pelas ruas do país.
Para Samahir Elmubarak, porta-voz da Associação de Profissionais Sudaneses (SPA, na sigla em inglês), principal grupo à frente dos protestos, a população não aceita mais o antigo esquema de partilha de poder com os militares. “O povo sudanês deixou claro ao longo desta revolução que queremos viver em uma democracia”, diz ela à Folha desde Cartum. “As Forças Armadas buscam dar um verniz de legitimidade ao golpe. Se este regime for aceito, golpistas em outros países se sentirão encorajados a tomar o poder por saber que não sofrerão consequências”.